Mendonça, Moraes, Dino e Fachin: o STF em rota de colisão
- A escalada da crise no STF com decisões de Mendonça, Dino e FachinAndré Mendonça·Flávio Dino·Edson Fachin·Alexandre de Moraes·Polícia Federal·Andrei Rodrigues
- As decisões de Edson Fachin para conter a crise no Supremo Tribunal FederalEdson Fachin·André Mendonça·Flávio Dino·Andrei Rodrigues·Alexandre de Moraes·Inquérito das fake news·Daniel Vorcaro
- A crise institucional do STF e suas repercussões na República e no poder presidencialSTF·República·Lula·André Mendonça·Flávio Dino·Polícia Federal
- A decisão de Flávio Dino de reintegrar a cúpula da PF e a aceleração da ação de FachinFlávio Dino·Edson Fachin·Polícia Federal·Andrei Rodrigues·André Mendonça·Inquérito Dark Horse
- A postura do presidente Lula diante da crise no STF e os vazamentos seletivosLula·André Mendonça·Vazamento seletivo·Caso Master·Flávio Bolsonaro
- O impacto da crise do STF na campanha de Flávio Bolsonaro e a imagem de André MendonçaFlávio Bolsonaro·André Mendonça·Lula·Pesquisa Quest·Minas Gerais
O Supremo Tribunal Federal amanheceu na quarta-feira em clima de combustão. Mais uma reviravolta nesse caso relacionado ao— Um dia depois de André Mendonça afastar o diretor-geral da Polícia Federal e o diretor de inteligência da instituição, o fogo se alastrou. Mas menos de 24 horas depois, as labaredas aumentaram ainda mais. Uma outra decisão monocrática jogou gasolina na fogueira. Chega a decisão aqui do ministro Flávio Dino: a imediata reintegração de Andrei Augusto Passos Rodrigues ao cargo de delegado-diretor-geral da Polícia Federal e de Leandro Almada Costa ao cargo de diretor de inteligência policial, com restabelecimento integral de suas respectivas atribuições funcionais.
Se antes havia um duelo público entre André Mendonça e Alexandre de Moraes, Flávio Dino acabou se juntando à batalha. O diretor-geral afastado da Polícia Federal, que agora está sendo reintegrado, Andrei Rodrigues, foi quem entrou com este pedido no Supremo Tribunal Federal. E ele foi dirigido ao ministro Flávio Dino porque entrou num caso em que a Polícia Federal pediu um compartilhamento de informações com a Polícia Civil de São Paulo no que diz respeito a entidades ligadas à produção do filme Dark Horse.
Para Flávio Dino, André Mendonça não poderia ter afastado a cúpula da Polícia Federal e ainda disse que a decisão do colega atrapalhava as investigações que estão sob sua tutela, ou seja, sob a responsabilidade de Flávio Dino.
Comunicar esta decisão, o ministro Flávio Dino tem dois argumentos.
Um, ele está falando que o afastamento do diretor-geral Andrei Rodrigues e do diretor de inteligência da Polícia Federal, Leandro Almada, pode prejudicar investigações sensíveis que estão em andamento. Tem um outro argumento central do ministro Flávio Dino, que é sobre o pedido que foi feito.
Andrei Rodrigues foi afastado ontem por determinação do ministro André Mendonça após um pedido do Partido Novo, o que Flávio Dino considera agora na sua decisão um caminho impróprio.
Diante de um novo impasse com a readmissão dos diretores da Polícia Federal, o ministro Edson Fachin, presidente da corte, teve que se posicionar com algumas decisões que alcançam todos os lados dessa história.
Presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin suspendeu as decisões de André Mendonça e de Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal.
O presidente do STF afirmou que existe um conflito entre decisões judiciais e que cabe à presidência da corte centralizar a análise do caso para preservar a ordem processual e o funcionamento do tribunal. Ou seja, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de inteligência, Leandro Almada, permanecem nos cargos.
E dando até um prazo de 48 horas para que o delegado, né, o diretor da Polícia Federal, Andrei Passos, forneça informações ao Supremo Tribunal Federal em relação a este ponto.
Fachin puxou para ele o inquérito das fake news que estava há 7 anos sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Fachin também marcou uma sessão plenária para julgar o ministro Alexandre de Moraes exclusivamente para analisar o relatório da Polícia Federal, que encontrou 52 mensagens de Daniel Vorcaro para o ministro Alexandre de Moraes.
