ESPECIAL ELEIÇÕES: o país diante de uma encruzilhada ambiental
André Trigueiro
Mercedes Bustamante
Natalie Unterstell
Ricardo Abramovay
Suely Araújo
- A exploração de petróleo na margem equatorial e as propostas dos candidatosBrasil como grande produtor de petróleo·receita do petróleo para contas públicas·contradições com combate ao aquecimento global·opção governamental por expansão da produção·riscos do fracking na exploração
- A vulnerabilidade do Brasil a eventos climáticos extremos e a falta de preparosuper El Niño e aquecimento global·mais de 10 milhões em áreas de risco·limitações do Fundo Clima·necessidade de investimento em ciência e tecnologia·falta de alertas e estragos
- O impacto da crise climática na economia e na saúde globalrecordes de temperatura e desastres·falha em cumprir meta do Acordo de Paris·impacto no agronegócio e inflação·proliferação de doenças por mosquitos·rastreamento de exportações agrícolas
- O desmonte ambiental e a falta de escuta à comunidade científicamarco regulatório frouxo de licenciamento·déficit de servidores do IBAMA·atos infralegais de desmonte·impacto na qualidade de vida e autoestima·cientistas ansiosos e não ouvidos
- A transição energética brasileira e a falta de propostas concretas dos candidatosinvestimento em energias renováveis·gás natural como pseudo-solução·lobby do gás fóssil·excedente de energia renovável no Brasil·matriz de transporte e coletivos
- O desmatamento nos biomas brasileiros e o ponto de não retornoalterações climáticas irreversíveis·Pantanal e o ponto de não retorno·surgimento de desertos no Brasil·Cerrado com alta taxa de desmatamento·metas de desmatamento zero
Estamos às vésperas de enfrentar um super El Niño, um fenômeno que pode ser o mais forte em mais de 100 anos. O El Niño é um evento que ocorre de tempos em tempos, mas este tem um agravante: o aquecimento global. A revista Science, uma das mais respeitadas do mundo, publicou um estudo que confirma que a crise climática provocada pela queima de combustíveis fósseis agrava os efeitos do El Niño. E o Brasil tem muito a ver com isso.
Primeiro, é urgente que o país tenha uma melhor capacidade de lidar com os eventos climáticos extremos. Eventos que causam muitos danos, como o que nós vimos recentemente na Amazônia e no Rio Grande do Sul. Todo mundo vai se lembrar. Mas também porque a gente precisa reduzir ainda mais o desmatamento das nossas florestas. E a gente vai ter que decidir qual modelo nós queremos para extração de petróleo na margem equatorial, por exemplo.
Ou seja, a pauta ambiental que vencer esta eleição pode influenciar o futuro de todo o planeta, mas não o futuro do planeta assim como algo distante, o futuro dos nossos filhos, dos nossos netos, dos nossos bisnetos e por aí vai. Em razão disso, neste episódio, vamos explicar as ideias e as propostas dos candidatos à presidência da República para enfrentar esses tantos desafios a partir de 2027. Este é o 5º episódio de uma série sobre alguns dos temas mais relevantes que serão debatidos nesta eleição.
Da redação do G1, Eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: um Brasil para 2027, o país diante de uma encruzilhada ambiental. Neste episódio, eu converso com André Trigueiro, jornalista da TV Globo e editor do programa Cidades e Soluções, da GloboNews. Você também vai ouvir comentários de especialistas que conversaram com o nosso produtor Marco Antônio Martins. São eles: Sueli Araújo, Ricardo Abramovay, Mercedes Bustamante, Nathalie Unterstel.
Segunda-feira, 21 de setembro. Trigueiro, o governo começou a explorar petróleo na margem equatorial do Amazonas. Como é que os candidatos têm tratado esse tema em seus planos de governo?
Nenhum candidato se opõe à exploração de petróleo na margem equatorial, e aqui entre nós seria estranho se alguém o fizesse, considerando o que eu vou explicar agora muito rapidamente. O Brasil é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, estamos em 6º ou 7º lugar no ranking mundial, dependendo de como se faz a conta, à frente de países como Kuwait e Emirados Árabes Unidos. O conflito geopolítico no Golfo Pérsico, a ação militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã, e a dificuldade de passagem de navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz Determinou a escalada do preço do barril, o que é uma excelente notícia para as petroleiras.
