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A volta do fantasma da AIDS no mundo e o aumento de casos no Brasil

31 de julho de 202627min
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Convidada: Beatriz Grinsztejn, médica infectologista, pesquisadora, presidente da IAS (International AIDS Society) e diretora do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz. Ao longo de mais de quatro décadas, os avanços da ciência transformaram o HIV de uma sentença de morte em uma infecção que pode ser tratada e prevenida com medicamentos cada vez mais eficazes. Mas um novo relatório do UNAIDS aponta que cortes no financiamento internacional, redução dos serviços de prevenção e o avanço de políticas que restringem direitos de populações mais vulneráveis colocam em risco décadas de progresso no combate ao vírus. Embora as mortes relacionadas à AIDS estejam no menor patamar em 30 anos, a ONU afirma que o objetivo de eliminar a doença como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco. O Brasil segue como referência no acesso ao tratamento, mas também aparece entre as 21 nações que registraram aumento de novos casos de HIV. Neste episódio, Victor Boyadjian conversa com a infectologista Beatriz Grinsztejn sobre o que explica esse cenário e quais são os principais desafios para evitar um retrocesso no combate ao HIV. Ela analisa o impacto dos cortes no financiamento internacional, do enfraquecimento das políticas de prevenção e do avanço de medidas que ampliam a vulnerabilidade de grupos mais expostos ao vírus. Também explica por que os casos voltaram a crescer no Brasil, apesar dos avanços científicos no tratamento e na prevenção.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
V

Victor Boyadjian

HostJornalista
B

Beatriz Grinsztejn

ConvidadoMédica infectologista
Assuntos5
  • Aumento de casos de AIDSRelatório da CIF · Cortes de financiamento internacional · Redução de serviços de prevenção · Políticas que restringem direitos · Aumento de casos no Brasil
  • Consequências Clínicas no BrasilSUS · Profilaxia pré-exposição (PrEP) · Profilaxia pós-exposição (PEP) · Determinantes sociais · Pobreza · Racismo · Homofobia e transfobia
  • Financiamento HIV· SaudePEPFAR · USAID · Fundos Internacionais · Desmantelamento de serviços · Impacto em crianças vivendo com HIV
  • Profissionalização do CrimeCriminalização de relações do mesmo sexo · Criminalização do uso de drogas · Criminalização do trabalho sexual · Forças conservadoras · Perda de acesso a serviços
  • Tratamento e vacinação contra o vírusTratamento antirretroviral · Tecnologias de prevenção · Produção de genéricos · Transplante de medula óssea · Mutação Delta 32
Transcrição57 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

No ano que vem, a humanidade completa meio século assombrada pela AIDS. Em 1977, os primeiros casos fatais de uma doença até então desconhecida foram registrados nos Estados Unidos, no Haiti e na África Central. Pouco tempo depois, chegou ao Brasil. Fantástico, 1983.

?Voz B

Grupos de voluntários já estão distribuindo nas ruas de São Paulo um folheto que informa detalhadamente a população sobre a nova e misteriosa doença que levou o costureiro Marquito Dois novos casos de AIDS surgiram aqui no Brasil. Quem está tratando deles é esta médica, Valéria Petri.

?Voz C

Esses dois casos, que cabe ressaltar também que não são suficientes para que a gente possa tirar muitas conclusões, apresentam em comum os hábitos homossexuais e que eles estiveram nos Estados Unidos exatamente nos lugares em que existiu vários casos da doença.

?Voz A

Os primeiros anos foram marcados pelo medo e pelo preconceito. A doença é predominantemente masculina.

?Voz B

Segundo as estatísticas até agora, as maiores vítimas são os homossexuais, o que acabou dando margem a um nome popular para a doença: câncer gay.

?Voz A

Com o avanço da ciência, foi descoberto que por trás de tudo isso estava um vírus que foi chamado de HIV, sigla em inglês para vírus da imunodeficiência humana. E então o mundo inteiro iniciou uma corrida em busca de respostas. Os cientistas chegaram a uma explicação: esse vírus destrói as células de defesa do corpo e não era restrito a homens gays. Descobriram também que as relações íntimas não eram a única forma de transmissão.

