Casas Bahia, Braskem e a onda de recuperações judiciais pelo Brasil
- Recuperações Judiciais no BrasilCasas Bahia·Braskem·Marabraz·Tok&Stok·Grupo Pão de Açúcar·Crescimento de 66%
- Crise no Setor de VarejoCasas Bahia·Marabraz·Falta de capital de giro·Juros altos·Endividamento das famílias
- Desafios da Indústria PetroquímicaBraskem·Excesso de oferta global·Concorrência China e EUA·Uso de nafta vs gás natural·Afundamento do solo em Maceió
- Impacto dos Juros Altos na EconomiaSelic·Custo do crédito·Inibição de investimentos·Redução do consumo·Endividamento
- Competição com Plataformas EstrangeirasAmazon·Mercado Livre·Shopee·Shein·Fim do imposto de importação·Crescimento do e-commerce
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A manchete é a seguinte: nos últimos 3 anos, as recuperações judiciais cresceram 66% no Brasil.
No segundo trimestre do ano passado, 819 empresas de diferentes tamanhos pediram recuperação judicial. No mesmo período deste ano, foram 986. O Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabrás protocolaram pedidos de recuperação judicial nos últimos dias por causa de dívidas. Em maio foi o Grupo Toque, dono da Toque Stock e da Moblin. Em março, o Grupo Pão de Açúcar anunciou um pedido de recuperação extrajudicial, quando é feito um acordo com os credores antes da validação do juiz.
Eu vou traduzir isso aqui para você. Significa que dentro deste período de 3 anos, mais de 2.500 empresas precisaram acionar a justiça para ganhar mais tempo e quitar suas dívidas. Entre junho de 2025 e junho de 2026, o número de pedidos cresceu mais de 20%. Os dados são da consultoria de reestruturação corporativa RGF Associados. Este é mais um alerta para a economia brasileira. Aqui no Assunto, a gente já tratou de endividamento recorde das famílias no Brasil.
Mas agora, com essa onda de recuperações judiciais, a gente vê que os CNPJs também estão estrangulados com as contas.
A Americanas protocolou um plano de recuperação judicial na Vara Empresarial do Rio de Janeiro. A dívida da rede varejista chega a R$43 bilhões.
A Casas Bahia confirmou o pedido de recuperação judicial. O anúncio foi feito agora há pouco aos acionistas.
Segundo o comunicado, a dívida da empresa está em R$17,3 bilhões. No pedido, a empresa cita a pandemia, integração com o Ponto Frio, juros e endividamento como algumas das razões.
Mas tem ainda uma outra forma de as empresas pedirem socorro: é a recuperação extrajudicial. Ela ocorre quando a organização consegue negociar com seus credores para quem ela deve, portanto, sem precisar passar pela justiça. E por esse caminho, o plano de reestruturação para colocar as coisas nos eixos fica mais fácil, mas não significa que a situação da empresa seja menos preocupante.
Primeiro ponto: a Braskem não tinha para onde correr em relação a um pedido como esse, de negociar uma dívida de R$54 bilhões, recuperação judicial ou extrajudicial. Optou-se neste momento pela recuperação extrajudicial.
Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial, nos mesmos 3 anos, de 2023 até agosto de 2026, foram 235 empresas. É exatamente isso o que a empresa Braskem tenta agora: pagar.
Fora de questão uma dívida dessa, um abatimento mesmo dessa dívida. A Braskem é uma gigante do setor petroquímico brasileiro, e a Braskem é uma empresa que, com histórico, digamos, enrolado com outros casos, porque primeiro a questão do próprio modelo de negócio dela é muito questionado sobre a viabilidade, dados negócio que ela faz. Ela é uma empresa com operação gigante. A Braskem, ela se enrolou, por exemplo, com a questão da Operação Lava Jato lá atrás.
Depois disso, aquela questão em Maceió de afundamento de parte de um bairro, até de mais de um bairro. A gente tá falando de uma empresa com cerca de 8 mil trabalhadores. Ela tem plantas industriais além daqui no Brasil, México, Alemanha, Estados Unidos, e escritórios comerciais em 13 países.
Entre as justificativas para o cenário estão os juros altos, o crédito restrito e as crises individuais de cada setor.
