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O legado de Fernando Haddad na economia

20 de março de 202633min
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Convidado: Thomas Traumann, comentarista da GloboNews, colunista do jornal O Globo e autor do livro “O pior emprego do mundo: 14 ministros da Fazenda contam como tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram no seu bolso”. Nesta quinta-feira (19), Fernando Haddad encerrou sua gestão à frente do Ministério da Fazenda. No mesmo evento, o presidente Lula anunciou o substituto: o então número 2 da pasta, Dario Durigan, que ocupava o posto de secretário-executivo. Horas depois, o PT confirmou que Haddad é pré-candidato ao governo de São Paulo. O balanço da gestão registra vitórias e derrotas. Haddad ganhou a pecha de ser um ministro que aumentou excessivamente os impostos e viu a dívida pública subir 7 pontos percentuais no período – está em quase 79% do PIB. Nos índices macroeconômicos, ele deixa o cargo com a inflação dentro do teto da meta, desemprego na menor taxa da série histórica e recorde na renda média do brasileiro. E o PIB cresceu acima das expectativas em todos os anos. Nos pouco mais de três anos em que comandou a Fazenda, Haddad conseguiu viabilizar a aprovação de pautas como o arcabouço fiscal, a reforma tributária e a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Thomas Traumann para analisar o legado de Haddad na economia brasileira. Ele, que é comentarista da GloboNews, colunista do jornal O Globo e autor do livro “O pior emprego do mundo: 14 ministros da Fazenda contam como tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram no seu bolso”, explica o que deu certo e o que deu errado nesses três anos – e projeta os desafios da economia brasileira para a eleição e após.
Assuntos15
  • Lei RouanetGestão do Ministério da Fazenda · Principais realizações · Críticas e limitações · Transição para Dário Durigan
  • Indicadores Macroeconômicos PositivosCrescimento do PIB acima das expectativas · Taxa de desemprego em mínimos históricos · Inflação dentro da meta · Renda média do trabalhador em recorde
  • Indicadores e Percepção PopularDistância entre estatísticas econômicas e satisfação da população · Affordability e custo de vida · Endividamento de famílias e empresas · Falta de bem-estar apesar de crescimento salarial
  • Reforma TributáriaUnificação de impostos de consumo · CBS e IBS · Desoneração de investimentos · Competitividade e produtividade
  • Taxação dos Mais RicosTaxação de dividendos · Fundos exclusivos offshore · IOF · Fundos fechados · Apelido 'Taxade'
  • Arcabouço FiscalSubstituição do teto de gastos · Correção por crescimento do PIB · Funcionamento condicionado a crescimento econômico · Falta de contenção real de gastos
  • Relação Haddad-Mercado FinanceiroTrês atos da relação: desconfiança inicial, lua de mel, ruptura · Decepção do mercado com nomeação · Construção de confiança no primeiro ano · Rompimento após anúncio de isenção de imposto de renda
  • Impacto EconômicoTaxas de juros em 10,25% · Patamar histórico desde 2006 · Impacto da dívida pública · Endividamento generalizado · Resistência à contenção de gastos
  • Dívida PúblicaCrescimento de 7 pontos percentuais · Chegou a 79% do PIB · Aumento de 56% para 10 trilhões de reais desde 2008 · Previsão de continuidade de crescimento
  • BolsonaroPreparação de Flávio para a candidatura · Busca por ministro da economia · Impossibilidade de encontrar Paulo Guedes · Estratégia de vagas promessas econômicas · Empatia com Lula nas simulações
  • Economia do Governo LulaConflito entre Casa Civil e Ministério da Fazenda · Resistência interna do PT à política fiscal · Falta de coordenação entre ministérios · Segurança em decisões econômicas
  • Estilo e Gestão de HaddadLiderança reservada e confiante · Medo de vazamentos · Centralização de decisões · Falta de coordenação interministerial · Desconfiança da Casa Civil
  • Decreto do IOF e Derrota no CongressoImposto sobre Operações Financeiras · Decisão centralizada e secretista · Reação chocante de grupos econômicos · Anulação pelo Congresso em 1992
  • Candidatura Lula 2026Continuidade da política econômica · Cardápio de realizações para campanha · Desafios de comunicação · Estratégia eleitoral
  • Meme e Alcunha 'Taxade'Origem do meme com taxação de blusas importadas · Evolução do apelido ao longo do tempo · Reapropriação do termo por Haddad · Uso político da alcunha
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Hoje, para mim, é um dia especial, um dia que eu estou deixando o Ministério da Fazenda. E nesse dia eu gostaria de agradecer as pessoas que estão aqui. Fernando Haddad encerrou na quinta-feira o seu ciclo à frente do Ministério da Fazenda. Acompanhado de 13 ministros, do vice-presidente Heraldo Alckmin e, claro, de Lula, ele se despediu do cargo em um evento em São Paulo, estado onde ele será candidato ao governo. Qual que é o melhor arranjo para a gente se apresentar para São Paulo com as melhores chances de vitória

