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A tragédia no Discord e a proteção de crianças e adolescentes na internet

14 de agosto de 202629min
0:00 / 29:25
Convidada: Renata Cafardo, autora do livro "O Algoritmo das Famílias", repórter especial e colunista do Estadão e presidente da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca). Uma cidade com pouco mais de 50 mil habitantes no interior do Mato Grosso do Sul foi palco de uma tragédia transmitida ao vivo por uma plataforma que tem cerca de 56 milhões de pessoas cadastradas no país. Uma adolescente de 13 anos cometeu suicídio diante de uma plateia que assistia à transmissão online. A polícia começou a investigar o caso e identificou um cenário com ameaças e chantagem, e a morte passou a ser investigada como homicídio. A rede social onde o evento se deu, o Discord, enfrenta questionamento judicial. Mais que isso: a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo da plataforma. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Renata Cafardo, jornalista que acompanha o caso e que é autora do livro "O Algoritmo das Famílias". Renata descreve como as plataformas online em geral afetam a saúde e comprometem a segurança de crianças e adolescentes – e aponta o que mães e pais podem fazer diante disso. Também falam neste episódio, para explicar o caso da adolescente de 13 anos, Maraísa Cezarino, advogada especializada em proteção de dados, tecnologia e privacidade, e Vanessa Cavalieri, juíza da Infância e Juventude do Rio de Janeiro.
Participantes neste episódio4
N

Natuza Nery

HostJornalista
M

Maraísa Cezarino

ConvidadoAdvogada
R

Renata Cafardo

ConvidadoJornalista
V

Vanessa Cavalieri

ConvidadoJuíza
Assuntos4
  • Tragédia no Discord· SociedadeMorte de adolescente de 13 anos·Indução ao suicídio ao vivo·Investigação policial como homicídio·Discord
  • Infância e Memória Familiar· SociedadeSupervisão da experiência digital infantil·Controles parentais e aplicativos de monitoramento·Comunicação sobre perigos online·Desenvolvimento cerebral de adolescentes·Necessidade de pertencimento na adolescência
  • Restrições de Idade Redes Sociais· SociedadeRiscos em plataformas online·Monitoramento de perfis infantis·Servidores fechados e redes de ódio·Automação e moderação de conteúdo·Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD)
  • Censura e Bloqueio de Plataformas Digitais· PoliticaFalha no sistema de proteção do Discord·Dificuldade de fiscalização em servidores privados·Migração de conteúdo para outras plataformas·Debate sobre moderação ativa de conteúdo
Transcrição51 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

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NNNatuza Nery

Antes de começar, um aviso: este episódio contém descrição de violência e aborda questões sensíveis. Caso você seja vítima ou conheça alguém que esteja passando por uma situação semelhante, não deixe de procurar as autoridades. Diz que sim. Há também o Centro de Valorização da Vida, que atende 24 horas sob o telefone 188. Os participantes avisam que a live vai começar. Uma voz masculina dá instruções para a jovem que vai ser a protagonista da ação.

RCRenata Cafardo

Qualquer coisa, se perguntarem sobre a idade, algo do tipo, você tem mais de 18 anos?

?Voz D

É de verdade.

?Voz A

Ai, começou.

NNNatuza Nery

Ana era uma menina de 13 anos. Ela vivia em uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul, um município pequeno de aproximadamente 50 mil habitantes. Mesmo assim, Ana tinha um acesso potencial a mais de 56 milhões de pessoas a um clique de distância. Ana é um nome fictício inventado para não identificá-la. Assim como tantos jovens da sua geração, ela passava horas no quarto diante de uma tela, Ali, o que ela via era uma janela para um mundo teoricamente mais interessante e divertido, com amigos, jogos.

Ana encontrava isso na plataforma Discord. Para quem não conhece o Discord, imagine um prédio comercial recheado de salas. Algumas são abertas, como espaços de convivência. Já outras são restritas, como salas de reunião a portas fechadas. Foi para uma dessas salas reservadas que Ana foi atraída. E não por acaso. Segundo a polícia, há uma prática comum nessa plataforma. Adultos monitoram perfis públicos de crianças e adolescentes em redes abertas, como o Instagram ou TikTok.

