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O voto da maioria: o que pensa e o que quer o eleitor da Classe C

17 de agosto de 202624min
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Convidado: Renato Meirelles, autor do livro "Brasil da Maioria", presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela. Começou neste domingo (16) a corrida eleitoral para o pleito que será realizado no dia 4 de outubro. A partir desta semana, candidatos e partidos podem pedir voto aos eleitores – e, nesta missão, vão encontrar um país bastante complexo. Trata-se de um eleitorado de quase 160 milhões de brasileiros, mas há um grupo muito grande e heterogêneo que é fundamental para definir o rumo do Brasil que sairá das urnas: a Classe C. De acordo com o Instituto Locomotiva, a população que está nessa faixa (brasileiros que têm renda familiar per capita de R$ 610 a R$ 1.250 por mês) é mais da metade dos eleitores e tem um perfil de voto menos ideológico e mais pragmático. Neste episódio, Victor Boyadjian entrevista Renato Meirelles, autor do livro "Brasil da Maioria", que analisa 25 anos da Classe C. O especialista descreve as principais características desse grupo que vão além da renda: a visão que tem sobre o Estado, o mercado de trabalho e o empreendedorismo e quais são seus valores culturais e religiosos. Ele também explica quem são as figuras políticas que melhor se comunicam com essa parcela da população.
Participantes neste episódio2
V

Victor Boyadjian

HostJornalista
R

Renato Meirelles

ConvidadoPresidente do Instituto Locomotiva
Assuntos5
  • Comunicação Política Classe C· PoliticaIdentificação com Michele Bolsonaro·Gratidão ao Lula·Busca por escuta radical do Estado·Pragmatismo em vez de ideologia
  • Perfil do Eleitor Classe C· PoliticaRenda familiar per capita·Heterogeneidade do grupo·Mulheres chefes de família·Diferenças regionais·Voto pragmático
  • Relação com o Trabalho e Empreendedorismo· NegociosCLT como símbolo de status·Empreendedorismo de exaustão·Desburocratização pelo acesso à tecnologia·Valorização do tempo próprio
  • Evolucao das Demandas da Classe C· SociedadeEstabilização econômica pós-Plano Real·Impacto do Bolsa Família·Aumento real do salário mínimo·Frustração com a classe política
  • Valores e Visao de Mundo Classe C· SociedadeTeologia da prosperidade·Conservadorismo empático·Importância da rede de apoio social·Diferenças entre voto feminino e masculino
Transcrição29 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RMRenato Meirelles

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RARoberto Azevêdo

Nesta semana começou oficialmente a corrida eleitoral. Os candidatos e partidos passaram a poder pedir votos aos eleitores e nessa missão vão encontrar um Brasil bastante complexo. Os brasileiros formam um povo sofrido e cansado, resignado, mas que continua trabalhando e batalhando em busca de uma vida melhor. Esse é um retrato do país de acordo com o livro Brasil no Espelho, escrito pelo cientista político Felipe Nunes, que é o diretor do Instituto Quest.

Na pesquisa que Nunes conduziu para a publicação, ele perguntou aos entrevistados como eles se sentiam. A resposta foi espontânea: 51% deles disseram que estavam cansados ou mencionaram outros sentimentos negativos. E a principal razão pra isso está no bolso. Vou explicar: 6 em cada 7 brasileiros concordam que precisam mais do que um trabalho pra fechar a conta no fim do mês. E isso ajuda a explicar outro número: 83% dizem que gostariam de ter o próprio negócio.

É o chamado empreendedorismo de exaustão. Eu falei, vou tentar. E eu não tinha capital de giro, eu entrei na loja com a cara e a coragem. Eu falei, eu tenho que começar. Tanto é que a loja ainda não me deu lucro, por enquanto eu tô patinando, mas claro, acredito, tô feliz por estar aqui.

