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O fator 'Triângulo das Bermudas' para o resultado da eleição presidencial

27 de agosto de 202630min
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Convidado: Carlos Melo, cientista político e professor do Insper. A soma dos eleitores de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo corresponde a mais de 40% dos votos que vão decidir o próximo presidente. Os três estados apresentam perfis bastante heterogêneos de eleitores, mas as pesquisas de intenção de voto da Quaest, divulgadas nesta semana, indicam muito equilíbrio entre os dois candidatos que lideram a corrida eleitoral: Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Neste episódio, Natuza Nery recebe o cientista político Carlos Melo para explicar os fenômenos eleitorais que configuram o “Triângulo das Bermudas”. Carlos compara os números das pesquisas de agora com os dados da eleição de 2022 e analisa os efeitos dos palanques estaduais formados por Lula e Flávio Bolsonaro.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
C

Carlos Melo

ConvidadoCientista político
Assuntos15
  • Triângulo das Bermudas eleitoralMinas Gerais·Rio de Janeiro·São Paulo·Lula·Flávio Bolsonaro
  • Palanques estaduais em São PauloTarcísio de Freitas·Fernando Haddad·Eleição para governador de São Paulo
  • Importância do Sudeste nas eleiçõesEleitorado brasileiro·Vantagem eleitoral
  • Estratégia de Lula para São PauloEleitores de centro·Situação fiscal brasileira·Futuro do emprego em São Paulo
  • Voto calcificado e variaçõesEleição presidencial 2022·Pesquisas de intenção de voto
  • Cenário eleitoral em Minas GeraisCleitinho Azevedo·Alexandre Kalil·Eleitor mineiro
  • Cenário eleitoral no Rio de JaneiroEduardo Paes·Cláudio Castro·Reduto eleitoral do bolsonarismo
  • Variações regionais dentro dos estadosRegião Metropolitana de São Paulo·Interior de São Paulo·Sul de Minas·Norte de Minas
  • Vantagem de Tarcísio de Freitas para Flávio BolsonaroGovernador de São Paulo·Máquina pública
  • Ambiguidade política em Minas GeraisCandidatura de Cleitinho·Discurso conservador·Bandeiras do PT
  • Ambiguidade de Eduardo Paes no Rio de JaneiroVice de Eduardo Paes·Bolsonarismo·Antipetismo
  • Estratégias de campanha e voto de centroEleitor independente·Eleitor tucano·Coalizão de nomes
  • Divisão regional do voto no BrasilRegião Nordeste·Região Sul·Região Centro-Oeste
  • Desempenho de Jair Bolsonaro em 2022Eleição presidencial 2022·Eleição presidencial 2018
  • Papel de Fernando Haddad na campanhaMinistro da Fazenda·Sanidade das contas públicas nacionais·Arcabouço fiscal
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?Voz A

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?Voz B

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NNNatuza Nery

Há um lugar no Atlântico muito famoso por uma lenda: a história que navios e aviões desaparecem sem deixar rastro ao passarem por lá. Aqui no Brasil há uma região onde um outro movimento misterioso acontece A depender das condições, os votos mudam de direção. E isso também dentro de um espaço triangular. Seus vértices são: Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. 3 estados, quase metade do eleitorado brasileiro. Um fenômeno que pode fazer desaparecer a vantagem de qualquer candidato.

É o Triângulo das Bermudas da eleição. Aqui, o voto muda de direção. O que pode sumir não são navios ou aviões, são as vantagens eleitorais. Vamos passo a passo. Os eleitores do Nordeste tendem a dar vitória a Lula na região. O Sul e o Centro-Oeste devem seguir mais próximos do campo bolsonarista. O Sudeste é onde há mais espaço para o voto mudar, principalmente nas populosas capitais desses estados.

