Flávio, as urnas e a sombra de 2022
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Há poucos dias, por coincidência, há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela, inclusive utilizando uma documentação do próprio serviço de inteligência americano, da CIA, apontando sobre a possibilidade de vulnerabilidade do sistema eletrônico de votação. E uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana—
Esse é o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro em um evento em Brasília com representantes de cerca de 40 países. No encontro, o filho 01 de Jair cita a Venezuela para questionar as urnas brasileiras e pediu atenção internacional para as eleições que estão por vir.
Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma, tem a mesma origem dessa empresa venezuelana. Não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições, como sempre fazem.
A história é familiar, não é? Um roteiro parecido com o que aconteceu em 2022, também há menos de 3 meses das eleições presidenciais daquele ano. As pesquisas ali mostravam o então presidente da República, Jair Bolsonaro, 20 pontos atrás do principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva.
Presidente Bolsonaro vai se reunir com embaixadores de diferentes países para falar sobre as eleições brasileiras.
E o que que as fontes que foram convidadas me revelaram aí? Que apesar de os convidados não terem nenhum detalhe, né, do conteúdo da apresentação que o presidente Bolsonaro pretende fazer, alguns embaixadores acreditam que o presidente vai questionar a segurança das urnas eletrônicas e o processo eleitoral. O presidente da República afirmou aí que convocaria esse encontro com embaixadores para falar como é que é o sistema eleitoral brasileiro, com documentos, segundo ele, sobre as eleições de 2014, 2018.
Disse que seria aí um PowerPoint, segundo o Bolsonaro, mostrando tudo que aconteceu nas eleições passadas.
E foi o que Jair fez no dia 18 de julho daquele ano. Reuniu dezenas de embaixadores no Palácio da Alvorada e repetiu acusações já desmentidas sobre as urnas eletrônicas. Essa apresentação com inúmeras mentiras foi transmitida pela TV estatal e uma ação do PDT levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral. Pouco menos de um ano depois, o veredito: na avaliação do relator, houve tentativa de interferir no resultado das eleições. Agora, 3 anos depois, é o filho ungido pelo pai que enfrenta Lula na disputa pelo Palácio do Planalto.
Primeiro, os números relativos ao primeiro turno. Pesquisa de intenção de voto estimulada para presidente no primeiro turno dá o presidente Lula na campanha à reeleição com 40% das intenções de voto. Pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, tem 28%.
Os bolsonaristas continuam calcificados e dando muito apoio, né, gostando da campanha do Flávio. O que que acontece aqui na direita não bolsonarista? Ele sai em maio de 26, de 74, em junho vai para 59, em julho vai para 54. Ou seja, quem é que tá abandonando o Flávio?
A direita não bolsonarista.
Não bolsonarista.
Às vésperas das convenções, em meio às crises na campanha, Flávio reúne uma plateia internacional e questiona a transparência das eleições brasileiras. Desde 2017, o TSE tem se manifestado para desmentir as afirmações e mais uma vez esclareceu.
Tribunal Superior Eleitoral informou que já havia desmentido em 2022 a utilização de urnas da empresa venezuelana Smartmatic. Na época, o TSE reiterou que a empresa Smartmatic não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras, tão pouco trabalhou na programação desses aparelhos. A empresa atuou apenas no treinamento de profissionais que prestam suporte técnico e operacional para as urnas brasileiras, e que a empresa celebrou contratos com o TSE em outras ocasiões somente para prestação de serviços de conexão de dados e voz, e não para o desenvolvimento ou operação de urna eletrônica.
Mas há um detalhe importante nessa história: a fala de Flávio não surgiu no vazio. O discurso também é familiar a outra acusação da semana passada, feita do outro lado do hemisfério.
A menos de 4 meses das eleições legislativas, eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump voltou a acusar a China de interferência na eleição de 2020, aquela que ele perdeu, e retomou velhas acusações de fraude eleitoral, de novo sem apresentar nenhuma comprovação.
É bom lembrar também que a eleição de 2020 passou por dezenas de auditorias, investigações, contagens de votos, processos judiciais em nível local, estadual, federal. Até o próprio Departamento de Justiça do primeiro governo Trump abriu uma investigação, mas o chefe do departamento, William Barr, que era um dos mais fiéis aliados, integrantes do gabinete de Donald Trump na época, também declarou que não descobriram nenhuma evidência de fraude generalizada que mudaria o resultado da eleição, assim como esses documentos dizem agora.
