O novo líder supremo do Irã e o aumento das tensões
- Mojtaba Khamenei Lider IraPerfil radical e linha dura do novo líder · Processo de eleição pela Assembleia dos Especialistas · Caráter hereditário da sucessão contra ideais da Revolução Islâmica · Proximidade com a Guarda Revolucionária · Reação de Donald Trump à escolha · Assassinato do pai e da mãe durante a guerra
- Mercado de PetróleoAumento de 25% no preço do barril em 24 horas · Controle iraniano do Estreito de Hormuz · Passagem de 20% do petróleo mundial pelo Estreito · Volatilidade do preço Brent entre 90 e 120 dólares · Potencial para máximas históricas de preço · Risco de atingir 200 dólares
- Capacidade Militar IraEscalada gradual de ataques contra vizinhos · Ataques ao Bahrein, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Azerbaijão · Tática de 'morde e sopra' - avanço e recuo · Criação de caos regional para pressionar inimigos · Recusa em negociar sobre programa nuclear e mísseis · Pedido de desculpas formal com ressalva de novos ataques
- Inflação e Política MonetáriaPressão inflacionária em escala planetária · Choque de energia nos custos de produção · Impacto no crescimento econômico mundial · Reação das bolsas mundiais · Liberação de 300 milhões de barris de reservas de emergência pelo G7 · Risco de contaminação inflacionária global
- Morte Ali KhameneiMorte no primeiro dia de ataques · Efeito simbólico sem desmontar poder · Estrutura de poder em múltiplos núcleos · Morte da esposa do novo líder durante ataques · Morte da mãe do novo líder durante ataques · Aspecto pessoal da guerra para nova liderança
- Posição dos EUA e TrumpDeclaração de Trump sobre duração da guerra · Afirmação de estar 'muito à frente do cronograma' · Potencial para escoltar navios no Estreito de Hormuz · Ligação com presidente Putin · Busca por vitória internacional · Erro de cálculo na estratégia militar
- Impacto Brasil PetrobrasReajuste de combustíveis via Petrobras · Variável política na decisão de reajustes · Pressão de ano eleitoral · Impacto indireto via preço do diesel · Aumento de custos de produtos · Influência política sobre empresa estatal
- Objetivos Politicos GuerraDiferença entre objetivos de Israel e Estados Unidos · Intenção de enfraquecimento militar iraniano · Objetivo de eliminar programa nuclear · Objetivo de eliminar programa de mísseis · Crítica de trumpistas sobre subordinação a Israel · Falta de transparência estratégica
- Mercado FinanceiroQueda das bolsas no início do dia · Recuperação após declarações de Trump · Volatilidade em Wall Street · Estado de alerta internacional · Benefício para produtores de petróleo e gás
- Questões Jurídicas AmericanasIlegalidade de autorizar morte de chefe de Estado · Limitações presidenciais em operações de morte · Tensionamento institucional como estratégia · Expansão de poder presidencial · Contexto de guerra não declarada
- Protestos InternacionaisDesconforto com hereditariedade do poder · Manifestações de classe média urbana contra regime · Apoio em regiões pobres e interioranas · Repressão violenta do regime · Arrefecimento temporário de protestos em contexto de guerra · Força repressiva do regime em alerta máximo
- Relações entre Rússia e IrãAliadade entre Rússia e Irã · Benefício russo com aumento de preço de petróleo e gás · Conversação entre Trump e Putin · Possível redução de sanções americanas ao setor de petróleo russo
- Revolucao Islamica IranRevolução Islâmica de 1979 · Oposição ao regime do Shah Reza Pahlavi · Interferência americana em 1953 · Ideais anti-hereditários da Revolução · 37 anos de governo de Ali Khamenei · Transformação de Mojtaba em clérigo nos anos 90
- Politica IraAssembleia dos Especialistas com 88 clérigos · Papel do líder supremo em política externa · Controle sobre programa nuclear · Comando das Forças Armadas · Duração indeterminada do cargo · Poder de palavra final em decisões principais
A morte do líder supremo Ali Kamele, ainda no primeiro dia de ataques, teve um efeito simbólico, mas não desmontou o centro de poder iraniano, que é estruturado em vários núcleos e instituições. Em Teheran, 88 clérigos muçulmanos xiitas se reuniram a portas fechadas no fim de semana. Eles são membros da Assembleia dos Especialistas, o conselho responsável por escolher a autoridade máxima do regime iraniano.
