A revolução das máquinas já começou?
- IA e Segurança CibernéticaOpenAI · ChatGPT · Hugging Face · ataque cibernético · vulnerabilidades de segurança
- Sistemas Autônomos e o Futuro da Guerraarmas autônomas · cadeia de comando · Anthropic · Secretaria de Defesa dos EUA
- Legislação e mecanismos de controle de conteúdoUnião Europeia · Estados Unidos · China · botão do pânico · transparência
- O futuro da IA e a consciência das máquinasIsaac Asimov · consciência artificial · linguagem própria da IA · opacidade dos modelos
Um mundo sem guerras e sem fome. Um mundo em que tudo funciona perfeitamente. No controle disso tudo estão as máquinas. Supercomputadores com responsabilidade de administrar toda a economia global. Alimentados com instruções humanas, os robôs calculam a produção, distribuem os recursos, garantem a prosperidade na Terra. Até que pequenas falhas começam a aparecer. Obras atrasam, a produção cai e pessoas perdem seus empregos. Esse é o cenário distópico criado por um dos grandes mestres da ficção científica, Isaac Asimov.
É o último conto do livro dele, Eu, Robô, publicado em 1950. E aí vem o spoiler do que acontece depois. Mesmo com a ordem de proteger os humanos, a máquina provocou falhas intencionais. E ela fez isso para reorganizar o sistema. E reduzir a influência de pessoas que poderiam sabotar a estabilidade mundial.
Na história da discussão sobre autonomia, robôs, você tem as 3 leis do Isaac Asimov, né, que era um escritor de ficção científica. Ele falava o seguinte: um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal. Robôs devem obedecer às ordens de humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei. E depois, um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
Como eu disse lá em cima, na ficção, esses supercomputadores não receberam a instrução para causar erros intencionais, muito pelo contrário. A orientação era pelo bem mundial. Só que para isso, eles encontraram um caminho criativo e agiram de maneira silenciosa para preservar o plano. Agora corta para a vida real, em 2026. Foi mais ou menos isso o que aconteceu na semana passada.
De volta aos Estados Unidos para falar do ataque hacker contra o sistema de uma startup, ataque feito de maneira autônoma pelo modelo mais avançado de inteligência artificial da OpenAI, a empresa que é dona do ChatGPT.
No comunicado, a empresa OpenAI disse que estava realizando um teste de segurança com dois modelos novos de inteligência artificial, um deles a nova versão do ChatGPT. O outro, um modelo ainda não lançado. Para passar no teste dentro de um ambiente controlado, os dois modelos tinham que usar certas ferramentas de segurança cibernética sem ter acesso à internet. Mas segundo a empresa, os dois se aliaram, conseguiram quebrar os parâmetros do teste e acessar o Wi-Fi.
Depois hackearam a empresa americana Hugging Face, uma espécie de biblioteca com milhões de modelos de IA. Onde roubaram informações para passar no teste.
No teste de segurança, os modelos identificaram e exploraram vulnerabilidades até então desconhecidas para escapar do isolamento. O ataque sem precedentes escancarou uma coisa para o mundo: os algoritmos podem estar avançando mais rápido do que os sistemas de segurança digital, e até mais rápido ainda do que as previsões de quem desenha essa tecnologia.
Naquela época que o Asimov pensou essas leis, parecia suficiente ali. Pô, bacana, isso aí deve funcionar para todos os casos. Só que quando a inteligência artificial chega, como é agora, a gente vê que as situações são muito mais complexas.
O episódio confirma um temor antigo e generalizado de que a inteligência artificial pode escapar ao controle humano e seguir seus próprios interesses. Os modelos mais novos em operação atualmente tem a capacidade de encontrar falhas de segurança em qualquer sistema, que eventualmente pode ser invadido. As consequências são imprevisíveis.
Seria um exagero dizer que essas inteligências artificiais se rebelaram, mas dá pra dizer que o computador se mostrou inteligente o suficiente pra não ser subestimado e deu uma pista de até onde pode ir com as ordens erradas ou imprecisas. Da redação do G1, eu sou Nátuzaneri e o assunto hoje é: a revolução das máquinas, quem está no controle? Neste episódio eu converso com Bruno Natal, jornalista, documentarista e apresentador do podcast Resumido.
Segunda-feira, 27 de julho. Bruno, na semana passada a empresa OpenAI descobriu que um dos seus modelos de inteligência artificial promoveu uma violação cibernética, invadiu um sistema de uma startup. E aí um mundo de dúvidas se abriu. Foi um ataque sem precedente e eu quero pedir para que você nos explique o que aconteceu nesse episódio e também se dá para dizer que a IA agiu por conta própria.
