ESPECIAL ELEIÇÕES: o que fazer para resolver o problema da violência?
Alessandro Visacro
Bruno Langeani
Bruno Paes Manso
Isabela Leite
Luciana Rocha
Renato Sérgio de Lima
Roberto Uchôa
- Propostas dos candidatos para combater roubo e furto de celularesCelular Seguro·Lula·Flávio Bolsonaro·endurecimento de pena·prevenção de crimes
- Estratégias para sufocar o crime organizado e as facções criminosasPCC·Comando Vermelho·asfixia financeira·Ministério da Segurança Pública·PEC da Segurança·Lula·Ronaldo Caiado·Renan Santos
- Propostas para combater o feminicídio e a violência de gêneroLei Maria da Penha·prevenção da violência·Lula·Flávio Bolsonaro·Ronaldo Caiado·Renan Santos·castração química
- Controle e fiscalização das fronteiras para combater o tráficotráfico de drogas·tráfico de armas·Flávio Bolsonaro·Ronaldo Caiado·Lula·PAC
- Combate aos golpes digitais e estelionatos eletrônicoscibersegurança·Lula·Ronaldo Caiado·Romeu Zema·inteligência artificial
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Um terço dos eleitores brasileiros compartilha o mesmo sentimento: a maior preocupação deles é com a segurança pública. Outros aspectos importantes, como economia, saúde e corrupção, não marcam nem metade desse índice. E os dados justificam essa preocupação. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o número de mortes violentas até vem caindo, mas não é o suficiente. Em 2025, mais de 40 mil brasileiras e brasileiros foram assassinados, e os casos de feminicídios sobem ano após ano.
Em relação aos crimes patrimoniais, foram mais de 2 milhões de registros de estelionato e mais de 800 mil celulares roubados ou assaltados em apenas um ano. Tudo isso em um país onde quase 70 milhões de brasileiras e brasileiros afirmam viver em bairros com a presença de facções criminosas. Neste episódio, vamos explicar as ideias e as propostas dos candidatos à presidência da República para resolver, ou pelo menos mitigar, o problema da violência no Brasil.
Este é o segundo episódio de uma série sobre alguns dos temas mais relevantes debatidos nesta eleição. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: Um Brasil para 2027, como resolver o problema da violência no país? Neste episódio, eu converso com Isabela Leite, repórter da GloboNews. Vocês também vão ouvir comentários de especialistas que conversaram com o nosso produtor Marco Antônio Martins. São eles: Alessandro Visacro, Bruno Langiane, Bruno Paes Manso, Luciana Rocha, Renato Sérgio de Lima, Roberto Shoa.
Segunda-feira, 31 de agosto. Isa, a gente olha para as pesquisas eleitorais e elas mostram a segurança pública como uma das grandes preocupações das brasileiras e dos brasileiros nesta corrida eleitoral. Vou apontar aqui um dado que é muito impressionante. Segundo o anuário de 2025, que saiu agora há pouco, que foi produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 95 celulares são roubados ou furtados a cada hora aqui no Brasil.
Em linhas gerais, quais são as propostas dos candidatos para enfrentar esse tipo de problema e o que dizem os especialistas?
Eu cubro segurança pública há um tempo e é interessante ver como que entrou no debate político mergulhando mesmo profundamente, né? Isso tem uma explicação. Como você disse, roubo e furto de celular é recorrente na vida do brasileiro. Isso tá refletindo justamente nesse medo da violência. As pessoas estão mudando a sua rotina, estão deixando de sair com o celular de casa. E isso tem refletido não só na questão da segurança pública, não só nessa sensação de insegurança que tá posta em pesquisas, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública fez um termômetro dessa sensação de violência e dessa insegurança do brasileiro, e eles conseguiram descobrir que a violência alterou a rotina de 57% dos brasileiros.
Então, só para a gente trazer um panorama, e seria muito difícil a gente não ver isso refletido nas campanhas. Então, em relação à violência urbana e também ao roubo e furto de celulares, o que a gente percebe nas campanhas de uma forma geral é que isso tá colocado. Todos os candidatos estão trazendo alguma proposta ou alguma continuidade. Agora, o que os especialistas colocam é que normalmente o que aparece nessa questão dos celulares é uma mitigação depois que o crime acontece.
