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Lulinha e Marcola nas investigações da PF

21 de agosto de 202628min
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Convidado: Reynaldo Turollo Jr, repórter do g1 em Brasília. A Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu que os três inquéritos que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, sejam enviados à primeira instância do Judiciário. As investigações que miram Lulinha têm origem no esquema de descontos indevidos no INSS – um caso no qual ele não é acusado de envolvimento. Foi ali que a Polícia Federal apreendeu o celular da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, encontrou indícios de que o filho do presidente possa ter cometido tráfico de influência. O conteúdo encontrado no aparelho de Roberta também mostra a conexão dela com Marco Aurélio Santana Ribeiro. Conhecido como Marcola, ele foi chefe de gabinete do presidente da República até julho e, segundo as investigações, recebeu dinheiro da empresária. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Reynaldo Turollo Jr, repórter que está cobrindo o caso desde o início das investigações. Turollo explica os três inquéritos, detalha quais são as suspeitas e conta qual o impacto político disso no núcleo duro da campanha de Lula à reeleição.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
R

Reynaldo Turollo Jr.

ReporterRepórter
Assuntos3
  • Investigacoes Lulinha INSS· SociedadeGuilherme Lupe·tráfico de influência·Ministério da Saúde·Dataprev
  • Caso Marcola e Roberta Luxinger· SociedadeMarco Aurélio Santana Ribeiro·Roberta Luxinger·venda de medicamentos à base de canabidiol·World Cannabis
  • Transferencia de Inqueritos· PoliticaProcuradoria-Geral da República·Supremo Tribunal Federal·Poder Judiciário
Transcrição52 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RTReynaldo Turollo Jr.

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NNNatuza Nery

Mensagens trocadas com uma amiga colocaram Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente Lula, no centro de 3 investigações da Polícia Federal. Duas delas abertas pelo ministro do Supremo, André Mendonça.

?Voz C

Uma é a apuração se o filho do presidente favoreceu empresários junto à Dataprev, que é a estatal responsável pelas bases de dados da Previdência Social e outros programas sociais. Já a outra investigação sobre suspeitas de tráfico de influência no Ministério da Saúde e no gabinete da presidência em favor do careca do INSS. O lobista foi apresentado ao filho do presidente pela empresária Roberta Luxinger. Um dos objetivos dele, de acordo com investigadores, seria conseguir um contrato no Ministério para fornecer medicamentos feitos à base de cannabis.

NNNatuza Nery

E um terceiro inquérito autorizado pelo ministro Flávio Dino.

?Voz C

A Polícia Federal agora vai apurar se Fábio Luiz Lula da Silva e um grupo de pessoas teriam negócios supostamente ilícitos em áreas do governo federal.

NNNatuza Nery

Um enredo que chegou a outro nome muito próximo ao presidente Lula.

?Voz C

O terceiro inquérito trata inclusive também do ex-chefe de gabinete do presidente da República, o Marco Aurélio Santana, conhecido mais como Marcola.

?Voz D

Marcola foi chefe de gabinete da Presidência da República até o mês passado e deixou o cargo para trabalhar na campanha de reeleição de Lula.

?Voz C

Marco Aurélio Santana Ribeiro recebeu da empresária Roberta Luxinger uma minuta de contrato para venda de medicamentos à base de cannabidiol na rede pública.

NNNatuza Nery

A venda poderia render cerca de R$600 milhões. Lembrando que esse contrato não chegou a ser fechado.

?Voz D

A troca de mensagens entre Marco Aurélio e a empresária sobre a minuta com o Ministério da Saúde faz parte de um inquérito aberto pela Polícia Federal para apurar os crimes de tráfico de influência, corrupção e possível favorecimento de interesses de terceiros em órgãos federais.

NNNatuza Nery

No vértice das suspeitas que envolvem o caso Lulinha e o caso Marcola está a empresária Roberta Luxinger.

