Reino Unido: o 'Rei do Norte' e a sucessão do poder
- Sucessão no poder britânicoAndy Burnham · Keir Starmer · Sucessão no Partido Trabalhista · Downing Street
- Impactos do BrexitDesconexão com a União Europeia · Arrependimento popular · Crise econômica · Instabilidade política
- Andy Burnham· PoliticaRei do Norte · Prefeito de Manchester · Política local
- Grande Manchester· SociedadeDescentralização · Autonomia local · Good Growth Fund
- Fundo Arleen e Daniel VorcaroCrise de inflação · Escândalo Jeffrey Epstein · Rejeição popular
No Reino Unido, um jogo de poder à la Game of Thrones levou à ascensão de um novo líder político. Saiu de cena o então primeiro-ministro pelo Partido Trabalhista, Keir Starmer.
O primeiro-ministro do Reino Unido renunciou.
Eu agradeço de novo a eles hoje e eu agradeço à população britânica pela oportunidade de servir. Eu saio com graça, com um sorriso e orgulhoso por tudo que nós conseguimos fazer e realizar.
Em 2 anos, Keir Starmer foi do melhor resultado eleitoral da história moderna do Reino Unido à renúncia praticamente forçada. Com a decisão, o país vai ter o 7º primeiro-ministro em 10 anos. E entrou em campo Andrew Burnham, pelo mesmo partido. Foram apenas 23 meses de Keir Starmer no poder. Ele foi o líder do Partido Trabalhista na vitória esmagadora sobre os conservadores em 2024, mas ele deixa Downing Street, onde fica o gabinete do primeiro-ministro, pela porta dos fundos.
Sua gestão foi sufocada por uma crise de inflação, pela derrota nas eleições regionais e por um escândalo que envolve até o caso Epstein. A situação piorou com a revelação de que Peter Mandelson, o embaixador britânico nos Estados Unidos, indicado por Stormer, tinha vínculos com o magnata Jeffrey Epstein, acusado de exploração e abuso sexual de menores. Em meio à crise, Stormer perdeu o apoio do partido. Os trabalhistas viram a extrema-direita avançar e começaram a pressionar por uma renúncia do próprio líder.
E foi assim que ele atingiu o pior desempenho nas pesquisas para um primeiro-ministro britânico nos últimos 50 anos. Impressionantes 74% de rejeição. E é nesse tabuleiro politicamente difícil e instável que Andrew Burnham assume o poder.
Pude voltar do Palácio de Buckingham, onde eu aceitei o convite de Sua Majestade o Rei para formar um governo. E esse é o nosso desafio: fazer com que a política funcione, fazer que funcione melhor. Ainda no final desse ano, eu vou apresentar um novo plano para a Grã-Bretanha, um plano de 10 anos que vai estabelecer um caminho de onde estamos agora até onde eu acredito que todos nós queremos que o Reino Unido chegue.
Andrew Burnham tomou posse na segunda-feira. Ele é conhecido no país pelo apelido de Rei do Norte por sua atuação marcante como prefeito de Manchester. O novo líder do Partido Trabalhista assume o cargo com uma promessa ambiciosa: conter preços de itens essenciais e reverter a desilusão dos britânicos com o governo.
Chamaram minha atenção às prioridades dele, que vão se dividindo entre acenos ao eleitorado do Partido Trabalhista, que pode ser visto como mais de centro-esquerda, e aceno também ao setor produtivo britânico, que não necessariamente vai estar afinado com esse eleitorado trabalhista de centro-esquerda. Ele vai precisar disso porque nesse momento Apesar dos trabalhistas ainda serem maioria no Parlamento britânico, eles estão atrás de todas as pesquisas de opinião em relação a futuras eleições, em relação a perspectivas com o crescimento desses setores mais radicalizados, notadamente da extrema-direita.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é Andy Burnham, o Rei do Norte na sucessão do poder britânico. Neste episódio, eu converso com Murilo Salviano, repórter correspondente da TV Globo e da GloboNews em Londres. Terça-feira, 21 de julho. Murilo, tenho acompanhado os conteúdos que você tem produzido e que você tem apurado sobre o que tá acontecendo em Downing Street. E aí eu quero que você explique aqui para os assunters o porquê dessa movimentação.
