Episódios de O Assunto

A ressaca da crise no STF e seus efeitos na corrida eleitoral

17 de setembro de 202628min
0:00 / 28:32
Convidado: Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN. Encerrada a sessão de terça-feira (15) no Supremo Tribunal Federal, muitas dúvidas ficaram no ar sobre o seguimento dos casos do Banco Master e do INSS – e sobre como a Corte vai encaminhar as questões envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Restam também dúvidas sobre os impactos eleitorais desse evento histórico. Nas redes sociais e em seus discursos, os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tentam fazer colar um no outro o ônus da crise. Neste episódio, Natuza Nery conversa com o jornalista Bernardo Mello Franco sobre como as candidaturas de Lula e Flávio se mobilizam a menos de um mês do 1º turno. Bernardo conta o que apurou com integrantes das campanhas e analisa os primeiros sinais da opinião pública.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
B

Bernardo Mello Franco

ConvidadoJornalista
Assuntos5
  • A crise no Supremo Tribunal Federal e o clima de degradação da imagem da corteSupremo Tribunal Federal·Cármen Lúcia·Alexandre de Moraes·André Mendonça·Gilmar Mendes·Cássio Nunes Marques·Luiz Fux
  • A estratégia da campanha de Flávio Bolsonaro para usar a crise do STFFlávio Bolsonaro·Alexandre de Moraes·Banco Master·Daniel Vorcaro·Ciro Nogueira·Cláudio Castro
  • Impactos da crise do STF na campanha de reeleição do presidente LulaLula·Alexandre de Moraes·Sentimento antissistema·Bolsonarismo·Pesquisas eleitorais
  • O paradoxo do escândalo do Banco Master beneficiando Flávio BolsonaroFlávio Bolsonaro·Banco Master·Daniel Vorcaro·Corrupção·Lavagem de dinheiro
  • A indefinição do Supremo sobre os casos Alexandre de Moraes e André MendonçaSupremo Tribunal Federal·Alexandre de Moraes·André Mendonça·Eleições·Pedido de vista
Transcrição53 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Essa é a proclamação. Está encerrada a sessão. Muito obrigado a todos e a todas.

NNNatuza Nery

Foi assim que terminou uma das sessões mais melancólicas da história do Supremo Tribunal Federal. Depois de um verdadeiro bang bang entre ministros, coube a Cármen Lúcia, a única mulher que integra a corte, dar o tom adequado a essa ópera. Um espetáculo que terminou com mais dúvidas do que certezas.

?Voz A

Hoje, um dos colegas me dizia se eu estava aborrecida com alguma coisa. Eu disse, eu estou triste. Eu me sinto, e estou falando apenas por mim, quem fala pelo Supremo é Vossa Excelência, presidente. Eu me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de no momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarem todos voltados a questões do Supremo.

NNNatuza Nery

Uma sessão em que as divisões da corte ficaram expostas a céu aberto.

?Voz C

Dirigido ao relator: Não, Vossa Excelência, para pedir a palavra, presidente, é o que eu estou lhe dizendo.

?Voz A

Presidente, eu vou seguir o regimento interno, pois Vossa Excelência terá a palavra, porque eu estou lhe concedendo.

?Voz C

Interno da corte, evidente condução político eleitoral e escolha do 7 de setembro, até de bichulecos. Isto não se faz. Pessoas decentes não fazem isso. Não aponte o dedo para mim, Ministro Gilmar. Não aponte o dedo. Não tá falando com qualquer um. Mensagem comigo não tem. Não tem, não, senhor. Não tem. Tem, Ministro. O amigo, alguém falando de mim. Comigo não. Nunca vi esse cidadão na minha vida. Quem tem medo da Polícia Federal?

Não é questão de medo, não. Eu não estou perguntando a Vossa Excelência. Não, mas eu estou lhe respondendo. Quem tem medo da Polícia Federal?

?Voz A

Que o Ministro André?

