Episódios de O Assunto

O eleitor independente: quem é e o que pensa

29 de setembro de 202628min
0:00 / 28:04
Convidados: Ana Flor, comentarista da GloboNews; e Eduardo Sincofsky, psicólogo, diretor do projeto Plaza Pública e autor do livro “A Polarização no Divã”. Há uma parcela do eleitorado que não está fidelizada a nenhum campo político, candidato ou partido. O instituto de pesquisa Quaest estima que cerca de um terço dos eleitores pode mudar de lado de uma eleição para outra. É um perfil menos ideológico e mais pragmático na tomada de decisão diante da urna – e que se abstém muito mais do que a média geral dos eleitores. As pesquisas indicam que a corrida presidencial está afunilada em dois candidatos mais competitivos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), mas os votos daqueles que não se identificam como de esquerda ou direita serão decisivos – e ainda mais os dos eleitores que ainda não definiram seus votos. Neste episódio, Natuza Nery recebe dois convidados. Primeiro, ela conversa com a jornalista Ana Flor, que passou dois meses percorrendo o país para conhecer de perto quem é este eleitor chamado de independente. Depois, Natuza entrevista Eduardo Sincofsky, que vem conduzindo pesquisas políticas qualitativas para entender o que pensam os eleitores indecisos.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
A

Ana Flor

ComentaristaComentarista da GloboNews
E

Eduardo Sincofsky

EntrevistadoPsicólogo
Assuntos6
  • O perfil do eleitor independente e sua importância nas eleiçõeseleitorado não fidelizado a partidos·parcela de eleitores pêndulo·menos ideológico e mais pragmático·mulheres de baixa renda nas periferias
  • A ojeriza do eleitor independente à polarização política atualtraumas causados por brigas familiares·jovens desinteressados pela política·desilusão com a política·políticos só pensam neles
  • As preocupações e expectativas do eleitor independente para o próximo governocusto de vida e endividamento·política de segurança·políticos que olhem para a população·insatisfação com a falta de dinheiro
  • A angústia do eleitor independente em escolher o 'menos ruim'looping infinito entre Lula e Bolsonaro·falta de opção proposicional·decisão pública terceirizada·dano limitado versus dano ilimitado
  • O impacto da abstenção e a decisão de voto na última horaabstenção concentrada nos independentes·desengajamento dos jovens·dificuldade de escolha·propostas pesam na hora do voto
  • A evolução das pautas que influenciam o voto independente ao longo das eleiçõesanticorrupção em 2018·gestão da pandemia em 2022·rejeição à política de armamento·corrupção volta a ser preocupação
Transcrição57 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
ESEduardo Sincofsky

Num oferecimento de ElevenLabs, agentes de inteligência artificial atendendo o seu cliente 24 horas. Acesse elevenlabs.io.

NNNatuza Nery

Faltam 5 dias para o primeiro turno da eleição presidencial brasileira de 2026, e a essa altura do campeonato ainda há um eleitor que não se empolga nem com Lula nem com Flávio Bolsonaro, e principalmente não quer mais brigar por causa de política.

AFAna Flor

Aqueles que não votam sempre do mesmo jeito, admitem mudar de ideia de uma eleição para outra e, por essa razão, são especialmente cobiçados em disputas pegadas, que segundo a classificação da Quest é a morada dos independentes, chamados assim pelo instituto porque não estão fidelizados nem pelo campo da esquerda nem pelo campo da direita. A Quest estima em cerca de 32% o tamanho dessa parcela do eleitorado. Mas o próprio instituto alerta: isso não significa que tenha tudo isso de eleitor pêndulo.

NNNatuza Nery

E há um detalhe importante: a estimativa é que só 10% dos eleitores desse grupo compareçam às urnas este ano. É um eleitor menos ideológico, mais pragmático, e que olha para o que acontece dentro da sua própria casa: o preço da comida, a segurança pública, a saúde, a escola dos filhos, o endividamento. A maioria é formada por mulheres de baixa renda concentradas nas periferias e regiões metropolitanas, sobretudo no Sudeste. Há forte presença de trabalhadoras e trabalhadores autônomos e informais: motoristas, entregadoras e entregadores de aplicativo, profissionais da beleza, pequenas empreendedoras.

