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ESPECIAL ELEIÇÕES: o rumo da economia brasileira depois das urnas

28 de setembro de 202638min
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Convidado: Léo Arcoverde, repórter especial e comentarista da GloboNews. O IBGE informou que a inflação oficial do país registrou queda de 0,32% nos preços no mês de agosto. Já a pesquisa Quaest mais recente mostra que 2 em cada 3 eleitores afirmam que os preços no mercado subiram ao longo deste mesmo mês. Números como estes mostram parte das contradições da economia brasileira. Por um lado: o país vem crescendo ano a ano em ritmo mais forte do que apontam os analistas de mercado; a renda do trabalhador chegou a nível recorde e o desemprego está na mínima histórica; e a inflação está dentro do teto da meta. Por outro: a dívida pública rompeu o patamar dos R$ 10 trilhões e custa mais de 82% do PIB; o endividamento aflige 82% das famílias brasileiras, índice recorde; e o país ostenta hoje o maior juro real do mundo. Neste episódio, Natuza Nery recebe o jornalista Léo Arcoverde para explicar os principais aspectos da economia brasileira. Ele também apresenta o que os candidatos à Presidência propõem para enfrentar a dívida pública, os juros altos e o endividamento privado. Também neste episódio você ouvirá trechos das entrevistas que o produtor Carlos Catelan conduziu com os economistas Armínio Fraga, André Roncaglia, Carla Beni, Felipe Salto, Marcos Mendes e Monica de Bolle.
Participantes neste episódio8
N

Natuza Nery

HostJornalista
A

André Roncaglia

EntrevistadoDiretor executivo do Brasil no FMI, professor da UnB e pesquisador associado ao Ibre
A

Armínio Fraga

EntrevistadoEconomista
C

Carla Beni

EntrevistadoProfessora da FGV e conselheira do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo
F

Felipe Salto

EntrevistadoEconomista-chefe
L

Léo Arcoverde

ComentaristaRepórter especial e comentarista da GloboNews
M

Marcos Mendes

EntrevistadoPesquisador associado do Insper
M

Monica de Bolle

EntrevistadoPesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics
Assuntos4
  • A dívida pública brasileira e as propostas dos candidatos para resolvê-ladívida pública de 82% do PIB·Lula e a responsabilidade fiscal·Flávio Bolsonaro e o tesouraço·corte de despesas e aumento de receita
  • O papel das emendas parlamentares no orçamento e a perda de poder do Executivoorçamento secreto e críticas·Congresso avança sobre o orçamento·R$39 bilhões em emendas parlamentares·engessamento do orçamento discricionário
  • O endividamento das famílias brasileiras e a baixa produtividade do trabalhoprogramas Desenrola e seu efeito·desemprego em mínimas históricas·salários baixos e baixa produtividade·crédito predatório e regulação
  • A alta taxa de juros no Brasil e o impacto na economiaSelic em 13,75% ao ano·reforma tributária e previsibilidade·Banco Central amarrado pela política fiscal·juro real entre os maiores do mundo
Transcrição65 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

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LALéo Arcoverde

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NNNatuza Nery

Eu vou apresentar para você dois dados recentes. O primeiro é este aqui: o IBGE informou que no mês de agosto houve deflação, ou seja, na média os preços caíram 0,32%. O segundo vem agora. A pesquisa Quest da última segunda-feira mostrou que para 2 em cada 3 eleitores os preços subiram neste mesmo mês de agosto. Esse é um exemplo claríssimo das contradições da economia brasileira. O país vem ano a ano crescendo em ritmo mais forte do que apontavam analistas, a renda do trabalhador chegou a um patamar recorde e o desemprego está na mínima histórica.

E tudo isso com a inflação dentro do teto da meta. Por outro lado, a dívida pública brasileira rompeu o patamar dos R$10 trilhões e passou de 82% do PIB. O endividamento aflige 82% das famílias brasileiras e o país ainda ostenta o maior juro real do mundo. E aí vem a pergunta: o que fazer para manter o país em crescimento e equilibrar o endividamento público e o privado? Para responder a essas e a outras perguntas, Vamos apresentar e explicar neste episódio as ideias e propostas dos candidatos à presidência da República.

Afinal de contas, esses são os candidatos que você verá nas urnas para decidir seu voto no próximo domingo. Este é o 6º e último episódio de uma série sobre alguns dos temas mais relevantes desta eleição. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto especial de eleições hoje é: Um Brasil para 2027: o rumo da economia brasileira depois das urnas. Neste episódio, eu converso com Léo Arcoverde, comentarista da GloboNews. Você também vai ouvir comentários de especialistas que conversaram com o nosso produtor Carlos Catellan.

São eles: Armínio Fraga, André Roncallia, Carla Bene, Felipe Salto, Marcos Mendes, Mônica De Bolle. Segunda-feira, 28 de setembro. Léo, eu quero começar nossa conversa olhando para aquele que é apontado como o maior problema da economia brasileira: o tamanho da nossa dívida pública. E aqui alguns fatos para gente. Para cada R$100 que a economia brasileira produz, há uma dívida de quase R$82 que precisa ser paga. Ou seja, de dinheiro livre sobra muito pouco.