E o substituto já foi anunciado, Dário Durigan. Até aqui, o número 2 do Ministério da Fazenda.

Uma das principais mudanças da reforma é a unificação de cinco impostos de consumo.

Sumem apenas um. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 10 milhões de brasileiros passam a ter isenção total do imposto de renda. E outros 5 milhões entram na faixa progressiva de desconto. A taxa de desocupação ficou em 5,4%. Ao longo do ano, essa taxa foi caindo, foi caindo aos poucos, até chegar ao menor patamar da série histórica.

De fato, teve um crescimento e acima da inflação, mostrando que tem um ganho real. As famílias tiveram a sua melhora no seu orçamento em 2025. Agora vamos falar de inflação. O IPCA fechou 2025 em 4,26%, a menor taxa anual em oito anos. Com esse resultado, a inflação ficou abaixo do teto da meta perseguida pelo Banco Central. Lembrando que o teto é de 4,5%.

No campo das derrotas, uma situação fiscal que preocupa e que piorou ao longo do tempo. Além disso, o que as pesquisas de opinião registram é um verdadeiro abismo entre os indicadores macroeconômicos

tem no dia a dia de suas vidas. O que está por trás disso? Eu desconfio que a gente vai ter a primeira eleição no Brasil em que aquilo que os norte-americanos chamam de affordability, que é a capacidade de custear a sua vida, será o importante. Poder de compra, o fator do custo de vida. Exato. Estes elementos, na minha visão, vão ser fundamentais para entender por que o número oficial é bom, mas a percepção é ruim. Porque mesmo a renda tendo crescido, e os brasileiros dizem nas pesquisas da Quest que a renda deles, na grande maioria,

Aumentou, mas o custo de vida aumentou tanto quanto ou mais. E isso não produz sensação de bem-estar. É por isso que os eleitores, na pesquisa da Quest, dizem que a economia está piorando e, como você sabe, o incumbente paga um preço quando a percepção é desse jeito.

Bom, Thomas, depois de mais de três anos à frente da equipe econômica, Haddad está fora do Ministério da Fazenda e eu quero te perguntar o que ele deixa em termos de legado.

A sua gestão. Então, eu acho que o legado é muito pelas circunstâncias. Eu acho que ele deixa uma reforma tributária que estava há décadas sendo discutida junto com o Congresso e que não saiu do lugar e que só saiu porque ele botou o secretário Bernardo Api para tocar esse assunto. O novo modelo não entra em vigor imediatamente. Vai ser aos poucos. Os cinco tributos que existem hoje vão virar dois IVAs. Um gerenciado pelo governo federal, chamado de CBS.