As informações que a própria criança curte ou compartilha se tornam iscas para levá-las para dentro dessas salas fechadas. E ali não tem registro de entrada. Não tem nome, não tem idade, nada disso importa.

?Voz D

Eu tava vendo se tava bom pra cortar.

RCRenata Cafardo

Claramente dá pra ver que não é uma pessoa de maior. Fala quantos anos você tem.

?Voz D

Tenho 18.

NNNatuza Nery

Naquela sala fechada, acessível apenas por convite, Ana se tornou a protagonista de um espetáculo macabro diante de uma plateia repleta de adolescentes e de adultos. Ali ela foi induzida ao suicídio ao vivo, numa transmissão que o próprio Discord admitiu ter levado quase 2 horas pra tirar do ar.

RCRenata Cafardo

Ao G1, a mãe, que terá a identidade preservada, falou pela primeira vez sobre a morte da filha. Sorrindo, dizendo que já vai jantar e mandando um beijo. Essas são as últimas lembranças que a mãe tem da filha. A mãe faz um apelo: que os pais e responsáveis conversem mais com os filhos e acompanhem mais de perto a vida digital das crianças e adolescentes.

NNNatuza Nery

Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio. Mas a investigação revelou um cenário brutal de ameaça e chantagem. E por conta disso, a Polícia Civil mudou o foco. Agora, a morte dela é investigada como homicídio e a plataforma enfrenta o questionamento da Justiça. Vamos ouvir o que diz Maraísa Cesarino ao produtor do assunto, Carlos Catellan. Maraísa é advogada, especialista em proteção de dados pessoais e nos direitos da criança e dos adolescentes em ambientes digitais.

?Voz D

A Agência Nacional de Proteção de Dados Pessoais, ela identificou que existia um alto risco ali para crianças e adolescentes associados às possibilidades de transmissões ao vivo em servidores fechados do Discord. No âmbito dessa fiscalização, eles acharam por bem determinar uma medida preventiva porque o Discord não tinha terminado de adequar a plataforma para torná-la um ambiente mais saudável ali para os adolescentes. Então eles suspenderam preventivamente só as funcionalidades de live, então de transmissões ao vivo, e durante um período determinado dentro desse procedimento de fiscalização.

NNNatuza Nery

O caso ocorreu em 22 de julho e a própria plataforma confirmou que seu sistema de proteção falhou.

?Voz D

No caso do Discord, o que a ANPD entendeu é que, primeiro, eles não possuíam um mecanismo de monitoramento dessa funcionalidade de transmissão ao vivo. E aí eles não conseguiram, consegue então tirar do ar quando esse tipo de coisa está acontecendo ao vivo numa transmissão, que foi o que deixou com que a situação chegasse no ponto que chegou com essa adolescente de 13 anos.

?Voz E

Em uma resposta enviada ao Ministério da Justiça, o Discord disse o seguinte: admitiu que o sistema de proteção falhou. E mais, informou ainda ao Ministério que o modelo de intervenção automática está sendo reexaminado inclusive para avaliar possíveis aprimoramentos nos critérios de priorização. Portanto, a empresa informando ao governo federal que está reavaliando o atual processo. O Discord não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência, prosseguiu a plataforma.

Investigamos rapidamente e removemos o servidor privado acessível somente por convite envolvido no caso pouco depois de sua criação e seguimos cooperando com as autoridades policiais na investigação.

NNNatuza Nery

A decisão da NPD, portanto, vai além de um caso policial porque reforça um debate antigo: até que ponto uma plataforma deve ser responsável pelo que acontece dentro dela? Agência e governo dizem que o Discord não adotou medidas suficientes para proteger menores. Uma visão também compartilhada por quem atua na ponta do combate à violência contra crianças. Ouça o que disse a juíza da Infância e da Juventude do Rio, Vanessa Cavalieri, ao produtor do assunto, Marco Antônio Martins.

