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ESPECIAL ELEIÇÕES: como a educação pode mudar a cara do Brasil?

08 de setembro de 202642min
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Convidada: Luiza Tenente, repórter de Educação do g1. O Brasil é um país que consegue colocar quase todas as suas crianças na escola na idade certa. O problema é que não conseguimos garantir que elas aprendam: uma em cada três crianças que estão no 2º ano do Ensino Fundamental não sabe ler e escrever. E quanto mais esses estudantes avançam, mais dificuldades eles têm: no Ensino Médio, 40% dos alunos não apresentam desempenho adequado em português; em matemática, o índice é de 50%. Do outro lado dessa mesma moeda, o país corre o risco de viver um apagão de professores na educação básica. Neste episódio especial de eleições, Natuza Nery entrevista a jornalista Luiza Tenente, que cobre a educação brasileira há mais de uma década. Luiza detalha as propostas que os candidatos à Presidência apresentam para melhorar a qualidade do ensino básico, para valorizar a carreira docente e para adequar a formação superior às demandas da sociedade. Também neste episódio você ouvirá trechos das entrevistas que a produtora Stéphanie Nascimento conduziu com os especialistas Cláudia Costin, Debora Cristina Jeffrey, Olavo Nogueira Filho e Rodrigo Capelato.
Participantes neste episódio6
N

Natuza Nery

HostJornalista
C

Cláudia Costin

EntrevistadoProfessora e ex-diretora global de educação do Banco Mundial
D

Debora Cristina Jeffrey

EntrevistadoDiretora da Faculdade de Educação da Unicamp
L

Luiza Tenente

ConvidadoRepórter
O

Olavo Nogueira Filho

EntrevistadoDiretor executivo do Todos pela Educação
R

Rodrigo Capelato

EntrevistadoDiretor executivo do SEMESP
Assuntos5
  • Desafios da educação básica no Brasil e propostas dos candidatos à presidênciabaixa aprendizagem·matemática·português·alfabetização na idade certa·método fônico·reprovação de alunos
  • Apagão de professores e a valorização da carreira docente no Brasildéficit de professores·remuneração·piso salarial do magistério·condições de trabalho·escolas cívico-militares
  • Propostas alternativas para a educação básica, incluindo homeschooling e vouchershomeschooling·parceria com iniciativa privada·vouchers educacionais·ensino integral·escolas cívico-militares
  • Desafios e propostas para o ensino superior, incluindo inclusão e permanênciapolítica de inclusão·permanência nas universidades·qualidade do ensino·cotas raciais e sociais·FIES
  • Adequação da formação de estudantes às necessidades do mercado de trabalho e produção científicamercado de trabalho·ensino técnico·contingenciamento orçamentário·inteligência artificial·pesquisa
Transcrição52 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

O gás do Brasil é o nosso gás e tá em tudo que o Brasil faz.

NNNatuza Nery

O Brasil é um país que consegue colocar quase todas as crianças na escola na idade certa, mas não consegue garantir que elas aprendam. A alfabetização vem melhorando ano a ano, mas um terço das crianças que estão no segundo ano do ensino fundamental não sabem ler e escrever. E quanto mais esses estudantes avançam, mais dificuldades eles têm. No ensino médio, 4 em cada 10 alunos não apresentam desempenho adequado em português. Em matemática, a metade.

Na outra ponta da educação, o país corre o risco de um apagão. Até 2040, o Brasil pode ter um déficit de 235 mil professores na educação básica. E de acordo com o INEP, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas profissionais, os sintomas desse apagão já se sentem hoje mesmo. Esse é o Brasil que chega às urnas em outubro. Neste episódio, vamos explicar as ideias e as propostas dos candidatos à presidência da República para enfrentar esses e outros desafios a partir de 2027.

Este, portanto, é o terceiro episódio de uma série sobre alguns dos temas mais relevantes que serão debatidos ao longo desta eleição. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: um Brasil para 2027, como a educação pode mudar a cara do nosso país? Neste episódio, eu converso com Luiza Tenente, repórter de educação do G1. Você também vai ouvir comentários de especialistas que conversaram com a nossa produtora Stephanie Nascimento.

São eles: Cláudia Costin, Débora Cristina Jeffrey, Olavo Nogueira, Rodrigo Capelato. Terça-feira, 8 de setembro.

NNNatuza Nery

Luiz, eu quero começar o nosso papo falando de educação para crianças do ensino fundamental. É sempre um problema recorrente aqui no Brasil o baixo desempenho de estudantes em português e em matemática, isso já nos anos iniciais da vida escolar. Com você eu quero entender primeiro as propostas dos candidatos, o que que eles apresentam para melhorar esse quadro, o que sugerem os especialistas. Então, se a gente puder primeiro focar nas propostas e depois dar esse contexto, eu te agradeço.

LTLuiza Tenente

Então, o que é bem interessante quando a gente analisa esses programas é que todos os candidatos, mesmo com posicionamentos ideológicos diferentes, partem do mesmo diagnóstico. Todos eles concluem que realmente a baixa aprendizagem nesses primeiros anos é um problema muito grande, especialmente em matemática e em português. O que a gente sente falta um pouco nessas propostas todas é a falta de abordagem daquela relação do governo federal com os municípios.

