A nova crise do petróleo e a economia global fora de ordem
- A disparada global do preço do petróleo e seus impactos econômicospreços recordes de combustível na Califórnia·escassez de gasolina na França·aumento do diesel no Brasil·efeito cascata na cadeia produtiva global
- A crise do petróleo e a atuação dos Houthis no Estreito de Bab el-Mandebcontrole do acesso de petróleo no Mar Vermelho·financiamento iraniano aos Houthis·ataques a navios durante o conflito na Faixa de Gaza·objetivos domésticos e externos dos Houthis
- Os impactos no fornecimento global de petróleo e o risco de desabastecimentobloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã·alternativas de rotas de petróleo·volatilidade do preço do petróleo·incerteza devido a guerras e sanções
- As implicações políticas da crise do petróleo para Donald Trumpaumento da taxa de juros americana pelo Fed·Trump e a economia como limite·fracasso na resolução do conflito com o Irã·impacto nas eleições de meio de mandato
- O papel da China na mediação da crise do petróleo e suas relações comerciaisencontro de Xi Jinping com Trump em Washington·China como maior parceiro comercial de países produtores·pressão chinesa sobre o Irã para um acordo·concessões dos Estados Unidos para a paz
- O impacto da crise do petróleo nas eleições americanas e no Brasilinflação e rejeição ao partido republicano·vitória democrata na Câmara dos Deputados·controle republicano do Senado·foco de Trump na política externa para a América Latina
Uma pessoa dirige o seu carro e para para abastecer na Califórnia. Na bomba, o preço é o mais alto dos últimos três anos.
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Agora uma pessoa dirige seu carro na França. Ela para o carro no posto de combustível e a bomba está vazia. Por lá, um em cada nove postos está sem gasolina para vender.
Então se compliquei.
Aqui no Brasil, a Agência Nacional de Petróleo fez um alerta: o preço do diesel subiu e é o mais alto desde maio.
O preço médio do diesel S10, o tipo mais vendido no Brasil, subiu 2,3% esta semana, chegou a R$7,13 por litro.
Eu que abasteço na faixa de R$100 praticamente por dia, são 17 litros de combustível, faz uma conta bem alta aí para nós que é motorista, né?
A disparada no preço do barril do petróleo mexeu com a inflação de combustíveis em escala global. E para deixar claro, até o começo de agosto, o petróleo tipo Brent era comercializado abaixo de US$80 o barril. Só que na semana passada ele chegou a US$108 o barril. Essa disparada tem efeitos que se espalham por toda a cadeia produtiva do planeta inteiro.
Na Ásia e na Europa, fábricas já enfrentam a falta de matéria-prima e atrasos na produção. No Japão, os pacotes de batatas chips antes coloridos agora aparecem em preto e branco. A empresa diz que a medida é uma forma de economizar derivados de petróleo usados nas tintas de impressão. Na Coreia do Sul, a crise já paralisa linhas de produção. Numa fábrica de embalagens para máscaras faciais, as máquinas foram desligadas por falta de filme plástico.
Ao mesmo tempo, empresas de cosméticos passaram a trocar plástico por papel e a procura por embalagens alternativas triplicou. Os efeitos do conflito são sentidos também na Itália. No norte do país, região responsável por grande parte da produção italiana de cerâmica, as fábricas dependem de fornos movidos a gás e o preço da energia depois da crise no Estreito de Ormuz está se tornando impraticável. E desencorajando os empresários que dizem que não existe alternativa imediata ao gás.
E o pior é que não para por aí. A Agência Internacional de Energia prevê que a oferta global de combustíveis vai cair mais de 5% ainda este ano. Isso gera um choque inflacionário tão poderoso para a economia global que o Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, se mexeu. E na contramão do que desejava Donald Trump. Pela primeira vez em 3 anos, a decisão foi elevar a taxa de juros americana.
