A fé e o voto: Igreja e Estado diante da urna
- A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil revela o perfil religioso e políticoBrasil menos católico e mais plural·religião impacta valores e expectativas·intermediação institucional importa·católicos e evangélicos conservadores
- A diversidade do eleitorado evangélico e suas posições políticasevangélicos não são monolito·conservadorismo não é pacotão único·apoio a políticas sociais progressistas·raça e escolaridade influenciam o voto
- A influência das lideranças religiosas no voto e a politização dos temploseleitor quer política longe da igreja·mediação religiosa do voto·indicação de voto por lideranças·construção de inimigos internos
- O alinhamento de denominações evangélicas com a direita políticapentecostais votam mais à direita·Assembleias de Deus e Igreja Universal·recusa a partidos de esquerda·exploração de agendas polarizantes
- A reação da Igreja Católica à radicalização política e o voto conscienteCNBB alerta para corrupção e fake news·defesa da democracia e soberania·autonomia do fiel na escolha do voto·crítica ao uso da igreja para autopromoção
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Fé é fé, voto é voto. A legislação eleitoral coloca uma fronteira clara entre Estado e Igreja. Templos religiosos são considerados bens de uso comum e não podem ser usados para propaganda eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral já decidiu até que manifestações de apoio a candidatos que ocorram dentro de igrejas, mesmo que não haja um pedido explícito de voto, podem configurar propaganda irregular. Só que na prática, o púlpito e o palanque ainda se encontram.
Pastor, a gente está conversando numa época de um ano de eleição, uma época em que a eleição vai se aproximando. E eu tenho curiosidade de saber se esse assunto chega na igreja.
Um dos nossos princípios é a separação total da igreja em relação ao Estado, mas isso não acontece muito na prática.
Uma pesquisa inédita sobre religião e vida pública no Brasil mostra que o eleitor quer manter a política longe dos espaços religiosos. É o que explica Lívia Reis, antropóloga e uma das coordenadoras do estudo conduzido pelo Instituto de Estudos da Religião, o ISER, e pela Quest.
A gente sabe que 82% dos fiéis discordam que se discuta política nas igrejas, um espaço religioso. 83% discorda que se indiquem quem votar e 90% discorda que qualquer candidato faça campanha dentro de igreja. Isso tudo em período eleitoral, né? Ao mesmo tempo, a gente sabe que a recomendação do voto ocorre. Então a gente tem duas leituras para esse fenômeno. Uma leitura é, claro, que a mediação religiosa do voto não vai operar só pela politização do templo, evidentemente, né, mas também pela produção desse sentido moral e comunitário.
O eleitor não vai votar porque o pastor indicou o nome, ele vai votar porque o repertório moral, comunitário, identitário produzido por aquela comunidade vai organizar ali a sua leitura sobre política, a sua percepção sobre o que é a política. A gente também sabe que muitas vezes as lideranças não recomendam o voto diretamente, mas indica em quem não votar. A gente vê aí anos de construção de inimigos internos, sobretudo dentro de um contexto, né, de batalha, de guerra espiritual, que faz sobretudo sentido dentro do pentecostalismo, né, do segmento evangélico, mas ainda com mais força dentro do pentecostalismo.
A influência das lideranças não termina na porta da igreja. Ela passa pelo grupo de WhatsApp, pelo vídeo nas redes, pelo influenciador religioso e por uma rede de confiança que faz da fé também um espaço de circulação da política.
Eu acho que de todo modo também esse alinhamento, né, de segmentos cristãos, sobretudo dos evangélicos, mas também dos católicos praticantes que se alinham aos evangélicos em muitos aspectos, os posicionamentos, sobretudo em posicionamentos mais conservadores, vem também desse alinhamento de valores e da construção eficiente desses inimigos, né, que são identificáveis por parte de grandes lideranças religiosas. Então essas mensagens também se reproduzem com muita facilidade, né, pela membresia, também pelas formas mediadas de religião, sobretudo WhatsApp, YouTube, né? Ou seja, o fiel tá muito exposto também à religião mediada.