?Voz B

A forma de comprovar a calcificação é comparando como é que as pessoas estão votando hoje, como elas votavam 4 anos atrás. E o dado que a gente tem, quando a gente olha para todos os estados que a Quest publicou, é impressionantemente calcificado. Quando eu comparo o percentual de votos no presidente Lula no primeiro turno de 2022 com o percentual de intenção de voto hoje, o grau de correlação do voto entre como cada estado votou no primeiro turno de 2022 para agora dá 97%.

Ou seja, as variações são mínimas. O padrão de votação nesse momento é praticamente idêntico.

NNNatuza Nery

Até aqui, as pesquisas mostram Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais praticamente divididos entre Lula e Flávio Bolsonaro. E nessas praças, qualquer punhado de ponto percentual é um oceano inteiro de votos. Águas voláteis onde o barco pode tanto se perder enquanto ganhar tração. E é aí que entram os palanques estaduais. Aqui em São Paulo, por exemplo, Flávio Bolsonaro tem um trunfo potencial: Tarcísio de Freitas, candidato ao governo do estado pelo Republicanos.

?Voz B

Os números para o governo de São Paulo: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, do Republicanos, 40 pontos. Fernando Haddad, do PT, 27 pontos nessa pesquisa. Indecisos nessa pesquisa são 13 pontos. Branco, nulo, não vai votar, 14 pontos. Basicamente, o que a pesquisa está mostrando é que se a eleição fosse hoje, o Tarcísio então venceria essa eleição no primeiro turno.

NNNatuza Nery

Como Tarcísio de Freitas é um cabo eleitoral forte, a estratégia de Flávio Bolsonaro é clara: tentar se colar ao máximo a ele para herdar parte desse capital político.

?Voz B

Vamos olhar o que está acontecendo na disputa para presidente em São Paulo. Flávio Bolsonaro tem 30 pontos, Lula tem 30, os dois parecem numericamente empatados, 13% são indecisos, 12% branco, nulo, não vai votar.

NNNatuza Nery

Mas pode ter um nó nessa história. Se Tarcísio de Freitas não se engajar pela campanha de Flávio Bolsonaro, esse trunfo passa a ser relativizado. Para Lula, o desafio é outro. A campanha precisa recuperar o chamado voto de centro, principalmente o antigo eleitor tucano. E a chapa paulista, liderada pelo PT, aponta para essa direção. Fernando Haddad é o candidato ao governo do estado. Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, do PSB, concorrem ao Senado. É um reflexo da coalizão de nomes que colaborou para a vitória de Lula em 2022.

?Voz B

Hoje, as campanhas brasileiras têm duas tarefas: 1, persuadir, convencer o eleitor independente, que é pragmático, em que lado ele vai votar. 2, a fazer a sua torcida ficar animada para ir votar. São duas tarefas independentes. Ao mesmo tempo, tem que apresentar argumentos pragmáticos sobre saúde, educação, violência.

NNNatuza Nery

Em Minas, a equação é mais imprevisível. Cleitinho, do Republicanos, lidera a disputa pelo governo. Ele não fechou apoio a nenhum presidenciável, mas é um nome muito mais alinhado aos candidatos da direita. Por outro lado, dois candidatos mais ligados ao centro e à esquerda também se mostram competitivos e podem ajudar Lula nas urnas.

?Voz B

Cleitinho Azevedo com 29 pontos, Patrícia Ananias do PT com 11 pontos, Alexandre Kalil empatado com ele, 10 pontos. Lembrando que ainda tem 19 de indecisos e 12 de branco e nulo. A coisa tá que nem a disputa de Galo e Cruzeiro. Flávio Bolsonaro, 31 pontos no primeiro turno. Lula, 31 pontos. As pessoas geralmente cravam que esse voto todo aqui de Zema, Marçal, Renan, Caiado e Cury automaticamente iriam num eventual segundo turno para Flávio Bolsonaro.

Eu não faria essa conta dessa maneira, vamos com calma. Mineiro é um eleitor muito desconfiado e que geralmente não faz esse voto ideológico de maneira tão coerente como em outros lugares. O eleitor prefere, justamente por essa desconfiança, distribuir poder.