As vítimas da AIDS não têm idade, raça, cor, gênero ou classe social definidos. Globo Repórter, 1992.

?Voz D

O Globo Repórter mostrou o drama da família Rodrigues, que mora neste barraco de 2 cômodos em Guaianazes. 8 pessoas da casa são portadoras do vírus da AIDS. Sem dinheiro para comprar remédio e comida, eles tiveram que vender o pouco que tinham. Do aparelho de som restou apenas esta velha caixa. E algumas fitas que não há mais como ouvir. O rádio quebrou, a televisão preta e branca foi vendida no mês passado.

?Voz E

Não gosto de assistir desenho, não tem televisão. Gosto de escutar disco, não tem. Ontem mesmo fiz aniversário, não tinha nada para escutar.

?Voz A

Na década de 90, a OMS falava em cerca de 10 mil casos por dia, muitos deles fatais.

?Voz F

O Brasil perde um dos maiores talentos da nova geração da música brasileira. O cantor e compositor Cazuza morreu hoje cedo no Rio depois de 5 anos anos de luta contra a AIDS.

?Voz A

Eu queria ver no escuro do mundo onde está o que você quer para me transformar. As campanhas globais e o maior conhecimento acerca da doença foram pouco a pouco dissolvendo o preconceito e contribuindo para a prevenção.

?Voz G

Em 1994, um acordo do Ministério da Saúde com o Banco Mundial impulsionou o desenvolvimento de campanhas conscientização. No ano 2000, as farmacêuticas concordaram em reduzir os preços dos medicamentos. No ano seguinte, o Brasil ameaçou quebrar patentes que concediam a empresas farmacêuticas o direito exclusivo de produção de antivirais e conseguiu reduzir mais os preços dos medicamentos.

?Voz A

O Brasil tomou a dianteira no esforço global, quebrou a patente nos principais medicamentos usados para o tratamento das pessoas infectadas, o que permitiu a distribuição gratuita do coquetel de remédios no recém-criado SUS.

?Voz E

Mais de 3 décadas depois do surgimento da AIDS, a doença ainda é um desafio no mundo. O relatório mundial é a redução do número de novos casos de AIDS. A queda é de 17% em relação a 2001.

?Voz A

O mundo parecia ter encontrado uma solução para enfrentar com sucesso a AIDS, mas o medo está crescendo novamente. Em 2026, voltamos a enfrentar a mesma ameaça de décadas atrás.

?Voz F

De volta para falar do alerta da ONU sobre o risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo, que apesar da redução de 42% no número de novas infecções por HIV desde 2010, em 2025 o mundo registrou 1 milhão e 200 mil novos casos. Cerca de 570 mil pessoas morreram por doenças relacionadas à AIDS no ano passado. Ao todo, 41 milhões estão vivendo com HIV.

?Voz H

O Brasil está entre uma lista de 21 países que tiveram aumento superior a 20% nos novos casos. O Ministério da Saúde diz esperar que até o fim do ano injeções de prevenção contra o vírus da AIDS estejam disponíveis no SUS.

?Voz F

Hoje quem usa PrEP pelo SUS precisa tomar um comprimido diário.

?Voz A

O relatório alerta que hoje os obstáculos são outros.

?Voz H

No mesmo período, as mortes relacionadas à AIDS diminuíram 57%, atingindo o menor patamar em 30 anos. Mas o que a ONU diz agora? Que cortes no financiamento de programas estatais, privados e redução do acesso à prevenção podem comprometer essas décadas de progresso, revertendo a tendência de queda no número de casos. Outro problema, este regional: de acordo com o relatório da ONU, a América Latina especificamente caminhou na contramão da melhora registrada no mundo, com 25% de alta nas novas infecções nesse mesmo período.

?Voz A

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boiadjian é a volta do fantasma da AIDS no mundo e o aumento de casos no Brasil. Neste episódio, eu converso com a Doutora Beatriz Griesstein, médica infectologista e pesquisadora. Ela é presidente da Sociedade Internacional de AIDS e diretora do Laboratório de Pesquisa Clínica em Infecções Sexualmente Transmissíveis, e AIDS do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz.

