Augusto Cury: a candidatura que entrou no radar das redes sociais
- O crescimento de Augusto Cury nas pesquisas de intenção de votoAugusto Cury·Eleições 2026·Avante·Lula·Flávio Bolsonaro·Renan Santos·Ronaldo Caiado·Romeu Zema
- O crescimento exponencial de Augusto Cury nas redes sociaisAugusto Cury·Redes sociais·Instagram·Pablo Marçal·Influenciadores digitais
- A estratégia de Augusto Cury como terceira via na eleição presidencialAugusto Cury·Terceira via·Polarização política·Lula·Flávio Bolsonaro
- As propostas de governo de Augusto Cury e o desconhecimento da máquina públicaAugusto Cury·Propostas de governo·Dívida pública·Inteligência Artificial·Robótica·Telemedicina·Violência contra a mulher
- A repercussão da entrevista de Augusto Cury na TV Globo e o impacto em sua campanhaAugusto Cury·TV Globo·Entrevista·Feminicídio·Embaixadores influenciadores
- A suspeita de impulsionamento artificial no crescimento digital de Augusto CuryAugusto Cury·Impulsionamento artificial·Robôs·Justiça Eleitoral·Pablo Marçal
Na verdade, o líder deste século tem que ser um líder que tem, reitero, o melhor da direita e o melhor da esquerda na sua mesma personalidade.
Esse é Augusto Cury, candidato à presidência da República pelo Avante. No último sábado, ele participou da sabatina da TV Globo.
Caso contrário, nós não temos esperança nesse mundo altamente digitalizado e consumista.
Cury é um médico psiquiatra conhecido. O currículo dele já tem mais de 70 livros publicados e nada menos do que 35 milhões de exemplares vendidos. É um sucesso da seção de autoajuda em qualquer livraria pelo país. Mas quando a gente fala em eleição, aí ele é um novato. Veja os dados da última Quest, publicada em 14 de agosto.
Lula, 38 pontos de intenção de voto. Flávio Bolsonaro, 31. Renan Santos aparece com 4, Ronaldo Caiado 4. É bom dizer, Renan Santos e Ronaldo Caiado, o mesmo número e tecnicamente empatados. O escritor Augusto Cury do Avante e o Romeu Zema, 2 pontos cada um.
Mas preste atenção em um detalhe importante. Vou dar um passo para trás. Uma pesquisa de julho da Quest.
Presidente Lula, atual governante, para reeleição com 40% das intenções de voto. Seguido pelo pré-candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, que tem 28%. Ronaldo Caiado vem em seguida com 4%, pré-candidato do PSD. Renan Santos, do Missão, pré-candidato do Missão, com 3%. Romeu Zema, na sequência, com 2%.
Todos os outros, 1%.
Em apenas um mês, Augusto Cury conseguiu duplicar seu índice de intenção de voto. Mesmo sem fazer barulho na pré-campanha, quando a corrida eleitoral começou pra valer, o médico rapidamente alcançou o mesmo patamar de votos que os demais pretendentes ao Palácio do Planalto. Isso, claro, excluindo Lula e Flávio Bolsonaro. Nas redes, o movimento é ainda mais claro. Desde o início da temporada de debates e sabatinas, Augusto Cury saltou de 8 para mais de 10 milhões de seguidores, isso somente no Instagram. Foram quase 1 milhão somente em um dia.
Ele claramente fez uma estratégia esperando inicialmente o debate do domingo passado, que embora poucos candidatos, ele soube aproveitar aquele debate e produzir os cortes necessários para a partir daí conseguir um crescimento absurdo. 2 milhões e 600 mil novos seguidores nas redes sociais nessa semana. Ele é o segundo candidato com maior número de interações, só perdendo para o Flávio Bolsonaro. Ele conseguiu ser o segundo maior em buscas no YouTube, perdendo só para o Lula. No X, ele ficou ainda só atrás do Lula e do Bolsonaro em relação a interações.
Mas o fato é, ele conseguiu fazer uma estratégia melhor do que os outros candidatos.
Augusto Cury costuma se vender desde o dia 1 desta campanha como opção para o eleitor nem-nem, nem Lula, nem Bolsonaro.
