O homem por trás da crise entre Brasil e Estados Unidos
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- Disputa de Poder Governo Trump· PoliticaDonald Trump·Marco Rubio·J.D. Vance·Sucessão presidencial
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Como um homem que não é presidente dos Estados Unidos se tornou figura central na relação com o Brasil? Essa é a questão que aflige o governo Lula diante dessa histórica crise diplomática entre as duas nações.
Marco Rubio, que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina, secretário de Estado que é o Marco Rubio e que é um bolsonarista. Odeia Cuba, odeia Colômbia, odeia o Brasil. Eu disse para o Trump, esse Marco, esse moço não gosta do Brasil. Eu pedi para ele para parar para dizer ao Marco Rubio que converse com o Brasil sem preconceito com o Brasil, porque pelas entrevistas que ele deu parece que tem um certo desconhecimento da realidade do Brasil. E ele faz as coisas diferente daquilo que a gente conversa com o Trump.
Filho de imigrantes cubanos, Marco Rubio é o atual secretário de Estado e assessor de segurança nacional de Donald Trump. De pai garçom e mãe camareira, que chegaram aos Estados Unidos antes mesmo da Revolução Comunista na ilha, no centro da biografia de Rubio está justamente a história do sonho americano. E essa história ajuda a explicar a forma como ele vê o mundo e, principalmente, como ele vê o papel dos Estados Unidos. Enquanto o presidente americano enxerga a geopolítica como uma disputa entre grandes potências, Rubio tem uma perspectiva mais ideológica.
Ele busca recuperar a influência dos Estados Unidos na América Latina para conter a presença da China e do comunismo. É uma atualização da antiga Doutrina Monroe, estratégia usada pelos americanos para influenciar os rumos de todo o continente. E o jeito de Rubio ver o mundo já é a política oficial do Departamento de Estado.
Falando do Departamento de Estado dos Estados Unidos, já houve a publicação pelo departamento de um vídeo nas redes sociais em que tá reafirmado o domínio americano sobre as Américas. Essa publicação, ela resgata essa doutrina criada lá em 1823 pelo então presidente James Monroe. A política defendia que as potências europeias não deveriam interferir nas Américas, e aí ficou associada a ideia de América para os americanos. Então, quase 2 séculos depois, o governo Trump volta a usar essa doutrina como referência para atuação dos Estados Unidos na região.
E aí, no vídeo, o Departamento de Estado, ele cita a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro como o exemplo da aplicação dessa política. Esse vídeo acompanhado pela seguinte mensagem, abre aspas: a doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de 2 séculos e o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado. Fecha aspas.
Nessa estratégia, o Brasil ocupa um lugar especial. Rubio não é apenas o condutor da agenda América em primeiro lugar para o hemisfério ocidental, ele também se tornou a principal ponte de interlocução do bolsonarismo em Washington.
Fala, pessoal, mais uma ida aqui para Washington, D.C.
Se for necessário, iremos sim nessa sacrificar tudo, queimar toda a floresta. Em diálogo com a base americana do bolsonarismo, Rubio já questionou a justiça e a diplomacia brasileiras, aplicou sanções, tarifas e até atacou o Pix, deixando exemplos do que Washington pode fazer para impor sua hegemonia.
O presidente americano Donald Trump deu início hoje a uma fase sombria nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil.
E o governo dos Estados Unidos propôs um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. O Departamento de Estado americano divulgou hoje uma nota em que classifica o PCC e o Comando Vermelho como ameaças significativas à segurança regional.
Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou agora há pouco que está sancionando, punindo o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
O governo americano se baseou na Lei Magnitsky. Que é usada para punir estrangeiros.
Outros ministros do Supremo já tinham tido os seus vistos revogados.
Essa foi uma decisão anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio. Mais um desentendimento à vista entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. O Senado americano aprovou a indicação de um aliado do secretário Marco Rubio para ocupar a embaixada em Brasília, só que o Itamaraty ainda não deu, nem pretende dar tão cedo, o aval para a vinda dele.
Lembrando que os Estados Unidos não respeitaram o protocolo diplomático tradicional e o governo Trump anunciou a nomeação de Pérez antes mesmo que o Itamaraty tivesse recebido o pedido de Agriman, o que é praxe pela Convenção de Viena, que regula relações diplomáticas. Em represália, o país cancelou o visto americano da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luísa Viotti, escalando a crise diplomática.
