As armas do Brasil na guerra comercial de Trump
- Operação Caracas e RetaliaçãoLei de Reciprocidade · Imposto de exportação · Controle de exportações · Nióbio · Embraer · China
- Acordo Brasil-EUA sobre tarifasTarifa de 25% sobre produtos brasileiros · Tarifa de 12,5% sobre trabalho forçado · Donald Trump e a NASA · Investigação de Jair Renan Bolsonaro · Eduardo Bolsonaro e STF
- Posição oficial do Brasil e EspanhaArbitragem de disputas comerciais · Paralisia do Tribunal de Arbitragem · Organização Mundial do Comércio
- Guerra comercial de TrumpMudança de rumo nos EUA · Protecionismo veio para ficar · Diversificação de parceiros comerciais · Modernização das práticas comerciais · China · União Europeia
- Presídio Federal de BrasíliaCrédito para empresas afetadas · Manutenção de empregos · R$ 18,5 bilhões
Se o comércio internacional fosse uma mesa de negociação, o Brasil teria acabado de puxar a cadeira para uma conversa que pode durar anos. O governo brasileiro viu os Estados Unidos de Donald Trump imporem tarifas, uma após a outra, contra produtos exportados daqui para os americanos. Agora Brasília decidiu levar a questão até a Organização Mundial do Comércio. É o primeiro passo de uma batalha diplomática que começa em Genebra, mas pode ter impacto direto em quem produz, exporta e vende aqui no Brasil.
O Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota e afirmou que o Brasil considera que as medidas norte-americanas são injustificadas e incompatíveis com as obrigações dos Estados Unidos no âmbito do Acordo Geral sobre Resolução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio, OMC. Vale lembrar, ela serve para fazer a mediação de conflitos comerciais internacionais, mas está esvaziada justamente porque Donald Trump, ainda no primeiro governo, deixou de indicar representantes.
Essa história começou em abril de 2025. No chamado Dia da Libertação, Donald Trump anunciou uma tarifa extra de 10% sobre os produtos importados de dezenas de países, entre eles o Brasil. Mas o Brasil era um alvo preferencial e recebeu taxação adicional de 40%. No caso do aço e do alumínio, foi ainda pior: 50% de sobretaxa. Foi nesse episódio que Trump incluiu o clã Bolsonaro na conversa. Ele justificou o tarifaço ao Brasil com o que chamou de caça às bruxas da Justiça brasileira contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, resultado da articulação de um dos filhos do ex-presidente, o então deputado federal Eduardo Bolsonaro, que depois viria a ter seu mandato cassado.
Nos últimos meses, temos mantido intenso diálogo com autoridades do governo do presidente Trump, sempre com o objetivo de apresentar com precisão e documentos a realidade que o Brasil vive hoje. A carta do presidente dos Estados Unidos apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade. Meses mais tarde, parte dessas medidas caiu por decisão da Suprema Corte americana. Mas naquela carta, Trump também ordenou uma investigação contra práticas supostamente desleais da economia brasileira.
E o alívio durou pouco. Em julho deste ano, essa investigação, estimulada pelo clã Bolsonaro na Casa Branca, chegou a uma conclusão. Os Estados Unidos decidiram pôr nova tarifa de 25% contra produtos brasileiros. E não acaba aí. Ainda neste mês, o governo Trump aplicou sobretaxa de mais 12,5%. A alegação é que o Brasil, assim como outros países, falha no combate ao trabalho forçado.
Uma dupla taxação com intervalo de poucos dias. Para alguns setores, a tarifa de 25% agora se junta à de 12,5%. Com isso, a taxa fica em 37,5% nas exportações quando o destino forem os Estados Unidos. É o caso de confecções, máquinas e equipamentos e calçados. 20% da exportação calçadista brasileira vão para os Estados Unidos. O setor que já projetava queda com a primeira taxa Hoje refez os cálculos.