Quem é o Andy Burnham e como ele conseguiu assumir o cargo de primeiro-ministro. Teve um jeitinho, né? Teve uma certa gambiarra aí nessa história.
Uma mega gambiarra, Natuza. Primeiro que o Andy Burnham, ele tem um jeitão que lembra muito o de um outsider, né? O de alguém de fora da política tradicional. Só que ele não é. Primeiro, ele chega em Downing Street já com apelido, né? Assinando com apelido Andy. O nome dele mesmo é Andrew. Isso já é algo muito incomum para os padrões da política britânica. Aliás, tudo que eu disser aqui para vocês, não se esqueçam de observar pela lupa da formalidade britânica, tá?
O Brasil é mais informal, os britânicos são mega formais. Segundo, ele é um cara que dispensa camisa, dispensa o botão, adora uma camiseta. É um cara que fala na lata, de improviso. Inclusive, hoje ele quebrou a tradição, dispensou aquele púlpito, o famoso púlpito de Downing Street. Ele também não tem medo de chamar os adversários para o ringue. Tanto é que ganhou o apelido de Rei do Norte, que é aquele cara que vem do norte da Inglaterra sem medo de desafiar o poder central de Westminster, de Londres, sem medo de colocar o dedo na ferida.
Isso também chama muita atenção para os padrões britânicos, porque aqui eles fazem de tudo para evitar o conflito. Então eu estou montando essa figura do Andy para vocês entenderem como é que ele chegou aqui, por que ele foi escolhido pelo Partido Trabalhista. E além de tudo, o Andy Burnham é muito popular, ele é muito conectado com a base do Partido Trabalhista. Ele é muito conectado com a juventude, né? Vira e mexe ele viraliza nas redes sociais de shortinho curto, fazendo corrida de rua, jogando futebol.
De vez em quando ele até ataca de DJ, né? Faz aquelas batalhas de música nas festinhas pra arrecadar fundos pras instituições de caridade. É uma figura muito diferente, né? Ele é visto hoje dentro do Partido Trabalhista como o grande salvador pro futuro desse partido. E eu trago esse recorte pra vocês, né, desse personagem só pra vocês entenderem o frescor que ele tá trazendo pra sede do governo.
Ele me lembra um pouquinho o Mandani, o prefeito de Nova York. Não no histórico, mas no jeitão assim, carismático, jovial.
Exato, ele tá nessa nova leva de políticos populares, influencers, e ele quebra uma tradição, principalmente observando os últimos primeiros-ministros. A gente teve Rishi Sunak, Liz Truss, péssima, Keir Starmer, todos eles com jeito meio almofadinha, sabe? Sotaque de Oxford, chique. E o Andrew, ele vem remexendo esse caldo, né? Ele até parece alguém de fora da política tradicional, só que ele não é. Ele já tá queimando o pavio na política britânica já faz 30 anos.
Ele foi eleito pela primeira vez em 2001 como deputado. Foram 15 anos nessa peleja, assumiu ministérios do Tony Blair, Gordon Brown, tentou ser líder do partido duas vezes, não rolou, perdeu feio. E aí, Natuz, ele teve a ideia de mudar a carreira, dar uma virada na carreira, e ele passou então a se dedicar à política local. Ele foi para Manchester, que era a base dele, e ali ele foi eleito prefeito em 2017, estava no cargo até agora e foi justamente a política local que fez ele brilhar.
Para vocês terem uma ideia, Manchester sofreu muito, principalmente depois da década de 1960, com aquele processo de desindustrialização, muita crise, e hoje é aqui no Reino Unido a região com a economia mais pulsante, que mais cresce, está crescendo em média 3% ao ano, bem diferente do restante do Reino Unido. O FMI projeta na economia britânica um crescimento entre 0,8% e 1%. E o governo do Andy Burnham também coincide com essa fase da ascensão de Manchester.