Gente que valoriza autonomia, mas que também precisa de crédito, menos burocracia e serviços públicos que funcionem.

AFAna Flor

E se tamanho é documento na geografia do voto, vamos começar pela capital paulista, que em número de eleitores, mais de 9 milhões, só perde para 4 estados brasileiros. Para entender o peso da cidade no resultado nacional, a gente lembra que no segundo turno de 2022, Lula teve quase 500 mil votos mais do que Bolsonaro aqui. Ou seja, a capital paulista respondeu sozinha por quase um quarto da vantagem nacional de Lula.

NNNatuza Nery

E é justamente aí que essa eleitora, que esse eleitor ganha importância. Diante de uma eleição polarizada entre dois campos políticos, pequenas ondulações de voto podem ter efeito grande no resultado final. Eu ainda não tenho candidato, eu quero ver proposta, sabe? Eu quero ver, né, o que eles nos trazem.

AFAna Flor

Então temos ali uma indecisa, mas vai votar?

AFAna Flor

Vou votar.

AFAna Flor

E o que que vai motivar esse voto? O que que vocês acham que é o decisivo.

NNNatuza Nery

Em primeiro lugar, saúde, e em segundo, a educação. A 5 dias da votação, portanto, a bola não está sequer neste campo e não aparece em nenhum dos dois lados. Está no banco, nas mãos de quem ainda não escolheu qual camisa vestir. Um eleitor ou uma eleitora que pode mudar o jogo ou simplesmente não entrar em campo no dia 4 de outubro. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: quem é e o que pensa o chamado eleitorado independente?

Neste episódio, eu converso com Ana Flor, jornalista e comentarista da GloboNews, e com Eduardo Sinkowski, psicólogo com mais de 30 anos de experiência em pesquisa qualitativa política e diretor do Projeto Plaza Pública. Terça-feira, 29 de setembro. Ana, você passou os últimos 2 meses percorrendo o Brasil em busca de decifrar quem é essa eleitora, esse eleitor independente, né? O termo eleitor independente, o eleitor independente, vem sendo usado pela Quest para falar de um eleitorado que não está nem ideologicamente nem emocionalmente ligado a nenhum dos 2 candidatos que que lideram a disputa, né, Lula e Flávio Bolsonaro. Nas tuas andanças pelo país, o que que você descobriu?

AFAna Flor

Natuza, prazer estar aqui com você. Bom, a gente sabia já de saída que esse eleitor independente, pela Quest, não era nem preso ou amarrado à direita nem à esquerda. O que a gente descobriu a partir das reportagens é, na verdade, quase uma ojeriza a essa polarização, essa calcificação. Os eleitores independentes hoje estão muito reativos porque viram o desastre em muitas vidas, muitos nas vidas deles, dessa polarização. Então a gente entrevistou, por exemplo, uma eleitora evangélica em Manaus que quase destruiu a família a partir das posições muito rígidas, polarizadas, e ao longo dos últimos 4 anos reverteu isso.

A gente falou com pessoas em outros estados, ou mesmo jovem, por exemplo, um jovem que viu colegas que não tiraram título de eleitor, que já poderiam tirar porque tem 16 anos, mas que são traumatizados com as brigas da família a partir da polarização. Você acha que os jovens não estão tão interessados em política porque não se sentem atendidos pelas propostas dos políticos?

AFAna Flor

É, não se sente atendido, mas também não se sente confortável também, por causa dos traumas, muito mais por causa dos traumas do que pelas propostas políticas, né?

AFAna Flor

Quando você fala trauma, essa divisão dentro da família, direita, esquerda, brigas.

AFAna Flor

É esse conflito. E eu acho que esse é o principal resultante do porquê ter tanto jovem que nem tirou o título de eleitor.

AFAna Flor

Então essa é uma parte muito importante desse eleitor. E mais além disso, é um eleitor que quer olhar propostas. Que vamos lembrar, o eleitor independente ajudou a eleger Jair Bolsonaro em 2018, muito na onda do antissistema, anticorrupção. Ajudou a eleger Lula em 2022 por conta da gestão da pandemia, as mulheres rejeitando a política de armamento do governo Bolsonaro. E agora eles têm outras preocupações, sempre pragmáticas e ligadas à vida deles.