NNNatuza Nery

Já no Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PSD, lidera com folga a corrida pelo governo. Lula e Paes cultivam uma amizade de anos e Paes vai abrir palanque para campanha de reeleição do presidente. Até agora, porém, isso não garantiu votos a mais ao petista. Ocorre que até aqui, no reduto eleitoral do bolsonarismo, Flávio lidera.

?Voz B

Rio de Janeiro, eleição presidencial, 33% Flávio Bolsonaro, 31% Lula, os indecisos são 16%, branco nulo são 14. Se em Minas eles estão numericamente empatados, no caso do Rio o Flávio tá numericamente à frente do Lula, mas ainda assim pela margem de erro de 3 pontos empatados. No Rio, cenário que a gente tem: Eduardo Paes, 37 pontos, ele que é o candidato do PSD, larga na frente uma vantagem bastante relevante. Douglas Ruas do PL, 14 pontos. 20% são indecisos, 16 são branco e nulo, os outros estão somando 27. 37% do Eduardo Paes. Ou seja, a eleição no Rio também tá terminando em primeiro turno.

NNNatuza Nery

Diante de tudo isso, a fotografia é a seguinte: com números tão calcificados, as campanhas precisam fazer duas coisas ao mesmo tempo: manter a própria torcida mobilizada e convencer cerca de 10% de eleitores mais pragmáticos e independentes. Para Luli Flávio, esse grupo pode estar justamente no triângulo onde a eleição mais pode mudar de rumo. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o Triângulo das Bermudas para Flávia e Lula.

Neste episódio, eu converso com Carlos Melo, cientista político e professor do Insper. Quinta-feira, 27 de agosto. Meu caro Carlos Melo, eu quero começar pedindo para que você nos explique por que que nas eleições nós costumamos chamar os estados de São Paulo, Rio e Minas de Triângulo das Bermudas.

?Voz A

Eu acho que a analogia com o Triângulo das Bermudas é porque o candidato que se perde nesses estados se perde completamente, né? Esses estados somados, a gente vai chegar alguma coisa em torno de 40%, pouco mais talvez. A gente tá concentrando 40% dos eleitores, não é pouca coisa.

?Voz B

Eleição desse ano no Sudeste vai ter uma importância super especial, porque o Flávio tem que conseguir um ótimo desempenho em São Paulo, e o Lula nesse caso tá tendo um desempenho melhor do que o anterior, no caso do Rio, de 22. Nessa comparação da eleição de 22 com 26, ele, o Lula, vai, ele tá no mesmo patamar de São Paulo, tá melhor no Rio e um pouco abaixo em Minas. Ou seja, é a combinação desse pouco eleitor que decide a eleição no Sudeste, eu acho que vai ser super importante a gente acompanhar.

?Voz A

Imagina um candidato com muitos votos numa região, na região Nordeste, outro candidato com muitos votos na região Sul. Essas duas regiões, embora sejam importantes, elas não compensam o Sudeste. Agora, se o candidato empatar ou perder de pouco nessas regiões, nesses três estados, ele sai com uma vantagem muito grande. O ideal é ganhar, empatar, tá ótimo, e jamais perder de muito.

NNNatuza Nery

O que eu costumo ouvir dos pesquiseiros, né, quem mexe com número, com sondagem eleitoral, é que a cada 5 pontos percentuais numa pesquisa, isso dá mais de 1 ponto percentual nacionalmente. Não é à toa que grande parte dos candidatos, ou os principais candidatos, os que estão na frente, Lula e Flávio Bolsonaro, estão carregando toda a sua ofensiva nesses 3 eixos, né?

?Voz A

Uma coisa nesses estados, e tem sido assim, é a eleição para governador. Outra coisa é a eleição para presidente. Há uma ideia de que o governador naturalmente carrega os votos para o seu candidato presidente da República. Olha, os tucanos ficaram 30 anos no governo de São Paulo e nem por isso, após o governo Fernando Henrique, ganharam a eleição. Mas é muito importante porque, de fato, esses números são reais. Alguma coisa em torno de 5 pontos em São Paulo é um ponto a mais na União.