?Voz D

Nessa mesma apuração, a PF já identificou pagamentos de Roberta Luxinger para Marcola. Ele afirmou que foi um empréstimo pessoal no valor de R$249 mil, já pagos.

NNNatuza Nery

As defesas da Roberta Luxinger e de Marco Aurélio Santana Ribeiro não quiseram se manifestar. Foi a partir dos celulares de Roberta que os policiais encontraram indícios de possíveis crimes. Uma história que começou numa investigação sobre fraudes na Previdência.

?Voz D

O aparelho foi apreendido no fim do ano passado durante a operação que apura as fraudes no INSS.

NNNatuza Nery

Lembrando que Roberta Luxingue, ela manteve negócios com Antônio Carlos Camilo Antunes, que é o careca do INSS, apontado ali como principal operador das fraudes do INSS. A investigação agora pode tomar um novo rumo. A Procuradoria-Geral da República pediu para que os casos saiam do Supremo Tribunal Federal e sigam para primeira instância do Judiciário.

?Voz D

A gente vai chamar também o Dr. Gustavo Sampaio, constitucionalista.

RTReynaldo Turollo Jr.

Fábio Luiz Lula da Silva não goza de foro especial por prerrogativa de função. O artigo 102 da Constituição da República diz que ao Supremo compete processar e julgar algumas autoridades com prerrogativa de foro, dentre as quais deputados federais, senadores, ministros de Estado, o próprio presidente da República e outras tantas, conforme dito na Constituição. A manifestação do procurador-geral da República, Dr. Paulo Gonet, está corretíssima.

Vamos aguardar o que dirá propriamente a Suprema Corte, se acolherá ou não o manifesto da defesa, que neste caso coincide com o manifesto da promotoria.

NNNatuza Nery

Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é os casos Lulinha e Marcola nas investigações da Polícia Federal sobre tráfico de influência. Neste episódio, eu converso com Reinaldo Turullo Júnior, repórter de política do G1 em Brasília. Sexta-feira, dia 21 de agosto. Trollo, quero dar alguns passos para trás contigo para entender como é que o destino de Fábio Luiz Lula da Silva se cruza com o escândalo do INSS.

RTReynaldo Turollo Jr.

Natuza, a gente tem que lembrar quando é que estoura o escândalo do INSS. A primeira fase da Operação Sem Desconta em abril de 2025, e já ali Antônio Carlos Camilo Antunes, que é o careca do INSS, já é alvo da investigação. Ele é um dos principais lobistas que faziam descontos indevidos em aposentadorias aposentadorias e pensões do INSS.

?Voz C

Quem que é o careca do INSS? Ele é apontado pela Polícia Federal como uma peça-chave para entender esse esquema de fraudes dentro do INSS. Um lobista que atuava como intermediador das associações, das entidades que foram beneficiadas com esses descontos irregulares, e dos funcionários do INSS que teriam recebido propina para incluir esses descontos irregulares nos benefícios nas aposentadorias. Segundo a Polícia Federal, ele transferiu, o Careca do INSS transferiu R$9.300.000 para pessoas relacionadas a servidores do INSS só entre 2023 e 2024.

RTReynaldo Turollo Jr.

Naquele momento apreendem o celular dele e descobrem com essa apreensão que ele tinha contatos com uma empresária de São Paulo chamada Roberta Luxinger. Ela é que vai ser o elo com o Lulinha. Então já naquele momento surgem as primeiras suspeitas. De acordo com as investigações, 6 dias depois da primeira fase da operação sobre os desvios no INSS, Roberta chegou a dizer ao Careca: acharam envelope com o nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão.

Antônio Carlos Camilo Antunes respondeu: puts. Na mesma data, Roberta enviou mensagem dizendo: e Antônio, some com esses telefones, joga fora. A PF suspeitou que o nome do nosso amigo fosse uma referência ao Lulinha, porque nesse envelope apreendido tava escrito Fábio e ele continha ingressos para um show em Brasília. Depois também A Roberta, ela tinha um contrato por meio de uma empresa dela de consultoria com o Careca do INSS para fazer prospecção de negócios, e ela ganhou R$1,5 milhão em 5 parcelas de R$300 mil, como a PF identificou.