Ao mesmo tempo em que a Casa Branca pressiona Brasília, Lula enfrenta crises com governos na Argentina e no Paraguai, o que para o Itamaraty não são episódios isolados. Os dois países vizinhos já têm governos aliados ao presidente Trump.
A gente vive hoje uma sobreposição de crises diplomáticas envolvendo o Brasil com países vizinhos, países que têm uma relação histórica com o Brasil, países que compõem o Mercosul, por razões distintas. Em relação à Argentina, acaba tendo um peso maior, até porque Javier Milei Proferiu ofensas a autoridades brasileiras em território nacional.
A crise diplomática começou no sábado quando o presidente da Argentina participou em São Paulo do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL, à presidência da República. No discurso, Milei ofendeu o presidente Lula, a quem chamou de presidiário, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a quem se referiu como lixo.
Agora também há uma crise com o Paraguai em função de declarações que o presidente Lula deu a respeito da Guerra do Paraguai, que é um tema muito delicado para os paraguaios. E nesse momento há um diálogo para tentar contornar, na verdade, as duas crises diplomáticas.
Para superar a crise, a diplomacia brasileira já tem uma estratégia desenhada: passar por cima de Rubio e colocar Lula e Trump de novo em contato direto, em um telefonema. A expectativa é que a química entre os dois possa voltar a dar resultado.
Eu quero preparar os números e mandar para o meu amigo Trump, para ele saber que quem informou ele não informou sobre a verdade.
Da redação do G1, eu sou Nátuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boiadjian é: o homem por trás da crise entre Brasil e Estados Unidos.
Neste episódio eu converso com Carlos Gustavo Pojo, professor de ciência política do Berea College, no Kentucky. Quinta-feira, 13 de agosto. Professor Carlos Poggio, eu quero começar colocando todos os ouvintes na mesma página, tá? Quem é Marco Rubio? De onde ele vem? A trajetória política dele até chegar ao posto de secretário de Estado norte-americano.
Acho que politicamente, para a gente entender o Marco Rubio, a gente precisa entender que tipo de político que ele é, qual é o grupo que ele representa dentro dos Estados Unidos, as diversas forças políticas naquele país. É muito significativo, primeiro, que ele é um republicano da Flórida, republicano da Flórida, filho de imigrantes latinos. Esse é um perfil muito comum naquele estado da Flórida, que é dominada a política toda.
Se você olhar os prefeitos de Miami das últimas décadas, são todos republicanos de origem latina, cubana normalmente, como é o caso do Marco Rubio, e com uma postura muito combativa com relação a Cuba em especial, governo cubano e a governos de esquerda em geral na América Latina.
Rubio nasceu em Miami, é filho de imigrantes cubanos e se interessou por política ainda jovem, influenciado pelo avô. Se formou em ciências políticas na Universidade da Flórida, foi presidente da Câmara da Flórida e senador por 15 anos. Antes de fazer parte do governo, ele foi rival do Trump nas primárias de 2016. A relação mudou e, em 2025, ele assumiu o comando da diplomacia dos Estados Unidos. Rubio tem posições conservadoras e mantém relação próxima com a família Bolsonaro desde 2018.
Ele representa um pouco esse tipo de força dentro do sistema político norte-americano. E o que é relevante é que ele, dentro desse perfil, ele foi o que chegou mais longe na hierarquia de política externa dos Estados Unidos, sendo o primeiro com esse perfil a ocupar o cargo de secretário de Estado, que é o posto mais alto da diplomacia americana. Mas não apenas isso, Marco Rubio, ele junta dois cargos na estrutura do governo norte-americano, que é o secretário de Estado e assessor de segurança nacional.
Então, assessor de segurança nacional é aquele que trabalha mais próximo do presidente na Casa Branca. O secretário de Estado é o principal diplomata do país. O Marco Rubio junta esses dois papéis, o que dá a ele um poder muito grande. Isto mais ainda numa administração que desvaloriza muito canais tradicionais e diplomacia tradicional. Então isso é um conjunto de fatores aí que dá ao Marco Rubio um poder bastante grande, um personagem bastante singular dentro da política norte-americana.
