'Dark Horse': as emendas parlamentares e o filme sobre Jair Bolsonaro
- Operação da Polícia Federal investiga desvio de emendas parlamentares para o filme Dark HorsePolícia Federal·Controladoria-Geral da União·Mário Frias·Karina Gama·Instituto Conhecer Brasil·Go Up
- A teia de relações de Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark HorseDaniel Vorcaro·Dark Horse·Jair Bolsonaro·Flávio Bolsonaro·Banco Master
- Mecanismos de desvio de verbas públicas e a triangulação financeira para o filmeEmendas parlamentares·Superfaturamento·Empresas de fachada·Lavagem de dinheiro·Marcelo de Oliveira Lopes
- A delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior e os repasses para o fundo do filmeAntônio Carlos Freixo Júnior·Delação premiada·Entre Investimentos·Heaven Gate·Paulo Calixto
- Impactos das investigações do Dark Horse na campanha de Flávio Bolsonaro e na crise do SupremoFlávio Bolsonaro·Supremo Tribunal Federal·Crise política·Alexandre de Moraes
Nos últimos episódios aqui do assunto, um nome foi repetido à exaustão.
São 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes.
Daniel Vorcaro.
O ministro André Mendonça divulgou hoje uma nota em que confirma que se reuniu com Daniel Vorcaro.
Daniel Vorcaro.
Daniel Vorcaro.
Daniel Vorcaro. Daniel Vorcaro.
Polícia Federal intimou a depor o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ex-presidente do BC, Roberto Campos Os depoimentos serão por videoconferência e fazem parte do inquérito que investiga a relação do ex-banqueiro Daniel Vorkaro, Vorkaro, o empresário Daniel Vorkaro.
A teia de relações entre o banqueiro preso por fraude e figuras do poder cabe em um mural de escândalos, daqueles que a gente vê em séries e filmes policiais. Fotos, nomes ligando um ponto a outro, Linhas que geralmente revelam repasses de milhões de reais.
O senador Flávio Bolsonaro tratou diretamente com Daniel Vorcaro um repasse de 24 milhões de dólares para financiar a produção do filme Dark Horse sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?
O COAF, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, identificou um repasse extra de 1 milhão e 600 mil dólares de Daniel Vorcaro para o fundo responsável por administrar os recursos do filme Dark Horse nos Estados Unidos. A informação foi publicada pela revista Piauí. Segundo a reportagem, no dia 16 de setembro do ano passado, o banqueiro Daniel Vorcaro enviou mais de 1 milhão e 600 mil dólares para o Havengate Development Fund, um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado amigo de Eduardo Bolsonaro que também vive no Texas.
O repasse de Vorcaro foi feito 8 dias depois de Flávio enviar mensagem ao banqueiro cobrando as parcelas atrasadas para financiar o filme Dark Horse, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Estamos olhando agora para o UOL com as investigações que apuram o financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, onde os nós ainda estão sendo desatados.
O ministro André Mendonça homologou a delação premiada do empresário que fez pagamentos milionários para o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os depósitos foram a mando de Daniel Vorcaro.
Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, é dono da Entre Investimentos. Ele foi alvo da Operação Compliance Zero, que investiga o esquema bilionário de fraudes no sistema financeiro a partir do Banco Master. Freixo Júnior listou ao todo 7 repasses para o fundo americano, de janeiro a setembro do ano passado. Ao todo, mais de 12 milhões de dólares, quase 63 milhões de reais à época. E segundo o empresário, o Vorcaro tinha acertado um repasse ainda maior: 24 milhões de dólares em 10 cotas até janeiro deste ano. Mas os pagamentos restantes não foram feitos.
Na quinta-feira, duas fotos desse mural ganharam destaque.
O deputado federal Mário Frias, do PL, e a empresária produtora do filme Dark Horse foram alvos de uma operação da Polícia Federal que investiga desvio de recursos públicos de emendas parlamentares.
E aqui a conversa é outra. Outra investigação e outro dinheiro, mas os mesmos personagens. Um dinheiro que é meu, que é seu, de todos nós, e que a polícia suspeita ter saído dos cofres públicos sem precisar de banqueiro, direto para o filme.
Investigadores apuram se a verba pública foi repassada indevidamente para financiar o filme que narra a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O deputado Mário Frias destinou em 2024 R$2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil. Os pagamentos foram feitos no ano passado. Não há registro de repasse de valores de emendas dele para a Academia Nacional de Cultura. A Polícia Federal destacou recursos enviados por Marcelo de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro. Segundo a investigação, ele repassou R$1 milhão à GoUp. Em junho, o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Cariana, já tinha sido alvo de uma operação da Polícia Civil de São Paulo que apura desvios de recursos municipais.