Você não consegue formar um coração só com a direita ou só com a esquerda, você tem de ter os dois. E eu quero pacificar esse país para terminar essa guerra da polarização que adoeceu a nação brasileira e está adoecendo o mundo todo. E o governo tem de ser responsável fiscalmente. E também nós precisamos ajustar o Bolsa Família. Eu taxaria as bets seriamente. Curso de empreendedorismo? Não, uma escola de empreendedorismo. Não, não uma escola clássica, não.
É um curso de empreendedorismo que nós chamamos de escola de empreendedorismo. Se nós não tivermos uma secretaria executiva ou um ministério da inteligência artificial e robótica, O Brasil vai ser atropelado.
E o debate agora se dá sobre qual o tamanho do fôlego de Augusto Cury nesta eleição.
Em política tem uma máxima que é o seguinte: se a discussão é em torno de um candidato, no caso Cury agora, é sinal de que ele tá no jogo. Então ele entrou no jogo, não sei se vai ter fôlego para continuar no jogo, mas nos últimos dias Ele é o mais importante de todos que estão discutindo aí, debatendo aí. Ele foi o que provocou a maior mobilização, ou contra ou a favor, é impulsionado, não é comprado, não é, mas é em torno dele a discussão. E isso é um fato positivo nessa disputa de espaço e tal.
Eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Augusto Cury e a candidatura que entrou no radar das outras campanhas. Neste episódio, eu converso com Pedro Figueiredo, repórter e comentarista da GloboNews, e com Beto Vasques, diretor do Instituto Democracia em Xeque e coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Terça-feira, 1º de setembro. Bom, Pedro, para a gente começar nossa conversa sobre esse personagem da eleição presidencial, quem é Augusto Cury? Qual é o partido dele? O campo de apoio desse candidato?
Augusto Cury é médico psiquiatra, autor de uma série de livros, um fenômeno editorial no Brasil, no mercado de livros de autoajuda. Não à toa, ele já começa as eleições como o terceiro candidato com a maior quantidade de seguidores. Porque ele já tinha uma carreira pregressa e ele era bastante conhecido.
Augusto Cury tem 67 anos, nasceu em Colina, no interior de São Paulo, é médico, escritor e empresário. Disputa um cargo eletivo pela primeira vez agora em 2026. Formado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, se especializou em psiquiatria, dedicou a carreira ao estudo das emoções humanas. Augusto Cury também é dono de uma plataforma de cursos na internet com foco no tema saúde emocional.
Ele se filiou ao partido Avante, que é um partido ali de centro-direita, em alguns estados mais pra esquerda, mas é um partido que tem uma representação pequena no Congresso Nacional e que decide esse ano lançá-lo como candidato à presidência da República. Ele tem como candidato a vice o ex-deputado federal Júlio Delgado, que é um nome bastante conhecido na política, que é de Minas Gerais. O próprio presidente do partido, Luiz Tibé, é também de Minas Gerais, é deputado por Minas Gerais. Então tem muita força ali naquele estado de Minas, o Avante, né?
Em linhas gerais, Pedro, quais são as propostas do Augusto Cury? A gente assistiu a entrevista dele à TV Globo, a gente estava junto inclusive na central das eleições e comentamos essa entrevista depois. E algumas chamaram muita atenção e Parte delas chamou atenção pela falta de conhecimento mesmo de Brasil. O que ele tá defendendo nessas eleições?
Augusto Cury entrou na campanha eleitoral com um discurso de que ele seria a verdadeira terceira via, ou seja, ele seria alternativa à direita ou à esquerda. Vários candidatos tentaram se apresentar como uma alternativa ao lulismo ou ao bolsonarismo, mas a maior parte deles tem um campo político muito bem delimitado. Então, Ronaldo Caiado é um nome histórico da direita brasileira. Então isso faz com que haja uma certa dificuldade de alguns eleitores mais de centro entenderem Caiado como esse nome que sairia um pouco dessa polarização.
Inclusive, Caiado, para rapidamente citar um exemplo, a primeira proposta dele— eu tive lá no lançamento da pré-candidatura dele quando ele ainda estava no União Brasil— a primeira proposta de Caiado é anistiar os condenados pelo dia 8 de janeiro, o que faz com que ele tenha uma dificuldade de se posicionar no centro, porque é uma proposta vista como alguém de direita. Então, entendendo que havia aí um vácuo de alguém que não estaria nem à direita nem à esquerda, o então marqueteiro do Augusto Cury, que era o Leandro Gropo, desenvolveu essa estratégia.