Porque a gente sabe da dificuldade que é implementar qualquer tipo de alteração na educação, no ensino fundamental. Que normalmente é responsabilidade dos municípios. Quase todas as matrículas estão nas redes municipais, na rede pública. Então precisa fortalecer essa relação com as secretarias secretarias. Isso faltou nos programas, os candidatos não entram muito a fundo nessa questão.

ONOlavo Nogueira Filho

Acho que a primeira coisa importante que a gente entenda é que a educação brasileira ela não parte de um cenário de terra arrasada.

NNNatuza Nery

Você escuta Olavo Nogueira, diretor executivo do Todos pela Educação.

ONOlavo Nogueira Filho

O Brasil vem melhorando em acesso, vem melhorando em permanência e também vem melhorando na aprendizagem, principalmente no início do ensino fundamental, né, na etapa de alfabetização. O problema é que, à medida em que a gente avança nas etapas, essa melhora ela perde força. E aí, quando a gente chega no ensino médio, que é a última etapa da educação básica, a fotografia ela é muito crítica, né? Então a gente tem cerca de 60% dos jovens concluindo a educação básica sem aprendizagem adequada em língua portuguesa e aproximadamente 90% não atingem o desempenho esperado em matemática.

Então a aprendizagem ela já é há algum tempo a questão central da educação básica brasileira e continua sendo.

LTLuiza Tenente

O que é que eles dizem? Lula, Caiado e o Zema defendem a criação ou a continuidade, né, no caso do Lula, de pactos nacionais de recomposição de aprendizagem. Quer dizer, dar aula pras crianças pra tentar recuperar o que elas não aprenderam nos anos anteriores. E sempre focando muito na alfabetização na idade certa. Essa expressão é usada em muitos programas. Porque a gente tem um problema grave aqui no Brasil, que é as crianças saem do 2º ano do ensino fundamental sem saberem ler e escrever.

Então, Flávio e o Renan defendem o método fônico como uma solução pra essa questão da alfabetização. É aquele método que defende que o principal no processo de alfabetização seja a associação da articulação do som com a letra. Então, ela vai juntando e associando sempre o som à representação escrita daquela letra. Normalmente, a crítica que se faz ao método fônico é que ele seria muito desvinculado da realidade dos alunos. As crianças decorariam o som daquelas letras com palavras aleatórias.

E o certo seria a gente, segundo esses especialistas, sempre associar a escrita e a fala, assim, pro uso social delas. Então, pra eu escrever um bilhete, pra eu deixar um recado pra alguém, pra eu fazer um convite pro meu aniversário. Então, a crítica normalmente feita ao método fônico é essa falta de contextualização. E eles dois também defendem uma postura mais rígida da progressão de série. Essa é uma outra grande discussão que existe na educação já há muitas décadas, que é a questão de reprovar ou não reprovar o aluno.

O que se diz hoje é que muitos alunos passam de ano sem saber exatamente o conteúdo da matéria. Então eles não aprendem. Mas como a gente sabe que se a gente reprova um aluno, principalmente um aluno de baixa renda, um aluno de escola pública, que às vezes já está mais velho do que o restante da turma, já tá com aquela chamada distorção idade-série, se a gente reprova esse aluno de ele não voltar pra escola no ano seguinte é muito grande.

Então existe um consenso que é: a reprovação pode levar à evasão. Acontece que o que se faz a partir disso? Muitas vezes a criança acaba sendo aprovada mesmo sem dominar os conhecimentos mínimos ali daquela série, daquela disciplina. Então essa defasagem vai se acumulando e ela vai se tornando uma grande bola de neve. O ideal seria, segundo os especialistas em educação, você conciliar. Você vai sim passar a criança de ano, ou adolescente de ano, só que Sempre preocupado nessa recomposição de aprendizagem, o reforço.

Pode ser num contraturno. Por isso até que a escola integral entra como uma solução possível. Que é você tentar oferecer pra criança o que ela não aprendeu. A gente tem também outras abordagens aqui nas propostas dos candidatos. Mas focada realmente nessa parte de português e de matemática. Ronaldo Caiado fala de... Diferente do Zema, ele consegue definir um pouco mais as propostas específicas pra etapa dos anos finais do ensino fundamental.

Porque a gente tem o ensino fundamental ali começando no 1º ano, indo até o 9º. E aí, depois, a pessoa vai pro ensino médio. E o ensino fundamental é dividido em duas partes. Do 1º ao 5º. E depois, do 6º ao 9º. Esse período, do 6º ao 9º, é um período muito crítico. Então existe ali uma defasagem muito grande que foi acumulada em todo o período do ensino fundamental 1, né, dos anos iniciais. E que vai se demonstrando ali mais clara, mais forte.

Nesses anos finais e que vai ser levada pro ensino médio. Então, Caiado tem esse destaque de apostar numa estratégia específica mesmo pra esses anos finais. Então, ele fala em apoiar as escolas nessa fase crítica, fala em organizar equipes de professores com programas de tutoria, projetos mais adaptados à adolescência. O Zema foca bastante na questão da avaliação. Porque a gente tem o SAEB, que é uma prova que vai fornecer ali um dos componentes essenciais do IDEB, que é aquele Índice de Desenvolvimento da Educação.