Para muitos analistas, é uma tentativa do presidente de gerar dúvida sobre a segurança da eleição às vésperas da eleição parlamentar, para criar um ambiente para poder talvez contestar caso perca o controle do Congresso em meio à guerra, inflação, que tem feito a popularidade dele despencar.
O paralelo é inevitável: a Venezuela, as urnas, a suspeita de fraude, elementos que unem Trump, Jair Bolsonaro e agora Flávio. Tudo isso em meio à novela do tarifaço e das expectativas de interferência americana nas eleições brasileiras. Da redação do G1, eu sou Nátaly Zaneri e o assunto hoje é Flávio, as urnas e a sombra de 2022. Neste episódio, eu converso com Waldo Cruz, comentarista de política e economia na GloboNews e colunista no G1, e também com Oscar Vilhena, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas e colunista na Folha de São Paulo.
Quinta-feira, 23 de julho. Meu caro Waldo Cruz, eu tô tentando entender o que motivou essa fala de Flávio Bolsonaro. Ele pisou numa casca de banana que ele próprio jogou? Ou, já vi uma outra hipótese, ele tá querendo emular tanto o pai que resolveu repetir o discurso do pai? O que é uma hipótese esquisita, mas eu queria te ouvir. Ou ele simplesmente tá querendo criar uma desculpa para deixar uma candidatura? Também não me parece ser uma hipótese plausível.
Você vê que eu tô querendo entender por que que ele disse o que ele disse. O que que se apurou? Conta para gente.
Atualiza, você não está sozinha. Eu aqui conversando com aliados de Flávio Bolsonaro ali no comando da campanha dele. Do PL, com aqueles que já foram aliados dele, mas hoje estão meio que fora do barco ali, principalmente no Progressista. Todos também estão se fazendo a pergunta seguinte: por quê? Por que agora? Por que se enveredar num tema que gerou tanto desgaste para o pai, né? Foi até o início de todo o processo ali da ação penal do golpe que levou à condenação de Jair Bolsonaro.
Por que que ele envereda por este ponto? Alguns destes integrantes do PL com quem eu conversei disseram o seguinte: olha, ele não nos avisou que iria tocar nesse tema, ele só falou que ia lá conversar com os embaixadores, foi convidado, não foi ele que convidou os embaixadores. Na época, o ex-presidente Jair Bolsonaro chamou os embaixadores para uma conversa no Palácio do Alvorada. Dessa vez era um evento do qual Flávio Bolsonaro participou em Brasília.
Então tem essa diferença. Avaliação é que a família Bolsonaro como um todo, né, pai e os filhos, quando estão acuados, quando estão enfrentando uma crise, eles geralmente reagem muito mal. E reagem muito mal partindo para teorias conspiratórias para tentar ali justificar o que está acontecendo, tentar desviar o foco. E com que eu conversei, eles acreditam mais nessa hipótese: tá acuado, crise com Michele Bolsonaro, não conseguindo alianças, ficando ali isolado.
Nunca houve uma pergunta para o Flávio Bolsonaro para falar sobre isso. O próprio Flávio Bolsonaro, por livre e espontânea vontade, cruza a rua para pisar num casca de banana e dizer, e lembrar que o pai dele foi punido inicialmente em relação do Supremo Tribunal Federal, justamente numa reunião com embaixadores, por colocar em dúvida as urnas eletrônicas. Depois, quando ele foi chamado para conversar, a repercussão já tá negativa, vai piorar.
Ministro do Supremo reclamando. Eu conversei, por exemplo, com o Ministro Gilmar Mendes e outros ministros do Supremo, classificaram as falas, as declarações de Flávio Bolsonaro de graves e absurdas, uma tentativa de criar um ambiente para questionar o resultado. E ali decidiram fazer uma nota ontem à noite mesmo. Não, vamos fazer uma nota, vamos fazer uma nota dizendo, destacando aquele ponto em que você fala que eu não estou questionando o sistema eleitoral brasileiro.