Olha, você será esse candidato que não é nem de direita nem de esquerda. E assim, desde o começo, ele tem se apresentado. Então, por exemplo, no debate da Band, ele criticou o Renan Santos pelo excesso de violência na fala dele. Então ele começa, antes de mais nada, a primeira proposta dele é ser alguém que vai apaziguar o Brasil, que ninguém aguenta mais brigar de um lado, de outro, e que ele vai conseguir encontrar esse meio do caminho, que existem boas propostas à direita que ele vai aderir, que existem boas propostas à esquerda que ele vai aderir.
Na entrevista do Jornal Nacional, ele começa citando o maior homem que passou pela história da Terra, nas palavras dele, que foi Jesus Cristo. Então ele faz esse aceno também ao público religioso, seja ele católico, evangélico, que vê Jesus Cristo como uma liderança importante espiritual.
E aqui tem um ponto importante, porque desde a semana passada que passou-se a detectar um crescimento vertiginoso do Augusto Cury nas redes sociais. Essa evolução foi notada por adversários e eu me lembro da gente ter falado já no início da semana passada na central das eleições que o crescimento dele estava além do que os adversários consideravam normal. O primeiro a levantar a voz, a reparar esse crescimento, ou pelo menos acender um sinal, foi o candidato Renan Santos.
E uma das explicações que dão para esse crescimento é de que ele era um ateu que se converteu ao escrever um livro anos atrás, ele diz ter se convertido. Ele deu uma entrevista para Ana Maria Braga em que ele fala que ele era o maior ateu do planeta e passou a se identificar como crente.
Eu soube que você não acreditava em Deus.
É, eu fui um dos maiores ateus que pisou nessa terra. Como a minha teoria é isso da construção de pensamento, e a formação de pensadores, estudei como é que Einstein libertou seu imaginário, como Freud, e fui até Jesus Cristo. Quando eu estudei a mente dele, eu me curvei, como eu disse humildemente, à sua inteligência e percebi que ele não cabe no imaginário humano. Ele tem de ter sido real. Mas eu não defendo uma religião.
Em especial.
Eu não defendo uma religião em especial.
Mas o senhor passou a acreditar em Deus.
Passei a acreditar em Deus, me tornei um cristão sem fronteiras.
Fiz essa parte só pra gente tentar entender, porque pode estar vindo a força do Ucure, pode estar vindo também de uma base digital cristã religiosa.
Sim, e o Juliano Spier deu uma entrevista falando sobre como os próprios fiéis evangélicos têm se queixado muito da entrada da política nas igrejas em relação a como foi 4 anos atrás. Então você tem também aí um eleitor que tem uma dificuldade nesse momento de, primeiro, não quer uma interferência política da sua igreja, e segundo, tem uma dificuldade de ler Flávio Bolsonaro como seu representante importante, né? O escândalo do Dark Horse dificultou muito a vida do Flávio Bolsonaro entre os evangélicos em função da mentira.
Quando tem o áudio dele para o Forcaro, isso repercutiu muito mal entre esse eleitor. E aí o Augusto Cury surge então com algumas propostas que parecem assim muito simples de resolver para problemas que são muito mais complexos. Por exemplo, ele diz que vai resolver a violência contra a mulher instalando drones que vão na frente do policial quando uma mulher apertar um botão no aplicativo porque tá sofrendo uma violência. Ele só não consegue explicar como que esse drone não colocaria a vítima em mais risco do que ela já tá, porque tiraria o efeito surpresa da própria chegada da polícia.
Mas candidato, esses drones funcionariam na prática como? Porque são mais de 5 mil cidades brasileiras, mais de 6 mil delegacias, muitas delas não têm nem internet.
Tudo bem, é verdade, muitas áreas não têm internet, mas você já pensou se tivesse um aplicativo com um botão de alerta georreferenciado? Esqueça a questão do drone, por favor, pense num aplicativo que possa ter uma resposta mais rápida.
Mas o senhor prometeu drones e disse que eles seriam acionados pelo aplicativo. Eu gostaria de entender, todas as delegacias do Brasil teriam esses drones com sirenes?
Claro que não, Renata. São as delegacias talvez nas cidades maiores mais digitalizadas, mas o objetivo é proteger as mulheres.