O Brasil precisa da receita do petróleo via royalties, participações especiais, impostos, tributos, para aliviar a situação das contas públicas. Então, boa parte, eu diria, das propostas dos candidatos estaria calçada em receitas que o petróleo tem garantido. Esse é um ponto.
A descoberta confirmada pela Petrobras: petróleo do poço No Morfo, na Bacia da Foz do Amazonas, litoral do Amapá.
Fica a 175 km da costa. A estatal já tinha anunciado a identificação de hidrocarbonetos numa lâmina d'água a quase 3 mil metros de profundidade, sinal da presença de petróleo. E a exploração dessa área foi objeto de grande disputa interna no governo, de controvérsia, e durante muito tempo foi— levou-se muito tempo para chegar até o licenciamento do IBAMA.
Essas novas perfurações vão determinar a quantidade de óleo existente no Poço Mofo, na margem equatorial, que fica na costa do Amapá. O material já retirado ainda vai passar por uma análise de qualidade. Até agora, a Petrobras investiu 300 milhões de dólares no projeto.
Agora, há contradições nas mesmas propostas de governo quando se fala que é preciso combater evento climático extremo, é preciso enfrentar o problema do aquecimento global, quando na verdade esse é um consenso científico, é justamente a queima de petróleo, carvão e gás que agrava tremendamente o que nós estamos vendo, e de forma muito apreensiva, que é a escalada dos desastres no Brasil e no mundo por conta disso. Vamos pegar aqui dois exemplos para a gente entender combustível fóssil nas eleições de 2026.
O candidato da situação, presidente Lula, que foi protagonista e defensor da exploração de petróleo na Margem Equatorial, é o mesmo que no ano passado, na COP30 em Belém, vendeu o roadmap para redução da dependência dos combustíveis fósseis, quer dizer, o mapa do caminho para a gente ter um cronograma e não ficar óleo-dependente, porque isso custa caro para o Brasil e para o planeta. Na época, então, o ministro do Meio Ambiente, hoje candidato ao Senado por São Paulo, Marina Silva, admitiu: é uma contradição, e é uma contradição que não é só do Brasil, é do mundo.
Na prática, há uma opção governamental por uma grande expansão da produção de petróleo em plena crise climática. Isso é, no mínimo, questionável.
Você escuta Sueli Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.
Essa produção não é para segurança energética interna. Nós exportamos um pouco mais da metade do petróleo que nós produzimos. Isso significa que nós não estamos usando esse petróleo. Nós não precisamos abrir novas fronteiras olhando a demanda interna do país. Nós temos petróleo por muitos anos sem precisar abrir novas áreas como a Foz do Amazonas.
O candidato Flávio Bolsonaro tem falado na proposta de governo sobre a importância de ter combustíveis a preços acessíveis para o brasileiro, e ele avança o sinal na direção de um compromisso de governo para colocar o Brasil como produtor de gás de xisto através de uma tecnologia controversa chamada fracking, que é fracionamento hidráulico. Inclusive, hoje no Brasil nós temos dois estados, que são Paraná e Santa Catarina, que têm leis aprovadas contra o fracking, e mais de 400 municípios aprovaram leis municipais contra essa tecnologia.
Nos Estados Unidos, nós temos 5 estados americanos igualmente que proibiram por lei. Aqui a gente não quer essa tecnologia. Por quê? Porque o risco de ter escape de óleo e gás contaminando o solo e água não é desprezível. Mas isso tá na proposta também do candidato da oposição.
Você escuta Nathalia Unterstel, presidente do Instituto Thalanoa.
Então, quando a gente diz, não, a gente vai expandir aqui as renováveis, mas a gente vai continuar abrindo novas áreas de exploração, que é o que vem acontecendo, inclusive na Foz do Amazonas, essa tentativa agora na prospecção, a gente não tá deixando a transição acontecer. E aí, no fim das contas, o Brasil não está fazendo a transição.
Trigueiro, o que que os candidatos propõem para transição energética brasileira, né? Os especialistas falam da urgência, eu ouço e vejo você falando dessa emergência há muito tempo, né, para fazer uma transição para fontes mais verdes. Quem é que tá tocando nesse assunto e quem não tá?
