ESPECIAL ELEIÇÕES: como resolver os gargalos da Saúde no país?
Ardilhes Moreira
José Gomes Temporão
Júlio Croda
Leonardo Carnut
Lígia Bahia
Renato Kfouri
- Propostas dos candidatos para resolver as filas e o acesso ao SUSAtenção básica·Tecnologia e digitalização do SUS·Inteligência Artificial·Telemedicina·Setor privado
- Estratégias dos candidatos para combater o negacionismo e aumentar a vacinaçãoMovimentos antivax·Negacionismo científico·Cobertura vacinal infantil·Produção nacional de vacinas
- Abordagens dos candidatos para doenças crônicas e câncer no BrasilDoenças cardiovasculares·Hipertensão·Diabetes·Câncer·Diagnóstico precoce
- Desafios do envelhecimento da população e obesidade nas propostas de saúdeEnvelhecimento da população·Longevidade·Obesidade·Políticas preventivas
- Qualificação e oferta de profissionais da saúde na rede públicaFormação médica·Residência médica·Exame Nacional de Formação Médica·Hospitais universitários
Por um lado, a saúde pública brasileira é motivo de orgulho. O SUS é o maior sistema público de saúde do mundo e, de acordo com o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, é um exemplo para todos os países. Mas quem usa e depende do SUS sabe que a realidade impõe muitas, muitas barreiras para acessar atendimento médico e hospitalar de qualidade. Um levantamento feito pelo jornal O Globo em 2025 mostra que a fila de espera para consultas dura em média 57 dias.
Isso varia de estado para estado, claro, mas pode chegar até 170 dias. E mesmo a vacinação, que já foi motivo de orgulho nacional, teve uma queda expressiva durante a pandemia de COVID e está a reboque de uma onda de desinformação. Ou seja, o que a gente vê é um país com enorme potencial de cuidar dos seus cidadãos, mas que está longe de conseguir isso. Neste episódio, vamos explicar as ideias e as propostas dos candidatos à presidência da República para enfrentar esses desafios na saúde pública a partir de 2027.
Este é o 4º episódio de uma série sobre alguns dos temas mais relevantes desta eleição. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: um Brasil para 2027, como resolver os gargalos da saúde no país? Neste episódio, eu converso com Ardiles Moreira, editor de Saúde, Ciência, Educação e Meio Ambiente do G1. Você também vai ouvir comentários de especialistas que conversaram a nossa produtora Stephanie Nascimento. São eles: José Gomes Temporão, Júlio Croda, Leonardo Carnucci, Lígia Bahia, Renato Kifuri.
Terça-feira, 15 de setembro. Adilis, eu quero a tua ajuda para analisar os gargalos da saúde pública no Brasil. E começar pelo acesso ao SUS, que é um tema muito importante. E aí, depois que o paciente passa pela atenção básica e precisa de um especialista, de um exame, de um procedimento, é aí que a coisa pega mais. O que que os candidatos à presidência da República estão propondo para enfrentar esse problema?
A maioria dos candidatos, quando a gente pergunta, quando a gente olha para os programas e fala o que que eles estão propondo para solucionar filas no atendimento primário, agendamento de consultas, exames, de alguma forma eles abordam uma coisa que a gente chama de atenção básica. Que que é atenção básica? É a porta de entrada no SUS, né? É o atendimento que é feito nas unidades básicas de saúde pelas equipes da saúde de família.
E essa é a, vamos dizer assim, o único jeito da pessoa ter acesso ao rol de procedimentos que o SUS pode oferecer para ela. Ela não vai direto num especialista, ela não vai direto no hospital, exceto no caso de uma emergência, né? Então, no dia a dia, ele precisa passar por esse espaço que é atenção básica, que é a UBS. E de alguma forma, os candidatos abordam isso, que é reforçar e ampliar o total de equipes que atendem nessa etapa do SUS, né?
Isso é citado pelo Lula, pelo Flávio, pelo Cury, pelo Caiado, por exemplo, né? E o programa de Lula vai lá e fala diretamente das equipes de saúde de família e aponta a necessidade inclusive de aumentar equipes multiprofissionais para focar numa população que tá envelhecendo com velocidade. Caiado também vai no detalhe, ele cita que é preciso reforçar essa estratégia, né, que a gente tá falando da saúde da família, e diz uma coisa que é bastante típica do SUS e que é um coração da operação do SUS, né, que é preciso reforçar o vínculo dos médicos com o território, né.