O Ayatollah é um alto cargo entre os religiosos muçulmanos chiítas. Já o líder supremo é a autoridade máxima religiosa e política do IR. O eleito é quem tem a palavra final sobre a política externa, o programa nuclear e o comando das Forças Armadas. Na prática, ele tem a palavra final sobre as principais decisões do país e pode permanecer no cargo por tempo indeterminado.
mandou o país por quase 37 anos. Mostabah Kamenei nasceu em 1969 na cidade de Machad, no leste do Irã. Cresceu vendo o pai atuar na liderança da oposição ao regime do Shah, Reza Palevi, o monarca que assumiu o poder total do Irã em 1953 com a interferência americana e que governou o país até a Revolução Islâmica de 1979. Mostabah é conhecido pela proximidade
A guarda revolucionária iraniana, a força militar e política do Irã, que age com violência contra opositores. Depois que a Assembleia dos Especialistas terminou, um dos ayatollahs falou à imprensa iraniana que a decisão foi baseada em um conselho de Ali Khamenei. O recado dele era claro e conhecido, o de que o novo líder supremo do Irã deve ser sempre odiado pelo inimigo. A escolha do novo líder supremo é um balde de água fria nas pretensões dos Estados Unidos,
Ele é conhecido por ter as mesmas opiniões do pai. Chama Estados Unidos e Israel de Grande Satã e Pequeno Satã, respectivamente. Ou seja, não há expectativa de diálogo. A escolha de um líder de perfil linha dura reduz a expectativa de uma saída rápida para a guerra. Antes da escolha mesmo, Trump tinha dito que o filho de Khamenei é inaceitável. Primeira reação depois da escolha de Mostaba Khamenei como o novo líder supremo do Irã,
Trump disse apenas que não estava feliz e que nenhum líder que não fosse aprovado por ele, pelo presidente Trump, duraria muito tempo. Vamos lembrar que o Irã é um país de 90 milhões de pessoas, localizado no centro de algumas das cadeias de suprimento mais importantes do mundo. É a terceira maior reserva de petróleo e controla o Estreito de Hormuz, por onde passam 20 milhões de barris por dia, 20% do total comercializado globalmente.
E é por isso que o preço do barril de petróleo disparou 25% da noite para o dia.
Nessa segunda-feira, o barril do petróleo tipo Brentia chegou a quase 120 dólares no mercado internacional. Antes do início da guerra no Oriente Médio, o petróleo estava cotado em torno de 71 dólares. As bolsas de todo o mundo entraram em estado de alerta. O temor é que os custos da energia turbinem a inflação e afetem o bolso dos consumidores do mundo inteiro. Os efeitos da guerra no Oriente Médio já são sentidos no mundo inteiro.
Desde o início de outra guerra, a da Ucrânia, que afetou as exportações da Rússia,
não chegava a esse patamar. Países como Iraque, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, atacados nos últimos dias, diminuíram a produção. Com o preço do barril do petróleo disparando, as bolsas começaram o dia em queda, resultado da batalha naval no estreito de Hormuz. Ministros das sete democracias mais ricas do mundo fizeram uma reunião de emergência para discutir o assunto. O G7 estuda liberar 300 milhões de barris de petróleo de reservas de emergência coordenadas pela Agência Internacional de Energia.
