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Pra que lado aponta o pêndulo do Centrão?

12 de agosto de 202628min
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Convidada: Bela Megale, colunista do jornal O Globo. Nos últimos quatro anos, a relação entre Executivo e Legislativo foi atribulada, marcada por atritos nos bastidores e até por críticas públicas de lado a lado. O governo Lula e o Centrão, bloco formado por partidos que vão desde o centro até a direita e que comanda o Congresso, chegaram a um ponto de quase não retorno, mas a proximidade das eleições mudou o clima de lado a lado. Arranjos regionais colocam governistas e integrantes do Centrão no mesmo palanque. No contexto nacional, os partidos que compõem o bloco anunciaram neutralidade na corrida presidencial – depois de namorarem uma aproximação com Flávio Bolsonaro (PL). Mais recentemente, Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se reencontraram depois de meses sem se falar. E nesta segunda-feira (10), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou que irá apoiar a reeleição do petista. Neste episódio, Natuza Nery conversa com a jornalista Bela Megale sobre como governo e Centrão buscaram pacificar a relação. Ela conta os bastidores do encontro de Lula e Alcolumbre e explica o que motivou o apoio de Motta ao presidente. Bela e Natuza também analisam o futuro dessa relação, quem ganha e quem perde, caso o petista se reeleja.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
B

Bela Megale

ConvidadoJornalista
Assuntos4
  • Apoio de Hugo Motta a Lula· PoliticaHugo Motta·Lula·Cálculo político regional·Reeleição para presidente da Câmara
  • Relação Lula e Davi Alcolumbre· PoliticaAlcolumbre·Lula·Indicação para o STF·Reeleição para presidência do Senado
  • Neutralidade do Republicanos· PoliticaPartido Republicanos·Tarcísio de Freitas·Flávio Bolsonaro·Cálculo político para 2030
  • Posicionamento Ciro Nogueira Arthur Lira· PoliticaCiro Nogueira·Arthur Lira·Partido Progressistas (PP)·Operação da Polícia Federal·Neutralidade partidária
Transcrição40 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

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NNNatuza Nery

Há anos circula em Brasília uma anedota que tenta exemplificar o poder do Centrão. Essa anedota diz o seguinte: um novo presidente da República entra pela primeira vez no Palácio do Planalto. E lá encontram um político do Centrão. Ele estava assim, confortavelmente instalado no sofá do gabinete, fumando um charuto. Surpreso, o presidente eleito pergunta: Mas o senhor por aqui? E o político do charuto responde: Ora, eu sempre estive aqui.

O senhor, presidente, é quem está de passagem. Essa anedota fala de um poder que sobrevive ao tempo e a governos de todos os matizes ideológicos. Uma influência que ganhou uma dimensão ainda maior nos últimos anos com o chamado orçamento secreto. E sabe o político do charuto que eu acabei de citar? Pois bem, em cima desse dinheiro todo das emendas parlamentares, ele já não quer apenas estar no sofá do Palácio. Ele quer, se puder, se sentar na cadeira do presidente da República, mesmo sem ter sido eleito presidente, para ditar as regras do jogo.

Mas é bom que se diga: esse político do charuto tem um ponto. O Centrão sempre esteve na área.

?Voz A

A Constituinte era um momento divisor de águas da sociedade brasileira. Passei a pertencer ao Centrão, que foi uma corrente de parlamentares que se colocava ao lado do liberalismo econômico, contra o pensamento de esquerda, que em tese era o bem, nós éramos o mal.

NNNatuza Nery

Como força política, o bloco nasceu na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988. Era um bloco de centro-direita que se organizou para reagir às propostas consideradas mais progressistas durante a elaboração da nova Constituição brasileira. Os anos se passaram, mas foi sob o comando de Eduardo Cunha, deputado que viabilizou o impeachment na época em que era presidente da Câmara e que acabou cassado tempos depois, que o Centrão ganhou mais ambição e mais musculatura.

E desde então vieram as emendas, a baixa transparência, a fama mais forte de fisiologia e o mais puro pragmatismo político.