Todos estão falando de alguma forma sobre esse assunto quando defendem a importância do investimento em energia solar, energia eólica, biomassa. Há quem fale de hidrogênio, eles se funcionam. Aliás, esse mantra da transição energética lembra um pouco a unanimidade quando a gente fala da educação de qualidade, Natuza. Você não aguenta mais ouvir falar de tanta gente do setor público, privado, especialistas, jornalistas: é preciso investir em educação. Fica feio quando você não diz algo nessa direção.
Virou lugar comum, né?
Seja qual for a metodologia, sua visão de como deve se promover educação, todo mundo reconhece, é fato, isso é baseado em evidências, o Brasil não vai bem nos indicadores internacionais de educação e nunca tivemos em escala, principalmente para as camadas mais desassistidas, educação em tempo integral para o pobre, etc. Transição energética tá indo por aí, viu, Datus? Eu preciso te dizer, fica feio não tá posicionado no tabuleiro em relação a isso.
Qual é a questão? A questão é que a gente fala de transição energética, os candidatos portanto abrem a porteira quando falam que também há espaço— presta atenção nisso porque é um detalhe importante— gás natural. Eu vou dar um exemplo. A gente teve a aprovação dias atrás do projeto que cria espaço e atrações fiscais para data center no Brasil, né? Então é o projeto Redata, foi aprovado no Congresso. Aí você tá falando de data center sustentável, você sabe que data center é uma draga monumental de energia e de água, e a ideia do Brasil é hospedar esses equipamentos muito controversos, dependendo da forma como se permite a chegada deles, sem sacramentar nesse marco regulatório.
Olha que absurdo! E eu não vejo os candidatos dizendo isso com todas as letras, que seja exclusividade de fontes renováveis de energia. Ou seja, que o data center não seja mais um emissor de gases de efeito estufa.
Então não dá para garantir que sejam data centers verdes.
O projeto aprovado não garante, deixa para regulamentar depois. Você sabe que no Brasil regulamentar depois é a senha para dizer depois a gente vê como é que fica, e é o espaço de atuação dos lobistas, principalmente aqueles que tentam vender a ideia de que gás natural é gás bom. É algo que faz bem para o meio ambiente. Gente, gás natural é melhor do que petróleo, é melhor do que carvão, mas é combustível fóssil.
O problema do REDATA, que é essa legislação sobre os data centers—
você escuta Nathalia Terstel—
foi que nos minutos finais ali se criou uma brecha. Então a redação deixou de ser energia limpa para passar a energia de baixas emissões. E aí tem uma disputa movimentada muito pelo lobby do gás fóssil, que quer ainda achar que no Brasil o gás fóssil é energia de baixas emissões.
E o Brasil tem excedente de energia renovável. A gente corta todo dia. Operador Nacional do Sistema Elétrico, eles chamam esse procedimento de curtailment. Você corta quantidades colossais de energia eólica e de energia solar porque o Brasil não precisa de tanta energia. A gente joga fora. Isso foi até judicializado. Ou seja, a equação deveria ser resolvida. Brasil abre espaço para hospedar data center? Vamos criar condições. Precisa ser de fonte renovável.
Isso não tá garantido. Então o lobby do gás natural, bem como o lobby do carvão mineral lá do Rio Grande do Sul, Candiota, é poderoso em qualquer governo. E nas propostas de governo você vê mais sutilmente uma forma de não fechar a porta para— você fala de transição energética, mas você, digamos, abre espaço para as entrelinhas, aonde o gás natural entra como uma pseudo-solução. Gás natural é combustível fóssil, se queimado gera CO2.
Energia eólica e solar não.
Do ponto de vista energético, você escuta Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP.
Embora nós tenhamos uma matriz energética considerada a mais limpa do mundo em função da presença de hidrelétricas, nós ainda estamos subsidiando térmicas a carvão e nossa matriz de transporte ainda é fundamentalmente voltada para o transporte individual. Mesmo que os veículos elétricos estejam avançando no Brasil, hoje nós já passamos da cifra de 1 milhão, em primeiro lugar esses veículos são na maior parte importados. Mesmo que as emissões dos elétricos sejam muito menores que as emissões dos veículos com motor a explosão interna, do ponto de vista do trânsito, e esse é um problema ambiental seríssimo, Os veículos elétricos não resolvem os problemas do trânsito.
