Episódios de O Assunto

A Foz do Amazonas e o futuro da exploração de petróleo no Brasil

19 de agosto de 202627min
0:00 / 27:21
Convidado: Felipe Maciel, sócio-fundador e diretor executivo da agência eixos, especializada nos setores de petróleo, gás e energia. No último sábado (15), a Petrobras anunciou a identificação de hidrocarbonetos no poço Morpho, localizado a 175 quilômetros da costa do Amapá e a cerca de 2.800 metros de profundidade. A confirmação de que há petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, na chamada Margem Equatorial, gerou empolgação imediata – o presidente Lula chegou a chamar a descoberta de "passaporte para o futuro" do país. Mas ainda falta uma longa jornada até que seja confirmada a viabilidade econômica da exploração do petróleo na região. A presidente da estatal, Magda Chambriard, fala em até 7 anos para que o primeiro barril de petróleo seja extraído de águas submarinas. Há perspectivas econômicas otimistas, mas também há riscos ambientais e climáticos: a região é considerada de extrema sensibilidade ambiental e o investimento em combustível fóssil vai na contramão do compromisso do país com a transição energética. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Felipe Maciel, jornalista que acompanha há duas décadas os setores de petróleo, gás e energia. Ele explica como irá se dar a possível exploração, analisa os riscos para a questão ambiental e compara o caso brasileiro com o da Guiana. Participa também do episódio Shigueo Watanabe Jr., especialista em energia do Observatório do Clima e pesquisador do Climainfo.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
F

Felipe Maciel

ConvidadoSócio-fundador e diretor executivo da agência eixos
S

Shigueo Watanabe Jr.

ConvidadoEspecialista em energia do Observatório do Clima e pesquisador do Climainfo
Assuntos4
  • Petroleo na Foz do Amazonas· EconomiaPetrobras·Bacia da Foz do Amazonas·Margem Equatorial·Poço Morpho·Hidrocarbonetos
  • Riscos Ambientais e Transição Energética· Meio AmbienteMeio ambiente·Ibama·Transição energética·Combustíveis fósseis·Mudanças climáticas
  • Viabilidade Economica e Exploracao de Petroleo· EconomiaPetróleo·Produção de petróleo·Custos de exploração·Prazo de 7 anos·Guiana
  • Impacto Econômico e Soberania Energética· EconomiaRoyalties·Superávits comerciais·Soberania energética·Guerras no Oriente Médio·Guerra da Ucrânia
Transcrição55 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
FMFelipe Maciel

Já conhece o empréstimo com garantia de veículo do Banco BV? Com ele, você tem o dinheiro que precisa para organizar sua vida financeira. Acesse bv.com.br.

NNNatuza Nery

Essa é uma história que mistura um tanto de realidade e um pouco de lenda também. No fim do século 16, exploradores ingleses, irlandeses e holandeses chegaram à região norte do país. Território onde hoje é o estado do Amapá. Eles vieram ao Brasil em busca de riquezas. E de algo ainda mais impressionante: um dos exploradores, Sir Walter Raleigh, ou simplesmente Sir Walt, acreditava que naquelas terras poderia estar o Eldorado, uma terra mítica toda coberta de ouro.

Um sonho que fascinava os europeus. Mais de 4 séculos depois, um outro tipo de Eldorado se desenha na região. Não como uma terra coberta de ouro, mas um oceano que esconde uma riqueza bem diferente.

FMFelipe Maciel

Petrobras anunciou a descoberta de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá. O Poço Morfo, onde foi feita a descoberta, fica a 175 km do litoral do estado do Amapá. Quase 3.000 metros abaixo da superfície. A distância em relação à foz do Rio Amazonas é de cerca de 500 km, na margem equatorial brasileira.

NNNatuza Nery

O anúncio gerou empolgação imediata, quase como se Eldorado tivesse de fato a poucos quilômetros da costa brasileira.

FMFelipe Maciel

Isso aqui é uma coisa que eu vou repetir: isso aqui pode chamar passaporte para o futuro desse país.