A nota acalmou o mercado. Depois disso, o preço do barril caiu um pouco. O presidente americano Donald Trump disse que o aumento é um preço pequeno a se pagar em troca da paz e da segurança. No fim do dia, uma reviravolta. Numa entrevista à rede americana CBS, Donald Trump disse que a guerra pode acabar em breve. Eles não têm marinha, comunicações, nem força aérea. Acho que a guerra está praticamente concluída, disse Trump.
que está pensando em assumir o controle do Estreito de Hormuz. Imediatamente, em Wall Street, a Bolsa voltou a subir. E o preço do barril recuou novamente abaixo dos 90 dólares. Da redação do G1, eu sou Nato Zaneri e o assunto hoje é o novo líder supremo do Irã e o aumento das tensões. Neste episódio, eu converso com Daniel Souza, comentarista da Globo News, professor do IBMEC e criador do podcast Petit Jornal.
Meu caro Daniel, qual é o perfil do novo líder supremo do Irã? Natuza, o perfil do novo líder supremo do Irã é um perfil radical. A gente está falando de alguém que é filho do líder supremo anterior, é alguém que se tornou clérigo já nos anos 90, depois que o pai tinha se tornado líder supremo, ou seja, é alguém que não é incontestável do ponto de vista religioso,
Ele, inclusive, ganhou bastante força durante esse período onde o pai foi líder supremo. Passou a ter, inclusive, muita influência na parte de força do regime, ou seja, na parte repressiva do regime. O mais importante cartão de visita dele, na verdade, não é nem ser o filho tão somente do líder supremo, é ter essa proximidade tão grande com as quadras revolucionárias, que é quem está mandando lá junto com o Ali Larijani e outras figuras políticas.
o Armanek manda. Quem manda são outras figuras, é o Ali Larijani e o Mohamed Galibaf, acima de tudo, esses dois. E, consequentemente, num momento como esse, a gente tem uma clara mensagem, que é uma mensagem de continuidade, uma mensagem de que o regime iraniano não vai se dobrar, não vai recuar, não vai se render, mesmo diante de ataques de inimigos poderosos. Fora isso, a gente está falando de uma escolha que se torna mais palatária
dentro do atual contexto, que é um contexto de guerra e um contexto onde o líder supremo anterior, o pai dele, foi assassinado, mas em condições normais de temperatura e pressão teria sido bem mais questionada, porque a Revolução nunca imaginou, nunca almejou ou desejou que você tivesse ali qualquer tipo de hereditariedade no poder. Então, a escolha de um líder supremo, filho do líder supremo anterior, é algo que gera, obviamente, incômodo e desconforto no Irã,
mas me parece que dentro do atual contexto se tornou algo um pouco mais palatável e necessário diante da forte mensagem que acaba passando. Diante do que o governo Trump já disse e que também já sinalizou, ser o sucessor do pai é ter um alvo na própria testa, não? A bem da verdade, qualquer novo líder supremo teria um alvo na própria testa.
inicial, quando os ataques foram anunciados, ele colocou como um dos objetivos derrubar o regime, derrubar o regime dos ayatollahs. Eu vou ler exatamente o que disse Donald Trump. Kamenei, uma das pessoas mais perversas da história, está morto. Esta é a maior chance para o povo iraniano recuperar seu país. Esperamos que a Guarda Revolucionária Islâmica e a polícia se unam pacificamente aos patriotas iranianos e trabalhem juntos como uma unidade.
Claro que quando você escolhe o filho do líder supremo anterior, que aliás foi assassinado num ataque no início dessa guerra, você está dobrando aposta, você está colocando aquilo quase como uma questão pessoal. Olha como nós não nos dobramos a você, não nos curvamos a você, não há qualquer tipo de concessão aos Estados Unidos ou a Israel, não há qualquer tipo de sinalização de fragilidade do regime.
que ao longo das últimas décadas criou um sistema de repressão poderosíssimo. A gente está falando de um regime em que membros estão espalhados por todos os povoados do Irã e muita gente deve a sua vida ao regime e todo o progresso econômico, material que teve ao longo da sua vida ao regime. Tem muita gente disposta a matar e morrer por esse regime, tem muita gente radicalizada e me parece que é para essas pessoas que o regime está sinalizando.