RCRenata Cafardo

A resposta é que isso acontece na Discord porque existe um problema, uma falha de segurança na concepção da plataforma. Então essa é a falha de segurança, que não tem moderação ativa de conteúdo. Então se alguém começar uma live no Instagram torturando um gato, enfim, se cortando, Muito provavelmente essa transmissão ela vai ser derrubada pela plataforma em segundos, porque há uma moderação ativa de conteúdo, há um algoritmo, a inteligência artificial e até pessoas que fazem essa moderação de conteúdo. Isso não existe na Discord, não tem nenhuma moderação ativa de conteúdo.

NNNatuza Nery

O que está em jogo é o algoritmo que entrou na casa de milhões de brasileiras e brasileiros, uma engrenagem invisível que passou a organizar rotinas, definir escolhas e até mesmo mediar conflitos dentro da família. Pais e mães passaram a disputar a atenção dos filhos com plataformas projetadas para não deixar que eles parem de olhar para tela. É a chamada dopamina barata: vídeos curtos, rolagem infinita e recompensas imprevisíveis que fazem o cérebro querer mais e mais.

Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: a tragédia no Discord, o modelo de atuação dessas plataformas e a proteção de crianças e adolescentes na internet. Neste episódio, eu converso com Renata Cafardo, autora do livro O Algoritmo das Famílias. Ela também é repórter especial e colunista do Estadão e presidente da Associação de Jornalistas de Educação, Geduca. Sexta-feira, 14 de agosto. Renata, você estudou bastante o mundo das plataformas, dos algoritmos, das interações com crianças e adolescentes, e eu quero te ouvir sobre como o Discord funciona.

No caso que a gente tá tratando aqui nesse episódio, a gente pode entendê-lo como um exemplo da forma com a qual crianças, adolescentes estão sendo expostos em plataformas como Discord. O que que você avalia sobre esse caso?

RCRenata Cafardo

O Discord é uma das plataformas mais perigosas que existem, mas não é a única, né? Vou te explicar então um pouquinho como que o Discord funciona. Discord, ele é difícil um pouco de entender porque ele não é uma plataforma de rede social como a gente tá acostumada, né? Ele são servidores privados em que as pessoas entram sendo convidadas. Então você não pode, não entra, não tem uma live que é anunciada, por exemplo, como é anunciada no TikTok ou no Instagram, e qualquer um entra.

Você é convidado, e essas crianças e adolescentes em geral são convidadas em outras redes sociais mais abertas, consideradas seguras, como o Instagram, como WhatsApp. São chamadas para esse ambiente onde muitas vezes acontecem essas reuniões das chamadas redes de ódio niilistas.

?Voz A

Servidores são comunidades do Discord que podem ser totalmente fechadas. Um comportamento observado é o de tirar uma foto com o nome do servidor para ser aceito entre os membros. Tudo pode acontecer e, a menos que alguém grave fora da plataforma, nada fica registrado. Surgem fotos e vídeos de pessoas ferindo o próprio corpo com uma lâmina.

RCRenata Cafardo

É aqui a menina que ela tá se automutilando na região genital. Uma menina se automutilando ao vivo. Que horror, ela tá escrevendo o nome do grupo.

?Voz A

No Brasil, o incentivo à automutilação é crime, mas tem no Discord.

RCRenata Cafardo

Os pesquisadores, eles identificam essas redes como niilistas. Niilistas são aqueles em que não vê sentido na vida, né? Então existe uma rede que é muito pesquisada por pesquisadores dessa área chamada CON764. Essa é uma rede que surgiu mundialmente. Ela é até difícil de explicar para as pessoas porque não é uma coisa hierárquica como a gente pode falar do PCC, do Comando Vermelho.

?Voz D

Ela não tem essa hierarquia muito definidas.

RCRenata Cafardo

Ela é colaborativa, ela recruta meninos e meninas, e ela ainda faz essa inversão de papéis. Muitas vezes as vítimas depois se tornam agressores. Ela é muito complicada porque ela vem dessa dessensibilização que acontece muitas vezes pela exposição à violência na internet com adolescentes e crianças. O caso dessa menina muito triste do Mato Grosso, ela estava num grupo em que havia violência contra animais, contra o próprio gatinho dela.