Selic é Sistema Especial de Liquidação e Custódia. Pode chamar de taxa básica de juros mesmo. Na prática, são os juros que os bancos cobram uns dos outros para emprestar dinheiro entre eles. Isso afeta quase tudo. Como que é isso? Se a Selic sobe, o crédito fica mais caro, as empresas pegam menos empréstimos, investem menos, contratam menos e o consumo esfria.
Isso funciona para conter a alta da inflação, por exemplo.
Agora, se a Selic Sky é o contrário. E tem mais um sinal de alerta: o volume de empresas que não conseguiram se reestruturar e foram à falência bateu recorde em 2025. Os dados levantados pela consultoria RSF para o jornal Valor Econômico mostram que cerca de 30% das empresas que encerraram sua recuperação judicial no período simplesmente faliram. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é Casas Bahia, Braskem e a onda de recuperações judiciais pelo Brasil.
Neste episódio, duas jornalistas do jornal Valor Econômico. Primeiro, eu converso com Estela Fontes, editora assistente especialista nesse tipo de cobertura. Depois, com Adriana Matos, repórter especial do Valor para varejo, indústria e consumo. Terça-feira, 25 de agosto. Bom, Estela, eu vou começar essa nossa conversa citando um levantamento que foi publicado pela Folha de São Paulo. Esse estudo, ele foi realizado pela consultoria RGF Associados.
Ele diz o seguinte: que entre o segundo trimestre de 2023 e o deste ano, agora 2026, Os pedidos de recuperação judicial cresceram mais de 60%, foram mais de 6 mil casos, melhor dizendo. O número de recuperações extrajudiciais para o mesmo período, né, que foi de 2023, no segundo trimestre até agora, até este ano, houve um número bastante alto também. Explica pra gente a diferença de uma recuperação judicial, um pedido de recuperação judicial e um pedido de recuperação extrajudicial.
Bom, o pedido de recuperação extrajudicial, ele costuma acontecer quando geralmente já há algum acordo com os credores ou ao menos com parte dos credores. Então costuma ser um processo mais simples, mais rápido e barato. Empresas que já têm claro diagnóstico de seu problema e que contam com apoio dos credores, para o pedido tem que ser pelo menos 1/3 dos créditos envolvidos na reestruturação, e depois para aprovação do plano é maioria simples, ou seja, 50% mais 1.
A empresa que já tem esse quórum, ela vai para uma ARE para resolver rapidamente o seu problema. Quando a crise financeira é mais profunda e não tem entendimento nenhum com os credores, Aí a solução tem que ser a recuperação judicial, que vai ser mediada pela justiça, vai ser acompanhada por um administrador judicial. É um processo mais longo, mais complexo e bem mais caro.
Nesse mesmo levantamento que foi feito pela mesma consultoria, a RGF Associados, há um cenário que nós sabemos, né, de juros elevados, menor oferta de crédito, uma situação que se repete para diferentes setores. Mas o que eu quero perguntar para você é qual é a relação desse cenário com a situação específica das empresas?
Nos casos recentes, a gente tem Braskem e Casas Bahia. No caso da Braskem, você tem um cenário global para a indústria petroquímica de excesso de oferta. Então, nos últimos anos, China e Estados Unidos colocaram muitas fábricas novas com matéria-prima a preço competitivo. Isso inundou o mercado de insumos. E gerou uma pressão sobre preços. A Braskem sentiu essa pressão e num momento em que ela tava desembolsando muitos recursos ainda com afundamento do solo em Maceió. 3 de março, uma data que marcou a história de Maceió. 8 anos do tremor de terra que mudou a geografia da cidade, a vida de milhares de pessoas.
Cerca de 60 mil moradores tiveram que deixar suas casas nos 5 bairros atingidos pelo afundamento do solo. O dano provocado pela extração da salgema é um dos maiores desastres socioambientais da história do país, e as consequências ainda estão aí. Para contornar esse problema, deslocar as famílias que moravam ali, milhares de pessoas, a Braskem desembolsou, entre recursos já aportados ou reservados no balanço para essa finalidade, cerca de R$20 bilhões.