Quando um ex-sócio do Careca foi fazer um desses pagamentos, ele pergunta para o Careca para quem é esse pagamento, e o Careca responde: para o filho do rapaz. E também um ex-funcionário do Careca do INSS, de uma empresa que o Careca tinha chamada World Cannabis, depõe para a Polícia Federal no final de 2025 e diz que ouvia o Careca falar que pagava uma mensalidade, uma mesada de R$300 mil por mês para o Lulinha. Então isso tudo foi levantando suspeitas.

Em dezembro do ano passado, a polícia faz uma busca e apreensão na casa da empresária Roberta, amiga do Lulinha. E vale dizer que ela é amiga mesmo, a amizade é pública, ela é muito amiga da mulher do Lulinha, Renata. Quando a polícia faz essa busca e apreensão, a polícia apreende o celular da Roberta e ali sim ela encontra as mensagens que agora aos poucos estão vindo à tona, em que são citados interesses comuns dos dois. Então a coisa foi evoluindo de menções até conversas diretas entre a Roberta Luxíngua e o filho do presidente.

NNNatuza Nery

Há indícios no entendimento da Polícia Federal de crimes cometidos pelo Fábio Luiz no escândalo do INSS ou a partir do escândalo do INSS é que se puxou um fio da meada envolvendo o filho do presidente.

RTReynaldo Turollo Jr.

É essa segunda opção, Natuza. A partir das investigações sobre o escândalo de desvios no INSS é que eles tiveram ali o que eles chamam de um encontro fortuito de provas, um encontro ao acaso, que direcionou para o Lulinha. O que evidencia que, no entendimento da Polícia Federal e da PGR, a Procuradoria-Geral da República, esses casos do Lulinha não têm relação com os desvios do INSS diretamente é o fato de que, quando a Polícia Federal pede para o Supremo para abrir investigações no final de julho, ela pede que essas investigações sejam sejam sorteadas livremente entre os 10, né, atualmente ministros do Supremo, porque eles não veem conexão com o caso que está sob a relatoria do ministro André Mendonça, que é o caso do INSS.

Então, já que entramos nesse assunto, só explicar para você os inquéritos que a partir daí foram pedidos. A polícia identificou e a PGR avalizou que não havia a princípio conexão com os desvios do INSS, pediu 3 frentes de investigação diferentes, são 3 inquéritos diferentes. O primeiro deles é para investigar um suposto tráfico de influência e corrupção envolvendo Lulinha, Roberta Luxinger e o Careca do INSS no Ministério da Saúde, que é o caso da tentativa de venda de canabidiol via Ministério da Saúde.

Exato, esse é o caso que hoje a gente tem mais informações e que é o que envolve Roberta Luxinger, Lulinha, Careca do INSS. Já já a gente chega em mais um assessor do presidente Lula, que é o Marcola. Existe uma segunda frente de investigação que é sobre a suposta atuação desse mesmo grupo, né, Roberta Luxinger e Lulinha, para emplacar contratos de uma empresa de tecnologia da informação chamada Structure junto ao Dataprev, né, que é a estatal que cuida dos dados, do processamento de dados da Previdência Social.

NNNatuza Nery

Antes de você partir para terceira, o que que existe de indício nesse caso, nesse inquérito em particular?

RTReynaldo Turollo Jr.

Desse segundo inquérito, Natuza, a gente sabe muito pouco. O que a gente sabe é a empresa suspeita e a atuação da lobista Roberta e do Lulinha, mas a gente não sabe qual foi a extensão. Que a gente sabe que é possível levantar pelos dados públicos é que a empresa pivô desse segundo inquérito, a Structure, né, de estrutura em inglês, ela fechou vários contratos de tecnologia com o governo federal a partir de 2022. Portanto, o primeiro contrato dela ainda é no final do governo Bolsonaro e os subsequentes são do governo Lula.