Tudo isso em um país que vive uma transformação sem precedentes.
A quase totalidade dos brasileiros se declaravam católicos. Isso passou a mudar em escala significativa a partir da segunda metade do século 20, mas o grande salto dos evangélicos veio nos anos 2000. De acordo com o censo mais recente, eles atualmente somam mais de um quarto da população do país.
Um país deste tamanho continental em que, sem nenhuma influência do Estado, as pessoas estão trocando de religião, isso só aconteceu no mundo aqui no Brasil.
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: a fé e o voto, quando Igreja e Estado se misturam diante da urna. Neste episódio eu converso com Ana Carolina Evangelista, cientista política e pesquisadora sênior do Iser. Sexta-feira, 25 de setembro. É Ana Carolina, mas eu vou te chamar de Carô porque foi como eu te conheci. Então, Carô, pra gente começar, o Iser e a Quest fizeram uma grande pesquisa, ouviram 15 mil pessoas no Brasil todo para entender o que pensam os brasileiros sobre política e religião.
Um tema desta eleição, da eleição passada. Eu sei que entre inúmeros achados dessa pesquisa tem duas ideias que você destaca e eu quero que você diga para mim quais são essas duas ideias, essas conclusões que a pesquisa trouxe.
Olha, a pesquisa, como vocês sabem, né, a gente viu, a gente consegue fazer um diagnóstico com ela mais apurado sobre o perfil religioso brasileiro, né, algo que a gente tava precisando complementar tanto com os dados, né, e aqui olhar de forma detalhada é fundamental. Então a gente confirma, como o censo já indicava, que a gente tem um Brasil menos católico, mais cristão e também mais plural, e ao mesmo tempo com fronteiras menos demarcadas e mais porosas quando a gente olha para o perfil e para as práticas dos grandes grupos religiosos dessa forma mais desagregada.
Então, do ponto de vista social e político, a gente primeiro identifica que a religião, assim como qualquer outro marcador social, impacta em alguns aspectos e é irrelevante em outros. A religião importa mais quando a gente fala de valores, quando a gente fala de algumas expectativas das pessoas com relação ao Estado e em alguns comportamentos eleitorais e políticos. Um outro ponto importante, Natuza, é que nesses casos denominação ou a instituição religiosa, por exemplo, que a pessoa frequenta e a região do país onde ela está importa mais do que a religião declarada somente.
Evangélicos sem igreja, por exemplo, têm posicionamentos diferentes de evangélicos com denominação identificada em relação a valores e posicionamento político, em relação a posicionamento de voto, em relação a olhares sobre algumas políticas públicas. Então a intermediação, vínculo institucional, o espaço institucional religioso ao qual aquela pessoa está submetida ou ela frequenta, nos mostra nessa pesquisa que pode ter um impacto, porque mostram diferenças.
E a frequência religiosa também importa. A gente consegue com esse olhar agregado para todos os grupos, né, porque a gente pergunta a identidade religiosa, a gente pergunta de qual instituição a pessoa faz parte, se faz ou se também não tem religião, e a gente pergunta sobre práticas. E aí a gente vê que católicos praticantes e evangélicos no geral tem um maior nível de frequência semanal às igrejas, bastante destacado comparado com os demais grupos religiosos, e eles estão mais alinhados a posicionamentos conservadores e alinhados hoje a um espectro político partidário mais à direita.
Mais um subgrupo que é o de religião. Entre os católicos, uma estabilidade, né, nas últimas pesquisas. Agora olha os evangélicos, que me parece ser um grande desafio para Lula. Não à toa a distância, né, 51 a 28, virou 58 a 28. O Flávio abriu 30 pontos no eleitorado evangélico. Então, o que a gente tá vendo aqui, basicamente, uma recuperação, eu diria, de tendência em Lula nas mulheres. É um grupo importante para ele. Em compensação, o Flávio amplia a sua relevância em dois subgrupos: renda alta e evangélico.
