ESPECIAL ELEIÇÕES: o que esperar das nossas relações com o mundo?
Bruna Santos
Guilherme Casarões
Leonardo Trevisan
Marcus Vinícius de Freitas
Oliver Stuenkel
Ricardo Abreu
- Terras Raras e Tecnologia· TecnologiaRefino nacional de minerais·Reservas brasileiras de terras raras·Lula·Ronaldo Caiado
- Crise Diplomática Brasil-EUA· PoliticaGuerra na Ucrânia·Conflito Israel-Gaza·Irã·Direito internacional·Benjamin Netanyahu
- Posicionamento de Candidatos sobre China· PoliticaChina como parceiro comercial·BRICS·Romeu Zema·Huawei
- Liderança Regional Brasil e Vizinhos· InternacionalJavier Milei·América Latina·Protagonismo brasileiro
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Um país sob ataque de potência estrangeira. A liderança regional de um continente dividido. Um dos maiores exportadores de alimentos do mundo e rumo à liderança desse ranking. Esse é o Brasil que chega às urnas em outubro. Somos um país que está em posição estratégica na reorganização geopolítica do mundo e os candidatos à presidência da República têm ideias e propostas muito diferentes entre si a respeito de qual caminho o Brasil deve seguir a partir de 2027.
É disso que trataremos neste episódio especial de eleições aqui no Assunto. Neste episódio, damos início a uma série sobre alguns dos temas mais relevantes que serão debatidos nesta eleição. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto especial de eleições hoje é: um Brasil para 2027, o que esperar das nossas relações com o mundo? Neste episódio, eu converso com Ricardo Abreu, repórter e apresentador da TV Globo e da GloboNews.
Você também vai ouvir aqui comentários de especialistas que conversaram com o nosso produtor Carlos Catellan. São eles: Oliver Stumkel, Leonardo Trevisan, Bruna Santos, Marcos Vinícius de Freitas e Guilherme Casarões. Segunda-feira, 24 de agosto. Ricardo, você conversa com muita gente da área de relações internacionais, você tem muitas fontes no Ministério das Relações Exteriores do Brasil, e eu começo te perguntando Como é que o corpo diplomático brasileiro tem visto a agência internacional brasileira no centro do debate eleitoral de uma eleição super polarizada?
É interessante essa pergunta para a gente começar, Natuza, porque quando você vai analisar todo o histórico desse mandato do presidente Lula, os planos de governo dele, dos adversários, claro, cenário internacional, não é nenhum exagero a gente afirmar que pela primeira vez, ao menos na história recente, a política externa ganhou protagonismo no debate eleitoral, especialmente o presidencial, não só por um ou dois tópicos, né, mas vários de questões que envolvem aí ideologia, mas também o bolso do brasileiro, questão da segurança pública sentida e reclamada também pelo eleitor brasileiro diariamente.
Você tem, por exemplo, a questão do conflito entre Hamas e Israel que se intensifica em 2023, no primeiro ano do governo Lula. Então levanta também um debate intenso até os dias de hoje na questão do território de Gaza, a guerra entre Israel e Irã que impacta no preço da gasolina, as discussões com nossos vizinhos da América Latina, mas sim sobretudo pela relação com os Estados Unidos, né? Tá totalmente estremecida, para dizer o mínimo, diante da postura do governo Trump e das respostas do presidente Lula.
Essa eleição nos traz grandes novidades no que diz respeito às questões internacionais.
Você escuta Guilherme Casarões, professor da Florida International University e um dos coordenadores do Observatório da Extrema-Direita.
Em primeiro lugar, nunca houve tanto engajamento de atores externos no processo eleitoral brasileiro, o que tem guiado de maneira muito direto o posicionamento de candidaturas como a do presidente Lula, que fez da soberania um dos principais pontos de campanha, e do senador Flávio Bolsonaro, que vem buscando mobilizar apoio junto à Casa Branca, mas também por parte de governos da Argentina, de Israel, entre outros. A linha que divide o doméstico do internacional tá cada vez mais tênue.