Essa empresa tem com órgãos públicos, diversos órgãos públicos do governo federal, contratos ali da ordem de R$80 milhões.

NNNatuza Nery

E qual é a participação do Fábio Luiz nessa história? Sabe-se de alguma ou não?

RTReynaldo Turollo Jr.

A gente não sabe o que foi feito. Esse caso a gente tem menos informações. Mas a gente sabe que novamente aí a suspeita é do crime de tráfico de influência. Que que é o tráfico de influência? Usar sua posição, o poder que você tem, para conseguir que um órgão público, um funcionário público beneficie alguém. Então a suspeita é que o Lulinha tem usado da condição dele de filho de presidente da República para fazer com que órgãos públicos recebessem empresários, fechassem contratos eventualmente, então tivessem vantagens a partir dessa condição do Lulinha.

Esses dois inquéritos, Natuza, quando a Polícia Federal pede para eles serem abertos no Supremo e vão para livre distribuição, ou seja, para o sorteio automático eletrônico entre os ministros, eles caem com o ministro André Mendonça por sorteio. Aí a polícia pediu também, nessa leva de três investigações, um terceiro que foi sorteado para o ministro Flávio Dino. Sobre esse a gente tem quase nenhuma informação. A gente só sabe que novamente é sobre suspeitas de tráfico de influência corrupção em outros órgãos públicos, mas a gente não sabe quais órgãos públicos são esses.

NNNatuza Nery

Agora, Turollo, as equipes da Polícia Federal são as mesmas? É a mesma equipe que investiga o primeiro, o segundo e o terceiro inquéritos?

RTReynaldo Turollo Jr.

Todos esses casos estão sob a coordenação daquele CINQ, que é a coordenação de inquérito nos tribunais superiores. Ali, a PF tem vários delegados e várias equipes. A coordenação dos três está sob um mesmo delegado, que é o coordenador do CINQ, o Dr. Vitor.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Turulo.

RTReynaldo Turollo Jr.

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NNNatuza Nery

Você já passou pela relação de amizade entre a Roberta e o Fábio Luiz, que é conhecido na imprensa por Lulinha. O que que mais a gente sabe da Roberta Luxinger? Quem é ela? Porque a PF se refere a ela como lobista, mas ela é uma pessoa conhecida em Brasília? Ela tem tradição de fazer lobby para outras empresas? Qual é a história dela?

RTReynaldo Turollo Jr.

Natuza, nos últimos dias eu fui ouvir 4 pessoas que a conhecem, 2 petistas e 2 que não são do partido, justamente para poder entender um pouco mais como é que ela se aproxima desse grupo. A Roberta se apresenta como uma herdeira de um banqueiro. Na verdade, ela é neta de um ex-acionista do banco Credit Suisse. Então ela diz que tem origem suíça, embora ela tenha nascido numa pequena cidade no interior de Minas, na cidade de Mirai.

E ela vive em São Paulo. Ela se aproxima do PT mais ou menos em 2017, 2018, segundo 2 petistas que conhecem, a conhecem muito bem, me contaram. E eu perguntei por que do PT, já que ela é uma milionária. E eles me explicaram que ela era casada com o ex-delegado da Polícia Federal, o Dr. Protógenes Queiroz, e ele havia sido deputado federal pelo PCdoB, que era da base do Lula, da Dilma, né, ali em 2010, quando Protógenes se elege deputado.