NNNatuza Nery

E o que que eles esperam do próximo presidente da República? Eles dão pistas disso?

AFAna Flor

Eles olham muito para a questão econômica, mas custo de vida. Eles gostariam de ter uma vida com bolso mais folgado, menos dívidas. Isso a gente ouve praticamente de todos. Eles acham que o Estado os protege pouco e suas famílias, então falam muito da política política de segurança. E eles esperam políticos que olhem mais para a população. A gente também ouviu muito que os políticos só pensam neles, tem disputas de poder, e a população vai ficando ao largo disso.

Então a expectativa deles é que a política traga uma resposta também para a vida do eleitor, não só ficar nessa briga que eles chamam que é uma briga de poder. A gente tá aqui porque a gente tá fazendo essa reportagem sobre o eleitor independente, que não tem lado político nem Eu queria saber como você tá vendo.

ESEduardo Sincofsky

Eu tô vendo um eleitor confuso, né, porque ele tem visto muita vaidade de ambos os lados. O eleitor hoje não sabe o que é a esquerda, o que é a direita. Ele muda muito porque os políticos também mudam as suas atitudes, seus ideais. Eu vejo um eleitor sem ideologia, com a direção muito confusa.

NNNatuza Nery

Acho que vale a pena, para emoldurar nossa conversa, Ana, você nos explicar qual é o peso desses votos na eleição agora do domingo, no G4?

AFAna Flor

Pois é, se a gente olhar, o eleitor independente é considerado ali entre 30 e 33% dos eleitores gerais. Em alguns estados, como Rio de Janeiro, chega a 36%. Então é uma parcela expressiva, especialmente se a gente pensar que os dois extremos, direita bolsonarista e direita não bolsonarista, esquerda lulista, esquerda não lulista, são muito amalgamados em termos de voto. Então você tem nesse eleitor independente aquela mínima gordura que pode definir eleição.

Agora, os 20% de abstenção que o Brasil teve na última eleição, foi até um pouco mais de 20%, está dentro do eleitor independente. Então, na prática, você tem 10% do eleitorado que é independente e que pode definir o resultado dessa eleição.

AFAna Flor

É também nos independentes que se concentra boa parte da abstenção, gente que no final não comparece para votar. Outra conclusão de quem estuda a geografia do voto no Brasil: a maior concentração de eleitores pêndulo está nas grandes capitais, incluindo as regiões metropolitanas.

AFAna Flor

Então eu percebi muita apatia. Não é desengajamento, é mais uma desilusão com a política. Por isso muitos dos eleitores não optam por nem ir votar. E percebi também esse interesse, né? Quer dizer, é um eleitor que demora mais para definir seu voto, não porque ele tá desligado do processo eleitoral, mas porque ele quer escolher o seu candidato com muito cuidado e de acordo com propostas.

NNNatuza Nery

E Ana, e como é que essas pessoas votaram nas eleições de 2018 e de 2022 citadas por você?

AFAna Flor

Então, em 2018 havia um movimento muito forte não só antissistema, mas anticorrupção, um cansaço com a corrupção. Isso ajudou a trazer Jair Bolsonaro à presidência, né? Apesar dele ser um político tradicional também, deputado há muitos anos, ele conseguiu abraçar e ser visto como antissistema. Isso deu a vitória para ele, com muitos desses eleitores independentes. Em 2022 tinha um ar de mudança, um cansaço pós-pandemia, as pessoas tinham ficado muito traumatizadas.

Esse eleitor independente até hoje demonstra isso com a gestão da pandemia, o negacionismo, e isso realmente ajudou a eleição de Lula, né, o atual presidente Lula. E teve um impacto muito interessante porque as mulheres demoram para decidir, são grande parte dos independentes são mulheres de baixa renda, muito afetadas pela violência nas grandes cidades e regiões metropolitanas, e elas rejeitaram muito essa política de armar a população.

Isso, por incrível que pareça, apesar de ser um ponto específico, mas deu muitos votos a Lula em 2022.

AFAna Flor

Como que a política chegou aqui para as mulheres? Não chegou, porque as mulheres, ela enfrenta só todas as barreiras. Então cadê a estrutura para aquela mulher? Brigam entre eles e nós e as famílias carentes.

