Renan Santos: o outsider candidato à Presidência
- Declarações de Renan Santos sobre políticos do NordesteSilvio Santos · Formação do Partido Missão · Programa Desenrola Brasil · Candidato outsider
- Mudança na divisão dos campos políticosManifestações de 2013 · Impeachment de Dilma Rousseff · Apoio a Jair Bolsonaro em 2018 · Rompimento com Bolsonaro
- Ideologia e Influências de Renan SantosJavier Milei · Mamilo do Kratos · Extrema-direita · Discurso anti-sistema
- Propostas Econômicas de Flávio BolsonaroGoverno ultraliberal · Desregulação econômica · Redução do Estado · Tendência ao anarcocapitalismo
- Estratégias de Segurança PúblicaMão dura contra a violência · Combate ao crime organizado · Estado de defesa · Mamilo do Kratos
- Ser mulher e ativismoReforma do Bolsa Família · Rejeição ao feminismo · Ausência da figura paterna
Você tem um cara chamado Renan Santos que é pré-candidato à presidência do Brasil.
Essa é a voz do próprio Renan Santos, que acaba de oficializar sua candidatura à presidência da República por um partido criado em 2025, o Missão. Seu vice na chapa é o tenente-coronel da Reserva Haroldo Medina.
Eu divulguei por muito tempo a tese do prender ou matou, e como estou tomando muitos processos, eu vou precisar recuar no slogan, eu vou precisar diminuir ele. De agora em diante é só matou.
Nas pesquisas de intenção de voto da Quest, Renan nunca pontuou acima dos 3%, mas nas redes sociais ele tem números que competem com os principais nomes da disputa. Em junho, por exemplo, ele teve mais de 13 milhões de interações nas principais plataformas, isso segundo a consultoria Batesé. É um resultado abaixo do conquistado por Flávio Bolsonaro, que teve quase 24 milhões de interações, mas bem próximo ao do presidente Lula, com cerca de 15 milhões.
E ele ainda fica maior do que outros candidatos da direita: Romeu Zema, e Ronaldo Caiado.
Ontem eu bati 2 milhões de redes sociais. Vamos lembrar que eu comecei a campanha nem com 200 mil seguidores. Eu era um Zé Ninguém.
Renan é um fenômeno nativo da internet, maneja as redes sociais como poucos. E sua trajetória começa depois das manifestações de 2013. E foi por causa delas que, em 2014, ele fundou o Movimento Brasil Livre, o MBL. Em pouco tempo, o movimento ganhou projeção nacional. Convocou manifestações contra Dilma Rousseff durante o processo de impeachment e conquistou milhões de seguidores.
O nosso pedido de impeachment foi protocolado e vai rodar, você goste ou não. Dia 16 vai ser um sucesso, vai bombar, e nós vamos derrubar a presidente Dilma, você goste ou não. Você vai ter que engolir a gente, vai ter que engolir, e não só esse ano.
Sob comando de Renan Santos e de outros integrantes do grupo, o MBL se consolidou como um movimento de direita e em 2018 embarcou na candidatura de Jair Bolsonaro.
Nesse vídeo eu vou explicar para vocês o porquê que o Haddad muito provavelmente está no segundo turno já.
Nesse segundo turno que a gente tanto precisa de uma vitória de Jair Bolsonaro, que a gente tanto precisa de uma derrota do PT.
Se esse vídeo for visto por 200 mil pessoas e cada um virar 6 votos, a gente já come a diferença que ele possa vir a ter no segundo turno.
Logo de cara, a relação com o bolsonarismo foi marcada por atritos até chegar a um rompimento total. E foi aí que Renan passou a mirar sua artilharia contra o Jair.
Pessoal, esse vídeo aqui é um tutorial sobre como derrubar o presidente da República. Como nós vamos derrotar Jair Bolsonaro.
Mas também contra o filho dele, Flávio Bolsonaro, agora seu concorrente na corrida eleitoral deste ano.