E aí, em termos técnicos, a gente pode dizer que a dívida pública já ultrapassa os 80% do Produto Interno Bruto. Então é uma mochila carregada demais, é uma mala sem alça muito pesada para qualquer governo carregar. Diante dessa situação, como é que os principais candidatos estão dizendo que vão resolver esse problema, Léo? O que que dizem os seus planos de governo?

LALéo Arcoverde

Bem, Natuza, os principais candidatos, e aqui a gente tá falando de Lula e Flávio Bolsonaro, eles se jogam muito mais no campo dos desejos do que da matemática, tá? No caso de Lula, ele fala que a responsabilidade fiscal ele sempre teve, ele falando de, claro, dos dois primeiros mandatos, porque neste terceiro mandato de Lula já pegou um histórico que começa no Brasil em 2014 de fazer déficits fiscais. Isso aqui é o quê? Gastar mais que arrecada.

O programa do candidato Lula fala em o crescimento econômico é o que levará a questão do ajuste, a questão da estabilidade das contas públicas. Então ele não diz exatamente como é que ele vai fazer, vai cortar gasto, vai aumentar imposto, não disse como chegará a essa conta que pelo menos poderia ser de zero e não como é hoje negativa. Já o caso candidato do PL, Flávio Bolsonaro, fala tesouraço, que ele dá uma palavra no programa dele.

Só que o tesouraço, não só no programa, mas quando a gente ouve entrevistas que o Flávio já deu ao longo dessa campanha, ou até mesmo uma das principais assessoras dele nessa área, que é a Daniela Marques, eles não dizem até onde a ponta dessa tesoura vai cortar. Então eles não falam, olha, um tesouraço que vai levar ao ajuste, mas um ajuste de quanto? De R$50 bilhões no primeiro ano, de R$100 bilhões no segundo ano?

?Voz E

A Daniela Marques, ela já vinha atuando informalmente ali em algumas ajudas, algumas pontes de Flávio Bolsonaro com o mundo econômico. Ela Ela que é muito ligada a Paulo Guedes, foi sócia dele no governo Jair Bolsonaro, chegou no Ministério da Economia como assessora direta e disse que a ideia é mostrar uma continuidade, de certa maneira, entre o que Jair Bolsonaro fez na economia, na gestão Paulo Guedes.

LALéo Arcoverde

A Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento em Redução de burocracia e impostos.

?Voz A

Com anúncio feito pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, o INDEC, que seria equivalente no Brasil ao IBGE, que sustenta que a proporção de pobres, que era de 28,2% no segundo semestre do ano passado, subiu para 32,3% no primeiro semestre deste ano. Quer dizer, em apenas 6 meses, em apenas 6 meses 2 milhões de pessoas deixaram de ser classe média e despencaram para a classe baixa, se tornaram pobres. A miséria extrema também aumentou e essa proporção subiu de 6,3% para 7,5%.

A atividade industrial teve uma queda de 4,2% em agosto em comparação com o mesmo mês do ano passado, e o consumo dos argentinos caiu 2,7% desde o início deste ano. E o cenário é mais sombrio ainda porque mais de 21 mil empresas fecharam na Argentina desde a posse do presidente Milei há quase 3 anos.

LALéo Arcoverde

E objetivamente, vai cortar investimentos, saúde, educação? Porque há um consenso entre os especialistas, Natuza, de onde isso pode ser atacado. Então, como no caso de cortar despesas é algo muito impopular e também é algo que tem que passar obrigatoriamente em alguns casos pelo Congresso Nacional, tanto um candidato quanto o outro, e a gente fala aqui dos que aparecem na frente nas pesquisas, eles não se comprometem a dizer como chegarão nesse fiscal, se vai focar no corte de despesas como foi Henrique Meirelles durante o governo Temer, se vai focar mais na receita, e é o quê?

Aumentar imposto ou cortar benefícios tributários, que para quem paga imposto dá no mesmo, que foi um pouco do foco da gestão de Fernando Haddad nesse governo Lula 3, eles não falam.

AFArmínio Fraga

Preciso sim uma resposta.

NNNatuza Nery

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e professor nas universidades de Columbia, Wharton School, PUC-Rio e FGV-Rio.

AFArmínio Fraga

E como a carga tributária do Brasil, um país de renda média, já é bastante alta, E como tipicamente os ajustes feitos pelo lado da despesa são mais eficazes, é preciso encarar sim o lado da despesa. O gasto público no Brasil vem crescendo há décadas. Lá atrás, ele, sei lá, 30, 40 anos atrás, eram uns 25% do PIB. Hoje deve ser uns 33%. É isso, o gasto primário, sem incluir os juros. Então acho que já chegou a hora. As grandes contas que não vão ser resolvidas da noite para o dia, mas a sinalização de que algo fundamental está sendo feito, são bem conhecidas.

Devidas à Previdência, o gasto com folha de pagamento e os chamados gastos tributários, que são hoje enormes no Brasil. E esses itens precisam realmente ser encarados.

LALéo Arcoverde

Pegando os outros candidatos, aí sim, aí eu falo de Caiado, Zema, Renan Santos e Cury. Algumas propostas mais objetivas, fala aqui, por exemplo, de Renan Santos do Missão, que aí ele coloca que conseguirá a partir de uma PEC, uma PEC que já tem uma proposta do deputado Kim Kataguiri, que geraria mais de R$1 trilhão em economia até o ano de 31. Até no caso dele mesmo, quando tem um número, também tá mais no campo dos desejos do que na matemática, sem dúvida nenhuma.