?Voz C

Meu sonho é montar um café. Dá bastante insegurança, né? Então, na época, assim, eu trabalhava muito mais, mas hoje eu falo, meu, valeu muito a pena. Tudo que a gente aprende na empresa anterior e todas as outras que a gente passou Vale muito, a gente usa tudo, né, na empresa. Aí eu tô pensando em montar uma sala de estética. É muito comum, a pessoa trabalha numa loja de roupas e acha que as coisas deviam ser diferentes, mas ela não é dona da loja de roupas.

Então ela começa a amadurecer a ideia de abrir a sua própria loja de roupas, onde ela vai poder organizar os trabalhos da forma como ela julga adequado, né, pela percepção que ela já acumulou.

RARoberto Azevêdo

Mas note que curioso, Mesmo cansados, os brasileiros não se sentem necessariamente infelizes. 3 em cada 4 afirmam ter algum grau de satisfação com a vida, uma taxa que está em linha com a média mundial. E é diante deste aparente contraste que o brasileiro vai às urnas. E os candidatos precisam decifrar o que ele, o eleitor, quer.

?Voz C

O independente é que vai decidir a eleição, né, gente? A gente tem falado o tempo todo sobre isso. Foi o que decidiu em 2022, que é o Centro. Que não se vê ligado nem à esquerda nem à direita necessariamente. Dentro desse centro tem um pouco de centro-esquerda, tem um pouco de centro-direita, tem centro-centro. E esse pessoal, que também é o eleitor pêndulo, cada ano vai para um lado ou para o outro e define a eleição. Porque a eleição você está vendo, está bem grudadinha ali, as intenções de voto bem próximas desses dois polos que representam o PL e o PT, a esquerda e a direita.

RARoberto Azevêdo

E nesse universo de quase 160 milhões de pessoas aptas a votar, há uma parcela fundamental para decidir as eleições. Mais da metade dos títulos são de eleitores com renda familiar mensal entre R$610 e R$2.150. O Instituto Locomotiva classifica esse grupo de mais de 80 milhões de eleitores como Classe C. Esse é o centro de gravidade do país. Um eleitor que está preocupado em saber como os candidatos serão capazes de responder à seguinte pergunta: Quem vai conseguir destravar a minha vida?

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boiadjian é: o voto da maioria, o que pensa e o que quer o eleitor que está na classe C. Neste episódio, eu converso com Renato Meirelles, autor do livro Brasil da Maioria, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela. Segunda-feira, 17 de agosto. Renato Meirelles, são 53% dos eleitores pertencentes à classe C. Parece que é uma coisa só, um grupo homogêneo, mas certamente não é, né?

Queria saber quem são eles, quais cortes mais que a gente pode fazer dentro desse corte de renda da classe C.

RMRenato Meirelles

Classe C é a maioria absoluta, não só da população brasileira, como dos eleitores. Ela é majoritariamente liderada por mulheres. As mulheres são a maioria absoluta das chefes de família da classe C. Algumas regiões do país, como a região Nordeste, tem proporcionalmente um número maior de brasileiros da classe C. A região Sul tem o que nós chamamos da classe A da classe C, porque é uma classe C mais escolarizada, com mais acesso à internet e com uma renda média dentro da classe C um pouco maior.

Mas surpreendentemente, é a região Sudeste que concentra a maior parcela em números absolutos dos eleitores da classe C. Nós temos aí mais de 40% dos eleitores da classe C.

?Voz C

Não houve alteração na concentração de eleitores por estado. São Paulo ainda é o maior colégio eleitoral do país, seguido por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná. Os 5 estados concentram 52% dos eleitores. As mulheres seguem sendo a maioria do eleitorado brasileiro. Eu acredito que o voto feminino, ele é um definidor. Da eleição, porque as mulheres, elas são a maioria do nosso país.

RMRenato Meirelles

A classe C é o maior colégio eleitoral do país e a classe C tem, nesses 25 anos, mudado muito das suas demandas sobre o que ela espera receber do serviço público.

RARoberto Azevêdo

Sobre o ponto de vista da ideologia da classe C, hoje ela não é necessariamente de esquerda, né? Ela tem também as suas preferências na direita, né? Conta um pouco sobre isso, Renato.