AFAna Flor

Então, quer dizer, quando as pessoas ficam falando em briga ideológica, direita-esquerda, esquerda-direita, para vocês, na verdade, o que isso significa?

AFAna Flor

Para mim não significa nada. É por isso que eu falo, é briga de poder, né?

NNNatuza Nery

Esquerda, direita e nós.

AFAna Flor

É por isso que eu falo, é briga entre eles.

AFAna Flor

Então esse eleitor, ele sabe o que tá acontecendo. Se hoje quando a gente ouve, ele sabe dos Estados Unidos, ele sabe de tentativa de interferência do governo Trump no Brasil, interesses, e ele tá olhando para tudo isso e tomando as suas decisões. Mas pesa muito hoje uma insatisfação com a vida, com a falta de dinheiro, endividamento, endividamento inclusive muitas vezes do jogo, né, das bets que a gente chama, mas também no cartão de crédito.

E tudo isso tá pesando hoje, por isso que a gente tá vendo mais uma vez um processo eleitoral eleitoral, segundo as pesquisas, muito apertado.

NNNatuza Nery

E no caso de corrupção, que foi importante essa pauta em 2018 para esses eleitores, né, que hoje são chamados de independentes, essa pauta ficou para trás para essas pessoas? Ana, você ouviu menção à corrupção?

AFAna Flor

A corrupção veio num crescente ao longo, eu diria, das últimas semanas ou meses. Então, no início, a gente até ouvia pouco, mas cresceu muito. Agora, no final, a gente ouvia muito as pessoas falando dos políticos que pensam neles, que estão envolvidos em casos de corrupção, como é difícil saber em quem acreditar. E a pesquisa mostrou isso, a Quest também mostrou que nos últimos, nas últimas semanas, passou, a corrupção passou a ser a terceira preocupação do eleitor independente.

Então tem violência, que na verdade é a grande preocupação dos brasileiros e também dos independentes. Depois o custo de vida, eu chamo de custo de vida, né, porque não é exatamente economia, os números da economia não tão ruins, mas para as pessoas o custo de vida tá muito pesado. Em terceiro é corrupção pesou e começou a crescer bastante por conta do caso Masters, mas também INSS. Enfim, todos esses casos de corrupção foram lidos como uma preocupação desse eleitor com a corrupção na política de volta.

NNNatuza Nery

E de acordo com o que te contaram, que esses personagens te disseram, o que esperar do voto deles neste domingo? Eles vão decidir, por exemplo, na última hora? O que que vai pesar no cantinho ali solitário da urna eletrônica?

AFAna Flor

Então, uma força ainda de abstenção bastante grande, porque muita gente dizia, ah, eu ia lá e votava nulo, em branco. Hoje, muitos desses eleitores que optavam pelo nulo ou pelo voto em branco nem vão mais votar. É um desengajamento muito grande. Os jovens, então, estão muito desengajados. Então, a abstenção pode continuar alta e ela representa a forma como esse eleitor independente está olhando para o processo político do país.

AFAna Flor

Eles entendessem, na verdade, a importância do trabalho deles, em vez de ficar brigando entre si, discutindo quem vai para onde, quem faz não sei o quê, que não sei o quê. Eles têm que se unir, em vez de ser esquerda e direita, se unir por um Brasil só. Nesses momentos de decisões que a gente tá decidindo, na verdade a gente tá decidindo o futuro do país, né? Então isso dá uma certa ansiedade, um certo medo mesmo.

AFAna Flor

Você já se arrependeu de algum voto?

AFAna Flor

Já.

NNNatuza Nery

Muito.

AFAna Flor

É bem angustiante, na verdade.

AFAna Flor

E a gente pode ter surpresa porque entre eles dificuldade de escolha é maior, né? Eles estão mais indecisos mesmo. E esse eleitor tende a olhar para as propostas. A gente tá vendo chover propostas aí nos últimos dias. Isso tudo vai pesar na hora do voto. A gente sabe que alguns eleitores decidem na véspera ou mesmo no dia da eleição. Então a gente pode ter mudanças aí bem grandes das pesquisas, né, mostrando especialmente o voto desse eleitor aí nos próximos dias.

