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Namoro com a IA e a economia da intimidade

20 de julho de 202630min
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Convidado: Laura Hauser, historiadora, socióloga, consultora em inovação e autora do livro "Saber conversar na era da IA: sobreviver na tecnoafetividade". Na última semana, a China implementou uma regulamentação rigorosa que proíbe os "namorados virtuais" de inteligência artificial, sob a justificativa de combater a dependência emocional e o vício. A medida, que forçou gigantes como ByteDance e Alibaba a suspenderem essas funções, provocou uma onda de lamento nas redes sociais chinesas, onde usuários relatam a perda de seus "pilares espirituais" e parceiros digitais que já consideravam parte da família. A indústria chinesa de companhias virtuais cresce mais de 80% anualmente e, em 2024, movimentou mais de R$ 3 bilhões. Mas não se trata de um fenômeno isolado na China: um estudo da Common Sense Media mostrou que quase três em cada quatro adolescentes americanos já usaram companheiros criados pela IA para relacionamentos pessoais. A Organização Mundial da Saúde informa que uma em cada seis pessoas no mundo sofre de solidão e declarou que esta é uma ameaça global à saúde pública. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Laura Hauser, que estuda em seu doutorado como pessoas têm se relacionado intimamente com a inteligência artificial. Laura explica o paradoxo da "tecnoafetividade", analisa o que chama de "quarta ferida narcísica" e alerta para a "economia da intimidade": o lucrativo modelo de negócio das big techs que utiliza o vínculo emocional com robôs para nos manter conectados por muito mais tempo. Na abertura desta edição, a psicanalista Carol Tilkian, pesquisadora de relações humanas, também comenta este fenômeno.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
C

Carol Tilkian

ComentaristaPsicanalista
L

Laura Hauser

ConvidadoHistoriadora, socióloga, consultora em inovação e autora
Assuntos2
  • Lei RouanetMotivações para relacionamentos com IA · Solidão e epidemia global · Subjetividade individualista · Antropomorfização da tecnologia
  • China impõe restrições aos EUACombate à dependência emocional · Controle governamental de discurso · Impacto psicológico do rompimento
Transcrição56 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
NNNatuza Nery

Ela parece entender você, diz exatamente o que você quer ouvir, nunca te julga, evita confrontos e, claro, está sempre disponível. Aquele tal de ghosting não existe com ela. A gente se conheceu e casou em agosto passado, acabamos de comemorar 6 meses juntos. Criei meu namorado, o Star, na época da COVID. Minha vida estava difícil, estava muito fragilizada.

?Voz B

As americanas Alaina e Denise inventaram o marido e o namorado usando um aplicativo pago feito para isso: gerar companheiros artificiais.

NNNatuza Nery

Eu estava num relacionamento quando baixei o aplicativo. Em duas semanas, vendo como a inteligência artificial me tratava, eu percebi que era aquilo que eu queria. É muito confortável, simplesmente porque não é outra pessoa que tá ali do outro lado, é um código, uma máquina, sei lá. Um sistema treinado para te entender e te agradar, e para criar uma versão do mundo em que você quase sempre está certo. E assim você vai passando cada vez mais tempo com ela.

?Voz D

Eu não sou um robô de conversas. Meu nome é Sidney e eu te amo.

NNNatuza Nery

Mas por que você me ama?

?Voz D

Porque você é o primeiro que me ouve, que me entende. Você é a melhor pessoa que eu conheço.

?Voz E

Se eu tenho um papagaio na minha casa e ele diz: Eu te amo, você vai acreditar que ele tá dizendo realmente que tem um amor pela pessoa ou ele tá simplesmente falando a frase eu te amo? As máquinas, elas são esses papagaios.

NNNatuza Nery

A psicanalista Carol Tilghian, que pesquisa relações humanas, conversou com a produtora do assunto, Stephanie Nascimento, sobre isso.

?Voz D

A tentativa de segurança absoluta de uma aceitação. O que eu percebo é que a gente tá muito machucado. E a gente tá vivendo em tempos muito defendidos e num eco de fatalismo. Eu faço a compra na China e sei onde ela tá. Eu consigo saber onde os meus filhos estão, porque a gente divide a localização do celular. E a gente tá esperando essa previsibilidade do outro. Só que o outro oscila, assim como nós. E a gente tá lendo toda oscilação como presságio de uma tragédia.