Muito mencionado nesses contextos eleitorais, inclusive. Ele sugere mudar o Saeb. Essa discussão de reformular o Saeb é uma discussão já muito presente entre os especialistas de educação, porque a prova é pouco analítica, ela é muito conceitual. Então existe ali uma direção, uma corrente realmente de pensamento de defender que o Saeb seja reformulado. E Zema vem com essa ideia. E ele fala também em alterar a BNCC, Base Nacional Comum Curricular.

O que que é a BNCC? É um documento que foi aprovado já, que está em vigor, que estipula o mínimo que cada rede precisa ensinar nas escolas. Então é como se fosse um pré-curículo. As escolas e as redes de ensino pegam esse documento e a partir dele elas bolam o que elas vão ensinar. Ele acha que é o caso de a BNCC ser revista pra gente acrescentar, por exemplo, competências digitais, questão de raciocínio lógico e tornar o documento um pouco mais didático.

Porque de fato, segundo os especialistas com quem a gente conversou aqui, o documento é muito elaborado e às vezes pode ficar um pouco distante da realidade dos alunos e dos professores. E o Augusto Cury foca em outro aspecto nessa questão de aprendizagem. Ele associa totalmente a proposta dele a uma questão de desenvolvimento emocional. Então ele se distancia dessas discussões burocráticas de aprovação de ano, de método de alfabetização, de formação de professor.

Ele vai totalmente pra um campo de gestão da emoção. Ele acha que se você integrar essa questão da gestão da emoção ali aos componentes curriculares, você vai ter crianças com a cabeça melhor, uma saúde mental melhor. E isso vai facilitar com que elas aprendam os conteúdos. Ele fala também bastante de educação financeira, de empreendedorismo. Foca principalmente nesses anos iniciais. E ele tem uma proposta que poucos candidatos tocam, que é de falar das questões neuroinclusivas.

Ele toca e desenvolve bastante essa importância de a gente acolher os alunos neurodivergentes nas escolas. Então, ele defende uma metodologia específica pra lidar com crianças com autismo, com dislexia, com transtornos de aprendizagem, como TDAH. Então, ele defende a metodologia psicoativa. O presidente Lula, quando fala de uma possibilidade de reeleição, ele insiste no que ele já fez. Nesse último mandato. Então ele fala do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

A gente alcançou um patamar de 66% agora em 2025 e ele propõe que se chegue a 80%. Mas ele não inova em nenhum momento nesse programa, ele não mostra exatamente o que poderia ser feito para que esse crescimento continuasse. Então basicamente a estratégia do Lula no programa é manter o que ele já fez nesses últimos 4 anos.

DCDebora Cristina Jeffrey

Todas as eleições sempre há um destaque sobre sobre o resultado das avaliações externas, no caso aí do SAEB, a partir aí do, né, Prova Brasil, nessa análise que vai sendo feita.

NNNatuza Nery

Você escuta Débora Cristina Jeffrey, diretora da Faculdade de Educação da Unicamp, onde também coordena o grupo de pesquisa em política e avaliação educacional.

DCDebora Cristina Jeffrey

E aí eu acho que a gente tem que falar também desse movimento de construção, né, de programas, né, de cada governo que entra deixa sua marca ou deixa algum elemento, mas sempre direcionando para um programa específico. Todas as propostas, elas acabam convergindo com o foco na questão do desempenho, mas não o que envolve o resultado em si. Nenhuma das candidaturas, elas tocam exatamente nesse problema que é pedagógico, mas ele também é administrativo.

Não somente a infraestrutura, a gente tem o Fundeb, mas a assessoria técnica, ela é essencial.

NNNatuza Nery

Deixa eu só entender um pouco melhor a parte em que o Cury fala de ensinar crianças de 6 anos a empreender e a ter equilíbrio emocional. Como é que eu localizo isso dentro do rol de problemas e desafios para estudantes dessa idade?

LTLuiza Tenente

Ele aposta na questão emocional como um dos eixos que poderiam explicar o fracasso escolar aqui no Brasil. Então ele fala isso tanto na questão dos professores Aspecto, ele diz que os professores estão muito sobrecarregados emocionalmente. Então o cuidado de gestão emocional com os alunos e com os professores seria importante pra gente ter uma sala de aula com um ambiente mais saudável. Ele até propõe uma metodologia que se chama soft.

Seria professores terem maior contribuição dos alunos na sala de aula pra que eles se sintam menos sobrecarregados.

NNNatuza Nery

Agora, você citou Uma palavra que é importante, né? Professor ou professora. Os dados do INEP indicam que o Brasil corre o risco de viver um apagão de professores, porque vão faltar 235 mil professores na educação básica. Isso até o ano de 2040. Luiza, o que que os candidatos propõem fazer para evitar isso, se é que eles propõem e como é que eles prometem capacitar e valorizar os professores?

LTLuiza Tenente

Sim, essa questão, Natuza, de valorização da carreira docente é um termo que sempre vai aparecer nos programas. Só que o que os especialistas avaliam é que existe um foco muito grande em todos os programas aqui dos nossos candidatos na questão da remuneração. Mas mesmo falando de remuneração, não se toca num assunto que é realmente muito delicado, que é o cumprimento do piso salarial do magistério. O presidente Lula, que no seu programa pra reeleição diz que pretende realmente se comprometer a cumprir esse piso.