Essa história de que o resultado de Minas é o resultado do Brasil. Eu costumo dizer que tabu é feito para ser quebrado. Eventualmente pode acontecer de você perder por muito pouco em Minas, mas em outra região você ter o suficiente para ganhar eleição.

NNNatuza Nery

Você pode fazer uma avaliação para gente em relação à região metropolitana nesses 3 estados, São Paulo, Rio, e Minas Gerais?

?Voz A

Uma coisa, por exemplo, é a região metropolitana de São Paulo, e ela tem uma variabilidade muito grande. Por exemplo, já fez vários candidatos do PT, tanto nas cidades do ABC, mas também na capital. O interior já é diferente. É muito difícil, por exemplo, um candidato do PT historicamente ter vitória no interior, na soma das cidades, nos municípios do interior. O Rio de Janeiro igualmente tem essa questão. Uma coisa é a cidade do Rio de Janeiro, outra coisa é a Fluminense, onde outras questões estão colocadas ali.

E Minas Gerais, bom, Minas Gerais, Natuza, é um caso extraordinário, porque como dizia o Hugo Mamez Rosa, Minas são muitas. Se você olhar para o sul de Minas, é São Paulo, é o interior de São Paulo. Se você olha para o norte de Minas, você tá falando com Nordeste. Se você olha no sertão, né, para o interior de Minas, você quase tá falando com Mato Grosso, com Goiás. Lula venceu em Minas, né, com essa porcentagem de 48,29% dos votos, mas Bolsonaro Bolsonaro ganhou em Belo Horizonte, no maior colégio eleitoral, né?

Bolsonaro ganhou nas maiores cidades do estado, em Belo Horizonte, Uberlândia e também Contagem. Já Lula venceu em Betim, Ribeirão das Neves e no interior do estado, em cidades como Juiz de Fora e Montes Claros. Aqui em Belo Horizonte, a diferença entre Bolsonaro e Lula foi de pouco mais aí de 60 mil votos.

?Voz B

Aqui no norte, nordeste do estado, uma predominância maior onde Lula teve mais êxito.

?Voz A

Nas cidades aqui do Triângulo, Alto Paranaíba, sul do estado, onde Bolsonaro teve mais votos que o candidato do PT. Há uma composição social muito distinta e, portanto, também uma percepção da política muito diferente. Sua pergunta é muito interessante porque quando você pensa nesses estados, você não pensa numa unidade e, portanto, numa candidatura homogênea. Você pensa em estratégias regionais dentro dessas regiões. Isso me parece fundamental para qualquer um que queira disputar para valer o voto nesses estados.

NNNatuza Nery

Eu me lembro de uma conversa que eu tive há 2 dias com um integrante da campanha petista que me disse o seguinte: Natuza, nesta eleição o Lula me parece mais atento a São Paulo. Ele sabe que São Paulo pode fazer a diferença. E se eu fosse o Lula, eu faria um aceno maior a eleitores de centro, eleitores que até votaram no Lula, nas eleições de 2022, no segundo turno, aquele eleitor tipicamente tucano ou tradicionalmente tucano, embora o partido PSDB tenha se enfraquecido por demais.

E se eu fosse Lula, faria algum aceno em relação à situação fiscal brasileira, porque esse é um tema importante para esse tipo de eleitorado. Então, na avaliação desse petista, Lula está mais atento Sabe que a diferença pode vir de São Paulo, mas ainda precisaria de uma agenda que atraísse mais um eleitorado ao centro. Então eu queria dividir com você essa percepção para saber se ela faz sentido para você.

?Voz A

Faz todo sentido, mas antes eu quero fazer uma observação. Jair Bolsonaro teve 52% em 2022, mas foi muito abaixo do que ele conseguiu em 2018.