Nas mensagens, Vorcaro pede orientação jurídica, marca encontros com Moraes e ajuda para se proteger de investigações.
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: André Mendonça, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e, finalmente, Edson Fachin em cena. Neste episódio, eu converso com Reinaldo Turullo Júnior, repórter do G1 em Brasília, e Otávio Guedes, comentarista da GloboNews e colunista do G1. Quinta-feira, 10 de setembro. Trollo, a gente grava no calor da hora. Minutos atrás, o ministro Edson Fachin soltou uma série de decisões para ver se ele consegue conter a escalada da crise.
Então eu vou pedir para você ser bem didático e explicar cada uma dessas decisões do presidente do Supremo Tribunal Federal.
Natuza, o presidente do Supremo tomou 3 decisões. Ele tá reconhecendo ali que tá havendo uma guerra de liminares. E aí o Fachin diz o seguinte: a presidência, ou seja, ele, Fachin, tem o dever de zelar pela preservação da integridade da corte. Diante disso, o que que ele faz? O dispositivo final da decisão dele: primeiro, suspende a decisão de André Mendonça que havia afastado Andrei Rodrigues da chefia da PF. Segundo, paralisa o trâmite daqueles relatórios que André Mendonça mandou a polícia fazer contra o Alexandre de Moraes, que tinham aquelas conversas, mensagens com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Horas depois, o banqueiro voltou a falar com Moraes. Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem? A PF também encontrou mensagens de Vorcaro a Moraes nos dias 6, 7, 10, 11 e 12 de novembro. Nelas, o banqueiro tenta marcar encontros com o ministro. Já no dia 14 de novembro, Daniel Volcaro faz um agradecimento a Moraes: Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo.
Terceiro: suspende a decisão do Flávio Dino, que mandou reintegrar os delegados à Polícia Federal. Até porque essa decisão já tinha perdido o objeto quando o próprio Fachin anulou a decisão do Mendonça, que afastou esses delegados. E quarto e último, Fachin suspende, abre aspas, todo e qualquer procedimento que verse sobre investigação em face de integrantes deste Supremo Tribunal Federal. E então ele convoca uma sessão plenária para o dia 15 de setembro às 10 horas da manhã para avaliar aquele procedimento que o André Mendonça fez contra o seu colega Alexandre de Moraes.
Teve uma outra decisão do Ministro Fachin, que na verdade é um ato administrativo em que ele revoga a designação para que Alexandre de Moraes fosse o relator daquele inquérito das fake news. Vamos lembrar que esse inquérito foi aberto em 2019. Na ocasião, o presidente do Supremo era o ministro Dias Toffoli, e ele sem sorteio designou Alexandre de Moraes para investigar notícias falsas, caluniosas, difamações contra os membros do tribunal.
Que que o Fachin fez agora no ato administrativo? Ele revoga essa designação, ou seja, tira do Alexandre de Moraes essa relatoria, mas ele deixa consignado na decisão, anotado ali, que tudo que o Moraes fez até o momento continua válido. Ele só não pode fazer mais daqui para frente.
Portanto, não se anula nenhuma decisão pretérita do ministro Alexandre de Moraes, salvo essa que mirava André Mendonça, certo?
Isso, a que mirava André Mendonça tá suspensa para ulterior deliberação, como ele fala, né?
Ulterior deliberação é muito faquineis para posterior deliberação, é isso?
Exato, Natuza, em faquineis é isso.
Tá certo. Agora, Entendido o resumo dessa encrenca, a primeira pergunta que eu tenho que fazer para você é: isso resolve parte dos problemas? Isso coloca uma pedra na batalha campal que a gente tem visto ao longo das últimas semanas?
Natuza, num primeiro momento, aparentemente sim, mas essa guerra campal vai se estender para o plenário. É a discussão do plenário no dia 15 que vai definir, inclusive, eventuais limites ou não para o poder do relator do caso master do caso do INSS, ministro André Mendonça, que deflagrou agora no final de agosto, começo de setembro, essa guerra de liminares, né, com aquela decisão dele de mandar a Polícia Federal fazer um relatório sobre o Alexandre de Moraes.
Então assim, num primeiro momento parece que pacificou, mas a gente vai ter uma longa articulação até essa reunião plenária do dia 15.