Candidaturas tratam temas de política externa de maneira estreita, seletiva e limitada, dizendo pouco ou nada sobre o lugar que o Brasil deverá ocupar na região e no mundo a partir de 2027.
Eu queria até entrar um pouco mais profundamente em algo que é a influência americana nas eleições. É também um caso de soberania. Então eu quero te perguntar como é que os diplomatas brasileiros estão vendo, estão encarando essa intervenção.
Você tem um olhar eleitoral e tem o olhar macro do tabuleiro geopolítico. Olhando pelo lado da família Bolsonaro, você tem o ex-deputado Eduardo Bolsonaro na ponta ali, sinalizando de forma firme a ala ideológica do governo Trump, é o MAGA, né, aquele movimento tecnológico ali, que tem também uma ponta liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio, com sua busca de ações que nós já vimos acontecerem, como sanções, autoridades brasileiras, o tarifação.
Qual é a avaliação da diplomacia? É que há um desejo bolsonarista por uma pressão que os ajude no contexto eleitoral. Mas do outro lado, você tem uma intenção vista pela diplomacia brasileira, por parte do governo Trump, de que vença na disputa um candidato alinhado ao perfil trumpista. Nós estamos vendo Alguns países da América Latina vendo aí candidaturas vencedoras da direita. Recentemente você teve Keiko Fujimori no Peru, Abelardo de la Espriella na Colômbia.
Então, para a ala internacional do Palácio do Planalto, para alguns diplomatas, é um cálculo de Trump o seguinte: de nada adianta esses países irem para a direita se o Brasil não for. Então, claro, todo esse cenário de tentativa também de interferência ou de tensão fabricada, Natuza, para os diplomatas com que eu falei, gera muito ruído na diplomacia oficial de Estado. Porque a diplomacia oficial opera por canais institucionais, por previsibilidade de longo prazo, e nada disso está acontecendo.
O Brasil tampouco deve ambicionar ser uma colônia tanto chinesa como norte-americana.
Marcos Vinícius de Freitas, professor visitante da Universidade de Relações Exteriores da China e Senior Fellow do Policy Center for the New South.
Quando a gente leva essa esquizofrenia para o debate político, parte do pressuposto de que o mundo não evoluiu desde 1989, queda do Muro de Berlim. A gente leva muito essa ideia dualística equivocada de um mundo bipolar em que um lado é bom e o outro é ruim. Até porque quando nós radicalizamos um lado ou outro, a gente necessariamente começa a tomar uma série de medidas equivocadas. E alianças são muito fluidas, né? Você vê, por exemplo, os países do Golfo que basicamente terceirizaram a sua defesa para os Estados Unidos e acabaram de descobrir nessa guerra do Irã que a função norte-americana na região é, antes de mais nada, questão do Estado de Israel.
Então, esse que é o grande erro neste debate político, esta esquizofrenia de posicionamento, quando nenhum dos dois interessa para o Brasil no longo prazo. O Brasil tem que saber aquilo que precisa e como quer ser no futuro.
Ricardo, tem um outro ponto aqui que eu queria muito pegar emprestado o teu olhar, que é sobre esse grande dilema que o Brasil vive hoje. Aliás, não só o Brasil, Rúbio, né? Muitos países importantes do mundo estão vivendo um dilema parecido, que é como lidar com Trump. E no caso brasileiro em particular, como lidar com Trump sob a influência do Marco Rúbio. Então, para a gente avançar esse sinal, eu queria muito que primeiro você me contasse aqui como as principais candidaturas à presidência da República têm tratado a questão Trump/Rúbio, e que você completasse também com uma análise dessas fontes com quem você conversa sobre como o Brasil deve se relacionar com esses que são personagens muito instáveis?