O Banco Central dos Estados Unidos subiu os juros por lá depois de 3 anos. Foi a terceira reunião do Fed sob comando do presidente Kevin Walsh, indicado por Donald Trump. O presidente americano criticou a decisão e defendeu uma taxa de 1% ao ano.
E mais um elemento aqui para você: o JP Morgan, um dos maiores bancos do mundo, publicou na semana passada um relatório sobre o que esperar do preço do petróleo. E a conclusão é de que o desfecho é imprevisível. E tudo isso porque um pedacinho de mar de 32 km de largura passou para outras mãos.
Rebeldes do Iêmen tomaram um porto estratégico no Mar Vermelho e ameaçaram atacar navios da Arábia Saudita. Essa notícia e o prolongamento do conflito entre Estados Unidos e Irã fizeram o preço do petróleo disparar.
O grupo atua numa região estratégica do Mar Vermelho, por onde passa uma das principais rotas de transporte do comércio mundial. Os navios saem da Ásia, China, Índia, sobem pelo Oceano Índico, passam por um gargalo estratégico, o Estreito de Bab-el-Mandeb, entram no Mar Vermelho, sobem até o Canal de Suez, no Egito, e dali seguem para a Europa. Os Houthis são financiados pelo Irã e já provocaram interrupções no tráfego com ataques a navios durante o conflito na Faixa de Gaza.
O presidente Donald Trump, o que ele quer é fazer uma grande defesa da guerra contra o Irã, uma guerra que claramente os Estados Unidos cada vez se afundam mais, não tá ganhando essa guerra, pelo contrário, um conflito que só se complica, que já prejudicou bastante a Arábia Saudita, que já se estendeu para o outro lado da Península Arábica ali pelo Estreito de Bab-el-Mandeb.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a nova crise do petróleo e a economia mundial. Fora de Ordem. Neste episódio, eu converso com Guga Chakra, comentarista da TV Globo, da GloboNews e da Rádio CBN, e colunista do jornal O Globo. Terça-feira, 22 de setembro. Guga, a gente teve a informação de ataques dos Houthis na Arábia Saudita nesses últimos dias, e eu me lembro bem que em março você explicou aqui no assunto que grupo é esse, o que eles querem da região, como é que eles atuam.
Então eu vou te pedir para nos mostrar em que pé a gente está desde então, o que levou a esse mais recente ataque e quais são as implicações dele no conflito.
Olha, Natuza, primeiro tem o âmbito doméstico e o âmbito externo, tem que entender os dois. Os Houthis atuam em grande parte por causa da agenda doméstica deles. Eles querem controlar todo o território do Iêmen, não só ali a região norte, incluindo a capital Sanaá, mas também as outras áreas do Iêmen. Eles veem que nesse momento eles estão em condições de ampliar o controle deles sobre outras áreas do Iêmen. E eles seguem avançando.
O grupo rebelde Huti, financiado pelo Irã, tomou uma cidade estratégica do Iêmen e agora ameaça mais uma importante rota marítima para o comércio mundial. Os milicianos agora controlam Mokka, uma cidade portuária no sudoeste do país, a cerca de 400 km de distância da capital, Sana'a. Fica pertinho do Estreito de Bab-el-Mandeb e tem saída para o Mar Vermelho. Com isso, as forças do governo tiveram que recuar para mais para o sul.
Segundo o governo do Iêmen, um grupo também conseguiu invadir as Ilhas Hanish. O avanço dos hutis representa mais um ponto de estrangulamento da navegação global e do comércio entre Oriente e Ocidente.
Outra parte do Iêmen que a gente às vezes fala, os hutis controlam Sanaão, norte do Iêmen, mas quem controla o resto? Governo reconhecido internacionalmente que tem como base a cidade de Adem, é uma cidade litorânea, porto litorâneo no sul do Iêmen, e eles têm o apoio da Arábia Saudita, mas não é assim um apoio. A Arábia Saudita apoia uma facção dominante, mas tem outra facção que é apoiada pelos Emirados Árabes. Eles são bem divididos porque eles não têm muita força interna.