NNNatuza Nery

Minha amiga Ana Flor, vou te pedir um serviço. Como é que os assunters assistem a sua série de reportagens com os eleitores não polarizados ou que detestam polarização?

AFAna Flor

Essa série chamada Independente está indo ao ar por volta de meio-dia nas manhãs no Conexão da GloboNews, de segunda-feira até quinta-feira. São 4 episódios e também vai estar disponível disponível no Globoplay e no YouTube da GloboNews. Eu recomendo, são episódios que a gente mergulha na vida das pessoas e como elas estão se relacionando hoje com a política.

NNNatuza Nery

Ana Flor, um beijo para você, parabéns pelo trabalho mais uma vez e obrigada por ter topado falar um pouquinho dele aqui com a gente.

AFAna Flor

Obrigada por me receber, um beijo grande e continuamos aqui trabalhando juntas.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Eduardo Sinkowski. Eduardo, quando a gente fala em eleitores não polarizados, a gente tá falando exatamente de quem? A gente tá falando de eleitores e eleitoras indecisos? A gente tá falando de eleitores de centro? Quem são afinal esses eleitores?

ESEduardo Sincofsky

Matuza, esses eleitores se autodeclaram independentes, mas a gente vê que basicamente estão cansados da polarização. São eleitores que de algum modo, estes 8 anos que o país vive de polarização tóxica, daquelas rusgas contínuas, cansaram eles. Eles sentem que a polarização não resolve a vida deles e que não é através deles que vão conseguir uma melhoria na vida. Embora eu até falo no meu livro que eles não vendem um repolho, não é que eles votaram em alguém no passado, certo? Então não é que eles estão neutros, estão amorfos.

AFAna Flor

Bom, eu já votei na direita, eu já votei esquerda, eu quero encontrar o bom, assim, ter bom senso, mas me falta opção, me falta crer, acreditar. A gente se desilude porque chega sempre alguém prometendo: vou fazer, vou fazer, vou fazer. Não acontece nada e a gente fica, eu mesmo, eu tô super indecisa.

ESEduardo Sincofsky

De algum modo eles carregam emoções e histórias partidárias, mas hoje em dia estão, por assim dizer, fartos ou cansados da polarização e não encontram no mercado uma opção que dê espaço a isso que eles pensam ou sentem.

NNNatuza Nery

Você conduziu pesquisas recentes com esse eleitorado não polarizado ou que se declara independente. O que que você ouviu para além do que você já me disse dessas pessoas, o que ainda pode ser capaz de fazê-las ou fazê-los decidir até domingo por um ou por outro candidato?

ESEduardo Sincofsky

O que eu escuto, Natuza, é que eles dizem: estamos em um pingue-pongue que vai de um lado para outro, estamos num looping infinito entre Lula e Bolsonaro, a família Bolsonaro. Então, de algum modo, eles estão querendo escutar alguém que pare de brigar entre eles ou que parem de jogar este escândalos e parem de pôr o dedo na ferida sobre diversas questões e proponha alguma solução aos problemas do dia a dia. É difícil porque mesmo quando eles começam a ser colocados frente a um espelho, eles voltam a refletir sobre os escândalos.

Então a gente vê uma falta de alguma opção proposicional, alguma falta de alguma âncora que diga: olha, este candidato me está oferecendo esta opção E eu concordo, e eu acho que isso é bom para o país. Isso que está faltando. Não existe quase, diria, emoção cívica de dizer, este candidato nos ilude, este candidato nos ilude no bom sentido, nos gera ilusão, nos gera o sentimento de que existe esperança. E esse é um pouco o cerne principal.

O que que pode ser feito é de difícil resposta, mas eu acredito que eles vão se resolver entre o final de semana ou no mesmo dia. Eles ficam o tempo todo numa fricção na tuça de ter que escolher alguém que eles não querem, de ter que escolher, como eles falam, o menos ruim. E isso gera um desconforto, isso não é vivido com alegria, com entusiasmo.