O Flávio não é um sujeito muito inteligente. Flávio tem um histórico muito ruim. É um cara que assim, tem um histórico muito podre. O que saiu agora recentemente dele mostra uma relação muito próxima dele com o Vôrcaro.
Outras lideranças do MBL já haviam testado seus nomes na urna urna por meio de outros partidos. Kim Kataguiri, por exemplo, elegeu-se duas vezes deputado federal, a primeira pelo Democratas e a segunda pelo União Brasil. Mas em novembro de 2025, o movimento fundado há mais de uma década ganhou a chancela do TSE e se tornou um partido político. O Tribunal Superior Eleitoral aprovou por unanimidade o registro do partido Missão, ligado ao MBL, o Movimento Brasil Livre.
Embora esteja na política já há mais de uma década, Renan surfa agora a onda do candidato antissistema. De um lado, busca os votos de parcela do eleitorado que acredita numa terceira via.
Eu quero conversar com você que votou no Jair Bolsonaro na última eleição em 2018. Você simplesmente não me conhece porque eu não tô nas páginas policiais e tampouco puxo o saco do Lula ou do Bolsonaro. Eu sou independente.
Do outro, tenta os votos daqueles com perfil mais radical. Ele mesmo se apresenta como uma mistura de dois líderes da ultradireita latino-americana: um pouco de Javier Milei, presidente da Argentina, e um pouco de Nayib Bukele, presidente de El Salvador.
Um cara que cometia os sincericídios, ou seja, dizer coisas que podem fazê-lo perder votos. Esse aí é o Milei. Já Bukele, no conteúdo, esse é um cara que vai impor lei e ordem a qualquer custo.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Renan Santos, o outsider candidato à presidência. Neste episódio, eu converso com Thomas Trauman, comentarista da GloboNews e colunista no jornal O Globo. Quarta-feira, 22 de julho. Thomas, eu quero sua ajuda para entender Renan Santos, candidato à presidência da República, mas eu tenho a impressão de que para isso a gente precisa voltar juntos no tempo. Ele vem do MBL, ele funda o MBL, passa por uma, por um momento político importante que é o impeachment de Dilma Rousseff.
Depois o MBL se associa ao bolsonarismo, apoiando o bolsonarismo na sua eleição. Depois o MBL rompe com o Bolsonaro e chega até este momento em que Renan se declara candidato mirando Lula e mirando ao mesmo tempo Flávio Bolsonaro. O que que essa trajetória nos revela sobre o candidato Renan Santos?
Eu acho que revela uma singularidade pela velocidade como isso funcionou, que a singularidade do MBL, ele nasce justamente de um movimento de internet, né? Ele é um movimento que é criado de pessoas que queriam derrubar a presidente Dilma Rousseff em 2015, 2016, que se junta na organização das manifestações. Então eu acho que essa é uma questão que é o primeiro partido, o MBL depois do Missão, primeiro partido que nasce completamente digital.
Eu acho que isso é uma questão que hoje, quando a gente tá assistindo essa campanha do Renan Santos, ela também é essencialmente digital. Ou seja, você tem aí uma, ou seja, que para mim isso é o que junta, né, do início do partido 10 anos atrás para o partido que tá aí hoje lançando um candidato a presidente.
E eles começaram a se articular para formar o Missão quando?
Eles nascem como um braço da chamada nova extrema-direita no mundo todo, né, e viram a base muito próxima ao bolsonarismo, especialmente, e ajuda a eleição do Bolsonaro em 2018. Eles acabam rompendo com Bolsonaro em 2019, 2020, e aí ficam totalmente soltos. Eles tentam outro partido, tanto, vamos lembrar que o único deputado federal deles, o Kim Kataguiri, tava filiado à União Brasil até poucos meses atrás. Então, no fundo, eles tentam procurar um partido que eles possam se acoplar até conseguir criar a própria legenda.
A gente vai lembrar que em 2022 eles namoraram a ideia de ter o Sérgio Moro como candidato a presidente pelo Podemos. Aí vários da turma do MBL tava naquele momento filiado ao Podemos. Então, ou seja, eles ficam tentando aí outras alternativas até conseguirem a própria legenda.