Ele quer que cada cidadão no território seja acompanhado acompanhado por um médico do programa de saúde da família, né? O ideal é que num programa de saúde da família cada equipe responda ali por entre 2.000 e 3.000 pessoas, de acordo com o tamanho dessa cidade onde ele tá. Isso tem alguns parâmetros, né? E ele precisa então acompanhar num ciclo ali anual cada uma dessas famílias, dessas pessoas que estão. O Zema também fala ali de um reforço dessa estratégia, mas de modo geral esse é um tema que entra, importante, os candidatos citam, Mas é algo que não é tão abrangente ou que aparece tanto quando o assunto é fila e atendimento quanto tecnologia, né?
Se por um lado nem todos citam lá os agentes na ponta, todos falam na importância da tecnologia e da digitalização do SUS para melhorar o acesso, né? E a inteligência artificial é uma das tecnologias bem citadas aí.
Primeira coisa que chama atenção quando a gente lê os 6 planos de governo lado a lado é que eles convergem no que diz respeito a esse acesso, né?
Você escuta Júlio Croda, médico-sanitarista e pesquisador da Fiocruz.
Todos reconhecem uma dificuldade e eles propõem informatização, prontuário eletrônico nacional, substituição da fila cronológica pela uma fila ordenada por risco clínico e o uso de inteligência artificial. Parece que é um consenso, né, nas diferentes propostas. O grande problema dessas 6 propostas é que não está explícito da onde vem o médico e o dinheiro, principalmente para a gente prover o SUS com maior número de atendimentos no interior, nos locais onde falta esse atendimento, esse exame.
Então assim, o SUS é subfinanciado e é importante a gente entender como que a gente vai ter o financiamento para resolver esse problema que é estrutural.
Enquanto o Cury e o Lula citam a tecnologia para triagem dos pacientes, o Flávio Bolsonaro propõe, por exemplo, como aliada a prevenção, e fala de uma forma sem detalhar muito que prevê criar um sistema que vai identificar o risco maior de adoecer e chamar essa pessoa para se cuidar a tempo, né? Ele cita a inteligência artificial ali como uma ferramenta que vai apoiar nesse processo e agilizar o agendamento de consultas e exames.
A tecnologia também é citada como ferramenta pelo Renan Santos, né? Só que a inteligência artificial não aparece sozinha dentro desse cenário, né, de diminuição de filas. O teleatendimento e a telesaúde também são eixos importantes nas palavras dos candidatos. O Cury, por exemplo, tem a promessa que talvez seja assim mais polêmica na visão dos especialistas que a gente ouviu, que é fazer com que 80% das consultas básicas sejam resolvidas com telemedicina e em até 30 minutos de espera.
Então, de alguma forma, esse candidato tá falando que a porta de entrada do SUS, em vez desses agentes de saúde da família, do médico generalista ou do clínico geral que acompanha essa família no território, 80% das consultas básicas sejam feitas com telemedicina, né? É um caminho que é diferente de outros candidatos que pensam mais na telemedicina para acesso em áreas remotas ou como um complemento para melhorar o acesso a especialistas, né?
O programa, por exemplo, do candidato Lula lembra que o governo já usa essa tecnologia e diz que ia, já distribuiu mais de 5 mil kits de teletendimento e vai intensificar o apoio para adoção dessas ferramentas se for reeleito, né? O Renan Santos traz uma ideia que é um pouco diferente e já pensa num programa, num sistema digital mais complexo, mais completo, inspirado em El Salvador, que vai combinar telemedicina, diagnóstico por IA, triagem, monitoramento clínico contínuo do paciente, né?
E vale a pena a gente lembrar, Natuza, que a telemedicina precisa, pressupõe ali que o paciente tem um celular e tem conexão disponível para acessar, né, essas ferramentas, né? Então, por mais que a gente seja um país conectado, há desafios significativos para esse acesso amplo, né?
As propostas dos candidatos convergem para um ponto, que é a questão da digitalização.
Você escuta José Gomes Temporão, médico-sanitarista e ex-ministro da Saúde.
Todos os candidatos propõem estabelecer um prontuário único, utilizar inteligência artificial, utilizar telessaúde. E não há nenhuma novidade nisso. O que que tá em jogo? Nós temos que aumentar inclusive o perfil da atenção básica. Nós temos que incluir outros profissionais como fisioterapeutas, como psicólogos, como geriatras. E nós temos que criar uma carreira, porque hoje a atenção básica tá sustentada basicamente em cima do Mais Médicos.