Professor, e agora com pouco mais de um ano e meio de governo Trump, Marco Rubio à frente do principal departamento dos Estados Unidos para relações internacionais, a gente já consegue identificar como que são as posições dele, né? Então eu te pergunto, qual que é a visão que Rubio tem para a América Latina e como isso influencia o governo Trump na condução das relações com os países da região?
Bom, isso é um fato muito importante porque o Marco Rubio, ele tira a América Latina de uma perspectiva periférica dentro da política externa norte-americana. A América Latina normalmente tratada por uma série de governos norte-americanos a partir da perspectiva fundamentalmente a questão da imigração e a questão do comércio. Normalmente outros outros secretários de Estado, outros presidentes tinham uma visão muito mais focada em outras regiões do mundo, no Oriente Médio, na Europa, na Ásia.
A administração Obama tentou fazer o pivô para Ásia. O Oriente Médio é um lugar onde os Estados Unidos estão sempre prestando atenção. A relação com a Europa foi uma questão importante, por exemplo, no governo Biden. O Marco Rubio, ele traz uma perspectiva diferente. Ele é o primeiro, portanto, secretário de Estado a trazer a América Latina para o centro da política externa norte-americana, uma visão estratégica estratégica de que a América Latina e as Américas como um todo, aquilo que os americanos chamam de hemisfério ocidental, é uma região de influência dos Estados Unidos.
É uma volta à ideia de áreas de influência. Então tenta substituir um pouco o discurso da parceria por um discurso de hierarquia, em certa medida, né? Os Estados Unidos acima dos demais. Que a gente viu, por exemplo, recentemente, Departamento de Estado falando sobre doutrina Monroe, né? Se você ver os detalhes do vídeo, daquele vídeo que foi divulgado pelo Departamento de Estado, você vê muito claro esta visão de hierarquia, que nós dominamos, é a nossa primazia.
Em certa medida, né, poderia até fazer algum sentido lá no início do século 19, né, o membro império, etc., sem grandes estruturas de governança global que nós temos hoje, sem democracias como nós temos hoje na América Latina, mas que é um pouco estranha nesse ano de 2026. Eu acho que fundamentalmente ele tem esta visão, que é uma visão que determina, portanto, a necessidade de um alinhamento de países da América Latina com o governo norte-americano.
Eu diria que muitas vezes isso até perpassa a ideia de esquerda e direita. Na Venezuela, quando o Maduro foi tirado, preso, o governo venezuelano é o mesmo governo do qual o Maduro era presidente. Os Estados Unidos desenvolveram uma relação com o governo da Venezuela positiva porque é um governo que, pelo menos por enquanto, tem se alinhado e se submetido aos Estados Unidos. Então, acho que é mais do que direita e esquerda, essa ideia entre autonomia e subordinação ou alinhamento aos Estados Unidos.
Nesse sentido, portanto, é talvez a primeira administração americana em muito tempo que dá uma atenção muito particular para a região.
Marco Rubio tem ascendência cubana e, apesar disso, os Estados Unidos até aqui têm conseguido fazer muito pouco no sentido de mudar o regime por Cuba. Você mencionou aí o uso muito frequente da imagem da captura de Nicolás Maduro, que o governo americano tem se valido muito para demonstrar a força aqui na região. O quanto que Marco Rubio está sendo capaz de fazer uma mudança efetiva lá em Cuba e qual é o projeto que ele tem, quanto disso tem relação com a própria origem dele?
O Marco Rubio, né, a gente precisa entender que ele se insere dentro de um contexto da administração Trump, que muitas vezes ele tem que dialogar ou disputar espaço entre os diversos interesses que o Trump pode ter. Acho, por exemplo, que é muito interessante a gente observar, reforçando essa ideia de uma visão para América Latina, né, como tem sido a atuação do Marco Rubio na questão do Irã. A gente mal tem visto Marco Rubio sobre a questão do Irã.
Quem é a face da política americana com relação ao Irã é o vice-presidente J.D. Isso mostra, portanto, aí uma escolha muito clara do Marco Rubri se manter de certa forma afastado dessas questões. Então tem, portanto, esta visão que é uma visão bastante dada na América Latina e que tem, portanto, como todas as questões que envolvem a lei, que ele vem desta família política de descendentes cubanos na Flórida, que tem uma visão muito anticastrista, antigoverno cubano, isso, portanto, seria uma prioridade para o Marco Rubio.