Primeiro pelas propostas, né, pelos programas de governo e também discursos, porque muitas vezes o discurso até em relação aos Estados Unidos não tá ali no papel para alguns candidatos, mas surge no palanque. Pelo lado do presidente Lula, não, né, ele é candidato à reeleição, tá usando isso demais já para fazer da soberania carro-chefe, até nesse norte de propostas. Usou esse termo no programa. Lula já viu nos últimos anos também que defender soberania e brigar com a postura de Trump dá a ele uma confiança do eleitorado, que nas próprias pesquisas já aponta isso.
E aí tem a ala diplomática do Planalto também, que me diz o seguinte: vamos sempre defender o diálogo de dois líderes experientes, mas a gente vai reagir pontualmente às questões mais duras e imposições. Então é saber quando responder. Sem cair numa provocação barata, mas não deixar de responder e demonstrar fraqueza. É uma linha muito tênue. Então você tem esse discurso ali da diplomacia do Planalto, mas que tá alinhado também já a postura eleitoral do presidente Lula, que busca reeleição.
O presidente Lula conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por cerca de 1 hora e 20 minutos.
Eles trataram sobre as tarifas impostas a produtos brasileiros e sobre o crime organizado. Num diálogo avaliado pelo Palácio do Planalto como amistoso e cordial. O embaixador Jameson Greer, que é o chefe do USTR, que é o Escritório de Comércio Exterior dos Estados Unidos, entrou em contato depois da ligação de Trump com Lula para conversar com o nosso ministro do Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, e pediu para ele um encontro, para os dois se encontrarem.
Isso significa a provável abertura ou reabertura das negociações entre os dois países.
Quando você vai para o discurso de Flávio Bolsonaro, você vê até uma certa cautela, justamente para não perder o voto desse eleitorado que rejeita uma intervenção, mas também buscando o eleitor que votou no seu pai, que tá ali querendo se alinhar mais a Donald Trump. Mas no programa, Flávio propõe o que ele chama de pragmatismo absoluto, até na questão comercial. Ele fala ali de Brasil em acordo de comércio de Américas, mas ele disse que queria usar as reservas de terras raras como atrativo negativo para os Estados Unidos.
Então tem uma visão de olhar com carinho para Trump que se repete em outros candidatos, tá, como Caiado e Zema. O Ronaldo Caiado critica o afastamento com a Casa Branca, por exemplo, ou seja, ele mais bate na postura do Palácio do Planalto do presidente Lula do que na Casa Branca. E Romeu Zema trata os Estados Unidos como um grande cliente que merece atendimento VIP. Então ali ele repete esse alinhamento mais ideológico de olhar com mais carinho para os Estados Unidos, independentemente de postura da Casa Branca ou do de Estado.
O Renan Santos, ele não foca na tensão diplomática, ele propõe umas parcerias na área de defesa, fala ali de semicondutores, mas também cita os americanos na hora de fazer essa parceria. Também um ponto interessante dos candidatos: Caiado, Zema e Renan Santos ficam ali numa sinuca de bico, evitando fazer críticas abertas ao tarifação, a Washington, porque não querem desagradar o eleitorado conservador pró-Trump.
A política externa, ela acontece dentro da política, claro, mas também dentro de uma estrutura estrutura econômica e geopolítica que nenhum governo controla sozinho.
Bruna Santos, diretora do programa Brasil do Inter-American Dialogue em Washington.
A campanha eleitoral, ela consegue mudar a linguagem, os instrumentos, o tom, até o grau de tensão da política externa muito mais rapidamente do que consegue mudar os interesses estruturais do país. Por isso acho importante a gente separar 3 tempos. Primeiro, a campanha eleitoral, ela altera sim os incentivos políticos. Depois você tem os mercados precificando essas mudanças, essas mudanças políticas, precificando o seu potencial e seu risco.