?Voz C

Em reunião disse: isso é mentira. Peçam isso. Então vamos chamar testemunha? Vamos chamar? Mentira. Vamos chamar? Pode chamar quem quiser. Não há como julgar hoje sem julgar terça-feira.

NNNatuza Nery

Estava em jogo um questionamento para juntar as votações a respeito das condutas de Alexandre de Moraes e de André Mendonça. No placar havia um empate de 4 a 4. Mas aí o ministro Flávio Dino retirou o seu voto e pediu mais tempo para analisar tudo. Diante de um plenário absolutamente fissurado, nada foi resolvido.

?Voz C

Eu tô fazendo pedido de vista. Eu tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem. Nós não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, a sociedade assistindo.

?Voz A

E há 15 dias de uma eleição o tribunal se expor a isso. E veja, sem ponto final, presidente. Acho que Vossa Excelência não se deu conta disso.

NNNatuza Nery

Mas essa é só uma parte da história. Por trás das cortinas, uma troca de mensagens entre alguns dos ministros já revelava que o clima não seria nada bom. Houve até quem bloqueasse o colega pelo WhatsApp. Uma guerra que agora deixa consequências que vão muito além do julgamento. Durante a sessão, as as redes sociais registraram uma profusão de críticas. Há menos de um mês para o primeiro turno, a radiação deixada após a reunião de terça-feira tem potencial para contaminar até as urnas.

?Voz D

A avaliação é de que a disputa nas redes é o que tá mais em jogo agora. Então, a campanha de Flávio Bolsonaro, começando por ela, quer associar o presidente Lula ao ministro Alexandre de Moraes. Então, a estratégia vai ser cada vez mais dizer que Alexandre de Moraes seria um ministro diretamente relacionado a Lula no Supremo, e desta forma associar o discurso anticorrupção à crítica ao presidente Lula. A ideia é mostrar que eles são ambos uma coisa só, principalmente nas redes sociais, para engajar essa militância bolsonarista.

Em relação à campanha do presidente Lula, também quer utilizar as redes sociais. Avaliação dentro da campanha do presidente Lula é que com o pedido de vista esse tema vai sair um pouco da pauta até as eleições. E como ele sairia da pauta até as eleições, a ideia é fortalecer o antibolsonarismo. Daqui a pouco, o presidente Lula tava apostando muito na questão do Dark Horse, mas já percebeu que essa questão não está engajando, não tá trazendo votos. Então agora eles estão apostando em crises do governo Bolsonaro.

NNNatuza Nery

Da redação do G1. Eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a ressaca no Supremo e seus efeitos na corrida eleitoral. Neste episódio, eu converso com Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN. Quinta-feira, 17 de setembro. Bernardo, depois da sessão de ontem, eu queria que você falasse um pouco sobre como ficou o clima, o que que os ministros estão dizendo nos bastidores. Acabou sendo revelada uma nada carinhosa troca de mensagens entre Gilmar Mendes e Cássio Nunes Marques.

Gilmar foi bloqueado por Nunes Marques. O próprio portal Metrópoles também revelou uma conversa de Gilmar com Fux. Essa não teve bloqueio, mas isso mostra como as coisas estão quentes, fervilhantes por lá antes.

?Voz A

E quero te perguntar agora, depois dessa sessão, o clima do Supremo Tribunal Federal hoje é péssimo. É um sentimento de luto, é um sentimento coletivo de degradação da imagem da corte, de uma grande exposição negativa dos ministros, alguns mais que os outros, mas no geral o saldo é obviamente muito ruim. Na manhã dessa quarta-feira, portanto um dia depois dessa sessão de 7 horas de insultos, ataques transmitidos ao vivo pela TV, um dos ministros tava se dizendo arrasado, palavra dele, com o que aconteceu.