É um gasto muito elevado num momento em que o seu negócio principal não tá dando resultado. Já no caso das Casas Bahia, foi a permanência dos juros numa taxa elevada durante muito tempo. Isso gerou um encargo para Casas Bahia, que já estava endividada, maior, e também pressionou o cliente da Casas Bahia, que começou a ter mais dificuldade de acesso a crédito. O dinheiro ficou mais caro. A Braskem também tem endividamento elevado.
Talvez esse seja o ponto em comum entre os dois processos, mas são situações diferentes. Na Braskem você tem um cenário global complicado e um problema que é da companhia em Maceió, e nas Casas Bahia é uma questão econômica aqui de mercado doméstico mesmo, juros elevados e famílias endividadas.
Explica um pouco mais para gente o que que tem acontecido de fato, China e Estados Unidos, para influenciar esse resultado de agora.
Tanto China quanto Estados Unidos já há algum tempo definiram que teriam sua própria indústria petroquímica forte. Nos Estados Unidos, o advento do Shale gas foi assim o ponto de partida para o renascimento da indústria petroquímica local.
Você tá falando do gás de xisto, é isso?
Exatamente. Eles descobriram reservas enormes no país, conseguiram extrair esse gás a um preço super baixo e resolveram industrializá-lo. O gás de xisto é muito importante para a indústria petroquímica porque ele é usado como matéria-prima, mas ele também é usado como energia por outras indústrias. É um diferencial competitivo muito grande dos Estados Unidos. Esse material, que é na verdade uma resina que vai ser transformada em plásticos, atende tanto ao mercado doméstico quanto é exportado para outros mercados.
Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos investiu em sua indústria, a China resolveu fazer o mesmo. E a China tem um mercado grande, mas também tem uma ampla presença no mercado global desse tipo de plástico, de resina. Então chegou um momento pouco depois da pandemia, em que você tinha uma capacidade instalada entre China e Estados Unidos que era mais do que suficiente para atender a demanda global inteira de plásticos. Isso derrubou os preços de resinas e outros produtos petroquímicos.
A Braskem, ela tem operações fora do Brasil, tem acesso a alguma matéria-prima mais competitiva, mas ela ainda usa nafta, que é um produto mais caro do que o gás que os Estados Unidos estão usando ou do que a matéria-prima que a China tá usando. Então a Braskem começou a sofrer com a concorrência desse material, tanto no mercado externo quanto no mercado doméstico, porque todo esse material chegou ao mercado brasileiro. A Braskem começou a gerar menos dinheiro, menos caixa, e ao mesmo tempo viu a conta com a Maceió crescer exponencialmente.
Isso causou um desequilíbrio financeiro muito grande. Chegou a um ponto em que ela não conseguia mais pagar a dívida dela e ao mesmo tempo colocar dinheiro para manter as operações correntes.
E qual é o tamanho do tombo para o setor industrial brasileiro se a Braskem não conseguir honrar seus compromissos e a situação fique ainda mais difícil?
O estrago vai ser grande porque a Braskem, ela tá entre as 10 maiores petroquímicas do mundo, ela é a maior de longe na América do Sul, ela é a única produtora de determinadas resinas como polietileno, que é usado em embalagens, enfim, uma infinidade de tipos de produtos plásticos, e ela carrega uma indústria nas costas. Abaixo dela você tem uma série de empresas, transformadores de plástico, você tem produtor até de fertilizante que compra insumo dela.
Se a Braskem, que é a grande fornecedora de toda essa cadeia de valor, não conseguir se manter em pé ou sustentar suas operações, é muito provável que toda a indústria abaixo dela venha a sofrer bastante também.
E dá para botar as coisas nos trilhos ainda? E como é que uma gigante como a Petrobras pode ajudar?
Dentro da empresa, na própria Braskem, entre os seus assessores, a leitura é de que um alongamento de prazo da dívida e um período aí de carência para pagamento de certos compromissos, principalmente juros de dívida, a Braskem consegue colocar a casa em ordem. Ela consegue capital de giro suficiente para manter as suas operações. Para investir em projetos de transformação. Ela mesmo tem feito isso, ela tá indo da nafta, que é a matéria-prima cara, para o gás natural, que é uma matéria-prima mais competitiva, e honrar compromissos e sair bem dessa.