Mas o entendimento dos especialistas, isso não resolve o problema. Isso mitiga um prejuízo que uma pessoa possa ter ali com seu celular roubado, os dados também desviados, mas você não consegue pensar para trás do problema. Eu fui conversar com algumas pessoas que trabalham de fato na investigação e na prevenção não só do roubo e furto de celular, mas também da violência como um todo, porque isso desencadeia outros crimes. Esse crime, ele abre porta para outros crimes.
E aí o que eu ouvi é que eles não conseguiram ver nesses programas uma proposta de fato de solução, porque você precisa reunir muita gente nesse combate e não só olhar para isso como algo ali que você vai prender quem roubou, mas você conseguir se antecipar a isso e conseguir romper essa cadeia. Vou trazer Vou dar um exemplo aqui na Tusa que a gente percebe muito em São Paulo. São Paulo é muito recorrente roubo e furto de celular, e o que a gente vê são essas medidas de prisão, de apreensão dos celulares.
Mas o que tá colocado é que a gente precisa rever a forma como a gente tá combatendo esse crime, entendendo isso como uma cadeia. Então, quem está roubando propriamente dito, para quem esse celular tá sendo entregue, e quem tá financiando todo esse esquema. E aí tem uma outra visão também que não tá colocado nos planos de governo dos presidenciáveis, que em relação a essa articulação com outros envolvidos, por exemplo, o Judiciário.
Então, como que isso vai ser discutido para a gente poder ter um entendimento diferente em relação às investigações, às inteligências, para de fato conseguir chegar nessas pessoas? A gente tem em São Paulo um lugar que no centro, vários pontos ali que eles chamam de ninho de celulares. São prédios para onde esses celulares são levados. Vários aplicativos de rastreamento indicam que os celulares estão ali, mas há uma dificuldade para conseguir entrar nesses imóveis, porque normalmente são imóveis residenciais, né, são prédios com muitos apartamentos.
Os criminosos se aproveitam disso porque é muito difícil entrar. E aí Esses celulares depois eles são levados para outro lugar e você não consegue chegar de fato no receptador. Então você poder ter uma articulação melhor e um entendimento diferente do Judiciário para onde, né, que a polícia vai poder entrar, de que forma vai poder entrar, nada ilegal, mas também entender que a gente vai precisar repensar essa demanda e também chegar em quem tá financiando o crime e não só quem de fato ali tá praticando esse roubo.
Eu quero voltar nesse aspecto da prevenção. Eu moro num lugar onde tem uma grande incidência de furto de celular. Eu tomo todos os cuidados quando eu saio de casa, não saio com celular na mão, mas tem muita gente que anda com celular pela via, pela avenida principal ali onde eu moro. Onde eu moro, a 200 metros, tem um posto da Polícia Militar. A coisa é tão absurda que a gente conhece a cara de quem furta o celular. Foi feita a denúncia para a polícia, mas esse mesmo ladrão, ele volta para lá toda semana, ele está lá e nada acontece. Então, como é que se resolve uma questão dessa, uma situação dessa?
É, isso envolve primeiramente, Natuza, troca de informações, né? Você trouxe essa figura dessa base da Polícia Militar, e há pouco tempo atrás as pessoas entendiam que a questão de segurança pública era exclusiva dos estados. A questão da inteligência, né, de monitoramento de crime, prevenção de crime, é posto não só para questão do roubo e furto de celular. E isso é uma crítica geral, seja de quem estuda a questão criminal, seja de quem de fato trabalha ali na investigação.
Então vamos trazer esse exemplo que você citou. Na sua região, todo mundo conhece quem de fato está praticando esse crime, tem uma base da Polícia Militar, mas esse policial, para ele poder abordar, tem que ter alguma suspeita, algum flagrante ali para que ele possa fazer isso. Agora, isso em relação à Polícia Militar, mas a Polícia Civil ela pode ter mais recursos e ela pode entender a dinâmica do que tá acontecendo ali naquela região, porque se tem alguém roubando, as pessoas estão registrando essas ocorrências e estão lançando em alguma base de dados, seja na base de dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública de São Paulo, seja ali na base de dados nacional, porque o seu celular foi roubado e você precisa bloquear o email.