Então nós precisamos migrar para muito mais participação dos transportes coletivos, e isso exige uma estratégia de reconfiguração das próprias cidades e, portanto, de reduzir a necessidade de que as pessoas se desloquem 2, 3 horas por dia para poderem ir para os seus trabalhos.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com André Trigueiro. Mudando um pouco de assunto, mas não na verdade, né, porque tá tudo interligado. A gente está à véspera de um super El Niño que pode ser o mais forte em mais de 100 anos. Não é nenhuma novidade no Brasil ver a população, sobretudo a população de menor renda sofrendo com eventos climáticos extremos. Há uma combinação dessas duas, desses dois fenômenos, né, o El Niño com o resultado das mudanças climáticas.
A gente teve seca histórica nos rios na Amazônia, fizemos um episódio de O Assunto sobre isso, a gente viu o que aconteceu no Rio Grande do Sul. O que que os candidatos estão apresentando pra adaptação das cidades, a esses eventos climáticos extremos, a essa mudança no clima, ou até para mitigar, reduzir os danos desses eventos aqui no Brasil? Quem de fato está preocupado com esse tipo de problema?
Bom, do meu ponto de vista, nós temos aqui um varejo de soluções que não são detalhadas ou não são especificadas como eu acho que deveria ser. Porque a gente fala proposta de governo, a gente tá falando de um calhamaço de 85, 90, 100 páginas. Como esse é um assunto emergencial, eu fico muito frustrado quando vejo o lugar comum de dizer: precisamos sofisticar os sistemas de alerta, precisamos fortalecer Defesa Civil. Você não entra nos detalhes.
Por exemplo, Natuza, é importante a gente dizer isso: nenhum dos candidatos menciona o número oficial do SEMADEM, o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. Mais de 10 milhões de brasileiros hoje vivem em áreas de risco. Não é que eles morem mal, não é que eles morem em favela, palafita, não, em área de risco. Que que é área de risco? Qualquer chuva, e não precisa ser acima da média. Qualquer vento, e não precisa ser um vento que seja considerado evento climático extremo, coloca em risco essas pessoas vulneráveis também a enchentes, alagamentos, inundações.
Que que são mais de 10 milhões de pessoas? Eu fiz essa conta, é a soma das populações de Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Brasília. Esses mais de 10 milhões de brasileiros não foram contemplados em nenhum programa de governo para a presidência da República.
Fundo Clima mexia entre R$400 milhões e R$500 milhões por ano no BRDS com empréstimos.
Você escuta Sueli Araújo.
Esse ano nós temos R$22 bilhões disponíveis para empréstimos no Fundo Clima. Subiu muito o valor disponível. Tem limitações porque é um dinheiro que é emprestado, não é um dinheiro a fundo perdido. Então ele não alcança os municípios em áreas de risco que não têm capacidade de endividamento. 2024 foi o ano mais quente da história, 2023 o segundo ano mais quente, 2025 o terceiro ano mais quente.
E com El Niño esse ano.
Vamos ver como que vai ser o resultado entre 2026 e 2027. Mas a crise climática já chegou, o mundo mudou. Nós temos eventos extremos todo dia, todo dia, né? Não dá para ignorar isso. Tem candidatos que são negacionistas mesmo.
Também não vi detalhada nenhuma proposta, digamos, que mereça maiores considerações sobre algo que nos distingue negativamente. Nós avançamos em vários aspectos na capacidade de prever eventos dados climáticos. Nós temos um novo supercomputador, nós temos, como já disse, a criação, desde o desastre da região serrana do Rio em 2011, desse Semaden, que é muito bom, é o berço dos alertas. O Semaden manda para Brasília, para Defesa Civil Nacional, as conjunturas climáticas, para de lá haver a irradiação dos alertas pelas defesas estaduais e municipais.
Que que tá faltando? Muita coisa. Natuza, você viaja pelo mundo, você sabe, hemisfério norte, Europa, Estados Unidos, quando você tem a previsão do tempo, broadcast, você vai ter assim: vai chover em Nova Só que você tem a singularização da previsão em cada lugar de Nova York. Você vai dizer assim: olha, para cá a previsão é de temperatura entre X e Y, para cá é X e Z. Você tem o detalhamento da previsão, você fatia uma cidade com um razoável nível de acerto.