NNNatuza Nery

55%, na verdade, né?

?Voz A

55%, mas muito abaixo do que ele teve em 2018, que foi superior a 60%. Há quem diga que Jair Bolsonaro perdeu a eleição em São Paulo, porque se ele tivesse mantido o mesmo desempenho de 2018, essa diferença não seria alcançada pela vantagem que o Lula poderia trazer do Nordeste, por exemplo. O que a gente tem observado na campanha até aqui vai em outra direção. Lula tem falado muito com a sua base. Lula tem falado, por exemplo, no lançamento da sua candidatura com sua base e depois no lançamento da campanha no estado de com a sua base também.

Para falar com a classe média de São Paulo, os independentes de São Paulo, você tem que falar sim da questão fiscal, que é importante para setores econômicos de São Paulo, mas para setores sociais é importante falar, por exemplo, do futuro. Como será o emprego num estado tão desenvolvido como São Paulo? O que que significa essas novas tecnologias? O estado deixou de ser a locomotiva do país há muito tempo, não é mais uma unidade industrial.

Hoje a agricultura é muito importante, o agronegócio é muito importante. Qual o recado que o presidente Lula tem a esses setores? Para a juventude, é necessário também dar sinais para a juventude com relação ao que será o emprego. Então o presidente Lula, que tem essa necessidade, eu concordo com essa análise, é necessário ampliar. Aliás, Natuza, política é a arte da ampliação e não de ir para o beco, de se estreitar, né? Ampliar.

Então é necessário fazer isso, mas é necessário fazer isso com um discurso moderno. Me parece que até aqui na campanha nós ainda temos a televisão pela frente, que não deve ser desprezada, até porque os recortes todos da televisão é o que vai para as redes sociais. Por exemplo, as entrevistas que vocês têm feito na Globo News ou no Jornal Nacional, isso tudo é o conteúdo das redes sociais. Então ainda nós temos isso. Será possível aí você jogar mensagens para os setores do Estado de São Paulo, agronegócio, juventude, a questão da tecnologia, A campanha de Fernando Haddad fará esse meio de campo?

Fernando Haddad até agora tem sido muito cobrado pelo seu papel como ministro da Fazenda do governo Lula. Tem tido um ônus maior do que um bônus por ter sido ministro de Lula.

?Voz D

A gente fez a entrevista com o ex-ministro, candidato do PT ao governo, Fernando Haddad. Me chamou bastante a atenção na parte política o fato do ex-ministro praticamente praticamente reconhecer a dificuldade extrema que ele vai ter no cenário aqui de São Paulo. Foi o presidente Lula quem pediu a ele para ser candidato, ele reafirma isso. Então ele inscreveu a sua candidatura nesse contexto de uma estratégia nacional para o Lula ter um candidato forte, capaz de defender o seu governo, capaz de fazer com que ele saia com uma diferença não tão grande no estado de São São Paulo em relação ao Flávio Bolsonaro.

Ele faz essa ponte entre Brasília e São Paulo em muitos momentos, e a gente acabou fazendo também durante a entrevista, porque era preciso cotejá-lo, por exemplo, com o fato que ele disse que a situação fiscal do Estado de São Paulo é ruim. Mas o grande dado da eleição nacional é uma dúvida quanto à sanidade das contas públicas nacionais, e se o arcabouço que ele criou para de pé, etc. Então ele defendeu a rigidez do arcabouço fiscal e disse que, e repetiu uma coisa que a gente sempre diz, que o governo Lula herdou uma situação de descalabro fiscal do governo Jair Bolsonaro.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Carlos Mello.

?Voz A

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?Voz B

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NNNatuza Nery

A gente falou bastante de São Paulo, mas eu queria só pincelar aqui Rio de Janeiro estado e Minas Gerais. Jair Bolsonaro foi o candidato mais votado no Rio e também venceu no estado. Então, Rio de Janeiro, que é o colégio eleitoral, reduto eleitoral dele, ele venceu Lula por ampla margem, margem 56 e pouco para Bolsonaro, para Jair Bolsonaro, versus 45 e pouco para Lula. Em Minas Gerais ocorreu um equilíbrio, mas Lula venceu. Como você disse, né, todo paradigma tá aí para ser quebrado.