A suspeita é que verbas destinadas para instalação de Wi-Fi foram desviadas para produção do filme Dark Horse. O contrato é de R$157 milhões. A Polícia Federal destacou ainda que a Gol Up movimentou R$19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período em que recebeu recursos de diversos remetentes, Sendo que as filmagens da cinebiografia ocorreram entre outubro e dezembro de 2025, coincidindo temporalmente com as movimentações financeiras analisadas.
A PF afirma que as tentativas de ocultar os desvios ocorreram até julho deste ano.
Enquanto o Supremo Tribunal Federal tenta resolver a crise que se instalou justamente a partir das investigações sobre o entorno de Daniel Vorcaro, Brasília observa esse quadro de ligações se expandir e chegar às eleições.
Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima mais uma vez de uma pescaria probatória da perseguição.
E o dinheiro envolvido nessa história toda, ao que tudo indica, pode ter saído dos nossos bolsos e sem nenhuma expectativa de devolução. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: Dark Horse, a potencial relação do filme de Jair Bolsonaro com emendas parlamentares. Neste episódio, eu converso com Guilherme Bauza, repórter de política da GloboNews em Brasília. Sexta-feira, 11 de setembro.
Bauza, faz um balanço para gente sobre as suspeitas que recaem em relação ao financiamento, ou parte do financiamento, do filme Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi alvo de uma operação da Polícia Federal Olha, Natuzão, operação da Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União e que foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, que é o responsável, ele é o relator de um inquérito no Supremo Tribunal Federal que trata do envio de emendas parlamentares para entidades ligadas a Karina Gama.
Karina Gama, que também está à frente da produtora Go Up, que fez o filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foram 29 alvos dessa operação de hoje, operação que foi batizada de Make Up, e os principais alvos a própria Karina Gama e também o deputado federal Mário Frias, do PL de São Paulo. Também foram alvo dessa operação funcionários do gabinete dele, advogados do deputado, pessoas ligadas à Karina Gama e também os responsáveis por empresas que receberam recursos de entidades ligadas à Karina Gama.
Um dos alvos também é o Alex Leandro Bispo dos Santos. Ele tá preso por suspeita de feminicídio. Ele é responsável por uma empresa que foi contratada pela Carina Gama, foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil, que é uma entidade ligada à Carina Gama, para fazer aquele, aquela expansão do Wi-Fi na cidade de São Paulo. E há suspeitas que esse alvo inclusive tenha ligação com o primeiro comando da capital. Então foram 29 pessoas-alvo, mas não houve prisão, foram só cumpridos os mandados de busca e apreensão.
E os dois principais alvos, que formam uma espécie de núcleo político dessa suposta organização criminosa são justamente a Karina Gama e o deputado federal Mário Frias. O que que foi apreendido nessa operação? Celulares, inclusive o celular do deputado, computadores, documentos, etc., e também 7 armas de fogo que estão registradas em nome do deputado Mário Frias, mas que estavam no endereço diferente, o que configura, segundo a Polícia Federal, uma irregularidade.
Ele inclusive pode ser investigado por posse ilegal de arma. Entre essas armas, um fuzil foi apreendido. Para além da investigação das emendas, do envio dessas emendas parlamentares, a partir desse material que foi apreendido, vai ser possível, pelo menos essa é a aposta da Polícia Federal, compreender melhor esse ecossistema em torno da Karina Gama e do Mário Frias e encontrar pistas do caminho do dinheiro para o filme Dark Horse.
Eu vou pedir para você esclarecer um pouco mais sobre os eixos de potencial financiamento desse filme, mas um deles, no caso da operação de hoje, são as emendas parlamentares. É possível ter controle dessas emendas parlamentares que vão para financiar todo tipo de coisa, inclusive potencialmente parte do filme sobre Jair Bolsonaro? Explica esse mecanismo para gente e por que que a Polícia Federal tá no encalço justamente dos destinadores ou dessas emendas que podem ter abastecido os cofres desse longa-metragem.
Para a gente conseguir situar quem tá nos acompanhando, a Karina Gama, ela tá à frente desse Instituto Conhecer Brasil, que recebeu R$2 milhões de emendas individuais do deputado federal Mário Frias para projetos na área de esporte, educação e tecnologia. Ela tá à frente também de uma outra entidade chamada Academia Nacional de Cultura, que é uma entidade ligada a projetos culturais, que também há suspeita de ter recebido dinheiro de emendas parlamentares.