Ao invés de idolatrarmos o Bolsonaro nas ruas, nós idolatrávamos a lei e a ordem. E com base nisso nós tiramos a Dilma de lá e ainda fizemos o Lula ser preso apoiando a Operação Lava Jato. Agora esse mesmo movimento político foi às ruas, derrotou o PT, montou um partido político, o nome dele é Missão.
E aí é assim, o partido que no fundo ele tá sendo criado literalmente durante essa campanha. Essa campanha ela serve muito para criar o partido, para transformar o partido num algo real. Tanto que você vê, não tem candidato todos os lugares. Por isso que quando eu digo, esse é no fundo que o Renan é um candidato para 2030, e ele fica furioso, mas é um fato da vida, porque ele tem um partido que ele não é um partido no sentido dele, não estruturado, ele não é, logicamente que ele não é o PT, não é o PL, não é o PSD, não são os outros partidos que já estão dentro do imaginário, vamos dizer assim, do eleitor.
É a primeira vez que ele vai fazer. Ele é uma experiência, em certo sentido, se a gente for pensar na estrutura partidária brasileira, tão diferente quanto foi a Rede Sustentabilidade da Marina Silva lá atrás, e depois o Novo, que também é um partido que também nasceu de uma forma diferente desses partidos tradicionais.
Agora, Thomas, voltando a esse momento atual, em 2025, portanto, o Missão é criado, o partido decide pela candidatura própria à presidência da República, o personagem é o Renan Santos e eu queria te perguntar como é que ele se apresentou ao longo desse tempo todo, que perfil político ele tem, o que é o Renan Santos e o MBL em termos de ideologia?
Bom, vamos lá, em termos ideológicos, é claramente que para mim o MBL e o Missão, eles vão se colocar dentro da extrema-direita ou da direita radical, enfim como a gente queira colocar, né, dentro do espectro político. O próprio Renan, numa das declarações dele, fala: eu estou à direita do Flávio Bolsonaro. Você está à direita do Flávio Bolsonaro, você é de extrema-direita, ponto. Isso aqui não é um qualificativo, é simplesmente um fato.
Você está à direita do Flávio Bolsonaro, você é de extrema-direita. Mas eu acho que é interessante a gente analisar, e eu analiso o que tá acontecendo com o Renan Santos como uma questão, um fenômeno fenômeno político é que existe no Brasil de hoje, nessa, a gente sempre fala da polarização, enfim, eu escrevi muito sobre isso, mas existe aqueles que querem romper a polarização não para procurar as convergências entre os dois grandes lados, né, o lado do lulismo, lado do bolsonarismo, mas gente que quer o contra tudo, que quer ser contra tudo e contra todos, contra o sistema, né.
Eu já escrevi várias vezes assim que existe uma demanda do eleitorado brasileiro por um candidato que seja contra tudo, contra todos. Que ao mesmo tempo ele, ele enfrente o sistema, o establishment. E esse establishment que hoje ele, ele tá dividido também entre Lula e entre Bolsonaro. E essa demanda ela tava pronta, ela tava solta aí. Em algum momento o Romeu Zema chegou a namorar essa demanda quando ele começou com aquelas, com aquela campanha de internet sobre os intocáveis.
Ele se aproximou dessa turma. O Bolsonaro, pela, né, pela história dele, especialmente em 2018, ele também tem um pedaço de gente que é contra tudo, contra todos, e acha que, por exemplo, impeachment de Ministro do Supremo é uma, é uma luta anti-Estados. É, o Renan acabou assumindo isso, e por isso que eu acho que a candidatura dele tem um potencial maior do que dizem, do que os números das pesquisas atuais, porque existe essa demanda.
Essa demanda tem o quê, 7, 8, 9, 10? Se a gente vai ver qual o tamanho disso, mas que existe uma demanda brasileira até histórica em relação a achar que a gente pode recetar tudo, que a solução é você derrubar a direção do Congresso, derrubar a direção do sistema e derrubar a direção do Executivo, ah, essa existe, ela é latente. E no momento em que você tem os dois lados tão polarizados e também tão desgastados, eu acho que essa demanda ela surge como uma alternativa para algumas pessoas.