O que tá acontecendo, e que é um alerta, por isso que eu falei da questão da prevenção, é que essas informações elas não estão sendo compartilhadas. E aí, quando você não tem uma visão do todo, você não consegue entender onde que você vai atacar. Uma coisa que eu ouvi também conversando com o investigador é que ele apontou a necessidade da gente ter um marco regulatório para conseguir fazer a rastreabilidade desde o início do registro desse celular.
Agora, investigação da indústria do crime, isso não existe praticamente.
Você escuta Bruno Paes Manso, professor, escritor e pesquisador em segurança pública.
Então, essa mudança cultural para investigação e para Polícia Civil e para criação de bancos de dados comuns para permitir que as investigações sejam compartilhadas, consiga identificar para onde vai o celular que é roubado, e tem fazendas de golpes aqui no Brasil, se não tem, se vai para China. Se vai para outros mercados, o que acontece? Como a gente não sabe isso ainda, é o pontapé inicial de qualquer tipo de investigação para você fragilizar essas indústrias, né?
E não é ficar prendendo um monte de gente na rua pouco importante para superlotar as cadeias. As pessoas se sentem muito inseguras, têm muito medo mesmo nas cidades, né? E elas são muito carentes de uma solução de curto prazo, né? Porque a vida, quando ela fica imprevisível, né, quando você corre o risco de ser assaltado e levarem seu celular e acabarem com a sua vida porque seu banco tá no celular, tá tudo, é muito compreensível essa ideia de que a violência ela tem um papel redentor, né, que ela ensina o que acontece com quem não obedece a lei, que ela extermina, elimina o ladrão do convívio pelo assassinato, pela prisão.
Como se isso fosse resolver. Então isso dialoga muito com senso comum, porque parece que é uma solução.
Então, em linhas gerais, todos os candidatos que falam, que abordam esse problema, eles vão ou na linha de aumentar a pena para quem roubar ou furtar um celular, ou de criar um mecanismo para que a pessoa que foi roubada ou furtada consiga apagar aquele celular. É isso? Outros candidatos têm proposta semelhante a essa?
A proposta do presidente Lula é ampliar um programa que já existe, que é aquele programa Celular Seguro, que você entra no sistema, na base de dados do governo federal, quando você tem um celular roubado ou furtado e coloca ali que você teve o celular e cadastra o email, porque a partir disso se esse celular for ligado novamente, enfim, eles conseguem detectar que aquele aparelho ele tá sendo usado. Mas a gente já sabe, Natuza, que tem tecnologia para você conseguir até desabilitar esse MEI.
Então o problema é muito mais embaixo. O presidente Lula, ele também, ele quer aumentar esse programa e criar uma base nacional de celulares com restrição para que a população e também as autoridades consigam fazer essa checagem e também trabalhar com esse lado da receptação. Agora, em linhas gerais, os outros candidatos trabalham muito com essa questão do endurecimento de pena, uma questão mais punitivista. Flávio Bolsonaro propõe também a instalação de centenas de milhares de câmeras pra também conseguir identificar pessoas que já são suspeitas da prática desse crime.
Mas o que a gente não consegue ver numa proposta de uma forma mais consolidada é esse caminho inverso. Que você consiga, a partir do crime, verificar quais são essas camadas, quem tá financiando, quem tá receptando, para onde esse celular tá indo, para que você evite que o crime continue acontecendo sem que— porque uma pessoa que vai ser presa com celular, ela vai ser facilmente substituída pelo crime. Agora, se você consegue pegar a cadeia inteira, você consegue aos poucos mitigando esse crime que tem crescido muito aqui no Brasil.
Essa me parece ser a lógica de todo tipo de crime, né? Se você atua em quem financia na estrutura maior, você consegue desmobilizar. Essa me parece ser uma receita também martelada em relação ao combate ao crime organizado, uma das chagas brasileiras, a gente sabe. Os Estados Unidos acabaram de classificar as duas maiores facções criminosas aqui no Brasil, PCC e Comando Vermelho, como narcoterroristas. E aí, a partir disso, desse contexto, eu quero te fazer duas perguntas.