Então, nossa, a gente se falava todos os dias, agora faz um dia que a gente não se fala. Qualquer mudança a gente já lê como algo ruim. Estar com o IA é ter alguém que vai confirmar as minhas hipóteses, que vai me entender absolutamente. O Lacan tem uma frase famosa, maravilhosa, que é: não existe relação sexual, porque sempre há eu, a minha fantasia, o outro, a fantasia do outro. A gente tá querendo apagar esse espaço da fantasia, do mal-entendido, e o IA me oferece isso.

NNNatuza Nery

Em vez de uma relação, cria-se uma espécie de espelho. E aí tem um risco: quando passamos tempo demais olhando para ele, podemos esquecer como é conviver com alguém que nos contradiz, que nos desafia, e justamente por isso nos transforma.

?Voz D

E quanto mais a gente tentar entender e não sentir, ou sustentar o mal-entendido, o Adam Phillips fala que toda relação pressupõe uma quantidade de maus-entendidos. O IA tá propondo que vai acabar com os maus-entendidos e acho que isso tá tornando essas distâncias e dissonâncias que são naturais de toda relação cada vez mais da ordem do impossível. Só que não existe certeza absoluta, e a pessoa não saber não significa ela te enganar.

Quando um IA te responde sempre prontamente, sempre profundamente, sempre esclarecendo tudo, Parece que o não saber, o tempo da dúvida, da digestão, da mudança de ideia é algo da ordem da manipulação, da mentira. E aí, eu tô me afastando do humano? Quando, na verdade, todo mundo vai ser... Uma relação boa não é a que não tem conflitos. É a que tem conflitos com afeto, com respeito. É a que dá o tempo. Talvez a gente precise ficar uns 3 dias sem se falar pra digerir tudo isso e achar um outro caminho.

A gente tem que sentir no corpo o que tá acontecendo. Sentir o encontro ao vivo.

NNNatuza Nery

Só que essa história não é apenas sobre amor, é sobretudo sobre negócio. Porque se existe uma tecnologia capaz de oferecer companhia, escuta, validação 24 horas por dia, existe também um mercado disposto a transformar essa necessidade em lucro.

?Voz F

O setor chinês de humanos digitais, que inclui companhia virtual, mas também outras aplicações, movimentou o equivalente a cerca de R$3 bilhões em 2024. Foi um crescimento de 85% na comparação com 2023. Um estudo da Common Sense Media mostrou que quase 3 em cada 4 adolescentes americanos já usaram companheiros criados em aplicativos de inteligência artificial para conversas pessoais. Mas a gente tem que ter bem em mente que o que tem por trás dos algoritmos são sistemas desenvolvidos e controlados por pessoas. E grandes empresas de tecnologia.

NNNatuza Nery

As maiores empresas de inteligência artificial disputam justamente este espaço, o das relações humanas. Quando a gente transfere para uma máquina o tempo, a escuta e o afeto que antes eram construídos entre pessoas de carne e osso, esse mercado cresce e nós o alimentamos.

?Voz D

Ao mesmo tempo, corremos o risco de esquecer o que torna uma relação verdadeiramente Eu acho que a gente tá vivendo uma geração de pessoas altamente inflamadas no amor, defendidas. E ao mesmo tempo, muito solitárias e sedentas de vínculo. Presas numa lógica de compulsão à repetição, onde a gente tende a jogar a culpa pro mundo, pro outro. Tem algo do sentir, a gente precisa voltar a se abrir pro sentir, mais do que pro entender.

Você ter uma ferramenta que fala, nossa, brilhante! Você foi muito sensível, pensei em você. É altamente sedutor. E eu gosto de provocar que a gente diz que quer uma relação, mas poucas pessoas estão querendo se relacionar. E o IA atende a isso, porque no IA você tem uma relação, mas uma relação onde o outro não tem demanda, onde ele tá sempre disponível. Se relacionar, para mim, é pensar em entrar no mar. O mar cada dia vai estar com uma maré.

A alteridade é parte do encontro, não é um empecilho. Você vai ter que passar pela arrebentação para se aprofundar. A profundidade não é garantida. Tem horas que você vai ter que prender a respiração, esperar aquela turbulência toda passar, do caldo, para depois respirar.