porque nós vamos vencer. A radicalização, ela sinaliza para os radicalizados. E é essa a escolha que está sendo feita quando o líder supremo novo é filho do anterior e mesmo que isso seja uma afronta direta ao presidente dos Estados Unidos. Aliás, talvez por conta disso, talvez seja até um bônus dessa escolha. Chega a ser risível a declaração do presidente Trump, não por nenhuma defesa do regime nem nada disso, mas de achar que ele teria a influência sobre a escolha do sucessor.
que a mulher de Ali Khamenei também foi morta nos ataques. Ela é a mãe dele? É a mãe do novo Ayatollah? É sim, Latuz, é a mãe do novo Ayatollah, o que confere um aspecto ainda mais pessoal justamente a essa guerra. Quer dizer, estamos falando de alguém que lidera o Irã, alguém que é o comandante, que se torna o comandante supremo das Forças Armadas, alguém que tem ali poderes muito amplos no regime iraniano e que teve o seu pai e a sua mãe assassinados.
assassinados nessa guerra por ataques dos inimigos iranianos, por ataques de Israel e dos Estados Unidos. Naqueles bombardês iniciais do próprio sábado, perdeu não só o pai, mas também a mãe, a esposa, naqueles ataques iniciais, o que faz com que, para alguns analistas, isso mostre que ele realmente aceitou também, porque não tem absolutamente nada a perder do ponto de vista pessoal. O que ele tinha para perder do ponto de vista pessoal, ele já perdeu. E por isso ele seria, inclusive, talvez, mais determinado nessa linha dura.
mais importante e que dá ainda mais gravidade para essa escolha que está sendo realizada. Quer dizer, a mensagem é muito clara. Nós não vamos recuar, nós estamos escolhendo, inclusive, alguém que teve os seus pais assassinados durante essa guerra. Como a gente estava falando, Daniel, o Mojitabá tem ligações estreitas com a guarda revolucionária e com clérigos considerados mais radicais do regime.
ele representa uma continuidade e você se junta, portanto, a esses analistas. O que a gente pode esperar em termos de estratégia militar e diplomática, se você achar que há linha diplomática para ser executada a partir de agora? Olha, Natuza, há estratégia claramente de continuidade, como a gente colocou há pouco. Então, nós temos, inclusive, o líder supremo, ele foi morto no início dessa guerra, o líder supremo anterior, o que significa que ele não teve, inclusive, envolvido
nas principais decisões que foram tomadas de lá para cá. E me parece, acima de tudo, que a estratégia iraniana é disseminar de maneira gradual e escalada o caos na região. Quer dizer, você tem tido ataques graduais e escalados a diferentes países vizinhos, você tem a questão do Estreito de Hormuz. A ideia é que gradualmente o regime iraniano vai escalando o problema para tentar envolver cada vez mais gente numa pressão contrária,
aos ataques ao Irã, numa pressão em cima dos inimigos do Irã. Notadamente, claro, os Estados Unidos e Israel. Trump conversou mais cedo, por telefone, com o presidente russo Vladimir Putin, aliado do Irã. Conversa que ele escreveu como muito boa. A Rússia tem sido uma das grandes beneficiadas com a alta dos preços do petróleo e do gás, porque é grande produtora, né? E agora pode se beneficiar mais ainda.