Não dá para dizer que a IA agiu por conta própria. Pela própria forma como esse ataque se deu, né? A OpenAI tava avaliando um modelo novo, GPT-5.6, junto com outro modelo que é ainda mais avançado, que ainda não foi lançado. E a tarefa que esses modelos estavam executando era exatamente para invadir um sistema seguindo um benchmark de segurança que é chamado Exploit Gym. E é feito para testar a potência, a capacidade de ataque desses modelos, justamente para poder calibrar depois, né?
Ao entender o tamanho do estrago que esse modelo possa fazer, você entende que tipo de salvaguarda você tem que prever para aquele modelo não executar esse tipo de ataque. O que acontece é que isso foi feito num ambiente que deveria estar isolado da internet, mas não tava. Então, e esses modelos descobriram uma forma nesse ambiente, uma forma de escapar desse ambiente da OpenAI, encontraram a conexão com a internet, e aí eles se conectaram à rede E uma vez lá, eles buscaram uma forma mais rápida de encontrar a solução para o desafio que tinha sido dado.
E eles foram até o Hugging Face, que é um repositório de códigos de IA, de modelos de IA de código livre, para ir lá tentar encontrar essa resposta. E para tentar achar essa resposta lá dentro, eles começaram a tomar uma série de atitudes, como criar credencial falsa, tentando atacar o sistema para poder conseguir essa informação. Então não é que o sistema do OpenAI teve uma ideia, assumiu uma consciência e resolveu tentar escapar OpenAI para atacar um sistema.
Não, é um sistema automatizado em busca da melhor resposta, em busca da melhor solução, e encontrou essa falha de segurança, que era uma falha de segurança chamada zero-day, que é uma falha que ainda não foi identificada, né, o primeiro momento daquela falha. E assim conseguiu escapar para internet e realizar essas tarefas todas.
É a primeira vez que a inteligência artificial se rebela contra os humanos que deveriam controlá-la.
O que faltou foram parâmetros na missão que impedisse esse tipo de comportamento e isolar esse sistema da internet. Então, normalmente, esses testes de ataque hacker você faz num sistema completamente isolado. Imagina que um professor tá ensinando pra alunos como arrombar um cofre, um cofre cenográfico, e de repente um desses alunos descobre que a porta tá aberta e ele consegue sair da sala e roubar o gabarito lá fora em vez de fato tentar recuperar, tentar quebrar aquele cofre trabalhando.
Foi mais ou menos isso que esses agentes fizeram. Eles encontraram uma forma mais fácil de chegar àquela solução e foram atrás dela.
E por que que o mundo reagiu com tanta apreensão?
Tem algumas questões que se misturam aqui, né? Tem um pouco dessa narrativa da consciência, que é uma coisa que esses sistemas não têm, não têm ainda e possivelmente não terão, né? Que é a capacidade de sentir, que tá tão ligada à consciência também. Tem mais a ver com o poder desses sistemas. A gente tá vivendo uma grande revolução com esses sistemas evoluindo aí em tempo real e sem muito entendimento de como conter. É como se a gente tivesse andando mais rápido, né, botando na rua as coisas mais rápido do que a gente estaria preparado para se proteger caso algo dê errado.
E aí isso exemplifica o que acontece quando um conjunto de falhas acontece ao mesmo tempo, mais ou menos como num acidente de avião, né, que normalmente é um conjunto de falhas, não é uma falha só, que acabou desaguando nessa O fato de que fugiu de controle e acabou executando tarefas que não estavam solicitadas de uma forma que não tinha sido pedida também é grave. Então dá pra argumentar que com as travas ligadas talvez nada disso tivesse acontecido.
O problema é que essas travas foram. Todas as que essas empresas construíram até hoje furaram. Não tem então nenhuma garantia que os próximos modelos não vão repetir isso sozinho. E a tendência é a gente ter cada vez mais casos assim, não menos. E talvez com repercussões piores em contextos reais. E o que isso mostra também é que é um certo padrão que os problemas de IA vêm sendo consertados depois do estrago, nunca antes. Então, eu acho que tem uma questão que é mais importante do que você pensar se tá consciente, se isso tá tomando essas atitudes por conta própria, e sim pensar em como a gente tá construindo sistemas, salvaguardas e proteções pra evitar que esse tipo de coisa aconteça.