Ele promete, por exemplo, criar escolas de empreendedores na rede pública e diz que nessa escola as pessoas vão dar aula voluntariamente porque elas vão se candidatar para dar aula. Também parece pouco viável que as pessoas simplesmente desejem parar as atividades delas para contribuir para uma escola do empreendedorismo. Daí ele também defende um modelo de telemedicina. Essa proposta então ela é bastante complexa porque o próprio Cury foi embaixador de uma empresa de telemedicina.
Então hoje o SUS já utiliza a telemedicina em muitos casos, mas em tantos outros a questão do postinho de saúde ela é extremamente importante, seja porque para resolver uma violência contra a mulher o postinho de saúde é onde muitas vezes a vítima tá ali sozinha com um médico, uma médica, e consegue pedir ajuda, seja porque para efeitos de benefícios previdenciários o posto de saúde é um local onde você consegue fazer o acompanhamento de fato de que aquela pessoa ainda deve receber aquele benefício, ela pode ser encaminhada para um centro de assistência social, para, no caso, um benefício social.
Seja porque existe hoje um modelo de estratégia de saúde da família que é extremamente consolidado, reconhecido onde existe, que faria muito mais sentido você universalizar do que você simplesmente sair aumentando a telemedicina. O que, no caso dele, ainda ele teria ali, ou teve em algum momento da vida, um certo envolvimento comercial. Com modelos e sistemas que fornecem esse tipo de serviço. Então ele oferece essas propostas de solução, que são propostas de solução de problemas que a população já tá exausta.
As pesquisas de opinião mostram, né, saúde, segurança pública, mas que revelam desconhecimento de Brasil, de Brasília, né, porque ele desconhece, ao apresentar essas propostas, diversas realidades. Entre elas é de você passar disso tudo ser normatizado pelo Congresso Nacional. Então, por exemplo, ele promete, por exemplo, cortar ministérios, mas criar um Ministério da Inteligência Artificial e da Robótica. Todas as propostas dele passam muito sobre essa preparação para esse novo mundo com inteligência artificial e com robótica.
Ora, o marco da inteligência artificial tá paralisado no Congresso há mais de um ano porque ele não passa. Então, só para dar um exemplo de como não é uma questão consensual, ou que há uma série de pequenos detalhes que precisam ser explorados, e que ele trata com uma facilidade de solução que podem soar encantadoras, mas que são pouco factíveis do ponto de vista de quem conhece um pouco mais da máquina pública e do funcionamento das instituições.
Me chamou atenção na entrevista dele para a TV Globo, para Renata Vasconcelos e para o César Tralli, quando ele é perguntado como é que ele vai fazer para baixar a dívida, né, em relação ao PIB, a dívida pública que hoje tá acima dos 80%, ele disse que iria baixar para 2 ou 3%.
Para que percentual do PIB o senhor conseguiria trazer essa dívida? Qual a economia que o senhor conseguiria fazer? Já fez essa conta tranquilamente? Consegue botar essa dívida numa taxa de 2 a 3% do PIB? A 2 a 3% do PIB nós precisamos economizar, não tem jeito. Ou nós somos responsáveis fiscalmente, ou nós não conseguimos nem abaixar a taxa Selic.
Mas essas contas que o senhor falou, reduzir gastos comissionados, o senhor falou de taxação, cortar ministérios, despesas do Palácio, elas sinalizam uma austeridade, mas estão distantes do tamanho desse ajuste mencionado pelo tralho dos economistas, R$200 bilhões.
E se tivermos responsabilidade de gerir de maneira adequada e inteligente toda a máquina pública e não contratássemos mais colaboradores entrássemos com inteligência artificial e digitalizássemos toda a máquina pública, nós certamente conseguiríamos economizar o suficiente. O ano que vem... Já fez essa conta? Já sim, com várias pessoas. E o senhor consegue estimar um valor? Nós conseguimos pelo menos R$150 a R$200 bilhões.
Eu queria que você falasse um pouco desse momento, né? A gente até comentava na central das eleições, ou ele não tinha entendido a pergunta, ou de fato ele não entendia de algo que é muito básico, né? Quando você quer governar um país com esse nível de endividamento, é algo impossível.