O vínculo do Mais Médicos é bolsa. E o vínculo, esse termo vínculo, é a chave que explica por que esse modelo é tão importante em termos mundiais. Você tem que estabelecer um vínculo entre o médico, o enfermeiro, o agente comunitário e as famílias no território, no bairro, ali onde a pessoa mora ou trabalha. Isso sem criar uma carreira que dê estabilidade a esses profissionais vai manter essa situação também no nível ainda precário.
Então, eu diria que de um lado há uma divergência central entre o fortalecimento do SUS público que os candidatos Lula e Caiado defendem. E Zema e Bolsonaro focam muito mais no setor privado como complemento estrutural. O Cury trabalha com uma proposta tecnológica como substitutivo de tudo. E Renan Santos, uma reorganização digital, mas sem base factível na realidade concreta.
E por fim, falando em filas, o setor privado aparece também citado, né, de uma forma mais pontual, mas fala-se ali em utilizar a capacidade ociosa ou fazer parcerias, né, como uma possibilidade ali para o Lula, Bolsonaro e o Zema, cada um de um jeito. Mas neste aspecto, as medidas não tratam especificamente só da fila da UBS, mas também um pouquinho avança ali na questão de exames ou procedimentos mais complexos. Mas ninguém fala de onde vai sair o dinheiro para bancar tudo isso, né.
Vale lembrar que a Instituição Fiscal Independente do Senado, né, entre outros órgãos aí, Cita que a demanda por recursos no SUS cresce mais rápido do que o orçamento federal, por causa do envelhecimento da população, da ampliação da cobertura que é necessária e da própria inflação específica desse setor.
No papel cabe tudo, né? Inclusive propostas que não se combinam com o orçamento que há disponível, que é cada vez mais enxuto. Bom, a gente falou da atenção primária, mas a gente precisa falar também de doenças crônicas. E aí a gente pode citar hipertensão, problema cardíaco, problema respiratório, câncer, diabetes e até mesmo saúde mental, que é um problema que é cada vez mais presente na vida de nós brasileiras e brasileiros.
E aí, para essa área, para a área de doenças crônicas, O que é que eles estão dizendo?
Por que que a gente tá falando disso, né? Cerca de 30% das mortes do país são causadas por doenças cardiovasculares, né? E a hipertensão, por exemplo, atinge um número parecido, 30% das pessoas, segundo os dados mais recentes do Ministério, de 2024. Então, para enfrentar, por exemplo, só esse das doenças crônicas, que a gente tem outros números que a gente poderia avaliar, a gente tem ali propostas dos candidatos que vão, por exemplo, em programas ou intensificar atendimentos que já ocorrem, né?
Então, por exemplo, o Caiado, ele é bem específico nesse tema, e ele fala de criar uma linha cardiovascular de atendimento cardiovascular que vai começar lá no acompanhamento da hipertensão e diabetes e chegar lá num complexo maior de atendimento ao infarto e AVC, com meta de redução da mortalidade cardiovascular. O Lula faz um movimento de valorizar, não cita especificamente as doenças cardiovasculares e tal, mas ele faz um movimento de trocar, de tocar no caso da hipertensão e do diabetes, aumentar o rol de atendimento da farmácia popular, que é conhecida por entregar principalmente os medicamentos.
Mas ele prevê no próximo governo que a farmácia popular possa prover exames para diagnóstico e monitoramento de diabetes, né? E o Zema, ele propõe vincular o incentivo da atenção primária a resultados no controle dessas doenças. Não é diferente, Ele, o Zema, tá falando que só vai receber recurso o município que conseguir controlar essas doenças, que também talvez não seja unanimidade na visão dos especialistas que a gente vem acompanhando.
Mas para cuidar dessas condições, em alguns casos é preciso acesso a especialista, né? E aqui que aparecem diferentes estratégias também. O Lula promete ampliar o Agora Tem Especialistas, que é o programa dele, que é para aumentar os médicos com formações específicas. Apontando ou criando um terceiro turno de atendimentos, levando carretas, mutirão, expansão da rede e o uso complementar de hospitais privados, né? Enquanto o Zema ali fala em regionalizar a rede e ampliar residências médicas para formar mais médicos, né, que prestem serviços necessários em determinadas áreas para o SUS, e também a utilização da iniciativa privada.
