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A interferência (cada vez mais explícita) dos EUA na eleição brasileira

18 de setembro de 202631min
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Convidados: Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV e pesquisador do Carnegie Endowment. Durante as negociações entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, a gestão de Donald Trump enviou à diplomacia brasileira um documento com uma lista de exigências, entre elas a de que o país permitisse que "dissidentes políticos" concorressem às eleições de 2026. O Itamaraty rejeitou a proposta por considerar o texto "absurdo". E este é só mais um item na lista de intervenções políticas da Casa Branca: o próprio tarifaço, episódio no qual Trump enviou a Lula uma carta que acusava o Brasil de "caça às bruxas" e mencionava o ex-presidente Jair Bolsonaro; a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do STF Alexandre de Moraes; a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas; e o cancelamento do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luísa Ribeiro Viotti. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Oliver Stuenkel sobre as sucessivas ações do governo americano em relação ao Brasil. Oliver analisa o alcance das medidas e os objetivos de Donald Trump no país.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
O

Oliver Stuenkel

ConvidadoProfessor de Relações Internacionais
Assuntos6
  • A lista de exigências dos EUA ao Brasil e a interferência políticaDonald Trump·Eleições de 2026·Dissidentes políticos·Itamaraty·Tarifaço
  • Ações do governo americano como interferência política no BrasilDonald Trump·Lei Magnitsky·Alexandre de Moraes·PCC·Comando Vermelho·Maria Luísa Ribeiro Viotti
  • A possibilidade de novas sanções dos EUA contra ministros do STFAlexandre de Moraes·Flávio Dino·Gilmar Mendes·Eduardo Bolsonaro·Lei Magnitsky
  • O intervencionismo partidário dos EUA na América LatinaDonald Trump·América Latina·Javier Milei·Honduras·China
  • A estratégia de segurança dos EUA e o impacto nas eleições brasileirasDonald Trump·Eleições de meio mandato·Flávio Bolsonaro·PCC·Comando Vermelho
  • O alinhamento do Brasil com os EUA sob um eventual governo BolsonaroFlávio Bolsonaro·Donald Trump·China·Huawei·Terras raras
Transcrição57 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
NNNatuza Nery

Lista de exigências é uma expressão que a gente costuma ouvir em situações de sequestro, chantagem, negociações sob pressão. Uma lista com 52 itens e entre eles uma exigência para que dissidentes políticos, exatamente essa expressão, dissidentes políticos, possam disputar a eleição.

OSOliver Stuenkel

Essa expressão dissidentes é uma expressão de um modo geral usada em países comunistas. Dissidentes são aqueles que discordam de ditaduras internas e são presos, como é no caso da Rússia, por exemplo. Houve muitos dissidentes presos.

NNNatuza Nery

Essa exigência constava de um documento enviado pelos Estados Unidos ao Brasil no contexto das negociações para reverter o tarifação, e essa informação foi revelada somente agora.

?Voz C

Informação trazida pelo jornal Estado de São Paulo. A GloboNews também confirmou com fontes na diplomacia que sim. Desde o ano passado, quando Donald Trump enviou aquela carta endereçada ao presidente Lula e que fazia menção, nas palavras dele, à caça às bruxas, numa referência ao processo ao qual o ex-presidente Jair Bolsonaro respondeu no Supremo Tribunal Federal e pelo qual ele foi condenado por crimes como tentativa de golpe de Estado, desde aquele momento integrantes do governo, e eu tô falando do Itamaraty, do Palácio do Planalto, também do Ministério do Desenvolvimento, Indústria de Comércio vinham dizendo o seguinte, que havia componentes para além das questões comerciais.

Até porque um dos pontos colocados por Donald Trump fazia referência a um déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil, quando na verdade é o contrário, os Estados Unidos têm déficit nessa relação comercial. Então os integrantes do governo vinham dizendo que havia sim elementos políticos.