Há indícios de que ela havia cometido violências contra o Baratinho, e depois foi ali de alguma forma sendo induzida ao suicídio ali ao vivo. E não só em lives, essa diferença do Discord, eles compartilham as telas também, não é só uma live, são compartilhamentos de telas. Então as automutilações ou as violências são mostradas compartilhando tela. Muitas vezes o que é mais difícil é a polícia, dos investigadores encontrarem, porque você esbarra na lei de proteção de dados, porque você precisa entrar, não é algo que tá ao vivo para todo mundo, né, tá se compartilhando uma tela privada no servidor privado.

Então muitas vezes é mais difícil ainda ainda de se localizar essas violências que estão acontecendo.

NNNatuza Nery

Você citaria outras plataformas, outros aplicativos que também acabam por expor ainda mais crianças e adolescentes ao risco?

RCRenata Cafardo

Eu acho que o TikTok é bem complicado, bem prejudicial, porque o design do TikTok é algo para você ficar cada vez mais imerso ali nos vídeos, e vídeos com conteúdos muito inadequados, com algoritmo muito bom, muito bom no sentido de rapidamente ele entende qual é o interesse daquela criança ou daquele jovem e faz ele mergulhar cada vez mais naquele mundo, naquela carga de dopamina que vai deixando ele cada vez mais viciado e buscando aquela recompensa de estar sempre ali.

Grande questão ali das redes sociais é que elas atuam no neurotransmissor que é a dopamina, que é muito ligada ao prazer, mas também a recompensa, e que em sistemas cerebrais de crianças que ainda estão em desenvolvimento. Então o TikTok, ele é mais dopaminérgico nesse sentido, né, porque ele te deixa ficar o tempo todo lá. Não tô falando de conteúdo, mas talvez de exposição e do design que ele pode causar para saúde mental. Não que você vai encontrar morte, as suas se matem ou cometam grandes violências tanto quanto no Discord.

Mas eu acho tão prejudicial para a saúde mental quanto, ou menos prejudicial que, por exemplo, o Instagram, que talvez você pode ir trocando a tela de um vídeo para um card de um carrossel, se você não ficar só ali naquela parte de cima também que só tem vídeos. Eu acho que um vídeo atrás do outro, eu não acho, as pesquisas mostram isso, os vídeos curtos obviamente eles captam muito mais atenção e eles são mais prejudiciais para a saúde mental.

Você fica lá, a gente vê como a gente adulto fica lá às vezes uma hora e nem percebeu o que que tá fazendo daquele tempo, né? Por isso, para as crianças ainda é cada vez mais prejudicial.

?Voz D

Uma premissa do e-Food digital compreender que existe um problema que o Estado pode ajudar a modular nesse modelo de negócio. Então, no artigo 8º e também lá no artigo 17, a gente vai ver obrigações que se refletem no dia a dia, como adoção de medidas para evitar o uso compulsivo ou excessivo. E o artigo 17, inclusive, ele é bem específico assim em relação a mecanismos como reprodução automática, notificações constantes, recompensas e funcionalidades que prolonguem artificialmente o uso daquela rede social, como feed infinito e outros tipos de mecanismos e técnicas.

NNNatuza Nery

Então eu entendo que você fala que há riscos em ambos, ou praticamente todos os casos, né, de desenho semelhante, mas há uma gradação de risco. No Discord, a exposição a esse risco é muito maior do que em outros, a exemplo do TikTok.

?Voz D

É isso?

RCRenata Cafardo

Não sei se a exposição não é necessariamente a exposição, é porque ele é uma rede mais fechada e mais difícil de ser fiscalizada. Como é que a polícia faz? Ou as próprias plataformas tentam derrubar? Elas vão identificando alguns sinais, ou IA, né, inteligência artificial delas, vai identificando sinais de coisas problemáticas ali no que tá sendo postado ou divulgado. Se é uma coisa estática, um post, é mais fácil da inteligência artificial verificar.