O problema é que mesmo tendo um diagnóstico, uma hipótese de diagnóstico, como hipertensão, diabetes e pior, os cânceres, há uma dificuldade de seguir adiante, confirmar ou não esse diagnóstico e obter tratamento adequado e oportuno para isso.
Você escuta Lígia Bahia, médica-sanitarista, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Para diabetes e hipertensão é um pouco diferente, isso pode ser realizado por clínicas de saúde da família, centros de saúde e com muita qualidade. Em relação aos cânceres, é um pouco diferente. Pra fazer diagnóstico de câncer, muitas vezes é necessário um exame de imagem mais sofisticado, é necessário biópsia, é necessário então esse recurso à patologia clínica, a outras especialidades. E isso é um problema imenso, porque o câncer é uma doença progressiva, né?
E se demora muito, se demora muito, Os recursos estão fundamentalmente alocados no setor filantrópico e privado e mais disponíveis para quem tem plano de saúde e não para a maioria da população que, digamos, é a clientela do SUS. Então, esse problemão, ele tem diversas soluções. Uma das soluções é essa, digamos, que agora tem especialistas, está buscando que é convocar o setor privado para integrar a rede SUS. Isso é interessante porque isso pode ampliar a oferta do SUS.
O Cury e o Flávio Bolsonaro enfatizam rastreamento e diagnóstico precoce, inclusive com unidades móveis. No programa do Flávio Bolsonaro, o tema câncer aparece especificamente em um tópico dele sobre as mulheres. Ele não fala sobre o câncer em outros pontos, mas ele fala na necessidade de cuidar melhor da saúde das mulheres e fala de um enfrentamento mais específico do tema para esse público, né? No CURE, a gente tem uma ideia bastante específica que é replicar um modelo inspirado no Hospital do Amor de Barretos, com uma proposta de construir uma rede de prevenção que utilize institutos, unidades móveis, busca ativa, enfim.
E ele fala, por exemplo, ali que O maior inimigo da prevenção não é o câncer, mas a mente que evita enfrentá-lo. Então ele tem um pouco essa abordagem ali de gestão da emoção e de tentar fazer com que a sociedade toda se envolva e que as pessoas olhem para esse tema, né, dentro, que é um tema comum dentro que a gente já viu do programa dele, essa questão ali, vamos dizer assim, emocional, né. O Lula especificamente, ele fala em expandir os centros especializados E propõe ali consolidar um supercentro Brasil diagnóstico do câncer para reduzir o tempo de espera por biópsias em áreas remotas e ampliar centros de radioterapias e cirurgias, né.
Caiado tem uma ideia também específica de criar uma via rápida do câncer com prioridade para atendimento dentro do prazo previsto, né. Legal, o câncer, a política nacional prevê prazos para que a gente tenha 30 dias do diagnóstico, enfim, e já lá depois de 50 dias o começo do tratamento, enfim. Então ele fala especificamente disso e criar uma política que é um relógio digital, como ele fala, para que esse tempo comece a correr e seja cumprido.
Hoje, por exemplo, o Brasil, os brasileiros morrem principalmente do quê? Primeiro lugar de doença cardiovascular e cerebrovascular, em segundo lugar de câncer. Você escuta José Gomes Temporão Mas o câncer em 600 municípios brasileiros já é a primeira causa de morte. E com o envelhecimento acelerado, essa realidade da doença crônica vai se manifestar de maneira cada vez mais presente. Os candidatos abordam de maneira muito heterogênea essa questão.
Então, uma síntese em relação a essa questão da atenção básica que chama mais atenção é: nenhum deles aborda a questão das grandes mudanças que estão acontecendo na sociedade brasileira. Transição demográfica, Brasil envelhecendo rapidamente, a questão epidemiológica, o Brasil tem doença crônica que se soma à violência, homicídios e acidentes de trânsito, e agora epidemia de acidente de motos, e tem as doenças infecciosas que permanecem como fator importante de morbidade e mortalidade, né? E terceiro, isso num contexto de grande desigualdade estrutural.
Bom, você citou um dos nossos problemas aqui no Brasil logo no começo da nossa conversa, que foi o envelhecimento da população brasileira. Há um outro também que é uma população mais obesa. E aí, que desenho de rede pública é preciso erguer para dar conta desse novo momento? Se a gente for olhar para número de eleitores, se minha memória não tiver errada, de 2022 para agora são 14 milhões de eleitores a mais acima de 60 anos, ou com 60 anos ou mais.