No entanto, no mercado, a leitura é um pouco mais cética. Você tem uma previsão aí de que esse ciclo de baixa da indústria petroquímica vai se estender por mais algum tempo. Então não deve haver reversão da curva antes de fim de 2027, 2028. No caso da Petrobras, há algumas iniciativas que podem ser adotadas para ajudar a Braskem a sair desse momento crítico. Uma delas é rever condições comerciais. A Braskem é a grande fornecedora de matéria-prima, cobra à vista, e a gente sabe que em outros países que são grandes produtores de nafta ou gás existem condições de pagamento que são um pouco mais elásticas.
Por exemplo, você pode usar uma carta de crédito e com isso você tem até 6 meses para pagar por aquela matéria-prima.
Isso dá fôlego financeiro para empresa.
O ponto é que se a Petrobras oferecer isso para a Braskem, que é uma empresa na qual ela participa, ela vai ter de oferecer também para outras empresas do setor. A Petrobras é altamente fiscalizada, ela por ser uma estatal ela tem uma governança muito, muito rigorosa. Então não é assim, ah, vai tomar uma medida imediata ou específica para Braskem. Não, teria de se pensar em uma política comercial que valesse para Braskem, mas também para as demais empresas do setor.
Voltando ao ponto inicial da nossa conversa, essas empresas que têm feito pedidos de recuperação, seja judicial, seja extrajudicial, o que todas elas juntas, incluindo Braskem e Casas Bahia, revelam sobre o estado atual da economia brasileira na tua avaliação?
Ponto de partida: juros elevados durante tanto tempo. Um juro que faz o dinheiro ficar mais caro, inibe investimentos. Essas empresas, para rodarem a operação, elas tomam capital de giro nos bancos, no mercado. Esse dinheiro ficou mais caro. Então tem uma situação assim que está inibindo investimento e tem onerado as empresas que precisam captar recursos para manter a operação. Além disso, o juro elevado também afeta o consumo.
No caso da Braskem, que é uma empresa que vende para outras empresas que daí vão chegar ao consumidor final, ela não sente diretamente, mas o cliente da Braskem também tá sendo prejudicado por uma demanda menor. Esse consumidor ali na ponta tem menos dinheiro para fazer compras. No caso das Casas Bahia, o impacto é direto. Consumidor final tá endividado, não tá conseguindo ter mais acesso ao crédito que teve nos últimos anos e tá deixando de comprar.
No caso das Casas Bahia, que atende principalmente ali a classe o efeito ainda maior, porque a gente vê que justamente as classes mais baixas que estão sendo as mais afetadas pelos juros elevados.
Estela, muito obrigada, gostei muito de te ouvir aqui no assunto. Bom trabalho para você.
Muito obrigada.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Adriana Matos.
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Adriana, a gente vai falar bastante da situação do varejo, em particular das Casas Bahia, e toda vez que eu me deparo no noticiário com a situação da empresa, me dá uma tristeza, porque as Casas Bahia fazem parte do imaginário coletivo brasileiro, né?
Sem dúvida nenhuma, viu, Natuza? Tá na lembrança de muita gente, ou que conhece a empresa pelas lojas, né, frequenta os pontos de venda, ou já passou pela operação virtual em algum momento. Só que essa Casas Bahia que a gente conhece hoje não é exatamente aquela Casas Bahia de 10, 20 anos atrás. As coisas mudaram bastante.
Então vamos entrar na situação das Casas Bahia, mas não só, né? A gente tem a notícia também da Mara Brás, que também pediu recuperação judicial, assim como as Casas Bahia. Eu queria entender primeiro o que que tá acontecendo com o setor de varejo, e depois a gente entra nesses erros que a empresa ou as empresas cometeram nesses novos tempos ou nesses tempos mais recentes?
Sim, vamos separar em caixinhas, né? A gente tem uma questão de disputa societária barra má gestão das empresas, a gente tem ou falta de capital de giro, que é o que os grandes nomes do varejo falam que é o que mata varejista mesmo, problema no caixa, falta de dinheiro para continuar com a operação de pé. Normalmente, pelo menos 2 desses 3 problemas é o que leva uma varejista a pedir recuperação judicial.
A concordar.