E tem sistemas muito sofisticados que empregam radares, supercomputadores, inteligência artificial, e isso salva vidas. O Brasil é um dos países mais vulneráveis a eventos climáticos extremos, e a gente precisa investir sim em ciência e tecnologia voltado, dirigida para aquilo que eles chamam de nowcasting. É uma previsão que você fica atualizando o tempo todo com nível de precisão absurda. É outra coisa, é uma coisa que a gente não tem ainda no Brasil.
Aqui no Rio de Janeiro, de onde eu tô falando com você, semanas atrás, não faz muito tempo, nós tivemos uma ventania que não teve alerta nenhum, zero alerta, e o vento causou muitos estragos, assustou a população, destelhou casas, levou caixa d'água que tava no alto do prédio para o chão. Foi uma coisa horrorosa. A gente não tá preparado para isso, Natuza.
O fenômeno El Niño que se agrava com a mudança climática.
Você escuta Mercedes Bustamante, professora e pesquisadora da UnB e integrante da Academia Brasileira de Ciência.
Para o Cerrado tem um aspecto fundamental, que é tornar o período chuvoso mais irregular, porque é um sistema cuja produção depende dessa sazonalidade da chuva, retardar a entrada do período das chuvas, ou seja, chove menos e chove de forma mais irregular. Isso é tudo o que a agricultura não precisa, que é o que a agricultura precisa, é regularidade na entrada da chuva e a chuva na quantidade certa, na época certa. E aí nós temos que pensar também nos pequenos produtores.
A gente vê muito o grande produtor no Cerrado, mas nós temos também agricultura familiar, os pequenos produtores, uma situação de muito mais vulnerabilidade.
Então os candidatos, me perdoe se eu tô vendo a parte vazia do copo, né, o copo vazio, mas a nossa função aqui também é mostrar o que falta para você ter presidentes que vão assumir o cargo a partir de janeiro de 2027, num mundo em transformação. Que que foi 2026, Natuza, em um minuto? Começou com a maior tragédia climática desde fora. Nós tivemos um inverno, perdão, verão, inverno aqui no Brasil, um inverno na Europa que eles jamais vão esquecer.
Mais de 30 mil óbitos por ondas de calor. Os rios mais importantes da Europa, eu tô falando do Danúbio, que atravessa boa parte do continente, o Reno na Alemanha, o Sena na França, secando. Tiveram que desligar central nuclear porque não tinha água de rio para resfriar o reator. Isso num continente onde apenas 20% das edificações têm aparelho de ar-condicionado. Eles não estão preparados para isso.
O Laboratório Copérnico afirma que foi uma combinação do aquecimento global causado pela queima de combustíveis fósseis e da intensificação do El Niño no Oceano Pacífico. Agosto, juntamente com julho de 2023, foi o mês mais quente já registrado. As temperaturas ficaram 1,65 graus acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando o limite crítico de 1,5 grau estabelecido pela ciência para evitar as piores consequências das mudanças climáticas.
Com a intensificação do El Niño ao longo deste ano e do próximo, a temperatura média pode subir ainda mais, com impactos para as comunidades, economias e ecossistemas em todo o mundo. E o calor infernal aqui na Europa pressiona a inflação no continente ao destruir colheitas, sobrecarregar as redes elétricas e causar gargalos no transporte pelos rios. Lá no Pacífico, praias estão desaparecendo na costa da Califórnia por causa do avanço do mar.
E a gente tá testemunhando no Brasil, Rio Grande do Sul novamente, de forma muito intensa, chuvas fortes, tornados, inundações, sem falar numa enxurrada histórica de pedra, de lama, de água nos Himalaias, na fronteira entre Nepal e Tibete, que agora eu tô falando com você, horas atrás veio a notícia. E ciência é evidência, não chuta nem acha. Eles tiveram que fazer comparação séria histórica. Isso está ligado ao aquecimento global.
Semanas atrás tivemos o reconhecimento oficial de que não conseguiremos cumprir a meta principal do Acordo de Paris, que é segurar a elevação da temperatura média comparada com o período pré-industrial, Revolução Industrial, em 1,5 grau. Nós também estamos testemunhando mais de 100 dias sucessivos de recorde da temperatura dos oceanos. Não é possível um presidente da República Federativa do Brasil que sentar no trono em Brasília não perceber que isso tem intercorrência com agronegócio, isso tem intercorrência com taxa de juros, porque segurar inflação de alimento depois de uma quebra de safra por onda de calor bate no bolso.