?Voz A

A necessidade de grupos de pressão, no caso representando o capital, o investidor, porque nós viemos de uma panela de pressão aonde os direitos sociais, tudo isso, havia expectativa de ser contemplado na Constituição. E por que que isso é importante? Mais recentemente, lideranças parlamentares entenderam que a maioria governa e quando ela está organizada, ela basicamente comanda o processo legislativo. Isso fica muito claro sempre quando tem governos no Executivo de esquerda, porque aí tem claramente esse contraste entre a maioria no Executivo e uma maioria parlamentar que tende a ser de centro-direita.

NNNatuza Nery

Esse contraste às vezes se acentua, mas às vezes ele quase some. Depois de 4 anos incompletos de atritos entre o governo Lula e o Congresso, o Congresso Nacional, que é comandado justamente pelo Centrão, a proximidade da eleição mudou o clima dessa relação. E mesmo o Centrão estando mais próximo do bolsonarismo, os partidos que ocupam o bloco optaram pela neutralidade na corrida presidencial. Mais que isso, o atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, tomou um lado.

?Voz A

Então eu estava aguardando a posição do partido para que pudesse trazer de público a nossa posição. É a nossa posição, está sendo aqui revelada em primeira mão. De apoio ao presidente Lula em seu projeto de reeleição. Nós iremos declarar esse apoio ao presidente porque é o presidente que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país.

NNNatuza Nery

Outro expoente, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não chega tanto, mas já começa a mudar o tom nessa relação. Tanto que depois de um quase rompimento total, Lula e Alcolumbre se encontraram recentemente.

BMBela Megale

Por favor, presidente, como que foi o encontro ontem com o Lula?

?Voz A

Segredo.

NNNatuza Nery

É o Centrão, mais uma vez, garantindo o seu lugar no sofá, independentemente de quem passará os próximos 4 anos no Palácio do Planalto. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: para que lado aponta o pêndulo do Centrão? Neste episódio, eu converso com Bela Megali, colunista do jornal O Globo. Quarta-feira, 12 de agosto. Bela, a gente te convidou para falar dos ventos do Centrão, para que lado eles estão soprando.

E a primeira pergunta que eu quero te fazer é sobre uma declaração recente do presidente da Câmara, Hugo Motta. Essa declaração me chamou atenção porque ao longo de todo o período de Hugo Motta como presidente da Câmara, a relação dele com Lula foi uma relação de muitos trancos e muitos barrancos. Mas eis que ele diz que o Lula é o melhor nome, etc. e tal. O que que aconteceu e por que Hugo Motta se aproximou de Lula depois desse período tão intenso, eu diria assim?

BMBela Megale

Bom, o que a gente vê em relação a esse tema do Hugo Motta é que existe um cálculo político claro do presidente da Câmara para fazer essa declaração de voto para o presidente Lula, né? Em primeiro lugar, ele tenta a reeleição, né? Hugo Mota vai concorrer à reeleição como deputado federal pela Paraíba, que é um estado que tem uma base lulista grande. Para a gente lembrar um pouco dos dados ali das eleições de 2022, 66% dos votos dos paraibanos foram para o Lula e 33% para o Bolsonaro.

Então a base é muito maior para o presidente Lula no estado do Hugo Mota. Ele tenta emplacar ali o pai dele, o Nabor Vanderlei, que é ex-prefeito de Patos, como senador. O Nabor Vanderlei tá concorrendo ao Senado e ele trava uma disputa com um nome que é da base do Lula, que é o senador veneziano Vital do Rego, do MDB da Paraíba. Então o Hugo Mota faz esse gesto claro para o presidente da República, tentando dividir ali o palanque do Lula na Paraíba.

E o outro ponto ali do cálculo político do Hugo Mota em relação a esse xadrez é que ele já tá de olho em se reeleger presidente da Câmara no eventual mandato Lula 4. Ele já tá tentando pavimentar esse caminho, inclusive já falou com integrantes do Palácio do Planalto, ministros do governo Lula, já sondou a possibilidade de ter o apoio do governo e do presidente em uma eventual reeleição ali ao comando da Câmara dos Deputados.