Se a ideia do presidente Edson Fachin era que essa sessão fosse o início de um processo de depuração do Supremo, de limpeza da imagem do Supremo, acabou acontecendo o contrário. Quer dizer, a gente pode dizer que o tribunal ele saiu dessa sessão mais enfraquecido, mais dividido, mais desgastado do que entrou. A situação do ministro Alexandre de Moraes não foi resolvida, a situação do ministro André Mendonça não foi resolvida, e abriu-se uma nova frente de desgaste atingindo a imagem do ministro Cássio Nunes Marques e a imagem do ministro Luiz Fux, os dois com filhos citados em diálogos no celular apreendido por Daniel Vorkar.

?Voz F

Em um placar de 4 a 3, não é condizente com o que aconteceu no Supremo Tribunal Federal. Houve uma vitória do grupo do ministro Alexandre de Moraes, uma vitória pelo menos momentânea. Eles fizeram valer o objetivo deles, que desde lá atrás, quando o ministro Fachin marcou a sessão, era tentar adiar a sessão ou pelo menos colocar a questão relacionada ao ministro André Mendonça junto com a do ministro Alexandre de Moraes. Eles conseguiram jogar a discussão para frente por pelo menos 90 dias, passando portanto muito provavelmente do período mais crítico da eleição. Então, concluindo, neste momento o jogo tá 1 a 0.

?Voz A

No dia seguinte a essa sessão também a gente pode ver alguns sinais. O Fachin faltou a um compromisso fora do Supremo, o Gilmar Mendes também faltou a um compromisso, e o ministro Flávio Dino, que acabou assumindo parte do desgaste ao pedir vista do processo, paralisar o julgamento, ele nem apareceu no Supremo. Ele preferiu assistir a sessão, participar da sessão remotamente de casa. É importante a gente lembrar, Natuza, que o Supremo, ele é uma casa de convívio dessas figuras, desses ministros, por muitos e muitos anos.

Eles ficam lá até fazer 75 anos de idade. Então a gente tá falando de pessoas que vão conviver ao longo de 20, de 30 anos, que dividem as refeições, que dividem o elevador. Há um sentimento quase natural ali de camaradagem e de corporativismo, de proteção do colegiada. E isso tudo se quebrou nessa crise, como ficou agora escancarado para o país inteiro ao longo dessa sessão. A gente tem uma corte que hoje tá conflagrada e tá dividida entre duas alas e que parece não encontrar um caminho de negociação, um caminho de trégua para sair dessa crise.

NNNatuza Nery

E é preciso dizer que tudo isso acontece a dias do primeiro turno, né, de uma eleição em aberto dificílima, empate técnico aqui, empate técnico ali, a depender da pesquisa de intenção de voto. Eu quero primeiro olhar contigo, analisar contigo o que que tá acontecendo e como isso tá sendo depurado, digerido na campanha de Lula. Como é que tá o temor de que esse desgaste contamine a campanha de reeleição?

?Voz A

Tem uma unanimidade entre os analistas, os próprios participantes das campanhas, de que a campanha do presidente Lula à reeleição é a mais afetada pela crise no Supremo. Isso por várias razões. Primeiro, porque essa crise toda ela alimenta o chamado sentimento antissistema, revolta do eleitor, do cidadão comum, com tudo isso que tá aí, com as autoridades de Brasília, foi ideia que tá todo mundo corrompido, que o sistema tem que ser trocado de cabo a rabo.

E isso obviamente prejudica quem já está no poder, quem é o incumbente que tá concorrendo à reeleição. Além disso, existe uma associação quase óbvia na cabeça do eleitor da figura do presidente Lula com a figura do ministro Alexandre de Moraes. Mesmo a gente sabendo que o Alexandre de Moraes nunca foi de esquerda, ele foi indicado inclusive por um governo de direita do Michel Temer, o fato é que nos últimos anos ele se tornou, na cabeça da população, o símbolo do combate ao bolsonarismo, ao golpismo, né?

?Voz E

Ele foi esse personagem que botou o Jair Bolsonaro na cadeia.