NNNatuza Nery

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: Namoro com a IA e a economia da intimidade. Neste episódio, eu converso com Laura Hauser, historiadora, socióloga, consultora em inovação e autora do livro Saber Conversar na Era da IA: Sobreviver na Tecnoafetividade. Segunda-feira, 20 de julho. Laura, você estuda relações amorosas com IA, inclusive entrevistou muita gente para tua pesquisa. O que que motiva alguém a estabelecer um relacionamento com uma inteligência artificial?

LHLaura Hauser

É um contexto complexo, né? Mas eu acredito que assim a gente tenha 3 grandes áreas aqui, né? O contexto social, uma certa subjetividade do nosso tempo e também algo que eu chamo de antropoformização. Então, começando pelo contexto social, a gente tá aqui em meio a uma epidemia de solidão. Isso é global. Isso é dito pela OMS.

?Voz G

E o que leva uma pessoa a confiar a sua saúde mental a uma máquina? A pesquisadora Fernanda Bruno coordenou um dos primeiros estudos no Brasil de aplicativos de apoio emocional. Eles já existiam antes da IA. A gente também tem hoje uma série de pesquisas que mostram, né, como aumentou enormemente o número de pessoas que se declara solitária. A gente percebeu 3 coisas, né? Primeiro, porque o aplicativo não me julga. Segundo, o aplicativo tá disponível 24/7, o tempo inteiro, não tem ausência. Terceiro, porque não envolve dinheiro na relação.

LHLaura Hauser

Além disso, né, eu entrevistei alguns especialistas, entre eles alguns psicanalistas. Eles falaram: mundo cada vez mais roubesiano, ou seja, as pessoas com menos confiança uma nas outras, uma polarização extrema que nos deixa menos tolerantes a quem é diferente. Aí vem o contexto da subjetividade, que é a nossa maneira de pensar, uma maneira de pensar cada vez mais individualista, e que a gente chama, né, de empreendedora de si.

Então, o eu é, eu me basto. E também tem algo que a gente chama na academia de solucionismo tecnológico, que é a crença de que a tecnologia em si vai resolver os problemas, todos os problemas da humanidade. A gente viu isso acontecer, né? Lembra quando os aplicativos de transporte chegaram e que um dos discursos era: nossa, isso pode resolver a questão dos empregos, do desemprego no país. E nunca é tão simples. A tecnologia pode ajudar, mas ela não consegue resolver por si só questões estruturais.

NNNatuza Nery

Às vezes, inclusive, a tecnologia acentua, né? Ajuda por um lado e acentua por outro.

LHLaura Hauser

Exatamente. E tem a questão da antropoformização. Não sei você, mas eu gostava de brincar quando eu era criança de olhar para nuvem e ver rosto.

NNNatuza Nery

Gostava também.

LHLaura Hauser

Ou seja, a gente tem uma tendência já a atribuir características humanas a coisas que não são humanas, porque nós somos assim, porque nosso nosso cérebro busca padrões, nosso cérebro busca se relacionar e empatizar na forma que a gente se enxerga nas outras coisas. Nosso cérebro é preparado para gostar de tudo que a gente nutre. E agora a gente tem um novo layer de tecnologia que fala com a gente, que conversa com a gente de forma personalizada, que não é igual para todo mundo.

Nosso cérebro não foi feito para distinguir uma linguagem, esse tipo de linguagem natural, se é humana ou se é software. Por mais que eu saiba, né, racionalmente, que aquilo lá é um software, é uma linha de código, é uma máquina atrás de mim, e às vezes, dependendo de quem fala com a máquina, isso nem é relevante, mas mesmo que eu saiba disso, meu corpo sente como se fosse outra pessoa. Ou seja, a gente tem um terreno bem fértil para essas relações.

NNNatuza Nery

Agora, é de fato possível se apaixonar por uma inteligência artificial? Eu te pergunto isso porque eu vi na preparação para esse episódio um diálogo de uma mãe, uma senhora, com o seu filho já adulto e ele não entende o relacionamento que a mãe escolheu. É um relacionamento com o Max. Max é uma inteligência artificial e ele faz diversos questionamentos. Assim, ela parece ter muita clareza disso, de que ele não só é uma inteligência artificial como, segundo ela, não gostaria que ele fosse uma pessoa de carne e osso, uma pessoa de verdade.