Bom, você fez um sobrevoo do censo geral da pesquisa, mas eu tô particularmente curiosa para saber o que isso significa. Evangélicos que frequentam mais da igreja tendem a ter posições mais alinhadas, mais conservadoras? Essas posições mais conservadoras tendem a uma posição política mais à direita? Votam mais, por exemplo, tendem a votar, né, se a resposta não pudesse ser taxativa, mais em candidatos bolsonaristas, por exemplo? O que que isso significa na prática?
Do ponto de vista mais geral, só para a gente ir para o geral e não para o que divide, por enquanto, a gente tem a pesquisa, identifica que para alguns temas existe uma alta concordância, independente da identidade religiosa. Então, por exemplo, 79% concorda que a educação sexual nas escolas ajuda a prevenir abuso sexual contra crianças e adolescentes, sem distinção por recorte religioso, o que desmonta um pouco algum senso comum que a gente teria, que um olhar único conservador a partir do voto evangélico, por exemplo, do campo evangélico, unificaria tudo isso.
E a gente tem uma alta concordância com relação a esse tema também no campo evangélico. 90% rejeita o homeschooling, mesmo entre evangélicos. Assim como a gente também tem um alto grau de concordância com algumas políticas públicas que nem sempre são consensuais. Por exemplo, demarcação de terras indígenas, apoio a cotas raciais nas universidades públicas, apoio ao Bolsa Família, apoio ao fim da escala 6 por 1. A gente também perguntou cada uma dessas políticas e tem um alto grau de concordância, algumas delas, muitas delas acima de 65% dos respondentes, tanto no geral como subdivididos por identidade religiosa.
Também no campo da segurança pública, 77% apoia investimentos em pública focados em educação e redução das desigualdades, por exemplo. Tem uma baixa concordância com relação à facilitação e o posse de armas, e um alto índice de rejeição à pena de morte e a redução da maioridade penal.
Quando você tem uma agenda feita, a agenda do 6 por 1, é que é uma agenda absolutamente popular, é uma agenda que a gente fala fura bolha, né? Ela fala com todo mundo, ela fala com todo— não, são 31 milhões de pessoas no Brasil que ou trabalham mais de 40 horas ou trabalham 6 dias por semana, né? Uma das coisas que a gente vê em várias pesquisas é o que que você faria com seu tempo livre. E aí tem uma das coisas que as pessoas falam assim: eu iria ficar mais com a minha família, eu ia ficar, eu iria mais à igreja.
E com essa pesquisa a gente consegue entender que em alguns casos a identidade religiosa incide ou tem uma correlação, vai, digamos assim, que não posso falar em incidência. Em alguns casos não. Então eu vou citar agora casos onde a identidade religiosa parece ter uma correlação. Aceitação com relação à diversidade sexual, a gente tem uma relação aí entre determinadas identidades religiosas, especialmente cristãs conservadoras, e a não aceitação da diversidade sexual.
Uma visão sobre o Estado no sentido de entender e demandar que o Estado defenda valores considerados cristãos, ou seja, defender valores do seu grupo. Reconhecimento aí por datas importantes para cada grupo religioso. E concorda que escolas públicas tenham ensino religioso cristão. Então, por exemplo, né, identidade cristã, grupos católicos, evangélicos demandam e aceitam e querem que a escola tenha ensino cristão, por exemplo, nas escolas.
Então aqui a gente já vai afunilando um pouco mais, aí eu vou chegar no voto, para ir entendendo que tem um olhar mais amplo sobre política, políticas sociais, políticas de bem-estar social, podemos dizer assim, que não são divisivas dependendo da identidade religiosa, algumas temáticas que sim são. E aí a gente chega um pouco na incidência, na questão do voto, né, que é algo que a gente, que você me perguntou, e algo que a gente fala há muito tempo, né.