?Voz A

Então fica quase natural uma associação dele com o Lula, que é o principal adversário político do Jair Bolsonaro, né? Acaba se criando um pouco essa ideia na cabeça das pessoas. Portanto, isso está sendo detectado pelas duas campanhas. E o presidente Lula fica numa situação complicada, porque ele precisa se descolar da crise, se desvencilhar dessa imagem tão desgastada do Supremo Tribunal Federal, mas ao mesmo tempo não pode jogar a criança fora com a água do banho.

Quer dizer, ele não pode sair atacando o Moraes, atacando Flávio Dino, atacando o Gilmar Mendes, e desconsiderando que esses personagens nos últimos anos tiveram um papel no desbaratamento daquela organização golpista, né, da tentativa de golpe de Estado que foi quase praticada no Brasil entre 2022 e 2023.

?Voz C

Meu adversário gravou um vídeo dizendo que eu sou responsável pelo Alexandre de Moraes. A obsessão dele é pegar o Alexandre de Moraes. Mas ele não quer brigar com Alexandre de Moraes por causa do Banco Master. Não é por isso que ele tem raiva, porque ele sabe que ele tem o rabo preso ao Banco Master mais do que qualquer outra pessoa. A bronca dele do Alexandre de Moraes é que o Alexandre de Moraes prendeu o pai dele e os golpistas que tentaram fazer o 8 de janeiro.

?Voz A

Mas o fato é que o Lula, mesmo sem envolvimento direto nessa crise, ele tá de certa forma pagando o pato. Isso tá se refletindo nas pesquisas. Eu ouvi hoje de um dos coordenadores da campanha que esse é o momento mais difícil para o Lula ao longo dessa campanha, não só pelas pesquisas passaram a mostrar uma situação de empate técnico nas simulações de segundo turno, mas também é pelo risco de arcar com as consequências do desgaste político do Supremo Tribunal Federal.

?Voz G

Que eu tô sentindo neste momento é que a campanha do Lula não está conseguindo reagir a esse momento, não só a questão do caso da crise no STF. Lula tem dito, olha, ah, não fui eu que indiquei o Alexandre de Moraes, Tudo tem que ser investigado, tá certo, né? Tudo tem que ser investigado. Ministro do Supremo não deve ser ministro para se enriquecer, para ficar milionário, tudo correto. Mas isso não passa engajamento para a militância petista.

Enquanto isso, do outro lado, o Flávio Bolsonaro consegue fazer isso com essa crise que está reinando no Supremo. Só que com essa crise, o inquérito do caso Master inquérito tá paralisado, e um inquérito paralisado dificilmente vai ter novidades na investigação de Flávio Bolsonaro no caso Master.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Bernardo.

?Voz F

Brasileiro raiz sabe que arroz e feijão dão aquele combustível para o dia a dia.

?Voz C

E aqui na Globo, praticamente todos os nossos carros usam energia limpa.

?Voz A

Lembra daquela história que de grão em grão tudo pode virar doação na Globo?

?Voz C

Doamos tampinhas, porras e até brinquedos para instituições sociais.

?Voz A

E no Brasil todo mundo diz: pode entrar, mas não repara não.

?Voz C

Aqui na Globo pode reparar sim.

?Voz A

A gente repete cenários porque isso é sustentável, é uma escolha nossa.

?Voz C

Globo, fazer diferença todo dia.

NNNatuza Nery

Tem ainda um contexto nessa história, né, e que a grande parte da população não sabe, é que embora a percepção pública seja, né, de Alexandre Alexandre e Lula melhores amigos ou partes de um todo, não faz muito tempo que o Alexandre impôs a maior derrota do Lula em seu governo, que foi a rejeição do indicado de Lula para o próprio Supremo Tribunal Federal. Nome esse que, se tivesse sido aprovado, provavelmente estaria na banda contra o Alexandre de Moraes.

