Morte assistida: quando, onde e por quem essa decisão pode ser tomada
Henrique Ribeiro
Luciana Dadalto
Monalisa Barros
- Morte Assistida e Eutanásia· SociedadeFrança·Holanda·Canadá·Suíça·Argentina·Colômbia·Equador·Uruguai
- Morte Assistida· SaudeSuicídio assistido·Eutanásia·Morte assistida autoadministrada·Morte assistida administrada por terceiro
- Morte Assistida e Etica· SaudeSlippery slope (bola de neve)·Populações vulneráveis·Relação médico-paciente·Autonomia do paciente
- Diferenças Ortotanásia Eutanásia· SaudeOrtotanásia·Distanásia·Cuidados paliativos
- Percepção Cultural e Geracional da Morte· CulturaCristianismo·Tabu da morte·Medo da finitude·Individualismo contemporâneo
- Papel da Familia e Medo de Ser Peso· SociedadeFamília nuclear vs. estendida·Sentimento de culpa·Medo do futuro incerto·Diretivas antecipadas de vontade
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Morrer é uma certeza. Aliás, é a única. Mas decidir como e quando morrer diante de uma doença incurável, de um estágio terminal, é uma das questões mais sensíveis e controversas da medicina. Em alguns países, a chamada morte assistida já é permitida e regulamentada. A França, por exemplo, acabou de regulamentar, aconteceu na quarta-feira, a chamada Lei Ajuda para Morrer, depois de anos de debate intenso sobre o tema. L'Assemblée nationale a adopté.
Hoje já são mais de 10 países no mundo com leis que autorizam algum tipo de procedimento como esse. Entre os nossos vizinhos aqui da América do Sul, há casos recentes. Em 2024, o Equador decidiu por isso. Em maio deste ano, o Uruguai também.
Isso é uma lei humanitária que atende a situação dos que sofrem.
Para explicar como isso ocorre na vida real, a produtora do assunto, Stephanie Nascimento, conversou com Luciana Dadalto. Luciana é pesquisadora e presidente da Eu Decido, uma associação civil brasileira que busca a legalização da morte assistida.
Morte assistida significa que uma pessoa vai ter ou vai morrer sendo auxiliado por uma terceira pessoa. Tem duas formas desse auxílio acontecer. Eu tenho um auxílio em que o terceiro vai apenas prescrever o fármaco que será autoadministrado pela pessoa, que vai ou beber ou injetar. E eu tenho o auxílio em que essa pessoa terceira vai ela mesma injetar a dose letal no corpo do paciente. Então a gente fala de morte assistida autoadministrada e administrada por terceiro.
A autoadministrada é o que comumente se chama de suicídio assistido. A administrada por terceiro é o que comumente se nomeia de eutanásia.
No Brasil, um projeto de lei que já foi aprovado na Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados amplia os direitos dos pacientes de doenças em estágio avançado. Claro que há um debate intenso em torno disso. Uma pesquisa Datafolha feita pela primeira vez sobre o tema mostra que a maioria rejeita a morte assistida, como a eutanásia, por exemplo. Mas quando a pergunta é sobre interromper tratamentos que apenas prolongam a vida, aí o país fica dividido.
Aqui, o contraste é importante porque mostra como a forma de apresentar uma escolha e até o nome que a gente dá a ela pode mudar a maneira como enxergamos o fim da vida.
É a primeira pesquisa de opinião pública e só isso já é muito. A gente já tem um passo, porque antes dessa pesquisa ninguém sabia, a gente especulava. Toda vez que a gente usa esses nomes, eutanásia e suicídio assistido, cada um desses nomes carrega uma história. E não é uma história boa, pós-século 20. Então a eutanásia, ainda há quem faça uma remissão, né, ao nazismo, ao Holocausto. A questão do suicídio assistido, né, esse termo, ele é um termo muito ruim, é um grande debate.
Por isso que as associações ao redor do mundo preferem o termo morte assistida autoadministrada, porque o termo suicídio é um termo que carrega Enfim, uma carga de sofrimento para a própria família, né, para o luto de quem fica.
E aqui uma informação importante: os países que permitem a morte assistida não adotam todos o mesmo modelo, não. Suíça, Canadá, Holanda e França têm regras e salvaguardas diferentes.