Eu vejo que isto é um objetivo de mais longo prazo do Marco Rubio. Eu acho que a questão da Venezuela ofereceu aí uma oportunidade para demonstrar uma forma de atuação dos Estados Unidos na América Latina. Existe dentro do governo Trump pressões muito grandes vindas do próprio Marco Rubio para lidar com a questão de Cuba e você eventualmente vê o presidente Trump falando sobre isso. Agora, o grande desafio do Marco Rubio é como trazer a atenção do presidente norte-americano para essas questões que interessam mais a ele no momento que o presidente é distraído com outras questões, notadamente a questão sobre a guerra com o Irã nesse momento.
Eu quero me aprofundar nesse ponto que o senhor falou, que Marco Rubio disputa espaço dentro do governo dos Estados Unidos. Eu queria te ouvir um pouco sobre como que é essa disputa de espaço, sobretudo com relação ao vice-presidente, o J.D. Vance, já que eles, ambos do Partido Republicano, podem ter alguma pretensão semelhante de serem substitutos de Donald Trump uma vez terminado esse governo.
Existe uma clara, disputa aberta entre os dois, estimulada inclusive em certa medida pelo próprio Trump, que menciona frequentemente os dois como dois nomes para sucedê-lo na presidência, mas que são duas posições muito distintas. Ou o J.D. vence, ele é alguém de coração e realmente de fato acredita na ideia de isolamento americano. Ele de fato acredita que os Estados Unidos não devem ajudar a Ucrânia, que os Estados Unidos não devem se envolver em questões externas, ele não valoriza alianças, OTAN, etc.
DJ Vance, senador republicano americano escolhido para ser vice-presidente na chapa com Donald Trump e seu possível herdeiro político. Ele chamou atenção em 2016 ao criar uma instituição de caridade anti-opióides em Ohio e passou a participar dos jantares com os republicanos. Foi também em 2016 que Vance lançou um livro traduzido aqui como Era Uma Vez um Sonho e que virou filme em 2020. O livro também o ajudou a se aproximar da família Trump.
Essa relação nem sempre foi tão próxima. Quando Vance entrou para o partido, ele era considerado um republicano never Trump, ou seja, Trump nunca. Porém, tudo mudou em 2021, quando os dois se conheceram, e Vance se tornou um aliado feroz de Trump, defendendo suas políticas e comportamento.
E portanto, ele dialoga um pouco com essa face do Donald Trump, que às vezes oscila, né, entre o isolacionismo e uma intervenção, como a gente tem visto no caso do Irã. O Donald Trump, ele não tem uma ideologia muito clara. A palavra que é mais usada para se referir ao Donald Donald Trump na literatura é transacional. Donald Trump, ele quer saber o que que ele pode ganhar aqui, independente de questões ideológicas ou mesmo de questões de longo prazo.
O J.D.
Vance e o Marco Rubio são dois indivíduos que têm ideologias mais claras. A ideologia do J.D. Vance é claramente uma ideologia nacionalista, isolacionista, com uma participação do Estado na economia. Ele é contrário ao liberalismo econômico, já deixou isso muito claro. O Marco Rubio, ele tem uma visão distinta, que é muito mais internacionalista, intervencionista e mais tradicional dentro da divisão do Partido Republicano. Marco Rubio representaria nesse sentido, entre os dois, uma linha mais tradicional dentro do partido, alguém que tem mais contato e capilaridade com a elite do partido pré-2016.
O J.D. Vance não tem contato com essa elite pré-2016, ele é inteiramente imerso no trumpismo. Nesse sentido, ele seria um sucessor muito mais puro-sangue do Donald Trump do que o Marco Rubio. O problema do J.D. Vance é a falta absoluta de carisma, né, coisa que é muito importante na administração Trump. O governo Trump, o movimento trumpismo, por ser muito baseado personalidade do Donald Trump, tem a questão individual do carisma como um elemento importante.