NNNatuza Nery

Pois é, tá faltando aí uma explicação que eu queria testar contigo. Hugo Motta é do Republicanos, partido de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, candidato candidato à reeleição. Tarcísio queria ser ele o candidato à presidência da República, acabou ficando Flávio Bolsonaro. Mas todo mundo diz no entorno de Tarcísio que Tarcísio faz uma conta pragmática, como é todo centrão, diga-se de passagem, no seguinte sentido: se Flávio Bolsonaro se elege agora, ele vai tentar uma reeleição em 2030.

Mas 2030 é quando Tarcísio, depois de governar São Paulo mais uma vez, se for reeleito para esse segundo mandato, quer ser ele o candidato. Faz sentido isso como explicação da neutralidade do Partido Republicanos, que é o mesmo partido do Tarcísio, mesmo partido do Hugo Motta?

BMBela Megale

Ah, certamente, acho que é essa avaliação e essa leitura. Até porque a apuração que eu tenho vai na linha de que o Republicanos nunca deu sinais claros para campanha do Flávio, nem para o próprio Flávio Bolsonaro, que iria abraçar ali ou iria se coligar ao senador agora na corrida pelo Palácio do Planalto. Teve esse namoro com a Daniela Marques, né, que filiou ao Republicanos, e ali era o nome favorito do Flávio para ser a sua vice.

Mas a relação, vamos dizer assim, nunca deu um match sério, a coisa nunca engatou muito. E o Marcos Pereira sinalizava que o caminho que preferia era a neutralidade. Ele se escuda ali nos levantamentos internos do diretório dizendo que a maioria foram a favor da neutralidade e que isso teria feito o partido tomar essa posição. Mas o fato é o Marcos Pereira não queria assumir esse lado, né, já de olho numa eventual possibilidade do Tarcísio concorrer à presidência em 2030.

O próprio Tarcísio falava que nesse ano ele só ia disputar o Palácio do Planalto se o cavalo passasse selado para ele. E o cavalo passar selado era Bolsonaro dizer: Tarcísio, vá você, você é meu nome. O Bolsonaro selou o cavalo para o filho dele, o Flávio Bolsonaro, porque não quer passar esse legado, né, essa herança ali política do clã para um nome fora da família. Então tá todo mundo ali esperando na janelinha e faz sentido sim que esse cálculo político ali do republicano junto a Tarcísio sobre a neutralidade tenha entrado na conta.

NNNatuza Nery

E no caso de Hugo Motta, só para a gente fechar, esse personagem que é um dos personagens do Centrão, ele deve estar fazendo um cálculo regional, como você disse, mas também um cálculo nacional. Ou seja, ele deve achar que o presidente Lula tem mais chance de ganhar o mandato do que Flávio.

BMBela Megale

É, a leitura que tem sido feita é que a disputa tá sendo muito acirrada, né, entre o Flávio e o presidente Lula. Apesar de uma série de desgastes ter sido enfrentados pelo Flávio Bolsonaro, especialmente em relação ao caso do Daniel Borcato, ele tem mostrado uma candidatura resiliente e muitas vezes ali com empate técnico nas intenções de votos em relação ao presidente Lula. Então acho que tranquilidade sobre a vitória de um ou de outro Nenhum Motta e nem os caciques políticos de Brasília têm, mas de fato existe uma avaliação de que o Lula é o favorito, não franco favorito, mas favorito ainda nessa disputa, até pelo que as pesquisas mostram, com uma margem apertada, mas seria ali o favorito.

NNNatuza Nery

E você acha que Lula apoiaria a reeleição de Hugo Motta para presidência da Câmara, sendo que Motta deu dor de cabeça para Lula enquanto foi presidente, né?