NNNatuza Nery

Mas é necessário cautela. A Petrobras ainda precisa descobrir quanto petróleo existe ali na região e se esse petróleo pode ser explorado comercialmente. Assim explica a presidente da Petrobras, Magda Chambriar. Todos os nossos estudos indicam um potencial bastante relevante, né? Essa descoberta confirma até hoje nossos estudos e nós vamos continuar explorando. E nós vamos saber isso continuando essa exploração. E nós temos aí previstos mais 3 poços para furar nesse bloco.

FMFelipe Maciel

O material já retirado ainda vai passar por uma análise de qualidade. Até agora, a Petrobras investiu 300 milhões de dólares no projeto.

NNNatuza Nery

Definido esse porte, é que a gente parte para definir qual é o projeto de desenvolvimento que nós vamos empreender. Então imagino que o Amapá possa ter petróleo sendo produzido em águas ultraprofundas de hoje a uns 6, 7 anos. A descoberta chega em um momento estratégico para o Brasil. Hoje, cerca de 80% do petróleo produzido pelo país vem do pré-sal, mas tem um problema nessa conta. Essa produção, a do pré-sal, deve atingir o seu pico entre os anos de 2034 e 2035 e, a partir daí, começar a cair.

Em outras palavras, o Brasil está procurando o petróleo de amanhã enquanto ainda depende do petróleo de hoje.

FMFelipe Maciel

É contraditório? É, porque nós estamos apostando muito na transição energética. Olha, mas enquanto a transição energética não resolve o nosso problema, o Brasil tem que ganhar dinheiro com esse petróleo.

NNNatuza Nery

Se os estudos exploratórios confirmarem a existência de grandes reservas com petróleo comercialmente viável, a Foz do Amazonas pode representar uma nova fronteira econômica para o Brasil e para o norte do país, trazendo junto com ele mais investimentos, serviços e empregos para todo o estado.

FMFelipe Maciel

Embora a produção demore ainda alguns anos até sair do papel, os efeitos econômicos poderão ser sentidos antes.

NNNatuza Nery

Acontece que a busca por essa terra prometida, cheia de riquezas, pode se transformar em uma maldição. A exploração do petróleo se dá em uma área ambientalmente sensível e o risco de uma tragédia na bacia da foz do Rio Amazonas pode se espalhar por toda a margem equatorial e até pelo Mar do Caribe. Em 2024, o Ibama se posicionou contra. O IBAMA condenou a exploração de petróleo nessa região, uma região imensa de 2.200 km de extensão, vai ali do Amapá ao Rio Grande do Norte.

Eles condenaram isso ali, tecnicamente afirmaram, olha, não tem condição de você fazer qualquer exploração de petróleo ali sem atingir, prejudicar o meio ambiente total ali daquela região.

FMFelipe Maciel

O presidente do IBAMA, Rodrigo Agostinho, numa audiência no Congresso Nacional, disse que é uma área sensível. Há comunidades indígenas na região, há áreas de preservação ambiental. Nós estamos falando de uma exploração de petróleo numa área nova, numa área pouco estudada, numa área onde existe um alto risco de acidentes.

NNNatuza Nery

Especialistas em clima também questionam mais investimentos na exploração de petróleo. Com a palavra, o climatologista Carlos Nobre.

FMFelipe Maciel

Não há nenhuma justificativa para qualquer nova exploração de combustíveis fósseis, seja o petróleo, seja o gás natural ou carvão. Nós temos que zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis em todo o mundo. 75% das emissões dos gases efeito estufa vem da queima dos combustíveis fósseis. É uma emergência imensa.

NNNatuza Nery

O próprio presidente Lula defendeu justamente a necessidade de superar essa dependência durante a COP30, realizada no Brasil no ano passado. Agora, diante de uma possível nova fronteira do petróleo, o desafio é conciliar as duas coisas.

FMFelipe Maciel

Parte dos lucros com a exploração de petróleo para a transição energética permanece um caminho válido para os países em desenvolvimento. O Brasil estabelecerá um fundo dessa natureza para financiar o enfrentamento da mudança do clima e promover justiça climática. O secretário-executivo do Observatório do Clima apontou a contradição do discurso do presidente. Você não pode propor algo para o mundo, abandonar combustíveis fósseis, e ao mesmo tempo retirar mais combustíveis fósseis, produzir mais desses combustíveis.