Então ela chega, ela se aproxima da política já por esse campo da esquerda, e portanto ela se torna alguém que militava primeiro no PCdoB e depois vai para o PT. Em 2018, ela concorre a deputada estadual pelo PT. E ali ela se aproxima de vários nomes do PT de São Paulo. Inclusive, o Instagram dela é recheado de fotos dela com lideranças petistas históricas, principalmente as de São Paulo. Eu perguntei se ela sempre fez lobby, porque quando a gente procura pela Lei de Acesso à Informação, a gente vê que eventualmente ela frequentava órgãos públicos em Brasília.

Tem entradas dela, por exemplo, no Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. Então, possivelmente, ela já atuava em Brasília antes do governo Lula, mas isso cresce muito no próprio governo Lula a partir de 2023. E os petistas mesmos contam isso, né? Eles contam inclusive que a Roberta alugou uma casa de luxo, uma mansão no Lago Sul, que é o bairro mais nobre aqui de Brasília, onde ela tinha o hábito de reunir vários agentes do governo, pessoas do PT, e apresentar para empresários.

Então ela é realmente o que a gente costuma chamar de lobista, né? Ela, na definição de uma pessoa que a conhece muito bem, a Roberta é alguém que vive vendendo influência. Ela se diz amiga de todo mundo, diz que pode fazer ponte entre todo mundo. Ela tem isso como ativo. E os petistas com quem eu falei a descrevem como uma pessoa muito sedutora, no sentido de boa de lábia. Ela se expressa bem, ela é envolvente.

NNNatuza Nery

Ou seja, todas as características de alguém que atua com lobby em Brasília. Turolo, um ponto ou um outro personagem dessa história foi conhecido mais recentemente. Você já passou por ele, o Marcola. Marcola foi chefe de gabinete gabinete do presidente Lula. Eu quero que você nos ajude a entender como é que um agora ex-chefe de gabinete do presidente Lula entra nessa história.

RTReynaldo Turollo Jr.

Pois é, Natuza, o Marcola foi uma novidade para todo mundo. O nome dele entra na história porque quando em dezembro do ano passado a Polícia Federal faz a busca e apreensão e apreende o celular da Roberta Luxinger, a polícia analisa essas mensagens e encontra trocas de mensagens entre a Roberta e o Marcola. O Marcola é um cara que acompanhou o presidente Lula em vários momentos da vida dele. Ele é descrito pelo pessoal do PT como uma pessoa que vem das camadas mais humildes.

Ele estudou numa universidade no interior de São Paulo, foi ser funcionário do Instituto Lula em São Paulo, e quando o Lula foi preso em 2018, Marcola se muda com a então namorada, que depois vira esposa dele, para Curitiba, e lá ele começa a cuidar da agenda do Lula preso. Um petista me disse que ele acordava às 4 da manhã, elaborava um documento para o Lula que era a ordem do dia e apresentava isso todo dia, 7 horas da manhã, para o Lula na prisão, lá na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

Então ele ganha muito destaque ali naquele momento. Quando o Lula ganha a eleição em 2022 e assume em 2023, os petistas disseram que foi um passo natural o Marcola se tornar um assessor tão próximo. A função dele no Palácio do Planalto era gerenciar a agenda do presidente da República, e isso, por ele tá muito próximo, inclusive fisicamente dentro do Planalto, muito próximo de Lula, isso fazia dele uma pessoa com poder, né, uma pessoa é que tem acesso à agenda do presidente.

Você me pergunta como é que surgem os indícios. Um dos principais que a gente teve conhecimento esta semana é, por exemplo, uma mensagem em que a Roberta encaminha em maio de 2024 para o Marcola, diretamente para ele, uma espécie de um contrato que eles queriam emplacar no Ministério da Saúde justamente para venda dos frascos de canabidiol. Esse contrato previa que o Ministério da Saúde fosse adquirir da empresa World Cannabis, que pertencia ao careca do INSS, 1 milhão e 200 mil frascos de canabidiol.