Então deixa eu ver se eu entendi, porque talvez você esteja trazendo um elemento novo para mim, porque eu tinha entendido o seguinte: que no dia 15 o plenário ia vai deliberar se aquela investigação contra o Alexandre de Moraes, que revela as mensagens de Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes, elas sejam ou não uma investigação, né, se elas resultam ou não numa investigação formal contra Moraes. Mas pelo que eu entendi o que você acabou de falar, ali também pode ser tratado ou deliberado se André Mendonça deve ou não continuar na relatoria do caso Master e também na relatoria do INSS.
Lembrando que ele foi acusado de politizar a relatoria dessas investigações pelo governo, mas também pela Polícia Federal, quando ele afasta a cúpula da PF. E isso então também vai ser objeto de discussão no plenário?
Não consta isso da decisão do Ministro Fachin, mas nos bastidores o que os ministros estão dizendo é que isso numa decisão plenária vai ser levado em consideração. Os ministros podem levantar essas questões, essas questões vão ser resolvidas. E mesmo se se limitarem a analisar o relatório que a polícia fez sobre o Moraes, e por exemplo a gente não sabe qual vai ser a decisão, mas se eles eventualmente não abrirem essa investigação nesse momento, isso obviamente que já é um recado para o Mendonça de que ele não tem tanta força para levar as investigações adiante da maneira como ele deseja. Então essa sessão plenária vai sinalizar o andamento futuro desses casos.
Agora eu preciso te perguntar por que que o ministro Edson Fachin decide hoje. É correto afirmar que a decisão de Dino sobre cúpula da Polícia Federal é o que precipita a decisão de Fachin? Porque ele já tava sendo cobrado a se manifestar e a tomar uma decisão, parecia estar num tempo diferente do tempo da crise. E aí, no mesmo dia em que o ministro Flávio Dino decide rapidamente, ele cancela uma sessão de plenário que tava marcada para hoje. E aí, no fim da tarde, toma essa decisão.
Na tua leitura, dentro do próprio Supremo e entre analistas, é que sim, foi a decisão do Flávio Dino de reintegrar a cúpula da PF que levou o Fachin a agir rapidamente na data aqui em que a gente grava. Eu tinha falado com ministros e mais 2 auxiliares antes de a gente entrar na gravação focando em entender a decisão do Dino. E o que que o pessoal me disse? Que embora ela fosse controversa e polêmica, porque um ministro não pode caçar, revogar a decisão de colegas, eles estão ali no mesmo nível hierárquico, ela tinha sido uma decisão importante quando se analisa o todo, e não só sob o ponto de vista jurídico, mas também político.
Então até um ministro falou, olha, ela é justificável por duas razões. Primeiro, os atos do André Mendonça devem ser ser analisados por seus colegas. E segundo, tá havendo uma inércia do presidente Fachin. Por que uma inércia? Porque ele deu um prazo muito estendido para as partes se manifestarem. E aí, enquanto ele não tomava uma decisão do que ele ia fazer, as partes foram atravessando uma liminar aqui, outra ali, outra revidando, e virou essa guerra de liminares.
Então a decisão do Dino serviu para acelerar Fachin, e nesse aspecto ela teve, entre aspas, esse mérito. Isso na avaliação dos próprios colegas do Supremo.
E o Dino decide de ofício, como se diz no juridiquês? Ele decide por vontade própria quando ele faz essa provocação, vamos chamar assim?
Na verdade, Natuza, ele analisa um pedido do diretor-geral afastado da PF, o Andrei Passos Rodrigues, que faz uma, o que eles chamam de petição incidental, dentro de um inquérito relatado pelo Flávio Dino, que é aquele inquérito sobre eventual uso de emendas parlamentares para bancar o filme Dark Horse. Esse é um inquérito de relatoria do Dino, e o Andrei Passos Rodrigues diz nesse pedido que, ao ser retirado da chefia da corporação, a análise das provas vai ser atrasada.
Porque vamos lembrar o que que aconteceu nesse inquérito sobre o Dark Horse e sobre eventual uso de emendas para bancar esse filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Tem um inquérito que apura o eventual uso de emendas e tinha tido uma operação da Polícia Civil de São Paulo em junho desse ano fazendo uma busca e apreensão na sede da produtora do filme, a GoUp, que é daquela empresária aliada dos Bolsonaros, a Karina da Gama.