O que acontece é, pelo peso dos Estados Unidos, aumentou de 3,6% para mais de 7% a queda na exportação.
Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria mostra que quase 4 mil produtos brasileiros terão tarifa combinada de 37,5%, com impacto total estimado em 12 bilhões e 400 milhões de dólares. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estima que 16,5% das exportações brasileiras para os Estados Unidos vão ter as duas tarifas.
Alguns itens estratégicos para a economia americana continuam isentos. É o caso do café, da carne e do suco de laranja. Segundo este economista da Fundação Getúlio Vargas, o foco dos americanos é afastar competidores.
Setores que podem oferecer concorrência a setores que já existem ou que os Estados Unidos gostam de desenvolver dentro da sua economia. É uma política protecionista com o intuito de reindustrializar a economia norte-americana. O governo brasileiro criticou as medidas da Casa Branca e reagiu. Da porta para dentro, o Palácio do Planalto preparou um pacote de R$18 bilhões para socorrer os setores afetados. O governo federal começou uma série de reuniões com os setores prejudicados pela nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
O governo pretende mapear os efeitos da sobretaxa sobre a produção, o emprego e contratos de exportação, e também identificar quais instrumentos de apoio poderão ser acionados. Um comitê será criado para definir a distribuição dos recursos e as regras para cada setor. O governo estima que entre 1.000 e 1.400 empresas possam participar do programa. Já nas relações exteriores, o governo foi à Organização Mundial do Comércio para pedir que decida se as sobretaxas americanas respeitam as regras de comércio. Mas se trata de um processo que pode levar anos.
A avaliação dos diplomatas é que neste primeiro momento não deve ter nada de prático, mas que o gesto é importante para o governo brasileiro marcar esse posicionamento contrário ao tarifaço.
O jornal britânico Financial Times aponta o Brasil no topo da lista dos países afetados pela política tarifária de Trump. Em termos reais, só ficamos atrás da China, o principal alvo dessa cruzada comercial trumpista. E neste cenário, pensadores do Brasil estudam quais cartas que o país ainda pode ter na manga e que não foram usadas. Cálculo agora tem que ser muito bem feito porque O objetivo final é de fazer com que o outro lado se comporte de uma maneira mais produtiva, mais cooperativa. Esse é o objetivo.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boiadjian é: Todas as armas do Brasil na guerra comercial de Trump.
Neste episódio, eu converso com Mônica De Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics. Quarta-feira, 29 de julho. Mônica, o Brasil já acionou a Organização Mundial do Comércio, afirma que vai continuar negociando com os Estados Unidos. Na prática, dentro dessas regras do comércio internacional, regras formais, o que que o Brasil pode esperar? Quais os limites dessa atuação no âmbito da OMC?
Bom, primeiro, é muito bom que o Brasil tenha recorrido à OMC. Esse é o canal, essencialmente é o canal que nós temos para arbitragem de disputas comerciais. O problema é que a OMC já tá, isso não é de agora, isso já vem de alguns anos, a OMC tá bastante limitada hoje naquilo que, naquilo que é capaz de fazer. No primeiro governo Trump, durante o primeiro governo Trump, então lá atrás em 2017, 2017, 2018, os Estados Unidos, que sempre têm a indicação, né, de vários dos juízes que formam o Tribunal de Arbitragem da OMC, precisamente para lidar com disputas de natureza semelhante a essa do Brasil e a isso tudo que tá acontecendo agora, os Estados Unidos obstruíram essas indicações lá atrás.
E desde então, o Tribunal de Arbitragem da OMC tá meio paralisado, ou tá de fato paralisado. Então, ainda que seja importante o registro do Brasil e a reclamação do Brasil, porque ela fica lá e cria, portanto, um precedente nesse aspecto, não há muito o que esperar da OMC propriamente dita por conta dessa obstrução que tá aí já conosco há vários anos.