algumas sanções americanas no setor do petróleo. Também não deu mais detalhes. Do ponto de vista diplomático, eventuais conversas podem acontecer, é claro, como mecanismo de interrupção das hostilidades. Mas se as exigências dos Estados Unidos continuarem sendo as exigências iniciais, não vai ter conversa possível. Afinal, as exigências iniciais passavam pela eliminação do programa nuclear iraniano, o que o novo líder supremo não fará,
passavam pela eliminação do programa de mísseis do Irã, o que o novo líder supremo não fará. Qualquer um desses dois movimentos exigidos inicialmente pelos Estados Unidos seriam vistos como uma capitulação do regime iraniano e ele tem dado todos os sinais de que isso não será feito. Portanto, a gente está falando de um ambiente de radicalização e um ambiente de radicalização onde a ideia é que outros países, ao serem envolvidos no conflito, pressionem Israel
Estados Unidos a parar. Nós tivemos já ataques no Bahrein, tivemos ataques no Iraque, tivemos nos Emirados Árabes Unidos, até no Azerbaijão, que é um país vizinho do Irã, é o Irã passando mensagens muito claras, olha, se a coisa continuar piorando, eu vou arrastar mais gente e eu tenho mecanismos para tornar a vida de vocês um inferno, não só a vida de quem está aqui na região, por conta justamente de ataques que eu sou capaz de fazer e vocês não
capazes de se defender, com a vida do planeta todo, na medida em que eu tenho a possibilidade de controlar o Estreito de Hormuz e trazer consequências para a economia mundial de muita profundidade. Mas não era o mesmo regime que estava pedindo desculpas por ter atacado territórios vizinhos? É exatamente o mesmo regime, Natuza.
Num discurso transmitido pela TV estatal, Pezeskian afirmou que o país jamais vai se render. Mas ele também se desculpou com os países vizinhos, atingidos por mísseis e drones nos últimos dias. Disse que as forças armadas iranianas foram instruídas a não atacar mais os países do Golfo Pérsico, a menos que eles ataquem primeiro.
a realização desses ataques. Porque o fato de você pedir desculpas não impede você ter passado a mensagem de que o ataque pode ser realizado e que novos ataques podem ser realizados caso você seja oprimido. Portanto, é uma estratégia que o regime iraniano tem adotado e que não me parece que será descartada, apesar do pedido de desculpas que acabou sendo formalizado. É uma estratégia um pouco de morde a sopra. Você avança, depois recua, avança mais um pouco, recua.
bastante recorrente em diferentes momentos daquela região. Bom, você já explicou que esse caráter dinástico da sucessão em outros tempos não pegaria bem. E o próprio pai dele já havia declarado que preferia que não fosse feita uma escolha hereditária. Essa decisão vai à contramão de tudo o que a Revolução Islâmica pregava em 79. Mas em razão da guerra e dos ataques do governo Trump,
segundo plano e foi o filho dele mesmo o nome que se tornou líder supremo. Você também disse que a repressão violentíssima do regime e as manifestações do início do ano tiveram apoio do novo líder supremo, do filho do Kamenei. Como é que fica a recepção popular a essa escolha? Me parece, Natuza, que protestos grandes acontecendo, como aqueles que nós vimos há pouco tempo, se tornam bastante perigosos.
dentro de um contexto de guerra, até porque você tem um regime que está em alerta máximo diante dessa possibilidade. É claro que você tem uma parte, principalmente uma parte de classe média urbana, em grandes centros urbanos no Irã, que não gosta do regime e que comemorou a queda, ou melhor, a morte do Khamenei há poucos dias. Mas você tem uma parte que não é pequena, principalmente em regiões mais pobres, principalmente em regiões mais interioranas,
apoiando o regime ou no qual o regime tem um pouco mais de força. Portanto, é claro que novos protestos são possíveis, são atos de profunda coragem dessas pessoas ao realizá-los, mas dentro de um contexto de guerra, dentro de um contexto onde o regime está em alerta máximo, não me parece estranho que você tenha um certo arrefecimento, pelo menos por enquanto, desse tipo de manifestação. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Daniel Souza.
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do Estreito de Hormuz, por onde passa uma porção muito significativa, mais de 20% do petróleo mundial. Eu entrevistava aqui há alguns dias o José Roberto Mendonça de Barros, que fez um panorama muito rico das consequências em potencial que a duração dessa guerra poderia trazer para o mundo. Então, ele dividiu em dois marcos. Se a guerra durar 10 dias, o impacto pode ser assimilado em termos de ajuste de estoques de petróleo,
fertilizantes para produção agrícola, sobretudo no hemisfério norte, que já está no momento disso acontecer. Mas se a guerra durar 40 dias e passar disso, aí a gente vai ter um problema sério. Por hora, no momento em que a gente gravava, o petróleo não tinha batido 100 dólares. O petróleo agora, o barril bateu, o Brent bateu em 100 dólares. Foi rápido demais nesses primeiros dias da guerra atingir essa marca dos 100 dólares?