É por isso que eu destaquei o olhar que a gente está tendo com relação à intermediação institucional, porque como na pesquisa, a gente consegue agrupar os respondentes pelos grandes grupos religiosos, pelos subgrupos e pelas instituições religiosas que essas pessoas frequentam, porque a gente pergunta até esse nível, a gente vai entendendo que pessoas que frequentam determinadas denominações evangélicas, por exemplo, declaram o voto mais à direita ou têm uma maior recusa a partidos políticos da esquerda.
E quais são essas denominações? Que denominações tendem mais o voto na direita?
Em grande parte, as denominações pentecostais do campo evangélico, e aí são as que têm maior membresia no Brasil, né, as Assembleias de Deus. E aí também a gente vê uma incidência grande de membros, a partir de membros da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Quadrangular. São respondentes que frequentam essas instituições que mostram um olhar político mais orientado ao campo da direita, da centro-direita, e respondentes para essas questões políticas mais conservadoras.
Com isso aqui, eu não quero É importante a gente tomar muito cuidado, eu não quero aqui colocar um rótulo nos membros dessas agremiações. Aqui é uma classificação a partir dos subgrupos e uma correlação que a gente pode fazer a partir de como as pessoas respondem às diferentes perguntas políticas e sociais.
Então algumas igrejas, como Igreja Universal, Igreja Quadrangular, Assembleias de Deus, recomendam um voto muito acima da média nacional. Então se a média de recomendação em Bolsonaro é 11%, a média nacional, nessas igrejas chega a 30%.
Até porque a gente não tá falando de um universo simples de compreender, né? Os evangélicos não são uma coisa só, eles não pensam de forma igual, eles não são um monolito, eles têm o mesmo nome pela religião que seguem, mas as instituições são diferentes, as denominações pensam de forma diferente. Um dado aqui, por exemplo, que já mostra como essas camadas não são camadas simples de analisar. 54% das pessoas que foram entrevistadas se declaram conservadoras.
Ok, você já passou por isso. Só que dentro desse grupo, a massacrante maioria, 75%, é a favor do Bolsa Família. 66% se colocam a favor da taxação dos mais ricos, que são pautas defendidas pelo campo progressista. Então, para quem acha que evangélicos são uma coisa só, o que é uma visão que carrega muito preconceito, né, com esse grupo enorme no Brasil, quando olha, quando abre a pesquisa e dá esse zoom, pode bugar, né? Como é que você analisa esses dados para gente?
É exatamente isso que você falou. A pesquisa mostra que ser conservador não é um pacotão único nisso, num bloco. Então, exatamente como a gente já tava comentando antes, a pessoa se autodeclara como conservadora, né, porque a gente faz duas perguntas, né? A gente faz a pergunta sobre a gradação, se a pessoa se identifica num campo conservador, progressista, e uma gradação de 0 a 10 dentro desses polos. A gente pergunta também com relação à autodeclaração sobre esses campos políticos partidários que as pesquisas recentes têm dividido, né, esquerda lulista, esquerda não lulista, independentes, direita bolsonarista e direita não bolsonarista, para usar as classificações que as pesquisas recentes têm usado.
E as pessoas autodeclaram nesses espectros, como você identificou o número geral, mas ao mesmo tempo indicam uma alta concordância com diferentes políticas sociais e políticas públicas. Então não necessariamente tem uma uma relação direta da pessoa se autodeclarar conservadora e se ver como uma pessoa conservadora por diferentes razões, o voto que ela manifesta, declara, e seu olhar sobre as políticas públicas. Tem uma diversidade aí, a gente sempre fala isso, inclusive não só para dizer, né, Natura, como você disse, que os campos religiosos são diversos.
E aí aqui você citou o campo evangélico, e a gente fala muito sobre o campo evangélico, especialmente por conta do voto é diverso, como o que forma a decisão de voto das pessoas são também, são muitas camadas que não só a sua identidade religiosa.
Carol, olhando das eleições de 2018 para cá, o que fez o campo lulista se afastar do eleitorado evangélico, reconhecendo que é um eleitorado diverso? E o que fez o campo bolsonarista para se aproximar e manter? Porque se aproxima em 2018 e mantém, né, essa proximidade nas eleições seguintes.