A Holanda foi o primeiro país do mundo a legalizar a morte assistida. Com a aprovação de uma lei em 2001 que entrou em vigor em abril de 2002. Na prática, a lei não trata a morte assistida como um direito, mas sim cria uma isenção de responsabilidade penal para os médicos que auxiliam seus pacientes a morrerem, desde que esses pacientes cumpram critérios rígidos estabelecidos pela lei. O paciente precisa estar em um sofrimento que ele considera insuportável.
Esse sofrimento precisa ser contínuo e sem perspectiva real de melhora. A lei holandesa entende que o sofrimento pode ser físico ou psíquico. O que é preciso provar é que o paciente já tentou diversos tratamentos para reverter ou para aliviar o quadro de sofrimento e ele não encontrou nenhum tratamento que ele, paciente, considere como tolerável, como aceitável. A lei francesa tem como regra a morte assistida autoadministrada, e aí ela tem como exceção a administrada por terceiros só em situações em que o paciente não tiver condições motoras de se autoadministrar.
No Canadá existem dois critérios de elegibilidade. Um é a morte natural razoavelmente previsível. Então nós estamos falando de um paciente que necessariamente tem uma doença que está levando ele à morte num curto período de tempo. A via 2 é o da morte natural não previsível. Nós estamos falando de pessoas com doenças crônicas ou com deficiências graves e intratáveis. E a legislação atual exclui explicitamente como única causa para o paciente ter acesso à morte assistida o transtorno psiquiátrico.
O Uruguai aprovou a lei recentemente e o Uruguai tá aqui do nosso lado, então a gente recebe muitas perguntas de, ah, e Uruguai? Eu não posso ir para o Uruguai? A lei uruguaia só aceita estrangeiros residentes. Por exemplo, na Suíça só é possível a morte assistida autoadministrada. Não existe na Suíça morte assistida administrada por terceiro.
Na Suíça, a Luciana acompanhou um caso de um australiano de 76 anos que tinha a doença de Parkinson. Esse homem, ao ver as suas condições físicas ficarem extremamente debilitadas, fez essa opção.
Foi diagnosticado 3 anos antes, mais ou menos, do procedimento e ele tinha 76 anos. Nesse caso específico que eu assisti, a opção da pessoa foi para que ela mesma se aplicasse. Quando o fármaco tava preparado, todas as pessoas, né, era eu, o médico e o coordenador da associação, mais a esposa e o filho mais novo. Então, quando esse preparo terminou, eu, o médico e o coordenador saímos do quarto para que eles se despedissem. Menos de 5 minutos depois, o filho abriu a porta do quarto e disse, papai tá pronto.
E aí, nesse momento, o coordenador da organização ligou uma câmera GoPro e perguntou para o paciente, qual é seu nome completo? Quantos anos você tem? Você sabe onde você está? Por que que você tá aqui e o que que vai acontecer se você se autoaplicar esse fármaco. O que que eu aprendi? Que essa ideia que a gente tem, que muitos filmes contam pra gente, de que essa morte numa organização suíça ela é romântica, bonita, né, tem alguma coisa quase mística, isso não é verdade, não é.
A gente tem algo extremamente burocrático. Então essa burocracia tira um pouco também, ou ela impede o rito, talvez, um pouco mais sentimental. Hoje uma morte assistida na Suíça tá em torno de 11 mil francos suíços. Isso tá dando aí entre 70 e 80 mil reais. A gente tá falando de um privilégio, de algo que um pedaço, uma parcela muito pequena da população mundial consegue ter acesso.
Da redação do G1, Eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: morte assistida. Quando, onde e por quem essa decisão pode ser tomada? Neste episódio eu converso com Henrique Ribeiro, psiquiatra e psicoterapeuta. Ele é supervisor do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da USP. E Monalisa Barros, psicóloga e pesquisadora especialista em luto. Ela é professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e autora do livro Minha mãe está morrendo.
Quinta-feira, 20 de agosto. Doutor Henrique, antes da gente começar a nossa conversa, eu quero te pedir uma explicação importante aqui. Qual é a diferença entre a ortotanásia, que é uma conduta consolidada na prática médica brasileira, e os procedimentos de eutanásia, morte assistida?