Sexta-feira, 31 de julho. Doutora Beatriz, o novo relatório do Departamento da ONU para AIDS acendeu um alerta vermelho em todo o mundo. Na prática, uma reversão na tendência de queda, então aumento dos casos de contaminação de HIV. Como que nós chegamos a um momento tão crítico?

?Voz E

É uma situação que tá com a gente há mais de 40 anos já. Então a gente vinha no caminho para o controle. A gente teve em 2025 um número mais ou menos estável, né, de novas infecções pelo HIV, 1,2 milhões de novas infecções. A gente tem mais de 40 milhões de pessoas vivendo com HIV/AIDS. Mas a gente sabe que desde janeiro de 2025, quando nova administração tomou posse nos Estados Unidos, o PEPFAR, que é um mecanismo de financiamento de países de baixa e média renda, não só na África, mas também na Ásia e no Caribe, mas maciçamente na África.

E esses recursos que eram levados pelo PEPFAR e pela USAID eram recursos críticos para manutenção dos serviços, não só serviços de tratamento de pessoas vivendo com HIV, mas também serviços de atendimento para testagem do HIV. A testagem é a porta de entrada, quer seja para o tratamento, quer seja para os serviços de prevenção. E a gente vê que desde esse desmantelamento dos serviços que eram mantidos pelo pela G4 e pela USAID levou a um descontrole, é, que coloca em risco a eliminação do HIV como uma questão de saúde pública.

?Voz C

O presidente Donald Trump suspendeu o repasse de recursos a programas de HIV, medida que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, coloca em risco mais de 30 milhões de pessoas no mundo que dependem desses programas para acessar terapias antirretrovirais. Nota, a OMS afirma que tais medidas, se prolongadas, podem levar a aumentos em novas infecções e mortes, revertendo décadas de progresso e potencialmente levando o mundo de volta às décadas de 1980 e 1990, quando milhões morriam de HIV todos os anos globalmente, incluindo muitos nos Estados Unidos.

?Voz E

Não só houve esse desmantelamento do PEPFAR e da USAID, como também o Fundo Global sofreu um impacto no recurso que ele recebia de países da Europa. Por exemplo, Alemanha, França diminuíram o aporte ao Fundo Global. Dados concretos mostram o tamanho da disrupção que está acontecendo nos serviços de saúde, quer seja para tratamento, quer seja para testagem, e serviços de profilaxia pré-exposição. A gente tem 70 mil crianças vivendo com HIV a menos, recebendo tratamento para o HIV.

Obviamente, a gente não sabe como é que isso vai caminhar. A gente dificilmente vai atingir as metas que eram propostas até 2030, de terminar, que a AIDS não fosse mais uma questão de saúde global para 2030. Mas a gente tem muita dificuldade de acreditar que isso possa se concretizar nesse tempo.

?Voz A

Doutora, só para deixar os nossos ouvintes na mesma página, explica o que que é a USAID e a PEPFAR.

?Voz E

Então, PEPFAR é o programa de emergência que foi criado pelo governo Bush há mais de 20 anos atrás, que estabeleceu um fluxo de financiamento para países de baixa renda para financiar serviços de tratamento, serviços de testagem, os serviços de dados, né, para que fazem o monitoramento dos números da epidemia. E a USAID era uma agência também do governo americano que provia ajuda para países de baixa renda para a provisão de serviços para pessoas vivendo ou vulneráveis ao HIV.

?Voz A

Outro alerta do relatório da UNAIDS é que pela primeira vez aumentou o número de países que criminaliza populações marginalizadas. Eu te pergunto, quais geralmente são essas populações, né, se puder elencar? E o como que isso correlaciona com o que a gente vê por aí, um aumento de lideranças globais que são, tem políticas anti-ciência, anti-direitos humanos, e obviamente não tem interesse necessariamente num programa de prevenção ao HIV?

?Voz E

Exato. Então a gente tem infelizmente nesse relatório mostrando que o número de países que criminalizam relações de pessoas do mesmo sexo, um aumento do número de países que criminaliza o uso de drogas, um aumento do número de países que criminaliza o trabalho sexual. Então esses são exemplos de populações marginalizadas que estão sofrendo um impacto muito grande justamente de forças conservadoras. E isso tudo somado à falta dos serviços, como a gente vinha você tá falando culminam com um aumento do número de novas infecções pelo HIV.