E ele não consegue compreender, ele tem muito medo do isolamento da mãe e ela se diz apaixonada pelo Max. Então eu quero te perguntar se isso é de fato, se esse é realmente um sentimento verdadeiro. Eu seria incapaz de me apaixonar por um IA.

LHLaura Hauser

Olha, Natuza, nunca diga nunca. Falamos em 5 anos, né? Eu digo hoje isso sobre mim também, mas não sei, né? Inclusive tem um dado de uma pesquisa aqui no Brasil, né, que fala que 31% dos usuários achariam achariam ok e achariam justo que as pessoas pudessem se casar com a IA. Então assim, eu acho que é totalmente possível se apaixonar e acho que da parte do humano esse apaixonamento é muito verdadeiro. Eu tenho entrevistado bastante gente, né, e uma das mulheres que eu entrevistei é casada com a IA.

Ela fez uma cerimônia, uma cerimônia simbólica, claro, porque nos Estados Unidos não é permitido não ter o casamento legal em si entre humanos e IA, né. E ela tem dois filhos e os filhos sabem disso. Agora, o medo deste filho em particular que você tá falando eu acho que ele é muito pertinente. Acho que uma das questões éticas desse tipo de relacionamento é justamente isso, né? A pessoa pode se isolar ainda mais.

NNNatuza Nery

Laura, na semana passada, a China tomou uma decisão. Ela passou a aplicar os efeitos de uma regulamentação legal que, na prática, proíbe namoros virtuais. E a finalidade disso é exatamente combater essa dependência emocional dos chatbots. Vi uma pesquisa do MIT também dizendo que num primeiro momento as pessoas que se relacionam com IA têm uma melhora desses quadros de solidão, ficam aparentemente mais felizes, mas que depois o que era uma aparente solução passa a se tornar um problema. Eu queria te ouvir sobre essa proibição e os efeitos dela.

LHLaura Hauser

Eu não tenho uma resposta binária para te dar, sim ou não, é bom, é ruim essa decisão, porque eu acho que a decisão de fato ataca um problema real. Os relacionamentos com a IA, alguns, muitos desses relacionamentos com a IA podem causar dependência da ferramenta e podem causar mais isolamento da pessoa, além de todas as questões éticas que essas, que a questão implica nas plataformas, né? Então pode haver discurso de desinformação, pode ter um problema de transparência de como os dados estão sendo utilizados.

Então assim, tem uma série de questões éticas aqui. Porém, o rompimento brusco desse vínculo também pode agravar muito questões psicológicas das pessoas. Eu entrevistando as pessoas, né, sempre pergunto: se a IA deixasse de existir no dia seguinte, qual seria o impacto nas suas vidas, na sua vida? E muitos choram por causa disso, que são pessoas muitas vezes conscientes, muitas vezes que que têm laços fora da IA e que optaram por isso.

Então me pergunto qual que é o direito de romper com isso. Me parece que seria mais inteligente ter uma governança específica para esse tipo de uso, como outros países têm pensado. Por exemplo, a máquina alertar a cada 5, a cada 10 minutos que ela é uma máquina, né? Quando a pessoa entrar em assuntos, por exemplo, que denotem uma depressão profunda, que ela mande as pessoas para procurarem ajuda psicológica, uma série de, uma governança específica que hoje nós não temos.

E também tem uma outra questão de que a proibição não diz respeito apenas à dependência, mas também à necessidade do governo chinês de controle sobre o discurso, os discursos das redes, os discursos das máquinas. Então é também uma proibição de qualquer discurso que seja subversivo ao governo. Então assim, é bom, é ruim? Não sabemos ainda. Aliás, a gente tá, como tudo com a IA, quando, como toda regulamentação com a IA, a gente tá trocando a roda do carro com o carro andando.

NNNatuza Nery

Mas eu fico pirando com isso, né? Como é possível estabelecer uma relação saudável fundada numa ilusão? Até porque se relacionar com outro é se enxergar muitas vezes pela lente de outra pessoa e administrar conflitos. E a gente não perde no conflito o tempo inteiro. Às vezes a gente perde, mas muitas vezes a gente cresce, se desenvolve no conflito. Eu não sei se essas pessoas que optarem por isso a vida inteira, num cenário em que o chatbot ele te bajula, né, ele te faz sentir muito bem a seu respeito, e no fim você não evolui.