O Marco Rubio, ele seria em certa medida o preferido da classe doadora do partido, por exemplo, mas o J.D. Vance, ele parece que por estar muito mais próximo do presidente, se ele conseguir sustentar isso— Donald Trump é famoso por brigar no meio do caminho com aliados. O próprio vice-presidente do primeiro mandato dele acabou brigado e a multidão pedindo para ele ser enforcado, e hoje não se fala mais.
O então presidente Donald Trump chamou o então vice-presidente Mike Pence de covarde e o ofendeu com palavrão. Pence estava prestes a presidir a sessão conjunta do Congresso, queria certificar a vitória de Joe Biden na eleição presidencial de 2020. Trump liderou uma enorme campanha para pressionar Pence a impedir essa certificação e fez isso mesmo sabendo que o que pedia era inconstitucional. Depois da ligação, Trump foi para um comício onde disse aos apoiadores, de maneira incorreta, que Pence tinha o poder de dar a vitória a ele e fez ameaças ao vice caso ele não cooperasse.
Depois do comício, uma multidão de seguidores partiu para o Capitólio e invadiu o prédio aos gritos de vamos enforcar Mike Pence! O vice escapou por pouco.
Mas portanto, se o J.D. Vance e o Donald Trump conseguirem manter uma boa relação, e o J.D. Vance tem mostrado uma enorme vontade e disposição para se submeter às vontades do Donald Trump, mesmo que isso signifique ele de ter que ir contra aquilo que ele falou no dia anterior. Se ele conseguir manter isso e conseguir a bênção do presidente Trump, isso vai dar a ele uma vantagem muito grande nas primárias, dado que hoje o Partido Republicano, ele é inteiramente controlado por uma única pessoa, e essa pessoa é o Donald Trump.
Daqui a pouco eu volto para continuar minha conversa com Carlos Gustavo Podio.
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Nessa terça-feira, o Departamento de Estado usou as redes sociais para fazer uma publicação de um vídeo dizendo que o domínio dos Estados Unidos nas Américas nunca mais será questionado, trazendo de volta aquela doutrina Monroe Monroe do século 19. Do ponto de vista objetivo, o que os Estados Unidos planejam para América Latina, consequentemente para o Brasil? E no atual contexto dos Estados Unidos no mundo, o que que é possível de fato fazer ou não, né?
Essa própria linguagem de domínio deixa muito claro as pretensões norte-americanas na região. Não apenas essa linguagem, mas a forma pública com isso é utilizado, com redes sociais, etc., uma espécie de uma diplomacia performática. Ou seja, tem um recado aí claro abertamente sendo dado, não é algo que está sendo discutido a portas fechadas, é abertamente essa ideia de que os Estados Unidos vão ter domínio sobre a região invocando a Doutrina Monroe.
A Doutrina Monroe, que historicamente é muito delicada para América Latina, né? Uma coisa é a Doutrina Monroe anunciada em 1823, quando os Estados Unidos sequer tinham uma marinha, e muitos países latino-americanos inclusive se interessaram pela Doutrina Monroe, saber o que que os Estados Unidos estavam dispostos a oferecer para defendê-los dos europeus, por exemplo. Ocorre que com o tempo a Doutrina Monroe ela foi evoluindo para uma doutrina de intervencionismo norte-americano, particularmente após o governo do Theodore Roosevelt, no início do século 20, que é exatamente a referência ao tipo da doutrina Monroe que é feita pelo governo do Trump atualmente.
Ou seja, essa doutrina, ela acabou sendo utilizada para justificar intervenções em assuntos internos de países latino-americanos e passou a ser uma expressão tóxica para muitos países da América Latina que foram alvos de invasão dos Estados Unidos, particularmente países da América Central e o México. O governo Donald Trump claramente não tem a linguagem da parceria e deixa isso claro e deixa isso explícito. O grande problema desse tipo de abordagem é que isso pode gerar justamente os efeitos inversos daquilo que os Estados Unidos está prevendo ou querendo para América Latina.
Ou seja, na medida em que você utiliza essa linguagem do domínio, de primazia, etc., abertamente, o que acontece é que outros países eventualmente podem buscar alternativas. Países não vão se sentir mais seguros com um país tão poderoso como os Estados Unidos se isso voltar uma política imperial dos Estados Unidos, aliás, a palavra imperial é citada também neste vídeo, pode gerar um efeito contrário, um efeito bumerangue, e fazer com que outros países acabam buscando outras alternativas, independente de conjunturas momentâneas.