E também ela é representante, né, ela presidente da GoUp, a produtora que fez o filme Dark Horse. São 3 frentes de investigação nesse momento que tem a Karina Gama como centro. Uma frente de investigação é da Polícia Civil de São Paulo, porque esse Instituto Conhecer Brasil, o ICB, que recebeu esse dinheiro das emendas, também fez um contrato que no fim das contas foi de R$157 milhões com a Prefeitura de São Paulo para colocar o Wi-Fi na periferia da cidade de São Paulo.
E há uma série de indícios de superfaturamento, de serviços não executados, notas frias, etc. Então isso ensejou uma abertura de um inquérito na Polícia Civil de São Paulo.
A ONG foi a única participante de um chamamento público e não tinha nenhuma experiência anterior na instalação de internet. De acordo com essa investigação, a prefeitura antecipou cerca de R$26 milhões, mesmo sem a execução completa dos serviços. Ainda segundo a investigação, dos 5 mil pontos contratados, apenas 3.200 foram instalados até junho de 2025.
Essa é uma frente. A outra frente diz respeito ao dinheiro para o filme Dark Horse. E aí o relator dessa investigação no Supremo Tribunal Federal é o Ministro André Mendonça. É um desdobramento da investigação do Master da Compliance Zero, que gerou esse outro inquérito para apurar como é que foi usado o dinheiro do Dark Horse, se foi mesmo para o filme, se teve outro fim, etc. E aí você tem essa terceira investigação específica sobre as emendas parlamentares, cujo relator é o Ministro Flávio Dino.
Então tem 2 milhões de emendas do Mário Frias que foram para esses projetos tocados pelo Instituto Conhecer Brasil na área de educação, Tecnologia e Esporte. E a investigação do Dino tem isso como objeto. No caso específico das emendas do Mário Frias, são emendas individuais. Então é uma emenda que é possível até fazer um rastreamento. É muito mais fácil você tentar rastrear para onde foi o dinheiro, como essa emenda foi executada, do que aquelas emendas do orçamento secreto, emendas de comissão, etc.
E o que essa investigação mostrou, né, tem muitos indícios de que essas emendas, os projetos que essas emendas iriam bancar, esses projetos sequer saíram do papel, né? Então houve ali a contratação, essa é a suspeita, de empresas de fachada. Então o dinheiro das emendas foi para esse Instituto Conhecer Brasil, que contratou empresas de fachada para executar o serviço, empresas cujos responsáveis eram ligados ao Mário Frias, inclusive doadores de campanha do Mário Frias, pessoas que colocaram dinheiro na campanha do Mário Frias em 2022 receberam dinheiro agora nesses contratos, mas há uma série de indícios de que esses serviços sequer foram prestados.
Para citar um exemplo aqui, Natuza, tem um projeto que aparece no relatório de investigação, um projeto de jiu-jitsu no interior de São Paulo que recebeu R$1 milhão de emenda do Mário Frias. É um projeto para 500 alunos. O Instituto Conhecer o Brasil transferiu quase meio milhão de reais para uma empresa de kimono, mas esses uniformes nunca foram fornecidos. E o responsável por essas empresas que receberam esse recurso era um doador de campanha do Mário Frias.
Isso aconteceu num outro projeto na área de empreendedorismo. Enfim, essa investigação também mostrou que o ICB movimentou quase R$300 milhões na TUS entre 2023 e 2026, né? E esses recursos, eles eram pulverizados para empresas intermediárias e parte significativa voltava para Academia Nacional de Cultura, que era outra entidade ligada a Karina Gama. Então você tinha ali um circuito fechado para ocultar o caminho do dinheiro. A Polícia Federal também apontou ao Supremo que o Marcelão, né, o ex-marqueteiro da campanha de Flávio Bolsonaro, conhecido como Marcelão, fez um repasse de R$1 milhão para Gol, né.
Então isso tá no relatório de investigação. E também é que os integrantes dessa suposta organização criminosa faziam saques de R$50 mil, de até R$50 mil, para dificultar o rastreamento de dinheiro. E que a Karina Gama chegou a comprar um carro, né, um SUV, com dinheiro vivo, um carro de mais de R$100 mil. E ela pagou tudo isso em dinheiro vivo. A suspeita da Polícia Federal é que esse dinheiro ficava circulando num circuito fechado, e no fim das contas o dinheiro da emenda não foi para o destino que deveria ser.