E depois da eleição, os constrangimentos estruturais, eles voltam a pesar. Então, um governo pode aproximar ou afastar o Brasil de determinado parceiro, mas comércio, investimento, tecnologia, cadeias produtivas, geografia reduzem muito o espaço para essas rupturas completas, uma vez passadas as eleições e precificadas essas mudanças. Né? Então é menos sobre qual país cada candidato diz preferir e mais uma eleição em que a gente precisa prestar atenção no que esse candidato pretende fazer quando esses parceiros exigirem escolhas.
Que eu acho que essa é cada vez mais a realidade dos Estados Unidos, bem pressionando para limitar a presença chinesa. E a China, que já é parte estrutural da economia brasileira, não pode ser colocada para fora do país de uma noite para o dia. Isso é completamente inviável, né? Então a pergunta para o próximo presidente será: até onde o Brasil consegue preservar opções, consegue usar o comércio, usar investimentos, usar a capacidade doméstica, até o Mercosul, para evitar que uma relação externa passe a determinar todas as outras, né?
A geografia do Brasil não muda em janeiro, a China não deixa de ser um parceiro comercial importante em janeiro, os Estados Unidos não deixam de ter um peso extraordinário no cenário de investimentos diretos no Brasil.
O que me impressiona no discurso dos candidatos de oposição é que se a gente transferisse essa discussão para uma eleição nos Estados Unidos, toda vez que há algum sinal de soberania americana ameaçada, não é raro ver republicanos e democratas se unindo contra ou uma interferência externa ou algum tipo de ameaça. Aqui no Brasil não. Os candidatos de oposição, eles ficam tão presos à crítica eleitoral que é do jogo, né? O meu ponto é, é um caso de soberania em que os candidatos de oposição são incapazes de criticar o interventor, né? Isso é muito surpreendente de enxergar na dinâmica dessa eleição.
Exatamente. E é o ponto sempre levantado quando você vai falar com o Itamaraty ou com alguns diplomatas ali até da área comercial, né? Eles também se espantam com a falta de críticas abertas ao tarifaço, o que a gente já acompanhou ao longo do ano, né, quando a gente teve políticos alinhados ao bolsonarismo que foram aos Estados Unidos negociar o tarifação, se posicionaram exatamente contrários à postura de Eduardo Bolsonaro, por exemplo.
Mas agora, quando o assunto é tentar angariar votos que podem ir para Flávio Bolsonaro, e aí são outros candidatos que estão no campo da direita, eles temem qualquer movimento. É uma sinuca de bico, porque se vão muito para um lado podem perder, se vão para o outro deixam de ganhar. Agora, tem um ponto rapidinho que a diplomacia sempre lembra também, também é que é importante observar com cautela e paciência no âmbito de como lidar com os Estados Unidos, porque depois do resultado da eleição você tem também nos Estados Unidos eleições do Congresso americano, as midterms, né?
Então, a partir disso, a postura da Casa Branca também pode acabar mudando. É muito impensável tentar calcular qual vai ser o próximo passo de Donald Trump.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Ricardo Abreu.
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Bom, você explicou muito bem como todas essas candidaturas dialogam com o fator Trump, fator intervenção nas eleições daqui. Agora eu quero dar um giro no globo terrestre e olhar para a China. Como é a conduta desses candidatos que estão se enfrentando em relação aos chineses?
A gente tava falando de cautela, né, para bater no tarifação. Esse é outro ponto interessante de se observar, é a cautela de todos os candidatos da oposição ao presidente Lula quanto à China. China é parceiro comercial número 1 do Brasil, Então é difícil você querer colocar um discurso que na prática não vai acontecer.
Levando em consideração aquela frase famosa do Lord Palmerston, você escuta Marcos Vinícius de Freitas, o primeiro-ministro britânico, que dizia que nas relações internacionais você não tem amigos perenes nem inimigos perenes, mas somente são perenes os interesses. É isso que eu acho que é fundamental que o Brasil tenha.