E eles tinham recolhido materiais dentro da produtora numa investigação que corria na Polícia Civil e no Ministério Público de São Paulo. Que que o Dino fez? Mandou a Polícia Civil de São Paulo compartilhar essas informações com a Polícia Federal. Por quê? Porque não havia mais como refazer uma busca e apreensão na produtora, né? Não tinha como tomar de novo essa medida posteriormente no âmbito de outra investigação. Então, que eles quiseram reaproveitar as provas colhidas lá.
No final de agosto, a Polícia Civil manda isso para o Supremo e para a Polícia Federal, e a equipe subordinada ao Andrei começa a analisar. Que que o Dino faz? Ele sugere na decisão que ao retirar a cúpula da corporação da Polícia Federal, na prática o que André Mendonça tá fazendo é paralisar e dificultar a investigação. E nas palavras de Flávio Dino, beneficiar quem tá sendo investigado. Eu até peguei um trecho aqui para ler disso.
Ele fala o seguinte, o Dino: não se afirma o caráter doloso, ou seja, com intenção, né, do agente público, no caso André Mendonça, mas é evidente que a interrupção dos trabalhos de direção de investigações interessa sobretudo aos investigados. Então o Dino diz que essa decisão de afastar o Andrei atrapalha investigações, investigação da qual ele é o ministro relator.
Ele, o próprio Dino, me chamou atenção a peça, lendo a peça, essa decisão do Flávio Dino, ele manda diversos recados a André Mendonça, né? Ele disse o seguinte, basicamente aqui eu tô traduzindo para o português mesmo, tá, Turulo? Me corrija se eu tiver errada. Ele diz, por exemplo, que Mendonça não poderia ter afastado a cúpula da Polícia Federal, porque quem faz o pedido é um partido político e em matéria criminal partido político não entra.
Pode entrar no Tribunal Eleitoral, pode entrar no Supremo Tribunal Federal em outro tipo de causa, mas em matéria penal não cabe. E o próprio Gilmar Mendes, você já tinha dito no episódio anterior, focou no mesmo ponto, né, que partido político, no caso novo, que é um partido de oposição ao atual governo, Dino cita isso, e que tem até como candidato à presidência. Mas Dino diz mais, ele diz o seguinte: que o ministro André Mendonça, na decisão que tomou de afastar a cúpula da polícia, ele atrapalha não só o trabalho dele, Dino, porque Dino tem esse caso que você acabou de citar das emendas, como atrapalha todo o sistema de inteligência.
Porque ficou uma interrogação na nossa cabeça sobre o alcance da decisão do ministro André Mendonça. Se valia para toda atuação de inteligência, se valia só para uma parte, mas a extensão não parecia ser focada apenas no caso em que a gente está discutindo agora. Mas ele vai além, ele diz, ele fala de paixões partidárias, ele fala assim que em momentos de acirradas paixões, como ocorre durante um processo eleitoral, tô aqui parafraseando o Ministro Dino, com as pressões que lhe são próprias, o juiz deve zelar para que suas decisões sejam decisões possíveis como de direito, derivações do direito, e não como resultado de pressões partidárias, ideológicas, midiáticas ou de interesses pessoais.
Na minha avaliação aqui, ele tá dando um recado para o ministro André Mendonça, deixando ali subentendido que ele vê, que ele enxerga motivação político-eleitoral na ação do ministro André Mendonça. Faz sentido essa interpretação?
Faz sentido, Natuza. E dentro do próprio Supremo Nenhuma análise tem sido feita sem levar em conta o cenário eleitoral do momento, dentro do Supremo, dentro da Procuradoria-Geral da República, dentro da Polícia Federal e entre analistas que acompanham esses assuntos. Por exemplo, em direito se costuma dizer que aquilo que se faz é tão importante quanto o timing em que se faz. Então os agentes com quem eu tenho conversado não defendem com unhas e dentes Alexandre de Moraes, eles não dizem que ele não deva ser investigado.
Ao contrário, eles dizem que há indícios que merecem investigação. Inclusive, os policiais federais dizem isso. O que eles levantam ali naquele caso é dúvidas sobre dois aspectos. Primeiro, o timing. Eles dizem que André Mendonça sabia dos indícios contra Moraes desde fevereiro, desde o início do ano, mas só mandou a Polícia Federal fazer o relatório com as mensagens do Forcaro no final de agosto, então já no início do período eleitoral.