Outro gerenciado por estados e municípios, o IBS. E esses dois tributos passam a ser cobrados somente no fim da cadeia de produção, quando o bem ou serviço é consumido. A gente vai ter ganhos de competitividade porque o investimento vai ficar desonerado, vai ficar mais barato investir. Então a produtividade do país vai aumentar, o crescimento tende a aumentar também. Ele deixa um substituto, o teto de gastos, que o arca-bolso, com todas as críticas que a gente vai ainda falar sobre isso.

o principal discurso do presidente Lula para a sua reeleição, que é uma justiça tributária, como o PT gosta de chamar, que é a ideia de que você isentou o imposto de renda até 5 mil reais e começou a taxar dividendos, começou a taxar vários fundos exclusivos, off-shore, vamos dizer, taxar o andar de cima, como diz o próprio Haddad. E você considera que ele teve êxito nesse propósito de enfrentar o andar de cima?

Eu acho que a algeriza que o Haddad hoje exerce na Faria Lima e na elite brasileira é uma prova de que ele conseguiu, vamos dizer, pelo fator inverso. Eu acho que sim, esse era o objetivo dele e isso ele entregou. A ideia é que, e que é interessante no fato que os dois primeiros, tanto os dois primeiros governos, Lula como no governo em meio da Dilma, a esquerda nunca tentou fazer isso, nunca tentou de fato.

aumentar a taxação para os mais ricos. E essa foi a primeira vez que se conseguiu. Junto com a sanção do salário mínimo e da nova tabela do imposto de renda, que é a taxação das chamadas offshore e dos fundos fechados. Muitas vezes eu vejo na imprensa isso ser tratado como uma espécie de ação Robin Hood, de uma revanche, e não é nada disso. O que nós estamos levando à consideração do Congresso é aproximar o nosso sistema tributário

do que tem de mais avançado no mundo. Além das mudanças no imposto de renda, além da reforma tributária, você citou o arcabouço. Eu nem gosto dessa palavra porque ela comunica muito mal. O que é arcabouço? Parece um calabouço. Eu queria te entender melhor sobre isso, porque na sua primeira resposta você disse, vou entrar nisso daqui a pouquinho. Eu queria que você mergulhasse nessa estrutura de gestão fiscal,

instituída por Fernando Haddad. Então vamos lá para explicar um pouco para os nossos ouvintes. O maior problema que o Haddad deixa é o fato que as questões fiscais ainda não foram resolvidas. Não só não foram resolvidas, mas ainda podem piorar no próximo governo, nos próximos anos. No governo Dilma, a questão fiscal estava totalmente descontrolada e quando entra o governo Temer, eles criam o teto de gastos. Quem é mais velho lembra o teto de gastos basicamente fazia que todos os orçamentos

brasileiro ia ser só corrigido, só pela inflação. O que significou, no fundo, um congelamento do salário mínimo, um represamento de vários gastos com servidores, etc. Já no governo Bolsonaro, eles começaram a criar exceções, porque aquilo não estava funcionando. A forma de engessamento muito grande dos gastos públicos. Quando o Haddad entra, ele entra com uma solução muito inteligente. Eu conversei com vários economistas na época e mesmo agora. A solução de você fazer uma correção por parte do crescimento

PIB, ela é inteligente. Qual era o problema? E esse é o grande problema da gestão Haddad. É que esse arcabouço só funcionaria se o Brasil crescesse muito e você tivesse uma arrecadação de impostos maior. Quer dizer, como diz o Lula, se a roda rodasse. O Brasil, de fato, cresceu nesses três anos. Foram dois crescimentos de 3% do PIB e um último de 2%. A arrecadação de impostos nunca foi tão grande, em função de toda a política do Haddad e tal.

mas não houve corte de gasto nenhum. Então, como não houve nenhuma contenção de gastos, você tem uma situação em que o sujeito fala, olha, eu tenho que reduzir, eu vou fazer um regime, só que ele continua tomando cervejinha no fim de semana, ele continua indo para o churrasco, etc. Como a política do Haddad nunca foi de contenção de gastos real, ela fica com um problema, e esse é o problema que o próximo governo vai herdar.