E de fato ele fala isso, ele fala isso. Mas a nota, Natuza, é interessante. Quem me alertou para isso foi um ministro do Supremo dizendo que na nota ele não recua, ele não corrige a informação sobre a questão das urnas venezuelanas. Você notou isso? Ele não recua nesse ponto. Ele diz, olha, não estou questionando o resultado, mas o ponto mais grave, segundo um ministro supremo, da fala dele para os embaixadores, é quando ele diz, olha, a CIA levantou um relatório apontando que a Smartmatic, empresa venezuelana, produziu urnas que estavam ali sendo usadas para fraudar eleições e que essas urnas são também usadas no Brasil.
Ele não recua desse ponto. E esse ponto é o grave, é o gravíssimo dessa história, porque o TSE já desmentiu essa informação por mais de uma vez, né, Tôsa? Foi usada na época do pai dele, nas redes bolsonaristas, e agora ele volta com o mesmo discurso. Ele solta uma nota para tentar contornar o efeito negativo, mas não corrige a informação mais grave.
Após a repercussão do discurso de Flávio Bolsonaro, a equipe de pré-campanha negou que ele tenha questionado a integridade do sistema de votação no Durante o discurso, disse que ele se limitou a relatar fatos públicos amplamente divulgados e declarou que as missões de observação internacional devem ser estimuladas por contribuírem para o aperfeiçoamento do processo eleitoral, ampliando a transparência.
De todas essas hipóteses que eu te perguntei, é a que faz mais sentido, né? Na hora da aflição, se resgata um discurso para alimentar a ideia de que é o sistema, o establishment que não quer. E ao mesmo tempo, me parece reveladora que é o que tá na cabeça do Flávio, a possibilidade de ser derrotado.
Olha, Natuza, essa sua avaliação é muito importante porque é também uma avaliação de integrantes do PP, né, com quem eu conversei hoje, dizendo: parece mais o discurso de alguém que já está prevendo uma derrota. E tenta encontrar uma justificativa para ela, que foi usado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro também quando perdeu a eleição para o presidente Lula. Então tenta já criar um discurso de antemão. Os assessores próximos de Flávio Bolsonaro garantem que não, garantem que ele está firme, que confia, que ele vai reagir nas pesquisas.
Está passando por um momento de crise, eles reconhecem, mas que ele tem capacidade de reagir e que confiam que ele vai para o segundo turno. Olha, o segundo turno é ele que vai estar junto com Lula no segundo turno, e todas essas legendas que hoje não estão querendo ir com ele no primeiro turno, no segundo vão acabar marchando com ele. É a confiança ali dentro da cúpula do PL.
E eles têm razão de confiar nisso, né, Valdo? Porque as pesquisas mostram isso. O eleitorado bolsonarista é um eleitorado que garante a Flávio um colchão amortecedor de voto. A surpresa dessa eleição será se ele perder esse colchão, mas não há nada que diga que isso vai acontecer. Dark Horse, que foi o momento mais grave para ele, ele caiu pouco.
É verdade, Natuza, ele perde entre os eleitores independentes, né? Perde até ali naquela, não de forma significativa, mas perde na direita não bolsonarista. Mas no bolsonarismo, o apoio dele é cristalizado, é firme, é forte, é consolidado. Então, diante dessa avaliação, eles falam: ele vai estar no segundo turno. Passadas as eleições ali para deputados e senadores, que é decidido no primeiro turno, no segundo turno eles confiam que aí PP, União Brasil, Republicanos vão acabar fazendo aliança com ele, apoiando, ou seja, uma união da direita com ele.
Agora, o detalhe é o seguinte: se ele continuar errando desse jeito, porque ele deu munição para aqueles que vão criticá-lo dentro do Supremo Tribunal Federal. O PT tá avaliando entrar com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral. O TSE teve de soltar uma nota reafirmando o que o tribunal já havia dito no passado sobre essa empresa venezuelana, né? Até cita, olha, essa empresa participou de uma licitação para fornecimento de urna eletrônica no Brasil, mas perdeu.
Ou seja, ela não forneceu urna eletrônica para o Brasil. Parte do que Flávio falou foi usado pelo presidente Donald Trump nessa semana quando ele faz ataques à China, de que a China teria ali ajudado a derrotá-lo em 2020. E logo depois Ele cita também Venezuela, urnas que são passíveis de fraudes na Venezuela. Então ele acaba repetindo afirmações, teorias conspiratórias ditas por Trump. Agora, Natuza, o cenário é o pior possível para ele, né?