E eles também falam, além do timing, de uma questão de suposta seletividade, porque André Mendonça manda investigar Alexandre de Moraes, mas não manda investigar e fazer relatórios sobre outros ministros do Supremo que também são citados no material apreendido do Master. Moraes também aponta para o direcionamento de alvos por motivos políticos e pessoais na atuação de Mendonça. O relatório da PF indica uma assimetria no tratamento dado aos ministros do Supremo.
Enquanto adotava postura defensiva em relação a Dias Toffoli e Nunes Marques, Mendonça determinou de ofício uma investigação ilegal contra o próprio Alexandre de Moraes. Por outro lado, os aliados do Mendonça ponderam o quê? Que ele precisou trazer isso à tona agora porque ele temia uma operação abafa, né, e que isso fosse escanteado pelos ministros do Supremo. E que eles veem os indícios, né, os aliados de Mendonça veem os indícios contra Moraes como mais consistentes do que contra os outros ministros.
Então você tem essas duas correntes, e tudo isso, todas as análises passam pelo cenário político-eleitoral.
Eu quero te fazer uma pergunta sobre o destino do Andrei Passos Rodrigues, porque o ministro Edson Fachin intimou o diretor-geral da Polícia Federal para que ele preste informações em até 48 horas, e só então a presidente ou seja, o presidente Edson Fachin, vai decidir sobre a permanência ou não do diretor-geral da Polícia Federal. O que que ele deve ter que explicar ali para o presidente do Supremo?
Ele vai ter que explicar, Natuza, em que circunstâncias os relatórios que criticam, relatórios de inteligência que criticam André Mendonça, foram produzidos, em que circunstâncias isso foi enviado para o Supremo Tribunal Federal. Lembrando que a PF envia isso por determinação do Ele vai ter que explicar como é que Alexandre de Moraes sabia da existência desses relatórios internos e por isso os solicitou. Então são muitos buracos nessa história que o Andréi Rodrigues precisa explicar.
Então o ministro Fachin vai fazer essa análise se Andréi continua definitivamente no comando da corporação ou não.
Bom, e por fim, parece que Fachin deu a extrema unção ao chamado inquérito das fake news, que deu durante muito tempo, muito poder ao ministro Alexandre de Moraes.
Vamos retomar o contexto lá em 2019, quando esse inquérito foi aberto. Tinha sim notícias de que servidores da Receita tinham feito acessos aos sistemas da Receita para investigar, saber as declarações de Imposto de Renda de familiares dos ministros. Quem cobria o Supremo naquela época sabia que o então presidente Dias tinha uma preocupação com ataques à Suprema Corte, porque se dizia naquela época que os ataques aos Supremos, aos tribunais constitucionais dos países, era uma maneira de minar por dentro a democracia nesses países.
E havia um temor de que o governo Bolsonaro pudesse fazer isso. Então foi por isso que o inquérito das fake news foi aberto. A então procuradora-geral da época era a Doutora Raquel Dodd, Ela foi contra a abertura desse inquérito e ela pediu para esse inquérito ser encerrado. Entra o PGR Augusto Aras, ele concorda com o inquérito desde que as medidas tomadas no inquérito sejam enviadas para PGR para que seja, fosse feito um filtro pelo Ministério Público.
Só que com o tempo esse inquérito começa a ter o seu objeto expandido para muito além do objeto inicial. Esse inquérito é considerado um Frankenstein dentro do próprio Ministério Público, porque cada hora chega um caso diferente que parece se não se comunicar com o anterior, e ele vai perdendo o objeto, e isso vai ficando confuso. Essa decisão de hoje do Fachin de puxar para si, ou seja, retirar a designação que foi feita para o Moraes, abre espaço para aquilo que vem sendo pleiteado por setores mais amplos da sociedade, que é o fim dessa investigação.
Meu caro Turolo, acho que estamos oficialmente fazendo um diário dessa confusão. Mais uma vez, muito obrigada pelas apurações, pela dedicação de estudar cada linha, cada trecho das decisões judiciais dos últimos dias. Bom trabalho para você e talvez esse diário continue. Vamos ver o que que vai acontecer nas próximas horas, nos próximos dias. Bom trabalho.
Obrigado, Natuza. Pode contar comigo.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Otávio Guedes. Ôtávio, diante dessa sucessão de decisões de ministros, o que que a gente pode dizer do momento do estado atual da crise?