Então a gente tem, digamos, esses dois grupos: os que estão na frente falam o que querem fazer, onde querem chegar, sem explicar como, e os outros candidatos falam genericamente ou até com mais detalhes sobre choque de gestão, sobre diminuir o tamanho do Estado, sobre dar mais, mais peso para o empreendedor, sem explicar também como é que isso vai ter algum impacto fiscal.

ARAndré Roncaglia

Mas basicamente é isso o que eles dizem em linhas gerais, tanto nos programas de governo quanto também nas entrevistas que a gente tem acompanhado ao longo Então a gente precisa aprimorar a coordenação entre a política monetária e a política fiscal para que evidentemente a gente não deixe a população vulnerável sem proteção, mas sem comprometer bastante as restrições macroeconômicas que podem garantir exatamente essa estabilidade.

NNNatuza Nery

André Roncallia, diretor executivo do Brasil no FMI, professor da UnB e pesquisador associado ao Ibre. Da FGV.

ARAndré Roncaglia

Então o objetivo é reduzir a vulnerabilidade de maneira ordenada, com ajuste fiscal de qualidade bem distribuído no tempo, uma proteção do investimento público e também do gasto social focalizado. E além disso, reduzir de maneira sustentada a inflação, regular melhor o crédito e promover reformas que foquem a produtividade. Então em resumo, o desafio vai ser desalavancar sem estagnar. Essa é a leitura que o Fundo Monetário vem fazendo, evidentemente com nuances.

Eu acho que a gente pode se beneficiar muito desse objetivo final de estabilizar a economia, né, gradualmente ao longo do tempo, sem levar uma estagnação que comprometa emprego, que comprometa renda e os investimentos, principalmente do setor privado.

NNNatuza Nery

Agora, Léo, alguém diz de onde vai vir o dinheiro para colocar as contas em ordem?

LALéo Arcoverde

Ninguém diz de onde virá o dinheiro, não falam a área, os temas. Como é algo consensual e a gente vive na Tusa, você sabe, acompanhando também esse tema há muito tempo, que a gente é um país dos diagnósticos, tem muitos diagnósticos, tem escolas de economia, tem ex-ministros, tem centros de estudos, mas eles não falam não só em se comprometer objetivamente para dizer, por exemplo, Não sugerindo, mas poderia ser uma meta de ajuste, dizer onde vai cortar de fato.

Então os especialistas falam, questão de mudar a regra do salário mínimo, que hoje tem um aumento real a partir da volta de Lula ao poder, eles não falam. Não fala Flávio, não fala mesmo Caiado. Vai ter algum corte? Vai ter uma nova reforma da Previdência? Tivemos uma reforma da Previdência em 2019 que se projetou ali uma economia atuarial ao longo de muito tempo de mais de R$700 bilhões. Então também os candidatos não se comprometem a mudar as regras dos aposentados.

Vai se desindexar benefícios sociais. E o que que é isso? O aumento de alguns benefícios, inclusive da Previdência, eles serão corrigidos também com valor real. Quando aumenta o salário mínimo, eles aumentam junto e na mesma proporção. Os candidatos também não falam. Algumas regras também que os especialistas colocam como seria importante para se dar um horizonte de previsibilidade para as contas públicas, principalmente a tal relação dívida-PIB, é que a gente começou essa nossa conversa.

Como por exemplo é mudar a regra dos pisos, a regra dos investimentos em saúde e educação. À medida que você aumenta arrecadação, esses gastos sobem junto. A cada ano no orçamento. Vai ter alguma questão sobre o Bolsa Família, que o candidato Lula colocou com aumento aí para ser pago a partir entre o primeiro e o segundo turno, para um valor de— hoje aí tá em R$600, para um valor de R$691. Claro, eu repito aqui que são propostas nessas gastos sociais que tem, primeiro, é muito impopular, e muita coisa teria que passar por um Congresso na tosa, que também até mesmo durante o governo Lula 3, quando tentou se mexer, e que nem eram cortes, digamos, tão drásticos em termos de orçamento no BPC, por exemplo, aquele benefício que é pago para idosos, pessoas com deficiência, até que não tem a contrapartida de uma contribuição Constituição, que paga no caso um salário mínimo.

Congresso não votou, não topou cortar BPC, Benefício de Prestação Continuada. Então eles não dizem, não dizem nem no macro nem dizem no micro se a gente pegar uma política pública ou outra.

MMMarcos Mendes

Esse tipo de reforma não vai ter legitimidade política e social se continuar a haver, por exemplo, supersalários, um volume enorme de emendas parlamentares na mão dos deputados e senadores, porque benefícios sociais e previdenciários atingem a camada de renda média para baixo.

NNNatuza Nery

Você escuta Marcos Mendes, ex-chefe da Assessoria Especial do Ministério da Fazenda e pesquisador associado ao Insper.

MMMarcos Mendes

É importante fazer uma reforma nesses programas, tem muitas distorções, mas você tem que olhar para outra parte da distribuição de renda e ver também as distorções que acontecem ali. Isso cria uma dificuldade política muito grande, porque você vai mexer com muitos interesses consolidados, tanto nos benefícios sociais e previdenciários quanto nesses outros, as emendas parlamentares, nos subsídios. Nos supersalários e etc.