Se é algo dinâmico que tá acontecendo com live, com compartilhamento de tela, é mais difícil. Então não quer dizer que não pode ser feito, e deve ser feito, né. O que o Discord agora precisa justamente apresentar é um plano de um melhor monitoramento. Tanto por inteligência artificial quanto humano, né? Que nesse caso ele falhou, esse monitoramento que eles têm. Então ele precisa ser aprimorado.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Renata.

?Voz A

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NNNatuza Nery

Agora, Renata, entrando mais na posição da Agência Nacional de Proteção de Dados, ANPD, de suspender as transmissões do Discord, eu vi críticas, ouvi elogios. Eu quero entender qual é a tua avaliação, tendo estudado e se debruçado muito sobre esses temas todos e perguntar para você se é uma medida que resolve o problema.

RCRenata Cafardo

Não resolve o problema, definitivamente. Ela é correta, ela vem no momento certo, mas ela não resolve todos os problemas. Essa medida tem que ser vista como o começo, o início, uma das medidas mais duras depois do início do ECA Digital. Até então a gente tava ainda na fase de orientação, supervisão, e finalmente essa fiscalização parece que foi mais dura e passa um recado para a sociedade e para as plataformas de que a NPD tá agindo, mas não é suficiente.

Primeiro é que o que eles estão banindo inicialmente são as lives. Ele diz de alguma forma que se estende também aos outros recursos, mas tem esse compartilhamento de telas que é um pouco mais difícil de você conseguir proibir. E ainda não só banir o Discord resolve o problema. Nesse caso específico dessa adolescente do Mato Grosso do Sul, a gente investigou lá no Estadão e teve acesso a alguns prints que mostram que o suicídio teria se dado no Instagram e nem no Discord, porque o Discord havia sido alertado pela polícia de que estava acontecendo esse ambiente de violência.

Então essa live, essa comunidade onde ela estava, alertado pela polícia, não foi o Discord que identificou sozinho não. E eles conseguiram derrubar essa live que tava acontecendo enquanto a menina estava viva. Isso também é o que Discord alega. Esse grupo então migrou para o Instagram e a morte teria se dado com uma live do Instagram. Então para dizer como eles migram o tempo todo de plataforma para plataforma. Telegram, por exemplo, tem diversos manuais desses grupos ensinando como fazer manipulação psicológica, como fazer a menina se cortar diante ali da live, matar um animal, fazer uma tortura.

Eles ensinam. Eu já li esses manuais, é algo perturbador só de ler, já é muito difícil de entender que são feitos por meninos de 14, de 13 anos. Às vezes são traduzidos, né, já vem de outros manuais que estão fora. Então esses manuais estão no Telegram. Se eles derrubam uma live no Discord, eles correm para o Instagram. Então a gente tem que entender que isso não resolve o problema. Não pode a sociedade ficar com a sensação de banimos as lives do Discord, nada mais vai acontecer.

Não, porque eles vão de um lugar para outro. O sistema todo não é seguro, e os pais, a sociedade tem que estar atento com relação às crianças e adolescentes nesse ambiente digital.

NNNatuza Nery

É exatamente isso que eu quero tratar com você agora. No capítulo 1 do teu livro, você cita o caso de uma mãe, a Cláudia, que descobriu que o filho dela, de apenas 10 anos de idade, consumia pornografia nas redes sociais. E aí eu queria entrar no aspecto dos responsáveis por essas crianças, assim, que tipo de conduta se deve ter para evitar situações como essa? Assim, é não dar o celular aos filhos? Há um debate internacional enorme, outros países falando de não poder ter rede social antes de 16, de 15, tentando definir uma idade para isso.

E eu queria ouvir um pouco, né, de como as mães, os pais, os responsáveis estão nesse contexto.

RCRenata Cafardo

E o primeiro de tudo, dizer que a gente não tem que culpar só os pais, né? Eu acho que a sociedade inteira tem que estar olhando para isso. Isso é um problema do nosso tempo, a sociedade tá se transformando ao mesmo tempo que a gente tenta educar essa geração. Então é muito difícil mesmo. Eu sou mãe de adolescente, de criança, eu sei o quanto é difícil educar crianças hoje nesse ecossistema digital tão imperfeito que a gente tem hoje.