NNNatuza Nery

No ato, a diplomacia brasileira rejeitou o pedido e disse que questões políticas, judiciais e de soberania não estariam na mesa de negociação.

?Voz D

Não existe essa figura no Brasil, um dissidente ou alguém que seja contra o governo Lula e que por isso esteja proibido de disputar eleição. Então, primeiro, o questionamento para o governo americano: que dissidente é esse? Será que eles estavam se referindo a Jair Bolsonaro, o ex-presidente da República, condenado na ação penal do golpe e por isso perdeu os seus direitos políticos, aí não se trata de um dissidente político, aí se trata de um político, né, que foi condenado com trânsito em julgado, está cumprindo pena.

E neste caso, a legislação brasileira não permite que ele seja candidato, não tenha, não pode nem votar nem ser votado. É o que prevê a nossa legislação.

NNNatuza Nery

Mas esse é apenas um capítulo dessa história toda. Uma retórica que começou lá atrás, pouco antes do julgamento da tentativa de golpe aqui no Brasil.

?Voz E

Do nada, Donald Trump deu ao Brasil o pior tratamento entre todos os países atingidos pela guerra comercial que ele deflagrou: 50% sobre todas as nossas exportações para os americanos. Numa carta dirigida ao presidente Lula, Trump abriu atacando o processo em que Bolsonaro é réu no Supremo. O presidente americano já tinha dito que esse julgamento era uma caça às bruxas.

NNNatuza Nery

Depois vieram as sanções contra ministros do Supremo.

OSOliver Stuenkel

Estados Unidos sancionam ministro do STF Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky, que é usada para punir estrangeiros por parte do governo norte-americano.

NNNatuza Nery

E teve mais: o governo americano classificou as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

?Voz E

O governo Trump cita o envolvimento das facções com tráfico de drogas, violência e crimes transnacionais.

OSOliver Stuenkel

O governo brasileiro é contra a classificação das facções como terroristas por considerar que isso ameaça a soberania do país.

NNNatuza Nery

Pra você não perder a conta, houve até uma crise diplomática inédita.

?Voz E

O governo Trump cancelou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luísa Ribeiro Viotti. Segundo os Estados Unidos, isso aconteceu porque o Brasil ainda não deu o aval para o novo embaixador americano assumir o cargo em Brasília. Só que o governo brasileiro diz que essa justificativa é falsa e que os Estados Unidos anunciaram o nome do indicado antes do processo diplomático normal.

NNNatuza Nery

E lembra do tarifaço contra os produtos brasileiros, aquele que a Suprema Corte americana derrubou? Pois é, teve um outro depois desse.

?Voz E

Governo dos Estados Unidos propôs um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. A medida Veio depois de uma investigação concluir que o Brasil aplica práticas comerciais consideradas injustas.

NNNatuza Nery

E na terça-feira, durante a melancólica sessão do Supremo Tribunal Federal, mais uma página desse livro de interferências foi escrita. O ministro Flávio Dino, durante a sessão, verbalizou isso.

OSOliver Stuenkel

Tá aqui, é Band: Estados Unidos prepara o rascunho de possíveis novas sanções a Moraes. É 247: Estados Unidos podem retomar sanções contra Moraes Após sessão do STF, dessa sessão, Jovem Pan: Estados Unidos avaliam nova rodada de sanções contra ministro do STF.

?Voz F

E isso aqui é uma ingerência indevida?

NNNatuza Nery

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: a interferência explícita dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Neste episódio, eu converso com Oliver Stunkel, professor de relações internacionais da FGV, e pesquisador do Carnegie Endowment. Sexta-feira, 18 de setembro. Bom, Oliver, o governo Trump mandou ao Brasil uma lista com 52 exigências durante as negociações para derrubar o tarifação. E aí o que chama mais atenção nessa história é a garantia de que dissidentes políticos, e essa expressão foi usada, participassem das eleições de 2026.