Talvez colocando em termos, não sei se erros e acertos, mas Eu destacaria dois aspectos. O primeiro é a necessidade de escutar mais os fiéis, as pessoas, as pessoas que têm determinada identidade religiosa e que frequentam esses espaços institucionais, as suas demandas, para que elas não fiquem apenas— essa comunicação entre o fiel e a política não fique apenas intermediada pelas lideranças religiosas, institucionalmente falando, e não parar de focalizar a comunicação com essa base apenas em determinadas lideranças institucionais grandes, midiáticas, mais performáticas, porque muitas vezes o que a gente tem visto é que muitas delas estão tornando essa conversa cada vez mais homogênea, cada vez mais apenas para um lado, e focar esse diálogo apenas nessas lideranças não vai funcionar.
E no caso do bolsonarismo, o que que o bolsonarismo fez para se aproximar desse campo?
Ele tá conseguindo explorar as agendas que dividem, as agendas polarizantes, as agendas que polarizam, especialmente no campo de valores e são agendas que este campo entrega. Então não só eles conseguem mobilizar politicamente isso, como eles entregam essa agenda moralmente mais tradicional do ponto de vista de valores. E eles estão fazendo alianças com figuras específicas e religiosas, lideranças religiosas específicas que estão conseguindo ser porta-vozes desse projeto político deles, estão sendo bons comunicadores dessa agenda política.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Ana Carolina. Eu queria entender, Carol, uma ideia de que os evangélicos votariam de forma mais agrupada do que os eleitores de outras religiões. Isso é verdade? A pesquisa confirma isso?
Pesquisa confirma que os evangélicos votam de forma mais agrupada. Sim, a manifestação do voto, né, um pouco mostra a tendência que a gente tem visto de forma agrupada, se a gente olha os evangélicos como um todo, né, o que a gente tem visto nas pesquisas de intenção de voto. Agora, colocando uma lupa dentro desse agrupados, é importante quem está nos ouvindo entender que quando a gente olha, por exemplo, para o campo evangélico, a gente sabe dos números desde 2018, e ele se mantém, né, 2018, 2022, agora 2026, O campo bolsonarista tem um amplo favoritismo no voto a partir de membros identificados como evangélicos.
Mas se a gente olha com lupa, esse favoritismo, ele não se reproduz entre evangélicos pretos. Evangélicos brancos e pardos, ou seja, raça importa na divisão dentro de evangélicos. Escolaridade também importa. Quanto maior a escolaridade cruzada com identidade religiosa, maior o voto no campo bolsonarista. Quanto menor a escolaridade, mesmo no campo evangélico, maior o voto no campo lulista. Vamos olhar para o campo católico, que é um zoom que a nossa pesquisa também faz.
Raça e escolaridade é um elemento que também importa cruzado com identidade religiosa. O amplo favoritismo que o Lula tem, que os candidatos do PT tiveram e o Lula mantém no campo católico, ele praticamente se anula entre católicos brancos. O Lula mantém seu favoritismo entre católicos negros, pretos e pardos. Entre católicos também tem uma diferença de escolaridade. Quanto menor a escolaridade, maior a vantagem do Lula nesse segmento católico. Quanto maior a escolaridade, ele começa a empatar com o campo bolsonarista.
Houve uma tensão imensa entre a Igreja Católica e Jair Bolsonaro. Vocês vão lembrar da visita dele à Basílica de Aparecida, Santuário de Aparecida, no dia 12 de outubro, no dia da padroeira. Foi uma baita confusão, teve vaia, teve aplauso, e teve o pároco gritando por silêncio, dizendo: aqui é a casa de Deus. Foi uma baita tensão.
A gente viu nas eleições de 2018, de 2022, o tema voto evangélico ser um tema predominante nas redes sociais, no próprio debate eleitoral. Não seria diferente porque a gente tá falando de um grupo muito grande e essa ideia de agrupamento talvez esteja mais presente no imaginário coletivo do que a ideia de agrupamento entre os eleitores católicos. Só que nessas eleições, nos últimos dias, eu diria até semanas, tá acontecendo um fenômeno que eu não vi nas eleições de 2022 e não vi nas eleições de 2018, talvez não tenha visto nem no período da pandemia, que é um movimento diferente entre católicos católicos, e aí eu tô falando de líderes católicos, né, de líderes religiosos, melhor dizendo.