A dívida pública da União tá na faixa de R$3 trilhões. Isso foi o pedido no ano passado. A gente fez uma conta rápida que para que essa proposta fosse viável, para ele reduzir para esse patamar de 2 ou 3% do PIB, que a máquina pública precisaria parar por 3 anos, o que é impossível. Não teria como trabalhar, não teria como pagar conta de luz, não pagaria servidor, não pagaria serviços fundamentais. O país pararia para que essa dívida pudesse ser paga em 3 a 4 anos.
Outro desconhecimento, que ele falou que queria fazer ajuste fiscal, mas prometeu ajuste fiscal a partir de corte de ministérios, que também é uma proposta bastante supérflua, porque em geral quando você diminui ministérios você só corta o cargo de ministro, porque porque toda a estrutura do ministério vai para outro ministério. Ao falar, por exemplo, de uma questão que é bastante controversa inclusive, mas que é apontado por muitos especialistas como uma possibilidade de ajuste fiscal, que é tirar o aumento real do salário mínimo porque ele é indexado a vários outros benefícios pagos pelo governo, ele disse que não, que vai continuar aumentando o salário mínimo com o valor da inflação mais 1%.
Então, na verdade, em vez de diminuir o endividamento ele vai acabar por aumentar o endividamento ou manter do jeito que está. Então são propostas que mostraram que tem um certo desconhecimento. Mas o próprio Augusto Cury também, ao longo dessa campanha, Natuza, chamou atenção por dizer que ele quer ser um presidente, mas que ele quer ter um primeiro-ministro. Então ele tem sinalizado que ele quer ser mais um líder do país do que efetivamente o que o nosso sistema prevê, que é alguém que vai colocar em prática, que vai tocar a máquina.
Eu mencionava esse crescimento que muita gente considera impressionante, né, nas redes sociais do Augusto Cury, e eu queria muito falar contigo sobre um levantamento do Instituto Democracia em Xeque que aponta que o número de menções a Augusto Cury disparou nas redes sociais, um crescimento de 1000% entre os dias 21 e 27 de agosto. No Instagram, por exemplo, o número de seguidores dele também cresceu bastante. Então, diante disso, eu quero te perguntar: há uma estratégia clara no comportamento digital dele?
A gente consegue traçar o início desse movimento digital? Quando é que ele começa? Ele que já tinha muito seguidor, quando é que ele começa a crescer? Eu te pergunto isso porque são infindáveis as mensagens de seguidores que postam emojis parecidos junto com o número do candidato. Há um movimento de manada muito singular, né?
É muito simbólico. Tem um perfil muito característico das postagens e desse engajamento do suposto eleitor de Augusto Cury. É um crescimento fora do comum, e inclusive ele mesmo chega a postar que ele foi o perfil que mais cresceu em todo o Instagram no mundo naquela semana, que foi a semana entre os dias 20 dia 24, 25 até o dia 28, né? Esse crescimento, ele se dá e chama atenção das outras campanhas porque ele é um pouco atípico, mas ele não é inédito.
É importante deixar claro, Romeu Zema teve um outro boom de crescimento muito grande também no início dessa campanha e depois estabilizou. Renan Santos é o candidato à presidência que ganhou a maior quantidade de seguidores percentualmente desde que a campanha começou, porque ele tinha uma base muito baixa. Então é um movimento que chama atenção, mas ele não é atípico, há outros casos semelhantes. Que que tá chamando muita atenção nesse caso?
Bom, esse crescimento ele ocorre depois que Augusto Cury participa de uma live com Pablo Marçal, depois que o Tribunal Superior Eleitoral considera a candidatura de Marçal indeferida porque ele tá inelegível. Então Marçal convida Augusto Cury para uma conversa, e depois dessa conversa ele começa a ter esse crescimento crescimento bastante acelerado.
Coloca aí o nome do Cury. O Cury para mim significa cura. Augusto Cury, a bandeira do Brasil. Porque não é só um candidato que a gente, a gente tá a fim é de ver um brasileiro que não deve nada para ninguém governando esse país. Não tem vaidade minha, não tem vaidade do Cury, não tem vaidade de muitos aí. A gente só quer tirar o PT desse negócio.
E aí algumas campanhas rivais começam a monitorar de onde esses apoios são de perfis de influenciadores médios, mais ou menos entre 30 mil e 50 mil seguidores. Esses influenciadores muitas vezes tratam de temas alheios à política. Então alguns desses perfis eu mesmo abri depois que uma das campanhas me encaminhou, e são perfis de influenciadores de educação física, de vida fitness, que falam sobre supino, outros exercícios de academia.