O capital de giro é a reserva que a empresa precisa ter para fazer o pagamento de suas contas em dia. O empresário precisa se planejar para ter esse recurso sempre disponível e lucrar no final do mês. A regra é se programar para conseguir pagar todas as despesas sem precisar pegar empréstimos. No mundo do empreendedorismo, esse planejamento se chama capital de giro.
Se a gente for olhar Marabrás, disputa societária, os irmãos entraram numa briga ali pelo patrimônio da companhia, houve uma divisão entre o patrimônio que acabou levando a problemas de garantia da empresa. Tokstok, problema de alavancagem financeira e capital de giro. Polishop, alavancagem financeira e capital de giro. Casas Bahia, alavancagem financeira e capital de giro. Então assim, se você for olhar hoje, se eu puder simplificar para que as pessoas consigam entender, acaba sendo dentro dessas variáveis assim, não muda muito.
A gente tem uma empresária, Luiza Trajano, que conseguiu, consegue ainda colocar o Magazine Luiza fora dessas essa situação dificílima do varejo, de maneira muito sábia fala o que que mata uma varejista, né? E ela tá certíssima em falar que o que mata é fluxo de caixa, não é lucro, prejuízo, que a gente fala, ah, empresa com prejuízo quebra. Não quebra. Quem quebra é varejista, é problema do fluxo de caixa, é caixa operacional, é não ter dinheiro para continuar rodando dia a dia.
E porque o varejista precisa de linha de crédito, e com juros altos, e não só juros altos, mas especialmente juros altos, a gente tá com duplo dígito, acima de 10% desde 2022, no final do dia lá a taxa real que as empresas vão pagar é mais de 20% ao ano, vai encarecendo as linhas que elas tomam no mercado. Isso torna o capital muito caro para elas conseguirem tocar o dia a dia da operação. Isso realmente deixa qualquer empresa em situação difícil.
Eu queria te perguntar exatamente sobre isso. Para quem não é do setor, para quem não cobre o setor, explica para a gente por que que o capital de giro ele é tão importante.
Ele tem prazo prazo de pagamento e prazo de recebimento. Então ele vende para gente em 10 parcelas sem juros, digamos. Não é nunca sem juros porque tá embutido no preço, mas enfim, ele vende a 10, 12 vezes, em média 10 vezes, 6 a 10 vezes sem juros. Isso custa muito caro para ele no final das contas, no Brasil, especialmente no Brasil com as linhas muito caras. E ele tem que captar do mercado pagando taxas muito altas junto aos bancos e acaba tendo que financiar essa diferença do que ele capta no mercado para o que ele vende para gente com que vai ser com banco.
Essa conta é difícil de fechar, Natuza, não tem muito milagre. Onde é que ele financia isso? Junto aos bancos. Ele acaba tendo que captar isso. E como é que ele vai financiando isso? Ele financia no estoque. Ele chega para o fornecedor e vai lá na indústria. Onde é que ele financia essa diferença do que ele vende pra gente, do que ele pega com o banco? Com a indústria. Ele chega para a indústria e fala: olha, eu te pago em 120, 150, 190 dias.
E vai alargando o máximo possível esse prazo. Só que a indústria também não consegue fechar essa conta de maneira indefinida. Então é sempre um ajuste entre prazo médio de pagamento, prazo médio de recebimento e estoques. São essas 3 linhas que fazem com que ele consiga rodar o dia a dia. É o que a gente chama de ciclo financeiro. E onde que que ele faz? Ele começa a comprar menos. Comprar menos, vender menos afeta o quê? Afeta a receita de vendas.
É por isso que a gente vê empresas com estoque mais ajustado. Você chega na loja, você não consegue necessariamente o produto que você quer, na cor que você quer, no prazo que você quer. A gente já sente isso ao longo dos últimos anos no dia a dia. Você vai, você não consegue a geladeira no modelo que você busca, produtos mais populares são mais difíceis de se encontrar. Tudo isso, no final das contas, Natuza, é efeito dessa situação muito deteriorada no varejo.
