O futuro da ONU: os interesses por trás da eleição para a Secretaria-Geral das Nações Unidas
- Eleição para Secretaria-Geral da ONUProcesso de votação no Conselho de Segurança · Candidatura Michelle Bachelet ONU · Interesses políticos dos membros permanentes · Reforma do Conselho de Segurança
- Estratégias eleitorais e perfil de candidatosJoão Barradas · Saída de Bolsonaro da UTI · Maria Gaetana Agnesi · Rebeca Grinspan · Macky Sall
- Crise de Legitimidade da ONUConflitos armados simultâneos · Crise de financiamento e cortes de custos · Ascensão de movimentos radicais · Fragilidade da organização
- Obras e Legado de Adélia PradoPandemia da COVID-19 e papel da OMS · Falha em conter novos conflitos armados · Dificuldade em manter relevância
Pensa numa reunião de condomínio com 193 apartamentos representados. Todos têm direito a opinar, mas na hora da decisão final apenas 5 têm poder de veto e podem anular qualquer decisão da maioria. É mais ou menos assim que a ONU vai escolher o seu próximo secretário-geral, que é o síndico desse condomínio.
O mandato do secretário-geral da ONU dura 5 anos e ele pode ser reeleito uma única vez, e foi o que aconteceu com António Guterres, que vai terminar o seu décimo ano como secretário-geral da ONU, no fim de 2026.
A eleição para quem vai suceder o atual secretário-geral vai ter nesta quinta-feira um ponto de partida mais definido. Esse é um processo que começou lá atrás com a apresentação dos candidatos para a vaga. Os países formalizam nomes. Depois, os indicados enfrentam debates públicos em um processo que já leva vários meses e que depende de uma grande campanha interna de convencimentos e coalizões entre os países. Mas os momentos mais importantes acontecem a portas fechadas.
Não existe uma data específica para votação para eleger quem liderará a Secretaria-Geral, mas existem alguns prazos. Por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU, que é formado por 15 países, se reunirá e aí escolherá um desses candidatos para recomendar. São necessários pelo menos 9 votos a favor e nenhum veto daqueles 5 membros permanentes do Conselho, que são a China, Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido. Na sequência, a Assembleia Geral, com seus 193 integrantes, votarão para definir se aceitam ou não a recomendação feita pelo Conselho de Segurança. E isso poderia ser em algum momento entre julho e outubro.
Esta quinta-feira é o dia da primeira votação no âmbito do Conselho de Segurança da ONU. Chamada em inglês de straw poll, é o primeiro teste de fogo dos candidatos. Cada representante dos 15 países do Conselho tem 3 opções para colocar no envelope das candidaturas: se encoraja, se não encoraja ou se não tem opinião. A lógica é a seguinte: quem recebe muitas negativas percebe que tem poucas chances de levar e pode desistir. A cada rodada, os candidatos vão abandonando até chegar a um único nome.
Mas tem um detalhe: o candidato não pode receber nenhum veto dos 5 membros com assento permanente no Conselho de Segurança.
Não há uma obrigatoriedade para que haja uma uma rotação na nacionalidade do secretário-geral, mas sim um acordo informal. Então, o secretário atual, António Guterres, é de Portugal, da Europa. Por essa rotatividade informal, o próximo candidato seria da América Latina.
Não há um favorito claro, mas quem acompanha de perto diz que há uma crença generalizada de que esta pode ser a vez de um representante da América Latina e também uma mulher. Por isso, o nome de Michelle Bachelet desponta. A ex-presidente chilena é apoiada por países como Brasil e México.
Bachelet defendeu o multilateralismo e disse que o próximo secretário-geral tem que ser alguém que previna conflitos. A Alemanha fez uma pergunta representando também o Brasil, Japão e Índia. Questionou sobre o que ela faria para uma reforma do Conselho de Segurança. Bachelet respondeu que esse é um papel que deverá ser desempenhado pelos países da ONU, mas que ela defende uma reforma para que o Conselho reflita o mundo de hoje, com mais representatividade e eficiência.
Outro latino-americano no páreo é o argentino Rafael Mariano Grossi, que propõe uma ONU, palavras dele, com menos gordura e mais músculo, com menos burocracia e mais capacidade de mediar conflitos.