E que de repente começa a falar, ah não, olha, eu vou votar em Augusto Cury, esse é o voto em Augusto Cury e tal. Então isso chama muita atenção das campanhas, que percebem que esse crescimento pode ser atípico. Além disso, há uma outra suspeita, porque o então marqueteiro de Augusto Cury deixa a campanha por falta de recursos. Então, ao abandonar a campanha por falta de recursos e todo tipo de impulsionamento ou de engajamento virtual ou de contratação de robôs, ele necessita também de algum tipo de financiamento.
Então isso chama bastante atenção. De onde estaria, se não for orgânico, de onde estaria saindo o dinheiro para isso?
Eu respondo que eles investiguem, investiguem completamente. Eu disse que nós investimos em torno de R$50 mil. Não tem história de robô. Na verdade são milhares, milhões de pessoas que acreditam na pacificação, estão cansadas com essa polarização insana. O que aconteceu foi uma revolução totalmente silenciosa a partir do primeiro debate. Então não tem robô, tem o quê? Tem milhões de pessoas que estão entendendo que o Brasil tem que ser pacificado.
Inclusive muitos influenciadores de outros segmentos, como mundo fitness, por exemplo, começaram a declarar de forma aleatória apoio ao senhor. Tem alguma compra de influenciadores logo do Não tem, não tem compra nenhuma.
O que tem é amor pelo Brasil.
Por um lado, você tem o engajamento, o nome dele sendo citado segundo o levantamento do Instituto Democracia em Xeque, sem nenhum tipo de estímulo artificial no X, mas com muitas mensagens no Instagram que são, tem um padrão repetido, o que costuma ser associado ao uso de robôs e outros instrumentos artificiais de impulsionamento e engajamento. Então caberá aí à própria Justiça Eleitoral, a partir da provocação das campanhas, entender se houve algum tipo de uso irregular ou não desse tipo de recurso.
Esse ano, a regra do TSE, ela veda o uso de ferramentas digitais que não sejam disponibilizadas pelo próprio provedor para alterar a repercussão da propaganda eleitoral. Então essa resolução também passou a proibir perfis automatizados ou robôs. É nesse sentido que as campanhas adversárias estão olhando pra tentar encontrar algum tipo de prova nesse sentido e acionar o Tribunal Superior Eleitoral. O PT, por exemplo, pediu um relatório pro seu setor de inteligência pra tentar identificar de onde vem esse crescimento de Augusto Cury, se tem alguma irregularidade.
E o Missão também tem feito isso. Então tem pelo menos dois partidos correndo nessa bola.
E tem uma campanha bastante preocupada com esse crescimento, né, das redes do digital. Para o mundo real, que é a campanha de Flávio Bolsonaro, porque pesquisas já começam a mostrar uma migração, e aí em maior proporção, de votos de Flávio, de intenção de voto de Flávio para Augusto Cury. Pedro, te agradeço demais por ter topado conversar aqui com a gente no assunto. Bom trabalho para você.
Obrigado, ótimo dia, tchau tchau.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Beto Vazquez. Beto, o Instituto Democracia em Xeque vem acompanhando nos últimos dias o crescimento de Augusto Cury nas redes sociais. O que que vocês detectaram? A partir de quando essa movimentação passou a chamar atenção de vocês?
A gente percebeu um movimento que começa na segunda-feira da semana passada, pós-debate. A gente poderia dividir, digamos, em 3 momentos. Um primeiro momento é a repercussão após o debate do domingo à noite da Band. O Augusto Cury teve uma performance vista como bastante positiva por contraste. O Renan Santos corria para um lado, se dobrava, pegava no púlpito, colava cartaz, e isso retém a atenção das pessoas. Por um lado, nesse mundo da economia da atenção, tem um resultado positivo, mas obviamente para escolher um candidato a presidente assusta parte do eleitorado.
Ele inclusive chamou metade do eleitorado brasileiro, quase, que são os eleitores do presidente Lula, de canalhas. Então ele tava fazendo uma campanha de nicho. O Caiado, por outro lado, tava numa campanha, numa certa egotrip, né, numa autoestima muito que a garantia sou eu. Então vota em mim que eu faço, etc. A gente até observou esse comportamento se repetir, ampliar, no caso do Caiado, nas sabatinas. O Renan, pelo contrário, foi mais moderado na sabatina.