E qual foi o deflagrador disso? Assim, dá para a gente dizer o que que veio primeiro? Vieram primeiro juros altos? Veio primeiro endividamento das famílias? Porque isso também conta, né, nesse ciclo que você nos relata. Veio gestão inadequada dessa atividade? Administração muito arriscada que vai desaguar num problema de capital de giro? Qual é aí o ovo ou a galinha da história?
Eu não tenho dúvida que se a gente não tivesse com juros tão altos tanto tempo, a gente não estaria na situação que a gente está. Eu ouço isso de muitos empresários. Eu não quero dizer que ao mesmo tempo a gente não tem empresas muito bem administradas que estão passando pelos juros altos e estão conseguindo sair dessa situação ou estão conseguindo passar por essa situação sem recuperação judicial ou extrajudicial. Mas é muito tempo com juros lá em cima.
Isso é muito danoso. Ao mesmo tempo, eu também entendo que faltou medidas mais conservadoras quando poderiam ser tomadas medidas mais conservadoras. Por exemplo, vou ser específica, vou colocar o dedo na ferida: por que abrir tantas lojas ou por que demorar a tomar medidas duras? Determinadas redes demoraram a fazer isso, ainda foram um pouco mais agressivas nos projetos. Além disso, Natuza, a gente tem que lembrar que tem varejistas que têm em seus conselhos gestores que não são do varejo, não são do setor, tiveram remunerações altas nesses últimos 4, 5 anos.
E num contrassenso total, isso tem sido discutido duramente no mercado hoje, porque remunerações altas no mercado difícil. Então eu acho que é um momento também para a gente discutir que tem que ser tomadas medidas duras para todo mundo quando o mercado vai mal.
Eu fiquei curiosa para entender, você citou o Magazine Luiza, né? O Magazine Luiza também atravessa esse período longo de juros altos. O que que eles fizeram de diferente que as demais, ou essas em particular que estão em dificuldade, não fizeram?
O Magazine Luiza tem gestores de varejo na linha de frente da empresa, que conhecem muito bem varejo, em primeiro lugar. Segundo lugar, a família, a própria família que é acionista, colocou mais de R$1 bilhão 1 milhão e meio, parte disso foi do bolso, uma parcela foi do bolso na companhia recentemente para reforçar o caixa da companhia, inclusive o capital de giro da companhia, e atravessar uma parte desse processo para não ter que pedir para banco, né?
Uma parte acabou tendo que pedir um pouco para banco e negociar isso e cortar na pele. Seguraram abertura de loja, estão há mais de 2 anos, se eu não me engano, em abrir nenhuma loja. Se associaram com plataformas asiáticas, inclusive foram muito criticados porque se associaram com plataformas asiáticas, acabaram de se associar com a Amazon, porque entenderam que precisavam se associar com a Amazon, tomaram medidas duras. E além disso, é fundamental que tenha uma gestão estável.
A Casas Bahia, por exemplo, passou por duas gestões em cerca de 5 anos, 6 anos, que tomaram medidas bem diferentes, foram para um caminho, e depois entrou uma nova gestão, foi para o outro caminho. Isso custou dinheiro para a companhia. Além disso, ela teve um desgaste na imagem, Falta de confiança que afetou a credibilidade da companhia, investidores e gestores passaram a ter menos confiança nos passos que a companhia foi tomando, a rede sofreu uma forte concorrência de plataformas asiáticas, plataformas estrangeiras como a Amazon, somado a juros altos.
Confiança e credibilidade também pesam, assim, e a Casa Bahia teve isso afetado nos últimos anos e a Magazine Luiza tentou proteger.
Adriana, para a gente finalizar, faltou falar dessa enxurrada de empresas à la Amazon. Você passou pela Amazon, Mercado Livre, as empresas chinesas, o e-commerce. O que que de estrutural vem disso também?
Essas empresas, elas têm, junto com farmácias inclusive, e uma parte do atacarejo, são negócios que falando em boas notícias, têm caminhado bem, porque eles têm conseguido investir no negócio, são empresas que conseguem, têm acionistas com capital, com recursos, têm investido nos ativos aqui no Brasil, tem uma onda de investimentos, de geração de emprego, inclusive, em logística, em tecnologia, há projetos de longo prazo para investimento no Brasil, tanto em farmácias quanto nas plataformas de e-commerce, Obviamente afetando duramente, especialmente o segmento de moda no Brasil.