E o Brasil, claro, rejeitou essa e outras propostas, porque essa não era a única. O que que os Estados Unidos estavam pedindo na prática? Como é que a gente faz a interpretação desse texto?

OSOliver Stuenkel

Bom, o governo Trump, quando anunciou as tarifas, já havia mencionado temas como esses, que não têm relação nenhuma com questões comerciais. Então, isso em primeiro lugar mostra claramente que o governo Trump utiliza tarifas para atingir metas em áreas não relacionadas relacionadas ao comércio, né, utiliza tarifas como ferramenta política. Mas também essa, esse documento explicita claramente o desejo por parte dos Estados Unidos de interferir em assuntos internos no Brasil, ou seja, de utilizar as tarifas como uma ameaça.

E faz uma premissa de que há dissidentes políticos no Brasil, sendo que o termo dissidentes implica o regime autoritário, né. A gente fala de dissidentes políticos em regimes não democráticos. E isso também explica porque a resposta brasileira justamente tem sido rejeitar essa premissa e dizer que houve um processo formal democrático que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas mostra claramente não apenas o pronunciamento do presidente, mas também como isso de fato ocorreu na prática durante as negociações.

?Voz E

Eu acho que essa revelação deixa muito claro o objetivo final daquela interferência, daquela ameaça do tarifação 1.0, né, de todo o processo que vem sendo costurado desde fevereiro de 2025 por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo lá nos Estados Unidos. Parecia que era somente sobre o julgamento de Jair Bolsonaro, de impedir que ele fosse julgado e condenado. Agora a gente está sabendo que a intenção era mais ambiciosa. Não era somente interferir no julgamento, impedir a condenação, mas também devolver Jair Bolsonaro, todo o campo, né, todo o grupo ao processo eleitoral.

NNNatuza Nery

É curioso porque eu falava com uma fonte da diplomacia brasileira que dizia que esse documento, essa lista com 52 exigências, foi entregue pela equipe técnica americana à equipe técnica brasileira, que repassou esse documento ao ministro Mauro Vieira, que sequer aceitou. Que esse documento estivesse sobre a mesa de negociações. E aí, nas reuniões posteriores, tanto de Mauro Vieira com os seus interlocutores americanos, tanto quanto na reunião de Lula com Trump, nos encontros em que eles estiveram, esse documento não foi mais citado, saiu de cena.

Só que de lá para cá, muitos gestos começaram a ser interpretados pelo lado brasileiro como gestos de interferência nas eleições e no processo político interno aqui no Brasil. Até onde um governo estrangeiro, até onde os Estados Unidos podem ir ao colocar o processo eleitoral de um país amigo na mesa de negociação, de uma negociação que nada tem a ver com isso, de uma negociação comercial?

OSOliver Stuenkel

O atual governo americano enxerga a América Latina como parte integral de sua zona de influência. A partir dessa constatação, dá para explicar bastante o que Washington está fazendo, tentando fazer, e uma das questões-chave é pressionar outros países para adotarem políticas alinhadas com os interesses dos Estados Unidos. Isso tem muito a ver com, por exemplo, a redução da influência chinesa em algumas áreas-chave. Isso também tem a ver com o desejo de lidar acima de tudo com governos ideologicamente alinhados com Washington.

O termo utilizado aqui em Washington é de partisan interventionism, ou seja, intervencionismo partidário. É a tentativa de Washington de dar apoio a candidatos e políticos alinhados alinhados ideologicamente e dificultar a vida de políticos que não possuem esse alinhamento.

?Voz F

Nesse documento aí, o Donald Trump disparou uma série de críticas para governos que ele vê como não alinhados, e aí também ele teceu alguns elogios a alguns líderes de direita, sobretudo aqui na América Latina. Presidente americano também elogiou a cooperação com países da América Latina, e aí em destaque Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, El Salvador, Peru e Venezuela. Todos países governados por líderes alinhados aos Estados Unidos.