CBCarla Beni

Então qual que é a discussão? Mais de 46% do orçamento é para pagar juros e amortização de dívida. Mas qual é a discussão que você escuta? Que o problema é o salário mínimo do aposentado.

NNNatuza Nery

Você escuta Carla Bene, professora da FGV e conselheira do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo.

CBCarla Beni

E o ajuste fiscal, ele é tão profundo na discussão política, porque ele é uma decisão política muito mais do que financeira, que no final das contas, quando se você observa o nosso histórico do Brasil, o ajuste fiscal é mais ou menos como aquela pessoa que você namora 10 anos, mas não casa. Então o casamento, ele precisa ser no sentido de você se comprometer com as decisões.

LALéo Arcoverde

Numa campanha, todo mundo correndo atrás de voto, numa campanha tão acirrada, no caso entre os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro, e também esses que vêm e não conseguem subir nas pesquisas, é até natural que eles não se comprometam tanto. Mas chama muita atenção, e a gente vem acompanhando a campanha, que eles não se comprometam na verdade em nada. Eles não apontam, não dão uma sinalização de onde virá o ajuste. Há um consenso de que eles farão algum ajuste. Qual o ajuste, eles não falam.

NNNatuza Nery

Taxa de juros, Léo, uma das maiores do mundo. Que que eles dizem sobre isso? Que que eles dizem que vão fazer para ajudar a criar um ambiente para redução da taxa de juros?

LALéo Arcoverde

Mais uma vez, a gente tem política monetária, algo muito importante, porque no Brasil a gente tá com 13,75% de juros ao ano, a Selic, a taxa básica, que tá atrelado em vários juros da economia. Algo que economistas também reputam que é importante até pela questão do endividamento, Sim, porque reduz a dívida, né?

ARAndré Roncaglia

O governo, ele tende a pagar juros mais altos dentro da dívida que ele emite.

NNNatuza Nery

André Roncallia.

ARAndré Roncaglia

E o déficit nominal aumenta, porque o déficit nominal, ele incorpora o custo do serviço da dívida e acaba retroalimentando a própria dívida. Você tem um processo em que risco, juros e endividamento se autorreforçam. No caso brasileiro, esse mecanismo é especialmente importante porque o custo de juros é muito elevado. O relatório de 2026 do FMI já projeta resultado nominal negativo de 8,2% do PIB em 2026, apesar de um déficit primário muito menor, próximo inclusive do equilíbrio, cerca aí de 0,5%, 0,6% do PIB.

Então a diferença é basicamente a conta de juros. Em outras palavras, grande parte do déficit brasileiro não está no gasto primário corrente, mas no custo financeiro de carregar a dívida. Isso também ajuda a entender por que que a política fiscal e a política monetária não funcionam em compartimentos separados. Elas são, né, mutuamente dependentes. Se a política fiscal perde credibilidade, expectativas de inflação e prêmio de risco tendem a subir.

FSFelipe Salto

A questão é como isso será feito, que medidas serão escolhidas para que esse objetivo, a meu ver, que deveria ser o objetivo principal de recuperar o superávit primário, seja viabilizado.

NNNatuza Nery

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, professor do IDP, ex-secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, e o primeiro diretor executivo da instituição fiscal independente.

FSFelipe Salto

E isso não significa gerar da noite para o dia um superávit, sair de 0,4% de déficit para um superávit de 2% do PIB. Mas o plano de ajuste precisa ser mais imediato. Esse plano, ele tem que indicar para o mercado, para os financiadores da dívida, para o resto do mundo, para a sociedade como um uma capacidade de geração contínua e gradual de recuperação desses resultados primários positivos. Então, se conseguir dar esse sinal de que a contenção do gasto e a elevação da receita vão ser suficientes para produzir um superávit primário em torno de 2% do PIB ao longo de 3 anos, por exemplo, isso vai produzir ganhos para economia e para a sociedade como um já no curto prazo, porque a economia funciona muito com as expectativas.

Então, mesmo que eu faça um superávit primário em 2027 que não seja tão grande, o mais importante do que o resultado de 2027 é a trajetória.

LALéo Arcoverde

E mais uma vez, a gente pegando as propostas, Natuza, por exemplo, candidato Lula fala que é um efeito benéfico da reforma tributária é gerar também mais previsibilidade da economia, um melhora de ambiente de negócios, que isso vai ter um impacto nos juros. O governo não disse que isso tem a ver com aumento, com aumento da taxa de juros, ou com a taxa de juros muito alta, ou O que também é um consenso entre economistas. Eles dizem: não, sim, tem a ver sim.

Essa política fiscal do governo acaba amarrando o Banco Central, que ele não tem o que fazer para ele convergir a tal da inflação à meta, que hoje é de 3% ao ano, tendo um teto de 4,5%. O Banco Central é obrigado a cada reunião ou baixar aos pouquinhos, como vem fazendo, ou há um tempo atrás subir os juros até chegar em 15%, como aconteceu. Hoje estamos 13,75%. Então o governo Lula fala em reforma tributária, algo que já tá rodando, tem uma transição, e é algo que os economistas não abraçam não compram que é algo que vai ter um efeito, digamos, muito claro sobre os juros ter condições de cair por essa via.