Mais do que uma crise do STF, é uma crise da República, porque a gente passou do hiperpresidencialismo, onde o presidente pode muito, para o hipopresidencialismo. Quer dizer, hoje o presidente da República não tem tinta na caneta nem para nomear nem para tirar um dirigente de um departamento que é terceiro escalão, que é o Departamento de Polícia Federal. Então veja a que ponto nós chegamos. Assim como André Mendonça tira tinta da caneta do Lula, pois ele que decide quem é o diretor da Polícia Federal ou quem não pode ser mais o diretor da Polícia Federal, o Dino, por seu lado, também recoloca o diretor da Polícia Federal, também tirando tinta da caneta do Lula.
Então, se a gente tinha um Legislativo que já havia avançado sobre o Executivo, tirando o poder do Executivo sobre as emendas, Agora nós temos também o Judiciário invadindo o poder do presidente de nomear o dirigente da Polícia Federal. É uma crise da República, não é uma crise só do STF.
Um ponto que fica muito latente na decisão do ministro Flávio Dino é que ele aponta para o ministro André Mendonça a responsabilidade de degolar a cúpula da Polícia Federal, porque a gente tá falando do diretor-geral, mas a gente também tá falando do diretor de inteligência, que sequer estava na representação feita pelo Partido Novo, que Dino inclusive disse que não cabe ao partido, a um partido político fazer a petição que fez de medida cautelar de natureza criminal.
Mas enfim, essa é uma outra discussão. Mas ao tirar o diretor-geral e o diretor de inteligência, você degola uma instituição, sendo a área de inteligência uma das áreas mais fundamentais para combater o crime organizado, inclusive.
Natuza, é, o meu comentário foi que toda essa confusão fez com que um grupo especial seleto comemorasse: os criminosos, os investigados. Porque é lógico que você tirar o diretor da Polícia Federal e de ofício o diretor de inteligência, de ofício porque não havia esse pedido, foi incluído pelo André Mendonça, isso paralisa a investigação. Ato seguinte foram todos os diretores pedindo, colocando seus cargos à disposição. E não eu que acho isso, não.
Quem acha isso é o próprio ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça exigiu que fosse comunicado previamente sobre qualquer mudança de delegado da equipe de investigação, porque ele acredita que essas substituições prejudicariam o andamento ali das diligências. E é verdade, a gente sabe, quando sai um delegado, quando sai investigador, isso demora, entra outra pessoa até tomar pé da situação. Então o próprio André Mendonça é que afirma que mudança de equipe no meio de um curso de investigação atrapalha.
Agora, se é um delegado tá na investigação, imagina o diretor de inteligência e o diretor-geral da Polícia Federal. Por isso que esse caso, eu tenho dito, e não é de agora, é desde o Toffoli relator, esse caso encaminha com a cara de nulidade, porque no Brasil ninguém mais tenta provar sua inocência. O caminho é anular o processo. O advogado processualista se tornou tão ou mais importante que o criminalista.
Eu queria pedir para você analisar o posicionamento, a postura do presidente Lula. Você até chegou em dado momento a dizer que o André Mendonça tirou a tinta da caneta do presidente quando decidiu afastar o diretor-geral da polícia, que é um cargo nomeado por um presidente da República. Lula, na manhã do dia em que a gente grava, fez uma postagem afirmando que esse caso tem vazamento seletivo. Não cita o André Mendonça, mas aponta para ele e defendeu o levantamento do sigilo do caso Master.
E basicamente, em outras palavras, ele tá dizendo o seguinte: levanta todo sigilo, levanta o sigilo de Moraes, levanta o sigilo de Flávio, levanta o sigilo até mesmo de Jacques Wagner, que é o líder do governo dele, levanta sigilo de todo mundo. Até porque ele tá querendo ver o que que tem de caso master em relação a Flávio Bolsonaro, né, para além do que a gente já sabe. Qual é a avaliação que você faz dessa conduta de Lula no dia em que mais uma confusão ou mais uma grande interrogação se ergueu sobre o Supremo Tribunal Federal?
Pela minha apuração, a campanha do Lula esperava que até a noite de terça-feira o Fachin fosse tomar da confusão. Isso não aconteceu. Nós fomos dormir na terça-feira valendo a ordem do André Mendonça, ratificada por dois ministros, o Fux e o Cássio, de remoção do Andrei da Polícia Federal. Então, como isso não aconteceu, a discussão era o seguinte: olha, a campanha do Lula tem que começar a enfrentar essa questão de frente, denunciando— e aí é retórica política— denunciando o André Mendonça como o novo Moro.