O Trump diz que considera mudar o status de falha ao combate ao narcotráfico se esses governos, sobretudo o governo da Bolívia, de Rodrigo Paz, e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, demonstrarem um progresso.

OSOliver Stuenkel

A gente viu isso em vários instantes, por exemplo, antes das eleições legislativas, no fim do ano passado, quando o Trump fez um pronunciamento nas redes sociais condicionando o apoio financeiro dos Estados Unidos a um bom resultado para o partido de Javier Milei.

?Voz C

O Trump fala que tá apoiando a Argentina, vai oficializar o apoio ao Milei para eleição. Acontecem eleições legislativas na Argentina, mas aparentemente, pelo jeito como o Trump tá falando, ele tá tratando como se fosse eleição presidencial, porque ele fala assim, é, ele pode ganhar ou ele pode não ganhar, mas seria importante que ele ganhasse, porque do outro lado o adversário dele, que eu acho que eu sei quem é, é de esquerda radical e foi o que botou a Argentina no buraco pelos últimos 20 anos.

Mas nós vamos ajudar. Se ganhar o outro lado, essa ajuda pode não durar tanto tempo.

OSOliver Stuenkel

Eu estava na Argentina naquele momento e deu para sentir que a moeda argentina tava bastante frágil e que esse apoio de Trump provavelmente teve algum impacto para ajudar a melhorar o resultado do atual presidente argentino. Da mesma forma, tivemos ameaças por parte de Trump antes das eleições em Honduras, dizendo que se o meu candidato preferido, Asfura, não for eleito, a relação passará por uma grave crise que para o eleitorado hondurenho, um país bastante dependente dos Estados Unidos, possivelmente também teve um impacto.

Ou seja, o que estamos vendo no caso brasileiro faz parte de um projeto que aplica a toda a América Latina, que não é só sobre o Brasil. É pouco comum que isso ocorra de forma tão explícita. O que é novo é de quão explícito, a forma como essas ameaças são articuladas, muito explícitas em escrito. Mas também existe uma percepção aqui em Washington de que o governo Trump tenta algumas coisas e vê o que cola. Por exemplo, pressiona o Peru atualmente para que exclua atores chineses do controle de um porto estratégico, pressiona o Panamá para expulsar empresas chinesas que operam os portos no Canal de Panamá e, da mesma forma, pressiona o Brasil a fazer certas mudanças na política interna, mas ciente de que nem tudo vai colar.

Ou seja, também é uma percepção de que o Brasil, sendo um país maior, não necessariamente aceitará todas as demandas, mesmo sendo ameaçado.

NNNatuza Nery

Depois eu quero até ouvir de você, já que a gente está num processo eleitoral, como tenderia a agir um eventual governo Bolsonaro. Mas antes eu quero falar de um outro documento. Ontem nós tomamos conhecimento que o governo dos Estados Unidos enviou ao Legislativo um documento em que lista países produtores de drogas, em particular cocaína, e que prejudicam os Estados Unidos, né? Então produtores ou países por onde passam drogas ilícitas que chegam até o território americano.

Há vários países listados, o Brasil não está listado. E aí também tem uma segunda lista, que é a lista de países que falharam de forma demonstrada na visão do governo americano nesse documento, e cita outra quantidade de países, e o Brasil também não está listado. Só que o Brasil é citado no seguinte contexto: o Brasil é apontado pelo governo americano como tendo falhado no combate ao Comando E ao PCC. E o governo brasileiro, por seu turno, rebateu dizendo que Washington ignora as operações contra as facções e os pedidos de cooperação, porque o Brasil fez vários pedidos de cooperação com os Estados Unidos para combater essas facções criminosas.