NNNatuza Nery

Da redação do G1. Eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o futuro da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. Neste episódio, eu converso com Felipe Maciel, sócio-fundador e diretor-executivo da agência Axios, especializada nos setores de petróleo, gás e energia. Quarta-feira, 19 de agosto. Felipe, trata-se de uma notícia grande para quem cobre o setor de petróleo. No sábado, a Petrobras confirmou a presença de hidrocarbonetos em um poço na Bacia da Foz do Amazonas.

A estatal anunciou ter encontrado de fato petróleo naquela região. Eu quero que você explique para a gente o que isso significa e o que exatamente foi descoberto.

FMFelipe Maciel

A Petrobras anunciou indícios de hidrocarbonetos na perfuração de um poço exploratório em um toco na Bacia da Foz do Amazonas. O que que isso significa na prática? Significa que o poço que ela tava perfurando passou em algum momento, encostou, tocou óleo durante a campanha de perfuração. A regulação brasileira obriga as empresas que exploram áreas de concessão de petróleo e gás a informar a Agência Nacional do Petróleo toda vez que for detectado algum indício de petróleo e gás. É nesse momento que a gente tá agora.

NNNatuza Nery

A floresta amazônica a perder de vista, são quilômetros e mais de quilômetros de verde até avistarmos o município de Oiapoque. A cidade do extremo norte está no foco nacional por conta da proximidade com o Poço Morfo, local onde a Petrobras anunciou ter encontrado petróleo. A exploração de petróleo ocorre em águas profundas no oceano, na costa do estado. O trajeto até a área de perfuração leva cerca de 1 hora de helicóptero.

FMFelipe Maciel

Como a presidente da Petrobras, a Magda Chandriá, falou, ainda falta um caminho para se dizer se essa descoberta vai se confirmar viável, se é economicamente produtiva. Petrobras tem um plano de perfurar mais 3 poços, o que se chama dentro da indústria de óleo e gás de fazer uma campanha de delimitação para ver efetivamente se tem um reservatório, se ele, como se diz, está selado, né, se esse petróleo tá todo contido ali dentro, e se o volume de petróleo é economicamente viável de ser produzido naquela região.

É um início de um trabalho, mas é uma notícia relevante porque Faz muito tempo que essas áreas estão na expectativa de exploração. Esses blocos foram licitados em 2011. A gente tá aí 15 anos depois tendo uma primeira campanha bem-sucedida. Então é uma notícia relevante, sobretudo para Petrobras e para o Brasil, que precisa recompor reservas de petróleo se não quiser voltar a ser importador de petróleo na próxima década.

NNNatuza Nery

Eu entendo que há um passo a seguir. Queria que você nos explicasse de maneira simples que passo é esse, o que que precisa ser feito feito para que se confirme a existência de petróleo economicamente viável em grandes quantidades?

FMFelipe Maciel

É, então agora Petrobras já requereu ao IBAMA uma licença para perfurar mais 3 poços exploratórios, são poços de avaliação ali na região. Após a perfuração desses poços, ela vai poder dizer se o reservatório contém petróleo, qual o volume de petróleo se tem nesse reservatório, e se esse volume é economicamente viável para produção. E aí nessa conta entra o custo de se instalar plataforma, o custo de se instalar gasoduto, se for uma descoberta que tenha gás também, e todo o custo de infraestrutura que vai ter nessa região.

A Magda Chambriat disse que estimativas da Petrobras olham para esse caminho de hoje até a produção com 7 anos de duração, o que levaria isso aí para o começo da próxima década, um início de produção. A Petrobras é totalmente capaz disso, mas é um prazo altamente desafiador. Geralmente na indústria no Brasil a gente leva aí uns 10 anos para conseguir começar essa produção. Então ainda tem um caminho longo aí até isso virar realidade.

NNNatuza Nery

Eu notei nos discursos oficiais alguma cautela dizendo, olha, a gente ainda precisa ver se é tudo isso mesmo, mas uma cautela, eu diria, otimista. O presidente da República, por exemplo, comparou essa descoberta à descoberta do pré-sal, né, e destacou a capacidade tecnológica da própria Petrobras, que é algo que você acaba de citar. Por que que eu noto, leiga que sou, antes de saber se de fato tem petróleo lá em grandes quantidades e comercialmente viável?