Tem que se ligar, quando você fala desses problemas, eles batem no teu bolso, eles infligem prejuízos econômicos, e eles mudam a política cambial, eles mudam a política de juros, ele muda o preço do seguro. Então a gente tá falando não é de meio ambiente e clima, a gente tá falando de qualidade de vida, prosperidade, longevidade e saúde, Natuzio.
Cada vez mais o mundo vai exigir que as exportações de matérias-primas agrícolas e minerais sejam rastreadas.
Você escuta Ricardo Abramovay.
E as mudanças climáticas, o grau de emissão contido em cada unidade exportada, isso vai fazer parte das negociações globais em torno das exportações de matérias-primas. E nosso principal parceiro comercial, que hoje é a China, tem uma preocupação imensa com relação a isso. E é uma ilusão achar que, como o Brasil produz proteínas para as produções animais, que o mundo é dependente do Brasil, seja lá como for.
Trigueiro, e por último, nos últimos anos o Brasil vem registrando queda de desmatamento ou no desmatamento em diversos biomas. Ainda assim, se a gente for olhar para a Amazônia, para o Cerrado, para o Pantanal, para a Caatinga, a gente vê que esses biomas enfrentam o risco de atingirem o chamado ponto de não retorno. O que que tá nos planos dos candidatos para reverter isso? Se é que isso está nos planos de governo.
Não vi nenhuma proposta, a menção ao chamado ponto de não retorno. Para explicar para o seu público o que que é isso, é quando você tem alterações climáticas consideradas irreversíveis para aquele bioma, ele se transforma em outra coisa. Há lugares do Pantanal que alcançaram o chamado ponto de não retorno, ou seja, o Pantanal, que é a maior planície alagada do planeta, tem o período de cheia e de seca o ano inteiro. Ou tem muita água ou tem pouca água, mas é um fluxo contínuo.
Pois bem, eu fui no lugar no Pantanal onde há aproximadamente duas décadas, a água não tá chegando, o solo tá rachado, já mudou configuração de fauna e de flora. Isso é ponto de não retorno. Dois anos atrás, no sertão da Bahia, a gente fez um programa para GloboNews, Cidades e Soluções, mostrando o projeto do primeiro deserto brasileiro. Área mais seca do Brasil era o semiárido nordestino, onde menos chovia. Essa região, eu fui numa cidade que tem um nome curioso chamada Xorroxó.
Lá chove muito menos do que no semiárido. E por que que é projeto de deserto? Porque leva um tempo até você mudar a configuração dos animais, da fauna e da vegetação. A seca vai mudando, é uma mudança contínua, mas é lenta. O Brasil vai começar a ter deserto. Isso é uma péssima notícia.
Cerrado, ele hoje é bastante preocupante porque é o que apresenta a maior taxa de desmatamento. Apesar de uma redução tímida que nós tivemos, as taxas continuam altas.
Você escuta Mercedes Bustamante.
E essas taxas altas, elas são preocupantes porque elas já atingem bioma que já perdeu quase 50% da sua cobertura vegetal nativa. O pouco que tem hoje está muito fragmentado e sujeito à degradação, e se o desmatamento continua, você vai agravando esse quadro. Então, o que nós percebemos hoje, e o Cerrado tem esse papel central, a gente chama do coração das águas do Brasil, né, pela sua posição estratégica, as suas partes altas que absorvem essa água, distribuem essa água para outras bacias hidrográficas brasileiras.
A sua importância tá além das fronteiras geográficas que definem o bioma, porque ele fornece água para diferentes regiões do Brasil.
Então vamos lá, em relação a desmatamento, há um reconhecimento de que é preciso conter o desmatamento ilegal, e os dois candidatos que estão à frente na disputa se posicionam com prazos para isso. Presidente Lula mantém a política vigente: desmatamento ilegal zerado até 2030. E surpreendentemente, o candidato Flávio Bolsonaro antecipou em um ano. Eu acho que não é por acaso, ele quis dizer: eu sou melhor que você, vou antecipar em um ano, 2029, desmatamento zero.