O ministro Fernando Haddad, ex-ministro Fernando Haddad agora, o chamou de taxade. Eu queria saber a gênese do apelido e como esse apelido foi sendo usado ao longo do tempo. Começa com um meme logo depois da taxação das blusinhas. No fim, foi como os governistas queriam, né? A compra de qualquer produto vinda de qualquer país, que seja de até 50 dólares,

E esse meme, na época, ele fica meio parado, porque o Haddad ainda não, as coisas estavam mais ou menos indo bem no primeiro ano do governo Lula, mas ele cresce com o tempo, ele se torna quase que o segundo nome do ministro da Fazenda, depois que ele faz o IOF no ano passado, depois que ele faz a taxação sobre os fundos exclusivos, sobre dividendos, sobre bet, sobre fintechs, ou seja, como ele aumentou as alíquotas de imposto sobre várias atividades,

Empresariais, daí não tem jeito. Daí ficou cravado na testa dele como o taxade. Ele mesmo, Natuza, depois de um tempo, ele começou a assumir isso. Ele virou o jogo. No início, aquilo irritava muito ele. Mas depois, no final, ele ia falar, ah, eu sou o taxade mesmo. Eu sou o taxade que taxa os ricos. Eu tenho certeza que ele usará isso ao longo da campanha dele para a governadora de São Paulo. Fazendo uma limonada de um limão, é isso? Exatamente.

Ampliando essa discussão que a gente está fazendo aqui, os indicadores da economia melhoraram, o PIB cresceu acima da expectativa, como você já citou, isso em todos os anos. A inflação, o desemprego está baixo, massa salarial do trabalhador chegou a um nível recorde. Então, Haddad tem aí um cardápio a apresentar. Mas tem um paradoxo aí.

não acompanhou essa melhora. A Quest, por exemplo, mais recente, apontou que 48% dos brasileiros dizem que a economia piorou no último ano. Como explicar esse paradoxo? É, isso eu acho que é uma questão que não é só no Brasil. Eu acho que isso é uma coisa que na pós-pandemia está acontecendo no mundo todo. Os países saíram da pandemia, muitos começaram a crescer muito, estavam saindo de uma recessão, mas a preços diferentes.

Então, vamos pensar aqui, o Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos dois anos atrás reclamando do ovo a um dólar. E hoje o ovo lá continua perto do dólar. Nova York, a campanha no ano passado, foi só sobre custo de vida. Enfim, a questão é que os preços no mundo todo estão mais altos. E no Brasil também. Então, apesar de você ter índices melhores, as estatísticas deste governo Lula 3 são as melhores desde Lula 2. Acho que isso, no geral, não dá para duvidar disso.

sensação de satisfação na população. A parte disso é por causa da polarização? Não há dúvida nenhuma que parte disso é polarização política. Porém, uma parte real é que as pessoas não estão conseguindo pagar as suas contas no fim do mês. Elas estão perdendo a corrida da inflação. Ou porque elas têm dívidas, porque os juros estão altos, porque alguns preços realmente ficaram muito mais altos na saída da pandemia, mas o fato é, as pessoas não estão felizes, por mais que existam inúmeros. Muita gente fala, ah, ninguém come PIB,

Ninguém come estatística. Então, eu acho que esse é um problema real que o governo Lula tem, é de conseguir explicar que, embora os números estejam bons, por que as pessoas não estão satisfeitas com o governo? Eu acho que é um problema de comunicação, mas também é um problema de o governo não conseguir atingir o dia a dia das pessoas. E tem o fator juros também, porque, a despeito de tudo isso, os juros brasileiros estão nas alturas.