Então, por exemplo, a CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, mas não só a CNBB, publicou vídeos nas redes sociais com mensagens que alertam para corrupção, para fake news, e que falam de democracia, e que falam de soberania nacional.
Um dos cuidados que nós precisamos ter é a busca da autenticidade, da veracidade da informação.
Informação.
Nós estamos falando do período da política. Não simplesmente aceite como verdade imediata aquilo ali sem ter uma comprovação.
E quanto às propostas dos candidatos, é um outro ponto muito importante para os católicos, né? Ver, né, se nas propostas desse candidato estão os sinais do Evangelho. Voto não é mercadoria, não negocie.
Atenção à prática da corrupção eleitoral.
Atenção em quem se vota!
Diga não a candidatos com ficha suja, candidatos com histórico de corrupção e má gestão pública. Não vote!
Não deixe de votar, é a garantia da nossa democracia. Votar é exercício de cidadania, é sinal de democracia.
É importante a soberania do Brasil, a soberania nossa Amazônia, a soberania de nossas riquezas e bens.
A democracia, portanto, é um bem precioso a ser cuidado e garantido.
Termos democracia, soberania nacional estão constantemente na boca do candidato do PT à presidência da República, e a gente ainda tá tentando entender o que é esse movimento. Então eu vi postagem de padre, de frei, de bispo trazendo mensagens contra a divisão da família, contra ódio, à luz de tudo que você viu nessa pesquisa, mas também de tudo que você estuda, né, no seu campo de trabalho. Que movimento é esse, Caru?
É um movimento também de reação a tudo que a gente vê na política brasileira nas últimas décadas, né, Natuza, especialmente nos últimos 8 anos, que é uma radicalização política em períodos eleitorais e uma radicalização política relacionando com religião, vinculando a religião. Então eu entendo que tem uma variação também de membros de diferentes campos religiosos, e nesse caso campo católico, a essa radicalização e a esse vínculo automático entre identidade religiosa, no caso católico ou cristã, e um voto determinado e específico na agenda política brasileira.
Nesse ano eleitoral, que elejamos aquelas pessoas segundo o nosso coração, segundo a nossa consciência, segundo o nosso conhecimento, pensando no bem de todos, pensando no bem comum. Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, não deve mandar aqui.
Então, a CNBB e os bispos e padres da Igreja Católica costumam publicar e falar sobre a Teoria Social da Igreja em anos eleitorais, né? Isso é algo comum, mas agora mais enfático, como você falou. Pedem por um voto consciente e clamam, vou usar aqui o termo proposital, por uma afirmação da autonomia do fiel em escolher e manifestar seu voto, um posicionamento por essa radicalização política em determinadas lideranças nos últimos anos.
Só é possível ser católico se votar na figura A, B ou C, só é possível ser evangélico se se votar na figura A, B ou C, né? E por outro lado, como eu disse, tem uma comunicação aí sobre agenda e sobre pautas políticas, né, vinculadas à teoria social da Igreja, né? Esses diferentes vídeos, eles deixam claro textualmente, inclusive, que a Igreja não está fazendo uma opção por um partido específico ou por uma figura política específica, né, mas que sim quer deixar muito claro que eles são contra o uso da igreja para autopromoção de determinadas candidaturas e rechaçam que qualquer candidato se anuncie o escolhido de Deus, né.
Então por isso que eu retomo o ponto que eu vejo isso como uma reação à conjuntura. Os campos, as lideranças religiosas e os campos políticos e campos religiosos interagem com a conjuntura social e política, né. E aí do ponto de vista programático, esses diferentes vídeos que você menciona dos bispos católicos, vai entrando aí um pouco mais de forma pormenorizada na teoria social da Igreja, falando sobre agenda ambiental, sobre o cuidado da Mãe Terra, sobre o combate à desigualdade social, sobre o combate à pobreza e sim sobre o combate à corrupção, sobre a importância de votar em pessoas honestas, segundo palavras deles, né?