Por que esse otimismo no ar assim? O que que leva o governo a ficar otimista assim?

FMFelipe Maciel

A região da Foz e toda a margem equatorial é uma região que os geólogos entendem como uma região muito parecida geologicamente falando com a Guiana, o Suriname e outros países um pouco mais acima ali do Amapá que estão descobrindo volumes consideráveis de petróleo. O otimismo vem daí, porque se acredita que a gente possa estar ali no Amapá com a mesma estrutura geológica que a Guiana, por exemplo, tem, e que descobriu volumes consideráveis de petróleo e hoje já tá produzindo, inclusive em prazo recorde, com a ExxonMobil. Então é o volume que se tem na Guiana que gera o otimismo na Foz do Amazonas.

NNNatuza Nery

A Guiana era até pouco tempo um dos países mais pobres do continente, tinha o segundo pior PIB per capita. Na frente apenas da Bolívia. Tudo mudou em 2015, quando uma enorme reserva de petróleo foi descoberta. A estimativa é chegar a mais de 1 milhão de barris diariamente. Petróleo fez jorrar dinheiro na economia do país, tanto que em 2021 o PIB per capita da Guiana superou o do Brasil.

FMFelipe Maciel

A gente ficou muitos anos esperando uma campanha exploratória para aquela região, sobretudo os políticos. Esperaram por muito tempo. A gente viu aí o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o governador do Amapá, todo mundo da região defendendo essa— grande parte dos políticos da região defendendo essa campanha. Então eu acho que primeiro o resultado positivo, em parte, né, porque a gente ainda não pode dizer que é totalmente positivo, mas que já traz um otimismo, um olhar mais esperançoso para isso.

Segundo, que a exploração do petróleo gera dinheiro, né. As participações governamentais e royalties, elas são volumosas. O pré-sal mudou completamente o cenário do setor de petróleo no Brasil. A gente atingiu a autossuficiência 20 anos atrás, mas depois a gente vem crescendo rapidamente na produção, atraindo várias empresas, colocando o Brasil como uma potência petrolífera de nível global. À medida que a gente passa a ser grande exportador de petróleo, a gente passa a gerar grandes superávites comerciais, e isso tem um impacto na economia brasileira, que consegue atingir um nível de estabilidade cambial e atrair investimentos.

Enfim, muito importante, né? E essas exportações de petróleo são extremamente importantes para nossa economia.

NNNatuza Nery

Eu queria entender agora, diante das informações que a gente tem até aqui, quais são os ganhos reais para o Brasil? Você disse o seguinte: olha, o pré-sal, né, o óleo que vem do pré-sal vai nos sustentar até 2030, 2035. Vamos botar esse grande intervalo de tempo, me corrija se eu tiver errada. Depois disso esse petróleo vai começar a descender, se a gente não vai conseguir tirar tanto barril de petróleo da exploração do pré-sal.

FMFelipe Maciel

O começo foi tímido, com uma exploração que rendia 40 mil barris por dia, e foi crescendo aos poucos. No ano passado, foram mais de 2 milhões e meio de barris por dia retirados do pré-sal. No centro disso tudo tá a Bacia de Santos. Hoje, 48% de tudo que é explorado pela Petrobras no pré-sal sai de lá, mais de 1,5 milhão de barris por dia.

NNNatuza Nery

Portanto, essa nova fonte é considerada crucial pra manter o Brasil sem precisar importar petróleo. Desenha um pouco mais pra gente dos ganhos econômicos pro Brasil.

FMFelipe Maciel

A gente vive hoje um momento geopolítico global complexo. A gente tem a guerra no Oriente Médio, temos a guerra da Rússia com a Ucrânia. Todas essas guerras mexeram fortemente no preço do petróleo e do gás. A guerra agora no Oriente Médio fez o governo brasileiro fazer um programa de subvenção a combustíveis no Brasil para essa conta não chegar no consumidor final. Na prática é o seguinte: o governo injetou dinheiro na compra para garantir preço de combustível, para que o consumidor final não fosse afetado por essa volatilidade causada pela guerra.