Eu te pergunto, o que que os candidatos estão trazendo para essa fatia da população e o que a nossa estrutura precisa ter para dar conta desse recado?
Acho que a questão do envelhecimento e a longevidade da população é um tema que talvez ainda precise de mais debate e amadurecimento dentro das propostas, né? A gente tem sim candidatos que olham para esse tema, mas talvez essa mudança não esteja tão diagnosticada assim, né? Mas assim, a gente vê o Lula, o Flávio Bolsonaro, Zema e Caiado citando, reconhecendo explicitamente que o envelhecimento vai exigir adaptação das políticas públicas, né?
Os especialistas que a gente ouviu hoje mostram que, apontam que o Lula tem um desenho mais abrangente nas propostas, né, que chega a separar ali a política pública que ele prevê em dois grupos, né? Ele vê os idosos com menor dependência, para quem ele reforça a ideia de que é preciso reforçar autonomia e ajudar no envelhecimento ativo. E ele vê um outro grupo com maior dependência que precisa de mais cuidados. E aí por isso ele se compromete ali em criar mais vagas para instituições de longa permanência, né?
Algo que no passado já foi falado, casas de repouso, a gente não usa mais esse nome. Mas então esse nome, instituições de longa permanência, seriam essas casas, espaços onde os idosos que não têm essa família que possa cuidar possam ficar com eles, né? E prever também a expansão, o candidato Lula, de um Programa Nacional de Atendimento Domiciliar Multiprofissional a idosos que têm alimentação, doenças crônicas e fragilidades, né?
Eu acho que aqui a gente lembra lá atrás, o SUS com suas equipes multidisciplinares poderiam atuar muito bem nessa etapa, né, de olhar para o território, acompanhar as famílias Então o SU já tem um desenho hoje que, com os especialistas certos e uma equipe bem formada, ele poderia dar conta também de fazer uma gestão pontual ali e apoiar nessas fragilidades, né? O Flávio Bolsonaro propõe aqui um programa de atendimento aos idosos que estabelece aqui rotas assistenciais mais facilitadas perto da casa para evitar que eles se cansem em percursos longos.
Prevê também aqui a entrega de medicamentos em domicílio para doentes crônicos e fala também até em um programa Casa Segura para Envelhecer, acessibilidade domiciliar de idosos em baixa renda, que dá a ideia de apoio para pequenas reformas, né? E ele também planeja, o Flávio Bolsonaro, criar um aplicativo de companhia com alerta de perigo e expandir a atenção à saúde mental, né? O Zema concentra a proposta dele de saúde na prevenção, quer apoiar ali municípios com políticas para terceira idade, atividade física, e socialização para prevenir ou retardar ali os sintomas, os problemas do envelhecimento, né.
O Caiado trata o envelhecimento tanto como uma questão de saúde quanto algo que exige ali proteção social, né. E ele fala dessa, faz esse diagnóstico, uma população mais velha exige cuidados maiores e vai demandar mais proteção do SUS, que precisa estar estruturado no modelo mais preventivo, integrado e orientado para identificação precoce de riscos, né. O Renan Santos e o Augusto Cury não trataram nos programas deles desse tema do envelhecimento da população e da longevidade num nível parecido com que a gente viu nos outros candidatos, né.
A obesidade, né, agora vamos falar dela. 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% já enfrenta algum quadro de obesidade, segundo dados ali do Ministério da Saúde de 2024. E apesar da abrangência desse problema, ele é uma questão que aparece bem pouco no programa dos candidatos, que às vezes falam mais em enfrentar alguns fatores associados à obesidade, como alimentação, sedentarismo, ou controlar algumas doenças, mas são poucos que apresentam algo realmente que possa ser classificado como uma política contra a obesidade.
Os planos de governo são mais generalistas em relação ao assunto. Da obesidade.
Você escuta Júlio Croda.
E falta muito detalhamento para garantir acesso às terapias clínicas e cirúrgicas, ao cuidado completo do paciente com obesidade na atenção primária. Sobre o envelhecimento, a gente tem assim muitos planos falando que é importante, que existe uma necessidade de financiamento, mas falta esse detalhamento, falta muito esse detalhamento em relação de como o Brasil vai se preparar melhor para o envelhecimento que deve ocorrer nos próximos anos, a mudança da pirâmide etária que deve ocorrer, como que a gente vai ter uma atenção domiciliar mais robusta.