O segmento de moda tem sido mais duramente afetado. A gente tem informação de uma audiência pública em Brasília de um funcionário da Receita Federal, uma audiência pública que aconteceu há pouco mais de 40 dias, em que ele informa que as grandes plataformas online, depois da volta da isenção do imposto de importação, estão crescendo mais de 30% no Brasil. Por conta do fim do imposto de 20%, ou seja, elas estão crescendo, voltaram a crescer mais, as grandes plataformas estrangeiras, Shopee, Shein especialmente.
Compras internacionais de até $50 não terão mais a cobrança do imposto de importação de 20%. O fim da chamada taxa da blusinha anunciado pelo Palácio do Planalto gerou críticas de setores da indústria nacional. O fim do imposto tem impacto imediato imediato no preço dessas compras internacionais. Na prática, o impacto maior deve ser em compras em grandes plataformas, principalmente de produtos vindos da China.
Mercado Livre tem tido crescimentos no Brasil acima de 35%, 40%. É uma plataforma estrangeira, mas com uma base nacional muito forte. Então, o caminho do online no Brasil é um caminho claramente de crescimento. E aí elas estão se associando, né? Casas Bahia se associou com o Mercado Livre, vende no Mercado Livre há alguns meses. Isso tá ajudando ela bastante, tem gerado um fluxo de caixa importante para Casas Bahia. Magazine Luiza tem uma parceria com AliExpress, olha que interessante, e tem uma parceria com Amazon.
Então a gente tem acordos que eles entenderam que precisa ser feito para até para você estar ali na vitrine dessas empresas. E elas têm se virado, as brasileiras, fazendo parcerias com as estrangeiras e não tem volta.
Adriana, dois pontos importantes e rápidos para a gente finalizar. A situação das Casas Bahia Entrou no debate eleitoral candidatos de oposição dizendo, é culpa sua, governo. O ministro da Fazenda, Dário Durigan, disse, não há uma crise sistêmica no setor de varejo.
Quando você tem um cenário de juros apertado, é claro que você tem uma diminuição da atividade que é muito dependente de crédito. Então há uma série de elementos que explicam em grande medida o que tá acontecendo, mas que não justificam um argumento político mais escandaloso sobre crise geral, porque não há. Nós não estamos falando de crise.
E eu queria que você analisasse esses dois pontos. De fato dá para culpar o governo por isso, ou é algo que já vem de muito tempo? E se há ou não uma crise mais séria no setor de varejo brasileiro?
Não é uma crise sistêmica, tá? A gente teve um aumento de RJ, recuperações judiciais, de 20% no primeiro semestre, para quase 1.000 casos, 1986. Para essas empresas, realmente, a situação é crítica, mas a gente não tem uma crise espalhada sobre o setor. O que a gente tem é uma situação extremamente delicada para uma série de companhias. O que tem sido feito é buscar os canais, inclusive de maneira muito correta e muito acertada, que são as RJs e as REs, para se negociar com credores e buscar um caminho de negociação.
Em outros momentos de outros governos, já tivemos por períodos muito difíceis. Tivemos o momento da pandemia em que o governo entrou com uma ajuda de custo relevante que foi fundamental para o setor. Depois tivemos um aumento de juros fortíssimo ali em 2022, isso afetou duramente as empresas e esse aumento de juros contaminou ali o mercado. Tivemos um aumento de juros importante no período da Dilma. O recurso do aumento de juros no Brasil, ele é frequentemente utilizada e os efeitos são conhecidos e são péssimos para o varejo pelas razões óbvias.
O setor no Brasil é altamente dependente de crédito e isso acontece porque nós somos um país que depende desse canal para crescer. Nós não somos um país que depende de renda para ser, para consumir. Nós dependemos de crédito e de 10 parcelas sem juros, o que é péssimo. Nós não somos um país da venda à vista, nós dependemos de 10, 20, 24, até 30 vezes já empréstimos em 30 vezes para venda assim com juros. Então infelizmente somos um país com essa característica, então pagamos esse preço.
Adriana, muito obrigada pelas explicações todas, bom trabalho para você.
Obrigada, obrigada a todos.
Este foi o Assunto, podcast diário no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
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