0,25%, mas é um patamar altíssimo de juros no país. E a gente vive numa nação muito endividada. Empresas estão endividadas, famílias estão endividadas. Então, talvez o fator, juro, porque veja, eu concordo contigo que a comunicação talvez não esteja convencendo. Mas quando você tem um alicerce de melhoria, não precisaria nem tanta comunicação assim. Tem alguma coisa acontecendo que está neutralizando essas

melhorias todas e me parece que os juros são um ponto muito objetivo nessa conta. Sim, os juros são assim como o endividamento padrão, né? As pessoas, eu acho que tem os preços que estão mais altos e os juros ajudam isso. E aí por que os juros estão tão altos? Os juros estão tão altos por causa da lua, por causa do zodíaco? Não, os juros estão mais altos porque os gastos do governo são tamanhos e a dívida fiscal brasileira está subindo tanto que o mercado exige um valor

valor maior para rolar a dívida brasileira, a dívida interna brasileira. Em 2008, quando o Banco Central adotou a atual metodologia, a dívida pública correspondia a 56% do produto interno bruto, mais de um trilhão de reais. No final do ano passado, chegou a 10 trilhões. E a previsão do próprio governo é que essa dívida continue crescendo nos próximos anos. Então, você tem uma questão que é, como este governo é um governo que gasta mais e se orgulha disso, de gastar mais,

Isso tem um impacto natural na economia e faz com que os juros sejam maiores. Então, o governo tem responsabilidade no crescimento desses últimos três anos, porque foram incentivos, vários incentivos dados pelo próprio governo, mas também tem responsabilidade não só pelo bônus, mas pelo ônus, que são os juros mais altos desde 2006. Ou seja, o governo tem a sua responsabilidade, porque não fez aos olhos do mercado essa tarefa de casa, mas não é o responsável sozinho. É uma história.

de gestão assim. Sim, o país está com déficit, com exceção de 2022, que foi um superávit forjado, você não tem, o país está em déficits públicos desde 2015. Então, enfim, você tem uma situação que não é desse governo, mas que não foi totalmente consertada por esse governo. Eu queria explorar um pouco mais essa relação de Haddad com o mercado. Acho que dá para dividir essa relação em três atos, Tom.

O primeiro ato pré-eleição de 1922 e depois, no comecinho ali do governo de transição, em que Fernando Haddad era mal visto pelo mercado. Depois alguma coisa acontece, isso se inverte, ele passa a ser visto como uma espécie de elemento de segurança de que a administração das contas públicas se daria pelo menos mais blindada das pressões do PT, por exemplo.

vem com uma nova inversão, ele passa a ser novamente mal visto pelo mercado. Que marcos foram esses que alteraram essa percepção e essa relação? Da lua de fel para a lua de mel, da lua de fel. O mercado não tinha, o mercado tinha uma ilusão que o Lula, embora tivesse sido eleito com uma plataforma completamente de esquerda, fosse pegar um nome conservador para a economia.

wishful sink no mercado financeiro, quando o Lula colocou alguém que ele confiava no Ministério da Economia, o que seria extremamente natural, o mercado teve um desapontamento. E aí tem um trabalho real do Haddad, da equipe dele, de tentar construir no primeiro ano uma relação com o mercado financeiro, não só de conversas, mas de mostrar, tanto na aprovação da reforma tributária como na substituição do teto de gastos pelo arcabouço fiscal, que havia uma tentativa,

olha, nós não somos liberais, nós não somos ortodoxos, porém, nós não somos malucos. Você já entendeu que, olha, nós queremos chegar num superávit, esse superávit não vai ser alcançado da forma como vocês querem, não vai ser com a velocidade que vocês querem, mas será alcançado num ritmo que preserve os gastos sociais. Então, eu acho que houve ali um realismo do mercado financeiro no primeiro ano. O segundo ano começa pior por vários motivos.