?Voz A

Pois é, isso de certa forma reforça a crítica que muitos integrantes do governo já faziam naquela de que, olha, o Lula tá indicando Jorge Messias imaginando que vai ter um aliado no Supremo. E quem vai ter o aliado no Supremo é o André Mendonça, porque o André Mendonça acabou atuando como uma espécie de cargo eleitoral do Jorge Messias junto aos senadores, usando para isso a credencial de evangélico, de irmão de fé do Jorge Messias.

De fato, se ele tivesse no plenário do Supremo nessa crise, tudo indica que ele estaria do lado do Mendonça, não do lado do ministro Alexandre de Moraes. Isso pela teia de lealdade que a gente sabe que vão se tecendo, vão se construindo ao longo desses processos de indicação. E o que você falou é rigorosamente factual. O Alexandre de Moraes, junto com outros ministros do Supremo e com a cúpula do Senado, especialmente Davi Alcolumbre, eles acabaram impondo ao presidente Lula a maior derrota legislativa desse governo.

Não é trivial, não acontecia há mais 100 anos um indicado pelo presidente da República ao Supremo Tribunal Federal ser recusado pelo Senado. Não acontecia desde 1894, aconteceu em 2026 com Jorge Messias.

?Voz E

Além de ter sido uma derrota histórica para o presidente Lula, o que a gente viu foi o resultado de uma articulação conjunta de Davi Alcolumbre, Flávio Bolsonaro, e também, por incrível que pareça, por paradoxal que pareça, do ministro Alexandre de Moraes no Supremo. Cada um tem suas razões. Ele entendeu que uma Se o Messias se tornasse ministro do Supremo, toda a correlação de forças que existe hoje no tribunal poderia ser afetada.

O Messias é o maior aliado, seria o maior aliado do André Mendonça, que é o ministro relator do Máster, relator do caso do INSS.

?Voz A

Vamos lembrar que quem indicou o ministro Luiz Fux ao Supremo Tribunal Federal foi a Dilma Rousseff, e foi uma indicação que já tava deixada pelo presidente Lula quando ele saiu em 2010. Fux chega ao Supremo no começo de 2011, depois vira o único ministro que vota pela absolvição do Bolsonaro na tentativa de golpe, e agora um aliado de fidelidade canina ali ao André Mendonça contra o Alexandre de Moraes. Então essas relações de lealdade não são assim tão garantidas.

O presidente indicou, logo ele vai ter um soldado para o resto da vida no Supremo Tribunal Federal. E cá entre nós, é bom que não seja assim, é bom que os ministros tenham autonomia E a gente quer crer que eles vão julgar mais pelo direito do que pelas afinidades ou por alguma relação de gratidão ou lealdade com quem os indicou. Agora, o que a gente também pode dizer do Supremo atual, Natuza, é que é uma corte que tá dividida entre duas alas.

Essas duas alas estão em guerra e nesse momento, para a maior parte dos ministros, mais vale salvar os seus aliados do que preservar a imagem da corte ou a integridade do colegiado. Daí esse clima de vale tudo que a gente tem assistido nessa sessão e nos bastidores, com ministros vazando informações uns contra os outros, ministros fazendo pressão sobre o grupo rival. Quer dizer, é uma corte conflagrada dentro dessa ideia de que o duelo de Moraes e Mendonça virou também para outros ministros uma espécie de luta por sobrevivência.

No resultado dessa briga, e também o resultado da eleição presidencial deve determinar como é que vai ser o futuro do tribunal e não apenas dessas duas figuras individuais que estão em xeque hoje.

NNNatuza Nery

Flávio Bolsonaro, que eu citei, ele diz assim: sem os ministros do Lula no Supremo, porque ele faz essa confusão, né, ele faz as pessoas imaginarem que todos esses ministros que ele, que ele ataca foram indicados por Lula. Você já esclareceu, por exemplo, que Alexandre de Moraes foi indicado por por Temer. Mas ele diz, a lógica dele, o raciocínio dele que ele quer fazer colar na sociedade é: sem os ministros do Lula no Supremo, a democracia vive, o Brasil vive, o Judiciário vive.