Você inclusive escreveu, né, no jornal O Globo que o Renan é o outsider que vem dando certo. E acabou que no seu artigo você enquadra o Renan Santos na mesma linhagem antissistema de Jânio Quadros em 1961, Fernando Collor de Mello em 1989 e o próprio Jair Bolsonaro em 2018. Me interessa muito o fenômeno mais recente, que é Jair Bolsonaro. Que semelhanças há nessa personificação, né, da candidatura antissistema de Bolsonaro e de Renan Santos, no seu entendimento?
Se a gente for pensar em similaridades, Natuza, o Bolsonaro foi candidato, embora o Bolsonaro era sistema, era deputado Centrão. Enfim, não temos nenhuma discussão sobre isso, mas ele se apresentava para o eleitorado como uma pessoa que, olha, eu não pertenço a essa turma, eu não, né, eu sou contra tudo isso, eu vou chegar, eu vou ser eleito para destruir tudo isso, né. Ele chega a dizer isso, né, minha função é destruir, não nem tanto construir.
Ele sai com um partido nanico, né, o PSL, que enfim, acho que nem existe mais, com um discurso de que ele era contra o Centrão, que ele era a favor de grandes investigações de corrupção, né. Nós estamos lembrando que em 2018 era ali no auge da Lava Jato, ele ele tenta incorporar, e para muitos eleitores ele incorpora, a sensação de que a política tava apodrecida e que, portanto, somente alguém de fora do sistema conseguiria representar esse desejo de uma grande mudança.
Então eu acho que o Renan tenta claramente fazer isso, e tenta tanto isso, Natuza, que o candidato a vice-presidente dele, ele se apresenta para as pessoas, falou: eu sou bolsonarista. E aí explica por que que, enfim, que aquele chama bolsonarista de 18 agora é pelo Renan. Eu acho que tem aí uma clara tentativa do Renan de tentar atrair esse eleitor antissistema que era do Bolsonaro em 2018.
Thomas, na tua coluna do Globo você classificou o Renan Santos como uma figura política que tem 4 pilares. Ele é 25% Milei, 25% Bukele, 25% anti-Lula e 25% anti-Bolsonaro, segundo a tua definição. Eu queria entender o que que isso significa.
Vamos lá, quando ele fala Bem, Javier Milei, o presidente da Argentina, que foi eleito justamente como um grande candidato antissistema, também por um partido que não existia, com uma motosserra dizendo que ele iria, né, cortar os gastos públicos e ser um candidato contra a casta, né. A palavra que ele usou ali é que funcionou na Argentina era a casta, a casta dos servidores públicos, a casta dos empresários corruptos, a casta de um sistema que na avaliação dele tava apodrecido depois de anos, seja do peronismo, seja dos governos Macri.
No caso do Bukele, é a ideia da— que é outro candidato que também surgiu do nada— a ideia da mão dura contra a violência. Ou seja, a ideia de que o Estado, ele vai passar as regras, digamos, formais de direitos, direitos individuais vão ser totalmente atropeladas, porque o mais importante é você manter uma segurança geral. Esses dois exemplos internacionais para mim são muito claros. E aí a outra questão é dizer que ele é ao mesmo tempo contra Lula e contra Bolsonaro.
E para mim, Natuza, essa é a novidade dele, porque se a gente for assistir, a gente for olhar, analisar a campanha até agora dos dois candidatos menores da direita, o governador, o ex-governador Ronaldo Caiado e o ex-governador Romeu Zema, os dois têm medo de criticar o Bolsonaro. A prática é, o Zema deu uma criticada, uma semana falando mal, o Novo foi lá e quase impediu ele de ser O Ronaldo, o Ronaldo Caiado tem, pede licença para conseguir falar mal de alguma coisa do Bolsonaro, mesmo com, mesmo com escândalo do caso Forcaro.