porque você tem uma mudança no sentido, na orientação dos juros americanos no começo do ano. Todo mundo esperava que os juros iam cair e depois o mercado americano para, simplesmente para de cortar os juros. Então você tem uma mudança que tem efeitos no Brasil. E daí, eu acho que para mim o grande turning point aí é no final do ano,

o presidente Lula um plano de ajustes mais duro e mais estrutural sobre gastos. E as propostas que o Haddad estava levando ao Lula eram propostas que o mercado simpatizava muito. De novo, não era um tratamento de choque, mas era um tratamento gradual. Só que o Lula, no meio do caminho, se arrependeu. Foram quase dois meses de discussões. O Haddad falava que tinha que mudar o seguro-desemprego. O Lula chamava o ministro do trabalho, Luiz Marinho,

dois terem um debate. O Lula falou, temos que mudar o gasto de educação. Daí ele chamava a ministra Anísia para um debate. Era um desgaste diário da equipe econômica em que o Lula, no fundo, estava adiando a decisão. Quando, finalmente, no final de novembro, o Lula decide que vai ter um ajuste, mas com muita má vontade, com muita contrariedade, ele fala, ok, vai ter o ajuste, porém, junto você vai anunciar a isenção do imposto de renda. Mas, a partir daí,

O que quer que havia de relação do ministro Haddad e do seu time com a Faria Lima, ali foi rompido completamente. Porque daí a Faria Lima falou, não, esses caras só estão pensando na eleição, não estão pensando em um ajuste sério, já estão antecipando o clima eleitoral para o 2025, esquece. E a partir daí, a relação é de ruim para péssima. E eu acho que daí começa a ficar um pouco dos dois lados também.

rico da cobertura, que não quer pagar condomínio, que daí começa uma relação que é ruim e provavelmente vai ficar ruim durante muito tempo.

Impressoras empresariais de jato de tinta Epson Workforce, com a tecnologia Precision Core. Você não vai querer continuar usando impressoras com toner, vai? Saiba mais em epson.com.br barra toner free. As estimativas da Epson são baseadas em dados internos e de terceiros. É bom a gente lembrar também que Haddad foi muito bombardeado internamente, né? Um antagonista dele no governo notório foi o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa. Mas havia outros dentro do próprio Partido dos Trabalhadores.

sempre fluida, digamos assim. Rui Costa é só um. A gente podia passar o dia aqui falando dos ministros que não gostam do Haddad. Por uma fileira, né? Exatamente. Casa Civil e Fazenda, independentemente dos personagens, tem uma questão, porque são missões um pouco diferentes. Então, essa relação é um pouco mais tensionada pela natureza do que cada um pretende entregar. Agora, nós tivemos a compreensão disso,

No primeiro ano, eu sentei com o Rui e nós conversamos longamente sobre isso, sobre como ia ser a nossa relação, dado o fato de que a perspectiva dos dois ministérios é diferente, a natureza é diferente. E eu penso que de lá para cá ela só tem melhorado. E por quê? Eu acho que tem duas coisas. Primeiro, eu acho que tem uma questão inicial, porque o Haddad não estava fazendo o ajuste que o mercado financeiro e os agentes econômicos queriam.

fazer. Então, ele era mal visto pelos dois lados. Por um lado, porque não fazia o suficiente, por outro que fazia demais. Então, acho que a gente vê aquela famosa entrevista em que o presidente do PT, Gleici Hoffman, chama a política fiscal do Haddad de austericida. Era austero com suicídio. Acho que esse é o primeiro ponto. Depois tem o próprio estilo do Haddad. O Haddad tem um estilo muito reservado e muito confiante na sua equipe. Então,

Havia coisas, que são coisas pequenas na Tuza, mas eu acho que o ouvinte vai entender como isso vai criando frições e problemas com os outros. Ele não confiava, tinha muito medo de vazamentos e, portanto, ele não mandava as informações para a Casa Civil até o último momento, porque ele achava que a Casa Civil iria vazar as informações, se fossem informações de novos impostos, se fossem informações de nomeações importantes. Ou até mesmo para bombardear, não só para não vazar,

nos ficassem conhecendo. É para que as ideias dele não fossem tesouradas por alguém que estivesse geograficamente mais próximo de Lula. Exatamente. Mas ele criava uma situação em que era uma obsessão com a hipótese de vazamento que, algumas vezes, criou problemas. Eu acho que o caso mais famoso é o caso do IOF, que foi uma discussão... Ele decidiu fazer um IOF com mais dois ou três assessores, quer dizer, que sabiam o tamanho do processo.