Então os hutis querem dominar tudo e de uma certa forma fazer como o Talibã no Afeganistão, no sentido de Talibã voltou a controlar todo o território afegão e passaram a ser reconhecidos internacionalmente como governo do Afegão. Os hutis querem ser reconhecidos internacionalmente como governo do Iêmen, por isso eles precisam controlar tudo. Em segundo lugar, no âmbito externo, eles tem como grande inimigo a Arábia Saudita. Por isso, quando eles querem controlar Estreito de Bab-el-Mandeb, em parte para prejudicar a Arábia Saudita, tanto que eles falam, voltaram a falar hoje, a gente só proíbe que passe barcos sauditas, os outros podem passar pelo Estreito de Bab-el-Mandeb. O bloqueio é contra a Arábia Saudita.
A Arábia Saudita acusou rebeldes hutis do Iêmen de atacar a cidade de Meca, que é sagrada para os muçulmanos. A coalizão liderada pela Arábia Saudita para combater os rebeldes no Iêmen disse que abateu um drone no sul de Meca. Um porta-voz saudita afirmou que a coalizão vai tomar as medidas necessárias para deter os rebeldes. Os hutis, que são apoiados pelo Irã, negaram qualquer ameaça contra Meca ou outros lugares sagrados.
Então, esse ponto é muito importante, que ainda entra um pouco na questão interna do Iêmen. Só que, ao mesmo tempo, os hutis são aliados do Irã, e essa postura anti-Arábia Saudita, claro que agrada ao Irã, porque a Arábia Saudita é aliada dos Estados Unidos, embora tenham tentado manter, é, abrir um diálogo com os iranianos.
Eles até logo.
Só que o objetivo do Irã é punir os Estados Unidos, e para punir os Estados Unidos precisa fazer com que o preço do petróleo fique lá em cima. E por esse motivo, ações dos Houthis contra Arábia Saudita que fazem o preço do petróleo subir, como ataques a oleodutos, por exemplo, nas cidades sauditas, isso ajuda rapidamente para a produção de petróleo saudita. É lá no Golfo Pérsico. Em geral, eles exportam através do Estreito de Ormuz.
Como Estreito de Ormuz tá parcialmente fechado, eles usaram o oleoduto Leste-Oeste para levar o petróleo para o Mar Vermelho, e a partir dali cruzar o Estreito de Bab-el-Mandeb, Golfo de Adem, Oceano Índico e ir para a Ásia do mesmo jeito, onde estão os maiores clientes. Ao atingir os oleodutos, eles impedem que os sauditas façam isso. Mas lembrando que os principais ataques a oleodutos não foram dos Houthis, foram de milícias iraquianas, mas os Houthis também atacaram.
Quero entender contigo os impactos no fornecimento de petróleo no mundo a partir de todo esse trajeto que você nos descreveu e também a partir do aumento do preço do barril de petróleo tipo Mas antes eu queria que você explicasse onde você está para que a nossa audiência saiba por que que você fala de um lugar que tem vento, parece que você tá numa área externa. Explica para gente isso e depois nos fala dos impactos, por favor, do fornecimento de petróleo no mundo.
Tô aqui nas Nações Unidas, do lado de fora das Nações Unidas. Tem bastante gente, tem imprensa aqui, tudo, mas é uma espécie de, não diria varanda, né, como se fosse um parque às margens do East River, né, que na verdade não é um rio, né, é um estuário, né, o East River, e fica aqui nesse lugar em Nova Iorque. Então, céu azul bonito com nuvem, temperatura bem agradável aqui na Tusa por conta da Assembleia Geral da ONU.
Agora nos explica, Guga, por favor, qual é o impacto desse mais recente ataque e de outros que podem vir no fornecimento global de petróleo.