Porque mesmo a nossa atenção primária, ela é muito baseada na unidade básica de saúde. E a gente sabe que com o envelhecimento a gente vai precisar de mais instituições terapêuticas de longa permanência, Visita domiciliar, atendimento domiciliar mais efetivo, cuidado paliativo mais efetivo.
Quer dizer, sabe que a questão é que nós estamos em 2026, daqui a 10 anos, exatamente 2036, nós teremos 40 milhões de idosos no Brasil.
Você escuta José Gomes Temporão.
E 40 milhões de idosos em que condições? Em condições de plena autonomia? Não creio. As informações que nós temos hoje é que grande parte desses idosos vão ter comorbidades, ou seja, serão hipertensos, diabéticos, com doença cardiovascular, doença renal ou com neoplasia, e vão necessitar de ajuda em algum momento no cotidiano da sua vida. Essa ajuda normalmente hoje recai sobre as mulheres, que acabam sendo também pressionadas por essa demanda.
O Zema cita uma política preventiva relacionada, embora não consuma um programa específico também, ele propõe campanhas e integração das políticas de saúde e educação para incentivar atividade física, alimentação equilibrada, enfim. A justificativa é reduzir doenças e custos futuros para o SUS. O Caiado incorpora a obesidade a uma lógica de identificação e controle dos fatores de riscos para doenças. Então, no desenho geral do SUS que ele vê, ele propõe abandonar um modelo que é reativo, que reage aos problemas, para um outro mais preventivo.
E ele quer então acompanhamento mais ativo dessas populações vulneráveis, enfim, junto ali com o controle de hipertensão, diabetes e essas doenças crônicas. O Flávio aborda o tema sobretudo também pela prevenção e hábitos de vida. E o Lula tem também propostas que alcançam esses fatores associados à obesidade, né, como a promoção da saúde, alimentação e atividade física, mas não formula propriamente um programa específico. Acho que se cabe o registro, nenhum candidato tratou aqui da incorporação das chamadas canetas emagrecedoras no SUS, né?
O governo está testando o uso em pacientes graves, obesidade, que tem obesidade mesmo, né, fatores de risco, o que é diferente do emagrecimento, né, do nome que essas canetas ficaram conhecidas, né? E a indústria agora voltou a pedir incorporação desses medicamentos para grupos mais específicos, e os preços estão começando a cair com a concorrência, a produção nacional. O SUS quer saber quais são os efeitos das canetas emagrecedoras nos pacientes da rede pública.
A pesquisa começou no Rio Grande do Sul. O governo estuda a possibilidade de disponibilizar a primeira caneta brasileira de semaglutida no SUS.
Isso para o tratamento da obesidade.
Com o uso da caneta, os médicos afirmam que o custo pode diminuir bastante.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Ardilis Moreira.
Brasileiro raiz sabe que arroz e feijão dão aquele combustível para o dia a dia.
E aqui na Globo praticamente todos os nossos carros usam energia limpa.
Lembra daquela história que de grão em grão tudo pode virar doação na Globo?
Doamos tampinhas, móveis e até brinquedos para instituições sociais.
E no Brasil todo Todo mundo diz: pode entrar, mas não repara não. Aqui na Globo pode reparar sim. A gente repete cenários porque isso é sustentável. É uma escolha nossa.
Globo, fazer diferença todo dia.
Bom, um aspecto fundamental que em parte é gatilho para muitos de nós brasileiros é vacinação. Eu falo de gatilho em razão da COVID, né? Movimentos antivax que cresceram no mundo inteiro, o Brasil não ficou fora disso, tem esse movimento de negação impedindo vacinação de crianças, não é um movimento que vem só da extrema-direita, é importante que se diga. Diante disso, o que que o grid de candidatos, o que os candidatos estão apresentando para ou combater essa ideia de que vacinar faz mal e aumentar a vacinação da população.
No papel, a gente não tem candidato contra as vacinas, mas poucos tratam diretamente do problema do negacionismo ou se detalharam lá numa estratégia para recuperar quem deixou de se vacinar. O programa do presidente Lula trata a questão do negacionismo científico. Ele vai direto ali falando em reverter o negacionismo em relação às vacinas e recuperar as coberturas da imunização infantil. E aí ele fala campanhas nacionais, vacinação em locais de fácil acesso e vacinação nas escolas como uma das prioridades, né?
