Brasil versus Argentina e Paraguai: a América do Sul em tempos de polarização
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Uma semana, desde segunda-feira passada, o Brasil está sem embaixador no país que é um de seus parceiros mais importantes. Júlio Bittelli, diplomata responsável pela embaixada brasileira em Buenos Aires, foi convocado às pressas de volta à Brasília. O gesto é incomum e tem um significado claro: sinaliza que a relação entre os dois países entrou em crise. Chama ainda mais atenção que Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, tenha se reunido com Bittelli 3 vezes desde então.
Mauro Vieira classificou o episódio como inaceitável, mas defendeu o diálogo com o país vizinho. Todo o episódio é extremamente grave e inaceitável, mas nós temos que trabalhar pelo entendimento entre as nações. A diplomacia é feita disso, de conversas.
Era a resposta do governo brasileiro à metralhadora de ataques de Javier Milei. No palco da convenção do PL, partido que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência do Brasil, o presidente da Argentina disse isso: que Lula é presidiário e que Alexandre de Moraes é um lixo careca.
O kirchnerismo é, vamos dizer, a versão argentina do presidiário, da basura. Calma, calma, não me permitiu visitar a meu amigo injustamente encarcerado.
De volta à Argentina, Milei insistiu nas provocações. As declarações incomodaram até aliados do presidente argentino.
Ele tem sido muito criticado pela imprensa argentina, que estão, que chamaram, falaram que ele fez um papelão, que ele que provocou a crise.
Todos os jornais, né?
Todos os jornais. E mais, eles estão questionando inclusive a vinda dele, que foi visita privada e ele veio com avião presidencial. E com gastos públicos, provocando gastos públicos.
A expectativa era que a crise ficasse restrita à diplomacia. Afinal, Brasil e Argentina são os dois maiores sócios do Mercosul, dividem cadeias produtivas, são os principais parceiros comerciais um do outro na região. Mas a provocação trocou de lado.
Vocês viram a papaguada que fez aqui o presidente da Argentina. Eu Não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com Estado. E eu gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa.
O atrito diplomático tomou toda a tríplice fronteira quando, no dia seguinte em que rebateu Milei e aumentou a confusão com a Argentina, o presidente Lula recebeu um cartão amarelo do Paraguai.
O chanceler paraguaio, Rubén Lescano, afirmou que o presidente do país conversou por telefone com o presidente Lula. A conversa acontece mais dias depois, na verdade, de um discurso feito por Lula em São Paulo que causou um mal-estar diplomático. Na declaração, Lula atribuiu ao país vizinho o início da Guerra do Paraguai.
O que que o presidente disse exatamente? Foi na sexta-feira, ele tava numa agenda no interior de São Paulo e ele estava dizendo, falando da necessidade de ampliar recursos para as Forças Armadas, recursos na área de defesa. Aí ele lembrou que o Brasil não quer guerra com ninguém, que o Brasil só quer paz, mas que há casos em que outros países invadem ou declaram guerra. E citou o fato de o Paraguai ter declarado guerra. Segundo ele, o Paraguai declarou guerra ao Brasil e isso gerou a Guerra do Paraguai.
O embaixador brasileiro em Assunção foi chamado para dar explicações e a diplomacia brasileira moderou o tom.
Segundo o vice-presidente do Paraguai, o embaixador brasileiro argumentou que o presidente Lula, as falas do presidente Lula foram tiradas de contexto e que nenhum momento Lula quis insultar, quis ofender o povo paraguaio com essas declarações. Embora ele tenha transmitido o repúdio, ele disse que não há intenção do Paraguai em aprofundar essa crise. Ou seja, ele deu uma declaração no sentido de distensionar, de abaixar a temperatura.
Inclusive, ele menciona que ele, que o governo paraguaio sabe que o Brasil está num eleitoral, né, e que eles não querem gerar qualquer suspeita de que essa, essa ação do Paraguai seja para se intrometer ou tumultuar as eleições brasileiras.
Em poucos dias, o Brasil passou a administrar atritos com dois vizinhos. Há muito mais coisas em comum entre Paraguai e Argentina do que a bacia do Rio Paraná. Os governos dos dois países são parceiros de primeira hora de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Seus mandatários, Javier Milei e Santiago Peña, são também dois nomes proeminentes da direita na América do Sul. Uma direita que cresce pelo continente e que pode levantar um muro não só ideológico, mas diplomático. E qual o risco do Brasil ficar isolado nesse novo arranjo regional?
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boiadjian é: Os desafios da integração sul-americana em tempo de polarização.