Bom, e diante desse cenário que você descreveu, você tá entre um grupo de economistas que entende que o Brasil já deveria dar uma resposta, né? Mas não simplesmente dar o troco. Eu queria entender um pouco o seu pensamento, pensamento dessa linha que você representa?
Olha, o mais fundamental é que, claro, se nós tivéssemos operando sob condições normais de temperatura e pressão, o recomendável nesse momento seria que o Brasil conseguisse algum tipo de negociação com os Estados Unidos. Então, aquilo que sempre aconteceu no passado, e quando eu falo do passado eu tô falando no mundo pré-Trump, a gente tinha mecanismos de negociação que funcionavam razoavelmente bem. Infelizmente, Infelizmente, nós não estamos mais nesse mundo.
O que a gente tem visto desde o primeiro mandato do Trump é um desmantelamento, uma desconstrução institucional, inclusive do sistema global. E aí a gente está falando de sistema do comércio internacional, sistema financeiro internacional, a gente está falando de organizações também como a própria Organização Mundial da Saúde, enfim. Todas as instituições e pactos e acordos que nós fizemos para ter uma garantia de institucionalidade nas nossas relações internacionais, tudo isso tem sido desmontado sistematicamente pelo governo Trump.
Então, diante dessas novas condições, né, e bem mais precárias condições também, o problema que o Brasil enfrenta hoje, não só o Brasil, mas todos os países que estão no momento tendo que de alguma forma achar um caminho com os Estados Unidos, é que aquela lógica da reciprocidade reciprocidade, aquela lógica da equivalência e tal, ela não tá valendo mais na área comercial. O que a gente tá vendo é um governo americano que não, não age de forma recíproca.
Age de forma recíproca na retórica, eles adoram usar a palavra reciprocidade, mas o que eles de fato estão fazendo é coerção. É coerção o tempo inteiro, em todas essas ações direcionadas a todos os países que foram atingidos, enfim, por essas ações até aqui. Não só quais que vimos para o Brasil nos últimos 10 dias, mas outras que as antecederam e outras que ainda estão por vir. Então, diante desse contexto, hoje saiu um artigo muito interessante da Chrystia Freeland.
A Chrystia Freeland, ela liderou toda a parte de negociações comerciais do Canadá. Nesse artigo hoje do New York Times, ela disse com muita clareza: olha, negociar com os Estados Unidos é algo quase que inviável hoje. Os Estados Unidos não estão dispostos a negociar, e portanto o único jeito de tratar com o governo Trump é enfrentá-los, ou enfrentá-los mesmo, provocar algum tipo de distúrbio que os traga para mesa de negociação.
O Canadá tem tido precisamente essa atitude com os Estados Unidos. Essa é a atitude que ela defende nesse artigo do New York Times. E é nessa linha, eu acho, que muitos de nós que achamos que deve haver uma ação um pouco mais enérgica do Brasil Para além dessa reclamação da OMC, que de novo eu acho absolutamente correta, mas ela dificilmente vai nos levar a algo concreto.
O Ministério das Relações Exteriores está contestando a imposição de duas tarifas pelo governo dos Estados Unidos, que fez isso com base na chamada Seção 301 da Lei do Comércio Americano. Vamos lembrar que a primeira tarifa foi de 25%, com a justificativa de que o Brasil adota práticas desleais na economia contra empresários americanos. E a segunda tarifa, de 12,5%, foi aplicada sancionado 60 países, inclusive o Brasil, por supostas falhas na fiscalização da importação de mercadorias produzidas onde há trabalho forçado.
A gente precisa de alguma forma mexer na situação para provocar um comportamento um pouco diferente dos Estados Unidos, se é que isso vai ser possível. Mas ficar sem fazer nada é algo que pode ser muito prejudicial para nós, porque o que tem sido observado, sobretudo a partir aqui de Washington, aonde eu moro, e aonde eu trabalho, é que todas as vezes em que países decidiram nada fazer em relação às investidas do governo Trump, isso acabou não sendo bom para esses países.