BMBela Megale

Pois é, a gente tem uma série de pontos, né, de momentos de crise entre Hugo Motta e o presidente Lula, né, e o seu governo ao longo do mandato do Hugo Motta como presidente da Câmara, né. Por exemplo, em junho do ano passado, o Hugo Motta pautou no Congresso e o Congresso derrubou o aumento do IOF que foi imposto pelo governo Lula e gerou uma grande crise política, né.

NNNatuza Nery

A derrota que a Câmara e o Senado impuseram ontem ao governo ao derrubarem o aumento do IOF foi um marco histórico nas relações entre os poderes. Fazia 35 anos que isso não acontecia com decreto presidencial.

?Voz A

No Senado, a votação foi simbólica, pouco depois de os deputados derrubarem o decreto que aumentou o imposto sobre operações financeiras, com votos inclusive de partidos que comandam ministérios. O presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, defendeu a decisão em uma rede social. Essa construção se deu de forma suprapartidária, E com a maioria expressiva, a Câmara e o Senado resolveram derrubar esse decreto do governo para evitar o aumento de imposto.

NNNatuza Nery

O governo decidiu questionar essa medida, a derrubada do decreto, no Supremo Tribunal Federal. Parlamentares dizem que levar esse assunto para o Judiciário é um desrespeito ao Congresso e também afirmam que não dá para aceitar aumento de imposto como forma de fazer o ajuste fiscal. Em entrevista à TV Bahia, o presidente Lula falou sobre o recurso ao Supremo.

?Voz A

Se eu não entrar com recurso no Poder Judiciário, se eu não for à Suprema Corte, ou seja, eu não governo mais o país, cara. Esse é o problema. Cada macaco no seu galho. Ele legisla e eu governo.

BMBela Megale

No fim do ano passado também teve a história de que o Motta indicou o deputado Guilherme de Ritchie, que é ligado à oposição e ao Flávio Bolsonaro, para ser relator do PL de facção. Que era uma das bandeiras do governo Lula. E no fim do ano, o clima também azedou bastante entre o Motta e o Lula, após o presidente da Câmara romper as relações políticas com o líder do PT na Câmara, né, na época, o Lindbergh Farias. Mas agora, tanto o Lula quanto o Alcolumbre estão refazendo esse cálculo político.

Tanto que depois do Motta manifestar publicamente apoio ao Lula, o Lula ligou para o presidente da Câmara, Hugo Motta, para agradeceu o gesto dele e perguntou se ele tava em Brasília e que seria bom os dois marcarem uma conversa pessoalmente. Então tem essa troca de afagos e eu acho que o Lula também não tem muita opção para onde correr num eventual quarto mandato ali, porque o PT não tem uma base ampla para poder ter um líder ligado ao partido com folga, né, para ter um presidente ligado ao partido com folga no comando da Câmara.

Então tanto que no governo Lula eles nem chegaram, né, a lançar um nome diretamente ligado a Lula já apoiaram Hugo Motta, fizeram a construção dessa aliança. Então acredito que existe a possibilidade de refazer essa aliança em torno do nome do Hugo Motta como presidente da Câmara, sim, né, Pusa? Muito pela falta de opção que o governo Lula tem hoje. Agora vale também a gente pontuar que ele fez alguns gestos ali para o Palácio do Planalto, né, especialmente em relação ao projeto da anistia, que era um tema muito rumoroso.

Claro que o Hugo Motta mordia e assoprava em relação a essa anistia, mas ele acabou não pautando a anistia do ex-presidente Jair Bolsonaro, que era uma questão ali de honra para o Palácio do Planalto, para o governo Lula e para os integrantes do Supremo Tribunal Federal.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Bela.

?Voz A

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NNNatuza Nery

Bom, eu quero falar então de um outro líder do Centrão, presidente do Senado Davi Alcolumbre. Esse impôs a última grande derrota de Lula no Senado Federal, que foi a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, indicação essa feita por Lula. Eles se encontraram na casa do ministro Alexandre de Moraes, estava presente também o ministro do Supremo Cristiano Zanin. Conta para a gente o que que aconteceu, o que que Davi Alcolumbre pode entregar para o Lula.