Então a vantagem do Renan é justamente falar mal de todo mundo. Eu sou candidato contra esses dois aqui, porque ele quer pegar esse público, o público que enxerga em Lula e enxerga em Bolsonaro o sistema. E portanto ele pega os dois emblemas nacionais e pega. Então assim, essa matemática para mim ela funciona para uma parcela do eleitorado realmente. E eu acho que assim Tem claramente uma estratégia aí, coisa que hoje eu não consigo enxergar nem na candidatura do Zema nem na candidatura do Caiado.
Em relação aos 25% do Bukele, Bukele tem sido visto por especialistas como alguém que vem enfrentando a segurança pública de uma maneira muito peculiar, mas outros analistas o chamam de candidato a ditador. Quando você afirma que ele se apresenta como esses 25%, Bukele, você tá falando do aspecto da segurança pública, é isso?
Da segurança pública e o fato de que, e aí na própria, na própria discurso que o Renan Santos apresenta nas suas, nas suas lives, nas suas conversas, é a ideia toda de que o Brasil tá num estado de ataque de organizações terroristas e, portanto, você vai utilizar contra eles como se fosse um inimigo, né, como se fosse uma outra nação estrangeira envolvendo. Ou seja, não estamos falando aqui de um combate policial padrão, Não, nós estamos falando aqui de um combate policial em que sim, de mortes, e que isso é exatamente o Bukele.
Aí eu acho que aí o Renan tá deixando muito claro qual é a estratégia dele. Claramente uma estratégia que não, que não assegura todos os direitos individuais que estão hoje na Constituição. Isso para mim é evidente, que se uma hipótese de um governo renunciando, você vai ter uma grande mudança em relação a como que vai, como vai ser o combate à criminalidade no Brasil, assim como aconteceu no El Salvador com Bukele. Ou seja, nós temos, né, a situação, Bukele é pré-ditatorial, ou é já ditatorial justamente por isso.
Você não tem habeas corpus, por exemplo. Enfim, as pessoas são presas sem que você tenha uma acusação formal. O que o Renan Santos está tentando se alimentar é desse velho discurso do bandido bom é bandido morto, né?
E para isso, muito provavelmente, o Estado brasileiro terá que matar, e eu tô sendo muito claro, matar membros do crime organizado. Eu não desejo nada de bom para assaltante. Eu acho que o assaltante tem que morrer, e eu acho que a polícia brasileira tem que ter todos os meios possíveis para pegar bandidos figuras más, figuras que cometem latrocínio, e eu quero que ela possa matá-los. E se porventura ela não consiga matar porque eles se entregaram como ratos, que eles passem o resto da sua vida na cadeia.
E eu quero que essa cadeia não seja legal, eu não quero ensinar nada para esse rapaz na cadeia.
É, e ele inclusive usa a palavra morte com bastante frequência. A gente fez um episódio sobre essa política de segurança pública e ela é muito maior do que simplesmente montar super presídios, que é algo que está inclusive na proposta do próprio Renan Santos, né? Ela envolve a intervenção no Supremo Tribunal Federal, ela envolve uma intervenção, né, na forma de atuação do próprio Executivo. Então você tem, né, na gestão Bukele, um Executivo super vitaminado, né, super musculoso.
Então é um projeto de segurança pública que passa para, supera e muito, né, visões de mundo sobre como se deve enfrentar a insegurança pública nacional.
E por isso que eu qualifico ele como de extrema-direita.
Eu vou colocar as favelas nas primeiras operações e as cidades em estado de defesa. E eu vou tocar as operações. E para passar o estado de defesa, eu preciso do Congresso. Eu pedi, Congresso aprovou dia 5 de janeiro de 2027. Se vier uma decisão do STF, eu só não vou cumprir, eu não vou cumprir. Eu vou apenas com as forças policiais, se precisar de auxílio das Forças Armadas, vou fazer o meu estrito cumprimento do meu dever constitucional.