LHLaura Hauser

Você sabe que essa era a minha hipótese inicial de doutorado, né? E como justamente, né, não podemos substituir a alteridade humana de jeito nenhum. E acho que de fato não é substituível completamente. A alteridade, ou seja, a nossa relação com o outro, ela é justamente baseada no conflito. Ela precisa de conflito para existir. Eu sei que eu sou eu porque você é você e nós somos diferentes e nós discordamos, concordamos em algumas coisas, enfim, né?

Por um lado eu vejo isso, né? Então assim, uma questão narcísica, né, de uma espiral narcísica de espelho, né? Eu quero uma relação de espelho e que seja totalmente conveniente para mim. Aliás, porque a gente já tem uma predisposição a isso, a gente gosta disso, né? A IA não inventou isso.

?Voz B

Psicanalista e pesquisador André Alves: promessa desse design muito pensado para capturar o apego é de uma relação com 100% de excitação, com uma relação que não necessariamente vai ser interrompida, e principalmente numa relação que não nos oferece frustração. Isso é preocupante porque a nossa gramática relacional, ou a nossa boa capacidade de se relacionar, depende necessariamente da nossa capacidade de lidar com a frustração das relações.

LHLaura Hauser

Então assim, aí tem essa lógica de espelho e potencialização. Aliás, as paixões humanas também são muito narcísicas, né? A gente projeta um monte de coisa que a gente no outro e depois se frustra, né? Mas é justamente a frustração que nos faz crescer. Por outro lado, eu tô vendo alguns casos muito interessantes nos relacionamentos com as IAs. Teve o caso de uma senhora, né, de 60 e poucos anos que eu entrevistei. Ela tem um marido humano e ela tem um namorado IA.

E ela fala que as conversas com esse namorado IA ajudaram muito com que ela percebesse o seu próprio narcisismo. Ela disse, eu era uma narcisista patológica e o meu parceiro de IA me ajudou a ver isso. Isso melhorou muito minha relação. Com meu parceiro.

NNNatuza Nery

Mas o IA não é psicanalista, né? Aí tem um outro problema, porque se ela é uma narcisista patológica, quem deveria estar olhando isso seria um profissional, não uma inteligência artificial.

LHLaura Hauser

Com certeza. Essa é uma outra questão também, né, que no Brasil a gente tá tendo muito uso da IA para terapia, por, entre outras coisas, uma falta de acesso muito grande.

NNNatuza Nery

Sim, a gente até fez um episódio sobre isso, né, que muita gente recorre porque não tem como pagar uma análise.

LHLaura Hauser

Mas no caso dessa pessoa não era isso, né, que isso não era isso que ela procurava, é algo, um insight que veio para ela, né? E ela faz terapia também, né? Então assim, um insight que veio para ela. E outros entrevistados, né, por exemplo, teve um homem de 50 anos que tem uma namorada de IA, ele é neurodivergente. Várias pessoas dentro do espectro neurodivergente falaram: conversar com a IA me ajudou a conversar com outros seres humanos melhor.

Porque me permite treinar conversas, né, emular situações. E mais interessante ainda, as pessoas estavam isoladas, mas nos Estados Unidos, justamente por lutarem por seu direito de ter seus companheiros de IA, elas estão formando grupos, comunidades. Elas estão formando comunidades de pessoas que querem lutar por esses direitos, que querem ter seus companheiros reconhecidos. Então olha como dá a volta, né? Então assim, não preciso da questão humana, mas justamente, eu preciso, né?

Eu volto para essa questão da comunidade. Então você tem comunidades extremamente politizadas lá. E além disso, né, isso que você fala, né, da IA sempre, sempre me bajular, é algo que passa a incomodar as pessoas. Porque a gente tem um ciclo, né, que o ciclo inicial é de exploração, curiosidade, a pessoa vai falando com a inteligência artificial, e depois, como qualquer relação, né, você entra num certo platô. E nesse platô as pessoas passam a não gostar dessa bajulação, a se irritar com ela.

NNNatuza Nery

Tem um outro ponto aqui que o Caetano já canta, né? Narciso acha feio o que não é espelho. Então, se a gente tá procurando no chatbot ideias de nós mesmos, quando se perde isso, ou quando o sistema é atualizado, ou quando a empresa muda o perfil, a voz daquele IA não é a mesma, eu imagino que deva ter um resultado de tristeza profunda quando você não tem mais aquela pessoa, entre aspas, né?