Relembra, tudo bem, ele não convidou os embaixadores, mas reunião com os embaixadores, colocar as urnas eletrônicas sob suspeita, pelo menos uma parte delas, no Brasil, é algo que ele deveria teria que ter evitado é a variação, inclusive de gente de dentro da campanha.
E tem um ponto aí que quando eu vi o Trump falando de urna na Venezuela, eu falei, isso aqui vai ser usado pelo bolsonarismo. Achei que o bolsonarismo ia usar para disseminar, né, teorias da conspiração. Mas eu não imaginava que o candidato que se vendia, né, como o Bolsonaro que se vacinou, o Bolsonaro moderado ia usar essa, essa expressão, ia falar de urna como o pai já falou no passado. Isso de fato eu não imaginei.
Também não. E isso transforma Flávio Bolsonaro neste momento num candidato tóxico, porque além desta questão aí que aconteceu nesta semana relacionada à urna eletrônica, Tem toda a questão das investigações do Banco Master, né? Então essas suspeitas também colocam todos aqueles que estão ali querendo manter uma distância para lá de regulamentar de Flávio Bolsonaro nessa postura de muita cautela. Tudo bem, se chegar no segundo turno, aí você já vai ter divulgado o que tem que ser divulgado, imagina-se pelo menos, e aí fica um território mais conhecido, diríamos assim.
Meu querido Waldo Cruz, muito obrigada por topar conversar com a gente. Bom trabalho, boas apurações para você.
Saúde e paz, Natuza. Beijo, beijo, tchau.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o professor Oscar Vilhena. Professor Oscar Vilhena, acho que vale a pena pedir para que você nos lembre as condenações eleitorais do ex-presidente Jair Bolsonaro. Considerando aquele episódio em que ele convoca no Palácio embaixadores para falar contra as urnas, disseminar desinformação, tudo isso transmitido pela TV Brasil. Como é que você avalia o que aconteceu com Flávio à luz do que aconteceu com o próprio pai?
A primeira constatação é de ordem política, é lamentável. Que o candidato Flávio Bolsonaro em alguma medida tente reproduzir aquilo que levou o seu pai à devida condenação. Como nós sabemos, a Constituição Brasileira, no artigo 14, ela estabelece algumas situações onde o candidato pode se tornar inelegível, né? Entre essas situações está o abuso de autoridade, ou seja, você usar a sua posição política para desequilibrar o pleito eleitoral ou mesmo para atacar as instituições eleitorais.
E foi isso que aconteceu com o Jair Bolsonaro, ou seja, presidente da República, no exercício dessa função, convoca o corpo diplomático em Brasília para uma manifestação dentro do Palácio Uma manifestação de ataque buscando desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Então ficou caracterizado exatamente esse delito previsto pela legislação eleitoral. Ou seja, ele usou da sua função, exorbitou da sua condição, daí o abuso de autoridade, para desacreditar e criar uma situação que lhe fosse benéfica do ponto de vista eleitoral.
Passados esses anos, isso foi em 2000, quer dizer, a condenação foi em 2025. Passados esses anos, nós temos agora o filho, uma situação um pouco distinta, porque ele não é presidente da República, não foi num palácio presidencial, não foi ele que convocou, e nem foi na TV Brasil, né?
Porque no caso do Bolsonaro, o que foi importante para aquela condenação de inelegibilidade foi o fato de que todo aquele mise-en-scène foi transmitido na TV Brasil, um aparato do Estado, né?
Sim, quer dizer, ele usa da sua condição presidencial para impor aos meios de comunicação, especificamente o meio de comunicação público, né, que o seu, o seu discurso de descrédito da Justiça Eleitoral fosse veiculado. Que que é parecido? Parecido é o fato de um candidato à presidência da República insinuar que o sistema eleitoral brasileiro, especialmente as urnas, elas não são confiáveis. Quer dizer, o objetivo é desacreditar o sistema eleitoral.
Nisso, os dois estão juntos. Condição pessoal dos dois é a mesma, são pessoas que querem exercer o poder e não veem barreiras, inclusive mentindo, buscando desacreditar o sistema eleitoral.
Nesse caso da fala do Flávio, você entende que pode caber algum tipo de punição?