Não é desmatamento zero absoluto, é desmatamento líquido zero, é o balanço entre o que se desmatou e o que houve de restauração florestal. Você faz a conta, se fechar no azul, beleza. Se fechar no vermelho, não é zero.
O fechamento dos dados anunciados hoje são do sistema Ardetê, que monitora em tempo tempo real o ritmo do desmatamento nos principais biomas do país e cobre de agosto do ano passado até julho deste ano. O intervalo é considerado pelos pesquisadores do INPE como o ano desmatamento. Os dados indicam que no período de 2025/2026 houve uma queda no desmatamento na Amazônia de 36,9%. Foram 2.874 km² quadrados, a menor área desmatada desde o início da série histórica mais recente, que começou em 2015.
No Cerrado, a queda no desmatamento é menos expressiva, 7,8% abaixo que no período anterior, com 5.119 quilômetros quadrados. Ainda assim, é a menor área desde o período 2021/2022. O Ministério do Meio Ambiente atribui a queda nos índices à maior legalização e principalmente a parcerias com prefeituras das cidades que apresentavam as maiores taxas de desmatamento.
Então vamos aos dados aqui. A gente tem um problema grave no Brasil, gravíssimo, que permeia todo esse debate eleitoral e precisa ser considerado, e nenhum candidato tá falando disso. Eles vão herdar um marco regulatório frouxo de licenciamento ambiental e que traz um jabuti que foi sugerido pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, chamado licenciamento ambiental Especial, LAE. Olha, isso já tá em vigor, tá? Olha o perigo disso.
É inacreditável do ponto de vista de quem consulta os quadros técnicos que entendem de licenciamento. Dois pontos. O primeiro deles: o Licenciamento Ambiental Especial define um conselho de governo que vai escolher qual projeto a gente considera estratégico. Ah, esse aqui, um ano de prazo no máximo para licenciar. Qual é o problema? Alguns projetos que são mais complexos não são passíveis de uma aprovação ou de um licenciamento que faça sentido no prazo de um ano.
Simples assim. Não faz sentido estabelecer um prazo tão rígido. Dependendo do tipo de projeto, haverá uma solução meia-pataca, uma solução que não resolve. Por que que Davi Alcolumbre sugeriu isso? Porque ele queria avançar rápido no projeto de exploração de petróleo na margem equatorial, apenas e tão somente por isso. Qual é a questão do licenciamento ambiental? Eu chequei esses dados antes de falar com você porque eles podem mudar a numeração.
Licenciamento ambiental, quando demora, todo mundo cai de pau em cima do Ibama. O que que as pessoas não costumam lembrar? Nós temos hoje um déficit de 2.032 servidores do IBAMA. IBAMA e Polícia Federal por vezes se assemelham. Precisa de Polícia Federal para fazer tanta coisa, investigar tanta gente, fazer tudo ao mesmo tempo. E a Polícia Federal também tá ali operando meio no limite. O IBAMA tá operando no déficit, não tem fiscal em quantidade suficiente, não tem analista ambiental em quantidade suficiente, mas o Brasil quer avançar em termos de pessoas.
Ambiental, eu tenho muita preocupação.
Você escuta Sueli Araújo.
Porque houve concurso no governo Lula, mas para poucas vagas. Na verdade, tanto o IBAMA quanto o Instituto Chico Mendes quanto o próprio Ministério do Meio Ambiente, Administração Direta, precisariam de muito mais gente. Mesmo que você trabalhe assim com a tentativa de maior eficiência possível, simplesmente não dá. E não é só fiscalização. Na legalização é o mais sério. Nós temos perto, não chega a 900 fiscais no IBAMA para o país como um todo, do Oiapoque ao Chuí.
Então faça a composição dos quadros funcionais do IBAMA. Em relação ao Flávio Bolsonaro, é importante, é inegável, a gente não tem como desvincular o filho do pai. E o pai deixou, e são dados, a fonte é o Instituto Talanoa, que se deu ao trabalho de passar o pente fino nos 3 primeiros anos do governo anterior na área ambiental e climática. 2.189 atos infralegais, no melhor estilo passa boiada do ex-ministro Ricardo Salles. Infralegal não depende do Congresso.