Lembrando que Lula, depois dessa derrota, não queria ver o Davi Alcolumbre pintado de ouro na frente dele, mas agora as coisas parecem mais distensionadas.

BMBela Megale

É, antes dessa conversa com Lula, o Davi Alcolumbre já foi preparando o terreno. Inclusive, ele atuou para que a federação formada pelo partido dele, União Brasil, com PP, ficasse neutra na disputa nacional e não apoiasse o nome do senador Flávio Bolsonaro. Então o Davi Alcolumbre já chega nessa conversa com o Lula, vamos dizer, com esse ativo, né? Inclusive falando diretamente com integrantes ali do PT, com o Edinho Silva, que é um dos coordenadores da campanha do Lula e o presidente do partido, e também com o ministro José Guimarães.

Então ele prepara esse terreno e vai ao encontro de Lula, vai nessa reunião, mas começou num clima bem ruim de lavação de roupa suja, inclusive Eles só falaram do passado nessa reunião, segundo eu apurei com duas pessoas que estavam presentes no encontro na Tusa. Falaram, obviamente, do ápice da crise, que foi a negativa da indicação do Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, que teve o Alcolumbre como um dos principais artífices.

O Alcolumbre argumentou ali que teria alertado o Palácio do Planalto que o Messias não passaria na votação do Senado. Essa derrota que o Senado impôs ao presidente Lula tem um nome principal, é Davi Alcolumbre, dizendo para o governo que quem manda no Senado é ele. É Davi Alcolumbre dizendo para o governo que não adianta fazer negociação, articulação paralela sem passar por ele. O Davi Alcolumbre vinha repetindo nos bastidores ao longo de todo esse processo que nunca viu nada ser aprovado no Senado sem a campanha dele, sem articulação dele.

Ele vinha dizendo que tava sendo neutro, que não tava interferindo, que tinha preferência pelo Rodrigo Pacheco e que não tava se sentindo respeitado. Mas o fato é que o clima começou com uma lavação de roupa suja, falando passado sobre esse episódio. E as coisas terminaram bem, segundo a descrição dessas pessoas que estavam presentes no encontro, com os dois restabelecendo uma conexão. Mas não foram tratadas diretamente nesse encontro pautas de interesse de Lula e nem de interesse de Alcolumbre, até porque tinha a presença de dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

Ficou acertado que eles vão ter uma segunda agenda nos próximos dias aí para tratar de temas que interessam a ambos. Para Lula, a escala, o fim da escala 6 por 1, como você citou, é um tema essencial que tá parado no Senado há bastante tempo, desde que foi aprovado ali na Câmara. E também uma nova indicação do Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, porque tem uma ala do Palácio do Planalto que defende que tem que ser feita uma nova indicação antes da eleição e que o Davi Alcolumbre precisaria estar envolvido nesse movimento como presidente do Senado, né?

?Voz A

Então há entendimento no governo que a relação com a cúpula do Congresso melhorou muito nessa reta final, um pouco antes de começar a campanha propriamente dita. No Senado Federal, quais são as prioridades? Votar a PEC da Segurança Pública, votar o fim da escala 6 por 1 e evitar aprovação de pautas bombas que podem causar impacto fiscal para o governo. A avaliação é que não é fácil convencer Davi Alcolumbre a votar a PEC 6 por 1 e da PEC da segurança pública.

Ele já deu sinalizações de que isso deve ficar para depois das eleições, mas o governo quer aproveitar essa melhora na relação com o presidente do Senado para tentar convencê-lo a construir um consenso, um acordo para colocar esses temas em votação.

BMBela Megale

O que eu relatei no meu blog no Globo é que para alguns aliados do partido dele, União Brasil, o Davi Alcolumbre já sinalizou que não tem mais toda aquela resistência que ele apresentava contra o nome do Jorge Messias para integrar o Supremo Tribunal Federal. Naquela época ele queria, né, mostrar a força que tinha para o presidente da República, impôs essa derrota, mas que agora os ânimos se arrefeceram e que, a depender do que ele conseguir negociar com Lula, pode vir a trabalhar para que o nome do Jorge Messias seja aprovado no Supremo Tribunal Federal.