NNNatuza Nery

Interessante o que você diz, que esse eleitorado ele vai deixar para última hora porque ele não tá muito animado com nenhum dos dois candidatos que chegam como líderes, né, nessas pesquisas de intenção de voto. Agora, o que que mobiliza esse voto de última hora? Que temas, melhor dizendo, costumam mobilizar? Ou pelo menos, o que eles te dizem que vão mobilizá-los e mobilizá-las na hora de decidir o voto?

ESEduardo Sincofsky

Olha, eles não conseguem identificar um tema, dizer, eu vou decidir porque Lula vetou as bets, ou eu vou decidir por um motivo X ou Y. Justamente isso não consegue ser enunciado e colocado em palavras na O que eu enxergo é que eles estão expectantes do debate eventualmente da quinta-feira. Não fica claro quais candidatos vão participar e como vai ser a dinâmica desse debate, e se esse debate vai jogar alguma, alguma pista, alguma dica para eles no sentido que estão esperando, ou se vai oferecer mais brigas de mais do mesmo, certo?

Porque o que eles dizem é, é como que os caras tivessem nas vísceras dos cavalos, que não nos permite olharmos que só olham para eles mesmos. Então eles estão esperando que alguém olhe para eles, certo? O que eu identifico é, em essa dinâmica do menos ruim, como se resolve. Porque se temos um menos ruim, eu digo, ok, ele disse, não, gostaria que tivesse outro. Então no primeiro turno eles tentam se resolver com alguma das opções que existem no mercado eleitoral, ou votam na Cury por motivos diversos, ou vão com Callado, vão com Renan, e por aí vai.

Agora quando Ok, vamos supor que estamos no segundo turno, que sabemos que é uma questão hipotética porque ainda não estamos, certo? Vamos supor que estamos e temos estes dois candidatos. Em qual deles votaria? Pô, Edu, é uma situação difícil, me angustia, preferiria não votar. Eu vejo uma parcela na Tusa que terceiriza a decisão pública, diz: olha, não vou ir a votar, não quero ser cúmplice dessa decisão e de algum modo vou deixar para outros decidirem por mim.

Então eu vejo uma classe média, indecisos de classe média, média alta, vota com bastante desapego, por exercer, este, o ato de ir a votar. Mas essa ideia me parece algo próximo a um ponto cego, certo? Viu uma ideia que não conseguimos enxergar, o menos ruim, e aí tenho que votar em algum dos dois. Então esse ponto cego se resolve de forma diversa conforme o campo, certo? Eles dizem o ponto cego para Lula ou a favor de Lula, isso, ok, Lula tem foco nos mais necessitados, muitos deles criticam, Natuza, que só tem foco nos mais necessitados.

E muitos dizem isso não com críticas, dizem, pô, já tá bem tudo aquilo que se denominaria o social, tá bem isso. No entanto, faltaria que o governo nos diga algo além disso: como vamos crescer, qual vai ser o futuro, qual que é a relação que temos com o mundo tecnológico, da inovação, e por aí vai. Então, o foco necessitado acaba colocando a balança a favor. Vale a pena então votar a Lula, porque mesmo com as críticas que temos, ele Dili, pero al menos se ocupa de esa parcela de población que está precisando ayuda.

Por otro lado, existe un poco un dilema que se resuelve a favor de Lula diciendo: el daño eventual de un gobierno Bolsonaro es ilimitado, ¿cierto? Porque potencialmente es sistémico, porque es imprevisible eventualmente un daño que un gobierno de Flávio Bolsonaro iría a tener. En cuanto a do governo atual é conhecido e está mais limitado à economia. O que eu vejo é uma sensação de tristeza econômica, desencanto com a economia, com uma economia que não gira tudo bom que eles gostariam, ou tudo bom que o tamanho da promessa— promessa como pacto simbólico, Natuza— o tamanho da promessa o Lula 3 tinha, certo?

Então, entre o dano limitado de uma promessa fraca versus o dano ilimitado, fico com o dano conhecido y limitado. O también a questão de entender que Flávio é muito despreparado, que é um novato despreparado versus um veterano que é ruim, que seria Lula, uma pessoa que está mais próxima do presente, que pouco nos pode dizer sobre o futuro. Aí uma crítica muito clara sobre Lula: quanto enuncia um sonho de futuro, certo? Quarto seria que a família Bolsonaro eventualmente não poderia governar mais, o que é chique acorda de uma polarização tóxica na Tusa que muitos destes indecisos queremos deixar para trás, que acreditam que esse tempo da radicalização, de dizer vamos virar Venezuela, lembra como alguns mantras do passado, hoje em dia não correm, certo?