A ortotanásia, pela raiz etimológica, já se refere a esse conceito da morte correta, dessa morte na justa medida, e que corresponde ao que a gente entende pelos cuidados paliativos. É uma maneira de oferecer cuidado a um paciente que tem uma doença grave, sem prolongar esse processo de morrer, sem abreviar esse processo de morrer, o que seria compatível aí ao que a gente entende por uma morte natural, uma morte de acordo com a evolução da doença.
Pode me dar um exemplo?
O paciente, ele tem um câncer avançado com metástases múltiplas em diferentes órgãos e em determinado momento ele pode evoluir com uma situação de falta de ar. Isso eventualmente poderia, seja por uma eutanásia, daqui a pouco eu vou falar da definição, abreviar esse tempo, ou por uma distanásia, que é o nome que a gente usa, por um prolongamento. Então fazer medidas invasivas que vão prolongar esse processo de morrer. Pelas redes sociais, a história de sofrimento da Carolina ganhou repercussão em todo o Brasil. O motivo: uma dor no rosto considerada insuportável.
É uma dor intensa e persistente que provoca choques elétricos extremamente intensos e agudos no meu rosto, que são disparados sem aviso. Qualquer movimento, como falar, tocar, ou até mesmo sentir uma brisa, pode desencadear um episódio excruciante de dor.
Ela decidiu passar pela eutanásia, que é a morte assistida. A prática é proibida no Brasil e ela iniciou uma campanha para levantar fundos e fazer o procedimento na Suíça.
Foram muitas cirurgias, foram muitas tentativas. Já não adianta mais, não é vitalizado, então intervenção cirúrgica. Fica, a gente não vai mais fazer. Não vou parar o tratamento, mas também não vou tentar mais nada novo porque não existe mais. E sobre a eutanásia, eu tô conversando com minha advogada, as coisas estão caminhando como devem ser. Eu ainda preciso de muito laudo, muito detalhe médico, Tem muita tradução dos documentos, então é um processo demorado.
O cuidado paliativo, ele vai entender que isso vai progredir e que vai dar o conforto para o paciente durante todo esse processo, sem empreender medidas que vão prolongar esse tempo de vida, de uma vida obviamente com sofrimento e sem possibilidade de reversibilidade da doença de base.
Portanto, a ortotanásia, ela nem abrevia a vida de um paciente, nem prolonga a vida de um paciente. Ela só dá condição de conforto para esse paciente à beira da morte, é isso.
Respeitando o processo de evolução da doença e isso alinhado com os valores e os desejos e o que faz sentido para aquele paciente, que pode ser que ele queira alguma intervenção que possa trazer um pouco mais de tempo, claro, quando possível, ou que não queira alguma intervenção que possa eventualmente trazer mais sofrimento para ele. Então, a possibilidade de recusar um tratamento, isso faz parte dos cuidados paliativos. Da escolha do paciente, da autonomia dele.
Isso é assegurado pela ortotanásia, pelos cuidados paliativos e por resoluções que asseguram isso. No caso das diretivas antecipadas de vontade, que é a Resolução 1995/2012, mais recentemente, abril de 2026, existe uma lei, Estatuto de Direitos dos Pacientes, que trouxe esse modelo guarda-chuva para assegurar tudo isso que estava relacionado à autonomia dos pacientes. Então isso é assegurado pelos cuidados paliativos e a palavra que corresponde a isso hoje, dessas que você trouxe, é ortotanase.
Como eu mencionei, existe a distanase, seria prolongamento, então medidas invasivas e desproporcionais para sustentar artificialmente a vida ou prolongar essa vida. E existe a eutanase, eutanase que é um ato onde o médico mata o paciente a pedido deste. E que isso implica um abreviamento da vida. E a morte assistida, ela é entendida hoje, né, ela vem aí como uma adaptação desse modelo canadense da morte medicamente assistida. É um termo guarda-chuva que abrange tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido, que é o ato de o médico oferecer ao paciente, né, auxiliá-lo ao suicídio. Então oferece aí um meio letal para o paciente ser o agente da própria morte.
E nesse exemplo canadense, Quem é que pode tomar essa decisão? Quais são as salvaguardas acerca dessa decisão? É o paciente quem manifesta isso em algum momento, ou antes de ficar doente, ou já doente, mas ainda em condição de manifestar esse desejo da morte assistida? Como é que funciona?