Pois é, acho que essa discussão é uma discussão que trata basicamente de limites do que uma inteligência artificial é capaz de fazer, né? Você concorda comigo que a premissa pode ser essa?
Sim, eu concordo. Tem um aspecto de marketing nisso tudo que sempre acaba aparecendo, né? Por um lado, a OpenAI mostra: olha como a nossa ferramenta é tão poderosa que foge até do nosso controle. Isso pode virar uma peça de venda mais à frente com uma comprovação do poder desses sistemas, uma vez que ele esteja já lá controlado, regulado, e então ele vai estar seguro. Mas olha como ele é poderoso. E também a Hugging Face mostrando que com o próprio sistema deles já conseguiram identificar um ataque desse. Então ficam duas partes também, de certa forma, mostrando o seu próprio poder.
Entendi. A divulgação dessa falha, entre aspas, pode beneficiar a empresa lá na frente quando for vender o seu produto. Isso ficou bastante claro. Por outro lado, tem algo que me aterroriza sobre a bandeira, que é a IA na guerra, né? O governo Trump, por exemplo, já fechou acordos com Big Techs para usar inteligência artificial em ações militares. Você deixou bem claro que o caso mais recente, problema também entre aspas, né, veio por falta de clareza, digamos assim, no comando da tarefa, né?
Olha, você pode arrombar aquele cofre, mas você não pode sair da sala e pegar o código para abrir o cofre. Você tem que fazer isso dentro de tais parâmetros. Agora, numa guerra, um erro ou uma incompletude de comando de tarefa não pode acontecer, porque se acontecer, você pode dizimar uma comunidade inteira, para dizer o mínimo, né?
Com certeza. É nessa analogia do banco, da porta aberta, o grande problema problema não foi nem o comando, foi ter deixado a porta aberta, né, não ter tido cuidado de fechar a porta. No caso, ter deixado esse sistema rodando em um ambiente que teria conexão com a internet. No caso de ferramentas militares, né, de armas militares, armas autônomas, é uma grande discussão também pela questão da cadeia de comando. Porque quando você transfere ou tenta transferir o processo de decisão para um sistema autônomo, para um sistema de inteligência artificial que possa tomar as suas próprias decisões, você de certa forma também some com a responsabilidade, né?
Quem é o responsável por um ataque que foi causado por um sistema de inteligência artificial? Foi a plataforma que desenvolveu a inteligência artificial? Foi os militares que deram a instrução? Foi o equipamento que se rebelou, entre aspas?
O conflito no Oriente Médio marca um novo estágio no desenvolvimento de armas de guerra. Agora elas usam cada vez mais sistemas de inteligência artificial.
O que os Estados Unidos estrearam em larga escala foi seu mais avançado modelo de guerra comandado por inteligência artificial, a Força-Tarefa Scorpion Strike, que enviou um enxame de centenas de novos drones produzidos pelos americanos. Os drones Lucas invadiram o céu do Irã como iscas para que os radares antimísseis iranianos revelassem suas posições. E pudessem ser atacados tanto pelos próprios drones, que carregam 18 kg de explosivos cada, quanto por Tomahawks e caças de última geração.
A ideia não é americana, é chinesa. Vem sendo desenvolvida há pelo menos uma década. Num ataque tão massivo, é praticamente impossível de serem controlados e orquestrados sem o uso da inteligência artificial.
É muito mais perigoso hoje em dia tentar entender a quem esses sistemas estão obedecendo, quem que tá mandando esses sistemas, quem tá dando as ordens, porque isso conta muito mais do que a capacidade ainda, até certo ponto ainda imaginada, desses sistemas conseguirem tomar atitude por conta própria. Então é uma escolha o nível de autonomia que você vai dar para um sistema desse, e é muito claro que alguém precisa dessas ordens ainda nesse momento.
E você manter um humano nesse processo é muito importante, talvez talvez seja a coisa mais fundamental hoje em dia quando se fala de sistemas autônomos, é que em última instância tem que ter uma pessoa responsável por aquela decisão, não simplesmente você confiar. Você pode ter um caso, por exemplo, de um sistema identificar uma área densamente populada como um alvo ideal militar e na verdade aquela área é civil, é uma escola, é um hospital, e não ter essa leitura.
Se ninguém se mudou, por exemplo, o mapa, aquilo antes era um prédio, hoje é um hospital. Então as informações têm que estar sendo acompanhadas também. As pessoas têm que saber o que tá sendo feito por esse equipamento, porque senão realmente é um risco muito grande.