Basicamente, o que que tá se propondo para sufocar o crime organizado? E o que os analistas dizem que é o caminho ideal para asfixiar essas organizações criminosas?
Natuza, começando com essa avaliação da classificação, né, com exceção do Lula, todas as outras campanhas concordam com essa classificação, né, com o entendimento de que o PCC e o Comando Vermelho tem essa característica terrorista. Agora, o que é unânime em todas as propostas que a gente leu e que a gente estudou é que para o combate ao crime organizado você precisa fazer asfixia financeira. A questão da asfixia financeira é o follow the money.
Se você não consegue chegar em quem tá ganhando dinheiro e quem tá financiando essa estrutura criminosa, o entendimento, isso já tá posto, seja dos candidatos, seja dos especialistas, que você não vai conseguir vencer isso. Agora, tem uma outra visão que é importante a gente trazer, que é como que a gente vai conseguir coordenar tudo isso, porque o Lula e o Caiado, eles defendem, aí propõem a recriação do Ministério da Segurança Pública. O Lula condiciona isso à aprovação da PEC da Segurança.
O que o governo tá pedindo mesmo, o presidente Lula pediu para Alcolumbre, é aprovar a PEC da Segurança Pública, porque ele quer apresentar como proposta dele aprovada na sua campanha eleitoral, já com a criação do Ministério da Segurança Pública.
A PEC foi apresentada pelo Poder Executivo em abril do ano ano passado como principal proposta estrutural para a área, mas sofreu resistência de governadores, críticas da oposição e polêmica entre os policiais.
O Caiado coloca isso como uma alternativa para você conseguir concentrar as ações num órgão específico. E o que os especialistas defendem muito é que a gente precisa de fato de uma integração das decisões. Hoje não tem como você pensar o combate ao crime organizado do tamanho que está e com grau de sofisticação que está hoje aqui no Brasil sem você ter alguém que coordene todas as forças de segurança. Porque a gente tem Polícia Civil de cada estado investigando com as suas devidas informações, a Polícia Militar nesse trabalho, né, mais ostensivo, e também outras forças de segurança: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal.
Então o entendimento é que o crime está organizado, mas a gente não tá conseguindo organizar isso de uma forma para que as informações sejam de fato compartilhadas.
Você vai para combate das facções, você tem, por exemplo, que fazer— se a gente quer enfrentar, por exemplo, o poder do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, eu preciso enfrentar o poder que ele tem de fazer as drogas entrarem pelo Alto Solimões, no Amazonas.
Você escuta Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Como é que eu articulo a atuação no Alto Solimões no Amazonas, com o Rio de Janeiro, com o governo federal, mas também entre os dois estados, para poder melhorar a investigação e a repressão, enfrentamento. Da forma como a gente trabalha hoje, o governo federal tem muito pouca atuação nessa coordenação. É importante que o governo federal assuma esse protagonismo e tente coordenar minimamente o debate nas brechas Quando cada um pensa no seu pedacinho, o que tá acontecendo?
O crime se apropria, explora, começa a operar abaixo da linha do radar, e quando a gente vê, ele já dominou o território, já dominou a economia, já controla modos de vida em todo o país.
Falei da questão da asfixia financeira, e aí cada um traz uma outra forma também de combate, seja de isolamento de lideranças. Flávio Bolsonaro traz uma proposta da criação de 5 novos presídios de segurança máxima, chamada de treva. E aí, com medidas ainda mais rigorosas do que a gente tem hoje no sistema federal e também outros presídios de segurança máxima. O presidente Lula defende então essa questão do Ministério da Segurança Pública, mais condicionado também à aprovação da PEC da Segurança.
Ronaldo Caiado tem trazido muito da sua experiência, né, e do que realizou no governo como governador de Goiás para implementar de uma forma mais nacionalizada. Então usa muito isso em relação à segurança pública, mas defende que haja uma autonomia de atuação das forças de segurança estaduais. E aí, trazendo a questão do Renan Santos, ele já tem uma visão muito mais dura, muito mais rigorosa nesse combate, até trazendo referências do que foi implementado em El Salvador, também entendendo que membros de organizações criminosas têm que ter um julgamento diferenciado, sem a presunção da inocência.