FSFelipe Salto

O nosso problema não é de regra fiscal, nosso problema é cumprir a regra fiscal, é o compromisso político em torno da regra.

NNNatuza Nery

Felipe Salto.

FSFelipe Salto

E isso eu digo já desde que o arcabouço foi aprovado. Ele é muito melhor do que o antigo teto de gastos, porque o antigo teto de gastos era uma regra impossível de ser cumprida. Acho que nós não podemos entrar de novo novo nessa esparrela, nessa armadilha de discutir regra fiscal do zero. Vamos trabalhar com a que a gente já tem. A gente já tem uma lei de responsabilidade fiscal que é de fazer inveja para qualquer país desenvolvido.

Então o que que falta agora, né? Acho que é calibrar os parâmetros das regras que a gente já tem para que a despesa possa crescer menos. Precisa tirar o pé do acelerador, e tirar o pé do acelerador é tomar um conjunto de medidas que permitam reduzir essa velocidade. Obviamente que isso não é trivial.

LALéo Arcoverde

Flávio Bolsonaro, do PL, fala que o Brasil entrando na OCDE, que é aquele grupo dos países que tem uma melhor governança, incluindo vários dos países mais ricos do mundo, mas também tem países de renda média como é o Brasil. O Brasil não está, mas tem Colômbia, tem México, tem, digamos, esses países que têm uma economia mais arrumada e, como eu falei, regras de governança que estimulam e seguem as práticas internacionais, melhores práticas internacionais.

Mas Flávio disse que entrando no OCDE isso teria um efeito em relação à taxa de juros. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, uma coisa não vai, digamos, ter um efeito positivo sobre a outra, digamos, rápido até lentamente assim. Entrar no OCDE é algo que é importante na visão de muitas pessoas, na visão de muitos economistas. Lembra aqui que era um pleito do governo Jair Bolsonaro sob a batuta ali na economia do então ministro Paulo Guedes, o post-Piranga de Jair Bolsonaro.

Mas a simples entrada do Brasil em um grupo de economias mais avançadas é algo também que não dá dá para entender como uma medida, digamos, direta, que vai ter um efeito direto sobre a política monetária que é praticada pelo Banco Central.

AFArmínio Fraga

Que choque é necessário para esperar que o BC avance na redução da taxa de juros? Essa resposta é direta. Armínio Fraga: é preciso uma taxa de inflação que caminhe de maneira convincente na direção da meta. Essa é a natureza da coisa, que no Brasil nós sabemos que historicamente mais inflação só trouxe dor de cabeça, trouxe recessão lá na frente o problema vai ser maior. Então acho que a resposta não é por aí. Por outro lado, se um ajuste fiscal bem feito, fundamentado, convincente for feito, o Brasil pode entrar num círculo virtuoso, né, onde as taxas de juros podem cair também, nesse sentido colaborando para uma redução do endividamento público.

E enfim, pergunta então que choque é necessário. É, a meu ver, uma combinação de algumas medidas de curto curto prazo, que já deem resultado. Não é fácil, mas sei lá, teria que ser 1%, 2% do PIB. E mais reformas que gerem mais espaço fiscal, inclusive mais adiante, a meu ver, deveriam ser usadas também para repensar as prioridades do gasto público no Brasil, que realmente há muito tempo pedem um repensar.

LALéo Arcoverde

E considerando os outros candidatos, Natuza, a gente está numa disputa muito polarizada entre dois, mas tem também, a gente tem Renan Santos, a gente tem Ronaldo Caiado, a gente tem o escritor Augusto Cury. Aí também tem para todo gosto aquelas propostas mais genéricas, como Caiado fala em um orçamento de verdade, que isso daria uma tranquilidade para o Banco Central também trabalhar a questão da taxa de juros e baixar de um patamar hoje que é proibitivo para muito investimento, que é muito ruim para a questão das dívidas e a questão do acesso ao crédito, né, na economia.

Fala muito em diminuir a insegurança jurídica. O Renan Santos fala em estabilidade regulatória. Mas sempre nessa questão, um problema que tá muito claro, que é a política de juros, que é um Banco Central muito amarrado. E aqui a gente fala de juros na Tusa 13,75%, quando tem a questão do juro real que que a gente fala, que os economistas fazem a conta abatendo a questão da inflação, que no Brasil tá em torno de 5%, juro real no Brasil ele vai para liderança entre as principais economias, ou fica ali sempre ou em primeiro, em segundo e terceiro lugar de maior juro real do mundo, tá?

A gente tá nesse patamar de 13,75%. Então é um grande problema que temos. Ainda falando em famílias endividadas, e não só famílias, famílias e empresas de tudo quanto é porte endividadas até o pescoço. Tem uma crise no varejo com muitas empresas fazendo recuperação judicial, recuperação extrajudicial, e também pequenas e médias empresas. E para completar, Natuza, muitas empresas do agro também em recuperação judicial, e muito disso atrelado a endividamento.

Muitas empresas muito endividadas e com dificuldade para rolar essas dívidas e renegociar em razão dessa taxa de juros muito alta.