RMRenato Meirelles

Uma das mudanças que ocorreram é a forma em que elas enxergam os governantes e a função do Estado brasileiro. Lá atrás, quando a classe C não era nem vista como uma classe econômica, o sonho da maior parcela desses brasileiros era poder sonhar. Como poder sonhar, Vitor? Imagina o seguinte: antes do Plano Real, as pessoas recebiam o seu salário e saíam correndo no supermercado. Elas saíam correndo no supermercado para ultrapassar a moça que remarcava preço, para poder estocar alimento, porque não existia nenhuma aplicação financeira que rendesse mais do que estocar alimento.

?Voz C

Inflação descontrolada marcou a vida de gerações. Nos anos de 1980, os preços subiam até 3 vezes por dia no supermercado. E pense que naqueles anos mais da metade da população não tinha conta em banco. A única forma de proteger o salário era correr para fazer compras assim que saía o pagamento.

RARoberto Azevêdo

Logo que a porta abrisse E antes que a maquininha remarcasse os preços, era preciso comprar a dieta de feijão e de arroz aos preços ainda não remarcados. Pensa bem, né? As pessoas, mesmo crianças, tinham que viver em função de tentar bater a inflação e obviamente também não conseguiam.

RMRenato Meirelles

Com a estabilização da economia, a classe C começou a falar: opa, eu posso fazer pesquisa de preço. Entrou o governo Lula e com o governo Lula nós tivemos um processo de, através do Bolsa Família, criar um círculo virtuoso da economia. A classe C não recebia o Bolsa Família, mas quem recebia gastava onde? No mercadinho. Quem era dono do mercadinho era o empregador da classe C. E passou a ter o aumento real do salário mínimo. O aumento real do salário mínimo foi onde colocou de fato dinheiro na classe C e fez que ela chegasse aí à maioria absoluta da população brasileira, do eleitorado brasileiro.

A renda dessa classe C cresceu, eles foram consumindo, e o crédito aumentou para essa classe C. Só que teve um teto, toda economia parou de crescer, e aí chegaram a jornadas de 2013, que foram quando esses brasileiros desaceleraram o crescimento econômico deles, começaram a cada vez mais se frustrar e a olhar para a classe política e culpar a classe política pela redução da sua qualidade de vida. Nesse aspecto, nós tivemos de um lado as mulheres da classe C.

Elas são mulheres que olham mais para o Estado, são as mulheres que levam o marido para o médico, que buscam vaga do filho na creche, que levam o sobrinho na vacinação, que conseguem vaga na escola. As mulheres têm um pragmatismo com relação a olhar os serviços públicos que os homens não têm. E como esses valores são mais associados à esquerda do campo político, ela vota mais na esquerda. Os homens, por sua vez, eles têm um sentimento de resignação.

Se nós vemos 5 anos atrás, a renda dos homens e das mulheres, a diferença da renda dos dois era muito maior. No passado, o maior número de lares chefiados eram chefiados por homens. Hoje são chefiados por mulher. Nós tivemos a garantia de uma série de proteções à mulher que fez com que os homens deixassem de achar que tinham poder sobre sobre o corpo da mulher. Esse homem hoje ele tem menos do que tinha antes, que ele perdeu espaço, e perdeu mesmo.

Mas esse homem foi capturado por um discurso mais antissistema, por um discurso mais ao campo de direita na política brasileira. Nós temos os mais jovens que já nasceram sabendo que o ProUni existia, existia uma garantia mínima para eles estarem dentro da escola. O que esses jovens procuram hoje na política é uma ida a uma proposta de futuro que eles não encontram nem no Lula nem no Bolsonaro. Nós temos uma classe C mais velha, uma classe C que de fato se beneficiou de programas sociais e que tem uma narrativa de gratidão aí ao presidente Lula.