E aqueles que tiveram alguma atitude um pouco mais altiva, a gente não tá falando de enfrentamento, a gente tá falando de altivez. Então, para aqueles países que se colocaram perante os Estados Unidos de forma mais altiva, houve ao menos alguma coisa.
Então, na prática, pelo que você aponta no seu artigo escrito junto com o Felipe Yang, é usar aquela lista de produtos que hoje estão isentos dessa carga tarifária imposta pelo governo Trump como um instrumento de reação do governo brasileiro. Ou seja, laranja, café, que hoje não tem tarifas, o governo brasileiro dificultaria a chegada desses produtos aos Estados Unidos como uma forma de pressionar por uma negociação. É por aí? Tem mais coisa? Explica um pouquinho a tua ideia.
Tem mais coisa. Porque na verdade o que que aconteceu? O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, nessas duas ações da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos Estados Unidos, eles publicaram duas listas de exceção que envolvem diretamente o Brasil. A primeira lista de exceções cobriu precisamente as exportações brasileiras que ficariam fora das tarifas aplicáveis agora, aquela primeira ação dos 25% de tarifas.
E depois, na semana passada, quando vieram com a ação sobre trabalho forçado, essa que abrangia aí 60 países, inclusive o Brasil. O argumento dos Estados Unidos é que 59 países e a União Europeia não fazem o suficiente para combater o trabalho forçado.
A nova medida do governo americano estabelece um imposto adicional de 10% para países aqui da União Europeia. O bloco, que mantém o maior comércio bilateral com os Estados Unidos, na casa de 1 trilhão e 700 milhões de euros por ano, pediu explicações à Casa Branca. Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia, disse que basta compararmos as leis trabalhistas da Europa com as dos Estados Unidos. Nós temos férias remuneradas, temos ótimas condições de trabalho.
O Brasil não foi contemplado com uma lista de exceções própria, mas muitos dos produtos que nós vendemos para os Estados Unidos constam da lista universal de exceções. Então houve uma lista universal elencando vários produtos e que vale para os 60 países contemplados nessa ação, e muitos produtos brasileiros estão nessa, nessa lista também. O que essas listas são, essas listas de exceção? Elas são um mapa das vulnerabilidades e das dependências dos Estados Unidos, porque uma coisa que a gente deve sempre manter em mente É, sim, os Estados Unidos são um país bastante poderoso, é a maior economia ainda, embora esteja perdendo terreno para China.
Porém, os Estados Unidos têm uma dependência enorme do resto do mundo. Não é que os Estados Unidos possam simplesmente cortar os laços que têm com o restante do mundo e não pagar o preço por isso. Então, nessa toada isolacionista do atual governo norte-americano, Evidentemente, essas dependências estão à mostra e elas estão muito claramente à mostra nessas listas de exceção. Ficam isentas matérias-primas estratégicas e produtos que não são produzidos pelos Estados Unidos em quantidade suficiente para atender a demanda, incluindo carne, café, algumas frutas, aviões e peças aeronáuticas.
Aço e alumínio também estão fora porque já estão sujeitos a outras tarifas. Então a ideia é: vamos olhar com cuidado essas listas de exceções, porque se elas contêm as vulnerabilidades que os Estados Unidos declaradamente dizem que tem, inclusive porque a lógica de deixar esses produtos fora do âmbito da tarifa é exatamente para não machucar o consumidor americano e as empresas americanas que dependem desses produtos, então essa daí é um mapa, digamos assim, daquilo que outros países podem vir a fazer para ao menos tentar trazer os Estados Unidos à mesa de negociação de uma forma um pouco mais dura.
E aí a ideia de uma tarifa de exportação não dependeria do acesso à lei de reciprocidade, é algo, um mecanismo automático que o governo poderia usar por decreto, por exemplo.