Rafael Grossi comanda a Agência Internacional de Energia Atômica. Com perfil técnico, começou a ficar conhecido durante as crises das guerras da Rússia com a Ucrânia e dos Estados Unidos com o Irã. Ele é respaldado por seu compatriota, o presidente Milei, de direita. Grossi tem a simpatia também, olha só que diferença, do líder russo Vladimir Putin e também de Trump, e é visto como uma figura de consenso que não vai criar problemas nem para Casa Branca nem para o Kremlin.
Completam a lista de candidatos Maria Fernanda Espinoza, do Equador, Rebeca Grinspan, da Costa Rica, Macky Sall, do Senegal, Carolyn Rodrigues-Burkitt, da Guiana, e o diplomata Olara Otunnu, de Uganda, que formalizou a candidatura apenas no último domingo. Paralelo à eleição, o país que sedia a ONU tem hoje um governo que joga contra a organização. Fora das regras do jogo, Donald Trump tentou mexer no tabuleiro. Chegou a sugerir o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para o cargo, segundo o jornal New York Post, e voltou a criticar o que chama de burocracia inchada da ONU.
Antes, Trump já havia proposto a criação do Conselho de Paz, Uma organização que esvaziaria o poder das Nações Unidas.
Donald Trump lançou a ideia de um Conselho de Paz.
Alguns países aderiram, muitos seguem bem reticentes.
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Do G7, só os Estados Unidos mesmo. Assinaram a criação do Conselho 19 países, cujos líderes são aliados de Trump, a maioria do Oriente Médio e da Ásia Central. Donald Trump será o presidente vitalício do Conselho e o único com poder de veto. Para garantir uma vaga permanente, é preciso desembolsar 1 bilhão de dólares.
Quem assumirá em janeiro do ano que vem como secretário-geral da ONU, o décimo nome a ocupar o cargo, herdará uma organização fragilizada.
Em todos os campos de batalha, a ONU está presente de alguma forma, facilitando a entrada de ajuda humanitária, recebendo reféns libertados ou mesmo sendo a arena onde os países discutem uma solução. Isso tem um preço e a conta não está fechando. Para cortar custos, a ONU restringiu novas contratações, transferiu operações para outros países, limitou o uso de tradutores e suspendeu reuniões após as 6 da tarde para economizar energia.
Secretário-Geral da ONU, António Guterres, reconhece que atravessamos uma crise global e que os conflitos se multiplicam diante das divisões geopolíticas. Uma das medidas que Guterres defende para que a ONU se torne mais efetiva é a reforma do Conselho de Segurança, como o Brasil reivindica há anos. O órgão mais poderoso da organização está virtualmente paralisado, com os 5 integrantes permanentes vetando sistematicamente resoluções uns dos outros em questões cruciais, como os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
Há uma sensação de impunidade. Cada país acredita que pode fazer o que quiser. Precisamos de líderes que entendam que a cooperação internacional é vital e que a negociação é necessária para criar uma esperança de paz.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boiadjian é: o novo comando da ONU, os interesses por trás da eleição para a Secretaria-Geral da organização. Neste episódio, eu converso com Marcelo Lins, comentarista e apresentador do GloboNews Internacional. UOL, quinta-feira, 30 de julho. Marcelo Lins, uma eleição para Secretaria-Geral das Nações Unidas em meio a uma ONU que enfrenta uma combinação rara de crises, né?
Guerras em curso, tensões entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, ascensão de movimentos radicais em diversos países. Eu te pergunto, nos pouco mais de 80 anos da ONU, Essa eleição é mais complexa do que as outras? E o que que tá em jogo nessa disputa?
Me parece que sim, essa análise de que é mais complexa do que outras, sim, porque o momento é mais complexo também. Se a gente for ser bem franco, direto, objetivo, a gente tá vivendo o fim de uma ordem mundial que começou a ser construída ao final da Segunda Guerra Mundial sobre os escombros, a destruição e as dores daquele gigantesco conflito. A Organização das Nações Unidas, herdeira da antiga Sociedade das Nações, ela nasce em 1945 com uma missão específica: evitar a repetição de tragédias do tamanho da tragédia que foi a Segunda Guerra Mundial.
Conseguiu? Não conseguiu? A gente pode debater isso, né? Mas fato é que nesse momento o mundo tem mais conflitos armados simultâneos do que em qualquer outro momento desde o final da Segunda Guerra Mundial. Isso poderia indicar um fracasso da ONU. Também significa que talvez nunca tenha sido necessário um fórum como são as Nações Unidas, com todos os seus defeitos, mas também com todas as esperanças que ele pode alimentar.