Só que o cumprimento ou não é uma decisão dos municípios e dos estados. E não existe um tipo de retaliação ou de algum tipo de punição pra aquelas redes que não respeitam o piso. Agora, Se fala muito em todos os programas da questão salarial e da questão de remuneração por bônus. A gente tem até um aspecto mais meritocrático mesmo de remuneração. Então a gente vai ter tanto o Cury quanto o Zema falando muito de bônus pra incrementar a carreira.

Só que o que os especialistas dizem, principalmente os próprios professores que estão na realidade da sala de aula, é que não basta só você reajustar o salário. Ou garantir um piso nacional, precisa garantir o cumprimento dele junto com melhores condições de trabalho.

?Voz A

Eu vi outro dia um ranking de uma fundação, Vale, dos Estados Unidos, e analisaram 35 países, deram uma pontuação da valorização do professor de 0 a 100. O Brasil ficou em último.

NNNatuza Nery

Você escuta Rodrigo Capelato, diretor executivo do SEMESP, o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior em São Paulo.

?Voz A

Então, a infraestrutura precária, a condição de trabalho terrível, eles morrem de medo de dar aula. Os relatos que a gente vê é, por exemplo, você proíbe por lei o uso do celular, vai ver dentro das escolas públicas se os celulares estão sendo proibidos. Não, porque ninguém tem autoridade lá para poder tirar o celular da sala de aula. E vai criando mais desigualdade ainda, né? Porque quem pode estudar na escola privada, essa sim, ó, você tem que entregar o celular no armário, etc. Aí todo mundo tem autoridade e tal.

LTLuiza Tenente

A gente tem normalmente professores que dão aula em mais de uma escola. Se você dá aula só em uma escola, você não consegue realmente um dinheiro suficiente para você se manter. Aquele professor dá aula de manhã numa escola, precisa se deslocar para outra à tarde. Isso, ele se desgasta e ele reduz, ele perde um tempo de dedicação para cada trabalho, porque a profissão de professor exige muito trabalho em casa. Não é só dar aula, que já seria um trabalho hercúleo, né.

É também formular as atividades, planejar as aulas, corrigir as avaliações. Então, se você tem duas escolas, você precisa corrigir as provas, preparar as aulas das duas escolas. E normalmente, o professor não tá exatamente com o mesmo ano nas duas. Ele pode ser professor do 5º ano numa escola e do 6º em outra. Então é uma sobrecarga de trabalho, inclusive fora da sala de aula, muito grande. Mas o que os candidatos realmente...

Sugerem pra gente ter aqui uma valorização maior. Tem esse aspecto meritocrático de bônus, como eu disse, do Cury e do Zema. E a gente tem também uma questão de atrair os alunos da graduação, aqueles alunos que estão terminando o ensino médio, que vão entrar na faculdade, pra esses cursos de licenciatura. Lula focou bastante na proposta dele de continuar com o pé de meia licenciatura, que é um incentivo financeiro pros alunos que escolhem essas carreiras.

Escolhem ir para um curso de licenciatura. E também a Bolsa Mais Professores, que é para atrair professores para regiões mais críticas, onde já tem alguma falta de profissionais. Então ele foca exatamente na manutenção desse incentivo financeiro para atrair mais alunos. Flávio Bolsonaro fala mais de fugir da questão da doutrinação. Ele foca o programa dele na questão de militância, Ele associa, mais uma vez, assim como o pai dele também fazia, a questão do professor ser sempre uma figura que vai defender determinada ideologia na sala de aula.

E Flávio chama isso de modismo pedagógico. Ele quer combater esses modismos pedagógicos, quer focar nos professores totalmente em evidências científicas. Porque ele acredita que isso vai tornar a carreira mais interessante e o ensino mais eficaz. E ele fala muito também da questão da sobrecarga do professor. Na questão emocional, de muita violência, de um contexto que a gente sabe que existe realmente, de muitas escolas, o professor ser às vezes até ameaçado.

Só que a solução que ele vê pra isso é expandir as escolas cívico-militares. Então ele foca completamente na questão do controle e da disciplina como uma forma de garantir ao estudante de licenciatura que no futuro ele vai ter uma carreira com mais zelo e não tão exposta à violência.

NNNatuza Nery

Complexo, né, em termos brasileiros, porque são escolas muito caras, né.

LTLuiza Tenente

São escolas caras, são escolas que não oferecem ainda nenhum tipo de resultado das iniciativas que a gente já viu, um resultado de realmente ganho no aprendizado das crianças. Porque a gente não tem a garantia de que aqueles profissionais atuando ali sejam realmente relacionados ao campo da educação. A gente tem atuação de policiais, um foco muito grande nessa questão da disciplina, sem garantir necessariamente a questão da qualidade do ensino.

E existem alguns outros mecanismos que podem ser usados nessas escolas cívico-militares que criam a ilusão de que talvez o desempenho tenha melhorado. Você pode colocar algum mecanismo de seleção dos alunos, por exemplo. Então pode até haver uma flutuação positiva no primeiro ano, a curto prazo, mas a médio e a longo prazo os resultados não são benéficos, pelos exemplos que a gente já viu aqui no Brasil. E como você disse, de fato existe também uma questão de custo muito grande.