O que eu preciso resumir: a classe C não é nem de esquerda nem de direita, ela é uma classe C pragmática, é uma classe C que não quer saber se o Estado é grande ou se o Estado é pequeno, ela quer um Estado que funcione. Ela não quer alguém que diga meritocracia não existe ou é ilusão a igualdade para todos. O que ela quer é que o Estado ofereça igualdade de oportunidades, e isso a classe C não conseguiu encontrar nos governantes.

Nós temos aí uma direita que dialoga pouco com as demandas de Estado que a classe C espera. E nós temos no governo Lula um governo que não soube dialogar com a classe C que ele mesmo criou.

RARoberto Azevêdo

E existe uma transformação também ao longo desses últimos anos da relação com o trabalho, né? Se lá atrás o sonho de muitos era conseguir um trabalho com carteira assinada, hoje talvez o sonho de muitos seja conseguir empreender, ser uma pessoa de projeção às próprias custas, né? Graças ao próprio esforço, ao próprio mérito. É uma nova relação de trabalho E eu queria te ouvir sobre como isso tem influenciado o discurso político em busca desse eleitor interessado nisso.

RMRenato Meirelles

A questão que muitos da classe política têm dificuldade de entender é que trabalho deixou de ser sinônimo de emprego. Lá atrás, a CLT era quase um símbolo de status. As pessoas iam pra faculdade em busca da CLT. Na periferia, era muito comum uma mãe colocar a carteira de trabalho no bolso do filho e falar: se você for abordado pela polícia, mostre a sua carteira de trabalho e diga que você é trabalhador. Hoje, a gente não encontra isso.

A gente só encontra memes na internet. Memes que falam que CLT significa corno, loser ou trouxa. A gente teve de um lado o esvaziamento da CLT através das reformas trabalhistas, da reforma previdenciária. Do outro lado, nós tivemos uma ampliação gigantesca das tecnologias que tornaram muito mais fácil o empreender. Eu tô falando daquela senhora que queria abrir uma bomboniere, que lá atrás tinha que comprar ou alugar um espaço, um ponto comercial para abrir a sua bomboniere.

E hoje ela simplesmente compra na Shein umas forminhas de fazer bombons e chocolate a bolacha de vários formatos, a filha faz o logotipo no computador, ela passa a vender para o estado de São Paulo inteiro através do iFood, ou um boné através do Mercado Livre. A tecnologia desburocratizou o acesso ao dinheiro e o acesso ao mercado. E o que que coroa isso, Vitor? O que coroa isso é a disputa pelo tempo das pessoas. O tempo é o maior ativo econômico à disposição da classe C.

O valor que ela consegue dar para o próprio tempo é o que diz se ela vai empreender ou se ela vai trabalhar. É por isso que o fim da jornada 6 por 1 é uma bandeira tão cara, classe C. Isso significa mais tempo para ela ficar com a família, mais tempo para ela abrir o seu próprio negócio, menos tempo que ela perde no ônibus, porque isso é um tempo não remunerado, é um tempo que a indústria não paga. Então a classe C soube usar o tempo para ganhar mais dinheiro, e nesse sentido o empreendedorismo cresce.

Então ninguém acha sozinho que vai ser pela carteira de trabalho que ele vai ficar rico. Sim, vai ficar rico podendo correr atrás do seu corre. Mas em geral, tendo 2 ou 3 trabalhos, tem uma informação que talvez os ouvintes do assunto se interesse. Quais são as maiores profissões com carteira assinada da classe C? Nós estamos falando de vigias, nós estamos falando de trabalhadores da limpeza, nós estamos falando de empregadas domésticas.

Qual é o plano de carreira que esses profissionais têm daqui a 1 ano, daqui a 2 anos, daqui a 5 anos? Eles vão estar ganhando quanto mais trabalhando no regime CLT? Muito provavelmente menos do que ele ganha como trabalhador autônomo. E essa discussão do tempo é o que faz com que a demanda da classe C, que lá no passado foi ser incluída, que lá no passado era viajar de avião pela primeira vez, ter um filho no colégio particular, conseguir comprar um computador, conseguir comprar um carrinho, foi substituída por uma demanda de ser dona do próprio tempo.