A legislação, ela prevê 3 tipos de circunstância onde um candidato pode sofrer sanção. Primeiro, abuso de poder econômico. Político, né, que não é o caso. A segunda é abuso de autoridade, que eventualmente seja o caso. Será que o Bolsonaro, ele está, o Flávio está na mesma condição de usar do seu poder enquanto senador para mobilizar algum tipo de meio especial? Essa é uma questão que pode ser discutida. Eu acho que é difícil porque não foi ele que organizou esse evento.
Mas também há uma situação do uso indevido dos meios de comunicação, e aí não precisam ser os meios de comunicação oficiais. Quer dizer, ele fez essa insinuação mentirosa com o objetivo de obter ganhos eleitorais. Isto pode sim ser sancionado pela Justiça Eleitoral. Então eu acho que nós precisamos aferir, verificar o que aconteceu de fato, mas sem dúvida nenhuma essa terceira situação de uso indevido dos meios de comunicação me parece que é passível de ser apontada nesse caso.
Justiça Eleitoral, ela tem adotado uma jurisprudência em que muitas vezes um ato isolado não é passível de punição, mas se ele for repetido inúmeras vezes, você pode detectar que há uma postura voltada a desacreditar o sistema eleitoral ou a obter vantagens que pode ser punida ao longo desse processo. Então eu acho muito importante que a Justiça Eleitoral se manifeste em relação a essa conduta do senador Flávio Bolsonaro, porque ela pode ser a primeira de uma delas, como foi o do pai.
As suspeitas levantadas por Flávio Bolsonaro contra a empresa Smartmatic circulam na internet há quase uma década e já foram desmentidas pelo TSE. Em várias ocasiões, o tribunal negou que a Smartmatic Smartmatic tenha fabricado urnas para o Brasil. Em nota divulgada em 2022 e reiterada agora, o TSE classificou como falsas as mensagens que circulam nas redes sociais. A nota afirma que a empresa atuou apenas no treinamento de profissionais que prestaram suporte técnico e operacional para as urnas brasileiras.
O tribunal disse que a Smartmatic também prestou serviços de conexão de dados e voz, mas não participou do desenvolvimento nem da operação das urnas e que disputou a licitação para fabricar urnas para as eleições de 2020, mas perdeu a concorrência.
O TSE já desmentiu juridicamente, institucionalmente, porque é preciso fazer isso, né? Ainda é preciso fazer isso assim, reiterar a verdade nesses casos, porque a gente viu no que que isso dá. Agora, por que no seu entendimento esse discurso contra as urnas é recorrente? Por que se faz isso não só aqui no Brasil? A gente lembrou na abertura do assunto que Trump fez isso novamente, fez isso durante todo o período passado e agora voltou a fazer falando de China, falando de Venezuela. Qual é o objetivo disso?
Olha, os populistas autoritários têm tido essa prática não só não só nessa última onda de populismo, mas como no passado, né? Eles são figuras sobretudo anti-institucionais. Quer dizer, eles usam das instituições, do processo eleitoral, da liberdade de expressão para chegar ao poder. E chegando ao poder, eles buscam destruir essas instituições que também têm regras de contenção do poder. Então, nesse sentido, o Bolsonaro pai, o Samp e outros populistas ao redor do mundo sempre tiveram uma relação ambígua com o sistema eleitoral.
Quando eles estão pleiteando chegar ao poder, eles concorrem por esse sistema, mas eles deixam uma dúvida sempre, desde o começo, que caso eles sejam derrotados, que eles já se manifestaram antecipadamente de que esse sistema é distorcido, é corrupto, e portanto eles têm uma razão para depois buscar a tomada do poder de outra maneira. Então é uma, é uma, vamos dizer, na caixa de ferramentas do populismo isso tem sido uma peça constante, quer dizer, é desacreditar o sistema eleitoral quando se está concorrendo, especialmente quando o seu risco de derrota é maior.
Toda vez que o candidato oscila para baixo, ele aumenta o seu ataque às instituições eleitorais buscando prevenir convencer o eleitor de que, caso ele seja derrotado, foi por uma fraude. Eu acho que o Brasil, nesse sentido, tem uma estrutura mais robusta de proteção à democracia do que muitos outros países, e a justiça eleitoral é parte disso, né? Talvez os traumas que nós tenhamos tido de regimes autoritários no passado tenham reforçado essa ideia de que a democracia precisa ser defensiva, militante na sua própria proteção, e a justiça exerceu isso quando condenou Jair Bolsonaro por usar da sua liberdade de expressão para ameaçar e fragilizar o sistema democrático brasileiro.