Entrando um pouquinho mais nas ideias de Renan Santos, né, você já explicou que ele disse que ele está a direita de Flávio Bolsonaro. Você já falou, né, dessa buquelização do discurso de Renan Santos. Agora, para além de ser anti-Lula e anti-Flávio, na economia ele defende o quê, né? No enfrentamento ao feminicídio ele defende algo? Como é que é o discurso de Renan Santos em outras áreas da administração de um presidente da República?
Eu acho que a gente pode falar muito gosto bem da parte econômica, porque é onde você tem muito mais evidente a lógica. E aí é claramente, nós estamos falando de governo ultraliberal, e nisso é muito Milei. Tem a Milei na economia e Bukele na segurança pública. Nesse sentido, ele quase reproduz o que a gente já viu na cidade de São Paulo, na Tusa, quando houve na campanha para prefeitura, quando a gente teve o Pablo Massal. Quer dizer, ou seja, um candidato que surge um pouco do nada mas que consegue seduzir um grupo, uma elite, e especialmente uma elite financeira, porque é completamente a favor de uma desregulação total da economia e um incentivo ao empreendedorismo, a redução do Estado.
Enfim, você tem uma coisa muito mais liberal, muito mais similar ao que a gente tá vendo hoje na Argentina, do que, enfim, do que, vamos dizer, a direita tradicional que a gente conhece. Tá muito mais liberal do que, digamos, foi o Paulo Guedes na economia brasileira, né?
Tá além do que o Paulo Guedes colocava. É isso?
Exatamente, exatamente. Nós estamos falando aqui, não vamos dizer que é o que ele chama de anarcocapitalismo, mas é uma tendência para anarcocapitalismo. Ou seja, a ideia toda é que você desregula tudo, você tira o Estado completamente da regulação econômica do país e que naturalmente, por essa lógica, a economia sozinha conseguiria fazer e abrir oportunidades e gerar riqueza sem a presença do Estado.
Sobre programas sociais, ele diz que vai acabar com algum. Ele, o que que ele diz exatamente?
Assim, eu acho que tem eu acho que a grande mudança ali é em relação ao Bolsa Família. Ele fala em manter o Bolsa Família para situações específicas, por exemplo, mães que têm filhos e que têm cuidado das crianças, ou pessoas que estão com problemas de saúde, mas somente dá Bolsa Família para, em casos normais, uma pessoa que trabalhe. Então, portanto, ele sempre cita, fala, olha, se uma pessoa quer o Bolsa Família, um jovem ou uma pessoa adulta quer o Bolsa Família, Brasília, ele vai ter que capinar a praça para prefeitura, vai ter que pintar a escola, vai ter que, enfim, ele vai ter que trabalhar por aquele dinheiro.
Ele fala também em acabar com formas muito violentas de acabar com o pé de meia, de acabar com outros programas sociais. É logicamente que nós, como nós estamos falando de campanha eleitoral, né, Natuza, tudo parece muito fácil. Você fala, vou acabar com isso, vou acabar com aquilo, mas assim funciona. O discurso é esse, esse é o discurso que ele tá apresentando nas suas lives e nas suas conversas.
Aparece lá numa cidade lá no CRAS: ó, eu quero agora meu Bolsa Família. Vai aparecer um papel na frente dele: aqui tá um formulário, meu querido, para você trabalhar na frente de trabalho para a gente recapear a estrada. Ah, não quero. Problema seu, tu não vai pegar esse Bolsa Família.
Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Thomas. Eu já vi vídeos dele dizendo que rechaça o feminismo, porque o feminismo, segundo ele, na visão dele, é um movimento político que almeja chegar ao poder e não empoderar a mulher. Eu também já vi o Renan Santos dizendo o seguinte, que a origem de muitos dos problemas sociais do país e da criminalidade, ausência da figura paterna, né, como alguém de onde se extrai conceitos de moral e tal. Ele faz vários vídeos falando sobre isso.