Então uma tolerância zero em relação a esse sentido. E também é a questão da retomada da presença de forças armadas e GLO em áreas de domínios de território.
Nós estamos falando aí de 55 5,5 milhões de brasileiros que vivem sob, ou que alegam viver, ou tem a percepção que vivem sob a influência direta ou algum grau de influência de grupos armados criminais.
Você escuta Alessandro Visacro, analista de segurança pública e escritor.
Então, esse primeiro ponto, esse primeiro desafio é a disputa e a retomada dos territórios. O segundo ponto é identificar e atacar a penetração do crime organizado na economia lícita, ou seja, no mercado formal. E aí a gente tem mais um outro problema, porque as principais autoridades públicas, os principais especialistas no assunto, eles dizem até com muita honestidade que hoje sequer nós podemos dizer o grau de penetração do crime organizado na economia lícita.
Mais uma vez, eu não tô falando dos diamantes de sangue lá de Serra Leoa, A gente tá falando da 11ª economia do mundo. E aí a gente tem que atentar para algumas pesquisas que são muito preocupantes, algumas que apontam justamente para 26% do território brasileiro sob controle de facção. A pesquisa apontou que o México tem 9%. Jogando nas populações, significa que 11,1 milhões de mexicanos vivem sob a influência direta do crime.
No Brasil são 55,5 milhões. Você não tem uma operação de combate no México que resultou em 120 mortos. Você não tem em Gaza, você não tem no sul do Líbano. Eu não estou querendo securitizar o tema, militarizar o tema, mas a gente precisa entender o nível de degradação que a gente atingiu. É algo que é alarmante, é lamentável.
E levar para presídios sem a devida estrutura correta de isolamento, de inteligência dentro dos presídios, Pode ser um problema, porque se a gente trouxer onde o PCC e o Comando Vermelho nasceram, foram grupos de presos que se formaram ali, na verdade, primeiro para melhores condições dentro dos presídios e que depois se tornaram em organizações criminosas que todo mundo conhece hoje.
Eu acho que a gente precisa entender e respeitar esse anseio da população.
Você escuta Roberto Showa, ex-policial federal, pesquisador da Universidade de Coimbra e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A gente não pode desconsiderar isso, mas ao mesmo tempo a gente precisa explicar que determinadas soluções podem na verdade contratar problemas futuros. E aí eu falo, por exemplo, sobre o encarceramento. Sim, é possível que a gente tenha o endurecimento de penas para crimes mais graves, crimes violentos, mas é preciso a gente entender que hoje a gente sequer tem conseguido esclarecer homicídios, que em tese seriam os crimes mais graves por retirar a vida de uma pessoa.
Então não é só colocar dentro da prisão. A gente precisa entender que na década de 90 nós tínhamos 90 mil presos. Hoje nós estamos perto de 900 mil e a sensação de segurança ela não melhorou. As organizações criminosas elas se expandiram dentro do próprio sistema penitenciário. Então não é uma questão de somente colocarmos as pessoas dentro dos presídios.
Então anunciar a criação de mais presídios e essa punição mais rigorosa não é apontada como essa bala de prata para a questão da segurança pública em relação ao crime organizado no Brasil. E também cooperação internacional na Tusa. A gente tem um levantamento do Ministério Público de São Paulo que o PCC já tá presente em 28 países. Então não é uma questão apenas aqui nacional, né, do nosso território. Temos muitos problemas, mas essas organizações criminosas estão ganhando dinheiro com tráfico internacional de drogas, com tráfico internacional de armas. E também outros crimes.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Isabela Leite.
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Em relação à fronteira, né, por onde a droga transita e o tráfico impera em muitas das áreas de fronteira, a gente tem uma fronteira imensa. Os candidatos estão propondo algo em particular para isso?