Então esse é um dos cálculos ali que tá no cenário do governo e também, segundo aliados de Alcolumbre, União Brasil também já tá no radar do presidente do Senado, da Tosa.

NNNatuza Nery

E o que Davi Alcolumbre está querendo, Bela, partindo do princípio da própria definição do Centrão, né, de que o Centrão quando entrega sempre quer alguma coisa? O que que Davi Alcolumbre tá querendo ao se aproximar de Lula?

BMBela Megale

A gente vê que o Davi Alcolumbre tem um desejo claro e trabalha para se reeleger presidente do Senado novamente. E ele só vê que existe chance disso acontecer num eventual governo Lula 4, porque tá claro que se o Flávio Bolsonaro ganhar, eles vão trabalhar para que o Rogério Marinho, coordenador da campanha do Flávio, braço direito dele no pleito, seja o presidente do Senado. O Marinho não esconde de ninguém que esse é o grande objetivo dele.

E além do Marinho tem outro nome, né, de uma aliada, que é a Tereza Cristina, do PP, também foi cotada ali para ser vice do Flávio, acabou não dando certo por causa da neutralidade do partido dela. Mas o fato é que o Davi Alcolumbre não está entre os nomes prioritários da oposição do grupo do Flávio Bolsonaro para ser o presidente do Senado. Então ficaria muito difícil ele construir essa reeleição dentro da casa, e com Lula já teria um caminho um pouco mais acessível.

Agora é isso, o Davi Alcolumbre foi o nome que impôs a maior derrota para o presidente da República ao recusar o nome indicado por ele para integrar o Supremo Tribunal Federal. É o que eu tenho apurado, é que o Lula ele segue cada vez mais enchendo o seu potinho de mágoas e que esse eventual mandato ali, Lula 4, o Lula vai apresentar, vai trazer essas mágoas ali, elas vão contar nas decisões dele. Então será que esse cálculo político do Alcolumbre de ter o apoio do Lula na presidência do Senado vai se efetivar.

Acho que ainda é uma aposta, que o cenário ainda tá muito nebuloso, e a gente vai ter que ver os desdobramentos que essa reaproximação de fato vai ter de maneira concreta.

NNNatuza Nery

Bom, a gente tem de todo o centrão os partidos que dão as cartas, né? Então você tem o PP, o Progressistas, que é o partido de Arthur Lira. Esse parece piscar muito mais para Flávio Bolsonaro do que para Lula. Ciro Nogueira, esse sim, o grande líder do PP, do Progressistas, que parece estar mais afastado de Flávio, era uma voz do campo bolsonarista dentro do Centrão. Queria entender o que que aconteceu com Ciro Nogueira, se ele tá em alguma rota ou em alguma conversa com o próprio Lula, assim como Davi Alcolumbre, o União Brasil do Davi Alcolumbre, que também é Centrão.

Republicanos. Como é que você qualifica esses dois outros líderes, Arthur Lira e Ciro Nogueira?

BMBela Megale

O Ciro Nogueira, ele enfrenta ali, né, uma crise com Flávio Bolsonaro desde que ele se tornou um dos alvos da operação da Polícia Federal envolvendo o Daniel Alvorcaro, pela ligação íntima que o Ciro tinha com o banqueiro. Ele se sentiu muito abandonado pelo Flávio Bolsonaro não ter feito nenhum um gesto direto ali para ele. Então isso foi algo que abalou muito a relação deles e abriu brecha para lideranças do PT e integrantes do governo se reaproximarem de Ciro Nogueira e trabalharem pela neutralidade do Progressistas no cenário nacional.