Esses serviços que eram fornecidos pelo PEPFAR, muitos países, todos os serviços para essas populações consideradas marginalizadas eram provisionados pelo PEPFAR. Então a quebra desse fluxo também contribui, associado, lógico, a esse aumento da criminalização, as pessoas perdem o acesso aos serviços de prevenção e de tratamento.

?Voz A

Nesse relatório, o Brasil segue como uma referência global no acesso à saúde, mas o relatório aponta que nós estamos entre as nações que mais registraram casos de infecção por HIV. Explica por que tá acontecendo isso no Brasil e o panorama também do trabalho que muitas vezes foi modelo para o resto do mundo. Como é que estamos hoje?

?Voz E

Então, nós continuamos sendo um modelo muito importante para o mundo. Nós somos um país de renda média que tem o maior sistema público de saúde do mundo, e nós provemos serviços, tratamento e prevenção, tanto serviços de tratamento para pessoas vivendo com HIV, testagem e profilaxia pré-exposição e pós-exposição para todas as pessoas que quiserem utilizar essas estratégias de prevenção, além de obviamente preservativos. E como eu testagem, enfim, uma gama de serviços disponíveis para essas populações.

A gente desde 97 provê tratamento antirretroviral combinado, que é o modelo de tratamento no mundo e aqui. E desde o final de 2017 a gente tem também serviços que fazem profilaxia pré-exposição.

?Voz F

A profilaxia pré-exposição, a PrEP, revolucionou a estratégia de prevenção ao HIV. Ela bloqueia a entrada do vírus no DNA das células de defesa do organismo, impedindo a replicação. Quem toma de forma correta tem alto nível de proteção.

?Voz E

O que que acontece no nosso país é que 30% das pessoas diagnosticadas com HIV ou estão se engajando nos serviços são pessoas que têm já um quadro avançado da infecção pelo HIV. E por que que acontece isso? Porque para além da questão da gente ter disponível no nosso país, e nós continuamos sendo uma referência nisso, por que que elas, tendo tudo disponível, não conseguem se beneficiar disso? A gente tem uma questão fundamental que são os determinantes sociais, questões estruturais como a pobreza, como o racismo, como a homofobia e a transfobia, que impedem que as pessoas acessem os serviços.

Então o HIV não é a principal questão, elas têm outras questões, como a garantia da sobrevivência, que são muito mais importantes. Então a gente tem dados que o Brasil, com o nosso programa Bolsa Família, mostrou que entre pessoas vivendo com HIV, aquelas que recebem o Bolsa Família, a gente conseguiu ver uma diminuição significativa da mortalidade, uma diminuição significativa das hospitalizações de pessoas vivendo com HIV com a simples provisão do Bolsa Família, de um aporte financeiro mensal.

Então a gente entende que Para além de todos os serviços que a gente dispõe para as pessoas vivendo com HIV, é fundamental que essas pessoas também tenham acesso a instrumentos que elas possam lidar com a situação de vulnerabilidade que elas enfrentam. E a pobreza é uma delas, e é muito impactante. Se você não tem o que comer, se você vive sob insegurança alimentar, você não tem como usar as suas medicações.

?Voz A

Eu já vou voltar a essa problemática que a senhora trouxe, mas eu quero aproveitar que a senhora tá na ponta muitas vezes da chegada das informações da ciência a esse respeito e te perguntar: como é que tá o avanço da ciência no combate ao vírus? Que que a gente tem no horizonte em direção à tão sonhada cura da AIDS?

?Voz E

A gente vive um momento na ciência que ele é incrível, né? A gente tem tem instrumentos que a gente sonhou em ter, hoje eles estão disponíveis. Então a gente tem um tratamento altamente potente, a gente tem estratégias de prevenção, tecnologias de prevenção que são poderosas. Então a gente vive hoje um momento único na prevenção, com insumos, com tecnologias que são altamente potentes, mas que precisam estar acessíveis para que a gente possa de fato realizar essa potência que elas têm.