A maior parte do petróleo do chamado Oriente Médio, que a gente costuma falar, se dá no Golfo Pérsico. É ali que estão as maiores produções da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes, Kuwait, Bahrein, Catar, O Iraque é um pouco diferente, o Iraque tem ali, mas também tem na região norte, e do Irã também é no Golfo Pérsico. Então esse petróleo do Golfo Pérsico em geral é exportado através do Estreito de Ormuz, ele passa pelo Estreito de Ormuz e acaba caindo no Oceano Índico e segue pra China, é, ou pra outros países da Ásia, enfim, são os principais compradores desse petróleo.
Com o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o Irã parcialmente fechou o Estreito de Ormuz. Então onde passavam 130 navios por dia, baixou, hoje em dia tá passando 20, 15 navios apenas. Então a redução é brutal. Alguns países não têm alternativa. Kuwait não tem como escoar o petróleo a não ser pelo Estreito de Ormuz. É a mesma coisa se aplica a Bahrein, por exemplo. Arábia Saudita tem costa tanto no Golfo Pérsico como também no Mar Vermelho.
Ela tem esses dois litorais. E durante a Guerra Irã-Iraque, ainda nos anos 80, que também tinha uma tensão grande na região, Arábia Saudita construiu um oleoduto que levava uma parcela da produção do Golfo Pérsico para o Mar Vermelho. E a partir dali também também eles podem cruzar o Estreito de Bab-el-Mandeb, que é na costa do Iêmen, cai no Golfo de Adem, e a partir dali o Oceano Índico. É um outro caminho, um pouco mais longo, mas é uma alternativa.
A outra alternativa é sair do Mar Vermelho, cruzar o Canal de Suez, aí pode vender para Europa, ou seguir pelo Mediterrâneo, Estreito de Gibraltar, e fazer a Rota do Vasco da Gama para Ásia. Convenhamos, é muito, mas muito mais caro e muito mais longo. É praticamente uma não alternativa você fazer esse caminho.
Guerra entre Estados Unidos e na guerra no Oriente Médio vem encarecendo o custo do transporte marítimo, com impacto no preço de vários produtos aqui no Brasil, da argamassa da construção civil até os brinquedos das crianças.
O preço do frete marítimo sobe, só que não tanto quanto agora. No começo do ano, o serviço custava em média $1.500, costumava ser $3.500 em setembro, mas já chegou à casa dos $9.000, um aumento de 500% Então, alternativa que surgiu para a Arábia Saudita seria essa de sair pelo Estreito de Bab-el-Mandeb.
Com os Houthis fazendo esse bloqueio para a Arábia Saudita, eles ficaram sem opção. Então, com isso acaba gerando um efeito cascata que faz subir o preço do petróleo.
E qual é a situação real do petróleo no mundo? Te pergunto se há, por exemplo, risco de faltar combustível em razão de algumas evidências. Uma delas você já citou, que o preço do petróleo chegou a ser negociado acima dos $100. Países como a França já registram postos sem gasolina, tanto que o presidente Emmanuel Macron, o presidente francês, fez um apelo. A pressão inflacionária que levou o Fed, o Banco Central americano, a aumentar os juros pela primeira vez em 3 anos.
Há outros indicativos no Brasil, por exemplo, para citar o nosso caso aqui, mesmo as medidas adotadas pelo governo, ou com ou apesar delas, os combustíveis seguem em alta. E aí tem também uma efeméride: pela primeira vez desde o início do conflito, O JP Morgan, que é um dos maiores bancos do mundo, está admitindo que não consegue prever com clareza o futuro, embora ainda veja ali formas de conter preço. Sem falar da guerra entre Rússia e Ucrânia, que também afeta a oferta global de petróleo. Há risco de um desabastecimento, na tua opinião?