Então, ah, mas hoje então o governo aqui, a colar, esquerda ou direita, pode eventualmente se aproximar ou se afastar dos Estados Unidos, mas isso ao longo prazo tende a gerar uma desconfiança e eventualmente a busca por diversificar parcerias. Então, nesse sentido, pode até mesmo ser contraproducente esse tipo de apertar aos quatro ventos, que vai dominar a América Latina.
A gente poderia ter também chegar numa situação tão radical como o que a Rússia fez na Ucrânia, justamente usando o argumento de que a Ucrânia estava se associando à União Europeia, estava se associando à OTAN, e isso foi um motivo de justificativa para um ataque militar? A gente pode imaginar algo tão radical como isso aqui?
Eu creio que ainda é cedo para a gente imaginar esse tipo de cenário, porque são duas circunstâncias muito diferentes. No caso americano, você não existe um consenso doméstico interno para esse tipo de política. Isso parece ser uma política que é muito defendida dentro de alguns círculos do Partido Republicano, notadamente aqueles em volta do trumpismo. E mesmo dentro do trumpismo é algo que tem alguma contestação, dado que o Donald Trump foi eleito com argumento de não fazer guerras, não fazer intervenções e se voltar para os Estados Unidos e priorizar os interesses americanos e evitar envolver os Estados Unidos em novas guerras.
Razão pela qual a questão do Irã gerou um certo racha, pelo menos entre a elite do movimento trumpista. Então você teria que criar um tipo de consenso interno que permitisse esse tipo de atuação. No caso do Putin, onde o próprio Vladimir Putin inclusive construiu esta invasão da Ucrânia ao longo de muitos anos, né? Ele já venha construindo isso ao longo de muitos anos. É algo muito difícil você fazer de uma hora para outra.
Agora, com relação a interferências, né, e falando mais especificamente de interferências nas nossas eleições, há quem diga que até já tenham começado, né? Mas poderia haver algo mais descarado, na sua opinião, ou também quais botões que os Estados Unidos poderiam apertar para efetivamente interferir no processo? E se houver alguma contrariedade com o resultado, você acha que a gente chega a uma situação dos Estados Unidos não reconhecerem o resultado, professor?
Esse é um outro problema de meios e fins. Então vamos assumir a hipótese de que o governo Trump esteja interessado em um resultado específico nas eleições do Brasil e, portanto, ele age de forma aberta para influir nesse resultado. Olha, agir de forma aberta por si só é contraproducente, porque isso tende a gerar uma reação. Nós vimos inclusive isso em vários países que o Donald Trump tentou se envolver politicamente. Foi muito positivo para aquele que estava contrário ao Donald Trump, a começar pelo Canadá, por exemplo.
Primeiro-ministro canadense, ele só é primeiro-ministro hoje porque o Donald Trump se envolveu nas eleições no Canadá. O Partido Liberal, que é o partido do primeiro-ministro, todas as pesquisas diziam que perderiam as eleições. Eles ganharam quando Donald Trump começou a falar em anexar o Canadá, etc. A gente vê a mesma coisa na Austrália, uma série de outros países. Há uma pesquisa global que mostra que a imagem dos Estados Unidos está muito deteriorada no mundo inteiro e mostra inclusive em países europeus.
Hoje a China, ela é mais bem vista do que os Estados Unidos. É uma mudança tremenda da imagem norte-americana. Então isso é muito ruim para um país que começa a ter uma imagem deteriorada e diz, ah, eu quero que ganhe o candidato A ou B. Ora, no país que olha para os Estados Unidos dessa forma, vai gerar uma reação. Não à toa, quando os Estados Unidos tentam interferir na política doméstica americana. Se a gente voltar ao golpe militar de 64, havia interesse, claro, dos Estados Unidos de sabotar o governo João Goulart naquele momento.
Só que os Estados Unidos não o fez de forma aberta. Inclusive, isso está registrado em telegramas, em documento. Por que não fizeram isso? Porque eles sabiam, e no documento fala isso, se for descoberta a nossa interferência, isso pode gerar algum tipo de reação por parte da oposição. Ora, nós vimos isso acontecer durante o tarifação. Qual foi o resultado político para o governo brasileiro, para o governo Lula, durante o tarifação no começo do ano passado?