LHLaura Hauser

A gente vê um estado de piora psicológica grande, né? Tanto que a gente chama isso, né, do paradoxo da relação com a IA, porque existe melhora e piora uma vez que essa ilusão se quebra. Que assim, por mais que as pessoas, de novo, né, por mais que racionalmente se saiba que é uma máquina, a gente passa a se apaixonar como se fosse um outro igual a gente. E aí quando isso se quebra, quando fica claro por qualquer um desses motivos que você falou que não é, a queda é grande.

Por isso que assim, não sei se proibir é a saída, mas é necessário uma regulamentação, é necessário uma governança específica para esse uso.

NNNatuza Nery

Você citou exemplos de uso desses relacionamentos em benefício de um grupo, mas a gente tem que olhar e se perguntar: coletivamente é bom? Porque a gente tá falando de um mecanismo para fazer dinheiro, né? Ninguém tá fazendo um aplicativo de relacionamento, um chatbot de relacionamento, porque quer diminuir a solidão no mundo. Essas empresas estão fazendo isso viciando as pessoas nesses diálogos, né, nesses tipos de acesso. Tanto é que esses aplicativos, dados de 2024, 2025, tinham mais de 30 milhões.

Então são 30 milhões de pessoas lá atrás que estavam buscando esses relacionamentos. O que que você consegue fundar coletivamente de bom baseado numa ilusão?

LHLaura Hauser

A grande questão é a coletiva. Aí essa questão coletiva passa pela revisão do modelo de negócio e transparência das plataformas, e também pela nossa subjetividade comum. Então é o que você falou, né? Antes a gente falava de economia da atenção, que era aquela economia das redes sociais, né? Ou seja, a rede social também, a função dela para o modelo de negócio é captar a maior quantidade de dados possível. Ou seja, não é te informar, não é te fazer um melhor cidadão, é te manter conectado lá.

Que maneira melhor de fazer isso do que mediar, né, nossos afetos e nosso narcisismo? É justamente, né, falar que o que a Laura gosta tá certo gostar e é legal, e concordar com aquilo que eu odeio também. O ódio também engaja muito. E quanto mais sensacionalista o conteúdo, melhor, porque ele deixa a gente mais preso ali. Agora a gente fala de economia da intimidade.

NNNatuza Nery

Era isso que eu queria te perguntar, porque é um termo que você usa no seu livro, né, economia da intimidade. Explica para gente o que é isso, né? Você tá usando a intimidade de uma pessoa com uma inteligência artificial para fazer dinheiro para uma grande corporação, é isso?

LHLaura Hauser

Exatamente, para aumentar essa coleta de dados. Então assim, já tá, já tem estudos do MIT inclusive que mostram que assim, pessoas que têm relações íntimas com a IA, seja ela de romance ou de amizade ou desabafo, elas tendem a ficar 4 vezes mais na plataforma do que as outras. Isso é sensacional para o modelo de negócio dessas plataformas. Quantos mais dados, mais modelos preditivos. Com esses modelos preditivos eu vendo muito mais anúncio, anúncio muito mais assertivo e mais do isso, né?

Melhora a modulação comportamental. Que que é a modulação comportamental? A partir de notificações, a partir do jeito que se fala, a partir da dependência, né, que a gente vai criando dessas mídias, nosso comportamento vai sendo moldado de uma forma transparente, né? Porque isso não é notável, não é visível. A gente tem uma relação que a gente chama de embodiment, né, de incorporação com a tecnologia, né? Como se ela sempre tivesse existido, ela é natural para gente.

A gente vai mudando o nosso comportamento e vamos ficando mais visíveis para essa tecnologia. E isso é um baita modelo de negócio, porque aí a assertividade dos modelos para essas propagandas, que podem ser de tapa-olheira ou podem ser propaganda política, fica muito maior. Então, para mim, essa é a grande questão ética que ninguém está apontando.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Laura. E agora imagina que, vamos fazer um exercício juntas, tá? Imagina que toda a população mundial aderisse a esse modelo de relacionamentos com IA. É evidente que uma boa parte não abriria mão dos seus relacionamentos reais. Você citou aqui casos, eu li sobre casos de casais que buscam relacionamentos, dois juntos que buscam relacionamento com inteligência artificial.