Um juiz parcial que está fazendo, se valendo da justiça para beneficiar o Flávio Bolsonaro, e que isso precisava ir às ruas. Então, na terça-feira, como o Fachin não tomou conta da situação como era previsto em Brasília, ou pelo menos no QG da campanha do Lula, na quarta-feira o presidente solta esse tweet. E eu vi ali sim uma crítica não direta, né? Ele não cita o André Mendonça, mas fala em vazamentos seletivos, fala na necessidade ali de levantar sigilo de todo o processo.
Mas eu vejo como um, como a gente diz, apito de cachorro, né, para militância é ficar mais aguerrida e denunciar André Mendonça como novo Sérgio Moro, a serviço da campanha eleitoral do Flávio Bolsonaro e não a serviço da justiça. O que aparece de certa maneira também na decisão do Gilmar, numa decisão do Senar e na própria, no próprio texto do Flávio Dino. E aí presta atenção, eu citei o caso Lulinha, né? O tweet do Lula, ele abre sobre o caso Master e fala em abrir sigilo.
E aí lógico que ele tá falando do Dark Horse, mas quando ele fala em vazamentos seletivos, e do minha compreensão, ele tá falando também de outro caso sob a relatoria do Mendonça, que é o INSS, devido àqueles vazamentos sobre o Lulinha, o relacionamento do Marcola, o chefe de gabinete dele, com a Roberta Luxinger. Enfim, vazamentos que atingiram a campanha do Lula, que nos bastidores atribuem ao gabinete do André Mendonça sem qualquer prova.
Eu me lembro, é uma frase frequente que eu ouço das fontes do governo, é: foram 21 dias de vazamentos, de um massacre com o caso Lulinha, e que acabou impactando, na visão deles, na eleição. Eles citam muito esse marco de 21 dias. Agora, Otávio, olhando para campanha de Flávio, como é que Flávio tá se movimentando com essa confusão no Supremo?
O Flávio não está se movimentando. Essa é a grande armadilha que montou para campanha do Lula, porque o Flávio é absolutamente vulnerável no assunto corrupção. Ele não consegue ativar os seus apoiadores quando o assunto é honestidade, porque Porque ele tem um tremendo telhado de vidro, pegou dinheiro com vorcaro no passado, tem a rachadinha, compra de imóveis em dinheiro vivo. Ou seja, não é um assunto que ele possa falar que ele fique confortável.
E o que que a campanha dele produziu? O posto Ipiranga da honestidade, que é o André Mendonça. E aqui eu faço um parênteses: a campanha que produziu, não estou dizendo que o ministro André Mendonça agiu com interesse eleitoreiro, mas o efeito, como analista político, eu digo, o efeito político está criado. O posto Ipiranga da honestidade da campanha do Flávio Bolsonaro é o André Mendonça. Basta ver o comício que ele fez, a manifestação que ele fez na Avenida Paulista.
Tinha boneco inflável do André Mendonça, como antigamente tinha do Sérgio Moro. O prefeito Ricardo Nunes fez camisas Força André Mendonça, não fez camisa Força Flávio Bolsonaro. Então é como se tivessem terceirizado o assunto honestidade, o assunto combate à corrupção. E o Flávio Bolsonaro pode continuar, por exemplo, fazendo uma dancinha e não falar de temas espinhosos. Afinal, ele conseguiu, e esse é o efeito, ele conseguiu um posto Ipiranga da honestidade, mesmo que essa não tenha sido a intenção do ministro André Mendonça.
Mas isso não é ruim, apesar de a gente não poder dizer se essa é a intenção, é ou não a intenção do ministro André Mendonça? Isso não é ruim para imagem do ministro no momento em que ele tá sendo acusado pela Polícia Federal, pelo governo, pelo apontado pelo ministro Flávio Dino como um ator político eleitoral para beneficiar o que se enxerga como campo dele?
Natuza, quando eu vi o boneco do André Mendonça ao estilo do Moro na manifestação do Flávio Bolsonaro, eu pensei: foi o mesmo gênio que levou a bandeira dos Estados Unidos no auge daquela crise com Trump, quando a maioria do eleitorado defendia a soberania. Por quê? Porque é justamente uma das investigações que você tem. De um lado você tem a investigação contra o Alexandre de Moraes, né, e de outra também uma análise da parcialidade do André Mendonça.