Sim, todos eles, Natuza. É importante a gente falar de fronteira no Brasil porque não é um combate fácil e nenhum controle, uma fiscalização simples, né? O Brasil tem uma fronteira com diversos países, inclusive países que são produtores de cocaína. Então essa é uma questão muito sensível. Trago aqui alguns exemplos. Flávio Bolsonaro disse que pretende criar um Sistema Nacional de Fronteira com uma tropa de elite militar integrada, aí já com forças de segurança existentes, Exército, Marinha e FAB, mais equipados com equipamentos que podem bloquear entrada de armas, drogas.
Ronaldo Caiado também fala muito dessa questão do investimento tecnológico para a gente conseguir, com ajuda de tecnologia de ponta, radares, aeronaves remotamente pilotadas, né, aqueles VANTs que você não precisa necessariamente estar no local, mas você consegue fazer isso remotamente. E o presidente Lula, né, que já tem ali uma estrutura, pensa numa estrutura do novo PAC, com investimentos também não só na questão de fronteira, mas também de uma forma geral em relação à defesa nacional.
Natuza, eu no último ano eu fiz algumas reportagens em 3 pontos de fronteira aqui do Brasil. A gente foi para a fronteira com o Paraguai, também ali com a Bolívia e também na região amazônica. E o que ficou muito claro é que isso os especialistas também são muito categóricos, que nessas condições você não vai ter efetivo pra conseguir estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Então, a integração e a cooperação entre forças de segurança, ela é essencial.
E eu vi muita coisa funcionando. Então, você vê Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Receita Federal trocando informações. Acompanhei várias operações ali na região norte em que havia uma troca de informações. Então, eles conseguiam, de fato, evitar que um carregamento chegasse até Manaus ou até outros portos ali do Pará, ou descessem aqui para região Sudeste. Falando da questão do tráfico internacional de drogas, o Brasil não é produtor de cocaína, mas o Brasil é um hub importantíssimo para os criminosos, porque essa cocaína vem do Peru, da Colômbia e ali da Bolívia, entra aqui no Brasil e depois é escoado basicamente pelo Porto de Santos ou por outros em depósitos espalhados pela costa brasileira, mas basicamente aqui pelo Porto de Santos.
E depois isso escoa para Europa, para África. Então, se a gente consegue fazer um bloqueio mais efetivo nas fronteiras, você impede que a droga entre, que isso capitalize as organizações criminosas e que isso retroalimente a prática de outros crimes.
Mas aí tem um problema, né, Isa? Essa informação vaza. A investigação do caso Marielle, por exemplo, é um fato clássico. A polícia queria que o crime fosse federalizado, a investigação do crime fosse federalizada para que a Polícia Federal não precisasse compartilhar informação, porque parte da situação no Rio se cruzava com uma contaminação de parte da polícia. Então esse me parece um grande problema real que trava o compartilhamento de informação, não É, sim, e é por isso que isso precisa estar muito institucionalizado.
O que é colocado é que isso precisa ser pensado de uma forma, até mesmo, quem vai concentrar essas informações? Quem vai ter acesso a essas informações? Vou trazer aqui um paralelo daquele Banco Nacional de Integrantes de Organizações Ultraviolentas. É uma base de dados em que as forças de segurança, isso ainda não está definido quem vai fazer isso, ou o próprio Ministério da Justiça, poderia incluir pessoas com condenação, com trânsito em julgado, que tem alguma conexão, algum vínculo com uma determinada organização criminosa.
E aí, qual que era a grande questão na Tusa? Como que ia ser abastecido esse banco? Quem iria abastecer e quem poderia ter acesso ao banco? Qual seria o grau de sigilo, né, o grau ali de restrição Seriam só forças de segurança que trabalham com inteligência? Seriam só pessoas do alto escalão de cada força de segurança? Agora, o entendimento de quem estuda e que acompanha isso é que a gente precisa achar um caminho, porque senão a gente não vai conseguir ser tão efetivo.
Eu acho que também iluminar e falar mais honestamente sobre como a gente tem na maioria das vezes, né, um cenário mais de competição entre as instituições do que de cooperação.
Você escuta Bruno Langiane, consultor sênior do Instituto Sou da Paz.