Neste episódio, eu converso com Ariel Palacios, correspondente da Globo e da GloboNews para a América Latina. Ariel mora em Buenos Aires. Segunda-feira, 3 de agosto. Ariel Palacios, você acompanha a política argentina há mais de 30 anos, as relações da Argentina com o Brasil. Então quero começar te perguntando: Pela sua experiência histórica, o teu conhecimento histórico, por que que o Brasil demorou tanto para começar um projeto de integração regional com os seus vizinhos?
É muito recente, Victor, é muito recente. Se a gente pensa no contexto geral do Brasil independente, pouco mais de 200 anos de vida independente, e passou muito tempo até que a primeira visita de um presidente de um país da região ao Brasil que foi o presidente Roca em 1899, e a devolução dessa visita com o presidente Campos Sales do Brasil a Buenos Aires em 1900. Essa integração foi crescendo, mas muito gradualmente. Isso tudo mudou a partir do fim das ditaduras da região, da volta à democracia, que coincidiu com o período de integração comercial maior no planeta, e graças também a ideia dos presidentes Alfonsín da Argentina e Sarney no Brasil de dar o primeiro pontapé em 86 para integrar as economias dos dois países e a futura criação do Mercosul.
Já na década passada, essa presença foi caindo. Vários governos vieram, preferiram ficar mais dentro do que eram os problemas internos. Houve impeachment da Dilma, veio Temer, Bolsonaro, pandemia. Então o Brasil perdeu um pouco o bastante daquele grande protagonismo, era indiscutivelmente o grande líder regional. O Brasil tem um enorme peso ainda hoje, mas antigamente o Brasil era chamado para resolver crises. A crise boliviana, a crise interna paraguaia de 2010, quando houve impeachment contra o presidente Lugo, quando houve um movimento de secessão dentro da Bolívia lá para 2005, 2006, se não me engano.
Aí já com Evo Morales no poder, no início, o Brasil foi crucial. Ou a crise equatoriana do início do século, o Itamaraty e o Planalto tiveram um papel fenomenal para resolver abacaxis, graves problemas. Ou por exemplo, ainda lembrei agora, Victor, eu cobri isso também, em 99 houve o assassinato do vice-presidente paraguaio, olha só, justamente o assunto é Paraguai, Luiz María Argüelles, E isso enfraqueceu o governo do presidente Cubas Grau, que sofreu uma tentativa de golpe de Estado.
O Brasil fez uma intervenção ali para diplomaticamente botar panos quentes. Cubas Grau renunciou, pediu asilo no Brasil, e aí a situação se acalmou. O Brasil foi crucial para que não houvesse um confronto armado ali em Assunção, foi crucial. Então era um momento no qual o Brasil tava despontando, brilhando como líder não latino-americano, mas sim sul-americano. Sul-americano crucial. Depois, inclusive, uma participação também na primeira década desse século no Haiti pela MINUSTAH, que depois foi controvertida, mas a imagem inicial era muito boa.
Então foi um momento assim com, em que Obama chamava, this is the guy, falava sobre o Lula. Então era o momento no qual o Brasil tinha um protagonismo muito forte na América do Sul, também no resto do planeta, mas especialmente na América do Sul. Isso depois, na década seguinte, foi encolhendo, né, foi encolhendo rapidamente. E a região precisa uma liderança regional, ou precisava pelo menos até tempos atrás. Agora há toda uma guinada de governos que se alinharam com Trump. Trump acabou entrando nesse vácuo da falta de uma liderança regional.
Eu queria te perguntar, o Mercosul deu certo, não deu? Ainda tem coisas por fazer?
Os presidentes estão brigados, mas não o comércio. O comércio continua crescendo, continua florescendo independentemente de xiliques presidenciais. Poderia funcionar muito melhor se os governos trabalhassem seriamente para intensificar a integração, mas o Mercosul já tá em banho-maria do ponto de vista político, né, do ponto de vista político, já está em banho-maria há uns 20 anos.
Queria me valer do teu conhecimento histórico para perguntar: existe precedente para essa relação de tanta animosidade entre os presidentes da Argentina e do Brasil?
Olha, não. Temos que voltar 174 anos, se não me falha o cálculo, para 1852, Victor. Quando governava Dom Pedro II no Brasil. E em Buenos Aires, não na Argentina inteira porque tava numa guerra civil, governava o ditador Juan Manuel de Rosas. Quando Juan Manuel de Rosas, quando o Brasil retirou seu embaixador, foi o único precedente, retirou seu embaixador de Buenos Aires. E depois, anos depois inclusive, Buenos Aires retirou seu embaixador do Rio.