Bom, essa é a única investigação do caso Dark Horse que está, como você explicou, nas mãos do ministro Flávio Dino. A outra está sob relatoria do ministro André Mendonça, mas muito se diz que não há tantos avanços assim na investigação que está sob alçada de André Mendonça. O que que se diz sobre isso?
Conversando com investigadores da Polícia Federal, o que eles dizem é que as investigações sobre o filme Dark Horse, que estão com a relatoria do ministro André Mendonça, tiveram poucos avanços nos últimos meses. Então, em maio, o The Intercept divulga o áudio do Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para o Vorcar. Naquele momento se descobre muita coisa em relação ao filme, aos valores, né, que foram solicitados pelo Flávio Bolsonaro.
O próprio Flávio falou sobre isso, etc. A Polícia Civil de São Paulo, como eu disse, abriu o inquérito especificamente do contrato do Wi-Fi em junho de 2026. Em julho de 2026, o André Mendonça autoriza a Polícia Federal abrir um inquérito específico para descobrir para onde foi o dinheiro do Dark Horse, porque ali já havia uma suspeita da Polícia Federal, dos investigadores, de que o dinheiro não foi todo para o filme, que uma parte do dinheiro pode ter sido utilizada para bancar o Eduardo Bolsonaro no exterior enquanto ele articulava as medidas do governo Trump contra o governo brasileiro, ou então esse dinheiro sequer foi para os Estados Unidos.
Então ali em julho de 2026, o André Mendonça autoriza a Polícia Federal a abrir esse inquérito, mas não houve muitos avanços, não houve nenhuma operação desde julho de 2026. Em agosto de 26, aí o Flávio Dino determina que a Polícia Civil compartilhe com ele as informações da operação que foi feita no mês de junho. E a partir daí, investigação tocada pelo Dino começa a avançar. Então, avaliação de investigadores que estão acompanhando as investigações é que o inquérito do Flávio Dino, embora não seja, não tenha como foco o dinheiro do filme, tem a sobreposição que eu falei, mas o foco são as emendas, ele está mais avançado do que o inquérito do André Mendonça.
E tem muitos pontos que foram revelados nessa operação de hoje, né? O relatório, ele tava sob sigilo. Depois, o ministro Flávio Dino tirou o sigilo dessa operação de hoje, da Operação Make-up, e tem algumas descobertas importantes. Por exemplo, descobriu-se que o dinheiro, um dinheiro que foi para o Instituto Conhecer Brasil, que é essa entidade da Karina Gama, no valor de R$700 mil, no final do ano passado, o instituto transferiu para um fornecedor, para uma empresa fornecedora, E essa empresa fornecedora transferiu praticamente a mesma quantia nos mesmos dias para produtora Go Up.
Então a suspeita é que esse dinheiro tenha ido, possa ter ido para o filme, para pagar a verba do filme, porque naquela época, no final do ano passado, o filme Dark Horse estava sendo filmado principalmente em São Paulo.
E Flávio Bolsonaro, que é o personagem principal da investigação do Dark Horse, que está sob a relatoria de André Mendonça, porque ele foi incluído na investigação depois do vazamento do áudio em que ele cobra a Vorcaro o envio de uma grande monta de dinheiro justamente para financiar o Dark Horse, o filme. Só que numa operação financeira que investigadores da Polícia Federal consideram Estranha, porque o filme que foi filmado no Brasil teve o dinheiro do financiamento todo sendo remetido para um fundo nos Estados Unidos, o que é controlado por um advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Eu te pergunto se o Elo é de fato Karina Gama em razão de ela ser a produtora do filme, ou melhor, ela e Mário Frias, né? Eles estão no meio dessas duas pontas de investigação. Faz sentido isso?
Total sentido, Natuza. Inclusive, nessa investigação, nessa operação dessa quinta-feira, né, o relatório aponta eles como uma espécie de núcleo político do que a Polícia Federal considera ser uma provável organização criminosa e que justamente pegava dinheiro, basicamente pegava dinheiro público de diversas fontes e misturava esse dinheiro nesse ecossistema de empresas, entidades, sem prestar o serviço devido, né? Muitas vezes sem entregar aquilo para o qual essas empresas foram contratadas.
Então o elo de fato são os dois. E a Karina Gama, como eu disse, ela tá à frente das mesmas empresas, das mesmas entidades, da GoUp, do Instituto Conhecer Brasil e da Academia Nacional de Cultura, esses dois últimos que receberam dinheiro das emendas parlamentares. E essa produtora Karina Gama, né, que é a produtora do filme, ela não recebeu dinheiro só de emenda do Mário Frias, ela recebeu mais de R$100 milhões em contratos com a Prefeitura de São Paulo, sob comando do bolsonarista Ricardo Nunes.