ARAndré Roncaglia

Então, mas tem um detalhe importante aqui, André Roncalia, e o juro dos títulos americanos de 10 anos, ele saiu de uma média próxima de 2,1% entre 2016 e 2022 para níveis acima de 4% nos últimos anos. A gente tem visto as discussões do Banco Central americano com tendência de elevação da taxa de juros, e isso afeta a dinâmica da nossa própria economia. Então parte do encarecimento da curva brasileira de juros veio do exterior.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Léo Arcoverde. Léo, tem uma outra parte nessa história de gasto público que não dá para a gente ignorar e que deveria estar sendo discutida nas eleições, e aí não só a presidencial, sobretudo nas eleições para o Congresso Nacional, que são as emendas parlamentares. Esse dinheiro foi capturado do orçamento da União de 2015 para cá, foi se tornando obrigatório cada vez mais.

Ainda no governo Bolsonaro veio o orçamento secreto. E o fato é que essas emendas parlamentares hoje, elas estão tão ligadas ao Congresso Nacional, Congresso Nacional tá em cima de uma dinheirama grande, que presidente da República perdeu o poder. O próximo presidente da República, qualquer que seja, ele vai mandar muito menos no orçamento do que mandou 10, 15 15 anos atrás. E muita gente séria considera essa uma das principais distorções da nossa República.

Tem alguém nas campanhas falando sobre isso? Vou reduzir as emendas parlamentares, vou torná-las mais transparentes, vou acabar com a emenda Pix, terminar, exterminar o orçamento secreto?

LALéo Arcoverde

Não, Natuza. E lembro aqui que isso aí é uma involução do que era aí que você falou, que é a questão do orçamento secreto. 2022, Lula criticou muito isso. 2022, a então candidata pelo MDB, Simone Tebet, que virou a ministra do Planejamento, que muito crítica, muito vocal sobre isso. Mas é aquela coisa, né, a crítica quando tá no governo colocar alguma coisa do lugar. E a gente aqui não tá dizendo que é fácil mexer nisso, porque o Congresso não abrirá mão de nenhum centavo dessas emendas.

E que torna aqui tudo diferente é que o Congresso Nacional, a partir do enfraquecimento do Poder Executivo de algum tempo para cá, pegando segundo governo Dilma para cá, ele foi avançando sobre o orçamento, ele ordena a despesa.

NNNatuza Nery

A repórter da GloboNews, Elisa Claveri, levantou esses valores para gente. Em 2026, o orçamento empenhou 39 bilhões de reais para emendas parlamentares. Isso significa que a cada R$5 que o governo tem para gastar, R$1 já está reservado para o Congresso. Ninguém mexe.

?Voz K

Quase R$50 bilhões em emendas parlamentares foram autorizados para 2026. Isso considerando emendas individuais e de bancada, que o governo é obrigado a pagar até o fim do ano, e também aquelas emendas indicadas pelas comissões do Congresso, que não são obrigatórias, mas estão entre as preferidas da cúpula do Congresso, justamente porque são um plus, um diferencial que nem todos os parlamentares têm acesso. De todas essas modalidades, até agora foram empenhadas mais de R$39 bilhões.

Isso significa que elas foram já reservadas para pagamento. E para a gente ter uma comparação, isso representa cerca de um quinto, ou 21%, do orçamento discricionário do Executivo.

LALéo Arcoverde

Candidato Flávio Bolsonaro fala em reorganizar o orçamento, mas ele não disse que a reorganização do orçamento vai, por exemplo, abater R$20 ou R$30 bilhões desse montante. Não vai nesse sentido. O presidente Lula segue criticando quando é perguntado. É alguém que tem a questão da habilidade política de conversar com lideranças, conversar Congresso Nacional, pegando de outros mandatos dele. É conhecido por essa habilidade, mas também não propõe mexer na natureza do que tá sendo feito hoje.

E os outros candidatos tampouco eles falam como fazer. Há nesse sentido críticas de quase todos em relação a esse montante, até porque não tem como elogiar. Não vai ter um candidato que vai falar: não, é muito bom ter um orçamento que a gente tem R$50 bilhões controlados pelo Congresso Nacional. Mas não falam também como enfrentar isso. E algo que é muito— isso aí vai se agravando, Natuza, porque mesmo que fique em R$50 e R$60 bilhões, à medida que o tempo passa, com orçamento tão engessado— e aqui o que os economistas falam também de um modo consensual é que em algum momento as emendas parlamentares vão ocupar 100% das chamadas de despesas discricionárias, que é aquela parcela muito pequena, cada vez menor, que o governo tem alguma margem de manobra para decidir onde ele vai gastar ou não.

Elas são apenas emendas que são ordenadas pelos parlamentares, que os economistas chamam de gastos paroquiais, que não tem esse sentido de uma política nacional e que os parlamentares usam largamente disso para quê? Para conseguirem se reeleger, para também conseguirem reeleger os prefeitos que são ligados a eles. Não à toa, à medida que avança o Congresso Nacional sobre essas emendas, uma parte grande, como eu falei, do orçamento discricionário, a gente tem ao mesmo tempo no paralelo acontecendo o quê?

Que parlamentares lá na ponta, nos estados e municípios, e até mesmo vamos ver se isso vai se concretizar como se as pesquisas apontam, também diminuindo uma renovação no próprio Congresso Nacional. E eu falo aqui tanto em Câmara quanto em Senado. Eles estão muito empoderados por conseguirem votar, aprovar e dizer o que é feito. Uma montanha de dinheiro que a gente tá indo, cálculo atual de entre R$50 e R$60 bilhões ano.