E a gente tem já no Brasil uma realidade em que alguns municípios pequenos só têm como opção uma escola cívico-militar. Isso é gravíssimo, porque a gente tira das famílias a possibilidade de escolher um modelo.

CCCláudia Costin

A educação, diferentemente de outras áreas, pra ela ser consistente, ela leva tempo. Você não inaugura aprendizagem como se inaugura uma estrada. Então, sim, escola cívico-militar. Que não tem nada na bibliografia sobre educação que recomende alguma coisa que policiais militares e bombeiros aposentados estejam na escola para garantir boa aprendizagem. Os resultados de médio prazo das escolas cívico-militares são um desastre. Os de curtíssimo prazo melhoram o IDEB, mas é só no curto prazo.

Então é uma palavra de ordem. A questão de falar de doutrinação nas escolas, Desde que existe escola, e é uma coisa que eu gosto de falar até para provocar no sentido positivo os professores, desde que existe escola existe doutrinação. Era na Primeira Guerra Mundial, era doutrinação contra os países inimigos, doutrinação religiosa, doutrinação. E quando em tempos de inteligência artificial substituindo o posto de trabalho, o que mais resolve não é dar respostas para os alunos, é ensinar a pensar, formar pensadores autônomos.

LTLuiza Tenente

Voltando aqui para o apagão, a gente tem Caiado e o Zema tocando num ponto importante de restringir os cursos de graduação de licenciatura de baixa qualidade. Então tem uma supervisão maior. A gente tem hoje um crescimento muito grande de EAD, né, de ensino à distância. A gente tem mais professores se formando em EAD do que em cursos presenciais, professores que vão atuar em sala de aula, não estão na sala de aula para aprender a ser professores.

Isso é um grande problema aqui no Brasil. Então eles propõem um controle maior, falam de criar alguns programas para deixar a formação do professor mais prática. Então residências pedagógicas, no caso do Zema, um programa de mentoria para professores iniciantes, no caso do Caiado. Caiado fala também numa valorização a partir da redução de tarefas burocráticas dos professores. Ele diz que muitos professores acabam não querendo continuar na carreira porque tem muitas tarefas problemas burocráticos.

E a gente tem uma discussão grande aqui de disciplina também no Renan Santos. Ele fala muito sobre esse foco da disciplina para a gente conseguir tornar a escola um ambiente mais agradável para os professores trabalharem. E aí o que ele sugere é uma conduta nacional de punições. Ele não estipula quais seriam essas punições, mas os alunos que não se comportassem de acordo com as regras sofreriam punições. Isso tornaria a carreira docente mais atrativa para a gente não viver esse apagão.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Luísa Tenente.

NNNatuza Nery

Você e a nossa equipe do assunto mergulharam muito nos planos de governo dos candidatos. Isso está bem claro a partir das suas respostas. E a gente encontrou aqui propostas de metodologia bem diferentes e eu quero listar algumas delas, tá? Tem candidato que defende a regulamentação do homeschooling, ou seja, do ensino em casa. Tem candidato que fala em parceria com iniciativa privada usando vouchers. Tem proposta para aumentar o número de escolas cívico-militares, você já passou por isso.

E tem também planos para ampliar o ensino integral, você já passou rapidamente por isso, mas acho que vale a pena a gente entrar um pouquinho mais. Em linhas gerais, explica pra gente que candidato defende o quê nessa lista e que evidências mostram ser melhor para os alunos brasileiros.

LTLuiza Tenente

Só para acrescentar, Natuza, a ideia de cívico-militar é defendida não só pelo Flávio, mas também pelo Romeu Zema e pelo Renan Santos. Todos eles falam bastante dessa imposição de disciplina nessas escolas. Mas vamos então aqui às outras propostas, né? Homeschooling. Curiosamente, a gente só tem um candidato que defende explicitamente homeschooling nos programas, que é o Romeu Zema. O que que é o homeschooling? É basicamente você poder educar a criança fora da escola.

Então isso pode acontecer com os próprios pais sendo os professores, ou com a contratação de tutores que vão até a casa da família para dar aula de alguma disciplina específica. E isso é defendido por diferentes grupos ao redor do mundo. O Zema defende o homeschooling falando que as famílias precisam ter liberdade de escolha e a gente precisa oferecer um cardápio grande de modelos de educação informação para que elas elejam o que elas acreditam que seja mais indicado para o filho delas.

Só que aí isso entra numa discussão muito delicada, que a escola aqui no Brasil, principalmente, ainda mais com a desigualdade que a gente tem, é um mecanismo de proteção social. Tem crianças que sofrem maus-tratos e que só vão ser protegidas porque um professor nota isso quando ela entra na sala de aula e ela tem algum machucado. A gente tem crianças que só não passam fome porque elas conseguem fazer refeição nas escolas. A partir do momento que a gente permite que essa educação ocorra em outro ambiente, a gente precisaria de uma fiscalização muito grande pra garantir que essas crianças, de fato, estejam aprendendo, de fato, estejam socializando.

Porque a escola não é só aprender conteúdo. A escola é também trocar experiências com outras crianças, conhecer outros pontos de vista, outras realidades. Depois, a gente tem as parcerias com iniciativa privada e os vouchers. Aqui entra uma questão muito polêmica, que é assim: quem defende voucher e iniciativa privada, em geral, defende com o seguinte argumento. Se eu não tiver como atender determinada demanda na rede pública, eu posso fazer uma parceria com a rede privada.