Então, é interessante, o Calabari, ele inclusive traz uma definição que é a morte previsível. Como morte previsível, se a gente olhar para essa definição, todos nós temos uma morte previsível, e acho que isso já entra um pouco aí na resposta à sua pergunta, que os países como Canadá e a própria Holanda, que desde 2002 tem essa prática já legalizada, eles caminham para um processo que é chamado em inglês slippery slope, ou que a gente poderia entender no Brasil como um processo de bola de neve.
Então, inicialmente, a gente tá falando de pacientes, e as leis elas deixam isso claro inicialmente, pessoas com uma doença grave, avançada, fora de uma perspectiva de cura, e tentando trazer essas salvaguardas para que isso não se expanda. Mas quando a gente olha para esses países, Somente aí o Canadá, por exemplo, existe a previsibilidade de, a partir de março de 2027, incluir pacientes psiquiátricos. Então pacientes com depressão suicida, com os planos psiquiátricos, que de repente vão ter acesso a esse dispositivo.
Podemos pensar em pacientes com deficiências físicas, podemos pensar em menores de idade, pacientes com demência. Então essa ampliação do acesso é algo que é observado, né, nesses países em que essa prática acontece, ainda que no início exista aí uma restrição para essa população não ter acesso. Então isso é um efeito bola de neve, isso não acontecido nesses países, como eu mencionei do Canadá agora, com a possibilidade de ampliação para pacientes psiquiátricos.
Não, lá isso já é prático com pacientes psiquiátricos. Vale destacar que eventualmente isso pode incorrer ao risco da gente começar a incluir populações vulneráveis nessas práticas. Então a gente tá falando de repente de um etarismo, a gente pode estar juntamente pensando no capacitismo de pessoas com deficiências físicas que vão acabar traçando um caminho, ou pobreza, que vão acabar traçando um caminho de entender que essa saída, que a morte assistida é aquilo que seria para buscar uma dignidade que a própria vida não oferece, por falta de recurso, por falta de acesso a um tratamento adequado.
Então isso tem sido discutido nesses países em que essas práticas já acontecem há mais tempo, e é um risco, né, dessas práticas na sociedade, sobretudo quando falamos de uma sociedade cujo acesso aos dispositivos de saúde estão aí fundamentados numa iniquidade e numa limitação, né, muitas vezes aí estrutural.
Mas quando você diz isso, você entende que o procedimento não deveria existir ou que deveria haver uma legislação e uma fiscalização muito importante para evitar esse tipo de ocorrência que você relata?
Interessante, porque quando se fala da legalização, por exemplo, nós estamos falando de descriminalização do homicídio. A eutanásia é tipificada como homicídio. Auxílio ao suicídio também é um crime, né? Atualmente isso no Brasil é tipificado como o auxílio ao suicídio e o homicídio são crimes. Então a gente tá falando de um ato em que a pessoa vai matar outra a pedido da outra pessoa, claro. E aí, querendo todas essas salvaguardas de lucidez, de autonomia preservada.
E no suicídio é a mesma coisa, auxiliar alguém ao suicídio é um crime. Então nós estamos falando de flexibilizar isso e descriminalizar esses contextos relacionados a matar alguém ou auxiliar a pessoa a se suicidar. Então eu acho que esse é um ponto do ponto de vista jurídico. Do ponto de vista ético, é uma outra discussão. E isso envolve a repercussão que esse tipo de prática poderia ter, por exemplo, na relação médico-paciente.
Vou te dar um exemplo de que na Holanda hoje cerca de 50% dos psiquiatras recebem nas suas práticas clínicas pessoas pedindo suicídio assistido. Então, para psiquiatras, isso tem uma possível divisão entre o que seria prevenir suicídio, o que seria promover suicídio e o que seria o papel do profissional de saúde, o papel da medicina na sociedade, né? A gente teria médicos que que vão matar, promover o suicídio, médicos que vão prevenir.