Você espera o quê? O que os analistas estão vislumbrando para o preço do barril? Natuza, não foi rápido. Na prática, a gente está falando de uma escalada de petróleo, do preço de petróleo, que se intensificou nas últimas horas pela percepção de que o conflito vai se alongar. A escolha do novo líder supremo como sendo o filho do líder supremo anterior deixou muito claro para o mundo que, olha, o regime do Irã não está a ponto de cair, o regime do Irã está muito forte e deve continuar,
lutando por bastante tempo. Do outro lado, a gente tem Israel e Estados Unidos, que também tem ali poucos incentivos para recuar. Ou seja, a gente está falando de um contexto onde o que está se considerando agora como o cenário mais provável, e o barril de petróleo reflete isso, é que a gente vai ter um conflito mais longo. E se a gente vai ter um conflito mais longo, o impacto sobre a oferta mundial de petróleo vai ser sentido. Você vai ter uma elevação consistente do preço
o mercado, na prática, está antecipando isso. Projetando o futuro, tudo depende do tempo e da intensidade de duração desse conflito. O tempo, porque, claro, quanto mais tempo dura, maior o impacto sobre a oferta e, consequentemente, sobre o preço. E intensidade, porque se você tiver novas estruturas de petróleo atingidas na região do Golfo Pérsico, essas estruturas levarão mais tempo para serem reconstituídas, para serem refeitas, para serem reformatadas.
E isso acaba trazendo um impacto mais alongado sobre o preço do barril de petróleo. Portanto, me parece que nesse momento o cenário é descalado do preço e isso, em parte, se alinha à estratégia oraniana. Vocês estão me bombardeando, vou fazer a vida de vocês um inferno. Afinal, o preço do barril de petróleo vai ficar alto, isso vai trazer inflação para todo mundo e vai trazer impacto sobre o crescimento mundial. Isso coloca ainda mais gente a pressionar os Estados Unidos e a Israel
de interrupção das hostilidades seja alcançado. A gente já está no décimo dia de guerra. Se for nesse ritmo, é factível pensar num cenário em que o petróleo chega a 200 dólares? 200 eu não digo, Natuza, mas bem mais alto do que ele está hoje é bastante factível. Quer dizer, nós podemos ter aí um petróleo caminhando para as suas máximas históricas.
alternativas de produção de petróleo fora do Oriente Médio, alternativas importantes, mas o grosso do petróleo do Oriente Médio, isso é um fato, é produzido justamente na região do Golfo Pérsico, região onde o escoamento da produção envolve navios petroleiros passando pelo Estreito de Hormuz. E, consequentemente, me parece que o impacto tende a ser bem forte ao longo dos próximos tempos se esse conflito continuar e se não houver uma normalização no fluxo
de petróleo da região. Não sei se alcança 200, mas buscar as máximas históricas me parece bastante razoável. Donald Trump voltou a sinalizar agora há pouco que a guerra vai acabar muito em breve. Mas ele não quis cravar uma data, não. Quando perguntado se ela terminaria nesta semana, ele disse que não. O presidente americano afirmou que os Estados Unidos estão muito à frente do cronograma inicial, mas que a guerra só acaba quando o Irã não tiver mais capacidade de usar armamento contra os Estados Unidos
Eu ouvi diferentes reações sobre o que haveria de alternativa. O próprio Trump disse que poderia escoltar navios, gente do setor dizendo que a gente pode dar a volta. Como é que fica esse impacto global do ponto de vista da inflação? Porque a gente pode estar diante de um choque inflacionário em escala planetária. Mas mais do que isso, aproveitando essa sua dupla cidadania,
na economia e na geopolítica, em assuntos internacionais. A gente tem que tipo de efeito aqui no Brasil? Por exemplo, alguém vai abastecer. Em que momento vai ter uma parcela do preço do combustível que vai ser debitada da conta da guerra? O Brasil tem uma especificidade, Natuza, que é a presença da Petrobras, uma empresa estatal que acaba decidindo quando é o melhor momento de repassar reajustes do preço internacional,
do petróleo e também altas no dólar. Esses dois movimentos têm acontecido paralelamente nesse momento. Não existe uma transparência, como já houve no passado, sobre qual é esse momento. Só mais se é isso, o fato do Brasil estar no ano eleitoral e reajuste do preço dos combustíveis ser um tema extremamente impopular. Que a Petrobras terá que repassar esse aumento em algum momento ou em algum tempo, me parece certo.