Recebeu também R$2.600.000 de emendas Pix destinadas por 4 deputados do PL, entre eles a Carla Zambelli. Veja como é que esses personagens vão se confundindo, vão se encrencando.
Duas emendas parlamentares foram destinadas à Academia Nacional de Cultura, ANC, uma instituição ligada a Karina Gama, para um projeto em específico chamado Heróis Nacionais. A gente tá falando de uma emenda destinada pela deputada Bia Kicis de R$150 mil e uma segunda de autoria do deputado Marcos Polon no valor de R$1 milhão. Esses valores, no entanto, é importante a gente esclarecer, eles não foram efetivamente repassados porque, segundo a decisão, né, do ministro Flávio Dino, que consta aí o relatório da Polícia Federal, eles não foram repassados por conta de problemas técnicos no contrato que garantiria o pagamento dos recursos, diferente do Instituto Conhecer Brasil, que recebeu efetivamente R$2 milhões de emendas do deputado Mário Frias, alvo da operação.
Importante a gente destacar que Marcos Polon e Bia Kisses não foram alvos da operação.
Agora, sobre o caminho do dinheiro, o que se sabe é que esse dinheiro, o Daniel Vorcaro, ele repassou para o filme, para o fundo Heaven Gate, por meio de uma empresa chamada Entre Investimentos, uma empresa sediada nas Bahamas, num paraíso fiscal. Dessa Entre Investimentos, o dinheiro foi remetido para o fundo Heaven Gate, como você bem disse, administrado pelo Paulo Calixto, que é um advogado e é muito próximo de Eduardo Bolsonaro.
Esse fundo Heaven Gate está sediado no Texas. Do fundo Heaven Gate, segundo a própria Karina Gama, esse dinheiro foi para GoUp nos Estados Unidos, porque a GoUp tem um braço americano, e do braço americano esse dinheiro foi remetido para GoUp Brasil. 12 milhões de dólares é o valor que já se detectou que foi repassado para o filme, né? Pelo menos é, os repasses de Vorcaro para o filme somam esses 12 milhões de dólares. Os pagamentos que foram mencionados pelo Flávio Bolsonaro totalizavam um pouco mais de 10 milhões de dólares.
Mas o Flávio dizia que o último pagamento tinha acontecido em maio de 2025, e a revista Piauí mostrou, né, com base em relatórios do COAF, mostrou que houve pagamentos pelo menos até setembro. E o Flávio Bolsonaro, ele disse que iria prestar contas quando o áudio veio à tona. Ele foi muito claro: eu vou prestar contas dentro de um mês, eu vou explicar tudo, eu vou falar do contrato, etc. Ele nunca fez isso. Ele sempre cita um laudo pericial que foi contratado pela produtora.
Só que esse é um laudo particular, a gente não tem acesso às informações todas desse laudo, não tem transparência desse laudo. E até tem um dado curioso, que o responsável por esse laudo, ele também fez um laudo sobre a dívida que o Corinthians tem com a Arena Corinthians, e ele basicamente conclui no laudo que a arena já foi paga, quando todo mundo sabe que o Corinthians tem uma dívida enorme para pagar. Essa notícia também repercutiu nos últimos dias e mostra como esse laudo, ele, enquanto elemento de prova, ele é muito questionável, né?
Então não houve essa prestação de contas do Flávio Bolsonaro, e ao longo desses últimos meses ele entrou em contradição diversas vezes.
E ele já foi chamado a depor pelo ministro André Mendonça?
Não, ele não foi chamado a prestar depoimento. Inquérito é sigiloso, mas as informações é que não houve qualquer tipo de depoimento do Flávio Bolsonaro nem nessa investigação do André Mendonça e também nessa outra investigação do ministro Flávio Dino.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Guilherme Bauza. Tem um ponto de atenção aqui, Bauza. O filme foi rodado no Brasil, mas o pagamento desse filme fez uma triangulação, viajou Muito longe. O dinheiro do Daniel Vorcaro, cuja operação era aqui no Brasil, sai do Brasil, vai para as Bahamas, das Bahamas vai para o Texas, dos Estados Unidos volta para o Brasil para poder bancar as custas todas do filme.