Os bolsonaristas costumam dizer que isso nada mais é do que a manifestação de uma opinião, mas os especialistas tanto em democracia, né, quanto em Constituição dizem que é mais, muito mais do que isso, que há de fato um perigo. Queria que você explicasse, portanto, essa ideia para gente.
Evidente que todos nós temos liberdade de expressão, de emitirmos a nossa opinião, inclusive quando ela tá errada, né? Não há nenhum problema em errar e mesmo em mentir. Isso não é um crime, né? E as pessoas exercem esse direito todos os dias. No que diz respeito ao processo democrático, nós somos mais cuidadosos. Aqueles que exercem cargos públicos, aqueles que têm uma posição de autoridade e que estão concorrendo, eles têm um compromisso em, primeiro, não desvirtuar o processo eleitoral, ou seja, não abusar da sua liberdade de expressão para conseguir alguma vantagem indevida na corrida eleitoral.
E também eles têm um compromisso em relação às regras que regem o processo eleitoral. E o que nós temos assistido noutros países e no Brasil, infelizmente, é que há setores da política não só abusam das regras do jogo como buscam subvertê-las, né? Então é sobre isso. Nós não estamos falando aqui de uma mera discussão sobre liberdade de expressão, sobre liberdade de opinião. Nós estamos falando sobre lealdade em relação à Constituição.
E para a gente finalizar, queria muito tentar ser didática aqui com quem nos ouve. Como é que funciona na prática a auditoria nas urnas? Assim como qual é a nossa real capacidade de auditar as urnas brasileiras? Por que que o sistema brasileiro pode ser considerado um sistema seguro de votação?
Veja, o Brasil tem uma história, né, e ele criou a Justiça Eleitoral por esse motivo de fraude eleitoral na Primeira República, que era o chamado voto no bico da pena, as pessoas votavam na frente de quem controlava o seu voto e nós fomos evoluindo, né? A urna ela tem uma série de especificidades. Em primeiro lugar, ela é isolada, ela não é como o seu telefone, o meu, computador que tá ligado, tá no Bluetooth, ele se comunica e ele pode sofrer alguma interferência.
Cada uma das urnas, vamos dizer, uma ilha, ela tá protegida porque ninguém se comunica com ela, né? Segundo, o código que vai instruir a urna a coletar aqueles votos, o voto num partido, noutro partido, num candidato, noutro candidato, esse código que vai informar todo o funcionamento de cada uma das urnas, ele é previamente auditado pelos partidos políticos que estão concorrendo, pelo Ministério Público, pela OAB, por universidades.
E depois que você chegou à conclusão de que aquele código tá correto, isso é selado. Selado, é selado pela Justiça Eleitoral. Então, a primeira parte desse processo é garantir a integridade da urna, que não pode ser invadida, e garantir que o manual de instrução da urna, ele esteja corretamente organizado. Depois, os resultados que cada uma das urnas produz, ele vai gerar um Sim, que é um relatório que também pode ser auditado.
Então, se os partidos políticos, a OAB, se o Ministério Público tiverem dúvida de que algumas urnas de uma determinada região deram um resultado absolutamente, vamos dizer, em desconformidade com as expectativas, você pode auditar aquelas urnas. Você não pode saber o voto de cada uma das pessoas, né, para que elas não possam sofrer pressão. Então, veja, o teste ao longo desses anos tem demonstrado que as urnas não têm uma vulnerabilidade a esse tipo de crítica que são feitas, que têm sido feitas pelos populistas, pelos autoritários.
Antes o contrário, elas têm demonstrado uma enorme integridade, elas reduzem o tempo de apuração e dão muito mais confiabilidade ao voto. Eu acho que elas passaram no teste do tempo e todas as críticas que foram feitas normalmente foram respondidas com grande, vamos dizer, assertividade pela Justiça Eleitoral. Então Mas sim, são urnas auditáveis e são urnas em alguma medida intransponíveis, as barreiras que elas colocam a quem tenta subverter o processo eleitoral.
Professor Oscar Vilhena, um prazer enorme recebê-lo aqui novamente. Bom trabalho para você.
Eu é que agradeço, um prazer falar com você.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Colaborou para este episódio Janise Colasso. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.