É um imposto de exportação. Eu não falo tarifa porque senão a gente acaba se confundindo com tarifa de importação, que é outro instrumento. Mas seria um imposto de exportação que nós no Brasil temos, tá autorizado na nossa Constituição, no artigo 153 da Constituição. Nós temos esse Decreto-Lei de número 1578 de 1977, que inclusive desenha o imposto de exportação. Tem lá as alíquotas, até onde você pode escalonar alíquotas desse tributo e tal.
A ideia seria usar algo desse tipo, que é de uso imediato. A a gente poderia, enfim, usar esse instrumento automaticamente sem passar por nenhum outro procedimento ou rito legislativo ou de Congresso ou qualquer coisa dessa natureza. A ideia não é de maneira alguma usar isso de uma forma impulsiva ou usar esse instrumento como uma espécie de vingança contra os Estados Unidos. Não se trata disso. Se trata de tentar pragmaticamente, dado que o mundo não é mais aquele mundo em que os países sentavam e negociavam tudo em boa-fé.
Já que não operamos mais nesse sistema, como é que podemos fazer para coagir os Estados Unidos? Essa que é a ideia, para se sentarem à mesa e negociarem conosco. Então seria usar a lista de exceções de forma estratégica, com o instrumento, o imposto de exportação, também utilizado de forma estratégica por tempo limitado, porque não dá para ter imposto de exportação por muito tempo, isso geraria muitos problemas para economia brasileira.
Então é um instrumento para ser usado assim por pouquíssimos meses, apenas para ver se surte esse efeito de destravar as negociações entre Brasil e Estados Unidos, e com regras muito claras sobre a adoção desse tributo e sobre as receitas desses tributos também. Porque no caso, a ideia seria utilizar a receita de uma tributação desse tipo para não só compensar os setores afetados, mas também os setores que foram atingidos pelas tarifas norte-americanas e desse modo fazer valer um tipo de medida e um tipo de articulação que não necessite desses pacotes de crédito subsidiado e isenções tributárias e tudo mais que o governo brasileiro está fazendo nesse momento para auxiliar esses setores.
O governo federal anunciou uma linha de crédito no valor de R$18,5 bilhões para empresas afetadas pelo tarifaço. Como contrapartida, o governo vai exigir a manutenção de parte dos empregos. Então já foi autorizado R$18,5 bilhões para apoiar os setores afetados, crédito para capital de giro, para bens e capital, para investimento. Mônica, antes da gente colocar também quem pensa diferente, por exemplo, Demetrio Magnoli publicou um artigo que usa o que a China tá fazendo de controle de exportações de terras raras como forma de retaliação da política norte-americana de tarifas.
E aí, usando a possibilidade, por exemplo, da gente controlar exportações de nióbio para os Estados Unidos, ou aviação também, a produção da Embraer para os Estados Unidos. Aí é um controle de exportações mesmo e não apenas um imposto de exportação. Queria te ouvir sobre essa Essa ideia também.
É bom lembrar que retaliação não é um botão liga e desliga, assim, não é uma coisa que você ou aciona ou não aciona. E eu acho que o debate hoje no Brasil, ele tá muito colocado nesses termos. É mais útil pensar em retaliação como um cardápio. Então são opções, a gente tem várias opções. Uma opção é essa que eu citei aqui, é o uso de um imposto de exportação mais ou menos nessas linhas que eu comentava. Tem uma série de outras medidas nesse cardápio também, todas inclusive muitas delas incluídas na nossa lei de reciprocidade.
Nada do que eu tô discutindo aqui impediria o uso da lei de reciprocidade, muito pelo contrário, é complementar a lei de reciprocidade.
O governo brasileiro declarou que a taxação não tem base legal, é injusta, e que o país prepara para usar a lei da reciprocidade.
Uma das possibilidades previstas na lei de reciprocidade é o Brasil responder a medidas unilaterais dos Estados Unidos com aumento de encargos sobre produtos e serviços importados de lá. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil estima que 10 bilhões e 700 milhões de dólares das exportações brasileiras vão enfrentar duplicidade de tarifas. E para além do que tá na lei de reciprocidade, nós teríamos também instrumentos quantitativos, assim, um imposto de exportação é um instrumento de preço.