A gente vê isso, por exemplo, aqui no país vizinho, na Argentina. O Milei bate na China, bate, e a Argentina aumentou ali seus investimentos chineses no seu país. Mas isso não tá acontecendo nas plataformas desses candidatos da oposição, começando pelo candidato Lula. Como nós vimos, né, nos últimos anos, você tem um objetivo ali estratégico de colocar o BRICS como um instrumento importante para reforma da governança global, uma voz no sul global.
Sempre foi historicamente, quando você tem esse alinhamento na política externa ainda do Celso Amorim, esse olhar para o Sul global, né, e principalmente de uma defesa do multilateralismo. No próprio plano de governo petista tá lá o bloco citado, um peso também para o Novo Banco do Desenvolvimento. São instrumentos que a plataforma do PT, do presidente Lula, entende serem centrais para fortalecer esse caminho.
À medida que nós olhamos para o BRICS e vemos, entendemos o BRICS como um instrumento momento de reformulação da governança global, e o Brasil é membro fundador do BRICS e um dos países importantes do BRICS, então o Brasil ganha muito na sua projeção comparativamente, porque deixa de ser um país emergente, deixa de sair da vala dos países emergentes e se torna um país BRICS, um daqueles fundamentais que tem um relacionamento muito próximo das principais potências econômicas do século 21, que serão sem dúvida China e Índia.
Então isso é um um aspecto fundamental na projeção inclusive de imagem regional, porque o Brasil foi o que foi escolhido nesse processo de construção desta nova ordem global.
Agora, é curioso quando você fala de BRICS que só o plano de Romeu Zema é o que propõe a saída, ele ainda diz diplomática formal do BRICS. Ele até classifica o bloco ali como um Frankenstein, né, faz essa citação pelo fato de o bloco ter aumentado bastante o número de países, também países auxiliares, né, ou países paralelos que compõem o bloco de outra forma que não os originais. Mas o Zema, na sua plataforma, critica o BRICS, diz que afasta o Brasil das democracias ocidentais, embora ele mesmo defenda manter comércio com os chineses.
E a política externa está sendo utilizada para mobilizar eleitores.
Você escuta Oliver Stunkel, comentarista da GloboNews, professor de relações internacionais da FGV e pesquisador da Universidade de Harvard e do Carnegie Endowment.
Porque o que a gente já viu durante o governo Bolsonaro foi que, apesar da retórica anti-China e pró-Estados Unidos, o comércio com a China só cresceu. E o governo Bolsonaro, apesar de querer se aproximar de Donald Trump, não cedeu à pressão dos Estados Unidos, por exemplo, que queriam que o Brasil tirasse a empresa chinesa de telecomunicação Huawei do país. Uma divergência entre a retórica que sugere grandes mudanças na política externa, mas na realidade muitas vezes tem mais nuance.
Já Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Renan Santos, eles tratam da questão da China de forma bem branda. Eles focam ali no que eles chamam de pragmatismo econômico.
Não é ficar em cima do muro, mas é ativamente diversificar as relações. O problema é que isso já vai ficar mais caro, já está ficando mais caro. A pressão dos Estados Unidos e da China para o Brasil escolher um lado tende a aumentar, e ela vem menos pelo comércio tradicional e mais pela tecnologia tecnologia. Então estamos vendo o surgimento de uma espécie de cortina de ferro digital na área de inteligência artificial, de semicondutores, de infraestrutura de rede.
E aí fica bem mais difícil ficar dos dois lados, né? Quem fornece o chip, quem opera o data center, quem define o padrão da rede, tudo isso vira questão geopolítica. E nesse terreno a escolha tende a ser cobrada.
E aí, entrando na diplomacia, né, os diplomatas entendem que sair do BRICS, mesmo que haja crítica críticas ao bloco pelo seu tamanho. Isso não deve ser cogitado, seria uma saída vista como um erro estratégico de isolamento, porque mesmo tendo aumentado o grupo, ele dá muito destaque ao Brasil. O Brasil se senta na mesa de outros gigantes, como por exemplo a China. Então, do ponto de vista de relação, falando especificamente da China, só o discurso do Instagram é uma coisa, mas o plano de governo, nesse plano ninguém quis bater na China. Todo mundo segue a cartilha daí distância.