Então existem vários riscos sociais quando a gente pensa nesse tipo de prática. O que eu entendo como psiquiatra, um médico que trabalha com cuidados paliativos, é que existem já dispositivos que asseguram ao paciente a sua autonomia. Isso já é respaldado, a Lei Saniya Klemey assegura isso, resoluções que asseguram isso, os cuidados paliativos asseguram. E nós temos mecanismos de, mesmo diante de uma situação de sofrimento incontornável por uma doença grave, de abrandar esse sofrimento, de confortar esse paciente diante desse sofrimento.
A questão é: a gente já tem cuidados paliativos suficientes da população? E não tem. Então, quando a gente faz um bypass para essa prática sem ter isso assegurado, a gente corre o risco de achar um atalho. Existe uma discussão que eu acho que é do ponto de vista médico, ético, jurídico, social, que muitas vezes é um debate que ainda é muito empobrecido. Muitas pessoas desconhecem do que nós estamos falando, né? E muitas vezes já se posicionam favoráveis ou contrárias sem entender a dimensão da repercussão desse tipo de prática.
Né, na sociedade. E eu acho que é uma coisa que, por isso que eu acho importante, né, esse debate e essa discussão.
É porque eu ouvi alguns relatos de pessoas que defendem, que dizem o seguinte: olha, por que que o Estado vai definir uma escolha que é minha? Eu pego um caso que ficou muito notório, que foi a morte assistida do artista Antônio Cícero, né, uma pessoa com dinheiro, com acesso, tanto que foi para Suíça.
Em seguida, viajou para Paris com companheiro Marcelo Piz. Marcelo contou que Antônio Cícero queria ver a cidade que tanto amava pela última vez antes de ir para Zurique, na Suíça. Lá, ao lado do parceiro, foi submetido à morte assistida, que é permitida por lei no país. Poucos amigos sabiam dessa decisão. Para eles foi deixada uma carta de despedida. Entre outras palavras, escreveu: espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
E as pessoas que defendem esse tipo de decisão, elas dizem que a decisão ela é individual e que o Estado não deve interferir. Mas eu tô entendendo que o senhor tá me dizendo é que essa decisão, embora ela tenha uma origem individual, ela tem repercussões coletivas.
Sem dúvida, isso não é um entendimento pessoal apenas, mas é o que nós temos já consolidado na literatura de países que já praticam isso há mais tempo. A Holanda desde 2002, o Canadá com uma ascensão vertiginosa dessa prática recente, mas isso já está bem documentado e há esse risco. Esse caso do Antônio Suíço, ele não fez eutanásia na Suíça. A Suíça pratica o suicídio assistido. Quando nós pensamos nesse tema, com relação inclusive ao eufemismo de tentar descolar essa temática do matar ou do auxiliar ao suicídio por um termo, vamos dizer assim, mais inócuo, que seria essa morte assistida.
Então acho que, de novo, é um debate muito mais amplo e que eu acho que muitas vezes isso ganha uma repercussão social, que é importante, claro, né, para que a sociedade esteja a par e possa debater isso, mas muitas vezes numa superficialidade, com não sendo feito o devido aprofundamento, que a meu ver o importante até porque as pessoas se esclareçam antes de se posicionar entendendo os riscos, né, que isso existe, isso poderia trazer para a vida delas e da sociedade como um todo.
Doutor Henrique, muito obrigada pela disposição em conversar com a gente sobre esse tema aqui no Assunto. Bom trabalho.
Muito obrigado, Natuza. Bom trabalho para vocês também.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Monalisa Barros.
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Doutora Monalisa, uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que 56% dos brasileiros e brasileiras são contra a eutanásia e 60% rejeitam a morte assistida. Eu queria tentar entender o que que tá por trás desse índice, o que explica esses percentuais e o que isso diz sobre a forma de como nós brasileiros e brasileiras entendemos a morte.
Nós somos uma cultura muito atravessada pelo cristianismo e de uma forma atribuir a um poder supremo o poder de vida ou morte. Esse mesmo atravessamento produz a rejeição ao aborto, por exemplo. As pessoas acham que não devem interferir no processo natural de vida ou morte, o que demonstra que a morte é um grande tabu, é pouco falada, as pessoas evitam falar inclusive nome de determinadas doenças, há pessoas que até hoje não pronunciam a palavra câncer, o que demonstra que a evitação é um retrato do medo e não afasta a convivência com o fato de que todos nós iremos morrer e vamos conviver com a finitude das pessoas mais próximas, né?