Mensagem da CNBB ao povo brasileiro por ocasião das eleições, que diz o seguinte, ó: convidamos cada eleitor e eleitora a assumir sua responsabilidade, A abstenção não é a melhor escolha. O discernimento cristão exige olhar não apenas para promessas de campanha, mas principalmente para a história de vida dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos.
Não dá para desconectar esse movimento do que acontece, por exemplo, na própria agenda dos candidatos, né? Flávio Bolsonaro vai a cultos e ali lideranças evangélicas de determinadas denominações indicam a preferência ali pelo Flávio Bolsonaro. Então a gente não consegue desassociar uma coisa da outra, embora de fato eles digam, né? Eles digam que cada um tem que ter a liberdade de escolher. E muitos fiéis de igrejas evangélicas começaram a surgir também desde as eleições de 2022, muito incomodados ou por terem sido preteridos ou por terem sido discriminados quando porventura se desconfiou que aqueles fiéis votariam no campo da esquerda e não no campo bolsonarista, né?
Então a divisão se deu ali também. E tem um ponto em particular da pesquisa que eu queria muito te perguntar é: o que os fiéis, e nesse caso evangélico, pensam quando o pastor, o apóstolo indica o voto num determinado candidato? Como é que eles reagem a isso?
A gente pergunta de diferentes formas e a gente identificou que, de forma geral, as pessoas recusam, não concordam com a indicação de voto em espaços religiosos. Religiosos. Importante, né, eu falo aqui espaço religioso porque a gente entrevistou a população brasileira como um todo, a gente não tá falando apenas de um campo religioso. Ela recusa essa política eleitoral, essa política partidária dentro dos espaços religiosos, não concorda com indicação de voto nesses espaços e não concorda com a presença dessa política eleitoral em momentos de congregação, em momentos de encontro com seus irmãos de fé, com seus irmãos religiosos.
Então é uma discordância com relação à presença dessa política partidária eleitoral em espaços que não são para isso, né? Isso não significa, com isso a gente não pode dizer que as pessoas não querem falar sobre política de forma ampla, não falem sobre política de forma ampla e não entendam que os seus espaços religiosos também tenham propostas políticas ou olhem propostas políticas de forma ampla, mas é uma discordância com relação à indicação de candidaturas, presença de candidatos de forma explícita nos altares, nos púlpitos, nos espaços sagrados e esse quase que assédio eleitoral nas últimas décadas que a gente tem visto.
E a nossa pesquisa também mostra, e porque a gente pergunta sobre isso, que as pessoas não estão de acordo com essa presença, mas as lideranças religiosas não deixam de tentar que essa presença, algumas lideranças religiosas em determinados espaços, em determinadas regiões, com mais frequência que outras, não deixam de tentar que essa influência aconteça, né? Então, na verdade, a gente perguntou se a sua liderança religiosa indicou voto em 2022 para alguma candidatura no pleito nacional, e a maioria disse que não indicou. 78% dos respondentes diz que a sua liderança religiosa não indicou.
Mas entre os 18% que afirmaram que a liderança religiosa indicou, aí a gente tem uma porcentagem maior de indicação, 11%, para candidatura do ex-presidente Jair Jair Bolsonaro em 2022 e 5% para o presidente Lula em 2022. E se a gente pega um recorte aí, se a gente segmenta para o recorte evangélico, né, pessoas autodeclaradas evangélicas, essa indicação de voto por parte da liderança religiosa em Jair Bolsonaro em 2022 foi 3 vezes maior do que a média nacional.
Carol, super obrigada por topar conversar com a gente. Bom trabalho para você. Obrigada, eu que agradeço Este episódio usou áudio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Graneman.
Colaborou Neste episódio, Viviane e Mateus. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
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