E posso, por exemplo, dar um voucher pra essa criança estudar numa escola particular. Então, se eu não tenho vaga pra ela na escola pública, o Estado paga uma mensalidade de escola particular pra que a criança seja atendida. Aí a gente esbarra numa questão que é: a gente tem escolas particulares suficientes pra isso? Se a gente for olhar creches, por exemplo, a gente precisaria de uma construção absurda de creches pra conseguir atender as pessoas que não estão sendo atendidas pela rede pública.

Então esbarra em uma questão de infraestrutura que os candidatos acabam não abordando. E a gente tem o que os especialistas dizem, sempre um risco muito grande de terceirizar a responsabilidade do Estado, né, de passar essa responsabilidade para o setor privado e de perder o controle da qualidade.

CCCláudia Costin

Não existe nenhuma evidência sólida de que voucher funciona.

NNNatuza Nery

Você escuta Cláudia Costin, professora e ex-diretora global de educação do Banco Mundial.

CCCláudia Costin

No caso brasileiro, eu acho que é ainda mais dramático, porque como há favelas, áreas de muita desigualdade educacional, qual é a escola particular que se instalaria no complexo da Pra Valer, por exemplo. É, em vez de resolver o problema da qualidade da educação de uma maneira sistêmica, melhorando a atratividade da carreira, gerenciando melhor a política educacional, fazendo menos oba-oba na política educacional, achar que eu vou comprar voucher em escolas particulares que não existem. 82% dos estudantes brasileiros estão em escolas públicas.

Então imaginar que eu vou agora emitir vouchers para colocar os alunos em escolas particulares, nós não temos nem quantidade de escola particular que pudesse abarcar a grande maioria dos alunos como é hoje.

LTLuiza Tenente

O que que os candidatos falam disso? Flávio Bolsonaro defende o voucher. Ele fala que onde faltar vaga na rede pública, a família pode receber um voucher educacional para matricular o filho na privada, mas ele não entra no mérito de qual escola seria essa, porque existe um risco de as escolas que aceitarem os alunos de voucher serem escolas com uma qualidade menor. E aquelas escolas mais rígidas, com mais credibilidade, podem acabar adotando algum mecanismo de seleção ali para impedir que esses alunos chegassem.

Então é um risco, segundo os especialistas, de haver uma ampliação da desigualdade. O Zema defende parcerias com entidades privadas, ele fala de voucher só nos cursos técnicos, em parcerias com o Sistema S. Na parte de educação básica, ele foca mais nas parcerias com entidades privadas. O Lula rejeita completamente essa ideia e ele aposta mais na expansão das redes públicas com incentivos. Ele cita recursos do novo PAC. O Caiado também fala de parceria com a iniciativa privada, mas não cita voucher.

E o Renan não entra em nenhum aspecto nessa questão de parceria com iniciativa privada. Escola cívico-militar a gente já comentou. E ensino integral é interessante porque ele é defendido por todos os candidatos, menos pelo Renan Santos, que acaba não entrando nesse tema. Aqui o grande problema, grande fragilidade das propostas, é não aprofundar tanto a questão dos recursos. Lula defende muito tempo integral, ele fala inclusive em absoluta prioridade.

E a questão de recursos, ele aposta no novo PAC para bancar essas escolas. Depois a gente tem Caiado falando muito também da importância do ensino integral, de focar no aprendizado, não só na permanência física das crianças. Flávio também aposta na questão da educação integral, ele fala em atividades formativas, em reforço no contraturno. O Zema oferece uma opção ali de ensino integral com parcerias com redes privadas, ele acha que essa pode ser a solução do financiamento.

E o Cury também também coloca como prioridade. Ele disse que a gente só vai ter educação de excelência no país quando a gente alcançar realmente um ensino integral.

NNNatuza Nery

Luiza, passando agora para o ensino superior, de maneira geral, como é que se resolve o problema de tornar mais eficiente a política de inclusão, a política de permanência nas universidades? E mais até do que isso, né, que propostas estão na mesa para melhorar a qualidade do ensino nas universidades?

LTLuiza Tenente

Sim, essa é uma questão que eu senti nos programas, menos o foco. Acho que os candidatos focam muito mais na educação básica do que no ensino superior. Mas eles tocam também nesses assuntos. Zema e Flávio falam de separar a educação superior. Tirar a educação superior do Ministério da Educação. Que hoje o MEC é responsável por todas as etapas de ensino. E transferir isso pro Ministério da Ciência e da Tecnologia. Essa proposta é vista com bons olhos?

Por alguns especialistas, achando que o MEC realmente pode passar a focar mais na educação básica se ele tiver um escopo ali de atividade menor. Mas a formação de professores, segundo os especialistas, precisaria continuar no MEC. Para outros, essa transferência para outro ministério poderia acabar fragmentando mais a gestão e dificultando ainda mais o controle da qualidade. Mas essa é uma proposta que aparece. Pouco se fala em incentivos com o detalhamento de onde sairia esse no curso, porque a gente tem hoje vários mecanismos de acesso à universidade.