MDMonica de Bolle

Uma decisão de política fiscal, até pelo fato de você ter que levar essa discussão para o Congresso e você ter que tratá-la não só do ponto de vista técnico, dentro do Tesouro, dentro do Poder Executivo, mas do ponto de vista político dentro do Congresso, a política fiscal tem essa dimensão política muito maior do que a, do que a política política monetária.

NNNatuza Nery

Mônica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, professora na Georgetown University e conselheira do SEBRE.

MDMonica de Bolle

E a gente tem um problema no Brasil que a gente vem construindo já alguns anos, mas agora ele tá numa espécie de ápice, que é essa questão de quem é que controla o orçamento mesmo no final das contas. Porque sim, o Poder Executivo é responsável por elaborar um orçamento, mas a discussão de prioridades orçamentárias, de formulação e e execução hoje ela tá muito mais nas mãos do Congresso Brasileiro do que nas mãos do Poder Executivo.

Então é dizer o seguinte: independentemente de quem esteja na presidência da República, ou seja, independentemente de quem, de quem vier a ser o líder do país, o presidente do país, o grosso da política fiscal não está nas mãos desse presidente da República ou mesmo de seus ministros. O grosso da política fiscal no Brasil hoje tá no Congresso Nacional e a gente vê isso de forma muito clara na questão das emendas parlamentares.

Esse animal que a gente criou no Brasil das emendas parlamentares, isso é um problema enorme para política fiscal brasileira.

NNNatuza Nery

Léo, e sobre o endividamento das famílias brasileiras? Quais são as propostas dos candidatos para resolver esse problema?

LALéo Arcoverde

As propostas dos candidatos, de um modo geral, Natuza, tem a ver com o que a gente até já conversou, que é a questão dos gastos públicos e o efeito que isso tem até nos juros. Estão muito altos no Brasil. Isso faz sentido sim, mas o que falta, a gente lendo os programas, e de novo a gente não fica só nos programas, a gente acompanha das entrevistas dos candidatos, que tipo de medida prática vai conseguir dar uma solução para isso.

E por que que eu toco nesse ponto? Porque a gente já tá em mais de uma rodada de um programa Desenrola no Brasil, e isso teve um efeito, digamos, rápido, que aliviou muito pouco endividamento das famílias. E elas, depois de meses, elas chegaram infelizmente a um endividamento até mais alto que tava antes desses programas.

MMMarcos Mendes

Hoje nós estamos com o desemprego nas mínimas históricas, né? É uma boa notícia. É, agora acontece que o emprego no Brasil tem um salário muito baixo porque a produtividade do trabalhador é muito baixa. Marcos Mendes: trabalhador que agrega menos de R$1.000 no resultado da empresa não pode ganhar mais do que R$1.000, porque a empresa não vai pagar para ele mais do que ele tá agregando ao valor da empresa, ao resultado da empresa.

Então, como a produtividade do trabalho e a produtividade geral da economia é muito baixa, quando a economia cresce, ela acaba crescendo, botando mais gente pouco produtiva para trabalhar. Isso gera um quadro de muita gente empregada, mas com salários baixos. E aí as pessoas com salário baixo acabam se frustrando com seu baixo poder de compra, que vem a ser corroído pela inflação ao longo do tempo, e acabam encontrando também caminhos de endividamento que pioram a sua situação financeiro.

Então, o grande problema é como resolver a baixa produtividade da economia brasileira. E aí você tem várias reformas que precisam ser feitas, desde a abertura da economia, melhoria das agências reguladoras, a redução da carga tributária, melhoria da qualidade da carga tributária, melhoria de portos, aeroportos, infraestrutura em geral. Não existe— é bom, a melhoria da educação, da qualidade da formação da mão de obra. Não existe uma bala de prata para reduzir, para melhorar a produtividade da da economia brasileira, em especial do trabalhador brasileiro.

ARAndré Roncaglia

O endividamento das famílias, ele é um resultado de um processo que se acumulou ao longo de vários anos.

NNNatuza Nery

Você escuta André Roncalia.

ARAndré Roncaglia

O Brasil passou por uma forte expansão do crédito que foi impulsionada pela digitalização financeira, pela entrada das fintechs, pelos meios de pagamento instantâneos e por um período de juros muito baixo entre 2020 e 2022. Essa é uma reunião de fatores que trouxe inclusão financeira, ampliou o acesso ao crédito. Isso tudo é muito positivo para milhões de pessoas. Só que tem um outro lado dessa história, que uma parcela importante desse endividamento ocorreu em modalidades de crédito que são de baixa qualidade, ou seja, não tem garantias, tem um custo muito elevado, principalmente cartão de crédito, crédito pessoal, cheque especial.

Além disso, o crédito ficou muito mais fácil de contratar. Hoje você entra num aplicativo, você consegue aumentar limites de crédito, parcelar compras, contratar empréstimos em poucos minutos. E parece que a população nesse sentido tá passando um processo de aprendizado em como usar essas facilidades sem comprometer o seu futuro financeiro. Então essas novas pressões que se combinam para gerar uma pressão sobre o orçamento familiar, elas vão ser agravadas por esse processo disseminado das apostas digitais. Elas passaram a disputar espaço com o consumo tradicional.

