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As armas e a nova fase da guerra no Oriente Médio

09 de março de 202633min
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Convidados: Gunther Rudzit, especialista em defesa e segurança nacional, professor da ESPM e professor convidado da Universidade da Força Aérea (Unifa); e Cristian Wittmann, professor da Unipampa e integrante do conselho do ICAN (Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares). No fim da primeira semana de conflito, Estados Unidos e Israel anunciaram que a guerra havia entrado em uma nova fase. E prometeram “aumento drástico” no poder de fogo dos ataques contra o regime iraniano. O Irã afirmou que aguarda os inimigos para responder com “golpes dolorosos” e revelou que poderá usar armas nunca vistas em combate até agora. Até aqui, os dois lados têm estratégias muito diferentes. Americanos e israelenses fizeram uso sofisticado sistema de tecnologia para acompanhar a localização do aiatolá Ali Khamenei e outras autoridades do regime. Na manhã do dia 28 de fevereiro, decidiram por um ataque de precisão para executá-lo e dar início à guerra. Desde então, os mísseis disparados pelos dois países atingiram ao menos 2 mil alvos no território iraniano. O Irã já disparou milhares de drones e centenas de mísseis contra Israel e contra países que têm bases militares americanas – alguns desses armamentos alcançam mais de 6 mil km/h e podem carregar ogivas superiores a 1 tonelada. O regime garante que seus equipamentos mais sofisticados não foram colocados em jogo ainda. Neste episódio, Natuza Nery conversa com o especialista em defesa e segurança nacional Gunther Rudzit para entender o tamanho do arsenal de cada lado do confronto. Professor de Relações Internacionais da ESPM e professor convidado da Universidade da Força Aérea (UNIFA), Gunther também avalia o futuro do conflito. Participa também do episódio Cristian Wittmann, professor de direito da Unipampa e integrante do conselho do ICAN (Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares). Ele analisa como a inteligência artificial está sendo usada na guerra e debate as questões éticas relacionadas a isso.
Assuntos15
  • Ataque a Ali KhameneiMorte do líder supremo iraniano · Operação coordenada EUA-Israel · Uso de mísseis Blue Sparrow · Inteligência eletrônica e hacking · Ataque durante o dia
  • Estratégia do Irã para aumentar custos da guerraFechamento do Estreito de Hormuz · Impacto no preço do petróleo · Ataques a aliados dos EUA no Golfo Pérsico · Pressão econômica global · Desgaste do inimigo
  • Conflito Irã-EUAOrçamento de defesa americano · Estoques de mísseis · Superioridade aérea · Tecnologia de bombardeio de precisão · Drones e sistemas automáticos
  • Capacidade Militar IraMísseis balísticos Shahab e Fatah · Drones e mísseis de longo alcance · Velocidade e ogivas de mísseis · Armas não utilizadas em combate · Marinha iraniana degradada
  • Inteligência Artificial MilitarArmas autônomas letais · Controle humano em decisões de fogo · Debate ético entre empresas de IA · Drones com IA e comunicação via satélite · Diferença entre combatentes e civis
  • Operações de inteligência para localizar KhameneiRastreamento de celulares · Hacking de câmeras de monitoramento · Hacking de antenas de celular · Inteligência eletrônica CIA-Mossad · Meses de preparação
  • Fase 2 da guerra: mudança de estratégia dos EUAAtaques mais pontuais e precisos · Abandono de grandes ondas de bombardeio · Foco em lideranças iranianas sucessoras · Apoio a grupos minoritários (curdos, baluches) · Adaptação após falha em derrubar regime
  • Contexto histórico: ataque de junho anteriorOperação contra bases nucleares do Irã · Enfraquecimento de aliados do Irã (Hamas, Hezbollah, Houthis) · Queda de Bashar al-Assad na Síria · Dissolução do arco da resistência · Preparação para conflito atual
  • Mudanca Regime IraEstratégia de Netanyahu e Trump · Diferença entre programa nuclear e regime change · Ameaça existencial percebida por Israel · Ambições históricas de Trump · Comparação com operação na Venezuela
  • Questões legais e de responsabilidade em armas autônomasResponsabilidade de sistemas robóticos · Distinção entre civis e combatentes · Direito humanitário internacional · Protocolos de rendição · Controle humano em decisões críticas
  • Mísseis hipersônicos chineses ao IrãVelocidade de 3 a 5 vezes o som · Detecção quase impossível · Novas defesas necessárias · Mudança no equilíbrio naval · Possível venda pela China
  • Tecnologia MilitarBombardeiros estratégicos stealth · Caças furtivos · Inteligência artificial · Robótica · Computação quântica
  • Relações China-EUACrescimento militar chinês · Expurgos na cúpula militar · Problemas de corrupção · Adiamento de plano sobre Taiwan · Corrida por superioridade sobre EUA
  • Conflito entre Anthropic e governo americanoRecusa de Anthropic em liberar IA para armas autônomas · Autorização da OpenAI ao governo americano · Crítica do secretário de guerra Pete Hegseth · Ideologia do Vale do Silício vs. segurança militar · Contrato da Anthropic com restrições
  • Proliferação de armas de IA para grupos não estataisTransferência vertical de tecnologia bélica · Redução de custos de armamento · Comparação com minas terrestres · Uso por grupos armados · Fácil replicação de software
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28 de fevereiro. O dia estava começando em Terã. Pouco antes de o relógio marcar 9 horas e 40 minutos do sábado, o céu da capital iraniana foi invadido por aproximadamente 50 jatos em altíssima velocidade. Eram caças israelenses F-15, que chegam a mais de 3 mil quilômetros por hora. Quando eles assumiram suas posições, os bombardeios começaram. Foram pelo menos 30 ataques de precisão com mísseis Blue Sparrow.