Tem um risco, sim, sem dúvida alguma, Natuza. Aliás, tem protestos ao redor do mundo, você vai da Síria a Portugal, você vê manifestações nas ruas por causa do aumento do preço do combustível. É um momento de incerteza surpresa muito grande justamente por causa dessas duas guerras. Quer dizer, você tem duas guerras que envolvem os grandes produtores, maiores produtores de petróleo do mundo, exportadores de petróleo, que tem Estados Unidos, que é um grande produtor.
Nos Estados Unidos tá na guerra também, mas a produção americana não é impactada. Mas tem uma guerra que impacta na Rússia, que já sofre sanções. Isso acaba tendo um efeito, já tinha desde a guerra da Ucrânia. Daí, em primeiro lugar, você tem o embargo ao petróleo iraniano imposto pelos Estados Unidos. O Irã é um grande produtor de petróleo. Então isso faz já, em primeiro lugar, por causa da ausência do petróleo do Irã, já elevaria o preço de qualquer maneira.
Quando ainda responde contra grandes produtores, como o caso da Arábia Saudita, como o caso dos Emirados Árabes, do Kuwait, o preço acaba disparando. E não há à vista uma solução para essas guerras. A gente não sabe o que vai acontecer daqui para frente.
A gente continua a falar da guerra e do efeito de tudo isso sobre o petróleo com o nosso comentarista de economia, Bruno Canazza, porque por causa dessa tensão o petróleo superou $100 pela primeira vez desde julho.
Esse mercado, ele é extremamente sensível aos movimentos da guerra e isso repercute nessa disparada do preço de petróleo. O mercado de petróleo, ele tem basicamente dois tipos de cotações. Ele tem os contratos futuros relativos às entregas futuras de petróleo e há também o mercado chamado de mercado spot, que é o mercado de entrega imediata do petróleo. E esse sim, ele é bastante sensível aos movimentos da guerra, porque a guerra ela está ocorrendo numa região bastante, né, produtora de petróleo.
E aí, quando a gente vê o agravamento dos ataques na região como um todo, o preço do petróleo dispara. Ela evolui ao longo do tempo. Antes do início da guerra, a cotação tava em torno de $60, chegou a um pico de $140 o barril de petróleo quando a guerra se agravou. E aí, ao longo do tempo, ele vai cedendo, principalmente com acordo de paz. E nos últimos tempos houve uma calmaria, nos últimos 2 meses, e hoje o petróleo volta a romper essa barreira psicológica dos $100.
Essa oscilação ela se dá com os movimentos tanto do início da guerra quanto do cessar-fogo e do acordo de paz, onde o petróleo chega na mínima de $70, depois ele sobe. Nos últimos meses ele fica ali na média de $90 o barril e agora atinge novamente os $100. Isso é muito importante Principalmente pelo fator eleição nos Estados Unidos, porque esse preço do petróleo bate no preço do combustível, bate no custo de vida do americano, e a eleição tá chegando.
Os países do Golfo, eles estão reunidos, eles meio que desistiram das negociações Estados Unidos e Irã, e eles querem diretamente negociar com Irã por uma conclusão. Lideranças do Catar, da Arábia Saudita chegaram. É geografia eterna, o Irã vai estar sempre ali ao lado deles, eles vão ter que precisar de alguma forma de convivência porque eles dependem da venda de petróleo, da venda de gás, eles precisam ter ali uma estabilidade com o Irã.
Então eles vão buscar, mas tá longe de ter um acordo nesse momento. E a guerra da Rússia e da Ucrânia, essa é mais incerta ainda. A gente não sabe onde vai. Hoje na Europa até se discute o risco da Rússia ampliar ainda mais o conflito. Então esse impacto no preço pode prosseguir. Mas lembrando que quando teve aquele breve acordo, no memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, o preço do petróleo de fato abaixou. É uma, é um preço muito volátil e que, em havendo um acordo, a redução é bastante rápido.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Guga.