Até a última eleição, pelo menos, ele não foi. Lula venceu com 50,2% e Bolsonaro teve 49,8%, mantendo a sina. Presidente da República eleito sempre vence em Minas desde muito tempo atrás. No entanto, quando a gente olha para as pesquisas agora, e citando especificamente a Quest, você já até passou por esse fenômeno, Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados em Minas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro. Isso é bom para quem? É ruim para quem?

?Voz A

Vamos falar primeiro aqui de Minas Gerais. Hoje, Flávio Bolsonaro tem 31% e Lula 30%, segundo a Quest. Se você olhar para o primeiro turno, dados da eleição, Bolsonaro teve 43%, Lula teve 48% em Minas Gerais. Quando a gente olha aqui para dados do primeiro turno, os dois candidatos ainda estão muito abaixo daquilo que atingiram no final da eleição, mesmo com uma eleição com um rol de candidatos mais amplo do que teremos nessa eleição.

Lula está, por exemplo, empatado em São Paulo também, empate técnico, mas empatado em São Paulo, sendo que São Paulo na eleição passada ele perdeu de Jair Bolsonaro. Na comparação de uma eleição com a outra, Esse empate técnico nesses estados me parece ser mais positivo para o presidente Lula. Agora, falando do Rio de Janeiro especificamente, onde Bolsonaro teve lá 51% dos votos no primeiro turno e Lula apenas 40%, vamos lembrar, Natuza, que ali teve uma eleição de reeleição.

O governador Cláudio Castro, claro que carregou votos para Jair Bolsonaro, mas foi com o uso da máquina que depois o levou à inelegibilidade. Essa máquina, esse capital instrumental eleitoral que sempre existe, não haverá no Rio de Janeiro esse ano. Então esse elemento é diferente de 2022, o que evidentemente pode trazer diferença no resultado também. E talvez as pesquisas já comecem a mostrar isso por esse empate técnico, que afinal de contas nós estamos falando do berço do bolsonarismo.

Então elementos sutis têm que ser considerados. Por exemplo, em Minas Gerais, O governador, hoje candidato à presidência da República, Romeu Zema, disputava a reeleição. Hoje, tendo sido governador por 8 anos em Minas Gerais, ele patina ali em alguma coisa perto dos 6% em Minas Gerais. Em São Paulo já é o oposto. Se em São Paulo o candidato Jair Bolsonaro não tinha um representante da máquina o ajudando, embora Rodrigo Garcia não fosse exatamente um aliado de Lula, hoje Flávio Bolsonaro terá Tarcísio de Freitas no comando do estado e candidato à reeleição, o que é uma vantagem.

Precisamos saber, evidentemente, por outras questões, uma visão estratégica do governador, se ele jogará todo o peso mesmo que tem na eleição de Flávio Bolsonaro.

NNNatuza Nery

Esse é o meu ponto, porque ele é vantagem no manual, né? Então você ter um governador com grande chance de reeleição no primeiro turno, um governador que é aliado do seu é uma vantagem. Agora, desde que esse governador se engaje na sua campanha. E a grande dúvida do Flávio Bolsonaro é isso, segundo interlocutores dele, é se Tarcísio vai de fato se engajar. Tanto é assim que dias atrás Flávio do nada soltou uma frase dizendo: olha, eu presidente serei um presidente de transição para você, Tarcísio.

De qualquer maneira, é uma sinalização de Flávio para dizer: olha, me apoie, me ajude em São Paulo, onde Tarcísio pode sim fazer uma grande diferença para a campanha de Flávio, que eu prometo ficar um mandato só. E há uma questão muito forte que a gente sabe, que uma vez que a pessoa senta na cadeira, ela tende a não querer sair em apenas um mandato.