E não fica só restrito às crianças, ele cita também outros públicos, o público adulto. O Caiado não enfatiza tanto o enfrentamento ao discurso antivacina, mas tem uma estratégia mais detalhada para encontrar quem não está vacinado e aumentar essa cobertura, né? Ele que propõe ali uma busca ativa nominal das pessoas com dose atrasada e fala em vacinação nas escolas, equipes móveis, e fala em meta ali de 95% de cobertura das vacinas prioritárias até 2030, né.
O Zema segue uma estratégia mais territorial, fala em ampliar a cobertura dos programas de vacinação por meio lá da nossa atenção primária em saúde. O Flávio Bolsonaro também defende a manutenção da imunização dentro de uma política de prevenção E associa ali a vacinação à proteção das famílias, a redução de gasto futuro com doenças, né. Programa do Flávio fala também incentivar a produção nacional de vacinas, mas não detalha uma estratégia específica ali para enfrentar essa resistência ou localizar quem tá com calendário atrasado, né.
O Renan Santos inclui a cobertura vacinal como um dos indicadores em uma proposta que ele tem para avaliar o desempenho dos municípios, né. Então entre outros pontos. O município, para ter, estar bem dentro de uma política que ele quer desenvolver lá de avaliação dos municípios, ele precisa ter uma boa cobertura vacinal. E ele fala também desenvolver uma plataforma de mRNA para vacinas e terapias integrada ao sistema de saúde, algo que o Brasil também tá perseguindo, existe pesquisa nesse sentido, né.
Enfim, e o Augusto Cury também não apresenta uma política geral detalhada de recuperação da cobertura vacinal, mas Cita a necessidade de imunizantes específicos, por exemplo, ligados à prevenção do câncer, dá destaque ali para o HPV e a hepatite B, reconhece então a importância da vacina, mas também não entra nessa questão do movimento antivacina, né?
Então, este é um exemplo mundial, a despeito dos governos que atravessamos nesses 50 anos, o programa tem sido privilegiado e tem sido uma constante em termos de investimento e de qualificação.
Você escuta Renato Kifuri, médico infectologista, secretário de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.
O Brasil adotou nos últimos anos, buscando a recuperação das coberturas vacinais do período pós-pandêmico, a estratégia que nós chamamos de microplanejamento, adotada ou recomendada pela Organização Pan-Americana da Saúde. Tem muitos locais que o motivo da não vacinação é a desinformação, no outro são questões relacionadas a acesso, no outro são questões relacionadas muitas vezes à falta de vacinas, horário de funcionamento das unidades de saúde.
E o programa de qualquer governo tem que contemplar financiamento para que os estados e municípios, que são os executores das ações de vacinação, tenham capacidade de acessar essa população que necessita com recursos humanos adequados, com disponibilização de transporte, com cadeia de frio, ou seja, transporte adequado dessas vacinas, especialmente em relação em regiões de fronteira ou ribeirinhas. Essas regiões onde a gente encontra vulnerabilidades de lacunas de vacinas são justamente a porta de entrada muitas vezes para introdução de doenças já controladas.
Esse é o risco que muitas vezes os governos negacionistas trazem. Nós vivemos num passado recente, especialmente na pandemia, o exemplo de como a contrapropaganda em relação à vacina, disfarçada muitas vezes de ideologias ou de regras de liberdade de expressão com seu corpo, podem comprometer justamente a cobertura e a saúde coletiva. O que os Estados Unidos vêm vivenciando hoje é um exemplo claro disso. Quando eu me vacino, eu protejo a todos, a mim e a toda a comunidade ao meu redor.
E esse é um discurso que precisa permear as campanhas, precisa permear as políticas públicas do programa de governo de qualquer candidato.
E há uma lacuna importante, então, quando a pergunta passa das crianças para os adultos. Os programas são muito mais específicos sobre vacinação infantil e eu acho que ainda é preciso recuperar essa confiança em vacinas básicas como a gripe, o sarampo, a gente viu aqui surto em São Paulo. Isso são temas que passaram um pouco ao largo do debate para alguns dos candidatos aqui.
Bom, e não dá para falar de programa de candidatos à presidência em saúde pública que não passe pelo médico. Não tem saúde pública sem médico, sem profissional da saúde. O que há de específico sobre isso, tanto em termos de qualificação quanto em termos de aumento de oferta de profissionais da saúde na rede pública?