?Voz C

Então, com toda certeza, o próximo presidente da República, que vai ser Flávio Bolsonaro, indicando mais 5 ministros do Supremo, nós não veremos mais esse triste espetáculo de tentativa de proteger Alexandre de Moraes.

NNNatuza Nery

Fecho retórico. Hoje quem está votando no Lula, segundo Flávio, vota em Alexandre. Então ele tá fazendo de tudo para colar a imagem do Lula no Alexandre de Moraes. Então eu queria que você falasse da estratégia do Flávio Bolsonaro, que parece ter entendido esse sentimento ou essa espuma da sociedade para tentar angariar mais votos.

?Voz A

A campanha do Flávio Bolsonaro tá eufórica, essa é a palavra, com a crise no STF. E por algumas razões. Primeiro, porque o desgaste do STF implica também o desgaste do presidente Lula. Portanto, é bom para o candidato de oposição. Segundo, porque o principal alvo dessa história, que está quase passando como bode expiatório da crise, é o ministro Alexandre de Moraes, que é, de novo, o personagem que botou o Jair Bolsonaro na cadeia.

Então, isso reforça para o bolsonarismo a ideia de que então o julgamento não foi verdadeiro, que o Moraes já estava ali dentro de uma grande conspiração para prejudicar o Jair Bolsonaro. E olha só, o cara que era o salvador da democracia na verdade é um sujeito metido num escândalo de suspeita de corrupção. Então, para o Flávio tem um ganho evidente nessa história.

?Voz I

Apesar de Flávio Bolsonaro ser investigado também no caso do Banco Master, o entendimento da campanha de Flávio é que toda essa crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e o Banco Master, que isso atrapalha a eleição e a campanha do presidente Lula. Na segunda-feira, na véspera da sessão do Supremo Tribunal Federal, aliados de Flávio Bolsonaro já diziam que independentemente do resultado, a sessão seria positiva do aspecto eleitoral.

Ou seja, independentemente dos fatos, aquilo que eles poderiam usar como narrativa eleitoral. Se houvesse uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, seria positivo do ponto de vista eleitoral para eles, para campanha de Flávio Bolsonaro. E se não houvesse, também seria positivo. Um aliado de Flávio Bolsonaro falou o seguinte: se derem pizza, a gente vai também tratar sobre isso eleitoralmente.

?Voz A

Agora, Qual que é a contradição? Qual que é o paradoxo disso? É que o escândalo do Máster acaba correndo risco de beneficiar o único candidato a presidente da República que levou dinheiro do escândalo do Máster, porque é o Flávio Bolsonaro. O Flávio Bolsonaro, entre todos os candidatos que estão concorrendo à presidência, é o único que fez um pedido de dinheiro ao Daniel Vorcaro e que recebeu dinheiro do Daniel Vorcaro. Isso tá declarado e admitido pelo próprio senador, e alega ter usado esse dinheiro para fazer um filme sobre a história do pai, mesmo a gente sabendo que a prestação de contas esse filme nunca foi entregue.

E segundo, o orçamento declarado nesse filme teria feito dele a produção mais cara da história do cinema brasileiro, de muito longe, em relação a filmes que ganharam prêmios internacionais e foram competir pelo Oscar, etc. e tal.

?Voz H

Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. Eu sei que você tá passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, né? Você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas enfim, É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né?

Então se você puder me dar um toque, uma posição ainda, né? Porque a gente precisa saber o que faz, cara da vida, porque tem muita, já tem muita conta pra pagar esse mês.