Essa é a decisão do Fachin. E naquele domingo colocam uma, fazem um nivelamento na manifestação do André Mendonça com o Moro. Para ele é péssimo. É por isso que eu tô fazendo essa ressalva, que essa ressalva é que tem uma discussão O André Mendonça está agindo eleitoralmente? Bom, eu sou jornalista, eu sou escravo dos fatos. Isso vai ficar— se eu disser sim, você vai me perguntar qual o fato. Falei, bom, não tem. Se você disser não, não tem, vai ficar no eu acho.
Então há uma discussão anterior: o André Mendonça está agindo com parcialidade ou com imparcialidade? A partir daí você tem métricas, a partir daí você tem fatos para analisar. Ou seja, Ou seja, a velocidade com que ele decide alguns casos, amorosidade com que ele decide sobre outros casos. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também é apontado pela Polícia Federal como um dos alvos dessa suposta assimetria nas investigações.
O relatório indica que o ministro teria direcionado as investigações contra Alcolumbre de olho no controle político do Senado. O filho do presidente Lula, Fábio Luiz Lula da Silva, também é citado no relatório da PF como um exemplo de tratamento desigual dado por André Mendonça. Segundo os investigadores, uma subseção inteira foi dedicada a reunir menções a Fábio Luiz. Segundo a PF, Fábio Luiz não é investigado, não figura em nenhuma lista de e sobre quem a própria peça consigna, até o presente momento não há indícios de que Fábio Lula esteja diretamente envolvido.
A Polícia Federal avalia que a medida serviu apenas para gerar um desgaste de imagem ao filho do presidente.
Uma coisa é o governo acusar o ministro André Mendonça de politização com o objetivo de beneficiar o que o governo acha que é o campo político do ministro, A outra coisa é a Polícia Federal dizer isso, né? Então acho que aumentou de tamanho, né, esse desgaste para o ministro André Mendonça.
É assim, se ele tá agindo eleitoralmente para beneficiar um grupo ou outro, eu acho que essa discussão tem que ficar no campo da política. Aliás, já está no campo da política. O que cabe a nós como analistas políticos, eu entendo, é analisar o impacto de toda essa movimentação na política. Política. E o impacto, ela já ocorre na pesquisa Quest divulgada na terça-feira. Em Minas, Flávio Bolsonaro passa o Lula. Agosto de 2025, o Lula tinha uma vantagem de 9 pontos para o Flávio Bolsonaro.
Essa distância foi diminuída pela primeira vez em Minas Gerais, o estado pêndulo brasileiro. A gente vê Flávio Bolsonaro numericamente à frente do Lula, 40 a 37, numa simulação de um eventual segundo turno. Essa é uma notícia muito importante porque, é bom lembrar, nenhum presidente da República venceu a eleição nacional sem vencer Minas Gerais. E quando você vai olhando por grupos, você vê que há uma oscilação dentro da margem de erro, mas uma oscilação para cima do grupo evangélico a favor do Flávio Bolsonaro.
Então a gente tem que aguardar as próximas pesquisas para ver se essa é uma tendência, e aí dizer, olha, efetivamente essa criação do posto Ipiranga do combate à corrupção, da campanha que a campanha do Flávio produziu usando as decisões do ministro André Mendonça, resultou efeito nesse grupo evangélico.
Otávio Guedes, muito obrigada por clarear todos esses pontos para gente. Volte outras vezes. E, ah, vou aproveitar para te dar uma oportunidade de convidar para o lançamento do seu novo livro.
O nome do livro, vamos lá, é Heróis por Acaso: Personalidades que Mudaram o Rumo do País em Gestos que Não Foram Planejados, Premeditados, Mas Mudaram. São muito importantes. E o lançamento vai ser na Travessa do Leblon, na terça-feira, dia 22, às 19 horas. Antes disso, quem é de Niterói, é Niterói first, como se diz lá, vai ser na Bloco Livros lá em Niterói. Vai ser um sábado pela manhã, dia 19, mas o lançamento mesmo na Travessa do Leblon, 19 horas.
Eu saio direto do mais da GloboNews e vou lá autografar. Será um prazer recebê-los.
Obrigada, Otávio, pelas explicações todas, e recomendo muito o lançamento do livro e o livro também. Tchau, tchau! Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaboraram neste episódio Viviane Mateus e Patrícia Cunha. Eu sou Natuzaneri e Eu fico por aqui, até o próximo assunto.