Eu estive lá meses atrás na Tusa. É uma cidade pulsante, divertida, universitária, virou um polo tecnológico. E é por isso que o Partido Trabalhista deu um jeito de puxar esse cara lá de Manchester, fez vários malabarismos Arrumou uma vaga em Westminster, porque para ser primeiro-ministro ele tinha que ter uma vaga no parlamento. Então um deputado trabalhista saiu da vaga, fizeram uma eleição suplementar, ele ganhou da extrema-direita e aí ele veio de tapete vermelho para Downing Street.
E o que ele fez em Manchester para ganhar esses holofotes todos, para a cidade sair de uma cidade industrialmente deteriorada para essa cidade pulsante?
Natuza, ele criou um projeto de descentralização. Ele decidiu que as instituições locais, as comunidades, teriam autonomia para definir questões como saúde, educação, investimento de dinheiro. E talvez essa seja a característica mais pessoal que ele traz para Downing Street. Ele chamou isso de manchesterização. E não é uma ideia abstrata, ele testou isso na tese. O que isso vai significar na prática, Natuza? Ele vai transferir orçamento, planejamento de transporte, habitação, tudo que toca o dia a dia, o cotidiano do ele vai entregar para a autoridade local, para que a autoridade local defina o que deve ser feito.
O Burnham sempre bateu na tecla de que o modelo tradicional britânico é centralizado demais. Ele até usa uma expressão que ele fala: The Whitehall Way, ou seja, a Via de Whitehall, que é a rua onde ficam os prédios da administração pública do Reino Unido, em Londres. É como se fosse a esplanada dos ministérios britânicos, fica ali pertinho de Westminster. Então, o Burnham fala que esse sistema britânico é muito burocratizado, muito lento, cria um esquema de vencedores e perdedores geográficos, que seria o quê?
Londres e o sudeste do Reino Unido absorvendo investimento, enquanto o norte, que é mais industrial, segundo ele, fica mais esquecido. Então, ele quer descentralizar, ele quer dar mais poder e mais orçamento para as autoridades regionais. E ele também fala que as autoridades locais entendem muito melhor as prioridades da própria região do que um ministério de Londres. Então, ele fala em autonomia, em liberar inclusive investimento privado, porque isso vai criar uma certa previsibilidade no orçamento local.
E um exemplo que ele sempre traz na TUSA é o tal do Good Growth Fund, que é um fundo de 1 bilhão de libras, que a ideia seria reinvestir a receita local em projetos urbanos, isso de uma forma contínua para você desenvolver aquela região. Foi isso que ele fez em Manchester, tem dado muito certo. Vai funcionar em escala nacional? Não sabemos. Será que todas as regiões do Reino Unido vão ter esse capital de Manchester, né, essa mesma vibração de Manchester com tantas universidades? Não sabemos. Ele vai ter que provar na prática.
E pelo que você tá nos explicando, ele não é só que os americanos chamam de new kid on the block, né, que é o cara novato no prédio, no quarteirão e tal. Ele me parece uma espécie de última bala, talvez a bala de prata para o Partido Trabalhista para não perder poder, né? E eu te digo isso porque o ex-premier agora, né, o Keir Starmer, ele disse que sai com sorriso orgulhoso, que ele deixa, portanto, o cargo numa situação boa.
Mas os números mostram uma realidade bem amarga: 18% de aprovação popular segundo a pesquisa do YouGov. Então ele vem com essa missão, que é uma missão complexa, né, de resgatar o próprio partido.
Quando ele fez o discurso de despedida ali na frente em Downing Street, ele usou uma expressão que ele sai sorrindo, né, que ele sai com smile. Isso me lembrou muito aquela música da Lady Gaga, Die With a Smile, né, porque é isso, ele tá indo embora, tá afundando o partido sorrindo. Não sei de onde, onde ele tá tirando esse sorriso. Então lembrou muito quando eu ouvi ele falando isso, falei, meu Deus do céu, é dying with a smile.
O que aconteceu com o Starmer, Natuza? Um cara que liderou o Partido Trabalhista na maior vitória de 2024, tava mega popular e depois murchou e saiu aí pela tangente, né? Inclusive saiu dizendo que acabou com a carreira política. Faltou ele apresentar um projeto de país, faltou ele dizer a que veio, né? Ainda mais depois de 14 anos na oposição fazendo promessas, sem conseguir chegar ao governo. Então existia uma esperança, sabe, dos britânicos de que o Partido Trabalhista seria diferente, que seria um partido mais próximo das preocupações do povo, capaz de promover mudanças sociais.