líder supremo iraniano, um quartel-general onde o Ayatollah Ali Khamenei e outras autoridades do regime estavam reunidos. Assim que os mísseis encontraram o alvo, uma grande nuvem cinza de fumaça surgiu no meio da cidade. Ali Khamenei estava morto. O primeiro objetivo do ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel havia sido concluído com sucesso. Os agentes americanos israelenses tinham detalhes da localização de Khamenei e dos oficiais iranianos.

sofisticado sistema de tecnologia de guerra que tem várias frentes de atuação. De um lado, é capaz de perseguir com alto nível de precisão potenciais alvos estratégicos. De outro, pode hackear sistemas para se infiltrar neles e criar confusão nas comunicações do inimigo. Quando se fala no assassinato de Kamenei, é preciso dizer, foi uma operação de inteligência espetacular dos Estados Unidos e de Israel que só deu certo porque Kamenei decidiu que o martírio

melhor do que o esconderijo. O Irã imediatamente reagiu e lançou uma primeira onda de mísseis e drones contra Israel e países que têm base militar americana. A estratégia vem se repetindo desde então, com foco em atingir a infraestrutura desses países, principalmente as instalações de energia. O Irã segue com os ataques contra aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. A guarda revolucionária iraniana diz que tem o controle total do Estreito de Ornuz, uma artéria econômica global por onde

passam 20% do petróleo e do gás comercializados no mundo. O arsenal iraniano é o maior e mais diversificado de toda a região. Já se sabe, por exemplo, que foram disparados mais de 1.400 drones e centenas de mísseis balísticos. Alguns desses mísseis são do tipo Shahab e do tipo Fatah, que chega a 6 mil quilômetros por hora e que pode transportar ogivas pesadas. E o regime dos ayatollahs alega que parte do seu arsenal mais avançado ainda não foi colocado em campo.

afirmou que o país vai mirar instalações nucleares israelenses caso Estados Unidos e Israel tentem impor uma mudança de regime ao país. A guerra também de narrativas. Analistas internacionais dizem que os dois lados estão lidando com estoques relativamente baixos de armamentos na região. Mas o discurso de ambos parece bastante otimista. Estados Unidos e Israel anunciam que o conflito partiu para uma nova fase e prometem aumento drástico do poder de fogo nos ataques contra o regime.

Os romanianos dizem esperar que os adversários enviem tropas terrestres e que responderão a isso com golpes dolorosos. Prometem também usar novas armas, armas que nunca foram vistas em combate até agora.

vai aumentar dramaticamente nos próximos dias.