Tem um outro dado que chama atenção na pesquisa Datafolha, que diz o seguinte: que 63% dos jovens de 16 a 24 anos afirmam que é moralmente aceitável um médico ajudar um paciente terminal a morrer. E aí, no caso dos idosos, aqueles com 60 anos ou mais, esse número despenca para 29%. Como é que a gente pode analisar essa diferença de percepção?
Eu entendo que há uma diferença geracional, tem muito a ver com a contemporaneidade que promove esse individualismo, que promove a vivência cada um por si, Deus por todos, cada um no seu quadrado, quebrando os vínculos da coletividade, das famílias ampliadas. Isso faz com que a gente tenha um, nesse momento, uma sociedade muito medicalizada em tudo que é sentido precisa ser anestesiado. Então, se você perde alguém, você toma uma medicação.
Se você termina um namoro, você quer um remédio para aquela dor. Então, imaginar a própria finitude é algo quase da ordem do impensável para quem evita sentir. E aí, o autoextermínio, a interrupção antecipada da vida, evitaria duas situações: uma, depender dos outros, que ele não tem mais vínculos, que permita que esse cuidado seja entendido como amor e não tem a disponibilidade de viver toda a potência da vida no que ela se expressa dentro das suas emoções, dos seus sentimentos.
Eu vinha aqui para a redação do G1 ouvindo um podcast do Dr. Drauzio Varella, o DrauzioCast, no qual ele tratava justamente desse tema, morte assistida. E aí ele explicava o seguinte: que se você perguntar para qualquer pessoa, você quer viver muito ou você quer viver viver pouco e que todas as pessoas vão dizer que querem viver muito. Mas aí ele incluía nessa conversa uma outra pergunta: mas a que preço você quer viver muito?
Eu te pergunto isso porque você, no campo da pesquisa, da psicologia e da ética, pode nos ajudar a entender como é que é possível diferenciar o desejo genuíno de morrer em casos de doença terminal daquilo que a gente pode chamar de grito de socorro de pessoas que se sentem desamparadas de alguma ordem.
Eu percebo que quando as pessoas vivenciam sua própria finitude e vão fazendo enlaces, fechando ciclos, a morte parece um destino tranquilo e aceitável. E nesse momento, quando nós acompanhamos pessoas que fazem suas decisões mantendo sua autonomia, construindo o seu legado, elas vão se encaminhando para o final de uma forma tão natural que o desejo pela morte e ter uma morte assistida chega para essa pessoa como algo que é absolutamente pertinente a esse percurso que ela já vem fazendo.
Ao contrário disso, é quando a pessoa não está nem numa situação de finitude, mas quer abreviar o que ela tem medo do que será vivido. Então ela não se permitiu viver todo o processo e acha que fazer essa abreviação, tornar isso mais breve, evitará outros tipos de sofrimento. É importante entender que a morte pode ser um momento de grande oportunidade de desenvolvimento. Muitas coisas são resolvidas, histórias são reelaboradas, adquirem outros sentidos à medida que você se aproxima da própria finitude e tem a oportunidade de rever tudo aquilo que você viveu, e poder conversar com pessoas que você, para si, são importantes, revisitar histórias, revisitar vínculos.
E nesse caminho, nesse percurso, a morte passa a ser aceitável, desejada, planejada e pode ser mesmo assistida. Quando é uma decisão muito abrupta, a gente fica em dúvida se de fato há uma compreensão do processo de morte ou está sendo utilizada essa abreviação para evitar o processo efetivo de sentir, de viver o que tá sendo um futuro que ele ainda não tem controle ou não tem previsão.
Eu me lembro de um filme de muito tempo atrás, acho que foi o primeiro filme com o qual me deparei tratando desse tema, As Invasões Bárbaras, um filme extraordinário, né? Tem outros filmes, tem um filme recente do Almodóvar que trata da morte assistida, Quarto ao Lado, tem um outro chamado Mar adentro, Porque morir.
Quero morir porque a vida para mim nesse estado, a vida assim não é digna. E eu entendo que outros tetraplégicos podem sentir-se ofendidos quando eu digo que a vida assim não é digna. Mas é que eu já não julgo a ninguém. E quem sou eu para julgar a quem quer viver?