E a gente tem muitos exemplos sobre isso. Você cobra esse campo, você vê como Polícia Militar e Polícia Civil disputam o tempo todo e cooperam pouco. Uma resistência muitas vezes por conta de política partidária, de você ter um estado compartilhando informações com o governo federal, né? A gente vê, por exemplo, São Paulo tem um monte de informação que não manda para governo federal de coisas que seriam fundamentais para a gente ter informação de inteligência, de estatística, né?
E no próprio governo federal também brigas, né, e picuinhas. A gente tem instalado uma briga entre Polícia Federal e Receita Federal que é muito prejudicial para o combate ao crime organizado. Estão numa guerra institucional, vocês estão numa disputa declarada. Só quem ganha com isso é a criminalidade.
O feminicídio, a violência contra mulher, violência contra crianças também. É preciso repisar que o número de feminicídio bateu recorde pelo 4º ano seguido. 2025 foi um ano tenebroso e os casos que saem na imprensa, que nós relatamos, são cada vez mais impressionantemente assustadores. Eleitores. Como é que os candidatos estão abordando o combate à violência de gênero nos seus programas?
A questão do feminicídio, ele aparece porque também é o momento mais cruel, porque quando uma mulher ela é morta, a gente falhou em muitas etapas, né, de prevenção e de proteção para esse crime. Para a gente deixar aqui registrado, só no ano passado foram 1.571 feminicídios, um levantamento que então mapeado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quando a gente tem um feminicídio, numa proporção, a gente teve o registro de 502 ameaças para cada feminicídio.
Agressões físicas, 182 registros. Então tudo isso faz parte de uma cadeia. A gente tem uma das leis mais avançadas em relação à proteção à mulher, que é a Lei Maria da Penha. Agora, o que é o entendimento? É que a gente precisa ampliar a rede de prevenção. Não só de punição para os agressores, mas que a gente consiga evitar que essa mulher seja agredida.
E ela é eficaz para combater e erradicar essa forma de violência contra as mulheres, mas para isso nós precisamos realmente de uma atuação integrada.
Você escuta Luciana Rocha, juíza responsável pela Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.
Sem gestão integrada dos riscos, nós não vamos mudar esse cenário. A gente aumentou a pena do feminicídio em 2024. Em 2025, nós tivemos o ápice do crime de feminicídio. Não é só a segurança pública que vai resolver. A educação é um mecanismo de transformação substancial. Ensinar relações de respeito desde o ensino fundamental para crianças, meninas, crianças e adolescentes, né, para que se tenham seus direitos protegidos.
E entender que a violência doméstica e a violência contra a mulher, a violência de gênero, a violência contra crianças e adolescentes, ela não é só uma questão de segurança pública, ela é uma questão social, ela é uma questão de assistência social que precisa ser entendido como uma questão mais ampla. Alguns programas de governo são muito enfáticos nesse pacto contra o feminicídio, na necessidade de um endurecimento maior em relação à pena, não só em relação ao feminicida, mas também em outras questões que envolvem a violência contra a mulher e crianças, que é a violência sexual.
Em relação à questão propriamente dita de violência contra a mulher, a gente vê, por exemplo, o Renan Santos no plano de governo, ele não detalha políticas específicas para mulheres no documento. Em contrapartida, a gente vê outras propostas, por exemplo, do Lula, que tem como essa diretriz o Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio. Também o Flávio Bolsonaro traz uma questão em relação a conceder medidas protetivas de urgência imediatamente por meio da autoridade policial, sem precisar passar por uma decisão judicial.
A questão da tornozeleira eletrônica de agressores é colocada no plano de governo do presidente Lula, também do Flávio Bolsonaro. E o Caiado, por exemplo, fala dessa questão de fazer o monitoramento da medida protetiva integrada composta também com aqueles alertas do botão do pânico. Agora, em relação à violência sexual, também isso aparece nos planos de governo. Por exemplo, uma defesa de castração química por parte do Flávio Bolsonaro e também do Romeu Zema, e a questão de um endurecimento de pena.
O que a gente vê nas propostas? Muito uma punição. Em relação ao crime que já aconteceu. E o que os especialistas trazem de críticas e também de demandas para que a gente precisa ter mais como política pública aqui no Brasil é pensar na prevenção, para que a gente evite que essa mulher seja agredida, que ela seja ameaçada, que ela seja morta, que ela também sofra um estupro. Isso também em relação às crianças e os adolescentes.