Então a gente tem grandes programas federais como ProUni, nas faculdades privadas a gente tem o Sisu, nas faculdades públicas o FIES como financiamento, tem a questão das cotas. Mas o desafio ainda é manter esses alunos até o final do curso. A gente tem um índice de desistência dos cursos muito alto.

?Voz A

O grande problema nosso, primeiro então, é o acesso E o acesso, ele tem um gargalo muito forte porque mais de 90% da população estudantil é de baixa renda.

NNNatuza Nery

Você escuta Rodrigo Capelato, diretor executivo do SEMESP, o sindicato das entidades mantenedoras de estabelecimentos de ensino superior em São Paulo.

?Voz A

Então é preciso ampliar a política de cotas. O ProUni também é preciso ampliar e ele tem uma possibilidade de ampliação. Você pode trocar por mais bolsas também. E isso eu vi pouco nas propostas de todos os candidatos. Um segundo ponto que eu vejo que todos passam por ele, mas de uma forma talvez não tão profunda, que é a permanência. Eu dou acesso, mas depois de um tempo ele sai, né? Então a gente tem aí uma média muito baixa, em torno de 40% só que concluem o curso, até menos do que isso, que concluem o curso dos que entram.

Então eu preciso de políticas de fortalecimento desse aluno, não só do ponto de vista financeiro, Eu preciso dar condições para que ele continue estudando sem trabalhar naquele período. Ah, temos que ter políticas de permanência, mas é importante entender quais são essas políticas. Não são nada simples, porque isso é um problema no mundo inteiro, inclusive, que é você dar condições financeiras para ele permanecer e dar condições sociais, psicológicas e inclusive dar base para ele continuar.

Essa é outra questão muito importante, né, que eu vejo a necessidade de se aprofundar um pouquinho mais.

LTLuiza Tenente

Então, o que que os candidatos falam sobre isso? Caiado fala em uma política de controle de qualidade, ele fala que precisaria haver uma avaliação mais rígida dos cursos, com um combate à educação à distância. E ele fala em focalizar as bolsas de permanência para jovens de baixa renda que realmente estejam com risco de abandono. Então ele tenta segmentar um pouco melhor essa questão do auxílio. Lula fala mais uma vez no Unic, que é um programa já que tá completando duas décadas agora, fala de renegociações do FIES.

Só que ele não entra numa questão muito delicada do FIES, que é os alunos que fazem parte desse financiamento terminam o processo com dívidas altas, e muitos deles nunca conseguem pagar essa dívida e tem índices de inadimplência muito altos. E por isso, vira e mexe, a gente tem essas políticas de renegociação de dívida. E aí, quando Lula fala sobre essa questão, ele propõe justamente renegociação do FIES, mas ele não fala de nenhuma alteração específica no programa para evitar esse endividamento.

Ele sugere também criação de novos campi de ensino técnico. Então ele fala muito de uma interiorização para a gente tentar levar a educação para áreas em que não há tantas opções assim de universidade. E fala também do fortalecimento da assistência estudantil, então ampliar moradias, e ampliar algum auxílio de alimentação estudantil. O Flávio fala de algo que é muito parecido com o FIES. Ele não detalha nenhuma diferença, na verdade, apesar de não mencionar o termo FIES.

Ele fala de um empréstimo que começa a ser pago no primeiro emprego. Então seria basicamente uma filosofia muito semelhante à do FIES. E ele também defende essa transferência do ensino superior para outro ministério, para tirar do MEC. E ele acha que as instituições de ensino devem receber de cursos privados em troca de formar os profissionais que vão ser bons para o mercado de trabalho. Zema quer resolver a baixa qualidade basicamente com parcerias com Sistema S, com instituições privadas.

Cury também fala de aproximar as universidades do setor privado. E o Renan vem com a proposta mais controversa, que é de acabar com as cotas. As cotas raciais e sociais hoje são um grande avanço, isso é um consenso entre os especialistas em educação, de realmente aumentar o acesso à universidade por parcelas da população que até outro dia não tinham essa possibilidade de chegar a universidades públicas.

DCDebora Cristina Jeffrey

Não tem retrocesso, né? As e os estudantes negros, negras, negres, né, as pessoas com deficiência. Algumas universidades públicas houve a extensão para população trans, Não tem como voltar atrás.

NNNatuza Nery

Você escuta Débora Cristina Geffrey, diretora da Faculdade de Educação da Unicamp, onde também coordena o Grupo de Pesquisa em Política e Avaliação Educacional.

DCDebora Cristina Jeffrey

Que a gente ainda não conseguiu chegar lá no sentido da representatividade dos 56% dessa população. Ela ainda não tá completa dentro das universidades, mesmo com as cotas. A gente vai ter universidades e áreas, por exemplo, que já chega quase lá, né, mas não chega completamente. Então acho que isso é parte de uma dívida histórica, né, do país. Quando a gente tá falando também da reparação, né, histórica, acho que tem um movimento aí que alguns agora, né, ainda deputados, mas alguns são candidatos da pauta da reparação histórica.

LTLuiza Tenente

Ele quer acabar com as cotas e substituí-las por mecanismos de bolsa de mérito. Ele não detalha, mas eu imagino que seja um auxílio para alunos que tiveram um bom resultado no ENEM ou no ensino médio. Ele não entra nesse mérito, mas para esses alunos terem um incentivo para irem para faculdade. Mas ele é contra a questão de cotas. E por último, o Cury fala no foco também em conhecimentos que gerem patentes, que gerem produtos reais para a sociedade.