Instrumentos de preço tendem a ser um tanto mais elegantes do que os instrumentos quantitativos. Os instrumentos quantitativos são mais marretadas assim, eles funcionam na base da paulada, porém eles tendem a ser extremamente eficazes. Quando a China suspendeu as suas exportações de terras raras para o Japão lá em 2010, e mais recentemente quando fizeram o mesmo com os Estados Unidos no que diz respeito a elementos como gálio, germânio e tal, eles conseguiram uma resposta imediata dos Estados Unidos, porque isso é algo que você— são pontos de estrangulamento.
Você, com restrições quantitativas, você estrangula o mercado. O Brasil tem capacidade de fazer isso? Em muito menor grau do que os chineses, mas muito menor grau, a resposta é sim. Nós teríamos como fazer isso, por exemplo, com nióbio, que é um produto que o Brasil domina globalmente, Hoje o Brasil é formador de preço em nióbio, a demanda pelo nióbio é relativamente inelástica, significa que aqueles países que compram nióbio do Brasil hoje, por exemplo, os Estados Unidos, não têm substitutos fáceis para o nióbio brasileiro, têm ao longo do tempo, mas não de imediato.
Então assim, o Brasil poderia, se quisesse, adotar essas opções um pouco mais drásticas de medidas assim de restrições quantitativas na venda de certos produtos. Citei o nióbio aqui, mas vale também para aviões. E nesse caso, o Brasil tá lado a lado com o Canadá, porque os dois principais supridores de aeronaves, partes, componentes e manutenção para o mercado norte-americano são a Embraer e a Bombardier. Então, se o Brasil tivesse uma ação conjunta com o Canadá, por exemplo, no que diz respeito ao mercado de aviação, poderia sim, o Brasil e o Canadá juntos poderiam estrangular consideravelmente o mercado norte-americano.
O leque de opções está aberto. O que a gente precisa fazer é discutir essas opções.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Mônica de Bolle. Bom, agora há um pensamento talvez dominante, porque é o que tem conduzido o governo até aqui, que se preocupa com uma retaliação da retaliação. Ou seja, se o Brasil age de maneira altiva, como vocês estão propondo, a reação poderia ser até nos machucar ainda mais. Por exemplo, os Estados Unidos poderiam restringir o acesso do Brasil a serviços como, por exemplo, GPS, remédios, medicamentos, insumos importantes para o nosso mercado.
E aí o sofrimento da nossa economia seria muito maior, talvez capaz até de nos impossibilitar de de continuar com um projeto de resposta aos Estados Unidos no sentido de trazê-los à negociação novamente. Como é que você vê esse pensamento?
É uma guerra comercial, né, Vitor? Assim, quando a gente tá numa guerra comercial, nós não escolhemos estar numa guerra comercial, né? A guerra comercial nos foi imposta pelos Estados Unidos. E quando você é colocado numa guerra na qual você não quer estar, É a tal história, você foi posto nessa guerra. Então, para sair dessa guerra, não há muito, muitas vias abertas para você, né? Não há muitas vias abertas para o país. É claro que se o Brasil toma uma ação qualquer nesse cardápio de opções, de opções que existem, há sempre o risco dos Estados Unidos escalarem. É óbvio.
O governo brasileiro disse que deve acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, Mas o presidente da ANCHAM, Câmara Americana de Comércio, afirma que os empresários preferem a manutenção do diálogo.
A reciprocidade é baseada na lei econômica, é uma ação legítima, mas ela na prática não vai resolver a situação. Ao contrário, existe um risco muito considerável de que, ao se percorrer esse caminho, se tenha na verdade uma escalada tanto política como comercial na relação bilateral. Setor empresarial tem sido de maneira quase consensual muito vocal em reforçar o interesse de que essa questão seja enfrentada por meio de diálogo, da diplomacia e das negociações.