E isso tudo gerou uma despesa considerável para o Tesouro Nacional. Se a gente não é autossuficiente ou um exportador de petróleo como a gente é hoje, essa conta seria muito mais cara e a gente estaria pagando muito mais por isso, porque a gente estaria importando petróleo e talvez a gente tivesse problemas de abastecimento interno, como outros países tiveram. Então assim, ter a capacidade de gerir a sua reserva e não precisar de petróleo de outros países é uma vantagem competitiva que o país tem.

NNNatuza Nery

E é claro que essa discussão expõe muito debate e muitas críticas também. Ouça o que diz Shige Watanabe Jr., físico consultor de Energia do Observatório do Clima e pesquisador do Clima Info.

SWShigueo Watanabe Jr.

2 anos atrás, a Petrobras dizia que o pré-sal atingiria o seu pico de produção em 2030 e depois cairia rapidamente. Isso já mudou um pouco. O presidente da Petrobras falou que o pico do pré-sal vai ser em 2034, 2035. Se esse pico de petróleo, mesmo se ele acontecer em 2035, até esgotar esse petróleo são mais 10, 15 anos. A gente tá falando de 2050. A expectativa da transição energética é que a nossa demanda de petróleo também vá caindo à medida que o tempo passa.

FMFelipe Maciel

Para além disso, petróleo acaba gerando reservas econômicas para União, estados e municípios. Hoje você tem municípios no estado do Rio de Janeiro que recebem por ano bilhões de reais derivados da exploração de petróleo, da exploração e produção. Essa conta hoje, sem o dinheiro do petróleo, é muito difícil de ser feita. Eu não tô dizendo que é impossível, nem tô dizendo que não deva. Eu só tô dizendo que é mais difícil de ser feita.

Já conhece o empréstimo com garantia de veículo do Banco BV? Com ele você tem o dinheiro que precisa para organizar sua vida financeira e realizar seus planos sem vender o seu carro. Aproveite com taxas reduzidas e mais vantagens. Acesse bv.com.br.

NNNatuza Nery

Com essa descoberta, dá-se a impressão de que só tem a Petrobras ali, só tinha Petrobras explorando aquela região, e há diversas empresas estrangeiras ali, não é isso? Explica pra gente como que é esse desenho de outras empresas que são de fora do Brasil que estão fazendo esse tipo de pesquisa por ali.

FMFelipe Maciel

Essas áreas foram licitadas em 2011 e hoje estão todas com a Petrobras, a grande maioria está com a Petrobras, porque as empresas acabaram desistindo da exploração na região por conta da dificuldade que encontraram para licenciar campanhas exploratórias. Então esses blocos foram adquiridos pela Total e a BP e a Petrobras como sócia. A Total tentou licenciamento, não conseguiu. Total é a francesa Total. A britânica BP também tentou licenciamento, não conseguiu, saiu.

E a Petrobras ficou com a maioria dos blocos em águas profundas. E a gente tinha uma fatia pequena de empresas um pouco menores como Prio e Brava que estavam ali em ativos de água rasa. No último leilão da ANP, e o que a gente imagina que já vendo processo exploratório que existe hoje na Guiana, empresas como Shell, Exxon, Chevron compraram áreas exploratórias na Bacia da Foz do Amazonas. Então assim, hoje a Petrobras tá sozinha fazendo campanha exploratória, mas uma descoberta da Petrobras provavelmente deve acender o apetite das outras empresas a quererem também fazer campanha exploratória lá.

O que a gente vê é que as empresas estão muito esperando para ver o que, o resultado do que vai acontecer com a Petrobras, e também aguardaram a Petrobras como case do licenciamento ambiental. Mas a gente acredita que assim que essa campanha for concluída, e se você tiver uma divulgação de uma descoberta comercial, provavelmente as outras empresas vão se mover para explorar na região também.