Isso soou estranho para o governo brasileiro, Oliver? Porque se o Brasil não está nas listas formais enviadas ao Congresso, mas está citado no documento como tendo falhado, por que que isso apareceu assim meio solto. Eu queria entender isso contigo e entender também se isso é uma forma de ajudar a candidatura mais alinhada à Casa Branca, a candidatura de Flávio Bolsonaro, por tocar em pontos como crime organizado brasileiro, que entrou com força na agenda de Trump e que também entra com força na agenda de Flávio Bolsonaro.

OSOliver Stuenkel

Bom, em primeiro lugar, fazer esse tipo de movimentação por parte do governador Trump também tem a ver com as eleições do meu mandato. Que vão ocorrer aqui nos Estados Unidos em novembro. Há uma avaliação na Casa Branca de que a percepção pública americana, né, no âmbito da economia, da inflação, é muito ruim. Um dos poucos assuntos onde avaliação não é ruim é no combate contra imigração ilegal e também no combate contra o crime.

Então toda essa articulação também é direcionada ao eleitor americano e não necessariamente só se trata aí de uma movimentação que precisa ser lida só como uma política externa americana. A ênfase na temática da segurança no combate contra o crime organizado também é utilizado para fortalecer países alinhados na América Latina que já cooperam com os Estados Unidos e enfatizar essa temática na relação com o Brasil, que claramente é um tema que pode beneficiar eleitoralmente a campanha de Flávio Bolsonaro.

Existe a percepção aqui de que as tarifas aplicadas contra produtos brasileiros não tem fortalecido a campanha de Flávio Bolsonaro. Pelo contrário, é comum ouvir integrantes do governo Trump que questionam essa política, dizem que isso produziu um nacionalismo antiamericano nos Estados Unidos, pode ter beneficiado ao presidente Lula. Enquanto a maior ênfase, inclusive a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, pode ajudar a ampliar a visibilidade dessa pauta nas eleições do Brasil.

?Voz E

O promotor do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gaquia, disse que o assunto muda da esfera de segurança pública e passa a ser um assunto de defesa nacional dos Estados Unidos.

OSOliver Stuenkel

Passando a ser um assunto de defesa, quem vai tratar disso é a CIA e são os militares, né? Não é mais um assunto que seria tratado internamente pelo FBI e pela DEA, como a gente vem tratando aqui há muito tempo. Isso vai causar um problema porque essas informações estando sob a guarda da CIA, né, elas passam a ser secretas ou confidenciais. E aí a gente não tem acesso a esse nível de documento. Vale lembrar que a designação em reuniões fechadas é criticada inclusive pela CIA, por exemplo, que não considera que essa designação ajuda na cooperação, que já existe aliás, né, existe uma ampla cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil no combate contra os cartéis e que esses dois grupos, acima de tudo, exportam para o mercado europeu, né?

Ou seja, que não são atores-chave na hora de combater o fluxo de drogas chegando no mercado americano.

NNNatuza Nery

Os Estados Unidos estão tentando ajudar a eleger Flávio Bolsonaro a partir dessas interferências e desses sinais porque acredita que com Flávio Bolsonaro no poder, Trump que consegue o quê, basicamente, do Brasil? Tudo? Uma parte? Dessa lista de 52 exigências, o que a Casa Branca considera mais fácil de conseguir com Flávio do que com Lula?

OSOliver Stuenkel

Bom, em primeiro lugar, o apoio a governos ideologicamente alinhados ocorre em parte por questões eleitorais internas. Ou seja, a ideia de que nós apoiamos as nossas causas, as nossas pautas para além das nossas fronteiras é visto como, para parte da base trumpista, como algo positivo. Ou seja, não não é apenas, para usar a linguagem do governo americano, não apenas combater o comunismo dentro dos Estados Unidos, mas também combatê-lo lá fora, narcoterroristas.