Agora, com relação aos candidatos que estão no páreo, o que que você destaca deles? O que que eles pensam? Quais são os favoritos e como que eles enfrentam aí esse pleito para o comando das Nações Unidas.
O processo que vai levar à escolha de um novo secretário-geral ou de uma nova secretária-geral, que seria aliás a primeira secretária-geral das Nações Unidas, né, ocupando esse cargo, ele é complexo e ele não é exatamente como uma eleição normal. Ele parte da ideia de que é possível construir um consenso Desde o momento em que os países indicam um nome para concorrer a essa eleição, que foi lá atrás, isso é um processo que começa ainda em 2025 com as primeiras indicações, ao longo do ano de 2026, do início de 2026 também elas vão se consolidando, passa por uma série de processos de consultas, inicialmente ali com conversas entre esses candidatos indicados, integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que tem 15 membros, e depois chega até a Assembleia Geral, que vai ratificar um consenso que foi se construindo.
Ele tem essas etapas todas bem peculiares, com muita conversa e a tentativa de superar-se as arestas que possam aparecer no meio desse processo. E me parece que nesse momento dois nomes chamam mais a atenção do que outros, porque são bem distintos, apesar de ambos serem sul-americanos. Um deles é o argentino Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, que foi bastante falado no ano passado quando daqueles primeiros ataques de Estados Unidos e Israel contra o programa nuclear do Irã.
O Grossi acabou dando, através de documentos da IAEA, subsídios técnicos indicando que o Irã estava enriquecendo urânio a uma capacidade muito maior do que é necessária para uso com fins pacíficos, meio que justificando então a possibilidade de se fazer alguma coisa.
O chefe da Agência de Energia Atômica da ONU afirmou que o Irã pode voltar a enriquecer urânio em alguns meses em quantidade suficiente para produzir uma bomba. Para Rafael Grossi, os ataques dos Estados Unidos a 3 usinas nucleares iranianas causaram danos graves, mas não totais. Ele também disse que não é possível afirmar que tudo desapareceu.
E a Bachelet, ex-presidente do Chile, que foi também alta comissária da ONU para Direitos Humanos, que tem uma carreira de militância nessa área do respeito aos direitos humanos, que é um dos pilares da atuação das Nações Unidas, e que aparece como uma candidata disposta a defender os princípios humanitários das Nações Unidas. E isso é algo bastante forte em relação à candidatura da Bachelet. Uma curiosidade: ela foi escolhida em fevereiro ainda como candidata do Chile.
Mas logo depois, em março, houve mudança de governo depois de uma nova eleição no Chile, e entrou o governo de extrema-direita do CAST no lugar do antigo presidente Boric. E aí o Chile retirou o apoio àquela candidatura, mas o Brasil, que já havia endossado a Bachelet quando ela foi lançada, manteve essa candidatura. Por isso também a candidatura dela prosegue. Mas é claro, poderemos ter um candidato da África e poderemos ter uma candidata também da Guiana.
A Guiana que vem ganhando também alguma projeção no cenário internacional, principalmente como sendo uma nova, um novo Eldorado, por assim dizer, do petróleo no mundo. E ainda tem o fato de ser ali pertinho da Venezuela. Enfim, são esses, eu diria ali, os potenciais candidatos que podem conseguir reunir mais apoios. É claro que tudo depende de quem os integrantes do Conselho de Segurança vão chancelar, vão apoiar, de quanto esses candidatos conseguem agregar às suas candidaturas, e também, digamos, de uma atmosfera mundial.
Teremos um mundo que vai se reconstruindo mais isolacionista, menos cooperativo, menos voltado para o multilateralismo? Que tem enfrentado muitos problemas, ou exatamente essa crise do multilateralismo pode alimentar uma candidatura que prometa reconstruí-lo, mostrar que há problemas que só podem ser resolvidos com a união de vários países, com a construção de novos consensos. E aí eu penso na crise ambiental, eu penso nos conflitos armados, nas disputas por território, nos problemas religiosos, de imigração também.
Dificilmente isso pode ser resolvido isoladamente por um país. Vamos ver o que que pesa mais.