Mandar real aqui, tá? Existe uma questão de dano social, dano coletivo. Mostra que a maior parte dos rapazes que cometem crimes, eles que eles não têm a presença paterna. Pai biológico que não dá atenção, ele tem que ser sancionado. Ah, mas não gosto. Foda-se, se vira, malandro. Aquele cara que tá segurando a arma, ele tem um nome, ele tem um CPF. Aquele cara, a chance dele vir do bairro de baixa renda é altíssima, 80%, 90%. A chance desse cara ter tido dificuldades escolares é bem grande.
Nenhuma dessas chances é tão grande quanto ele ser oriundo de uma família que não teve a presença paterna. Esse cara, em vários momentos na infância dele, no processo formativo do cara, caráter dele, ele não sabia como se comportar porque a presença masculina não deu um espelho e também não deu um freio.
Mas aí a gente esbarra em dois pontos: o eleitorado feminino, que é um eleitorado muito grande, não é à toa que Flávio Bolsonaro tá se debatendo bastante, né, para não perder e até tentar reduzir danos nesse eleitorado. E num país em que metade das famílias no Brasil é chefiada por mulheres. Como é que ele encaixa esse discurso para conquista dessas eleitoras?
Eu acho que ele não tenta. Eu sinto, a minha avaliação, se você for ver o MBL, sempre foi um movimento muito masculino, ele sempre foi um momento jovem e masculino, historicamente falando. Qualquer um que já foi num congresso deles viu isso. Eu achei o ponto 1. Então eu acho que não há uma preocupação não nesse sentido de conseguir captar, de cooptar esse eleitor. E de novo eu falo, no fundo, o projeto dessa campanha é abrir um flanco, abrir um tamanho para 2030 ver o que acontece.
Não há um discurso específico para mulheres. Eu acho que assim, a procura típica do eleitor típico do Renan Santos é um homem com até 30 anos, urbano, quer dizer, e que não tá numa assim, que é o empreendedor ou é o motorista de Uber ou tem um pequeno comércio, enfim, e que tá numa situação de que acha que os impostos estão muito em cima dele, que ele tem peso demais, e que sente que a sociedade ela não devolve nada para ele por tudo que ele trabalha.
Então um pouco de revolta muito clara em relação à sociedade, em relação às regras sociais, e que enxerga nos programas sociais uma forma de tirar dinheiro dele. Então eu acho que tem um ressentimento também muito claro nessa ideia. Por isso é um programa muito masculino. E a gente, quando eu estudo e eu faço comparações com outros movimentos de direita, o Cinque Stelle, o movimento na Itália, também surgiu um pouco assim. São movimentos que surgiram também, em certo sentido, o Podemos na Espanha também surgiu assim.
São movimentos que nasceram muito masculinos e eventualmente, com o tempo, foram acoplando alguma lógica de como conseguir trazer mulheres para o seu leito. Mas a princípio, extremamente, extremamente quase misóginos. Vamos esquecer que um dos líderes do MBL, que era candidato a governador de São Paulo, acabou perdendo a candidatura justamente por um discurso misógino numa viagem à Ucrânia em 2022, né?
Depois do vazamento dessas declarações machistas, vários deputados prepararam uma representação à Assembleia contra Arthur Duval. Nas mensagens enviadas para um grupo de amigos, Mamãe Falei, como também é conhecido o parlamentar, fala sobre as mulheres que tentam fugir da guerra na Ucrânia.
Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui.
E ainda faz esse comentário: vou te dizer, são fáceis porque elas são pobres.
Pobres.
Ele também relata o que achou das policiais que trabalhavam para ajudar refugiados do conflito e disse que quando a guerra acabar pretende voltar à Ucrânia.
Mano, eu juro para vocês, eu contei, foram 12 policiais deusas, deusa, mas deusa assim que você casa e assim você faz tudo que ela quiser. Assim que essa guerra passar, vou voltar para cá. Eu tenho 35 anos, cara. Eu nunca vivi isso e eu nem peguei ninguém aqui, eu não peguei ninguém aqui, mas assim, só a sensação de saber que eu poderia fazer e sentir como é o game, enfim, já sabem, né?