Mas eu queria trazer, já que a gente falou de invasões bárbaras e a história é de um pai, de um marido que tem uma doença terminal e ele reúne toda a família e a família o acompanha nessa reta final da vida dele e o apoia nessa decisão da morte assistida. E o filme, salvo engano, se passa no Canadá. Eu tô fazendo essa digressão porque o Canadá é um dos exemplos que eu gostaria de trazer para nossa conversa. Quase metade dos pacientes canadenses que passaram pela morte assistida em 2024 declararam que tinham medo de ser um peso para a própria família.
De que forma essa dinâmica familiar e o sentimento de culpa acabam influenciando essa decisão do paciente terminal? Lembrando que a gente está falando de uma outra realidade, de outros países, porque no Brasil isso não é permitido.
Sim, quando a gente passa de uma família estendida para uma família nuclear que tem uma faixa de seus projetos de vida para cuidar de si, surge como um grande peso para essa outra pessoa. O cuidado, ele de fato, especialmente no nosso país em geral, ele é ofertado pelas mulheres que se abstêm de sua própria vida para cuidar daquele parente que está acamado, seja por um processo de doença, seja um processo traumático, e E quando não há laços afetivos que justifiquem essa dedicação, ela pode ser sentida assim como algo muito estranho, um peso, uma dívida para com essa pessoa que está cuidando de si.
Então, eu acho que as famílias, quando elas se modificam de estrutura e se distanciam dos laços coletivos e os próprios amigos, né, hoje com as famílias muito reduzidas, esse sentimento acaba sendo muito presente. Mas eu percebo mais um medo de viver, pelo menos no Brasil, um medo de viver um futuro incerto e o pedido para se abster dessa vivência do que a preocupação em dar um trabalho a outra pessoa.
É muito complexo, né, porque são muitas camadas de medo, mas tô entendendo com a sua resposta que esse medo de dar trabalho para os outros não é um traço tão presente assim na nossa sociedade.
Exato, acho muito interessante porque tem um limite aí, um limiar entre a autonomia da decisão e uma decisão por medo do futuro. Eu acho que em situações como essa, de estar acamado muitos anos, de perder a consciência, autonomia do sujeito em poder decidir, que alguma, em alguma medida isso já tá previsto no Brasil, não para para o fim da vida, mas para algumas decisões no fim da vida. Por exemplo, já existe legislação no Brasil que acolhe a diretiva antecipada de vontade, que é aquela que pode preferir não ser internada na UTI, não ser reanimada, não ser entubada.
E isso já é previsto quando a pessoa toma essas decisões de forma autônoma e a registra, seja no prontuário médico, seja pessoalmente em casa com algumas testemunhas. Isso tem validade jurídica para O que a gente vê na prática do dia a dia dos hospitais é uma certa obstinação terapêutica de busca por uma intervenção a qualquer custo, especialmente por parte dos familiares que têm dificuldade de lidar com a perda desse familiar, como se aquilo fosse assim: eu vou usar de todos os recursos possíveis, independente do que isso produza de incômodo, de dor, de afastamento, de isolamento do sujeito, porque eu quero lutar pela vida dele.
Isso me parece muito mais uma dificuldade em lidar com a morte, quando a gente olha a morte nos olhos.
Olhos.
A gente sabe que as pessoas vão partir, a gente pode desfrutar desses últimos momentos. Como uma metáfora que eu gosto muito, nós não arrancamos as páginas, as últimas páginas do livro, só porque a gente não quer que ele acabe. A gente desfruta até a última linha e fecha o livro com o prazer de ter vivido aquela experiência. Eu acho que é assim que a gente precisa lidar com a morte das pessoas que a gente ama, ajudando a ler até a última linha para fechar o livro com o prazer de ter vivido aquela experiência com aquela pessoa em nossa vida.
Doutora Monalisa, agradeço imensamente a sua entrevista. Muito obrigada e bom trabalho para a senhora.
Obrigada, espero ter contribuído.
Contribuiu bastante. Obrigada, tchau tchau. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Este episódio usou cenas do filme Mar Adentro, de 2004, dirigido por Alejandro Amenábar. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Ô, gás! Gás do Brasil é o nosso gás e tá em tudo que o Brasil faz.