É uma compra gigantesca que renderia ali R$600 milhões. Então é dessa monta que o careca do INSS queria fazer no Ministério da Saúde. A Roberta encaminha esse documento para o Marcola, que tecnicamente é um documento que chama termo de referência. A gente teve acesso a ele porque ele circulou nos grupos de WhatsApp dos funcionários do Careca nessa empresa World Cannabis, eles que formularam esse termo de referência. E olha que curioso a audácia do grupo: um termo de referência é um documento técnico que o próprio ministério tem que publicar para reger ali suas compras.

No caso, foi a equipe do Careca que fez e entregou pronto para Roberta, que entregou pronto para o Marcola, com a intenção de que isso chegasse para o ministério publicar como se fosse o ministério que tivesse elaborado esse termo de referência. Ele tem inclusive a logo do ministério, papel timbrado, e e direcionava para a empresa do Careca, a World Cannabis. Que que o Marcola disse sobre isso? Que ele recebeu sim, ele disse para aliados, ele recebeu esse documento, mas ele não passou adiante.

Que que a polícia vai ter que investigar? O que é que ele fez a partir disso? E qual que é o complicador na Tusa para o Marcola? Ele sabidamente recebeu dinheiro da Roberta Luxinger, ele admitiu isso. Ela pagou contas dele e surgiu essa semana inclusive notícias de que eles trocaram mensagens por WhatsApp sobre joias, diamante que ela compraria aparentemente para ele, e ele disse que recebeu dela R$249 mil.

?Voz F

Nome de Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, aparece então nessas mensagens. E segundo a reportagem da revista Veja, também Marcola teria recebido uma minuta de um contrato para venda de medicamentos à base de cannabis. Ele teria recebido alguns pagamentos por parte de Roberta Luxinger, que teria pagado algumas despesas. Por exemplo, cartão de crédito no valor de mais de R$95 mil, consórcio de mais de R$48 mil, financiamento de mais de R$36 mil, aquisição de joias mais de R$9 mil.

No total são mais de R$200 mil então que teriam sido pagos. Uma troca de mensagens em relação a essas joias que foram adquiridas, em que ele escolhe ali quais modelos ele deseja, totalizando então mais de R$9 mil. Ele teria utilizado essas joias para poder presentear pessoas próximas. Segundo Marcola, esse valor que foi pago dessas despesas por Roberta Luxinger, isso foi na modalidade de um empréstimo pessoal e ele teria quitado esse empréstimo.

RTReynaldo Turollo Jr.

Mas segundo ele, esse dinheiro foi um empréstimo pessoal que foi quitado e ele desvincula o recebimento desse dinheiro de qualquer eventual favor que ele possa ter prestado para Roberta Luxinger. E olha que curioso, né, o Marcola, ele se surpreende muito, porque todos os petistas disseram que é uma grande surpresa o nome dele ter aparecido. Ele é um cara tido como muito responsável. Disseram que ele tá muito chateado porque ele tem conhecimento, consciência de que ele atrapalhou demais a campanha do presidente Lula, mas a situação dele hoje é pior até do que a do próprio Lulinha, segundo as pessoas com quem eu falei.

Por quê? Porque contra ele você tem ali os indícios de que ele ganhou dinheiro. No caso do Lulinha, vamos lembrar que ele já teve o sigilo quebrado. Em fevereiro desse ano, o Supremo quebrou o sigilo dele. Também a CPMI do INSS, que funcionou no Congresso, também quebrou o sigilo dele. Esses dados vieram a público, jornalistas analisaram abertamente esses dados e não tinha nenhum dinheiro da Roberta Luxinger para o Lulinha. Como a gente suspeitava, como a polícia suspeitava no início.

Então, no Lulinha hoje, a gente sabe que até o momento, pelo que a gente conhece, não houve pagamento direto identificado. No caso do Marcola é diferente, o que torna a situação dele mais grave.

NNNatuza Nery

E como é que isso tudo tá pegando no Palácio do Planalto e na campanha do presidente da República?

RTReynaldo Turollo Jr.