Segunda-feira, 9 de março.

pergunta bastante direta. Qual é o real poder bélico dos dois lados desse conflito? Bom, o poder bélico americano é um orçamento de quase um trilhão de dólares. O grande problema para os Estados Unidos é que o estoque de mísseis está bastante baixo, porque eles vêm doando e agora vendendo esses equipamentos, principalmente

muitos para Israel nesses últimos três anos, especialmente na guerra dos 12 dias contra o Irã no ano passado, e o que efetivamente, quanto eles têm de reserva para fazer uma guerra, isso é um segredo guardado a 12 chaves. Então, isso é um ponto que realmente preocupa todos os estrategistas americanos, todos. Por isso mesmo é que há essa

aposta do governo iraniano de que eles não vão conseguir sustentar esse conflito por muito tempo. E o que os dois lados desse conflito já mostraram em termos de armamento, em termos de capacidade de guerra? Mostraram tudo o que tem. O que se sabe até agora que tem saído aos poucos na imprensa, principalmente na imprensa americana e israelense, é que é a primeira onda de ataque

americana e israelense, foi praticamente tudo de mais moderno do inventário dos dois países foi utilizado. Estados Unidos e Israel têm ampla superioridade aérea, não só local como regional. Bombardeiam os alvos que quiserem em liberdade absoluta. A marinha iraniana foi degradada ao máximo. Praticamente inexiste hoje uma marinha iraniana. Então, mísseis que vinham sendo desenvolvidos, especialmente

Blue Sparrow, que é um míssel lançado de avião, que ele sobe praticamente até o limite da atmosfera e aí mergulha para atingir o alvo, porque com isso fica difícil o oponente detectar o lançamento. O oponente seria a Rússia e China com seus satélites captarem o lançamento de um míssel, porque de um avião é praticamente impossível isso. E foi por isso mesmo que eles conseguiram uma vantagem, uma surpresa também,

estratégica muito grande. Os jatos de Israel teriam usado 30 bombas para atacar o complexo onde o líder supremo estava. Isso aconteceu por volta das 9h40 da manhã no horário local. Essa quantidade de bombas foi necessária porque é possível que o líder supremo estivesse num banque subterrâneo, debaixo do complexo, para garantir uma maior proteção. Então, o ataque só teria o resultado esperado se fossem usadas várias munições e ao mesmo tempo.

Outros prédios de Teheran também foram atingidos. Foi o caso do gabinete do presidente do país, que depois divulgou um comunicado para confirmar que estava

Agora, esse ataque que acabou matando Ali Khamenei, como é que ele se deu em termos de armamento? Primeiro foi um serviço de inteligência combinado da CIA e do Mossad, muito grande, para conseguirem ter a certeza onde todos estariam no mesmo local, no mesmo horário. Isso se dá basicamente com informantes?

Principalmente por inteligência eletrônica. Ou seja, conseguem rastrear celulares, conseguem rastrear... Por exemplo, o Mossad conseguiu hackear as câmeras de monitoramento das ruas de Terã e conseguiram pegar um padrão de movimentação de quando o Kamenei se deslocava. Parece uma coisinha simples, mas você vai juntando todas essas peças, você consegue formar um quadro sabendo exatamente

a movimentação que ele está fazendo, que os outros líderes estão fazendo, e ainda por cima, o Mossad também conseguiu hackear as antenas de celular ali da região, para que se alguém tentasse avisar o governo, tanto o Khamenei quanto os outros militares, de que um ataque estava em andamento, não conseguiriam. Ou seja, foi um serviço de meses de preparação. Então, esse também é um dos motivos que foi decidido esse ataque,

que foi durante o dia. Então eles começaram o sábado como se fosse normal, porque o israelense e o americano ataca de noite, não ataca de dia. E eles se reuniram, e aí que duas horas antes da reunião começar, 200 caças israelenses lançadas no ar, foram por volta de 30 desses mísseis Blue Sparrow que foram disparados, que levaram em torno de 15 a 20 minutos para chegar em Teirã

E qual é o poder de estrago desse Blue Sparrow?