E aí, a ponto de estourar a guerra, o Juan Manuel de Rosas começava a chamar o Dom Pedro II de o Rei Macaco, el Rey Macaco. E até Milei nunca mais ouviu insulto por parte de nenhum chefe do Poder Executivo argentino a um presidente brasileiro. E nunca houve, pelo menos publicamente, um xingamento de um presidente brasileiro a um presidente argentino, Victor.
Inclusive, os dois países passam a se aproximar da ditadura, né?
Exato. Quando teve a Guerra das Malvinas, por incrível que pareça, um conflito bélico aproximou os dois países. Argentina enfrentava a Inglaterra pela Guerra das Malvinas. E o Brasil não é que enviou soldados nem mandou equipamento militar nem nada do estilo, mas o Brasil foi ajudando com alguma— há rumores que houve alguma espécie de triangulamento para enviar algum material militar para Argentina, impediu o pouso de aviões britânicos que iam rumo às Malvinas, não é?
E teve uma postura diplomática a favor da Argentina. Isso foi o início, por incrível que pareça, foi nos governos militares. E aí veio o presidente Alfonsín e Sarney, que pensaram nessa integração. E que inclusive Alfonsín levou Sarney inesperadamente numa visita à Patagônia, onde abriu as portas, onde abriu as portas para as instalações atômicas secretas que a Argentina tinha, porque a Argentina vinha já desde os anos 50 pensando na sua bomba atômica.
Bom, você falou das questões militares entre Brasil e Argentina. E eu quero falar da situação entre Brasil e Paraguai, que foi uma questão militar que motivou aí, pela declaração do presidente Lula, o incômodo por parte do governo paraguaio, declarações relacionadas à Guerra do Paraguai. Por que que incomoda tanto os paraguaios a fala do presidente Lula? E o que mais da atitude do Brasil tem incomodado os paraguaios, Ariel?
O presidente Lula disse, num contexto de um discurso muito amplo sobre as questões geopolíticas atuais, Trump ameaçando a Groenlândia, Trump ameaçando anexar o Canadá, todas essas coisas do Trump. E o presidente Lula disse que não queria ser pego de surpresa. E aí citou justamente: não quero ser pego de surpresa porque um belo dia o presidente do Paraguai, o Solano López, decidiu invadir o Brasil, Argentina e Uruguai, né? Isso pegou muito mal no Paraguai porque esse assunto é uma ferida aberta no Paraguai.
E os paraguaios, inclusive o Senado paraguaio reclamou formalmente, a Câmara dos Deputados reclamou, o presidente paraguaio reclamou também formalmente dizendo que havia uma interpretação errada da história por parte do Lula. Invadiu não inesperadamente, porque eles haviam declarado guerra formalmente no Congresso em Assunção, invadiu o sul do Mato Grosso e invadiu a Argentina para conseguir, tentar conseguir enviar tropas até o Uruguai para ajudar o lado uruguaio legítimo nessa, nessa guerra.
Então, quem invadiu primeiro? Bom, Uruguai invadiu, o Brasil invadiu primeiro um aliado do Paraguai, que era o Uruguai. Quem invadiu pessoalmente depois um desses outros dois? Foi o Paraguai invadiu o Brasil. De todas formas, o negócio é que no Paraguai essa guerra é vista como um genocídio, com a culpa mais colocada no Brasil do que na Argentina e no Uruguai. Porque Uruguai, a Tríplice Aliança foi Argentina, Uruguai e Brasil contra o Paraguai.
Só que as tropas argentinas e uruguaias, depois da Conquista de Assunção, praticamente não participaram em mais nada. E o Brasil continuou durante um par de anos mais no resto da guerra. E aí foi um grande, colossal genocídio que matou, cálculos afirmam, de 70 a 80% do total da população. E dentro só da população masculina, de 90% da população masculina paraguaia. Isso é visto como genocídio, né? E os paraguaios até citam, peraí, o governo, parte do governo brasileiro, parte da classe política brasileira de forma geral, falam do genocídio em Gaza, não é?
E falam muito e não dizem nada sobre o genocídio que cometeram aqui Não do outro lado do Oriente Médio, do outro lado do planeta, aqui do lado, num sócio do Mercosul, no Paraguai, não é? Um suposto hermano, não é? Se fosse, se fosse hermano de verdade, já teria tido um pedido concreto há muito tempo. Eles também pedem a devolução dos troféus de guerra, coisa que o Uruguai e Argentina já fizeram há 50, 60 anos. Brasil não fez isso.