E ao ser dona do próprio tempo, conseguir fazer com que o Estado brasileiro também trabalhe para Espera um pouco que eu já volto para continuar minha conversa com o Renato Meirelles. Já conhece o empréstimo com garantia de veículo do Banco BV? Com ele você tem o dinheiro que precisa para organizar sua vida financeira e realizar seus planos sem vender o seu carro. Aproveite com taxas reduzidas e mais vantagens.

RARoberto Azevêdo

Acesse bv.com.br. Renato, e aqui entra o conceito que até você menciona no livro da teoria da prosperidade, né? Se você puder explicar para gente como que isso se relaciona com o pensamento da classe C.

RMRenato Meirelles

Teologia da prosperidade dialoga com a valorização do ser humano, falando que se ele trabalhar, se ele fizer por merecer, ele vai chegar lá, porque Jesus está nele, porque a força está no indivíduo. Essa coisa da prosperidade, bastante presente nas igrejas evangélicas, foi responsável pela reeleição do presidente Lula. É uma lógica do cidadão chamando para si a responsabilidade por melhorar de vida e por esperar do Estado que o Estado dê essa oportunidade para conseguir abrir um emprego, oportunidade para ter o Estado participando nos momentos em que de fato ele precisa que participe, como por exemplo tendo um curso do Sebrae, como por exemplo tendo vaga na escola, tendo vaga para fazer um curso técnico, oferecendo uma saúde de qualidade.

E de outro lado defende um Estado que não atrapalhe quando for para ele ser dono do próprio negócio. A discussão não é sobre o Estado mínimo ou Estado máximo, é um estado que ajude ele na hora em que ele puder, por exemplo, vender para governos, e que não atrapalhe ele com a burocracia quando ele quiser abrir o próprio negócio. A Trilogia da Prosperidade mostra que as pessoas querem hoje aquilo que elas têm direito. Elas não querem esperar amanhã, elas querem hoje, querem ralar para isso, querem ser valorizadas por esse ralo.

RARoberto Azevêdo

Então você já tocou em dois pontos aí que eu também queria aprofundar um pouco: essa pauta dos costumes e também os valores religiosos desse grupo que pertence à classe C, de que forma que o discurso político nesses dois aspectos influencia a decisão do voto deles?

RMRenato Meirelles

Olha que coisa interessante, o último censo do IBGE, que é a pesquisa que o IBGE usa para, entre outras coisas, perguntar religião, ele aponta que o Brasil tem 27% de brasileiros que se identificam como evangélicos. E quanto menor a renda, maior a participação de evangélicos. Então, na média do Brasil, os evangélicos são 27%. Nós sabemos aí que na classe C passa desse 1/4 para 1/3 da população evangélica. Do Brasil. A gente fez uma outra pesquisa aqui no Instituto Locomotivo.

Nós perguntamos se as pessoas costumavam ir a templo, pisar numa igreja, pisar num templo protestante, pisar num terreiro. E aí a gente viu que as pessoas, sim, elas iam a templo. De cada 100 pessoas que pisam em um templo, 59 pisam num templo evangélico. Os evangélicos são heavy users da religião, eles convivem mais com seus irmãos de Eles ouvem mais o pastor e acabam formando um capital social que até pouco tempo atrás era exclusivo dos mais ricos.

Só rico sabia fazer network. E a religião traz isso para o eleitor protestante. Quem aqui que tá nos ouvindo nunca ouviu uma indicação de amigo? Olha, você tá precisando de um jardineiro? É o teu irmão lá da minha igreja. Ah, mas ele é evangélico. E os atributos que automaticamente são percebidos quando se apresenta alguém como evangélico é que a pessoa é honesta, que a pessoa é trabalhadora, que a pessoa é confiável. Então a classe C também cresceu muito nessa lógica do crescimento dos evangélicos dentro do Brasil e da criação e da consolidação aí de um network, de um capital social formado que faz com que a classe C ajude a própria classe C.