?Voz A

E Flávio tenta fazer uma sinalização que é assim para Tarcísio, mas para outros nomes da direita que justamente pensam em 2030, e que se Flávio vencer, ficaria um plano apenas para 2034.

NNNatuza Nery

Agora, há vários furos neste argumento, porque ainda que o Flávio Bolsonaro faça esse pacto, supondo que ele vença, ele vai anistiar o próprio pai, Jair Bolsonaro, o que significa que haveria chances de o pai de Flávio ser o candidato à presidência da República em 2030 e não Tarcísio de Freitas. Então há quem diga do outro lado que Tarcísio não teria tanto interesse assim na vitória de Flávio. Faz sentido isso para você?

?Voz A

Faz muito sentido. Primeiro, um detalhe muito simples: nós temos um bom tempo acompanhando política para saber que as promessas de hoje, elas não sustentam amanhã. Você, você deve se lembrar do prefeito José Serra dizendo que se manteria na prefeitura, que não largaria para ser candidato ao governo do estado, e depois largou dizendo era a verdade do momento. Mário Covas, por exemplo, era contra a reeleição e depois foi docemente convencido a disputar a reeleição.

Então, os políticos, o que prometem agora com uma perspectiva eleitoral, a própria política não é capaz de sustentar. E aí você traz um elemento importante: pode ser Flávio candidato à reeleição, mas pode ser Jair Bolsonaro candidato à reeleição. A questão é: se Tarcísio não se impôs agora com toda a força que tem a partir do Estado de São Paulo, por que conseguiria se impor contra o presidente da República ou contra o candidato do presidente da República em 2030?

Então não é um raciocínio muito simples. A verdadeira disputa na política, ela tá no campo, porque primeiro você precisa ganhar no seu campo, o campo conservador ou campo progressista, a direita ou a esquerda. Qualquer que seja o nome que você dê ao campo, para que depois você possa avançar e disputar o voto geral. Então as disputas, as inimizades, as traições se dão no campo primeiro, não fora dele. Então é interessante que o governador Tarcísio tem falado pouco o nome de Flávio Bolsonaro e já há notas na imprensa dizendo que o pessoal da assessoria de Flávio Bolsonaro tem reclamado, tem feito chegar reclamações ao governador em relação a isso.

É uma contradição muito grande aí e não nos permite afirmar O Tarcísio fará campanha, sobretudo se ganhar no primeiro turno, como dizem as pesquisas hoje. Não temos certeza se vai ganhar no primeiro turno, evidentemente, mas se ganhar no primeiro turno, será que colocará toda a máquina, que inclusive já se desorganizou porque a vitória já foi dada, num segundo turno na eleição presidencial? Então são muitas interrogações, Natuza, que só a história vai nos dizer. Os fatos primeiro acontecem e depois a gente consegue analisá-los, né?

NNNatuza Nery

Queria ouvir você rapidamente sobre a situação em Minas Gerais, que me parece muito embolada em termos de palanque. Quem tem mais potencial de se favorecer na disputa em Minas?

?Voz A

A política eleitoral, ela passa por uma arte que é a arte da ambiguidade. Ambiguidade significa ganhar pontos, né, conquistar pontos em todos os lados. Então vamos pegar o caso aqui de Cleitinho. Ah, Quem diga que o processo de definição da candidatura de Cleitinho foi absolutamente desorganizado, enfim, aquela loucura que nós acompanhamos. Mas há quem diga também que havia um pouco de sentido nisso. Veja, todos se definiram primeiro para que depois Cleitinho se definisse.

NNNatuza Nery

O Partido Republicano confirmou Cleitinho Azevedo como candidato ao governo de Minas. Foi a terceira vez que o senador anunciou a candidatura ao Palácio Tiradentes. Só que se o PL não tivesse definido o candidato, Cleitinho talvez tivesse que dar a palanque pro Flávio Bolsonaro lá.