E tem ainda o Orlando Lima, o Orlando Lima, Thomas, ele é editor da revista Valete, que é a revista do MBL e do Missão. Ele defende, por exemplo, o fim do sufrágio universal, do voto universal, e segundo ele, o maior problema da democracia, e essa é uma que ele deu, né, o maior problema da democracia é o que ele próprio chama de gradação de cidadanias. Então quem recebe auxílio do governo, para ele, não deveria ter direito a voto.
E aí eu vou dar uma frase dele: pessoas com propriedade, família, trabalho, essas pessoas sim seriam plenas de direitos. Claro que isso não saiu da boca do Renan Santos, saiu da boca de alguém que preenche as colunas ali do MBL. Mas no momento em que a gente sabe relativamente pouco de um candidato, ele não tá aí só desde ontem, ele tá aí há 10 anos na política, mas como candidato à presidência as atenções são diferentes quando você se transforma em candidato. Então é um outro entender o MBL, é também entender o seu candidato.
Sim, e a questão toda é assim, e sem essa frase tem outras declarações, especialmente na própria revista, ponto de vista que também são, para dizer, polêmicas, para dizer o mínimo. Ou seja, você tem a lógica, que a ideia de que o voto ele não seria universal, ou 2, a ideia de que você, assim, as mulheres teriam uma função muito mais materna, assim, não teriam direitos iguais aos homens. Ou seja, tem uma, tem uma, tem uma machosfera envolvida nisso.
Acho, para mim, tá muito evidente, Natuza. A questão toda é entender o quanto disso que é um movimento, de novo, é um movimento que acabou de virar partido, o quanto disso representa o pensamento dessa turma e quanto disso vai ser defendido durante a campanha, e quanto disso é uma questão de uma pessoa ou outra, só para ser, não ser injusto aqui com a candidatura. Mas não há dúvida que é uma campanha que vem para radicalizar e vem para puxar os outros, os dois grandes adversários, para uma outra linha de argumentação e de lógica, né?
E no entanto, ele diz coisas que fazem sentido. Por exemplo, o papel do Centrão na política brasileira, né, que ele considera que o Centrão degrada a política brasileira por meio do toma lá dá cá. Até que ponto isso também não encontra eco em parcela da sociedade que vê o estado de coisas, né? Um Centrão super poderoso por causa das emendas parlamentares e e uma crise de governabilidade que vem desde Bolsonaro.
Candidatos como Renan Santos, eles não surgem do nada, eles surgem porque existe uma demanda da sociedade. A demanda da sociedade é olhar e enxergar que o Supremo Tribunal Federal, ele não deu explicações necessárias para suas relações com Daniel Alvorcávio. É olhar para o Congresso e ver que o Congresso não deu explicações necessárias, por exemplo, para sua relação com Daniel Alvorcávio, ou para a própria responsabilidade com a situação brasileira, sendo que ele tem R$60 bilhões por ano para gastar em emendas parlamentares.
Ou seja, você vê o estado de coisas do Rio de Janeiro, quer dizer, todo mundo que olha para as situações, você sente que você tá, que o Estado brasileiro, que a elite política brasileira, ela se sente superior, ela se sente que ela não tem que responder às pessoas. Então candidatos antissistema, eles são, eles são sintomas de uma coisa maior, que é o fato da elite, tanto elite política, elite empresarial, a elite educacional brasileira, não tá, não tá entregando o suficiente e não tá se sentindo responsável pelos rumos do país.
Então eu acho que é um pouco isso. O Renan é um sintoma de uma situação, e essa situação é real, né?
Essa sensação de revolta das pessoas, ela é, ela é Obrigada, meu querido Thomas Trauma. Muito obrigada por topar conversar com a gente. Para quem não leu o artigo do Thomas falando do Renan Santos, eu recomendo bastante, tá no jornal O Globo.
Obrigado, Natuza, foi um prazer falar com você e falaremos mais até as eleições.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Janise Colasso. Este episódio usou áudios da TV Gazeta, do Canal UOL e da Rádio TMC. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.