?Voz A

Então é um paradoxo. O Flávio Bolsonaro, que é o candidato que deveria ter sido mais afetado pelo escândalo do Master, de certa forma tá conseguindo surfar esse escândalo num momento em que as atenções deixaram de estar sobre a figura dele e passaram a estar sobre as figuras de ministros do Supremo. Importante lembrar também que no caso do Master, a maior parte dos outros protagonistas também é de aliados do Flávio, como o senador Ciro Nogueira, que foi chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, como o governador Cláudio Castro, do PL, aliado do bolsonarismo no Rio de Janeiro, o Ibanez Rocha, que fez o BRB botar aquela dinheirama toda no Master, também aliado dos Bolsonaro.

Então é de fato um paradoxo, quer dizer, o candidato que tem mais implicação nesse escândalo, de certa forma não tá conseguindo escapar diante dessa sensação de que tá todo o sistema corrompido e que isso não poupou nem a mais alta corte de justiça do país.

NNNatuza Nery

E lembrando que na sessão sangrenta do Supremo, os ministros— me lembro de Alexandre, me lembro de Gilmar Mendes— falaram, acusaram André Mendonça de uso político eleitoral e de esconder ou de retardar investigações contra alguns desses personagens que você citou. Vide o próprio Cláudio Castro. Mas eu queria te perguntar uma coisa: você acha que o caso Dark Horse para o Flávio Bolsonaro é uma espécie de bananeira que já deu cacho?

No seguinte sentido, tudo que podia produzir de desgaste na ausência de um fato novo— e não tem fato novo porque o André Mendonça não deu andamento nessa investigação— já deu o que tinha que dar? Porque a trajetória que ele cumpriu nas pesquisas, quando veio o áudio dele com o Boccaro, ele cai, mas não tem uma queda muito acentuada, tanto que ele consegue se recuperar. Faz sentido para campanha do Lula insistir no caso Dark Horse na ausência de um fato novo até aqui?

?Voz A

É difícil responder essa pergunta porque a gente não sabe o que vai acontecer até o dia da eleição. A gente que acompanha política já bastante tempo sabe que existem fatos inesperados e surgem especialmente nesse momento de reta final das campanhas, momento em que as campanhas estão soltando a munição delas no horário eleitoral, em entrevistas, em denúncias pela imprensa. Na minha visão, ainda tem água para passar por baixo dessa ponte.

Agora, de fato, a condução desse caso no Supremo Tribunal Federal pelo ministro André Mendonça beneficiou claramente a campanha do Flávio Bolsonaro. O André Mendonça autorizou a abertura de investigação sobre um candidato a presidente da República em julho, e nós só ficamos sabendo disso oficialmente agora em setembro, quase na véspera do primeiro turno. E por que o ministro Edson Fachin mandou tirar o sigilo desse caso, porque a depender do André Mendonça continuaria sob sigilo.

Provavelmente a gente ia passar pelo processo eleitoral para só depois o eleitor ter a informação de que um candidato a presidente que tá aparecendo lá na frente nas pesquisas é formalmente investigado por suspeita de corrupção, de lavagem de dinheiro e de evasão de divisas. Então, de fato, o Flávio se beneficiou com a paralisia desse caso e com a falta de decisões do André Mendonça, que não só não divulgou informação de que ele era investigado, como também não autorizou operações, não teve busca e apreensão, não teve celular apreendido, não teve nada disso que a gente viu acontecer quando é outros políticos implicados no mesmo escândalo.

Agora, se vai surgir mais coisa até a data da eleição ou não, é esperar para ver. O próprio Flávio Bolsonaro, é bom a gente lembrar, já disse em falas para os próprios eleitores que, olha, de repente pode aparecer um videozinho, mas se aparecer um vídeo é coisa menor, etc. e tal. Quer dizer, ele sabe que tem mais coisa na investigação. O que ele não sabe, a gente também não, é se essas coisas vão vir à tona antes do eleitor tomar sua decisão.