Outro aspecto é ligado ao conservadorismo. A classe C é conservadora? Sim, ela é. Ela é desde que não seja punitivista. Você pergunta: você é a favor ou contra que uma mulher que sofreu um aborto ou fazer um aborto seja presa? Elas são contra que as mulheres sejam presas, mas são contra que o aborto seja legalizado, porque ela já teve que abortar, porque a sobrinha dela teve que abortar. Ah, bandido bom é bandido morto. Para mulher da classe C, não, porque ela tem um irmão, primo egresso do sistema penitenciário.

O que nós chamamos aqui no Locomotiva, e eu falo no livro O Brasil da Maioria, é sobre um conservadorismo empático, o conservadorismo que faz com que os valores idealizados tenham que ser vistos e cobrados de acordo com uma realidade prática do dia a dia dessas pessoas. É esse o grande mistério que boa parte dos analistas não conseguem entender, porque a classe C funciona na lógica da reciprocidade, onde todo mundo ajuda todo mundo, onde se você pede perdão, seu perdão é aceito.

Então qualquer relação de um conservadorismo ligado à violência C, ele perde força na classe C. A mulher da classe C não quer que as pessoas andem armadas porque ela tem medo que se o marido dela pegar um revólver ela possa ser vítima de feminicídio, ou se um coleguinha do filho pegue a arma do pai e leve para escola pode ter um acidente com o filho dela. Esse conservadorismo empático é fundamental na hora de estabelecer narrativas, por exemplo, de segurança pública para essa classe C, que novamente eu repito é a maioria absoluta do eleitorado brasileiro.

RARoberto Azevêdo

Então, Renato, o que que você tá me descrevendo aqui? O perfil dessa classe C, por mais heterogêneo que seja, ele é majoritariamente a cara de uma mulher conservadora, evangélica, de origem humilde, que por iniciativa própria empreende de alguma forma o que tá parecendo muito a cara da ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, né? Você acha que é um pouco esse perfil de candidato que o eleitor olha eleitor da classe C olha e fala assim: olha, é com ele que eu me identifico mais do que aquele de origem sindical que trabalha pelo coletivo, pela busca dos benefícios sociais, pela carteira assinada, como já foi no passado.

RMRenato Meirelles

Eu vou falar duas informações que com certeza levarão a uma série de grupos não ficarem muito felizes com a minha resposta. A primeira é o seguinte: o que que a classe C, essa mulher da classe C, tem com relação ao Lula? Ela tem gratidão. A classe C que vota no Lula vota porque ela não quer trocar o certo pelo duvidoso. Mas ela não vota mais pela capacidade de comunicação que o Lula tem, ela não vota mais só pela história de vida que o Lula tem, ela vota porque na visão dessas mulheres o Lula é o político que mais fez pela família dela.

Não sei se ela tá certa ou tá errada, mas é essa visão que ela tem. Agora, quando você me pergunta qual é o político, a política que mais fala com essa classe C, com essa mulher da classe C, em 25 anos estudando a classe C eu não encontrei nenhum político, nenhuma política capaz de falar a linguagem da classe C como a Michele Bolsonaro fala. Quando ela olha para Michele Bolsonaro, ela vota na empatia que ela encontra na Michele Bolsonaro para as dores e para os desafios que essa mulher mais conservadora tem dentro da forma afetiva que ela lida com esse conservadorismo.

Quando teve o vídeo da Michele Bolsonaro, essa mulher da classe C olhou o vídeo. Sabe o que que essa mulher da classe C, Vitor, pensava? Nossa, é o meu marido, o meu marido é agressivo assim comigo. A Michele tá tendo um pito nos meninos que tem que dar mesmo. A Michele tá cuidando do pai deles e nem assim eles respeitam ela.