Agora, olhando aqui para o nosso entorno, para os nossos vizinhos, como é que se avalia que o Brasil deve lidar com a sua liderança regional sendo contestada pelos líderes dos próprios países vizinhos, vide Javier Milei, por exemplo, e no meio desse avanço dos Estados Unidos na política interna dos países daqui da região.
Os diplomatas, eles sempre trazem um ponto interessante, Natuza, que a postura de Javier Milei, ela é muito específica, porque o presidente tem o seu discurso à direita, mas ele telefona para o presidente Lula, reconhece, manda uma mensagem para o presidente Lula reconhecendo e agradecendo o reconhecimento da sua vitória, dizendo que quer participar de conversas e trabalhar de forma paralela. Então, no plano das falas evidentes e contrárias à persona do presidente Lula, Javier Milei têm se mostrado mais diferentes.
Muito embora você bem destaca, o tabuleiro mudou muito quando você olha as cores ali dos países, né? Mas os próprios diplomatas reforçam que o Brasil tem por natureza esse protagonismo na mesa da América Latina, muito embora essas dissidências tenham acontecido, resistências de países vizinhos.
Apesar da influência chinesa crescente, apesar do maior engajamento dos Estados Unidos, o Brasil precisa olhar possibilidades e considerar possibilidades de ampliar a sua relação com os vizinhos latino-americanos, mesmo com divergências ideológicas. É fundamental pensar sobre formas de ampliar a relação com países como Peru, Chile, Argentina, e também estreitar os laços com o Canadá e o México, que estão no meio de um processo de diversificação para reduzir suas dependências dos Estados Unidos.
E agora, te ouvindo um pouco sobre o que o programa desses candidatos diz em relação, por exemplo, à União Europeia, Oriente Médio, continente africano, Sudeste Asiático? O que eles dizem a esse respeito e o que os analistas que você ouve comentam?
Quando você olha para essas diferentes regiões, especialmente no período que a gente vive com ameaças de mais tarifas dos Estados Unidos, dois tarifaços já impostos pelos americanos, a ampliação da área de comércio, assim, do comércio internacional, é muito precisa olhar primeiro para a Ásia além da China.
Então, para país como Índia, Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia, são mercados onde há muito potencial de crescimento, que países que ainda não aparecem tanto no radar do setor privado brasileiro, que aparecem pouco no debate público. São países onde a demanda por alimentos e energia cresce muito. Depois, é fundamental olhar Golfo, onde países como Arábia Saudita se destacam com grandes investimentos em tecnologia, como inteligência artificial, mas também se tornam cada vez mais atuantes no âmbito geopolítico.
Então essa região também é fundamental. Além disso, a Europa agora, pois da ratificação do acordo, é uma região fundamental para o Brasil, onde existe um espaço para crescer graças ao maior acesso ao mercado O Brasil tem ambições, sim, de ser uma potência média reconhecida.
Leonardo Trevisan, doutor em ciências políticas e professor de relações internacionais da ESPM.
O Brasil é bastante interessante para o mundo. Quando nós falamos a expressão segurança alimentar, o Brasil está em primeiro lugar. Pensa soja, pensa milho, pensa proteína animal. O Brasil é o primeiro produtor no mundo desses produtos e fora de uma série de outros. Então, portanto, nós temos todos usar uma expressão bem nossa, cacife para essa pretensão. Nós não precisamos do aval nem de China e nem dos Estados Unidos para esse tipo de presença no contexto mundial.