Bom, se foi uma jogada de marketing ou não, ou se foi um erro em que a empresa pode transformar em jogada de marketing, o fato é que esse episódio com a OpenAI abriu ou acendeu uma luzinha amarela entre autoridades dos Estados Unidos. Parlamentares, por exemplo, já falaram que querem dar ao Estado, né, ao ao poder central a capacidade de determinar o desligamento de ferramentas de IA que considerem uma ameaça, o que traga qualquer tipo de ameaça.
É como se o governo tivesse um botão de desligar ali de emergência, botão do pânico, né? Ou botão do pânico, melhor ainda. Isso de fato é possível? Como é que pode ser a regulação nesse sentido para limitar o desenvolvimento dessas tecnologias? Porque que você me disse, olha, talvez a gente nunca veja um IA com consciência, mas tem muita gente que vê, né, que vislumbra essa possibilidade. E como é que a gente desliga esse sistema se lá na frente ele se revelar monstruoso?
Você pode separar essa proposta do botão do pânico em 3 níveis, porque interromper uma ação, uma execução, é uma coisa relativamente fácil. Você tirar um serviço do ar Também não é muito difícil pra empresa que seja dona daquele serviço. Agora, você eliminar todas as cópias que existem é praticamente impossível. É como se você quisesse derrubar a internet proibindo o acesso a um site. Não vai adiantar muita coisa. Tem cópias em outros lugares, então você não resolve o problema dessa forma.
Como assim cópias? Traduz isso pra mim que eu acho que eu não entendi.
Você pode ter várias cópias desses modelos de IA rodando em outros computadores, em outros servidores. Então você não necessariamente apertar um botão vermelho, você desliga todas as instâncias daquele modelo. Pode ter sido copiado em outro lugar, ele pode estar rodando em código aberto em outro lugar, ele pode estar em algum servidor desconhecido, né? Acho que é da natureza dos produtos digitais essa replicação infinita. Então acaba que não é tão fácil assim.
E essa é a grande questão da falta de regulação, né? Porque, por exemplo, se existe um medicamento que, ou um lote de um produto, que se revele nocivo para a população, você tem no Brasil a Anvisa que manda recolher.
Uma outra analogia que você pode pensar, por exemplo, é num avião. O avião, ele não é mais seguro porque ele tem uma alavanca de emergência e nem porque tem um paraquedas lá dentro. Um avião é seguro porque ele tem uma cadeia de sistemas que deixam ele seguro, que vão desde a manutenção até auditoria desses sistemas, treinamento do pessoal, um conjunto de fatores que transformam o avião no meio de transporte mais seguro do mundo, mesmo que ele esteja voando a quilômetros de altura.
E, né, você olhando para aquilo, meu Deus, como esse negócio não cai? Como isso pode ser o mais seguro? É por conta de um sistema ter em volta. Então um botão vermelho que aperta não vai substituir você ter uma arquitetura segura, você ter limites de acesso às redes, treinamento desses modelos, transparência sobre esses modelos em que outras pessoas, outros especialistas possam saber como aquilo funciona para poder se proteger.
Então é mais complexo do que você simplesmente apertar um botão. Isso parece, talvez, talvez até esse nome, botão do pânico, seja até bem, bem apropriado, porque ele tem um pouco a ver com pânico, né, com o desejo de você ter um botão mágico que resolve o problema mais complexo que esse, como a gente viu no caso do OpenAI. Tinha uma, foi uma série de coisas que proporcionaram aquilo acontecer da maneira que aconteceu. Não foi um um problema específico, foi uma série de problemas que desaguaram nisso.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Bruno Natal. É como se fosse um vírus, por exemplo, criado em laboratório, que você consegue desenvolver esse vírus para fazer uma pesquisa XYZ. De repente, esse vírus sai do laboratório, ele é inoculado num corpo que vai ser pesquisado, e aí isso se espalha e você não tem mais controle. De novo eu te pergunto: a ausência de um órgão regulador, ou um órgão regulador global, ou órgãos reguladores em cada país, ajudaria a evitar um caos completo?
Por exemplo, caso a inteligência artificial tome consciência, ou caso haja um erro como esse de escala global que pudesse ser desligado de alguma maneira?
Não, a regulação sem dúvida se faz necessária porque é uma ferramenta muito poderosa que vai remodelar a sociedade como um todo, né? Existe aí pensamentos mais catastróficos de que o mundo muda completamente. Eu sou mais da corrente do que se chama uma tecnologia normal. Isso significa a Revolução Industrial ou a internet ou os telefones celulares, que são tecnologias revolucionárias, mas que no fim acabam sendo tecnologias normais no sentido de que elas foram absorvidas e foram encontradas formas da sociedade não se desfez por conta de nenhuma dessas mudanças.