O aumento da formação médica no Brasil não foi acompanhado da qualidade, né? Acho que isso é um diagnóstico claro para os especialistas. E nos programas, os candidatos falam desses desafios. Tanto na formação da graduação quanto depois na conclusão da formação dos especialistas ali através da residência médica, né. Quando a gente fala ali da qualidade dos cursos, o Caiado é um que cita especificamente a necessidade de aumentar as exigências de avaliação, reestruturar ou fechar cursos que estão com desempenho insuficiente, né.
O Zema também faz uma crítica forte à expansão do ensino superior sem qualidade. Especialmente no setor privado, e ele propõe transferir o ensino superior do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência e Tecnologia para poder, enfim, ter um controle maior e aproximar a universidade de pesquisa, inovação, enfim, e das necessidades reais da economia. O programa do presidente Lula não cita especificamente isso, mas vale lembrar que ele implantou o Exame Nacional de Formação Médica, o ENAMED, E o MEC começou a colocar agora sanções sobre os cursos com baixa qualidade, tanto que a gente teve 107 dos 351 cursos avaliados que receberam notas 1 e 2, que são os níveis considerados insatisfatórios e passíveis de sanção, que começaram já a ser aplicadas contra esses cursos, como por exemplo restrição de abertura de novas vagas, diminuição do número de vagas nos próximos vestibulares, né?
Mas não basta só formar o médico com qualidade, E o que a gente vê, a gente vai chegar próximo, já estamos na faixa de 35 mil médicos formados por ano, mas a gente precisa que esses médicos possam se especializar e as vagas para residência médica não são muito mais ali na faixa de 19, menos de 20 mil vagas por ano, né?
Houve um crescimento expressivo das faculdades privadas de medicina no Brasil.
Você escuta Leonardo Carnucci, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.
Esse crescimento expressivo veio a partir de também políticas que facilitaram a possibilidade de abertura dessas faculdades, desses centros universitários. Enfim, muitas dessas são faculdades, né? Elas não estão dentro de universidades nem de centros universitários, que são instituições de ensino superior de modalidades diferentes. Acho que é importante deixar isso claro. No último ENAM Médio, a gente teve alguns resultados interessantes sobre a qualidade dessas instituições.
Então, existem aí instituições privadas de medicina que não têm a devida qualidade assegurada na formação. A formação médica no Brasil, do ponto de vista da excelência clínica, é uma das melhores do mundo, isso não tem nenhuma dúvida. Mas eu insisto que não basta só ter excelência clínica para você trabalhar no Sistema Único de Saúde. Você precisa ter excelência clínica aliada a uma boa formação em saúde pública, né? E o que garante isso é um currículo orientado para essa formação.
Diante desse cenário, quando a gente pensa no Sistema Único de Saúde, a formação em residências é uma formação principalmente naqueles centros de excelência que tendem a ter maior investimento em cooperação tecnológica. São os locais, digamos assim, mais apropriados para a formação desses profissionais. Então aumentar o número de vagas nesses espaços é fundamental e é algo a se considerar nas propostas, algo que eu não vi nenhuma proposta feita pelos candidatos nessa questão.
Essa questão da residência médica é citada pelo Zema ali, que propõe ampliar as vagas, inclusive aproveitando os hospitais que já possuem vaga e direcionar para regiões, principalmente no interior. O Lula fala, né, em ampliar a estrutura de formação com a formação prática, com novos hospitais universitários ligados aí à expansão das universidades federais. Aí nesse caso o hospital cumpre duas funções: é formar profissionais e ampliar o atendimento especializado no SUS.
O Caiado propõe um planejamento nacional das necessidades de médicos especialistas e fala em direcionar as vagas de formação para especialidades e regiões onde existem vazios assistenciais. E apesar das críticas atuais à proliferação e à qualidade dos cursos de medicina, o problema não ocupa então um espaço equivalente em todos os programas. Em vários programas, a preocupação central ainda é ter mais médicos, mais especialistas, distribuí-los melhor.
A discussão que fica é como que é possível então garantir que esse médico recém-formado seja efetivamente preparado para atender.
Bom, o desafio é imenso. Eu não sei como é que vai dar, Dili, para um presidente da República em 4 anos dar conta de tantos recados assim. Mas te agradeço demais o panorama apurado que você fez aqui para gente. Muito obrigada pela participação.
Muito obrigado, Natuzia, foi um prazer.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaboraram neste episódio Viviane Mateus e Patrícia Cunha. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.