Antecede a esse duelo China-Estados Unidos a nossa presença no contexto internacional. Portanto, de algum modo, o Brasil tem fatores muito representativos dessa presença. Vamos usar uma expressão bem típica da diplomacia: na mesa que decide. O Brasil não está reivindicando lugar, ele tem esse lugar na mesa A gente nunca pode esquecer que o Brasil é o 13º PIB do mundo.
Isso tem um significado, que o foco do Brasil deve ser exportar melhor, não só exportar mais, né? Fazer com que a pauta comercial supere a dependência também de exportar apenas, por exemplo, commodities brutas. Fazer com que a postura do Brasil agregue valor na cadeia internacional. Citam semicondutores, citam economia verde, as baterias, né? E um caminho claro que se apresenta é o das terras raras. É investir em tecnologia, em refino nacional, em vez de só cavar, enviar o minério bruto para ser processado fora.
E aqui entra também o ponto de candidaturas, e é interessante ver que Lula e Caiado dialogam muito nos planos nesse ponto. Os dois citam prioridade do processamento doméstico dos minerais estratégicos. E aí eu jogo aqui até propostas de Flávio e Romeu Zema, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, que querem uma adesão à OCDE para atrair capital.
Medidas de combate à corrupção estão entre os requisitos para o Brasil entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
As negociações podem levar até 5 anos.
A entidade reúne as maiores economias do mundo.
Fazer parte da OCDE ajuda a modernizar o país e amplia a credibilidade junto a investidores. O pedido de adesão do Brasil à entidade foi feito em 2017. Em 99, os Estados Unidos concordaram em apoiar a candidatura do Brasil, mas os europeus resistiram em razão de divergências com as políticas ambientais do governo Bolsonaro. O Renan Santos, ele vai por outro caminho nas apostas, ele quer uma infraestrutura no Nordeste com inteligência artificial.
Mas o fato é que para diplomacia, para além das propostas, é sempre importante abrir o leque diante do que a gente tá vendo com parceiros como os Estados Unidos de tarifas nos surpreendendo, abrir o leque de mapas para onde investir e onde ampliar essas parcerias comerciais.
Só para ver se eu entendi direito, no tópico terras raras, terras raras são o que vão nos deixar no game, né? No momento em que os organismos bilaterais estão ruindo ou sem poder ou sendo ameaçados e perseguidos por países como Estados Unidos, por exemplo, a lei da selva vai prevalecer, vai vencer o mais forte, ou vai perder menos aquele que tem alguma coisa para acontecer. O Brasil não tem como ficar de lado porque ele alimenta o mundo, né? A gente tá falando do agro brasileiro, mas também tem as terras raras.
Você deve ter ouvido esse termo esse ano. Bem, para começar, apesar do nome, elas não são nem terras nem raras. São um grupo formado por 17 metais relativamente abundantes na crosta terrestre. É mais comum encontrar terras raras do que ouro, por exemplo. O problema é que elas costumam aparecer dispersas em pequenas quantidades e misturadas a outros minerais. Separá-las é caro e complexo. As terras raras são essenciais para tecnologia moderna.
Um dos usos mais importantes é na produção dos superímãs, que mantêm o magnetismo por décadas. Estão em turbinas eólicas e carros elétricos, por exemplo. Nós temos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, 23%.
De um ponto de vista geral, quem melhor tá tratando, ou quem mais está tratando deste tema nas suas propostas governo, do governo Lula, ainda antes da eleição.
É bem verdade, o governo Lula começa a se debruçar sobre esse tema na virada do ano, especificamente esse assunto de terras raras, que entra até curiosamente, lembrando, dentro das negociações com os Estados Unidos. Começa a surgir o fato de que os Estados Unidos poderiam colocar na mesa terras raras. Isso é conversado inclusive entre o presidente Lula e Trump em um dos seus encontros. Mas o fato é que de candidatura é isso, Lula e Caiado, eles evidenciam a necessidade de olhar para o refino nacional e não só enviar o minério bruto que vai ser processado fora e depois ter que comprá-lo novamente.