até 500 quilos de explosivo. Agora eu quero destrinchar contigo um pouco mais das estratégias de cada lado, a começar pelos Estados Unidos. Por exemplo, o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas Americanas disse que o Exército vai mudar de estratégia para essa fase 2. A gente está chamando de fase 2, me corrija se eu estiver errada. E até então, os bombardeios eram lançados em grandes ondas. Agora, a promessa é de que os ataques sejam mais pontuais

pontuais e ainda mais precisos. É exatamente isso? O que dá para esperar por parte dos americanos deste segundo momento da guerra? Primeiro a gente tem que entender que eles estão tendo que improvisar, se adaptar, porque ao que tudo indica, eles acreditaram que se matassem o Khamenei e toda a liderança militar, a estrutura do governo iraniano se desintegraria e acabaria pedindo para negociar

ou até mesmo houvesse um levante popular. Eu acredito até mesmo que os assessores mais próximos de Trump acreditavam nisso, até pelo sucesso, a partir do ponto de vista americano, do que foi a operação que eles fizeram contra Maduro na Venezuela. Como isso não aconteceu e não ia acontecer, eles agora estão tendo que improvisar. Porque essa primeira fase, fora isso, eles estavam caçando os lançadores de mísseis balísticos,

do Irã, porque o Irã tem mísseis de curto e médio alcance. Para as pessoas entenderem, curto alcance é um míssel que varia de 300 até 750 quilômetros. Médio alcance é que chega até 1.800, até 2.000 quilômetros de alcance. Da primeira classe teria, provavelmente, em torno de 1.000, da segunda, em torno de ainda uns 2.000 mísseis.

de veículos lançadores, entre aspas, caminhões que têm a capacidade de lançar esses mísseis, um número muito menor, em torno de 70. E o que americanos e israelenses fizeram nessa primeira fase? Caçar esses caminhões. Porque sem esses caminhões lançadores, não adianta nada ter esses mísseis. E por isso que nos primeiros dias muitos foram lançados, e nos últimos dias esse número de mísseis vem caindo. Então essa foi a estratégia,

Como o governo não caiu, agora eles estão tendo que se adaptar, eles estão indo atrás das pessoas que estão sucedendo às lideranças iranianas. O exército israelense atacou o prédio da Assembleia dos Clérigos do Irã, lugar onde seria escolhido o próximo líder supremo do país. Israel infiltra toda a alta cúpula do Irã com espiões, como nós vimos em junho passado, como nós vimos agora,

E estão também começando, ao que tudo indica, a preparar grupos minoritários dentro do Irã, como os kurdos ou como os baluches, para eles se revoltarem contra o governo iraniano. Ao que tudo indica, isso é a estratégia americana.

O Irã teve que mandar tropas da guarda revolucionária de Teherã para o noroeste, para onde fica essa área com curdos, minoria curda, já com receio de que isso possa acontecer. Ou seja, está dispersando forças, está complicando o cálculo e o raciocínio da liderança. Lembrando que os curdos são considerados o povo sem Estado. Eles vivem em pedaços de diferentes países.

inclusive o Irã, os curdos iranianos são considerados menos fortes do ponto de vista de mobilização de insurreição do que os curdos iraquianos, tanto que os Estados Unidos estão fazendo uma abordagem sobretudo junto aos curdos iraquianos para promover essa sublevação, essa insurreição para correr o regime por dentro. Agora, Gunter, quero analisar o Irã do ponto de vista da sua estratégia bélica até aqui.

se preparando para essa guerra, para esse ataque, há 47 anos, desde que o regime chegou ao poder. Porque é um regime que se estruturou ideologicamente, militarmente, economicamente e socialmente para enfrentar essa guerra contra os Estados Unidos, porque para eles, realmente, o grande satã, como eles chamam os Estados Unidos, o maior inimigo e que eles sabiam que mais cedo ou mais tarde seriam atacados. Então, sabendo que

militarmente, eles não conseguiriam nunca enfrentar de igual para igual, eles se prepararam para uma estratégia de fazer o custo dessa guerra para os Estados Unidos e para os aliados dos Estados Unidos ficar muito alto. Como eles fizeram? Primeiro, anunciaram o fechamento do Distrito de Hormuz, que já saiu bastante na imprensa, em torno de 20% do petróleo consumido todos os dias no mundo passa por ali,

e sair de torno de 60 dólares para 85 e pode subir ainda mais. Só para as pessoas terem uma ideia, nos anos 2010, quando se começou a falar ainda lá no governo George W. Bush de atacar o Irã por causa do programa nuclear deles, o então presidente Mahmoud Ahmadinejad dizia que se me atacarem 200 dólares o barril vai ser pouco. Porque ele ameaçava isso, incendiar qualquer navio petroleiro que passasse ali.