?Voz B

Qual é meu ponto?

NNNatuza Nery

Ele é mais alinhado no discurso, nas pautas, ao campo bolsonarista do que ao campo do presidente Lula. Isso aqui vai ter reflexo na eleição nacional também.

?Voz B

Mas ele bebe muito eleitor cruzado do Lula, vota, gosta do Cleitinho, né? E assim, a gente trata isso como novela, como uma confusão. Eu digo o seguinte: o Cleitinho nessa história se humaniza Então ele se aproxima do eleitor.

?Voz A

Flávio acabou tendo, sem querer, candidato ao governo, que o candidato preferencial seria o próprio Cleitinho. Mas o PL acabou tendo candidato, o presidente Lula acabou tendo que ter um candidato também, embora não fosse Cleitinho. Mas aí a desistência é de outro, é de Olívio Pacheco. E Cleitinho, que é uma figura muito complexa, joga para ter votos de eleitores de Lula e votos de eleitores de Flávio Bolsonaro. Ele tem um discurso conservador muito parecido com o de Flávio e do bolsonarismo, mas por outro lado ele tem sinais bastante fortes em relação a bandeiras que estão no PT.

Por exemplo, a questão da votação da jornada 6 por 1, onde ele diz, por exemplo, que tende a votar pelo fim dessa jornada. Ele tem diálogos com setores aí no norte de Minas Gerais bastante populares, enfim, em questão do trabalhador, enfim. Ele tem se mostrado muito hábil em manter essa ambiguidade. Agora, é verdade que em Minas Gerais é diferente de São Paulo, por exemplo. São Paulo, a lógica do governador, ela sempre foi muito forte.

O governador tem uma centralidade nesse processo. Em Minas Gerais, o presidente Lula, talvez por conta desse fato de Minas ser muitas, né, por ser um retrato do país, um mini Brasil com todas as suas diferenças e diversidades, ela expressa também um pouco do sentimento nacional. Então é verdade, você pode ter um candidato forte, mas esse candidato ele não necessariamente vai trazer votos para o seu candidato à presidência da República.

Lula ganhou várias eleições em Minas Gerais tendo candidatos como Aécio Neves, tucano, que tinha fortes candidatos à presidência da República, Anastasia, né? Nós lembramos inclusive dos nomes que se davam nessa época, né? O Lulécio, a própria Dilma Rousseff também teve essa possibilidade. Então Minas tem essa peculiaridade. O Rio de Janeiro já tem um outro feitio, que aí me parece mais o candidato, e certamente você deve querer saber sobre isso, justamente a situação desses cabos eleitorais.

NNNatuza Nery

Eduardo Paes, ajudando Lula e Douglas Ruas ajudando Flávio Bolsonaro. Lembrando que Flávio, que teria a máquina com Cláudio Castro, o destino de Cláudio Castro selado pelas investigações da Polícia Federal, tirou essa máquina, pelo menos parte dela, de cena.

?Voz A

Novamente ambiguidade. Eduardo Paes, o candidato dele declaradamente é Lula, mas ele tem na sua vice advogada Jane Reis, do MDB, que é identificada com bolsonarismo. Eduardo pode dar uma figura de sagacidade, daquela velha sagacidade da política brasileira. Ele também parece lançar botes salva-vidas a todos os outros candidatos. Ele quer o voto do lulismo, claro, porque ali o adversário dele é o bolsonarismo. Mas como o bolsonarismo está machucado por não ter mais a máquina, por tudo que aconteceu com Cláudio Castro, enfim, com Assembleia Legislativa e tal.

Ele também quer votos do antipetismo que votarão em Flávio Bolsonaro. Até porque ele que pretende, se vai conseguir ou não é outra história, mas ele pretende liquidar esse jogo no primeiro turno.

NNNatuza Nery

Meu querido Carlos Melo, muito obrigada por conversar com a gente. Bom trabalho para você.

?Voz A

Sempre um prazer, Natuza.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário no no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

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