Então ele manteve muitas conversas também com Edinho e com José Guimarães, que ficaram responsáveis por tentar fazer esse bloqueio ali dos partidos do Centrão de aproximação do grupo do Flávio Bolsonaro. Então, Ciro Nogueira foi um dos articuladores desse movimento. Inclusive, a própria Michele Bolsonaro chegou a ligar para o Ciro Nogueira e fazer um apelo para que ele, o partido dele, integrasse a base de apoio de Flávio Bolsonaro, liberasse a Tereza Cristina para ser vice do senador Mas não teve jeito, o Ciro Nogueira manteve ali a negativa.

Isso sempre respaldado ali no mesmo argumento do Marcos Pereira, presidente do Republicanos, que consultou as bases, consultou os diretórios regionais, a maioria votou pela neutralidade. Mas a gente sabe que isso tudo é um jogo muito combinado, né? O Arthur Lira de fato tem essa preferência ali pelo Flávio Bolsonaro, essa ligação maior com os bolsonaristas, mas segundo eu apurei nessa consulta interna feita pela executiva do PP, ele também teria se posicionado pela neutralidade, não chegou a defender abertamente nenhuma aliança com Flávio.

O fato é que o Ciro, por exemplo, já manifestou publicamente que vai apoiar o Flávio Bolsonaro. E o Ciro Nogueira também tem o cálculo político similar ao do Hugo Motta, né? Ele é do Piauí, ele vai tentar reeleição pelo Piauí, e também é um estado com a base lulista. Então tem um acordo ali de cavalheiros também para que ele não entre no alvo, não seja muito atacado e possa ter uma eleição ali, uma campanha mais tranquila, entre aspas, e não de confronto com o eleitorado lulista.

NNNatuza Nery

Depois dessa nossa conversa toda, quem nos ouve pode sair desse episódio com a seguinte conclusão: bom, então o Centrão está com Lula. Por que que essa afirmação não é necessariamente verdadeira diante de tudo isso, de tanta gente piscando para o atual presidente da República?

BMBela Megale

A gente sempre viu que ao longo desse mandato do presidente Lula, o Centrão agiu da maneira que lhe convém, muitas vezes em pautas econômicas e de costumes, fazendo ali acenos à oposição, ao clã Bolsonaro. Então é uma atitude ali que convém muito mais aos interesses políticos, a manutenção ali das emendas e de toda essa estrutura que coloca eles como fiel da balança aqui de Brasília, do que uma afinidade ideológica de esquerda ou de direita, de Lula, de Bolsonaro.

E hoje os interesses políticos, e que vão propiciar mais poder e mais recursos para os partidos do Centrão, é fazer esse gesto de neutralidade, em alguns casos gestos pessoais, como o Dugu Mota, ao presidente Lula. Mas a gente não vai ver uma ligação intrínseca, uma ligação muito próxima. A gente não vai ver os republicanos ou PP, União Brasil, integrando a base firme do presidente Lula e votando com o governo, um eventual Lula 4.

É um eventual governo Lula, novo governo Lula, também vai ser movido a trancos e barrancos. Mesmo que Lula venha a construir, por necessidade, por pragmatismo, uma nova reeleição de Hugo Motta na Câmara ou até de Alcolumbre no Senado. Então é um cálculo político, é o pragmatismo político dos dois lados, mas sem afinidade de projetos e sem afinidade ideológica alguma.

NNNatuza Nery

E montado em cima de uma dinheirama de emendas parlamentares, né?

BMBela Megale

É isso, que ninguém abre mão, né? Por mais que o presidente Lula já chegou, né, agora tá adotando essa bandeira de ter um discurso mais duro em relação às emendas, mas a gente viu que ao longo desses últimos 3 anos e meio ele não conseguiu fazer muita coisa para esvaziar esse poder do Congresso. E é muito difícil fazer mesmo, né, porque hoje o governo, executivo, é muito mais refém do Congresso, né, do Parlamento. Precisa muito mais do Parlamento do que o Parlamento do executivo.

NNNatuza Nery

Bela Megali, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto.

BMBela Megale

Obrigada a você, Natuza. Até a próxima.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Marco Antônio Martins. Colaborou neste episódio Tomé Granneman. Este episódio, os áudios da TV Cultura. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui até o próximo assunto.