E para os outros ministros falavam, a gente vai fazer um imposto, mas não dizia exatamente quais eram os números. Aí quando acontece o EF e tem aquela reação chocante de vários grupos econômicos depois do Congresso que anula o decreto. Numa nova derrota, o Congresso derrubou com um placar expressivo o decreto do presidente Lula que aumentava o IOF, o Imposto sobre Operações Financeiras. Isso não acontecia desde 1992.

Agora, os governistas dizem que ainda é possível recorrer ao Supremo, mas já esperam um novo corte no orçamento com o fim da arrecadação extra do IOF.

problemas naturais com os outros ministérios que se sentem ou desprezados ou bypassados pelas decisões da equipe econômica. Haddad foi para o sacrifício eleitoral algumas vezes. A pedido de Lula, cumpriu a missão de ser ele o candidato à presidência da República em 2018. Ele assumia a vaga de vice. Quando Lula foi tirado da eleição pela Lava Jato, ele assume a candidatura.

Lula, a gente sabe, e se todo mundo não sabe, é bom para a gente ficar na mesma página, que um candidato à presidência da República precisa de candidaturas minimamente fortes nos estados, porque as estruturas de campanha são montadas a partir dos estados. Se você não tem um candidato para te dar palanque em colégios eleitorais muito fortes, muito grandes, muito representativos da sociedade, aquela candidatura presidencial fica meio capenga. E agora, de novo, isso está acontecendo.

ser candidato ao governo de São Paulo, mas vai, mais uma vez, cumprir a missão de Lula. Isso transforma Haddad num sucessor natural de Lula, mesmo que uma parte do PT não simpatize tanto assim com ele? Ah, Tatuza, eu não acho, porque por uma questão simples, que eu acho que a política é muito ingrata, entendeu? Eu acho que o fato de você cumprir muitas missões não significa que haverá gratidão no futuro. Eu acho que o Haddad sabe um pouco disso.

Eu acho que claramente o Haddad se coloca como um eventual sucessor do pós-Lula, o que quer que a esquerda vá acontecer, seja o Lula reeleito ou, enfim, a partir de 2030, quando terminar o quarto mandato. Mas eu não dou de barato que ele já tenha isso. Até pela forma como o Lula sempre agiu, tanto dentro do PT,

dos seus outros governos sobre seus sucessores. O Lula sempre gostou de ter uma divisão, de ter várias opções, etc. Quase que estimulava brigas internas para que ele sozinho decidisse no final. Pelo Lula, que ele vai tentar adiar até o último momento. O Haddad claramente se coloca, não há dúvida nenhuma, até porque é do estado de São Paulo, o principal colégio eleitoral do país, onde o PT nasceu.

colete a Dilma em 2009, tirou o próprio Haddad do colete em 2012. Então, enfim, as coisas podem ainda mudar pela frente. Se Lula vencer, Haddad provavelmente ocuparia um cargo de ministro da Casa Civil, por exemplo, e teria ali uma vitrine para trabalhar o seu nome para 2030. O programa econômico do Lula tende a ser a continuidade do atual.

a tua presença aqui para te perguntar de Flávio Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, quando a candidatura dele passou a ser acreditada, surgiu uma expectativa de que ele achasse o seu Paulo Guedes para que o programa econômico dele fosse sustentado por alguém do lado austero da política econômica. Até agora não deu nenhuma sinalização de um nome graúdo.