Ou seja, esse tipo de linguagem é comum e ela é direcionada ao eleitor interno, né? Então, uma vitória de um candidato alinhado com Trump por si só é visto aqui internamente como algo positivo para o governo Trump, sem pensar no que isso significa na prática. Porque é evidente que se Flávio Bolsonaro for eleito presidente, não haverá um alinhamento completo com Washington, porque existem realidades econômicas. O Brasil hoje possui amplas relações comerciais estratégicas com a China.

O agro do Brasil quer preservar essa relação comercial que o Brasil possui com a China. O setor privado do Brasil quer preservar os ganhos obtidos com a ratificação e implementação do Acordo Comercial do Mercosul com a União Europeia. Ou seja, haverá, sem dúvida haveria, né, se o Flávio for feito um alinhamento em certos casos, o maior alinhamento, como o combate contra o crime organizado. Nos termos de Washington, provavelmente Brasil faria parte da aliança do Escudo das Américas.

Além disso, um alinhamento retórico, certamente um apoio brasileiro a certas pautas lideradas pelos Estados Unidos em âmbitos multilaterais.

NNNatuza Nery

Terras raras também, porque o próprio candidato já disse isso, né, Flávio Bolsonaro. Bolsonaro, né, tornando— os Estados Unidos querem do Brasil que o Brasil envie terra rara para os Estados Unidos, e isso signifique num avanço tecnológico para que o Brasil possa avançar, né, nesse campo econômico. Mas o que eu tô entendendo que você tá dizendo é o seguinte, é que mesmo com Flávio Bolsonaro, se eleito for, não será fácil um alinhamento total porque o setor privado brasileiro resistiria.

OSOliver Stuenkel

Isso exatamente. Em 2019, quando o Jair Bolsonaro, presidente, fez sua primeira viagem na Casa Branca, o presidente brasileiro perguntou a Donald Trump o que que pode ser feito, o que o Brasil pode fazer para ampliar a relação bilateral com os Estados Unidos. E uma das questões-chave que Donald Trump respondeu à época foi que ele gostaria que o Brasil tirasse a empresa chinesa Huawei de telecomunicação como fornecedora na construção da rede 5G do Brasil.

E o presidente brasileiro voltou ao Brasil e discutiu esse assunto, né, que foi uma discussão pública ampla até na época no Brasil. E no final O governo brasileiro não atendeu a essa demanda porque a Huawei é um parceiro de longuíssima data e todas as empresas de telecomunicação à época rejeitaram essa movimentação. Então também é um exemplo de como um presidente que gostaria de alinhar completamente o país aos Estados Unidos pode não conseguir fazê-lo.

Então me parece que em algumas áreas sim haveria um maior alinhamento. Certamente aumenta a possibilidade de ações da CIA ou de outros grupos em território brasileiro, provavelmente com anuência do governo, mas mesmo assim é uma atuação mais presente no combate contra cartéis, etc. Mas certamente enfrentaria também bastante pressão, porque que no fundo os Estados Unidos querem não é só aumentar a cooperação com os Estados Unidos, mas acima de tudo querem que o Brasil se afaste de outras grandes potências acima acima de tudo a China, mas também se afaste dos europeus.

E isso é algo muito difícil de conseguir, porque o setor privado brasileiro obviamente sabe das muitas oportunidades econômicas que existem nessas regiões do mundo e não quer apenas depender do mercado americano, que é um mercado imprevisível devido à política tarifária imprevisível do presidente americano.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Oliver.

?Voz E

Brasileiro raiz sabe que arroz e feijão dão aquele combustível para o dia a dia.

OSOliver Stuenkel

E aqui na Globo praticamente todos os nossos carros usam energia limpa.

?Voz E

Lembra daquela história que de grão em grão tudo pode virar doação na Globo?

OSOliver Stuenkel

Doamos tampinhas, móveis e até brinquedos para instituições sociais.

?Voz E

E no Brasil todo mundo diz: pode entrar, mas não repara não.

OSOliver Stuenkel

Aqui na Globo pode A gente repete cenários porque isso é sustentável. É uma escolha nossa. Globo, fazer diferença todo dia.