E eu vou trazer pra vocês aqui 3 pilares principais pra essa derrocada do Starmer. Primeiro, faltou projeto. O Starmer não conseguiu apresentar nada que brilhasse os olhos dos britânicos. Eu vou dar um exemplo pra vocês. Na área de segurança, Ele anunciou, rufem os tambores, uma carteirinha de identidade. Isso é projeto, Natuza? Anunciar uma carteirinha de identidade para ajudar com a segurança das pessoas? Como é que essa carteirinha vai resolver o problema de segurança?
Todo mundo foi contra, direita, esquerda, virou uma piada nacional, engavetaram o projeto. Outro exemplo: imigração, que é a grande pauta eleitoral aqui da Europa. Ele disse que acabaria com os small boats, que são aqueles barquinhos que atravessam o Canal da Mancha ilegalmente, chegam no Reino Unido E ele até conseguiu reduzir esse número, viu? Assim, foi um ponto para ele. Só que a comunicação do governo dele foi muito falha.
O governo dele começou, Natuza, a compartilhar na internet, nas redes sociais, uns vídeos de algumas operações muito agressivas contra imigrantes. Parecia até aqueles vídeos dos Estados Unidos, do ICE, sabe? Então muitos britânicos ficaram chocados com aquela atitude do Partido Trabalhista. Ninguém imaginava. Todo mundo ficou: meu Deus, isso é um partido trabalhista de esquerda está dialogando agora com o eleitorado vizinho da extrema-direita?
E só para dar um contexto para vocês, a extrema-direita cresceu muito aqui no Reino Unido, está agora em primeiro lugar nas pesquisas e é um partido muito recente. O Reform UK tem 5 anos, foi recém-formado e eles estão bombando. Desde a última eleição eles já vinham despontando. Então, o Starmer tentou se comunicar com essas pessoas que estavam indo para o Reform UK, para o partido de extrema-direita. Só que isso gerou um gosto muito amargo para os eleitores do próprio partido.
Então, a galera de esquerda começou a migrar para o Partido Verde, que começou a abocanhar essas pautas da esquerda. Então, tudo isso foi desencadeando um processo, vou dizer, de liquefação do Partido Trabalhista. O Partido Trabalhista foi murchando e aí acendeu o alerta. O partido simplesmente estava desaparecendo. Um segundo pilar dessa crise na Tusa: Jeffrey Epstein. O Starmer, quando ele assumiu o governo, ele indicou para o cargo de embaixador nos Estados Unidos, ou seja, um cargo premium, todo mundo quer, um político do próprio partido que se chama Peter Mendelsohn.
Esse cara, o Peter Mendelsohn, ele tinha conexões com um bilionário americano que, como vocês sabem, foi condenado por crimes sexuais. Quando estourou o caso lá nos Estados Unidos, com a publicação daqueles milhares de documentos pelo Departamento de Justiça americano, rolo danado, essas conexões do Mendelsohn e do Jeffrey Epstein se mostraram ainda mais fortes. E aí o que era um embrólio político acabou virando um caso de polícia.
Pra vocês terem uma ideia, o Mendelsohn teve busca e apreensão na casa dele, enfrentou condução coercitiva para prestar depoimento, algo bizarro. De novo, usem a lente britânica para olhar todo esse caso. Talvez olhando pela perspectiva brasileira a gente ache até normal de tantos casos que acontecem, mas para o britânico É um grande escândalo pensar que um embaixador britânico no Reino Unido foi levado pela polícia. Além dele, o ex-príncipe Andrew, mas tudo bem.
Então você imagina se é um caldo de escândalo. Então foi um processo muito penoso para o Starmer, porque ele perdeu o chefe de gabinete, perdeu o secretário de comunicação, todo mundo deixando o governo, assumindo a culpa, tentando proteger o primeiro-ministro. Só que mesmo que ele não soubesse de nada na TUSA, fica uma mancha no currículo dele de primeiro-ministro, passa um recibo de um cara mal assessorado, está colocando o país em risco.