Mas essa geração tá aqui agora e a gente vai ter que lidar com isso. Não dá para ter os extremos, né? Tem os pais que totalmente demonizam a tecnologia e aí mandam só sai do celular, sai do celular, não explicam por quê, e ao mesmo tempo estão no celular. Então obviamente completamente contraditório daquela casa, daquela família. Ou os outros que simplesmente deixam porque acham que não tem jeito e a tecnologia chegou e ele não sabe como fazer, e se preocupa inclusive porque a criança sabe mexer mais tecnicamente, mexer melhor nas tecnologias do que ele.

Mas o que os pais têm que entender é que a habilidade técnica não é a mesma coisa que maturidade emocional ou ética para lidar com a tecnologia. Então os pais precisam estar próximos e supervisionar. Não é controlar, mas é supervisionar essa experiência digital. A partir do momento que tem o dispositivo, que a criança tem esse dispositivo, ele tem que ter duas coisas. Primeiro, ele tem que estar logado, né, seja que tipo de dispositivo que você tenha, mas tem que estar logado com a idade da criança.

Não pode ser um dispositivo que tá logado com uma idade de um adulto. Por padrão tem que estar com a idade correta da criança, porque por padrão ele já tem algumas Então, mesmo que você não tenha nenhum controle parental hoje em dia, no passado não era assim, mas hoje em dia todos os sistemas fazem, não deixam entrar em alguns conteúdos inadequados, pedem autorização para os pais para uma coisa ou outra. Mas na minha opinião, isso também não é suficiente.

A segunda coisa é ter sim controles parentais. Então, ou ter um aplicativo específico baixado disso, ou usar os controles parentais que já existem em alguns sistemas operacionais, mas não deixar uma criança e um adolescente também, porque existe essa ideia de que o adolescente precisa ser autônomo, conquistar sua Sim, faz parte, mas a gente também não deixa o adolescente fazer qualquer coisa fora dos ambientes digitais. Por que é que nos ambientes digitais a gente acha que precisa ter mais privacidade?

Tem alguns muito bons que inclusive passam para os pais que pesquisas foram feitas, que vídeos foram acessados.

NNNatuza Nery

Ah, é?

RCRenata Cafardo

Sim, eu recebo, eu recebo diariamente quais foram as pesquisas feitas no Google.

NNNatuza Nery

E para quem tá nos ouvindo e querem buscar essas aplicações de maior controle parental, como é que se busca isso?

RCRenata Cafardo

O aplicativo que eu recomendo, que eu uso e que eu recomendo, é o Custódio. É um aplicativo pago. Custódio com Q. Ele inclusive foi me recomendado pela juíza Vanessa Cavalieri, do Rio de Janeiro, que faz um trabalho incrível ali na Vara da Infância e Juventude. Ele de fato te dá, ao longo do dia, várias notificações. Ele pode dar notificações pelo celular ou por email. Você pode setar, fazer uma setagem ali do que você quer ser notificado, porque não é qualquer coisa.

A criança pesquisa alguma coisa, um trabalho de história, não precisa ficar chegando para você aquilo lá para os começos. Se você quiser entrar no aplicativo e ver esses da criança, você consegue ver todas, Mas ele te dá essas notificações quando é algo considerado preocupante. Então você coloca lá, por exemplo, violência, pornografia, temas de saúde mental. Por exemplo, se a criança procurou alguma coisa que dá a entender que ela tá ali com uma ansiedade, uma depressão, tudo isso chega.

Olha, queremos te notificar que seu filho pesquisou isso, sua filha pesquisou aquilo no Google. Também dá para ver os vídeos que foram vistos no YouTube e as pesquisas feitas no YouTube. Eles pesquisam muita coisa no YouTube, né? Então você consegue ver todos os vídeos que foram vistos. Então eu vou falando isso tudo, mas aí os pais ficam pensando, mas que horas que eu vou fazer isso, né? Que horas que eu vou checar isso tudo?