NNNatuza Nery

Eu queria entender um outro ponto, né? Colegas da imprensa começaram a trazer depois do julgamento no Supremo, na verdade sessão, porque nem julgamento houve na terça-feira, que os Estados Unidos estão considerando novas sanções, dessa vez contra os ministros que se colocaram ali na defesa, digamos assim de Alexandre de Moraes, além do próprio Alexandre de Moraes. O que que você tá ouvindo por aí a respeito disso, Oliver?

OSOliver Stuenkel

Bom, ainda não houve um pronunciamento oficial, mas dá para sentir sim que aumenta a probabilidade de uma nova rodada de sanções individuais contra alguns dos integrantes do STF.

?Voz F

É que o governo americano tem uma, tem como prioridade, Departamento de Estado tem como prioridade eleger o Flávio Bolsonaro. Acho que isso é zero dúvida. Essa questão toda é daqui até o dia 25 de outubro, nas eleições, no segundo turno, o que que eles farão. Eduardo Bolsonaro, que já foi anunciado como possível ministro das Relações Exteriores do próximo governo, já disse que ele pediu formalmente ao governo americano a volta da Lei Magnitsky, não só apenas contra o ministro Alexandre de Moraes, mas também contra o ministro Flávio Dino e o ministro Gilmar Mendes.

O que a gente tá vendo é, através do Eduardo Bolsonaro, é o governo americano tenta sim interferir na eleição brasileira. Eu acho que eles só não estão interferindo mais porque eles temem um efeito embora.

OSOliver Stuenkel

Não sabemos se isso de fato ocorrerá, mas há uma percepção de que essa discussão pode favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro. No contexto disso, uma resposta por parte dos Estados Unidos obviamente elevaria possivelmente a visibilidade dessa temática na discussão pública brasileira. Mas agora, nessa reta final antes do primeiro turno, a visibilidade do Brasil certamente aumentou. E a partir da experiência argentina e hondurenha, existe aqui bastante confiança em que possíveis atuações por parte dos Estados Unidos podem ajudar a favorecer o candidato preferido também no Brasil.

NNNatuza Nery

Oliver, o Partido dos Trabalhadores pediu que a Polícia Federal e que a Procuradoria-Geral da República e o próprio Tribunal Superior Eleitoral investigue um possível apoio da Rockbridge Network, que é uma rede fundada pelo vice-presidente americano J.D. Vance, à candidatura de Flávio Bolsonaro. E uma das supostas evidências seria um documento revelado pelo jornalista Guilherme Amado indicando uma proposta de parceria entre eles envolvendo terras raras.

Se ficar comprovado algum tipo de apoio financeiro ou interferência estrangeira na campanha de Flávio Bolsonaro nesses termos, via essa rede, a Rockbridge Network, qual é o tamanho do problema?

OSOliver Stuenkel

Atores fora do país não podem apoiar campanhas no Brasil, não podem receber apoio de atores estrangeiros, sobretudo acima de tudo, apoio financeiro direto para as campanhas. É preciso aguardar, obviamente, o que vai acontecer, se haverá uma investigação. Tudo isso requer um olhar muito cuidadoso, né, sobre os detalhes e se de fato houve essa participação. A gente não teve, no caso argentino e hondurenho, ou colombiano até, onde também houve um apoio explícito por parte do presidente ao candidato vencedor, evidências desse tipo de interferência.

O que eu vi até agora foi que existe na Casa Branca uma percepção que a estratégia americana em relação à Argentina, colombiana e hondurenha tem sido, entre aspas, suficiente para garantir que os candidatos preferidos fossem vitoriosos. Então, nesses 3 casos, não temos evidência de que houvesse assim alguma interferência maior, mais explícita, além da pressão no âmbito público.