Mas no debate, diante dessa performance de Renan em caiado, o Augusto Cury pareceu o adulto na sala, com um tom mais presidenciável, mais sereno. Com ele aconteceu o contrário, né? Nessa batina, ele terminou saindo um pouco como uma figura excêntrica, que falou de drone com sirene para acabar com feminicídio, falou de contratar influenciadores para o Itamaraty.
Nós precisamos repaginar as embaixadas brasileiras e influenciadores digitais Isso pode ser importante. Agora, não estou dizendo em aumentar custos. Nós, em destaque, deveríamos treinar os embaixadores e também os colaboradores para serem influenciadores, para vender melhor o Brasil lá fora, porque o Brasil não é vendido bem lá fora. Agora, a diplomacia profissional brasileira tem desafios tremendos pela frente. Estados Unidos e China disputando cada vez mais espaço no mundo, pressão sobre países como o Brasil cada vez mais.
Então eu pergunto ao senhor o seguinte: como é que o Brasil deve se posicionar estrategicamente nessa relação com esses dois países, Estados Unidos e China? Uma relação pacífica. Isso é uma tarefa de influenciador ou de diplomata profissional? Não, de diplomata profissional. Estou falando uma coisa, você vender. Hoje o mundo é digital, você sabe disso, a rede, vocês usam o digital para vender também, a Rede Globo. Nós temos que usar o digital para vender o país de maneira adequada.
Agora, nas tarefas mais importantes para pacificação, tem que ser diplomatas do mais alto nível.
Mas nesse momento, no debate, ele pareceu maduro, adulto, em comparação com Caiado e com Renan. Então gerou um primeiro interesse. Acho que essa foi a primeira variável. Nos dias seguintes, o discurso que ele articulou, então, primeiro na forma presidenciável, durante o debate da Band do domingo, Depois, o conteúdo do que ele fez no debate, de dizer: eu não sou nem lulista, nem bolsonarista, nem de esquerda, nem de direita, temos que buscar não uma terceira via, uma via única que aproxime os brasileiros.
Esse discurso falou para um eleitor de centro que tava muito carente de alternativa. E esse eleitor viu no Augusto Cury: opa, talvez aqui exista uma alternativa que eu tava buscando. Porque a gente tinha visto como os candidatos da direita tem muito receio em criticar o Flávio Bolsonaro para não perder o eleitor bolsonarista e acabam virando cópias genéricas do original. Então Augusto Cury se colocou naquele espaço nem Lula nem Bolsonaro.
Essa foi uma segunda, segundo momento que a gente percebe. E uma terceira variável que a gente conseguiu identificar também é que durante a semana ele foi ganhando tração depois de um conjunto de manifestações. Primeiro do coach Pablo Marçal, elogiando ele, uma no dia 18, depois uma no dia 23, reproduzindo isso nas redes, colocando ele como um nome possível. Ou seja, talvez aí também fruto, se os dois primeiros, digamos, elementos, a boa performance no debate e o discurso moderado, trouxeram um eleitor autêntico, genuíno, que despertou uma curiosidade, falou, deixa eu ver quem é o Augusto Cury.
O Marçal, digamos que deu um empurrãozinho, sobretudo utilizando-se grande parte de um ecossistema de influenciadores de tamanho médio, a gente chama de mesoinfluenciadores, que começaram a acompanhar e a seguir o Augusto Cury. O que deixa uma dúvida: até que ponto esse movimento foi realmente orgânico e até que ponto esse movimento foi artificial? Porque movimentou um ecossistema na Tusa que a gente chama Turma do Sofá, que é um ecossistema de influenciadores que falam de coaching, falam de entretenimento, de fofoca, de bem-estar.
São aqueles influenciadores que muitas vezes são ativados em períodos quando a gente tem o Big Brother, por exemplo, mas que na política eles não são costumeiros. Então é um fenômeno novo que gera essa dúvida até que ponto esse movimento não teria por detrás algum tipo de alavancamento artificial, o que inclusive no limite poderia incorrer em algum tipo de falta junto à Justiça Eleitoral.