E pra azedar ainda mais esse caldo, teve ainda o batom na cueca, literalmente, que é a foto que tava lá no meio daqueles documentos divulgados pelo Departamento de Justiça americano, que mostra o embaixador britânico de cueca no apartamento do empresário, do Epstein, em Paris.
Nossa, os tabloides britânicos devem ter ido à forra, né, com uma foto dessa.
Não só os tabloides, BBC, toda imprensa respeitável também ficou extremamente chocada e publicou essa foto do embaixador de cueca. Como é que ele fala que não tinha conexão e o cara tá de cueca no apartamento do empresário em Paris? Então foi uma avalanche em cima do Starmer. E só para finalizar, um último pilar muito rapidamente, Natuza, é justamente esse momento político. Você cobre política há bastante tempo, você sabe que hoje em dia a gente tá num momento político personalista, de políticos personalistas.
Tem o Trump nos Estados Unidos, tem o Macron na França, tem o Sánchez na Espanha, todo mundo com muita personalidade. E aí vem o Starmer aqui no Reino Unido, sem graça, sem molho. Eu diria até que se o governo britânico fosse uma empresa, eu diria que o Starmer parece, sabe aquele bom funcionário certinho que chega no horário, mas que tá no lugar errado? Ele é justamente essa pessoa. Então ele sempre pareceu um líder fraco diante desses outros líderes, principalmente nessas reuniões de líderes que acontecem.
A gente acompanha muito G20, G7, COP. Ele sempre chegou muito murcho nessas reuniões. Então tudo isso Descredibilizou ele também para o eleitorado britânico. E você sabe, não existe vácuo de poder. Então outros políticos aqui do Reino Unido começaram a ocupar esse lugar. Então teve o Nigel Farage, que é do Reform UK, de extrema-direita, e o Zac Polanski, do Partido Verde. Os dois cresceram muito à medida em que o Starmer se apresentava como essa figura fraca, insoça, manca e capenga.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Murilo. E eu vou te pedir, Murilo, para você explicar o funcionamento um pouco rapidamente, o funcionamento das eleições britânicas, porque o Burnham tá dizendo que vai apresentar um plano para Grã-Bretanha de 10 anos. Ou seja, é um período bastante longo para você, para a gente ter uma ideia. A gente tá o quê, na sétima troca de primeiro-ministro desde 2016? Não dá tempo nem de decorar o nome do do premier.
Quando você começa a se habituar com a pronúncia do nome dele, já trocam de nome. Eu quero saber quando são as próximas eleições, quem são os favoritos e como é que o Burnham pode furar esse bloqueio do crescimento da extrema-direita no Reino Unido.
Natuza, quando o Burnham fala em projeto de 10 anos, ele tá sendo muito otimista, porque os últimos, como você bem disse, os últimos que vieram nessa sequência ficaram, alguns deles, inclusive a Liz Truss ficou 40 dias. Então ele tá sendo muito otimista. As próximas eleições britânicas vão acontecer daqui 3 anos, teoricamente, mas o primeiro-ministro pode pedir eleições gerais, pode dizer: olha, não consigo mais governar, não tenho mais base dentro do parlamento, vamos mexer essas cartas, eleições gerais.
Uma coisa interessante do sistema britânico é: quem vence a eleição não é o primeiro-ministro, é o partido.
Pelo sistema parlamentarista do Reino Unido, o eleitor escolhe o representante do seu distrito local. São 650 ao todo. O líder do partido com maioria no parlamento é convidado pelo rei a formar um novo governo e vira primeiro-ministro.
É por isso que a gente vê tanta troca de primeiro-ministro, mas a manutenção do partido. Pelo sistema britânico também, normalmente, de praxe, quem é o líder do partido assume também o governo central, assume Downing Street.
E antes disso puxa voto, né? Antes disso dá o emblema para a campanha do partido, né?
Isso, isso, exatamente. E é por isso que puxaram o Andy Burnham lá de Manchester para vir para Westminster virar um deputado e agora há pouco, na semana passada, na última sexta-feira, fizeram uma eleição de líder do partido e ele venceu. Já era um resultado muito esperado, ninguém se candidatou. Ele vai ter autonomia para decidir se fica, se sai. O que que ele vai tentar fazer para atrapalhar, para impedir que os outros oponentes dele vençam?