Eu já não tem tempo para nada. Sim, é um trabalho a mais que em geral fica com as mulheres, mais uma sobrecarga para as mulheres, mas é um problema do nosso tempo. A gente tem que incluir isso na nossa parentalidade, na nossa forma de educar. Não tem como achar que o celular é uma diversão, é algo que você vai deixar com eles só quando você não pode estar com eles, então uma substituição, né, a babá digital. Não é, tudo menos isso.

Se a opção da família for dar esse celular ou permitir as redes sociais, tem que estar sempre com supervisão. Também conselho olhar de tempos em tempos o WhatsApp, sim, fazer disso uma rotina. E a criança, adolescente, saber. Não dá para uma criança, um adolescente, ter um celular que os pais não sabem a senha. Tem que saber a senha, né? A gente já ouviu falar de casos de crimes cometidos em que a polícia chega na casa porque viu que o crime tá sendo cometido pela internet, um maltrato de animal, chega lá e pede para que o pai abra.

E aí a criança não está, adolescente, pede para que tu abra o computador, abre o celular, e o pai não tem a senha, não sabe qual é a senha. Isso é inadmissível, não existe privacidade. Isso é como assim, você por acaso deixa o seu filho atravessar a rua sozinho? Você não fala para ele sobre os perigos de outros tipos de violências que são físicas e você não quer estar ao lado dele para protegê-lo? Então você precisa proteger também no ambiente digital.

É claro que isso de acordo proporcionalmente com a idade. Então se a criança vai crescendo um pouco mais, com 16, com 17, você pode ir dando um pouquinho mais de autonomia, mas com a criança, adolescente, sempre sabendo que esse celular vai ser olhado. Não é uma coisa que você vai lá escondidinho e olha. Tem que saber que sabe que vai, vai ser compartilhado, porque ali tem perigo. E tem que explicar para criança por que que você tá fazendo isso, que é para protegê-la.

Assim como você recomenda ou pede para que ela não coma doce, para que ela não fume, para que você conversa sobre bebida alcoólica, sobre sexo seguro, você vai conversar sobre navegar no ambiente digital de maneira segura e do porquê você tem que estar ao lado dela, né? Eu acho que essa conversa frequente em casa, e a tecnologia não pode ser só vista como uma diversão em casa, ela tem que estar muito claro os perigos que são inerentes ao celular as redes sociais para as crianças, de acordo com cada faixa etária.

Claro, a gente não vai ficar falando para criança de 5 anos sobre pornografia, né? As coisas são graduais, né?

NNNatuza Nery

Eu presenciei uma conversa de um adolescente com o pai de uma criança de 8 anos, e esse adolescente que manuseia muito bem, né, o universo digital, disse para esse pai: Nunca, mas nunca deixe a sua filha entrar no Discord. E eu fiquei impressionada, eu fiquei impactada, porque esse adolescente esteve no Discord, esse adolescente sabe o que que tá acontecendo ali e da dificuldade de supervisão. E aí isso abre um flanco para eu te perguntar sobre o momento em que o celular deixou de ser apenas uma ferramenta de aprendizado, de socialização, Então, o contexto da adolescência, né, o contexto da adolescência em que o adolescente, a adolescente, eles simplesmente querem ser aceitos.

Então, incentivo à violência ou automutilação ou à crueldade com animais também passa por esse fator psicológico, né, da própria pré-adolescência e da adolescência.

RCRenata Cafardo

Do pertencimento, né, Natuza, de querer pertencer. E muitas vezes eles encontram pertencimento nessas comunidades de ódio violentas, né, porque eles não estão sendo vistos, enxergados, ouvidos pelos pais.

NNNatuza Nery

Eu acho que adolescência é um período difícil, e às vezes eles estão sendo vistos e enxergados, e ainda assim eles estão envolvidos com esse perigo, né?