foi se reduzindo ao longo do tempo, agora não se espera tanto assim. Eu queria entender esse riscado contigo, quem seria o ministro da economia dele e se ele teria condição de trazer um nome forte para o lado dele na campanha. Eu acho que a gente tem que olhar um pouco, Natuza, que no fundo não é simplesmente os políticos, os jornalistas, a sociedade que ficou surpreendida com a escolha do Flávio Bolsonaro

como herdeiro do Jair Bolsonaro. O próprio Flávio Bolsonaro ficou. Ele não esperava ser escolhido. É verdade. Então ele não estava preparado para isso. Essa é a verdade dos fatos. Ele está aprendendo enquanto está andando, sabe? E aí, isso é o ponto número. O Flávio teve uma grande conversa com o mercado financeiro em fevereiro num evento do BTG. Ele estava na França e fez por vídeo. Foi um desastre. Foi um desastre. Mesmo pessoas que...

que vão votar nele, reconhece que ele falou uma quantidade absurda de obviedades, não sabia o que estava falando, claramente não estava repetindo frases feitas, não tinha uma base ali clara de um candidato parrudo. Quando eu uso essa expressão tesouraço é porque, sim, tem que cortar a carga tributária, tem que cortar a burocracia, tem que cortar cargos em comissão, tem que cortar gastos em excesso, que existem em várias áreas, como na publicidade,

Só que o mais importante, eu não vou dar detalhes do que eu vou propor, onde eu vou cortar, por exemplo, porque isso é um castelo de cartas. Mas o fato que ele hoje está empatado com o Lula nas simulações de segundo turno e torna um candidato extremamente viável, o mercado financeiro já embarcou no Flávio justamente porque ele não é o Lula, mas não tem a menor ideia do que vem por aí. E eu acho muito difícil que o Flávio consiga achar um Paulo Guedes por vários motivos.

Bolsonaro não criou, não gerou grandes economistas. Ele está hoje andando com alguns economistas, com o Sachida, com a Daniela, enfim, mas que são o Montesano, mas economistas, digamos, que eram no segundo escalão do Ministério da Fazenda, a gestão do Paulo Guedes. O próprio Paulo Guedes já está com, já acha que fez o que tinha que fazer. Então, ele provavelmente vai ter assessores econômicos. Esse é o ponto um. O ponto dois é que os principais economistas do país, eles não querem embarcar numa candidatura

eleição que vai ser uma eleição muito disputada. Então, eu acho assim, o que me parece que vai acontecer? Que o Flávio Bolsonaro tentará adiar ao máximo qual vai ser o seu programa, fará promessas muito vagas e muito genéricas, mais responsabilidade fiscal, menos impostos, coisas muito genéricas, mas sem entrar no detalhe, vai usar esses assessores, ex-assessores do Paulo Guedes com os seus porta-vozes e adiar essa decisão para

na possibilidade de ser eleito. E aí sim, uma vez eleito, daí vai ter uma fila de economistas-chefes de bancos querendo ser contratada para o governo dele. Mas eu acho que a tendência é exatamente isso. E deixa eu explicar também por uma questão estratégica. Porque o que o mercado financeiro quer do Flávio é um grande ajuste fiscal. É um Javier Milley. É alguém que corte os gastos públicos com a motosserra.

perde a eleição. Esse discurso pode ganhar aplauso na Faria Lima, mas ele perde, mas em Itaquera ele não funciona. Então, é natural que o Flávio Bolsonaro, qualquer outro candidato, vá ser muito comedido a falar sobre ajuste, mesmo entendendo a necessidade, mas não vai falar o que exatamente ele pretende fazer, porque ele não vai falar que ele vai, digamos, acabar com o aumento real do salário mínimo, que é uma coisa que todo mercado financeiro acha que é necessário.

pouco de circunstância e um pouco de estratégia nessa definição do Flávio de empurrar com a barriga a definição do seu ministro da Fazenda. Meu amigo Thomas Trauman, muito obrigada por montar esse mosaico aqui para a gente. Te agradeço muito e te desejo um excelente trabalho. Obrigado, Natuza. É sempre um prazer estar com você.

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