São dois caminhos da defesa do governo e dos petistas. Primeiro, eles dizem que Lula deixa investigar, ele deixa a Polícia Federal trabalhar com autonomia, doa Crusoé, pode pegar filho, pode pegar assessor, que ele não tenha interferido na PF. Nisso eles falam até que eles são diferentes de Bolsonaro, que teve aquele vídeo dizendo que trocaria quem fosse para que a família não fosse investigada. Então tem esse discurso político.

Do outro lado, eles querem fustigar, queimar a campanha do principal adversário, que é o senador Flávio Bolsonaro, atacando ali no campo do filme Dark Horse, né, em que o Flávio pede R$61 milhões para o Daniel Vorcaro do Banco Master, recebe esse Então se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que que faz, cara da vida, porque tem muita, já tem muita conta pra pagar esse mês e mês seguinte também.

E agora que é a reta final, que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara, tudo, contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo. Então eles querem queimar o Flávio por aí. E hoje na Tusa, nessa, no dia que a gente grava, a defesa, o advogado do Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, deu uma entrevista para GloboNews, para o Mais, e ele subiu o tom.

Ele disse que esse inquérito contra o Lulinha só tá aberto ainda porque o Lulinha é o filho do presidente, tem um excesso de buscas contra ele porque ele é o filho do presidente. Ele acusa setores da Polícia Federal de estarem atuando justamente para usar esse inquérito para interferir na campanha eleitoral.

?Voz C

Se o Fábio não fosse filho do presidente Lula, os inquéritos estariam arquivados. Essa é a verdade. Ele carrega o peso de um sobrenome. Nós temos um quebra-cabeça de lações de parte da Polícia Federal que tá sendo instrumentalizada porque quer ganhar eleição no tapetão. Se ele fosse filho do presidente Bolsonaro, sobretudo no governo Bolsonaro, ele nem sequer teria sido instaurado. O Bolsonaro mudou superintendente da Polícia Federal para proteger os seus filhos, para proteger o 01, 02, 03 e o 04, para proteger a sua família, primos e afins, para proteger os seus amigos e os milicianos com os quais ele governou o país. Essa é a realidade.

RTReynaldo Turollo Jr.

Então eles querem dizer que o caso do Flávio é mais grave do que o do Lulinha.

NNNatuza Nery

Mas ele admitiu então que o Lulinha pediu dinheiro?

RTReynaldo Turollo Jr.

Ele não admite. O que que a defesa fala? A defesa nega que o Lulinha tivesse qualquer relação comercial e de negócios com a Roberta Luxinger. Eles dizem que eles são muito amigos, que a Roberta Luxinger é uma grande amiga da mulher do Lulinha. Lulinha frequentava muito a mansão que eu falei do Lago Sul, onde a Roberta fazia lobby. A Roberta inclusive tem uma tatuagem, né, de melhor amiga, igualzinha da mulher do Lulinha. Essa amizade eles confirmam.

O que eles negam é qualquer envolvimento em negócios. Mas aí tem um porém, Natuza. Essa semana a gente teve conhecimento de mensagens entre Roberta e Lulinha tratando de negócios. Então a gente sabe que a Roberta se apresentava como sendo sócia ou parceira comercial do Lulinha.

?Voz E

Diálogos obtidos pela Polícia Federal que detalham a proximidade do filho mais velho do presidente Lula, o Lulinha, com a empresária Roberta Luxinger, que fez contatos no alto escalão do governo federal. De acordo com essa investigação, as mensagens indicam uma sociedade oculta entre os dois para intermediar negócios, como articulação para vender medicamentos à base de canabidiol para o Ministério da Saúde. No WhatsApp enviado a um empresário, Luxinger resume a proximidade com os sócios: somos uma coisa só, palavras dela.