É, ele inclusive diz isso, né? Olha, se quiserem investigar, que investiguem, porque o que tá acontecendo é absolutamente natural. Agora, Beto, depois da entrevista dele, vocês têm informação do que aconteceu? Porque a avaliação geral que eu vi, uma média aqui das avaliações, é de que ele não foi bem na entrevista, tanto que ele teve que consertar alguns pontos que ele deu na entrevista gravando vídeos, por exemplo, drone para combater feminicídio, os embaixadores influenciadores também foram muito questionados, o desconhecimento de temas básicos, né, para um candidato a presidente da República, como orçamento público e por aí vai. Vocês detectaram alguma coisa depois da entrevista de sábado ao da TV Globo?
Sim, sem dúvida, Natuza. Tem dois indicadores interessantes. Um primeiro, o número de seguidores. Ele teve um crescimento absolutamente inusual durante a semana, especificamente na rede Instagram. Então ele cresceu 300 mil na quarta-feira, 314 mil, 680 mil seguidores ele ganha na quinta, e na sexta-feira ele ganha mais de 1 milhão e 200 mil seguidores. Ao longo de uma semana ele ganhou 2 milhões e meio de seguidores, uma coisa absolutamente inaudita.
Então esse crescimento vertiginoso, justo no sábado quando ele vai à sabatina, começa a refrear. No domingo e hoje, por exemplo, a gente já vê no geral do dia uma diminuição, ainda que residual. Ele perdeu entre 10 e 15 mil seguidores em cada um desses dias. Então a gente poderia dizer que assim o hype de crescimento de seguidores estancou depois da performance dele, bastante, como você comentou, questionável. Esse foi um primeiro, digamos, indicador: número de seguidores.
Um segundo é o engajamento. Ele teve uma performance muito positiva no Instagram, mas quando a gente olha os estudos do Instituto Democracia em Xeque, a gente observa, junto ao que a gente chama dos cabeças de rede, a gente tem um data lake com 20 mil Um banco de dados com 20 mil contas de jornalistas, influenciadores, políticos, candidatos, figuras que estão participando ativamente no debate público digital, sobretudo orientado a temas de política.
Nesse universo de 20 mil contas, das contas mais engajadas no tema político, a gente vê que no Twitter ele foi um fenômeno negativo, ou seja, ele virou motivo de piada, de sorna. Inclusive, a gente pegou um indicador muito interessante na Tusa. A gente disse que o Cury fez o que ninguém conseguiu, que é juntar a extrema-direita e a esquerda no Twitter para fazer uma campanha em comum, que era para fazer ironia e piada com a performance dele no Jornal Nacional.
E isso pode ser estimulado também? Pode ser um movimento não orgânico, essas críticas, essa reação a Augusto Cury?
Não, esse movimento é um movimento realmente orgânico. Obviamente, se você analisar o comportamento dos seguidores do Renan Santos, a gente sim aí vê um certo comportamento coordenado, mas orgânico, porque eles funcionam um pouco em lógica de matilha, né? Eles baixam linha e todos seguem, mas são contas, em sua imensa maioria, de contas de usuários reais. Então houve um momento que realmente a performância pitoresca do Augusto Cury gerou motivo de piada.
Agora, a gente sempre diz, né, falem bem, falem mal, falem de mim. Num certo sentido, ainda que de uma forma pejorativa, com isso o Cury continuou nos trends, ele continuou sendo motivo de debate, ainda que de uma forma negativa. Para quem vinha de uma semana com tantos resultados positivos, isso não deixou de ser uma forma para ele não desaparecer do debate. Com a performance dele na pesquisa da BTG e da Atlas Intel, nas pesquisas, numa ele aparece com 2 dígitos já, né, com 11% dos votos na BTG e com o crescimento e se colocando também em terceiro lugar na pesquisa da Atlas Intel.
Com esse resultado, ele acaba conseguindo manter como um tema de busca, com um aumento da curiosidade da cidadania. Então é um processo muito curioso porque vem de um movimento orgânico que parece que em um dado momento foi inflado artificialmente, que quando diminui o número de seguidores se mantém no engajamento de uma forma negativa com a turma fazendo piada dele, mas se mantém. E agora com as pesquisas ele novamente volta a ser tema de debate.
Então, de fato, a gente termina com uma jornada de 10 dias onde Augusto Cury continua sendo o principal debate nas redes.
Beto, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho para você.
Obrigado, Natuza, um prazer. Até a próxima.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Este episódio, os áudios do jornal Folha de São Paulo. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui até o próximo assunto.