Pedem abertura dos arquivos do Itamaraty há muitas décadas também. Silêncio total no Brasil, né? E também tem outras questões, como a espionagem feita pela ABIN a políticos paraguaios no ano passado, que foi um mega escândalo.
O ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubens Ramírez Lescano, disse que seu governo convocou o embaixador do Brasil no país, José Antônio Marcondes, para dar explicações sobre a suposta invasão hacker feita pela inteligência brasileira a sistemas do governo paraguaio. Segundo o funcionário, a ABIN acessou, por exemplo, sistemas da presidência e do Congresso paraguaios, além de dados de autoridades envolvidas nas negociações sobre o tratado da usina de Itaipu, que pertence aos dois países.
A questão do Paraguai exigindo poder revender para terceiros o excedente de energia de Itaipu, não é? Mas é um acordo que está muito, que prende muito toda essa questão entre o Paraguai e o Brasil, não é? E todo esse contexto é muito complexo. Então, quando o presidente Lula o outro dia fez esse comentário, não é que isso causou uma reação do nada, é uma reação de cansaço que já vem há muitíssimo tempo pelo lado do Paraguai. E nesse contexto aparece quem?
Aparece Trump, né? Então aí, como diz o Dom Juan alaranjado, né, que quer aproveitar agora toda essa situação.
Espera um pouco que eu já volto para continuar minha conversa com Ariel Palacios. O Ariel, a gente vê aí um cenário muito desafiador para esse processo de integração do Brasil com os seus vizinhos, né? Além dessas duas, desses dois casos aí dos entreveros de Milei com o Brasil, com o presidente Lula, e das declarações do presidente Lula no Paraguai, a gente vê, o presidente Lula não foi na posse do Milei, enviou o chanceler Mauro Vieira, não foi à posse do presidente chileno António Kast, enviou Mauro Vieira, não foi na posse semana passada de Keiko Fujimori no Peru, mandou o chanceler, e muito provavelmente não irá na posse do recém eleito presidente da Colômbia, Esprilla.
Como superar esses obstáculos das posições políticas dos governantes para que os povos da América do Sul verdadeiramente possam voltar a desfrutar desse projeto de integração daqui da nossa região?
É um assunto complexo. Seria muito melhor que um presidente participe das posses de outros presidentes, mesmo que tenham divergências ideológicas. Porque a ausência dos presidentes nessas situações são usadas pelos opositores com os mais variados argumentos, né? E não pega bem. Também, por outro lado, é preciso ser pragmático e destacar que a ausência durante um par de horas num evento, numa cerimônia em outro país, pode gerar comentários negativos durante algumas horas, depois ninguém mais lembra, porque tá todo mundo ocupado com as primeiras medidas que o novo presidente vai tomar no país X.
Ou Y, né? Então são coisas muito circunstanciais, né? Digamos, eu sempre recomendo, eu diria assim, alguém me perguntasse: você acha que um presidente tem que ir? Sempre tem que ir, presidente de qualquer país, né? É porque também Milei também não vai nas posses de presidentes de esquerda. Então é necessário. Os uruguaios nesse aspecto são geniais, né? Porque eles vão em todas as posses e levam ainda por cima ex-presidentes de partidos opositores juntos.
Isso é uma fenomenal demonstração de civilidade. Você só não vai à posse de alguém que é ideologicamente diferente, mas você leva junto teus opositores, os dois ex-presidentes opositores. E por isso o Uruguai é tão, tão fenomenalmente avançado. Exatamente. Não é à toa que os caras têm os melhores índices de transparência, mais baixos de corrupção, de democracia, de leitura. É um país que é sério nesses aspectos, soube aprender como lidar com dois vizinhos grandões, Argentina e o Brasil. E Uruguai já foi muito maltratado pelos dois.
Ariel Palacios, é muito bom falar com você, sempre trazendo informações e embasamento histórico para a gente entender as perspectivas que temos pela frente. Muito obrigado pela sua presença aqui no Assunto.
Muito obrigado, Victor. Muito obrigado a todos. E só para ressaltar uma coisa: o Mercosul serve e muito aos países da região, mas o Mercosul tem que ser melhor tratado e os sócios pequenos têm que ser bem tratados também para evitar que flertem com outros grandões de fora da região.
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Guilherme, que encerra hoje sua temporada conosco no Assunto. Muito obrigado, Gui, e muito sucesso no seu próximo desafio. Eu sou o Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo Assunto.