Mas, dependendo do que acontecer, pode chegar. E aí isso impacta a economia dos Estados Unidos e do mundo inteiro. Ou seja, uma pressão de todos os outros governos, por exemplo, dos europeus, para Trump parar essa guerra. Lançar todos esses mísseis e principalmente os drones que o Irã está lançando nos países árabes, das monarquias que são aliadas dos Estados Unidos, também faz parte dessa estratégia. Para que esses governos que não querem entrar na guerra, pressionem Donald Trump.

a parar o mais cedo possível, porque o custo da guerra está ficando alto para eles, tanto em não exportar petróleo, quanto destruição e mortes nos seus territórios. É isso que é a estratégia que ficou clara, que o governo iraniano montou. Eu vou tentar aqui uma proporção para ver se a gente consegue transformar isso numa imagem. Em termos de capacidade bélica, a gente está comparando uma formiguinha, no caso do Irã, com um elefante, no caso dos Estados Unidos,

Talvez um rato. Um rato e um elefante. Porque o rato consegue, às vezes, assustar o elefante. A formiguinha, não. E é isso que o rato está fazendo com o elefante. Está assustando. Porque não saiu como esperado. E é por isso que o presidente Trump já começou a avisar os seus eleitores. Mais soldados poderão morrer. Coisa que ele não esperava. Tem uma pesquisa nova feita pela Reuters, Ipsos. A pergunta é a seguinte.

de Trump ao Irã, considerando aqui todos os adultos, apenas 27% aprovam, 43% desaprovam. A pesquisa foi feita antes do exército americano anunciar a morte de quatro militares durante o conflito. Agora, Gunther, a guerra eclodiu quase nove meses depois daquele conflito de junho que você já citou, quando os Estados Unidos atacaram as bases nucleares do Irã e naquele momento ele disse que os Estados Unidos tinham obliterado essas unidades nucleares e agora,

Com essa guerra, em algum momento não se falou a verdade, ou foi naquele ou foi agora no último sábado. O que mudou no poderio bélico e na estratégia de combate de Teheran desde então? Aquele ataque serviu para o Irã acelerar a sua preparação para essa resistência de agora? Porque o que você está dizendo em outras palavras é, eles se prepararam para resistir o máximo possível, uma vez que eles não têm como brigar com gente tão grande,

do ponto de vista bélico.

Irã tem, aí podem abater. Portanto, isso dificulta a ação aérea americana e israelense, mas não impede. Então, aquela guerra já abriu caminho para ficar mais fácil essas primeiras ondas de ataque. Mas, por outro lado, também deixou claro que, no meu entender, o presidente Trump mentiu naquela declaração que tinha obliterado, porque muitos

O analista americano falou, acho que é um pouco cedo demais para dizer isso. Como o Irã entendeu que tem que espalhar o máximo possível de todas as suas capacidades, tanto de enriquecimento de urânio, quanto de equipamento militar, para dificultar esse bombardeio. Então, o que ficou claro, os iranianos viram que suas defesas aéreas russas não eram tão boas quanto eles pensaram,

adaptaram ao que tudo está indicando, eles souberam se adaptar a essa nova realidade. Gunter, olhando para trás, o que os ataques do ano passado, de junho do ano passado, tem a ver com esses de agora? Se a gente fosse analisar essa história em capítulos. Com certeza, a guerra de junho de 1925 foi um ponto alto para Israel, que conseguiu jogar o Irã no seu ponto mais fraco da história pós-79, pós-Revolução Islã.