Como você mencionou, é, os favoritos, eles podem ser alvo de interesses políticos de países que hoje têm veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por exemplo, Michelle Bachelet, identificada como uma candidata de esquerda, poderia perder o apoio do governo Trump, por exemplo, no voto dos Estados Unidos. Da mesma forma, Rafael Grossi, que, como você disse, teve uma influência em dar algum embasamento para o ataque no Irã, poderia sofrer um veto da Rússia.
O contexto de politização pode contaminar a decisão do Conselho de Segurança da ONU nessa escolha do secretário-geral? E aí, nesse sentido, a gente poderia esperar alguma surpresa, alguma zebra, algum candidato menos no radar?
Pode sim, ainda mais quando a gente tem a maior potência econômica e militar do mundo, os Estados Unidos, agora com a volta de Donald Trump à Casa Branca, reiterando o seu profundo desprezo pelo multilateralismo, pelo próprio papel das Nações Unidas acima de governos nacionais.
É muito comum o Trump criticar a ONU e outros organismos multilaterais. Teve um tom de deboche ali, ele questionou a própria necessidade da ONU existir.
Questiona-se muito nos Estados Unidos, na direita ultranacionalista americana, essa que é vista como uma ingerência de organismos internacionais sobre decisões nacionais. Ao mesmo tempo, é necessário que haja uma entidade, uma instituição que não esteja ali pressionada por objetivos puramente nacionais para conseguir dirimir algumas dúvidas, superar alguns impasses, construir novos consensos. É nesse sentido que se inserem essas candidaturas.
Mas sim, um veto absoluto a qualquer uma delas vai ensejar ali abertura de espaço para candidaturas menos divisivas, digamos assim, ou menos comprometidas com alguma agenda de parte a parte, ou mais voltada aos direitos humanos, ou mais voltada a uma atuação pragmática das Nações Unidas e apenas pontual, com menos interferência em assuntos nacionais. E claro, a efetividade desse novo, dessa nova secretária-geral à frente da ONU e da própria ONU vai depender muito da disposição dos integrantes da Organização das Nações Unidas em fazê-la funcionar.
Se o objetivo for sabotar, aí de fato não devemos esperar muita coisa. Se o objetivo for reconstruir relações de confiança, aí a ONU pode ter um novo momento.
E seja quem for o eleito, vai ter que transitar e navegar um mundo muito mais complexo numa ONU com menos recursos, mas ao mesmo tempo com uma atuação fundamental em várias necessidades do planeta. Eu cito aqui, por exemplo, ajuda humanitária, ajuda com refugiados, saúde global e, claro, os conflitos que a gente enfrenta no planeta. Qual a realidade que o novo secretário ou secretária vai enfrentar quando assumir o cargo?
Não dá para esperar nada que não seja muito complexo e muito desafiador, com verbas cortadas de países importantes como seu principal financiador, os Estados Unidos, para vários programas das Nações Unidas. E sendo essa atitude dos Estados Unidos seguida por alguns dos países que querem mostrar um alinhamento completo, eu penso aqui na Argentina, na Colômbia agora do novo presidente de lá, Esprilla, em toda essa onda da extrema-direita mundial, também muito crítica ao que eles veem como excessos do chamado globalismo.
Ao mesmo tempo, se a gente for lembrar, no passado bem recente, na hora de uma crise mundial de saúde, como você mencionava aí, recorreu-se ao OMS. Tá aí a COVID, a pandemia que não nos deixa esquecer. Na hora em que há uma fome que avança no continente africano, é o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas quem entra. É a FAO, Organização para Agricultura e Alimentação da ONU, que entra muito forte na hora que há uma crise de refugiados, como a Europa viveu há alguns anos.
Quando há uma nova ação militar, por exemplo, contra os palestinos depois dos ataques terroristas lá de outubro de 2023, a ação militar em resposta israelense, que depois virou uma ação punitiva com caráter de punição coletiva na Faixa de Gaza. É a agência da ONU para os palestinos que é chamada a agir também para tentar garantir ali um mínimo de cuidados humanitários. Temos aí ainda também, para seguir falando em organismos ligados à ONU, a UNESCO, que cuida da cultura e dos patrimônios da humanidade, a UNICEF e seus trabalhos com infância também mundo afora.