Primeiro, ele vai ter que se manter como figura popular. Porque os outros dois políticos, os outros dois candidatos, o Nigel Farage, da extrema-direita, o Zac Polanski, do Partido Verde, que é de esquerda, ambos têm uma roupagem e uma conexão muito forte com o eleitorado. Eles estão nas redes sociais o tempo todo, estão bombando. Eu mesmo já encontrei o Zac Polanski duas vezes, uma aqui em Hackney, outra em Peckham, no sul de Londres, e as duas vezes o cara estava com equipes de cinema filmando ele para fazer conteúdo de rede social.
E o Farage é a mesma coisa. O Farage, de extrema-direita, esses dias, semana passada, Ele foi fazer uma homenagem, entregar flores para uma ministra, uma ex-ministra britânica que foi assassinada, e vazou o bruto do vídeo dele esperando a câmera dar o rec para ele poder fazer a homenagem. Então são dois políticos muito bem treinados para as redes sociais e o Andy Burnham vai ter esse desafio de manter-se como uma figura popular, como uma figura muito forte, vai ter que manter o apoio do partido.
E principalmente, Natuza, vai ter que mexer no bolso do contribuinte, ele vai ter que fazer com que as pessoas sintam realmente o efeito financeiro dessa ascensão dele. Tanto é que segunda, ontem, assim que ele assumiu o governo, ele falou que vai lançar um novo programa para as pessoas que estão sofrendo agora com a economia britânica, com a economia desacelerada. Ele disse que não anunciou exatamente detalhes desse projeto, desse programa social, mas ele disse que vai já também nesses próximos dias dizer de onde vai sair o dinheiro.
Então ele faz um aceno social para base do partido, para o eleitor comum, ao mesmo tempo ele faz um aceno para o mercado. É por isso que ele se diz, ele fala que ele é um socialista pró-negócios.
E aí, para a gente finalizar, precisamos de contexto para esse estado de coisas, né? Porque se tivesse tudo bem na economia, se a situação do país estivesse estável, a extrema-direita não teria crescido e não precisaria achar uma solução uma solução ou uma gambiarra para colocar o Burnham lá no poder. Isso vem com o Brexit. Todo esse estado de coisas é resultado da saída do Reino Unido da União Europeia. O que que se diz sobre isso?
Desde o Brexit, desde a saída do Reino Unido da União Europeia, o britânico vem sentindo no bolso o impacto dessa desconexão com o bloco europeu.
E eles não querem voltar, não?
Os britânicos se arrependeram do Brexit, Natuza. Já fizeram várias pesquisas aí que mostram que se hoje houvesse uma votação, um novo plebiscito, eles ficariam no bloco europeu. Eles estão completamente arrependidos porque assim que eles deixaram a União Europeia, eles imaginaram que a política, que a economia iriam continuar naquela estabilidade e não continuou. Primeiro porque teve o impacto da COVID, que todo mundo inteiro sentiu e eles estavam completamente isolados.
Depois veio a guerra na Ucrânia. A guerra na Ucrânia impactou de forma direta o preço da energia, tudo muito caro. Eu mesmo morando aqui em Londres sinto esse, no inverno, absurdo a conta de energia para você aquecer uma casa. E depois disso ainda veio a guerra no Irã com os Estados Unidos, que impactou mais uma vez a chegada de óleo, de petróleo para o Reino Unido e isso consequentemente aumentou também o preço da energia. Então é uma montanha russa, uma bola de neve que não para de aumentar.
Eu vou separar essa resposta para vocês em duas camadas. A primeira é o Brexit, que é a ferida. Estrutural e também tem a instabilidade política, que é o sintoma mais visível que a gente tá vendo agora. Teve um estudo, eu anotei os números aqui, esse estudo fala o seguinte: até 2025, PIB per capita do Reino Unido ficou entre 6% e 8% menor do que teria sido sem a saída da União Europeia. O investimento caiu de 12% a 18% e a produtividade de 3% a 4%.