NNNatuza Nery

A gente vive num momento em que o mundo debate transição energética. Como é que fica essa discussão com uma notícia desse tamanho? Eu já vi, por exemplo, discussões no seguinte sentido: olha, seria para um país uma loucura abrir mão de uma receita se de fato tiver uma grande reserva. Mas a saída para isso, pelo menos um jeito de enxergar o combustível fóssil de uma maneira diferente, é utilizá-lo para garantir, financiar a transição energética de um país. O caminho é por aí mesmo, você entende?

FMFelipe Maciel

É, a gente tem hoje no governo 3 visões sobre esse tema. Você tem primeiramente quem acredita que tem que parar e não tem que licitar novas áreas exploratórias de petróleo e gás. Você tem uma fatia do governo que acredita que a gente não pode perder a oportunidade de ter uma reserva e usá-la para desenvolver. Até porque os grandes países, maiores consumidores e os maiores produtores de petróleo, não dão sinais nenhum de que vão parar.

Os Estados Unidos é o maior exemplo disso, e que não faz sentido a gente ser penalizado pela decisão dos países desenvolvidos a não parar.

NNNatuza Nery

A crise inflacionária foi causada por um excesso de gastos e também os preços que vêm subindo no setor de energia. Por isso que hoje também vou declarar uma emergência energética nacional. Vamos perfurar, bebê, perfurar!

FMFelipe Maciel

E você tem uma terceira visão dentro do governo, que é essa que o petróleo vai subsidiar e financiar a transição energética. As duas últimas visões, elas acabam sendo complementares e é o que forma a maioria hoje dentro dentro do governo. Eu acredito que esse é um caminho. A gente tem que usar o dinheiro da renda do petróleo para caminhar para um mundo sem petróleo. Você tem que fazer política pública de transição energética. Então a gente tem no Brasil a possibilidade, por exemplo, de substituir diesel, que é um combustível que a gente importa, por biometano, por gás, principalmente no transporte público e no transporte pesado.

Você tem a possibilidade de ir mudando as matrizes, fazendo política pública e dando incentivos com dinheiro da renda petroleira. Eu acho que esse é um caminho que pode funcionar.

NNNatuza Nery

E aqui mais uma vez uma observação de Shige Watanabe Júnior: existe a lei, ela só precisa ser cumprida.

SWShigueo Watanabe Jr.

Agora eu faço uma analogia do tipo: é a mesma coisa que eu pedir para todo mundo fumar muito, porque daí com os impostos que eu vou arrecadar eu vou cuidar de todo o câncer do pulmão que aparecer. Então não é produzindo petróleo que eu vou me livrar do petróleo. Mas sim, durante um período tem esse dinheiro todo dos royalties do petróleo que deve ser aplicado para transição energética.

FMFelipe Maciel

Mas tem uma coisa que é importante também, que a gente precisa sempre olhar, é a matriz energética do Brasil é muito limpa. A matriz elétrica, ela é bastante limpa. Enquanto o mundo ainda produz muita energia com carvão, a gente tá aí nadando de braçada com energia solar, energia eólica. E grande parte do governo hoje no planejamento acredita que a gente consegue compensar uma grande parte das emissões desse petróleo que vai vir usando tecnologias de captura de carbono, usando tecnologias para abater essas emissões.

Então essa é a visão que hoje prevalece. E acredito que usar a renda do petróleo para migrar para uma economia de baixo carbono pode ser interessante para um país como o Brasil. Se a gente olhar que tem muita gente no Brasil ainda que vive em situação de pobreza energética, que não tem acesso à energia, tem muita cozinhando com lenha, tem muita gente sem luz em casa. Então é preciso botar isso na conta quando a gente vai discutir essa transição também.

O ministro de Minas e Energia disse ao Jornal Nacional que a criação do fundo ainda está em discussão.

SWShigueo Watanabe Jr.

Como petróleo pode vir da mineração, nós vamos discutir as fontes desse fundo. E esse fundo seria, criaria um círculo virtuoso para poder aplicar na transição energética, na mudança da matriz energética brasileira e consequentemente te dá exemplo para o mundo da transição energética, que deve ser mais rápida.