Você se lembra durante a pandemia que aquela reunião que foi gravada expôs a intenção do então ministro de passar boiada, porque ninguém tá prestando atenção no que a gente tá falando, tá todo mundo ligado no drama da pandemia.
Ao todo, 25 autoridades participaram da reunião. Além do presidente Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão, estavam ministros e presidentes de bancos estatais. Em sua intervenção, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu que o governo federal mudasse as regras de proteção ambiental e da área de agricultura sem passar pelo Congresso. Então, para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas de IFAM, de Ministério da Agricultura, de Ministério do Meio Ambiente, de Ministério disso, que Ministério daquilo.
2.189 atos infralegais de desmonte das medidas protetivas do clima e do meio ambiente são o legado de um governo que agora poderá ter um desdobramento em tempos de crise climática ambiental sem precedentes na história da humanidade, com impacto sobre economia, saúde, resiliência, longevidade. É importante a gente tá ligado nisso, Natuza. Não é um detalhe. Quando a gente fala de meio ambiente, o meio ambiente começa no meio da gente e ele tem impacto sobre qualidade de vida, sobre autoestima.
Quando a gente fala de saúde, temperatura um pouco acima prolifera mosquito. Já temos caso de dengue na Europa. Isso porque o clima equatorial passa a ter sinais dos trópicos e o mosquitinho chega lá. E mosquitinho pode matar. A gente tem uma coleção de doenças que podem determinar sequelas graves ou irreversíveis ou morte. Mosquitinho é dengue, chikungunya, zika, malária, febre amarela. Eles adoram calor e umidade, eles adoram aquecimento global, eles expandem o raio de ação.
Então a gente precisa estar em jogo. E eu encerro aqui essa resposta lembrando uma pesquisa publicada pelo jornal The Guardian, jornalão britânico, que aliás no seu conselho editorial decidiu não usar a expressão mudança climática, é crise climática ou emergência climática, para sinalizar para os seus leitores a gravidade da situação. Eles entrevistaram mais de 380 cientistas climáticos top no mundo sobre qual é a visão que vocês têm de um futuro próximo, que não seja muito distante.
E o Guardian descobriu na aferição das respostas que boa parte desses cientistas, alguns deles laureados com Nobel, estavam ansiosos, deprimidos, tristes. Por quê? Que eles não estavam sendo ouvidos pelos tomadores de decisão. Eu tive semanas atrás a convite da SBPC, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, no encontro anual que eles fizeram, por acaso, aqui em Niterói, na região Metropolitana do Rio. Eu tava lá, eu ouvi de vários desses cientistas algo que me lembrou dessa reportagem do Guardian.
Natuza, você consagrar a vida privando-se do contato com a família, dos amigos, de viagens legais, de convivência com pessoas interessantes, chafurdando no laboratório, fazendo pesquisa de campo, cheio de mosquito, cheio de coisa lá que não tem infraestrutura, para publicar um artigo científico no periódico internacional que eleva o nível de conhecimento sobre o que que tá acontecendo com o planeta. Eu lamento não ter encontrado na maioria a maioria dos candidatos à presidência qualquer cuidado de, antes de colocar ali uma proposta, ouvir a comunidade científica do Brasil.
Nós temos alguns dos melhores cientistas, quadros técnicos reconhecidos internacionalmente. Vou citar dois nomes: o Dr. Paulo Artacho, da USP, o Dr. Carlos Nobre, o engenheiro florestal Tasso Azevedo. São pessoas que são reconhecidas lá fora como luminários na área do conhecimento. Eles não estão sendo ouvidos como deveriam. Não é bom sinal.
Nossa, Trigueiro, que pancada ouvir você, ainda mais nesse final, tanto falando de como cientistas sofrem porque não são ouvidos, né, como se você fosse aquele mito de Sísifo, né, você vai levando a pedra até o cume da montanha e aí ela rola de novo para base, tanto quanto quando você diz que os nossos cientistas, esses luminares lá fora, não são ouvidos para formulação dos planos de governos dos candidatos. Trigueiro, muito obrigada por topar conversar com a gente. Bom trabalho para você.
Valeu, tudo de bom.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaboraram neste episódio Viviane Mateus e Patrícia Cunha. Este episódio usou áudio do canal Desce a Letra Show no YouTube. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.