Brasileiro raiz sabe que arroz e feijão dão aquele combustível para o dia a dia.
E aqui na Globo praticamente todos os nossos carros usam energia limpa.
Lembra daquela história que de grão em grão tudo pode virar doação na Globo?
Doamos tampinhas, bórias e até brinquedos para instituições sociais.
E no Brasil todo mundo diz: pode entrar, mas não repara não.
Aqui na Globo pode reparar sim.
A gente repete cenários porque isso é sustentável.
É uma escolha nossa.
Globo, fazer diferença todo dia.
Quero insistir na tecla do relatório do JP Morgan, porque o banco, no relatório que ele faz para os seus investidores, os analistas do banco afirmam que eles não têm uma visão base um modelo para prever o desfecho da crise e que eles esperavam que Trump nunca jamais cruzaria o que eles chamam de linhas vermelhas para economia americana. E a pergunta que eu te faço é a seguinte: qual é a real linha vermelha de Donald Trump? Assim, até aonde ele vai?
Olha, é realmente surpreendente, porque eu treinei, parecia que uma coisa que sempre parecia conter o presidente americano era a economia, desde o primeiro mandato, Natuza. Então os analistas do JPMorgan têm razão, ele sempre tomava muito cuidado, mesmo em função de guerras. Ele evitava conflitos no primeiro mandato, ele dizia, inclusive quando ele foi reeleito agora, que ele queria acabar com conflitos internacionais. Economia era o ponto ali, o limite dele.
Dizem que até na questão da inteligência artificial, um dos motivos de ele temer uma regulamentação é que isso possa provocar uma queda nas bolsas, porque hoje o mercado americano depende muito das empresas de tecnologia, das gigantes de tecnologia, inclusive as de inteligência artificial, como a Tropic e a OpenAI. Mas no caso da guerra com o Irã é um outro ponto, porque o Trump, por ele, ele teria acabado com conflito. Ele não, ele imaginou quando ele entrou nessa guerra, isso é importante frisar, ele não imaginava que ia chegar a esse ponto. Ele errou, ele fracassou.
O bloqueio dessas duas rotas é especialmente crítico para a economia do país. Para o presidente americano Donald Trump, é um golpe duro. Trump afirmou que o Irã não tem mais forças para resistir à guerra e garantiu que o conflito acabaria no fim do ano. A movimentação de sabotar qualquer narrativa nesse sentido e pressiona ainda mais os preços globais de energia.
Agora o problema dele é que ou captula para o Irã e faz um acordo no qual o Irã será beneficiado e acaba de uma certa forma ajustando a economia internacional, mas ele sai geopoliticamente enfraquecido. O Trump, ou ele mantém essa situação que ele não vai capitular para o Irã, mas continua tendo os efeitos econômicos. É esse o cenário. Por ele teria ficado aquele memorando de entendimento, mas que acabou fracassando por uma série de questões.
O acordo entre Irã e Estados Unidos para acabar com a guerra no Oriente Médio foi anunciado, só que para sair do papel ele depende de uma lista com 14 exigências apresentadas pelo governo iraniano. Uma das principais é o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano. O Irã também quer que os Estados Unidos respeitem a soberania do país e parem de interferir em assuntos internos. Na lista também estão a retirada das forças americanas dos arredores do Irã, a suspensão completa do bloqueio naval e a reabertura do Estreito de Hormuz. Outro ponto é o fim das sanções sobre a venda de petróleo.
Então ele tá preso nessa situação do Irã. A guerra da Ucrânia, nisso o Trump não tem culpa nenhuma, culpa é totalmente do Vladimir de Putin.
É muito maluca essa história, né? Porque ele tá numa situação em que se correu o bicho pega, se fica, se fica o bicho come. Porque se ele não interrompe essa escalada que pode provocar um desabastecimento global e com isso prejudicá-lo nas eleições de meio de mandato agora em novembro, por outro ele não gosta do discurso de derrotado. Então assumir algo que passe para os eleitores americanos a ideia de que ele errou e de que ele foi derrotado essa história não é algo que se imagine o Trump fazer.