NNNatuza Nery

Já que você citou a Guiana, eu queria entender um pouco do ponto de vista ambiental, como é que esse debate tá se dando por lá. Assim, que eles têm uma grande reserva que animou o mercado de petróleo no mundo inteiro, nós sabemos, mas como é que a coisa está se dando por lá do ponto de vista da preservação ambiental e do controle de riscos de acidente ambiental?

FMFelipe Maciel

Essa discussão é uma discussão que vai sempre acontecer e ela é importante que aconteça. Agora, a gente tem que entender que a atividade do petróleo é uma atividade que tem risco ambiental. Isso é inerente à atividade do petróleo, é o risco de ter um acidente. Então, o que se precisa discutir é a capacidade das empresas, da indústria, de mitigar riscos e você entender e fazer uma decisão de Estado se você quer ou não explorar petróleo.

A gente tem no Brasil hoje uma decisão de Estado e de apoio à produção de combustíveis fósseis, apoio à produção de petróleo e gás no Brasil. Quando a gente olha o programa, por exemplo, de governo dos principais candidatos agora para reeleição, todos indicam a manutenção do petróleo como fonte na matriz energética brasileira. Então assim, a gente tem que encontrar meios de colocar esse debate cada vez mais presente da importância da segurança ambiental e cobrar e trabalhar para que as empresas atendam às exigências que hoje são feitas pelos órgãos ambientais.

Quando a gente vê às vezes exigências feitas pelo IBAMA lá na Foz do Amazonas, elas são muito altas. O IBAMA deu a licença, parece que a Petrobras atendeu ao que o IBAMA entendia como importante.

NNNatuza Nery

Ouça de novo Shigeo Watanabe Júnior.

SWShigueo Watanabe Jr.

A região lá da Foz do Amazonas, da bacia sedimentar da Foz do Amazonas, ela já vem sendo estudada há muito tempo e é muito difícil. Tem problemas ambientais graves lá durante vários meses do ano, tem uma corrente marítima muito forte que qualquer acidente que acontecer vai arrastar petróleo não só para o litoral do Amapá como para o Caribe. Então tem risco, o risco é sério, e a gente não conhece bem. Essas correntes são medidas pelos oceanógrafos, mas a Petrobras não tem experiência ainda de um acidente que possa acontecer numa área sensível como aquela.

FMFelipe Maciel

Lá na Guiana, o caminho é o mesmo, tem que seguir essas orientações. O que eu escuto muito das pessoas na indústria é: o problema não é o nível O problema é ser demorado, é não ter previsibilidade e tal. Então é colocar tudo no maior sarrafo possível e ter a certeza de que as empresas e o governo têm capacidade para mitigar se algum acidente acontecer. Porque é importante deixar claro que ninguém tá livre de um acidente na produção de petróleo.

NNNatuza Nery

Eu perguntei isso para um integrante do governo recentemente, eu virei e falei assim: olha, mas a discussão no mundo tá indo para um lugar muito diferente. E esse integrante do governo respondeu: Natuza, então vamos supor que a gente não tenha uma situação ideal E aí, a partir de 2030, a gente começa a ter que importar petróleo. O mundo, como a gente sabe, está em guerra, região do Golfo em guerra, e a gente vai ter que importar inflação para o Brasil.

E aí a população toda sofre. Então ele tava tentando me fazer entender que não é uma escolha fácil, né, abrir mão de uma reserva grande, se esse de fato for o caso.

FMFelipe Maciel

A gente hoje, as guerras que acontecem hoje no mundo e todos os problemas que os países passaram, os problemas que os países que os países europeus passaram por conta da falta de gás depois da guerra da Ucrânia mostra o quanto é importante soberania energética. Porque se a gente precisar, num momento de guerra ou de outro tipo de situação, importar ou trazer energia de grandes distâncias, é um desafio considerável, é considerável mesmo.

NNNatuza Nery

Felipe, muito obrigada pelas explicações, bom trabalho para você.

FMFelipe Maciel

Obrigado a você pelo convite, sempre à disposição.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

FMFelipe Maciel

Ô gás! Gás do Brasil é o nosso gás e tá em tudo que o Brasil faz.

A Foz do Amazonas e o futuro da exploração de petróleo no Brasil | Castnews Index — Castnews Index