Segundo conversa recuperada pela PF na nuvem do celular da Roberta, ela diz ao empresário Gustavo Gaspar, também investigado por desvios no INSS, que o presidente Lula perguntou onde ela queria ficar. Seria supostamente uma oferta de cargo, ao que ela teria respondido: onde ela estava mesmo, em sociedade com Lulinha e Fernando, que é o empresário Fernando Bittar.

RTReynaldo Turollo Jr.

E mais um agravante no caso desse inquérito do canabidiol, Ministério da Saúde, que é o que a gente mais tem informação: é comprovado que o careca do INSS e a lobista Roberta foram recebidos pelo menos em janeiro de 2025, ali no começo do ano passado, dentro do Ministério da Saúde para discutir a venda desse produto para o Ministério da Saúde. Quem recebeu os dois lá foi o Swedenberger Barbosa, né, que é conhecido como Berger, que é um petista histórico, e ele era o número 2, o secretário-executivo do Ministério da Saúde.

?Voz E

A relação próxima dos dois também aparece numa mensagem em que Lulinha manda Roberta ir com tudo ao encontro com o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, conhecido como Berger, e diz para falar que ele ele não ia porque ela não tinha chamado.

RTReynaldo Turollo Jr.

Que que o Ministério da Saúde diz? Nenhum contrato foi fechado entre o Ministério da Saúde e a World Cannabis para a venda desse produto de cannabidiol. Isso é verdade, não houve nenhum contrato. E o Ministério diz inclusive que existia um impedimento legal regulatório, porque teria que mexer numa norma da Anvisa para que esse produto fosse incluído no SUS e fosse adquirido pelo Ministério da Saúde. Agora, o que a gente sabe, né, pela apuração que eu tenho, é que a Polícia Federal inclusive apura esse grupo tentou pleitear junto à Anvisa, pessoas da Anvisa, mudanças na regulação, nas normas regulatórias, para permitir que o negócio fosse feito.

Quando eu te falei que a Roberta Luxinger tinha um negócio, né, um contrato formal com o Careca, e isso ela admite, esse contrato era a título, segundo a defesa dela, de prospecção de negócios. Era para atuar em nome do Careca, da World Cannabis, justamente na prospecção de negócios com o Ministério da Saúde, ainda que que o argumento da defesa seja muito contundente, não fechou o contrato com o Ministério da Saúde, eventualmente, mesmo assim, o Lulinha pode ser indiciado eventualmente pela polícia pelo crime de tráfico de influência, porque ele independe de lá no fim o contrato ter sido fechado ou não.

O que um jurista me explicou é que só o fato, se isso tiver acontecido, de o Lulinha ter aberto a porta do Ministério Ministério da Saúde ter recebido algum valor, que é o que tá em investigação. Mesmo que o contrato não tenha saído, isso pode já representar para ele algum problema na esfera criminal. Agora, vale destacar que esse crime de tráfico de influência é um crime que no Código Penal tem a pena relativamente baixa, ela é de no máximo 5 anos.

Então é o tipo de crime que isoladamente ele não dá cadeia, diferente do crime de corrupção, que tem até 12 anos de prisão e pode dar cadeia. E aí, no crime de se aplica a eventual agente público que tenha tomado ali como agente público um ato de ofício, que a gente fala, para beneficiar o interesse de uma empresa, de um terceiro, e para isso tenha ganhado alguma vantagem. Além disso, tem mais duas hipóteses criminais que a Polícia Federal trabalha, né?

Uma delas é lavagem de dinheiro. Se tiver havido recebimento de dinheiro por parte de alguém, esse dinheiro foi escondido, né, escamoteado. E por fim, também a polícia apura o crime de organização criminosa. A polícia tá tentando ver se isso acontecia de uma maneira organizada, com hierarquia e divisão de tarefas.

NNNatuza Nery

Trollo, muito obrigada pelas explicações. Bom trabalho para você.

RTReynaldo Turollo Jr.

Obrigado, Natuza. Até a próxima.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui até o próximo assunto.

?Voz C

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