Mas tem um dado que eu queria incluir na nossa conversa. Você citou em uma das suas respostas o fator China e o quanto a Ásia no geral, mas em particular a China, tem sido penalizada com essa guerra toda. E na quinta-feira o Xi Jinping vai ao encontro de Trump em Washington. Diante disso eu te pergunto: isso pode mudar alguma coisa? Xi Jinping pode ser uma espécie de Geral da Balança pode apontar um caminho para uma solução que impeça Trump de cruzar mais uma ou várias linhas vermelhas?
Olha, esse encontro, encontro importantíssimo, não, maior encontro do ano, sem dúvida alguma, do Xi Jinping com Trump. Terá questões comerciais bilaterais, certamente vai ter o tema da inteligência artificial nessa discussão. O Xi Jinping, só uma coisa, né, Xi Jinping não vem falar na Assembleia Geral da ONU, ele vem até os Estados Unidos, mas vai desnobar a Assembleia Geral. Muita gente sempre fala, ah, aquele defende multilateralismo, ele não vai usar o palanque da ONU não, ele só vem para falar com Trump e vai embora.
Em relação à guerra do Irã, a China sim é o país que é o fiel da balança, que teria a força para fazer alguma forma de, diria, mediação, mas de pressionar o Irã. A gente não pode esquecer, maior parceiro comercial da Arábia Saudita é a China, maior parceiro comercial do Kuwait é a China, maior parceiro comercial do Catar é a China, maior parceiro comercial dos Emirados Árabes é a China, maior parceiro comercial do Iraque é a China.
Maior parceiro comercial do Irã é a China. Maior parceiro comercial do Bahrein é Arábia Saudita, mas o segundo é a China. E o principal comprador de petróleo de todos esses países citados é a China. Então a China tem uma força muito grande. E no começo do conflito eles tinham muitas reservas ainda que eles compraram anteriormente, reservas estratégicas, mas daqui a pouco não vai ter mais. Então é do interesse da China que haja um acordo para encerramento do conflito.
Então eles podem tentar pressionar o Irã. Eles seriam na verdade o país único que teria uma força muito grande sobre o Irã, tá? A Rússia não tem interesse no fim do conflito ali no Oriente Médio, mas a China tem. Então eles podem conversar com Trump para ter alguma forma de pressão sobre o Irã. Mas mais uma vez, o Irã não vai capitular às demandas americanas. Então a China pode tentar mediar um acordo, mas que envolveria sim concessões dos Estados Unidos também.
E como tudo isso impacta nas eleições americanas? Eu falo especificamente sobre a inflação, que tem aumentado, ampliado a rejeição do, ao partido republicano. Então, com esse novo evento de uma crise que se arrasta já há muito tempo, que impacto pode haver nas eleições de meio de mandato, que são eleições para o Congresso americano? E como isso nos afeta aqui no Brasil também, diante de um calendário eleitoral?
Olha, a economia mal sempre afeta qualquer incumbente, e isso já tem um impacto nas eleições americanas. É normal que incumbentes também percam, sofram derrotas em eleições de meio de mandato. Petróleo seria uma exceção no caso do Trump esse ano. Outros temas têm tido muito peso nessas eleições, como a questão da inteligência artificial. Mas especificamente na economia, os democratas, de um discurso mais econômico deles, a questão do custo de vida, que veio com o Mamdani inicialmente, já tinha com Bernie Sanders na verdade, mas que o estado do chão democrata não pegava.
Mas nessa eleição tem sido muito forte deixar um pouco aquela questão de questões de gênero para se focar na economia. Então tem beneficiado os democratas é muito provável que eles tenham uma boa vitória na Câmara dos Deputados. Sempre lembrando que o mandato na Câmara nos Estados Unidos, mandato de deputado de 2 anos, não é de 4 como no Brasil. Então a Câmara inteira é renovada e é provável que os democratas reconquistem a maioria, muito provável.