?Voz C

A gente separou aqui um trecho do vídeo de Michele Bolsonaro em que ela fala a respeito dessa relação com Flávio. Vamos ouvir o que ela disse. Voltando ao Flávio, telefonei para ele, tentei algumas vezes, mas ele não atendeu. Algumas horas depois da postagem, ele retornou a ligação, mas sinceramente, para falar o que ele me falou, seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone, e eu não tinha feito nada contra ele.

Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido, disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política.

RMRenato Meirelles

Na classe C, pelo menos, o peso do vídeo da Michele Bolsonaro na queda das intenções de voto ou da disposição de voto no Flávio Bolsonaro foi maior do que o escândalo do E aí eu não falo de cair um ou dois pontos percentuais, eu falo da capacidade de ter um eleitor ou uma eleitora engajada numa campanha. E nada desengaja mais o eleitor de extrema-direita do que a esposa da sua maior referência política, que é o ex-presidente Jair Bolsonaro, falando mal do candidato.

RARoberto Azevêdo

Bom, para a gente finalizar, Renato, eu queria também te ouvir sobre como que essas visões do eleitorado que pertence à classe C também domina um pouco os discursos políticos daqueles candidatos para o Poder Legislativo, né, para o Congresso, para as assembleias nessas eleições de outubro?

RMRenato Meirelles

A gente tem vários perfis de candidatos ao Legislativo, né. Então você tem candidatos de opinião. Os candidatos de opinião são aqueles que têm vários e vários seguidores na internet. Você tem candidatos de nicho ligados a sindicatos, ligados à igreja. O que a gente vê é que as candidaturas ao Legislativo Você começa a ter uma discussão que vai muito mais para um campo ideológico, quando o eleitor e a eleitora da classe C querem uma discussão mais pragmática.

O que aponta no livro é uma busca pelo que nós chamamos de escuta radical. Esse eleitor da classe C, ele já comprou num site, numa plataforma internacional, numa plataforma nacional. Ele foi lá, ele deu uma nota se aquele produto veio de uma forma boa ou ruim, se a loja atendeu bem ou não atendeu bem, e escreveu um review lá sobre a experiência de compra que ele teve. Não pode fazer isso em outras situações. O que ele quer é participar do Estado, ser escutado pelo Estado e ter impressão de que o Estado, ele também interfere nas decisões do Estado.

Porque se de um lado eu tenho um eleitor que faz uma compra na internet, que pede um sanduíche por aplicativo e avalia e vota para isso, eu tenho esse mesmo eleitor que chega numa repartição pública, encontra uma placa escrito: agredir funcionário público é crime previsto em e nenhuma placa garante: você tem direito à educação de qualidade, você tem direito à vaga hospitalar, você tem direito à moradia. Isso ele não encontra. E essa mesma repartição pública poderia ter um QR code para ele avaliar o serviço que ele teve, e isso servir para melhorar os serviços, para dar bônus para os funcionários públicos que atendam melhor as pessoas, para evitar desperdícios numa obra.

Essa escuta radical pode levar a um orçamento participativo onde as pessoas de um determinado bairro escolhem para onde que deve ser dado aquele dinheiro daquela emenda. Os parlamentares que souberem fazer isso, os candidatos de todos os cargos que souberem falar: olha, quem manda no Brasil é você, e se eu precisar tirar privilégios para garantir que você decida para onde vai o seu dinheiro, eu vou fazer isso, são os candidatos que vão conseguir dialogar com uma classe C que quer ser dona do próprio tempo e quer decidir o que deve ou não ser prioridade do Estado brasileiro.

RARoberto Azevêdo

Renato Meirelles, muito bom te ouvir mais uma vez, e sobretudo nesse momento que começa um processo de decisão importante para o eleitorado, mas claro também para os políticos aí que têm pretensões em outubro. Mais uma vez, muito obrigado pela presença aqui no Assunto.

RMRenato Meirelles

É super obrigado, Vitor, e a todos eu recomendo leiam O Brasil da Maioria: 25 Anos de Classe C. Um beijo grande.

RARoberto Azevêdo

Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Eu sou o Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo assunto.

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