Então me parece que com todas as dificuldades Será necessário trazer as Nações Unidas para o contemporâneo, voltar a discutir seriamente a questão da reforma das suas instituições, do próprio Conselho de Segurança. E é claro, isso é dificílimo, vem sendo tentado há anos, e os principais obstáculos vêm, por exemplo, no Conselho de Segurança, dos seus próprios integrantes, que não querem perder o poder, inclusive o poder de vetar resoluções.
Mas Nem por isso é possível pensar em esmorecer. Pelo contrário, é necessário construir uma nova ordem mundial e há lugar para as Nações Unidas nessa construção.
Daqui a pouquinho eu volto para continuar minha conversa com Marcelo Lins. Queria um pouco da tua experiência, do que a gente pode imaginar para o futuro. Por exemplo, a gente pode imaginar que a reforma do Conselho de Segurança da ONU, nesse momento de falta de consenso, é um sonho cada vez mais distante, ou não? Com uma saída um pouco mais de cena dos Estados Unidos e uma chegada mais com financiamento de outros países, eventualmente a China, mais interessada em manter a ONU do que tentar reconstruir ou construir uma outra coisa do zero, essa nova ONU como seria?
Da mesma forma, eu acrescento: como avaliar aí a Secretaria-Geral de António Guterres e o que deixa de legado e o que deixa por fazer?
Bom, começando pelo final, eu diria que a passagem do António Guterres pela Secretaria-Geral, ela foi marcada por alguns desafios também gigantescos. O maior deles, talvez, a pandemia da COVID-19 ali, onde a Organização Mundial da Saúde, que é ligada também às Nações Unidas, acabou tendo um papel de protagonismo impressionante. E todas as instituições ligadas à ONU acabaram sendo mobilizadas nesse esforço global para enfrentar algo naquelas proporções absolutamente inédito.
E aí eu diria que a ONU acabou saindo-se bastante bem na sua tarefa, apesar de naquele início ficar um pouco errática, não se sabia como agir exatamente. Fomos aprendendo junto com a OMS também e os seus técnicos como reagir, como agir, como nos comportar. Mas ali a ONU provou que tinha sua importância, seu lugar para juntar cientistas, juntar a opinião pública, fazer circular informações confiáveis. Tudo isso a ONU ajudou. Me parece que as principais falhas do Guterres estão em relação a não segurar a eclosão de novos conflitos armados.
Em todos os quadrantes do planeta, seja lá na Ásia com os rohingyas e suas crises em Mianmar, seja na África, no Sudão, na República Democrática do Congo, no Sahel, em tantos cantos, seja também no Oriente Médio com as dificuldades no Líbano, nos territórios palestinos ocupados, a dificuldade de diálogo com o próprio governo de Israel. Tivemos ainda conferências do clima em que temas importantes para a humanidade foram traçados.
Tudo isso fez parte da trajetória do Guterres à frente da ONU. E me parece que ele também, em vários momentos, não conseguiu ter o protagonismo necessário e a voz firme o suficiente para conseguir chamar a atenção de algumas potências que passaram a ignorá-los. Em primeiro lugar viriam, eu acho que, os Estados Unidos. De Donald Trump, sem dúvida nenhuma, com uma má vontade enorme com Guterres, com as Nações Unidas. Mas não podemos esquecer que hoje mais de 70% da população do mundo vive em sistemas não democráticos, e esses sistemas também têm dificuldade em participar de discussões sérias no âmbito das Nações Unidas.
Portanto, me parece que o António Guterres entra para história como alguém que até tentou mas conseguiu pouco no sentido de manter a necessária relevância das Nações Unidas.
E aí, por fim, então, como você imagina um novo concerto das nações, uma nova ordem? Existe a ONU nesse espaço ou teria que haver uma outra construção entre os países?
Me parece que passa necessariamente esse processo por uma reformulação da ONU, das suas instâncias decisórias, à frente delas o Conselho de Segurança, sem dúvida nenhuma ele está anacrônico, ele responde a uma realidade de logo depois da Segunda Guerra Mundial, e isso precisa ser mexido. Países como o Brasil, a Índia e outros países africanos também precisam ser contemplados. É preciso rever isso com urgência. Será que dá para fazer isso?
Não dá para afirmar hoje, mas a construção de consenso é um trabalho de formiguinha.
Marcelo Lins, muito obrigado sempre pelas suas análises, suas informações. Um ótimo trabalho para você.
Eu que agradeço, Vitor Borges. Foi adiante, sempre um prazer participar aqui do Assunto.
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou o Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo assunto.