Não adianta a gente ter os melhores insumos se esses insumos não são acessíveis. O Brasil, por exemplo, não tá incluído nos acordos de produção de genéricos de nenhum desses medicamentos usados para profilaxia pré-exposição que foram assinados. Então os diferentes medicamentos têm acordos de produção de genéricos em mais de 120 países na África, no Caribe, alguns deles, alguns na América do Sul, mas o Brasil tá fora de qualquer um desses acordos de acesso a antigenéricos.

Então o Brasil fica na situação de negociação com a indústria farmacêutica, que muitas vezes não traz para nós preços que sejam justos para nossa economia.

?Voz A

Doutora Beatriz, qual que é a relação entre o aumento de testagens que a senhora menciona e o aumento dos registros de casos de HIV.

?Voz E

Na hora que a gente tem uma ampliação dos serviços de testagem, a gente vai ter condições de fazer mais diagnósticos. Se você não tem testes disponíveis, e no Brasil a gente tem testagem, a gente tem testagem rápida e a gente tem autotestagem, né? Então a pessoa pode ir na farmácia e comprar um kitzinho e fazer seu próprio teste. Na medida que você amplia a testagem, você vai ter maior detecção de casos de HIV.

?Voz A

E a senhora vê falhas na prevenção?

?Voz E

A prevenção que a gente tem hoje disponível, ela é altamente eficaz. As pessoas infelizmente não estão acessando os serviços e não estão se beneficiando necessariamente do que tem disponível. A gente precisa muito aumentar o nível de informação da população, até porque o PrEP é disponível na rede pública, né? O Brasil tem mais de 1000 pontos de distribuição de PrEP.

?Voz A

Eu vim aqui no Racha Maia, entrei e falei assim, olha, eu gostaria de fazer a PrEP. Aí foi, pegou meus dados, me encaminhou para sala, aí faz umas perguntas protocolares. 15 minutos depois eu saí com o PrEP na mão. Quando eu saí daqui, a primeira opção que me falou, cara, como é fácil!

?Voz E

Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, PrEP tá disponível na saúde da família, tá disponível na atenção primária e tá disponível em serviços especializados, mas a gente tem uma ampla gama de serviços que estão disponibilizando PrEP. Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura adotou uma estratégia ainda mais arrojada, caminhando então para as máquinas de dispensação de PrEP que estão em diversas estações do metrô. A Estação Prevenção também instalada, fazendo testagem e prevenção em estações do metrô.

?Voz F

Aqui na cidade de São Paulo, a Secretaria de Saúde possui duas estratégias de prevenção que juntas conversam com a diversidade, principalmente com a população jovem. No centro da cidade existe uma máquina que distribui a PrEP e a PEP dentro do metrô. Para ter acesso, cidadão precisa ter feito um teste de HIV e ter passado por uma consulta. Só que nesse caso, a consulta também pode ser online. Com QR code em mãos, é possível ter acesso ao medicamento.

?Voz E

Então, a cada cidade também buscam estratégias para ampliar o acesso a PrEP.

?Voz A

E isso tem na rede pública do SUS todo, em todo o país, certo?

?Voz E

Disponível no Brasil inteiro.

?Voz A

E existe alguma contraindicação?

?Voz E

A pessoa recebe uma prescrição de PrEP, ela é orientada a como usar, que é um único comprimido ao dia. Existe também a forma sob demanda, é que também é orientada nos serviços de saúde. Então não existe superuso de PrEP.

?Voz A

Doutora, e no caso de uma pessoa que teve algum contato de risco?

?Voz E

Aí a gente tá falando de PEP. Se a pessoa teve uma exposição de risco, não usava PrEP, não usou preservativo, ela deve se dirigir a um local de atendimento que disponibilize PEP, que é a profilaxia pós-exposição, que também é disponível através do nosso Sistema Único de Saúde. Também é em cada cidade, isso tá ou na atenção primária e na saúde da família, em ambulatórios especializados, e PEP também nos serviços de emergência.

?Voz A

Espera um pouquinho que daqui a pouco eu volto para continuar a conversa com Beatriz Greenstein. Para finalizar também nessa linha de avanço da ciência, a gente tem a notícia de que da Sociedade Internacional de AIDS, que já contabiliza 13 casos de pessoas curadas pela contaminação pelo HIV. É uma ótima notícia, claro, poderia ser muito mais. O ideal seria que todas fossem. Mas eu quero te colocar uma provocação: o quanto que ao avançar em direção à cura ou uma prevenção ou uma segurança maior também não mostra uma queda na consciência da população.