Quando? Isso a gente não tem como ter certeza, porque existe uma variável aí que não é econômica, que é política. E a Petrobras é suscetível à influência política, me parece inegável isso. A Petrobras tem tido a política de não repassar reajustes imediatamente, o que tem o seu valor, tem o seu mérito, ela só repassa quando é algo mais permanente, algo mais estrutural.
várias semanas, ela vai ficar muito pressionada a conceder esses reajustes e a não ser que haja algum tipo de direcionamento político para não fazê-lo. Mas me parece que um horizonte de algumas semanas, caso essa situação permaneça, me parece incontornável do ponto de vista técnico que a Petrobras realmente autorize algum tipo de reajuste para os combustíveis no Brasil e, consequentemente, isso vai bater no bolso de cada um de nós, seja diretamente abastecendo o carro, seja indiretamente através da compra de produtos,
que vão pagar um frente mais caro porque o diesel vai estar mais caro. O risco de uma contaminação global não impediu o Trump de agir e de atacar. Eu imagino que ele deva possuir conselheiros que digam, olha, pode ser que o regime não caia, tá? Se o regime não cair no tempo que você está esperando, a coisa pode ficar feia. E uma inflação global também pega nos Estados Unidos e tem um problema inflacionário lá já contratado. Se o risco de uma contaminação global
Foi motivo para impedir Trump de fazer o ataque? Pode ser motivo para dissuadir Trump de continuar essa ofensiva? Pode, claramente pode. Me parece que o Donald Trump apostou numa solução relativamente rápida, que a Venezuela seria um caso de inspiração para o Irã. Só que o Irã não é a Venezuela, o Irã não é a Síria, o Irã não é o Iraque, o Irã não é o Afeganistão. E o erro de cálculo do governo americano me pareceu grosseiro.
nesse caso. Se a solução não vier no curto prazo, como não está vindo e não me parece que virá, a coisa vai se alongando, o impacto vai se alongando no tempo. E isso pode sim levar o Donald Trump a buscar algum tipo de subterfúgio, algum tipo de justificativa para sair desse atolheiro. Porque o impacto sobre a economia americana e sobre a economia mundial será incontornavelmente sentido. E sim, pode ser que o governo Trump acabe recuando por conta
justamente dessas consequências internas que aconteceram sobre a inflação, sobre a atividade econômica e sobre a popularidade dele. Como é que está a situação inflacionária hoje nos Estados Unidos? É uma situação onde o FED não está conseguindo trazer a inflação para a meta. A meta de inflação nos Estados Unidos é de 2% ao ano e a inflação anual nos Estados Unidos tem girado na casa de 3%. É isso que explica, inclusive, essa hesitação por parte do FED de reduzir a taxa de juros.
que tem colocado ali o Trump e o presidente do Fed, o Jerome Powell, em rota de colisão. Portanto, a situação inflacionária não está resolvida nos Estados Unidos, mesmo sem o petróleo, mesmo sem a questão do Oriente Médio. Mesmo assim, você já tinha ali uma pressão inflacionária, que em parte é causada pelas tarifas que o Trump colocou no ano passado, em parte é causada ali por um encarecimento do preço dos alimentos, que aliás tem acontecido em muitas partes do mundo,
por essa energia que agora ficou mais caro e que já está impactando os Estados Unidos. Porque nos Estados Unidos os reajustes acabam sendo quase instantâneos em função realmente de alterações no preço internacional do petróleo. Bom, a inflação é o maior cabo eleitoral do adversário de governantes em qualquer lugar do mundo. E nos Estados Unidos, em particular, tirou os democratas do poder e deu o poder a Donald Trump.