Então esses seriam eventualmente os temas que eu digo. Mas de novo, me parece que a discussão não é netamente argumentar, a discussão é como tocamos mais fibra que faça esse puxa. Temos que ir por aqui, para um lado. Por outro lado, por um lado do campo conservador, o que eu vejo é que O ponto cego pro Flávio se resolve com uma equação meio rara de menos juros, ou acreditar que num governo de Flávio teriam menos juros, que seria mais próximo à família.

Eu escuto muitas críticas que o PT não é próximo à família, que defende certos setores minoritários, que de algum modo não tem um discurso mais próximo deste coletivo, e à busca de segurança, que eventualmente não fecha 100% esta equação, mas que muitos repetem como uma una salida para ese lado. Y los otros dos puntos es que repetir un fracaso de Lula, o mantener lo que ya tenemos, no vale la pena, tenemos que mudar. Y por descarte, cuasi que digamos por defecto, Flávio fica do lado da ruptura, da mudança.

Então, já sabemos que temos, vamos procurar algo melhor. Quando eu pergunto o que seria algo melhor, o que Flávio te proporciona como ideia, como emoção, não conseguem dizer. Basicamente estão pendurados em uma ideia possível que Flávio vai vender, uma ideia de futuro que fica bastante efêmera, que não fica cristalizada em nada em concreto. Já com 4 anos após a pandemia, creio que existe um consenso no debate nacional, uma tusa, que Bolsonaro perde, Jair Bolsonaro perde as eleições de 2022 pela pandemia, tanto pelo conteúdo quanto pelo tom, tom de voz e tudo aquilo que já conhecemos.

Então muitos, muitos entrevistados me dizem: poxa, Edu, o Bolsonaro perde pela pandemia E perde por aquilo que falou, que falou coisas que não tinha nada a ver, ele se perde pela boca e tal. Então poderíamos dar a chance a alguém que eventualmente não repita essas questões da pandemia. Mas são equações mentais, são como decisões que estão na cabeça que não ficam muito claras. E eu vejo muitos indecisos na TUSAT, mais do que, não digo mais do que as pesquisas, porque meu projeto é qualitativo, mas eu vejo mesmo naqueles que já sabem em quem vão votar em segundo turno, que também estão acreditando, certo? Então eu vejo um campo de bastante discussão ainda dando-se no país.

NNNatuza Nery

Agora, Eduardo, para finalizar, você mencionou em dado momento da sua resposta o debate, né? Na quinta-feira haverá o debate da TV Globo com os presidenciáveis. Para uma parcela desses eleitores e eleitoras que estão ainda sem ter decidido o seu voto, qual é o impacto da ausência no debate e o que isso poderia acarretar, né? Porque a gente tá gravando o assunto sem saber ainda se o presidente Lula confirmou ou não a ida. Eu queria ouvir você, como é que isso pode impactar o campo independente, digamos assim?

ESEduardo Sincofsky

O campo independente gostaria de escutar, mas existem, diria, poucas esperanças que o debate venha a ser propositivo. O que ele gostaria, no mundo encantado, Natuza, é que o presidente vá que o Flávio também vai, e que entre os dois exista um debate sobre o futuro do país, quais são as propostas que vão melhorar a vida deles, e por aí vai. E não existe essa crença ingênua que isso vai acontecer, o que eles acreditam é que se acontecer o debate vai haver mais briga e mais do mesmo.

No entanto, o saldo seria a favor de que gostariam de escutar, gostariam de ver se tem alguma pista adicional que ajude a eles a tomar essa decisão.

NNNatuza Nery

Eduardo, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Foi muito bom te ouvir, clareou bastante coisa aqui para nós.

ESEduardo Sincofsky

Obrigada para vocês, um prazer e à disposição quando quiserem conversar mais no futuro.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaborou neste episódio Viviane Mateus. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

Anunciantes1

ElevenLabs

Agentes de inteligência artificial
external
O eleitor independente: quem é e o que pensa | Castnews Index — Castnews Index