E para finalizar, Isa, eu quero olhar para um outro tipo de crime que explodiu nos últimos anos, mas explodiu mesmo, que é o estelionato, os golpes digitais. Os dados são bastante alarmantes. Eu queria entender com você o que que tá sendo prometido nesses programas de governo. Porque o estelionato sempre existiu, mas ele foi impulsionado por fraudes eletrônicas. De 2018 para cá, as ocorrências desse tipo de crime cresceram mais de 400%, e não pegam apenas pessoas idosas com menos conhecimento com o telefone, tá pegando todo mundo agora, né?
Olhando em relação ao que aparece então no plano de governo, isso aparece de uma forma recorrente, principalmente sobre uma estrutura de um sistema, um órgão, uma equipe mais especializada em cibersegurança. Então, o presidente Lula traz investigação e repressão qualificada, propondo reforçar a prevenção com inteligência, repressão dos crimes cibernéticos. Ronaldo Caiado, ele não traz ali de uma forma tão detalhada essa questão das propostas cibernéticas, mas ele traz um sistema nacional e laboratórios de inteligência artificial, ou seja, propondo a criação desse sistema nacional que a gente consiga fazer esse enfrentamento, mas com laboratórios regionais, para que isso seja obtido por meio de uma investigação local, de alguma polícia estadual e que isso depois possa ser abastecido.
Ele traz ainda também essa autoridade da cibersegurança, então trazendo a criação de uma autoridade nacional que concentre essas informações. Há outros candidatos, por exemplo, o Romeu Zema, que ele fala de segurança de infraestrutura crítica, então fazendo um diagnóstico no plano de governo sobre essa vulnerabilidade que a gente tá vivendo em relação a roubo de dados, perda do controle dessas estruturas tecnológicas, mas também o plano de governo dele foca muito nessa capacitação de inteligência do Estado e não de uma forma mais incisiva sobre crimes bancários, sobre esses crimes cibernéticos que começam no celular e depois atingem outros golpes que a gente pode estar mais vulnerável.
O crime ganhando tração e força a partir do mundo virtual, do mundo digital, principalmente naquilo que a gente fala dos golpes, dos roubos, né, dos estelionatos, dos roubos de identidade, a partir inclusive dos celulares das pessoas, mas também pela internet. Você escuta Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, onde o crime Que antigamente eu tinha lá um golpe isolado, um estelionatário, aquela figura meio que, ah, é um criminoso isolado dando um golpe porque é inteligente, esperto.
Não, hoje a gente tem verdadeiras indústrias criminosas que aproveitam de brechas regulatórias, do aumento da comunicação nas redes sociais, a transformação digital da sociedade. Mundial e brasileira em particular. E aí você tem, por exemplo, que vários dos crimes, por exemplo, os estelionatos, os golpes, as fraudes, conseguem hoje apavorar a população tanto quanto, por exemplo, o controle territorial, tanto quanto a ideia de você estar ali tendo que se submeter ao julgo de uma facção.
Mas de uma forma geral, Natuza, hoje em dia não tem como você pensar em segurança pública sem olhar para a questão desses golpes digitais. Porque fazendo uma analogia com o crime organizado, hoje o crime organizado ele não tá só voltado para o tráfico de drogas, para o tráfico de armas. Já há investigações que mostram para gente que a mesma organização criminosa que conseguiu montar uma dinâmica criminal para esse tipo de tráfico também tá montando outras formas de conseguir ganhar dinheiro e que estão conseguindo se aproveitar de brechas ou falhas ainda que a gente não conseguiu preencher em relação à investigação para cometer esses golpes.
Isa, muito obrigada por ter topado fazer esse sobrevoo aqui com a gente do assunto em relação à segurança pública e às propostas que os candidatos estão apresentando. Te agradeço muito. Pelo esforço de reportagem. Muito obrigada e um excelente trabalho para você, minha amiga.
Natuza, um prazer, muito obrigada. E obrigada também mais uma vez para a equipe do Assunto pelo convite.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
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