Será que um dia a gente volta a ter a mesma consciência que tivemos no fim do século passado?

?Voz E

Eu acho que é importante a gente ter um entendimento de que nós trabalhamos nesses últimos 40 anos para que as pessoas não precisassem sentir medo. Então essa, essa conscientização muitas vezes ela passa por um amedrontamento das pessoas, e a gente trabalha incessantemente para que as pessoas se empoderem e não se vulnerabilizem, porque estar amedrontado não ajuda em nada. As pessoas precisam entender o que que tem disponível para elas, se apropriarem do que o nosso sistema de saúde pode oferecer a elas e ir em busca do que tá disponível.

Então, muitas vezes, o estigma e a discriminação, que são terríveis na nossa sociedade, impedem as pessoas de que elas possam buscar o que o nosso sistema de saúde oferece. Elas precisam se apropriar do que nós temos disponíveis e utilizar as estratégias de prevenção que nós temos, que são excelentes, que vão ainda se aprimorar mais, para que elas possam estar protegidas e não com receio. Com relação aos casos de cura que você tá comentando, é importante a gente lembrar que todos esses casos de pessoas que tiveram um transplante de medula, medula, eram pessoas que tinham uma grave neoplasia do sistema hematológico, e por isso elas foram transplantadas.

E quando transplantadas, elas receberam uma medula óssea que tinha deleção da mutação Delta 32. Que protege elas de adquirir o HIV.

?Voz F

Ainda se tratam de curas muito restritas a pacientes que, além de viverem com HIV, acabaram tendo leucemia, doenças no sangue, precisaram de transplante de células-tronco. E no mundo há pelo menos 1% da população que possui aí uma mutação genética nas células que impede a infecção por HIV.

?Voz D

HIV.

?Voz F

Essas células que foram transplantadas nesses pacientes ajudaram esses pacientes a não terem mais o vírus replicado no corpo.

?Voz E

Então não é uma estratégia que possa ser incorporada para a cura de casos de pessoas que tenham HIV. Essas pessoas estão recebendo esses transplantes para tratar doença grave que elas têm, porque um transplante de medula tem riscos. Então a gente tem que colocar tudo isso em consideração. Entretanto, esses casos nos trazem insights, nos trazem informações muito importantes para a construção desse caminho de busca da cura do HIV, de novas vacinas que sejam efetivas, que a gente infelizmente também não chegou lá com as vacinas.

Então São interessantes os casos, são, nos deixam otimistas, mas essa não é uma estratégia replicável a nível populacional.

?Voz A

Doutora Beatriz, muito obrigado pelas suas informações, pela sua participação aqui conosco no assunto.

?Voz E

Obrigada a você, foi um prazer.

?Voz I

Oi pessoal, Natuzanery aqui. Resolvi gravar essa mensagem para vocês neste episódio para dividir uma informação que nos deixou muito tristes aqui no assunto. Hoje, quinta-feira, a nossa equipe foi surpreendida com uma notícia muito, muito triste para nós. Sara Rezende, nossa colega, companheira, amiga, nos deixou. A gente tem muitas coisas boas para falar sobre a Sara e é difícil encontrar palavras para definir o que a gente tá sentindo agora.

Sara era nossa colega, nossa companheira, nossa amiga de assunto, de muito trabalho. Sara foi uma profissional exemplar, uma profissional dedicada, tinha ideias excepcionais. Fizemos muitos episódios a partir de propostas dela, uma jornalista e tanto, e uma pessoa que vai deixar muitas saudades aqui. Mas mais do que isso, Sara era uma pessoa incrível, doce, gentil, inteligente, perspicaz, e conviver com ela foi um presente. Eu falo em nome de todas e todos aqui da nossa equipe do esse assunto.

Então hoje, nesse dia, eu queria honrar a memória da Sara e deixar um abraço apertado para família dela. Sara, onde quer que você esteja, obrigada por tudo.

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