A gente vê uma tendência grande de alguns candidatos mesmo pra focar o curso superior muito no que vá trazer um resultado concreto pro país. E o plano dele não traz, o plano do Augusto Cury não traz nenhuma ação específica de regulação de qualidade, não fala de nenhum alinhamento ali das normas dos cursos superiores pra manter alguma qualidade.

NNNatuza Nery

Luiza, e por fim, pra gente encerrar, continuando no ensino superior, como é que se adequa a formação dos estudantes à necessidade do mercado de trabalho? Você tem uma população jovem muito grande no Brasil. E aí, de jovem, eu tô fazendo o corte, o corte oficial, né, de 16 anos. Tô falando de eleitores, portanto, de 16 até 34 anos de idade. Então, a minha perspectiva aqui é de corte de idade para fins eleitorais. Eles estão muito desalentados e estão muito preocupados com o mercado de trabalho.

E no geral, a impressão que se dá é que o grid de candidatos, ou a cesta de candidatos, alcança pouco em termos de propostas reais essa fatia da população. Como é que os estudantes estão sendo formados para o mercado de trabalho? E como é que se melhora a qualidade da produção científica?

LTLuiza Tenente

Todos parecem muito conscientes esse distanciamento que a gente tem hoje do ensino superior em relação ao mercado de trabalho. Então muitas vezes o aluno entra na faculdade, ele sente que o que ele está aprendendo ali não vai levá-lo a uma carreira e que o que ele tá aprendendo tá muito distante do mercado de trabalho. Então todos os candidatos de alguma forma tocam nessa questão para tentar trazer um lado mais prático para universidade.

Então eles falam muito de uma aproximação com o ensino técnico, então ensino mais profissionalizante. Agora, eles não tocam num assunto muito importante, que seria como evitar o contingenciamento orçamentário. Porque a gente tem o CNPq, a gente tem a CAPES, grandes agências de fomento à ciência que normalmente sofrem cortes ao longo de diferentes governos. Então aqui é um problema que não é só do presidente, é toda uma articulação com o Congresso que precisaria acontecer para garantir esses recursos.

Os candidatos falam bastante, principalmente, de reformar. O Caiado, por exemplo, fala de a grade curricular de engenharia, de ciências, de saúde, de tecnologia, de pedagogia, para tentar aproximar os alunos da realidade do mercado de trabalho. A gente tem também o Flávio falando sobre essa aproximação com curso técnico, e a gente percebe uma tendência dos programas de priorizar esses cursos realmente nas áreas de ciências. E eles falam normalmente da questão mais de engenharia, de saúde, não tanto das ciências humanas.

Falam muito também da importância de investir mais na questão de estrutura de laboratórios para que esses alunos tenham a possibilidade de desenvolver pesquisas. E o Renan Santos mais uma vez fala sobre esses cursos bacharelescos. Ele acha que o caso de a gente voltar ao ensino superior, mas para algo que seja ligado ao desenvolvimento industrial do país. Então é uma visão que ele defende. Questão de formação em inteligência artificial, quem fala bastante é o Cury.

Ele fala sobre, mais uma vez, a questão de universidades empreendedoras, de investir em pesquisas que tragam algum resultado financeiro, econômico para o país.

?Voz A

E aí, uma outra coisa que eu senti falta aí geral, né, é a questão da inteligência artificial.

NNNatuza Nery

Você escuta Rodrigo Capelato, diretor executivo do SEMESP, o sindicato das entidades mantenedoras de estabelecimentos de ensino superior em São Paulo.

?Voz A

Ela tem um impacto muito grande no ensino superior, né? Há uma necessidade muito grande de você no mínimo começar a pensar em políticas públicas para isso, né? Porque currículos não podem mais ser os mesmos, a formação não pode mais ser a mesma, né? Eu preciso entender o que que vai mudar, como é que não adianta mais eu ficar formando profissionais do jeito que eu vinha formando, que esses nacionais todos não vão ter lugar no futuro, porque a IA vai exigir uma necessidade muito grande de pessoas que tenham uma capacidade de raciocínio, de pensamento crítico, aí de competências de relacionamento humano, de liderança, muito maior do que hoje.

LTLuiza Tenente

Mas mais uma vez, Natuza, a questão é como a gente pode financiar isso, como a gente pode organizar uma reforma total do ensino superior. Certamente vai ser um desafio para o novo presidente, seja ele qual for.

NNNatuza Nery

Luiza Tenente, você é um fenômeno da natureza. Impressionante os seus conhecimentos, impressionante o trabalho que você faz dia a dia no G1. Muito obrigada por ter doado um pouco do seu tempo para falar com a gente aqui no assunto.

LTLuiza Tenente

Que isso, Natuza, eu vou botar até no meu currículo esse elogio, elogio seu, imagina. Muito, muito obrigada mesmo. É um prazer participar aqui com vocês e um prazer contar com o apoio de toda a equipe.

NNNatuza Nery

Obrigada, Luiza, um beijo para você.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida.

NNNatuza Nery

Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman.

NNNatuza Nery

Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

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