Seria uma surpresa se eles não conquistassem. No Senado é um pouco mais complexo, um terço do Senado é renovado. O Senado, mandato do senador nos Estados Unidos é de 6 anos, então cada eleição um terço é renovado. Então depende um pouco do mapa. Hoje os republicanos têm 53 senadores contra 57 os democratas. Os democratas precisariam virar 4, né, porque se virar 3 fica 50 a 50, mas o voto de Minerva é do Jay e ele vence. Então eles precisam virar 4 para ficar 51 a 49, ou 5, porque tem um senador democrata, o John Fetterman, que é da Pensilvânia, que é trumpista.
Então na prática você teria que pegar mais um, então eles teriam que virar 5 senadores. É possível, mas muito difícil. Teria que ter vitórias em estados como Texas, por exemplo. Mas não dá para descartar essa possibilidade. Mas hoje dá para— os republicanos são favoritos para manter controle do Senado e os democratas são favoritos para para ter o controle sobre a Câmara.
Se os republicanos vencerem, vocês vencem com a gente, ganham $5.000, disse o presidente. Com aprovação em baixa por causa da guerra no Irã e da inflação, Donald Trump tenta manter o controle do Congresso na eleição legislativa. Por isso, fez uma promessa que custaria mais de 1 trilhão de dólares aos cofres públicos. Como eu disse, J.D. Esclarecer que a verba viria do tarifaço contra outros países. Só que essa arrecadação não paga nem 15% da conta.
A proposta levantou questionamentos sobre a compra de votos. A lei americana proíbe oferecer dinheiro ou pagar alguém para votar a favor ou contra um candidato.
E no caso do Brasil, Guga, para a gente finalizar, o Brasil impacta, impactar diretamente pelo aumento do preço do combustível, como todos os outros países do mundo.
Embora o Brasil produza petróleo e tudo, mas assim como Estados Unidos, o preço da gasolina acaba subindo, acaba acaba gerando um processo inflacionário dentro do Brasil também. E isso, claro, você gera inflação, pode colocar em risco, né, a redução dos juros, que até caiu na semana passada. E aqui nos Estados Unidos a taxa de juros está subindo justamente porque aqui tem inflação, né, inflação está subindo nos Estados Unidos.
E aí a taxa de desemprego continua relativamente baixa aqui nos Estados Unidos. Mas sobre a eleição de efeito de meio de mandato, pode ter efeito no Brasil sim, independentemente quem ganhe no Brasil. Um presidente que não controle ali o Congresso, que é provável que aconteça com Trump costuma se focar mais em política externa. E o campo de política externa que o Trump tem mais facilidade é América Latina. Isso já ficou provado com a Venezuela, outros temas.
Ele se acha popular na América Latina. Hoje tem presidência de direita em praticamente todos os países da América do Sul, tirando o Brasil e o Uruguai. Então você vai ter um presidente americano que talvez fique mais engajado nessa questão. Hoje é muito do Marco Rubio, né, do Departamento de Estado, mas o Trump pode começar a olhar ainda mais para América do Sul e especificamente principalmente para o Brasil, que é o maior dos países.
E claro, isso depende muito de quem vai ganhar a eleição no Brasil, se vai ser o Lula, se vai ser o Bolsonaro. E sempre de olho, Estados Unidos com olho nas terras raras.
Guga Chakra, te agradeço muito pelo esforço de reportagem, de conversar com a gente. Boa cobertura da Assembleia Geral da ONU para você, e em particular do encontro de Trump com Xi Jinping na quinta-feira. Bom trabalho.
Obrigado.
Este episódio usou áudios dos perfis Biz na Quênia no Facebook e France Info no YouTube.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui.
Até o próximo assunto.