RCRenata Cafardo

É muito difícil essa questão de pertencer, de como ele se sente pertencente. Os pais às vezes não alcançam, né? O pai acha que tá ouvindo, que tá fazendo ele pertencer àquele ambiente, mas ele tá sofrendo bullying na escola, ele tá se sentindo muito mal, e ali aparece uma pessoa que seduz na internet, que diz como ele é legal, né, por outras características que não estão sendo espelhadas pelo outro grupo, e ele acaba se envolvendo, sendo recrutado para grupos violentos.

Muito se diz que dá para notar, né? As pesquisadoras dizem que cuidam disso, falam que é possível notar nas crianças, nos adolescentes que estão passando por esses recrutamentos, principalmente porque elas se cortam, porque elas ficam mais isoladas, né? Crianças mais sozinhas, crianças com menos amigos, que não tem vontade de sair de casa, ou que já começou a se mutilar.

?Voz A

As garotas são as vítimas mais frequentes. Quando os líderes de um servidor conseguem dados comprometedores, como fotos de nudez, nome real e contatos da família, é como se o quarto se tornasse um palco com todos os holofotes voltados para a vítima, que passa a ser chantageada a cumprir desafios. Durante essas interações, que se tornam sessões de tortura psicológica, os agressores se sentem protegidos pelo anonimato e se tornam se tornam cada vez mais cruéis.

RCRenata Cafardo

Tem uma história muito triste daquele livro que chama Aconteceu com a Minha Filha. Não sei se você já leu. E o autor aqui usa um pseudônimo, ele fala que ele se arrepende de não ter feito esse controle parental no celular da filha dele, que ele queria que a filha tivesse uma educação mais independente como ele teve, achando que tava estimulando autonomia dela, mas ele tava na verdade sendo negligente, porque os tempos são outros.

Essa é uma questão interessante que eu discuto também no livro sobre a parentalidade de hoje. A gente tende a ter uma parentalidade sociedade hoje dita mais democrática, que é muito bom, claro. A gente ouve os filhos, a gente não quer ser autoritário, a gente quer saber a opinião deles para tudo, a gente quer que eles não se frustrem muito. Isso também às vezes é um problema, né, que super protege demais. Mas a gente tenta ouvir, a gente tenta moldar, claro, aqueles valores, mas sempre com muita compreensão, com pouco autoritarismo.

Aí, com medo de ser autoritário, muitas vezes os pais não querem fazer esse controle parental, mas é preciso ter nuance Nisso, né? Entender que os contornos também ajudam a crescer, a se desenvolver. Entender que o pai é o pai, a mãe é a mãe, que naquela hora ele vai dizer não porque ele sabe, ele tem maturidade, ele tem mais experiência naquilo, e aquilo não vai ser feito porque os pais estão dizendo não. Estava falando um pouco da adolescência.

Na adolescência tem essa questão do pertencimento, mas tem também um pouco do desconhecimento dos pais, né? Ainda muitos pais chamam os adolescentes de aborrecentes, não entendem qual é o período do desenvolvimento, porque eles estão passando, que eles ficam dessa forma. Então eu acho que é muito importante, a gente conta um pouquinho no livro também sobre desenvolvimento cerebral do adolescente. Só muito importante que os pais se informem sobre isso.

É curioso que esses mesmos pais e mães que não sabem nada sobre o desenvolvimento adolescente, quando a criança era pequenininha, devoraram manuais de, sei lá, parto humanizado, aprender a trocar fralda, isso do método bebê dormir. Depois parece que quando cresce eles acham que vai educar por imersão. Já sei, agora eu Mas tem muita coisa para aprender sobre o desenvolvimento da adolescência também. As pesquisas são mais recentes, mas tem muita coisa boa para procurar.

Eu tenho um livro chamado O Cérebro Adolescente, muito interessante. Eu cito bastante no meu livro, foi usado como biografia também para mim. Então entender que momento o seu filho tá passando e não apenas ficar ali torcendo para ele passar vivo pela adolescência, entendeu? Não acontecer nada muito grave.

NNNatuza Nery

Renata, que bom te ouvir, importante te ouvir. Eu te agradeço muito pelo teu tempo aqui e recomendo o seu livro.

RCRenata Cafardo

Obrigada, eu que agradeço.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui até o próximo assunto.