LALéo Arcoverde

Então, em relação ao endividamento, a gente cai mais uma vez nessa história de que, claro, eles concordam, sabe que as famílias brasileiras estão endividadas até o pescoço. Eu lembro aqui que são diferentes pesquisas, mas que vão na mesma direção. Então, uma pesquisa que é feita pela Confederação Nacional do Comércio é aquela que mostra que o endividamento passa de 80% das pessoas que têm alguma dívida. Inadimplência, felizmente, não tá nesse nível, mas também tá muito alto, também nível recorde.

E tem uma conta do Banco Central que fala, que fala em comprometimento da renda, pega a renda das pessoas, das famílias, ao longo de 12 meses e calcula desses 12 meses da renda dela quanto vai para dívida. E tá perto da metade da renda das pessoas.

NNNatuza Nery

Usei os cartões de crédito e como fiquei desempregada, eu não tinha como eu poder quitar aquela dívida. Deixei de pagar uns 5 meses.

?Voz L

Brasileiros enrolados com dívidas são muitos. Mais de 80 milhões de pessoas estão com pagamentos em em atraso. A inadimplência cresceu entre os brasileiros, gente como a Maelle, que tem acesso a cartões e financiamento. Em 4 anos, esse grupo aumentou em 6 milhões de pessoas. O pagamento de dívidas já consome em média um terço do orçamento das famílias.

LALéo Arcoverde

Então o endividamento é alto, tá em patamar recorde, mas falta também, se a gente olhar de um modo geral, se a gente olha Lula, se a gente olhar Flávio, os demais candidatos falam, falta aquela medida prática. O endividamento vai atacar o quê? Por exemplo, o Central hoje estuda a questão do crédito, o que os especialistas chamam de crédito predatório. Muita oferta de crédito de um mercado que hoje, e isso é bom, é um mercado muito maior, tem muito mais atores, não tem um mercado tão concentrado como foi até anos atrás.

Mas no meio disso houve uma oferta feita quase sem freio de crédito para as pessoas. E aqui quando eu falo oferta de crédito, é o quê? É cartão de crédito, é oferta de créditos que tem umas taxas muito mais altas daquelas que a gente vem falando aqui de 13,75% ao ano. A gente tá falando aqui de taxas que passa da centena do por cento ao ano quando a gente fala desses produtos que são oferecidos das pessoas.

CBCarla Beni

É um dado importante, é um mapa da inadimplência do Serasa. E no mapa da inadimplência do Serasa você observa que nós estamos hoje com 51% da população adulta negativada. Eu não estou dizendo endividada, é negativada, é o famoso nome sujo.

NNNatuza Nery

Carla Bene.

CBCarla Beni

E quais são os dois principais fatores? O primeiro é cartão de crédito e o segundo são as contas de consumo, água e gás. Depois tem todo o financiamento de varejo, digamos assim. Quando a gente vai analisar esses dados, a gente precisa fracionar e pensar aqui especificamente. No relatório do Banco Central, ele aponta que o uso de um rotativo do cartão de crédito, esse custo chega a 436% ao ano, a taxa de juros. Então aqui a gente precisa pensar como chegamos a este patamar.

Então há uma coisa importante que ela é pouco comentada, mas ela precisa deixar um pouco fica mais claro. Na Constituição de 88, né, quando ela foi promulgada, ela tinha um artigo específico que limitava os juros reais do Brasil em 12% ao ano. Ou seja, para além da inflação, por isso que é um juro real, acima da inflação você não poderia ter nenhuma cobrança acima de 12% ao ano. E o lobby, digamos assim, do mercado financeiro conseguiu retirar isso de fato em 1999.

Você colocou uma outra PEC, e aí depois isso foi aprovado em 2003. Então o Brasil tinha essa limitação e passou a não ter mais. Então o céu é o limite. Então hoje um empréstimo pessoa física, se uma pessoa física precisar de um empréstimo no banco, ela chega a pagar 60% ao ano para pegar um empréstimo. Então esse daí é um fator muito importante que ele precisa ser analisado de um conceito histórico.

LALéo Arcoverde

Então a gente tem esse, esse quadro muito ruim hoje, que é o quê? Endividamento recorde de famílias, de empresas, com oferta de crédito que os especialistas chamam de oferta de crédito predatório. Isso tem que ser atacado por uma regulação que é feita pelo Banco Central, mas claro, com o Ministério da Fazenda dando um sinal claro de como conseguirá controlar isso, não tornando o mercado como era lá atrás muito concentrado, com pouco crédito oferecido na praça, mas oferecendo um crédito que as pessoas consigam sair desse endividamento que elas estão e, claro, consigam pagar essas dívidas e ter uma situação de alívio econômico, que é claro o que todo governo deseja e o que todo brasileiro quer.

A gente olhando para uma situação de endividamento e de renda muito ruim para muitos, muitos brasileiros.

NNNatuza Nery

Léo Arcoverde sabe tudo, um craque. Muito obrigada, meu amigo, pelas informações e pela entrevista aqui no Assunto.

LALéo Arcoverde

Valeu, gente, obrigado.

NNNatuza Nery

Este episódio usou áudio da TV Cultura, da Rádio CBN e do Jornal Nexo. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaborou neste episódio Viviane Mateus. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

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