Foi justamente trazer mais popularidade para o presidente Lula. Se você olhar a campanha do Lula hoje, é centrada na questão da soberania, etc. Tem batido muito nessa questão porque provavelmente percebeu que isso é politicamente interessante para ele. Então, se os Estados Unidos começar a deixar muito claro uma intervenção muito aberta, isso pode gerar o resultado inverso daqueles que eles almejam alcançar. Agora, outra questão é, uma vez concluídas as eleições, qual vai ser o papel do governo norte-americano.
Vai reconhecer, não vai reconhecer? Aqui é um pouco difícil a gente dizer, porque se o presidente fosse o Marco Rubio, talvez a gente pudesse dizer que existia uma grande chance do presidente Rubio não reconhecer o resultado das eleições brasileiras. Em se tratando do Donald Trump, vai depender do humor do Donald Trump no dia, o que que o Trump vai pensar, se ele vai estar amigo do Lula, se não vai estar amigo do Lula, se ele vai querer prestar atenção nisso, vai ficar preocupado com outras questões, se alguém vai falar para ele o que ele deve dizer, como deve dizer, etc.
Então não sabemos, né, como como o Donald Trump vai reagir. Mas é claro que existe essa possibilidade.
Bom, e como já é difícil prever até o dia de amanhã, eu vou pedir um esforço para a gente tentar imaginar como que seria a relação dos Estados Unidos com o Brasil pós-eleições. Que que é possível o governo Trump fazer em termos de interesses com o nosso país até o fim desse mandato, até 2028, né?
É, são uma série de variáveis que nós temos aí, né? Primeiro, qual vai ser o governo que o governo Trump vai lidar a a partir do ano que vem. Mas além disso, a questão também é qual vai ser o resultado dentro do próprio governo americano, que vai passar por eleições de meio de mandato. Então há uma possibilidade de um enfraquecimento muito grande dos republicanos no Congresso. Isto amarraria muito as possibilidades do presidente, provavelmente se veria um presidente muito mais envolvido em questões domésticas por conta de investigações que pudessem ser abertas no Congresso, etc., o que faria que dois resultados possíveis aqui: um seria o presidente muito envolto nessas questões questões domésticas, não ligar tanto para questões internacionais que ele considera periféricas.
Ou, por outro lado, um presidente que está muito amarrado na questão doméstica se sentir mais solto na questão externa. E ao se voltar para questão externa, aí vai depender muito qual que é o governo que ele vai encontrar no Brasil. Se for administração Lula, vai ser uma relação muito delicada, muito complicada, pelo menos esses 2 anos finais de governo Trump. Lembrando que vamos ter eleições nos Estados Unidos. Se o Marco Rubio é eleito o candidato, e se eventualmente ele se torna presidente, aí sim é uma notícia muito complicada para uma administração Lula ou sucessores do Lula a partir de então.
Então nós vamos estar num cenário político bastante diverso a partir do ano que vem, com uma nova configuração doméstica nos Estados Unidos e uma configuração distinta no Brasil, seja o Lula reeleito ou seja algum outro adversário do Lula eleito presidente. Para mim é uma situação diferente também para o Brasil e como o Brasil se posicionaria. É importante lembrar também o seguinte: caso ganhe, digamos, o Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, as eleições, e daqui a 2 anos um presidente democrata entre, nós vamos ter um problema também aí, como Jair Bolsonaro teve com o Joe Biden.
Durante o governo Bolsonaro, nós tínhamos duas relações completamente distintas com os Estados Unidos. Então, o Jair Bolsonaro gostava muito do Donald Trump. Quando ganha o Biden, você tem um afastamento, é o polo oposto dessas relações. Então, esse é um problema quando a gente começa a inserir, e como tem sido a tendência nesse século 21, esse tipo de política extremamente pessoal que perpassa a visão de longo prazo, a visão de relações Brasil-Estados Unidos, e olha muito a relação entre qual é o governo de turno e como, se eu gosto ou não ideologicamente desse governo.
Professor Carlos Podio, é sempre bom ouvi-lo e te ouvir mais uma vez aqui no Assunto. Muito obrigado pela sua participação.
Obrigado, sempre um prazer.
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Eu sou o Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo assunto.