NNNatuza Nery

Basicamente, o que eu compreendo que você nos conta é: uma coisa é o apoio do governo, o apoio pessoal de um integrante do governo, como ex-presidente da República, ou Marco Rubio, ou o próprio Trump, com ações do governo, com declarações. A outra coisa é o financiamento de uma campanha de um candidato aqui no Brasil com dinheiro vindo de lá de fora, porque essa Rockbridge justamente arrecada fundos para ajudar em projetos de interesse dessa rede.

O que você tá dizendo é que este aparato financeiro não se tem prova de que aconteceu de fato no Brasil, E nas outras campanhas em que os Estados Unidos fizeram intervenção, não há evidências de que se fez intervenção por meio desse aporte financeiro para ajudar os candidatos do seu interesse.

OSOliver Stuenkel

Exatamente. Inclusive, a pressão pública ocorreu também fora da América Latina, ou seja, J.D. Vance esteve pouco antes das eleições no ano passado na Alemanha e deixou muito claro a preferência do governo americano dentro da Alemanha, dando apoio ao partido AFD, da extrema-direita. Esse tipo de atuação tornou-se comum no governo Trump, que pressiona países mundo afora. Às vezes funciona, às vezes é muito contraproducente, né, como no caso da Austrália e do Canadá, onde essa pressão surtiu o efeito contrário, né, onde os candidatos alinhados com Trump sofreram eleitoralmente, porque esses países chegaram a— os eleitores se sentiram ameaçados, perceberam que a integridade, a soberania desse país estava sob ameaça.

Então essa tem sido a estratégia dominante por enquanto. Eu não quero dizer que isso é garantia que o governo americano não esteja utilizando outras estratégias no futuro. Esse tipo de pressão pública é uma coisa, mas um financiamento direto seria uma outra categoria, com inclusive possíveis implicações, né, que aí seria uma questão da justiça eleitoral brasileira, que representaria uma violação do direito brasileiro. Mas apenas a pressão tornou-se algo comum, não quero dizer normal, nas relações eleições internacionais.

No passado aquilo não estava ocorrendo com tanta frequência assim, mas no governo Trump é o novo normal e, portanto, é de se esperar que haverá outros pronunciamentos e possivelmente ameaças retóricas por parte de Washington entre agora e o primeiro turno, sem dúvida.

NNNatuza Nery

De fato, você tem razão, é o novo normal, mas não dá para isso ser normalizado, né? Nem aqui no Brasil e nem nenhum outro lugar do mundo. É gravíssimo quando um governo interfere nas eleições de outro país. A gente tá em 2026, né? Isso acontecia no passado, mas admitir isso agora, é ver isso acontecendo, torna tudo muito escandaloso, né, Oliver?

OSOliver Stuenkel

Sem dúvida. E vale sempre destacar, algumas pessoas ao ouvir isto dizem: mas em 2022 o governo Biden não deu apoio ao candidato Lula à época? Mas foi algo bastante diferente, porque à época o governo dos Estados Unidos pediu aos generais brasileiros que respeitassem o resultado, sinalizando de que uma violação do direito ou da não aceitação dos militares do resultado levaria a possíveis sanções por parte dos Estados Unidos. Mas isso não se pode comparar com o apoio explícito a um candidato.

A época que o governo Biden fez foi tentar reduzir o risco de uma ruptura democrática no Brasil, né? Mas se à época o candidato Jair Bolsonaro tivesse vencido as eleições, os Estados Unidos teriam obviamente aceito esse resultado e não havia sentido uma intervenção partidária. O que acontece agora é muito diferente, é um apoio explícito por parte dos Estados Unidos a candidatos ideologicamente alinhados ao pensamento trumpista.

NNNatuza Nery

Oliver, muito obrigada pelas explicações, bom trabalho para você.

OSOliver Stuenkel

Obrigado.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Graneman. Colaboraram neste episódio Viviane Mateus e Patrícia Cunha. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.