Na verdade, o que a gente tem visto, tudo que tem se passado, sugere que até aqui, tá, sugere que quando os Estados Unidos são confrontados na guerra comercial que eles criaram por uma resposta como o Canadá deu, eles tendem a recuar. É verdade que eles recuam sempre?
Não.
Então sim, poderia acontecer de o Brasil sacar uma determinada opção do seu cardápio, tomar, usar aquela opção em resposta aos Estados Unidos, aquilo não ter o efeito de trazer os Estados Unidos à mesa, e ao contrário os Estados Unidos escalarem a guerra comercial em decorrência disso. Isso é um risco real. Agora, não é, eu acho, razoável a gente imaginar que o Brasil é um país tão pequenininho e tão fraquinho que não consiga ter outras armas de resposta.
Nós temos. Da mesma forma que os Estados Unidos têm a capacidade de nos atingir, seja por que via for, nós também temos de atingi-los de volta. Temos, por exemplo, na nossa lei de reciprocidade, a suspensão, a possibilidade de suspender obrigações nossas com respeito à propriedade intelectual. Se usarmos essa arma, por exemplo, num eventual escalonamento da guerra comercial, isso atinge, dói nos Estados Unidos, e dói em setores estratégicos, dói na indústria farmacêutica, dói na indústria tech e dói numa parte relevante da indústria agrícola, sobretudo aquela parte toda responsável por desenvolvimento de sementes, que é onde a propriedade intelectual pega.
O alvo é o agro, que é o forte. Se você olhar o que aconteceu no primeiro semestre desse ano, o agro brasileiro no primeiro semestre desse ano cresceu 6%, as exportações. O agro americano Caiu 4%, várias razões, clima, uma série de situações e maior eficiência do Brasil. Quando você olha para essa concorrência, claro que tem ideologia, ele não gosta do governo Lula, tudo isso é verdade, tem grana nessa história. E o alvo de taxar o Brasil é essencialmente segurar a força do nosso agro.
Então é dizer assim, Sim, há risco de escalonamento com resposta brasileira, mas também há risco de escalonamento sem resposta brasileira.
Mônica, é trazendo desde o primeiro governo Trump, em que os Estados Unidos deixou de indicar os juízes, né, dos órgãos lá da Organização Mundial do Comércio. Isso se repetiu ainda no governo Biden, ou seja, não parece que é necessariamente uma política de um governo específico, mas talvez uma visão de como os Estados Unidos vão se portar com o comércio internacional daqui para frente. O quanto que essa tônica da guerra comercial vai ser o novo normal, na tua opinião, daqui para frente?
E como que o Brasil tem que começar a construir uma economia que seja resiliente a uma agressividade maior nas transações comerciais no mundo?
Essa é uma excelente pergunta, Vitor, porque na realidade o que tem acontecido aqui nos Estados Unidos é de fato uma mudança completa de rumo. As discussões de fato tomaram outro rumo, e elas tomaram outro rumo dentro do Partido Republicano e dentro do Partido Democrata. O protecionismo norte-americano veio para ficar. Então assim, quando a gente observa os últimos governos, a gente pode até voltar o governo Obama se quiser, mas vamos, vamos voltar ao primeiro mandato do Primeiro mandato Trump, Biden, segundo mandato Trump.
Nenhuma das medidas protecionistas mais duras que foram impostas pelos Estados Unidos durante o primeiro governo Trump, nenhuma delas foi revertida pelo governo Biden. E na verdade, o que, o que tem se observado aqui e o que eu observo diretamente, que eu tenho algum contato com o Congresso americano, é que a própria visão do Partido Democrata. Claro, tem divergências, tem pessoas que têm visões distintas e tal, mas de um modo geral, o Partido Democrata tomou para si a linha protecionista também.