NNNatuza Nery

E para a gente finalizar, Bernardo, a dinâmica do Supremo segue sendo uma grande incógnita, pelo menos até o momento em que a gente grava. Dos ministros com quem eu conversei, ninguém tá achando que vai ter sessão na semana que vem, no dia 23, para analisar o caso André Mendonça, e que tudo pode ficar mesmo para depois da eleição. E como você bem já explicou, a não definição, né, de algum tipo de investigação para Alexandre de Moraes e para André Mendonça, por motivos diferentes, um por conta do contrato de cento e tantos milhões de reais no escritório de advocacia da esposa e das mensagens do Vorcaro.

O outro porque acusado de cometer abuso de poder ali como relator da investigação do caso Master e também do INSS. Pode ficar tudo para depois e, portanto, uma não definição auxilia, tende a auxiliar, como você tá dizendo, o Flávio Bolsonaro, né?

?Voz A

Eu tenho um pouco de dúvida, Natuza. Eu não sei dizer se o desfecho dessa sessão foi 100% ruim para o presidente Lula, ou se poderia ter sido ainda pior caso tivesse havido abertura de investigação formal contra o Alexandre de Moraes. A gente vai precisar esperar para ver, e esperar também para ver se a campanha do Lula vai conseguir, de certa forma, virar o disco, mudar o assunto da campanha e trazer a discussão eleitoral de volta para comparação entre os dois governos, que é desde sempre a estratégia do PT: comparar o governo Lula 3, o governo atual, com o governo do Jair Bolsonaro, pai do candidato do PL.

Essa comparação, na visão dos petistas, beneficia o presidente Lula. O debate sobre o Supremo Tribunal Federal, na visão dos petistas, prejudica o presidente Lula. Então vai ter também uma disputa de agenda, uma disputa sobre o que que vai estar em jogo, o que que vai estar em discussão. Agora, sobre a crise no Supremo, eu concordo com você. Primeiro, não parece haver clima nem condição para sessão que tava prevista para semana que vem.

Se o caso Alexandre de Moraes tá paralisado, provavelmente o caso do André Mendonça ficará paralisado também, até porque a gente sabe que tava havendo uma discussão se esses casos poderiam ou não ser separados, e o Supremo interrompeu o julgamento sem tomar nem mesmo essa decisão. Ficou parado em 4 votos a 3, com pedido de vista do ministro Flávio Dino, que tende a dar o 4º voto para o outro lado. Ou seja, 4 a 4, um empate. E aí, quem vai arbitrar o empate?

É o ministro Edson Fachin? Isso também não tá claro. Então, o cenário mais provável, na minha visão, nesse momento, é que tudo isso fique para depois da eleição. E aí, claro, o Supremo vai continuar sangrando porque essa crise não vai desaparecer do noticiário, não vai desaparecer do cenário político apenas pelo desejo dos seus participantes, né? Ela vai continuar por aí. O Supremo vai continuar sangrando em praça pública. A ver se as campanhas vão ser determinadas por esse assunto ou se outros assuntos vão entrar na pauta com mais força.

NNNatuza Nery

Curioso você dar essa resposta, né, não taxativa, de não saber o que seria mais negativo para o projeto de reeleição de Lula? A não definição e jogar isso para as calendas, ou abertura de uma investigação contra o Alexandre de Moraes? Como você não deu uma resposta taxativa, estamos aqui avaliando essas duas possibilidades, até porque um fato aconteceu e outro não, né? Porque o fato é que a sessão não terminou com uma decisão e não teve a investigação até aqui do Alexandre de Moraes.

Bernardo Melo Franco, meu amigo, muito obrigada por mais uma vez estar aqui com a gente.

?Voz A

Eu que agradeço o convite. Vamos tentando entender junto esse país, tarefa que nunca foi fácil. Esse ano tá mais difícil ainda.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Colaboraram neste episódio Viviane Mateus e Patrícia Cunha. Este episódio usou áudio do canal Desce a Letra Show no YouTube. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.