Lembrando que vários setores do Reino Unido sentiram também essa crise. Eu vejo isso com muita frequência no NHS, que é o SUS britânico, inclusive é o sistema de saúde que inspirou o nosso SUS. Boa parte das enfermeiras, dos enfermeiros, dos médicos, profissionais de saúde, pessoas que trabalham ali dentro dos hospitais, das clínicas da família, a maioria, a grande maioria é de estrangeiro. Com o Brexit, muita gente teve que ir embora do Reino Unido e faltam profissionais para preencher essas vagas.
Então tem esse sintoma muito latente do Brexit. Agora, sobre a instabilidade, hoje o Burnham é o 7º primeiro-ministro desde a saída do Brexit, desde a saída do Reino Unido da União Europeia nesses últimos 10 anos. Isso por si só já é um sintoma de erosão da confiança nas instituições. Eu tenho vários amigos de esquerda, de direita, eles já nem ligam mais para política, Natuzza, eles já nem sabem mais quem é o primeiro-ministro.
Imagina a gente no Brasil sem saber quem é o presidente. Essa é a situação, existe hoje um desencantamento com as instituições, coisa que a gente viveu lá em 2013 no Brasil, lembra? O gigante acordou, as pessoas na rua, aquele caos todo, ninguém sabendo por que pauta estava brigando. É o que está acontecendo hoje em dia no Reino Unido, um desencantamento geral sobre a política. E tem uma pressão forte da extrema-direita, que está muito organizada.
Os caras abriram partido em 2021, tem 5 anos. Hoje eles são a maior força política de oposição do país. Só que ainda não dá para saber se isso é uma marola, se esse discurso da extrema-direita vai se sustentar no longo prazo. Eles culpam muito a imigração por tudo, por acabar com o dinheiro dos programas sociais, por aumentar a fila no NHS, no SUS. Talvez esse discurso, que é de grande parte mentiroso, canse o eleitor. A gente só vai saber disso nas próximas eleições gerais, que podem acontecer em 3 anos ou menos.
E aí vem essa promessa da nova economia que o Berner vem fazendo, né? Ele traz o modelo de Manchester, que entregou crescimento para média regional. Agora, se isso vai funcionar na escala nacional com as amarras fiscais do Tesouro, com com o legado ativo do Brexit. Vai dar certo? Não é impossível, mas é um espaço de manobra estreito. São cenas dos próximos capítulos.
Quando eu te perguntei se os britânicos gostariam de voltar para o Brexit, você disse, olha, eles se arrependeram. Mas há uma diferença entre se arrepender e voltar para casa, assim, entre aspas. Há algo em pesquisa que remeta alguma vontade de retorno ou isso nem é discutido por aí?
Natuza, os britânicos em sua maioria gostariam de voltar para o Bloco Europeu, é o que mostram as pesquisas. A grande pergunta é: quem vai ser o político, o líder que vai ter esse ônus? Quem é que vai colocar essa papelada embaixo do braço? Porque o Brexit foi um processo traumático para a política e para a economia britânica. Foram anos e anos de negociação, mudando detalhes, burocracia. Para você ter uma ideia, até a forma como um caminhão de tomate sai da Europa e entra no Reino Unido teve que ser alterada com o Brexit, mudou o papel, aumentou o custo.
Então é um nível de burocracia da mínima para máxima potência. E isso tem um custo econômico muito forte. Isso custou muito para o Reino Unido e o Reino Unido não tem mais tempo para perder. O Starmer disse que gostaria muito de ver o Reino Unido voltando para a União Europeia, mas ele disse que no governo dele isso não ia acontecer. O Burnham também foi contra o Brexit, mas Até agora ele não manifestou, pelo menos oficialmente, que gostaria de tocar essa reconexão com o bloco europeu.
É um processo muito traumático e dificilmente alguém hoje, com essa economia tão instável, com essa política britânica tão instável, dificilmente a gente vai ver um líder com essa coragem e com esse fôlego de retomar o contato e a parceria com o bloco europeu.
Murilo Salviano, meu amigo querido, que delícia te ouvir. Siga fazendo esse excelente trabalho por aí.
Um beijo enorme.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Colaborou neste episódio Catarina Kobayashi. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.