E para somar ofensa à injúria nessa situação, os Estados Unidos hoje já conseguem ver, sobretudo depois das tarifas do ano passado que foram derrubadas agora há pouco pela Suprema Corte, estão sendo reerguidas, os Estados Unidos viram um crescimento expressivo de receitas e de arrecadação por conta das tarifas, o que é sempre algo muito problemático, porque é verdade que esses impostos diversos, sejam eles tarifas de importação ou impostos de exportação, eles arrecadam.
Então, uma vez que eles tenham sido instituídos, o conjunto das contas públicas e o resultado fiscal passa a depender dessas receitas. E hoje o que acontece aqui nos Estados Unidos é que, com todos os problemas que nós temos visto, medidas que o Trump tomou, cortes de impostos que fez, a guerra com o Irã e mais uma porção de outras coisas, o déficit norte-americano, déficit fiscal, aumentou muito. A dívida é crescente e hoje tem uma fonte de financiamento que não dura muito, mas ela tá aí, que é a fonte de financiamento via imposição de tarifas.
Então é muito, mas muito difícil que esse quadro protecionista, sobretudo com agora alguma dependência, ainda que pequena por hora, mas que vai crescer ao longo do tempo, das receitas públicas nas tarifas e nesses, nesses tributos que o Trump anda utilizando, isso não vai ser revertido por ninguém. Então o Brasil precisa se reposicionar nesse aspecto e de certa maneira usar o que tá acontecendo, essa guerra comercial, os ataques dos Estados Unidos e tudo.
O Brasil deveria usar isso como uma oportunidade para modernizar as suas práticas comerciais, para sim criar condições para novos acordos com outras regiões. E o governo brasileiro vem fazendo isso, mas é preciso que a gente realmente embarque nessa direção.
Se você olha O que aconteceu depois da tarifa? Para os Estados Unidos, comparando, né, 25 e 26, para os Estados Unidos, no primeiro semestre de 25, nós vendíamos 13,4% das exportações. Vendemos agora 9,4%. De 13 para 4 despencou. Você fala, põe a mão na cabeça, o mundo acabou. Acabou não. Para a China, que é o ponto central da por causa do problema, nós vendemos 21,9% a mais. Para a União Europeia, com tudo que nós temos de problema com a União Europeia, de cota, nós vendemos 11,9% a mais.
No grosso, as exportações brasileiras cresceram primeiro semestre de 26 contra primeiro semestre de 25, 11,6%.
E somando a isso, também uma diversificação considerável, sobretudo a nossa pauta importadora. Então, se a gente conseguir ao longo do tempo passar a comprar menos máquinas, equipamentos e outras coisas que a gente compra dos Estados Unidos e comprar mais de outros países, então, no movimento que seria assim, vamos reduzir tarifas de importação para países outros com os quais nós temos relações comerciais que não sejam os Estados Unidos, e para quem nós que possam eventualmente virar nossos fornecedores principais.
O Brasil tem que fazer essa virada, o Brasil tem que começar a estudar como vai fazer essa virada, e nesse contexto todo modernizar os seus próprios instrumentos comerciais. A gente tem um protecionismo histórico que não nos serviu em nada. Os setores que estão agora sendo mais atingidos pelas tarifas do Trump, em grande medida são setores que foram historicamente protegidos e que não são, salvo uma empresa ou outra, não são setores espetacularmente eficientes.
Então tá na hora da gente remodelar também os nossos instrumentos comerciais e repensar precisamente como que a gente vai reordenar as nossas práticas comerciais de modo a que a gente se insira nesse mundo onde os Estados Unidos estão crescentemente se isolando do comércio internacional, mas outros países não estão seguindo essa linha, para que o Brasil possa manter essas relações e inclusive enaltecer essas relações e deixar de lado aquilo que não nos serve mais.
Mônica De Bolle, muito bom tê-la aqui no assunto. Muito obrigado pela sua participação mais uma vez.
Eu que agradeço, Vitor. Muito obrigada.
Este foi o Assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo assunto.