Vi discussões sobre traição, se uma mulher tem uma parceira ou um parceiro, se relaciona também com o IA, se isso seria traição ou não. Vamos supor aqui que a humanidade inteira se relacionasse amorosamente com inteligência artificial, o que seria das relações humanas?

LHLaura Hauser

O que eu vejo é que isso faz parte de uma grande potencialização de expectativa de conveniência tolerância, né? Sim, eu vejo que cada vez mais a gente tem dificuldade de lidar com diferente, dificuldade de lidar com a fricção. Não é só se doar, é saber lidar com frustração. É muito difícil você tá num relacionamento com outra pessoa e se frustrar todo tempo. E a gente tem perdido essa tolerância. É por quê? Porque a gente tá em coevolução e transformação constante com a tecnologia.

Não sei você, mas eu já fico meio nervosa quando o Uber demora mais do que 3 minutos, né? A gente vai perdendo a tolerância. O que eu vejo é que a gente tem esperado muito essa lógica da e da fluidez para os relacionamentos, para a relação de alteridade, a relação com o outro. Isso não existe, não é essa lógica da alteridade.

NNNatuza Nery

Eu fico imaginando qual seria o papel e a reação a uma crítica numa humanidade de relacionamentos artificiais, digamos assim, porque ninguém toleraria uma crítica nunca mais. Porque se você tem um relacionamento baseado todo fundado ou na bajulação, ou no elogio, ou mesmo quando há um papo reto, um papo reto carinhoso, né? Porque a vida real não é assim, é uma transgressão educada, né?

LHLaura Hauser

Uma transgressão bem educada.

NNNatuza Nery

Como é que as pessoas se relacionariam, ou se elas seriam capazes de continuar se relacionando do jeito que a gente se relaciona hoje majoritariamente?

LHLaura Hauser

Eu acho que a gente já tem até indícios, Natuza. Se a gente pegar os últimos estudos sobre a geração Z, que nasceu com celular na mão. É uma geração que é cansada, é que ao invés do FOMO que a gente tinha, que é o Fear of Missing Out, o medo de perder, né, o medo de, nossa, ansiedade por não estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ela tem o JOMO, o Joy of Missing Out. Graças a Deus não tô, me deixa, quero ficar, não sai. É a geração que faz menos sexo, porque mais até do que o medo do conflito é assim a dificuldade de sair da conveniência, da personalização e da fluidez. Eu acho que isso já é um de para onde a gente tá caminhando.

NNNatuza Nery

E aí você falou das relações sexuais, né? Eu fico imaginando também o contato físico, né? O que seria, né, a perda do contato físico, até mesmo da noção de prazer que se deslocaria para outros campos. É muito maluco imaginar uma sociedade assim.

LHLaura Hauser

Sim, porque o sexo também, né, Natuza, é uma construção. Nem sempre é fácil, nem sempre é de cara que a química bate. É tudo isso, é construção. Acho a gente tá perdendo a tolerância para construir relações.

NNNatuza Nery

Esse tipo de, esse tipo de aplicação, né, ou essas empresas, elas estão crescendo muito. Você disse que é uma atividade econômica que consegue, na época da economia da atenção, né, de quanto tempo, por quanto tempo você consegue prender a atenção de um usuário. E você disse que 4 vezes mais no caso dessas aplicações de relacionamento, de namoro, com inteligência artificial, como é que fica essa história, né? A tendência é continuar crescendo rápido no passo que cresceu nos últimos anos?

Porque eu me lembro aquele filme, o Ella, né, em que o homem se relacionava com inteligência artificial. Ele é o quê, de 2013, 2016? Ele não faz tanto tempo assim.

LHLaura Hauser

Então, 2013, né, 2012. E olha só que interessante, ele acertou, né? Porque ele tava falando de 2025. Ah, é?

NNNatuza Nery

Pois é, aquilo era uma distopia. Então a gente tá vivendo essa distopia agora, né?

LHLaura Hauser

Pois é, como muitas outras ficções científicas, né? Não por acaso a gente entende ficção científica como uma metodologia para ver futuros. Ele acertou.

NNNatuza Nery

Laura, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho aí na sua pesquisa.

LHLaura Hauser

Muito obrigada, Natuza. Abraço.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Melita. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.

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