Agora, passando para um outro tópico que nos atravessou e vem nos atravessando de forma muito triste ao longo dos últimos anos, que são as guerras, Ricardo. O Itamaraty tem uma visão muito reativa a conflitos e guerras, se coloca contra nos grandes debates debates internacionais, embora costume dialogar com todo mundo, né, mesmo com aqueles com os quais a diplomacia brasileira não costuma concordar.
Nós temos posições, posições que são da ONU, nós temos posições coerentes com a carta da ONU. Exemplo: a situação de Gaza, por exemplo, e outras situações do mundo de direitos humanos, de violência. Isso é realidade comercial, a adesão geopolítica, nós somos muito cautelosos. Ainda bem para todos nós.
A gente tem a questão Gaza, a gente tem a questão Irã, a gente tem a questão Ucrânia o tempo inteiro batendo a porta e pedindo posicionamento da diplomacia brasileira. Como é que os candidatos estão se posicionando, se é que eles estão se posicionando em relação a guerras e a essas três em particular?
Foram conflitos muito seguidos. A questão Rússia e Ucrânia ainda surge em 2022, na gestão Bolsonaro, mas toma um campo grande também ao longo dos últimos anos, a exemplo dos outros conflitos, e que exigem muito do Itamaraty, né, Natuza? Posicionamentos contrários a ataques, ao respeito ao direito internacional, né, ao Estado, respeito aos limites do Estado, que foram rompidos muito durante esses conflitos. Então o Brasil se coloca ali criticando e dentro desse contexto ideológico que toma o debate mundial, isso acaba influenciando muito também o posicionamento polarizado e as críticas à crítica.
A gente viu muito críticas ao governo Lula ao longo dos últimos anos em relação à sua postura na questão de Israel. Talvez a gente tenha exemplos mais simbólicos dessa divisão até, né? O presidente Lula, que já foi declarado persona non grata, em 2024 o governo convoca de volta para o Brasil o embaixador brasileiro em Israel. Lula é duro crítico à de Benjamin Netanyahu nos conflitos que ele trava, especialmente na questão de Gaza.
E aí o plano de governo de Lula chega a condenar o que ele chama da lógica bélica que transforma o mundo numa arena de disputa. Ele reforça também no plano a necessidade de defender resoluções humanitárias na ONU, defende que o Conselho de Paz também, que foi criado, priorize cessar-fogo, reconstrução de Gaza. A gente tá vendo as dificuldades de um diálogo até hoje para isso, muito pelas posições políticas de Benjamin Netanyahu.
Flávio Bolsonaro faz uma demarcação clara de alinhamento com Israel, vai pelo outro caminho oposto, cita uma visita a Netanyahu, critica a política do governo Lula com as autoridades israelenses, a postura de Lula com o Irã. E Zema vai na mesma linha, foca na condenação do antissemitismo, ele fala isso no governo, no retorno do Brasil àquela aliança mundial global pela memória das vítimas do Holocausto, e Aí eu fui olhar o plano de Caiado, interessante, porque Caiado prega um papel pacificador.
Renan Santos nem cita as questões específicas dos conflitos. Mas aí eu volto a Ronaldo Caiado, que em 2024, durante o tensionamento ali das relações do Brasil com Israel, ele vai visitar Netanyahu, chega ali depois de tirar foto com Netanyahu a pedir desculpas ao povo israelense pelas declarações do presidente Lula. Então a gente vê aí também a clara distância entre o discurso diplomático, entre o plano de governo e o palanque.
Candidatos também vão entender Gaza, questão da Ucrânia, o Irã, como atalhos para se conectar com seus eleitores mais fiéis, cada qual com o seu interesse. Então está muito norteado.
Ricardo Abreu, muito obrigada pelo esforço de reportagem e por topar conversar aqui com a gente, fazendo esse panorama do que os principais candidatos estão propondo para política externa brasileira. Bom trabalho.
Obrigado, eu que agradeço, sempre um prazer.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.