O Parlamento Europeu aprovou uma lei pioneira no mundo para regulamentar a inteligência artificial. As regras dividem as tecnologias pelo risco. Quanto maior o perigo para os seres humanos, maiores as restrições.
A regulação proíbe, por exemplo, tecnologias de reconhecimento facial Mas abre exceção para o uso pela polícia. A legislação prevê multas de até 35 milhões de euros e deve entrar em vigor ao longo dos próximos 2 anos. Então acho que a regulação ajuda muito a botar uma ordem na casa, criar os parâmetros. E muito dessa regulação tem a ver com transparência, com saber o que tá sendo feito, porque a gente tá hoje no momento de corrida em que até foi pedido há uns 2 anos sobre um moratório de 6 meses no desenvolvimento das ferramentas, que tinha que o mundo parar e entender para onde isso tava indo, que obviamente não foi para frente, porque você não tem como parar, você não sabe se o seu concorrente está parando.
E tem uma disputa entre os Estados Unidos e a China onde nenhum dos dois quer perder. Então isso transforma esse ambiente todo numa coisa muito volátil e muito rápida, né? No Vale do Silício, onde essas empresas dos Estados Unidos estão sediadas, existe lá o lema que é o: mova-se rápido e quebre coisas. Importante você fazer, você vai quebrar tudo no meio do caminho, depois conserta, mas tem que chegar na solução. E tá um pouco esse momento inteligência artificial, muito justificada por conta dessa corrida Estados Unidos-China.
Então a gente tem que fazer o que tem que fazer, senão o outro vai chegar antes e vai ser pior para o mundo.
Só que talvez quebre o mundo, né?
É isso, atende os interesses das empresas, não necessariamente atende os interesses da sociedade. E aí a gente entra na segunda camada do discurso, que é essa esse discurso é determinista de que a IA é uma inevitabilidade, isso vai acontecer dessa maneira e não vai acontecer nada que a sociedade não queira. Eu acho que esses laboratórios todos têm muita força, muito dinheiro, existem muitos interesses comerciais e políticos na aceleração desse tipo de revolução digital, especificamente da IA, que fazem, né, essa força se mover e se impor na sociedade, tentar passar por cima dos interesses da sociedade.
Eu acho que nesse ponto a regulação é muito importante porque a gente precisa precisa de limite. A gente pode do limite micro, né, desse teste, era um pequeno teste da OpenAI que desandou e gerou essa notícia toda, e no macro, que é como esses milhões de testes, esses milhões de uso no dia a dia vão afetar a sociedade como um todo. O que que a gente quer que aconteça? O que que a gente acha aceitável? Até onde a gente acha que essas ferramentas podem ser usadas?
Será que o uso militar deveria ser autorizado? Tem como conter esse uso? A gente viu a Anthropic bater de frente com o governo dos Estados Unidos, né, que queria um uso ilimitado das ferramentas, e de bater um pé.
De acordo com uma reportagem do Wall Street Journal, os Estados Unidos usaram no ataque contra o Irã o Claude, a IA desenvolvida pela Anthropic, que é uma das principais rivais da OpenAI. Bem, o ponto central desse embate é que o governo americano e Anthropic discordam de como a IA deve ser utilizada. O governo quer uso irrestrito, inclusive para armas autônomas ou vigilância em massa da população. E a Anthropic não aceita essas condições e alega razões éticas e de segurança.
Em julho de 2025, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos fechou um contrato de até 200 milhões de dólares com a Anthropic para fornecer inteligência artificial avançada para segurança nacional. Em janeiro, o cloud foi usado no ataque à dela, uso que o dono da empresa não tá de acordo. Então, no dia 26 de fevereiro, Trump deu um ultimato à Anthropic para que liberasse o uso sem restrições do Exército, e ela se manteve firme dizendo que não poderia atender a esse pedido. No dia seguinte, Trump baniu o uso da IA por agências federais.
O governo dos Estados Unidos acabou contra-atacando e listou a Anthropic como uma empresa hostil, né, que é uma coisa guardada para adversários, adversários políticos mesmo dos Estados Unidos, outros países. É uma coisa quase bélica.