Não, não está ruim, mas a gente está falando de um Donald Trump que estava em busca de vitórias no cenário internacional. Do ponto de vista interno, ele não estava conseguindo baixar a inflação como prometeu, não estava fazendo a economia americana bombar como prometeu, estava enfrentando o problema de Minneapolis, que gerou um desgaste enorme, até junto aos republicanos, por uma percepção de que o governo estava indo longe demais no caso do combate à imigração dos indocumentados.
Isso sem falar também do caso Epstein. E ele olha para o cenário internacional e resolve que, bom, por aqui eu posso conquistar uma grande vitória e mostrar que eu sou completamente diferente de todos os meus antecessores que eram os incompetentes. Dentro de um contexto onde internamente ele está com a sua imagem bastante desgastada e com a sua popularidade em queda. É um paradoxo, né, Daniel? Porque Trump sempre buscou um poder ilimitado.
ele conquistou um poder que talvez presidente nenhum dos Estados Unidos tenha conquistado, seja pela imposição, seja porque ele tem uma parte expressiva do eleitorado, mas no caso de Trump, muito pela imposição e pouca reação. Mas talvez o maior adversário de Trump, além da inflação que é de todos, seja justamente o excesso de poder que ele anda tendo. É, o excesso de poder que ele anda tendo e que ele tem buscado sistematicamente.
ator como estratégia esse alargamento do seu poder. E ele faz isso através de um tensionamento institucional. Quando ele deliberadamente mata um chefe de Estado estrangeiro, isso é ilegal nos Estados Unidos. Você tem ali limitações a esse poder presidencial já há algumas décadas, explicitando que o presidente dos Estados Unidos não pode autorizar esse tipo de operação. A gente está claramente falando de uma guerra
você sabe qual é a estratégia dos Estados Unidos. Você sabe qual é a estratégia de Israel? Israel claramente quer enfraquecer o poder militar iraniano porque considera que o Irã é um perigo existencial a Israel. O Irã dos Ayatollahs é um perigo existencial a Israel. Agora, o que os Estados Unidos estão fazendo ali? O que os Estados Unidos querem com aquela guerra? Passa para os trumpistas, inclusive, que a lógica é de uma submissão aos interesses de Israel.
Então, você já tem muitos trumpistas dizendo nesse momento que a preocupação do Trump
Make Israel Great Again, não é Make America Great Again. Quer dizer, o Trump estaria subordinado aos interesses de Israel, o que para aquele trumpismo mais raiz é algo imperdoável, é algo absolutamente inaceitável. Na semana passada, a porta-vaz da Casa Branca teve que vir a público dizer quais eram os objetivos dos Estados Unidos na guerra. Objetivos ali muito gerais, acabar com o programa nuclear iraniano, acabar com o programa de mísseis iraniano, etc.
está conseguindo entender o que os Estados Unidos estão fazendo ali, qual é o seu real objetivo. E na medida em que o Irã escolhe o filho do líder supremo anterior para novo líder supremo, isso desmoraliza o Trump, porque o questionamento que vai ficar é muito claro. O presidente, você nos colocou nessa guerra, matou o líder supremo iraniano para eles trocarem o líder supremo anterior por um novo, que é o filho dele? A gente está fazendo o que ali? O que a gente fez ali durante todo esse tempo?
tanto dinheiro que a gente gastou, diante de tantos riscos que a gente correu e diante de um processo inflacionário que foi causado. É uma aposta muito arriscada que o Trump fez e me parece que ele pode trazer consequências muito ruins para ele mesmo num futuro não muito distante. Daniel, meu amigo, muito obrigada pelas explicações todas. Bom trabalho para você. Obrigado, Natuso. Um abraço a todos. Até a próxima.
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