E quem faz essa operação de pagamento, quem— o dinheiro é do Vorcaro, mas quem faz a operação para pagar é um personagem que você citou, que é o Antônio Carlos Freixo Júnior, que é conhecido como Mineiro, e que fez uma delação premiada. Conta um pouco mais sobre ele e sobre a importância dele nessa história.
O Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, ele assinou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República no dia 8 de agosto, e o ministro André Mendonça homologou esse acordo na quarta-feira. O Mineiro, ele é dono da Entre Investimentos, essa empresa sediada nas Bahamas, que foi utilizada para fazer os repasses para o fundo Heaven Gate. E ele era responsável também por gerar dinheiro vivo para o Daniel Vorcaro.
Inclusive, na proposta de delação, ele conta que ele entregava o dinheiro vivo em malas para pagar propina a pessoas indicadas tanto pelo Daniel Vorcaro como pelo ex-sócio dele, o Augusto Lima, quanto pelo Fabiano Zetta, o cunhado e uma espécie de braço direito do Daniel Vorcaro. Nessa proposta de delação, ele disse que movimentou cerca de R$1 bilhão e R$300 milhões para o Daniel Vorcaro em 5 anos, entre 2020 e 2025. E ele menciona 7 repasses da Entre Investimentos para o fundo Heaven Gate, esse fundo do advogado Paulo Calixto.
Além disso, ele disse que a solicitação inicial do Daniel Vorcaro para o filme era de $24 milhões de dólares, que seriam operacionalizados ali em mais de 10 pagamentos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Foi o que ele disse nessa proposta de delação. No entanto, só fizeram, eles só fizeram 7 transações, até porque, segundo o mineiro, porque o Vorcaro foi preso em novembro de 2025 e a partir dali os pagamentos cessaram.
Antônio Carlos Freixo Júnior entregou à PGR os comprovantes das transferências e os emails trocados com responsável pelo fundo HeavenGate, Paulo Calixto, o advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Uma das suspeitas da PF é que parte do dinheiro esteja bancando Eduardo nos Estados Unidos. Freixo Júnior também relatou que fez pagamentos de faturas no exterior a mando de Vôrcaro, por meio da Entre Investments and Arbitrage, sediada nas Bahamas, um paraíso fiscal.
A polícia apura se esse também foi para o fundo RavenGate ou para pessoas ligadas a ele.
E para a gente terminar, Bauza, eu queria muito te ouvir sobre a função ou o papel desse caso Dark Horse na crise atual do Supremo e os impactos dessa operação da Polícia Federal de hoje na campanha de Flávio Bolsonaro.
Olha, na campanha do Flávio, eu acho que é um dado negativo porque força de novo Flávio Bolsonaro a ter que dar explicações sobre o filme, porque como não houve grandes avanços nos últimos meses, ele ficou com um discurso de que o assunto era página virada, que não tem dinheiro público no Dark Horse. Muito, muito embora a gente saiba que o dinheiro do Vulcano em grande parte é dinheiro público de fundos de pensão, de institutos de previdência, etc., o Flávio disse que era apenas um patrocínio privado para o filme.
Chegou a mencionar que era página virada esse assunto e parou até de dar explicações. Então, quando essa operação ocorre, Isso força o Flávio Bolsonaro a ter que falar sobre o assunto. O assunto volta à tona e claro que é um dado negativo para campanha. E é interessante notar que nas últimas semanas as notícias foram muito mais negativas para campanha de Lula do que de Flávio Bolsonaro, né? Porque você tem toda essa crise no Supremo Tribunal Federal que acaba respingando no governo federal pelas relações, espécie de aliança tática que Lula teve com uma ala do Supremo nos últimos anos e acaba de certa forma sendo um ativo ali para campanha do Flávio, porque eles sempre tiveram esse discurso contra o Alexandre de Moraes, etc.
Quando as atenções se voltam de novo para o Dark Horse, isso acaba colocando o Flávio de certa forma na defensiva nesse momento. O que é curioso dessa história é que o dinheiro que o Flávio pediu para o filme é praticamente a mesma quantia do contrato que a Viviane Barsi, esposa do Alexandre de Moraes, fez com Daniel Vorcaro, cerca de R$130 milhões.
Bausa, muito obrigada pelas explicações todas. Bom trabalho para você, meu amigo.
Natuza, eu que agradeço. Tô sempre à disposição. Prazer tá aqui no assunto.
Este episódio usou áudios do The Intercept. Este foi O Assunto, podcast diário disponível no no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaboraram neste episódio Viviane Mateus e Patrícia Cunha. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.