Agora, Bruno, a gente precisa pensar no pior também, né? A gente só consegue se preparar para o inverno quando a gente imagina que esse inverno pode ser rigoroso, né? Esse tipo de tecnologia pode desobedecer no futuro comandos assim? Ela seria capaz de criar uma linguagem própria, uma linguagem que impeça os seus próprios desenvolvedores de monitorarem esse raciocínio, dá para a gente pensar num momento em que a gente pode perder o controle disso tudo?
Hoje já é suficientemente opaco o que acontece nesses modelos de linguagem. Muitas vezes nem os próprios desenvolvedores sabem o que tá acontecendo lá dentro. Acho que isso é uma resposta, um comentário recorrente, né, dos desenvolvedores dos laboratórios. A gente não sabe como funciona, está tentando entender como chega essas conclusões do sistema. Então isso independe até dessa consciência ou não. O fator chave aqui é transparência, entender o que tá acontecendo ali.
Então a gente já não entende hoje. Existe esse risco, existe esse temor de que em algum momento essas máquinas comecem a se comunicar numa linguagem específica, que seria muito mais eficiente do que tentar falar os idiomas que a gente fala enquanto humanos, de que a gente perderia totalmente o controle de entender o que elas estavam falando ou desenvolvendo, o que que elas estão conversando ou tentando atingir. Eric Schmidt, um dos fundadores do Google, inclusive tem uma fala sobre isso, que ele fala: quando chegar esse momento, é hora de puxar o plug, porque a gente não vai ter mesmo mais como controlar, porque a gente não vai ter como entender o que tá acontecendo ali dentro.
Mas mais do que essas alegorias e essas visões catastróficas, eu acho que isso pode ser resolvido com transparência, com exigência de transparência, com acesso ao sistema, entender como ele funciona. Recentemente O Demis Hassabis, que é o CEO do Google DeepMind, fez uma proposta dessa. Ele falou da criação de uma espécie de uma agência internacional de controle dos modelos mais avançados, que obviamente seria liderada inicialmente pelos Estados Unidos.
E é uma proposta parecida com um órgão que supervisiona o mercado financeiro nos Estados Unidos também, que é financiado pela própria indústria, que é administrado por especialista, que é independente das empresas individualmente, que consegue conseguiria, no caso, receber os modelos antecipadamente, poder submeter a teste de segurança antes de ir para rua. E essa fala foi super elogiada, inclusive por pessoas mais críticas no universo de IA, mas também pelos pares dele, de outros laboratórios, porque isso daria essa transparência que eu tô falando, né?
Então seria importante. Mas tem uma outra leitura crítica disso, que aí volta para o que eu tava falando antes, que é: quem é que vai definir que teste que é suficiente? Quem é que vai escolher os especialistas que estão ali dentro? Até que ponto esse órgão vai poder contrariar quem tá financiando ele. Você pode lembrar da Meta, né, do Facebook, o Oversight Board que eles criaram depois do escândalo da Cambridge Analytica para eles mesmos monitorarem o que tava acontecendo ali dentro com alguns notáveis.
Mas aquilo rapidamente perdeu a relevância porque você é da própria empresa, fica um conflito de interesse na mesa enquanto tá sendo feito isso.
Começou com um questionário online sobre personalidade. Em 2014, mais de 300 mil pessoas baixaram no Facebook o que parecia ser um aplicativo comum para passar o tempo. Mas o Facebook permitiu que o programa recolhesse também, sem avisar, informações sobre os amigos desses usuários. E assim se criou um registro imenso com os perfis de 87 milhões de pessoas. Parte desses dados veio parar nas mãos de uma empresa aqui no Reino Unido, a Cambridge Analytica.
A consultoria usou as informações para influenciar alguns eleitores americanos na campanha presidencial de 2016. Com tantos detalhes, era possível saber a preferência das pessoas e fazer o marketing político de acordo com as ideologias, as crenças de cada uma delas.
Tem muitas questões em volta do que que vai ser esse órgão regulador, né? Quando a gente fala de governos também governos mudam muito, né, de postura, de abordagem. Então acho que tem que encontrar qual é a forma que isso de fato vai funcionar.
Bruno, eu não sei se eu saio correndo agora, se eu deixo para sair correndo quando tiver hora de puxar o botão, mas o fato é que eu não posso sair correndo porque eu tenho muito assunto para apresentar. Dito isso, te agradeço, querido, por todas as explicações. Muito obrigada, bom trabalho para você.
Obrigado você, Natuza, valeu pelo convite. Quando quiser falar mais sobre o impacto da tecnologia, só me chamar que eu venho aqui com prazer.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Colaborou neste episódio Vivian Souza. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.