Porque Israel perdeu os seus aliados do Hamas, do Hezbollah no Líbano, dos Houthis no Iêmen. Perdeu também Bachar Al-Assad da Síria, que era um aliado muito próximo. E, portanto, todo aquele arco da resistência estava se dissolvendo, sobrando várias das milícias chiitas no Iraque. E, portanto, abriu caminho para Israel se rearmar, os Estados Unidos também se prepararem,

para essa guerra e atacarem, porque o grande objetivo do governo Netanyahu e de Trump é uma mudança de regime no Irã. Não é o programa nuclear, não é um acordo. Não, é mudar o regime. Do ponto de vista israelense, porque o Irã é a maior ameaça existencial a Israel, e do ponto de vista do presidente Trump, para ele entrar na história como o presidente que conseguiu eliminar dois inimigos,

americanos, Venezuela e Irã. O que também pode ter contribuído para o Trump aceitar esse ataque, há notícias de que a China teria concordado em vender mísseis hipersônicos antinavios para o Irã. Esses mísseis alterariam o equilíbrio entre ataque e defesa da marinha americana numa operação como essa. Então há essa última variável que pode ter pesado na Casa Branca e no Pentágono.

Na prática, o que esses mísseis hipersônicos fariam? Eles voam entre três e cinco vezes a velocidade do som, voam muito rente ao mar, tornando-os quase impossíveis de serem detectados e as defesas antimísseis em tempo destruídos. Essa categoria é nova em termos de equipamento militar. Eles já tinham mísseis supersônicos que já tinham vendido para o Irã,

Para esse tipo de míssil, os navios americanos, uma esquadra americana, já estava preparada para se defender. Hipersônicos, não. Na verdade, nenhum país no mundo tem estrutura para se defender desse tipo de novo equipamento. Eu quero terminar fazendo uma outra comparação, porque você disse que em termos de arsenal, o Irã seria um rato, os Estados Unidos seria um elefante. E a China, de quem a gente fala muito pouco nesse aspecto?

Seria que animal? A China quer se tornar um mamute, mas ainda não está lá. A China, eu diria que é um elefante com no máximo um ano de idade, dois, está crescendo e vai crescer muito mais para tentar superar os Estados Unidos. No mínimo, se igualar, superar. O grande problema para a China é que houve, nos últimos quatro anos, uma série de expurgos na mais alta cúpula militar.

problemas de corrupção. Ou seja, Xi Jinping olhou para o que Vladimir Putin da Rússia está passando na Ucrânia. Em grande parte, o desastre militar russo na Ucrânia foi por problemas de corrupção e está olhando e falando, será que eu não estou passando pela mesma coisa? Será que se eu tiver que enfrentar os Estados Unidos mesmo, frente a frente, eu tenho essa capacidade? Então, ele tem o planejamento de retomar Taiwan, mas ele teve que adiar em alguns anos esse plano.

A China se tornaria, a depender das atuais condições de temperatura e pressão, a China deixaria de ser esse elefante, esse filhote, um elefante jovem, se tornaria um mamute ou teria poder para se transformar num mamute? Em quanto tempo, Gunter? Alguns analistas dizem 15 a 20 anos, mas tudo ficando como está. E é por isso que os americanos estão se preparando também.

nova categoria de bombardeiro estratégico, stealth, que é furtivo, uma nova categoria de caça furtivo, desenvolvimento de inteligência artificial, robótica, e o próximo passo é computação quântica. E isso os americanos estão na frente. O que é computação quântica, Gunther? Computação quântica é um computador que consegue fazer cálculos na velocidade e na quantidade que os computadores

Os computadores hoje, com a tecnologia que nós temos hoje, não conseguem fazer. A gente está falando de mais de 4 trilhões de cálculos por milissegundo. Só para as pessoas terem uma ideia, um computador quântico consegue quebrar qualquer código de criptografia em questão de segundos. Não haveria mais segredo na humanidade. Bingo. Então você sabe tudo que o outro governo está conversando e discutindo.

Gunter, eu já quero fazer um outro episódio com você. Aguenta aí, tá? Que já já eu te chamo. Muito obrigada. Você manja muito disso. Sempre um prazer te ouvir. Imagina. Obrigado pelo convite. Sempre um prazer estar com vocês. Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Christian Wittmann.

Christian, eu queria que você desenhasse um cenário do uso da inteligência artificial nos armamentos e na logística. De que forma Estados Unidos, Israel e até mesmo Irã estão se valendo do uso da IA nessa guerra?

da inteligência artificial, até que momento ela, vamos dizer assim, ela poderia ser considerada legal. Ou seja, ao final do ataque, esse ataque foi comandado por um humano com o uso auxiliar de inteligência artificial é uma questão. A questão se torna preocupante quando as armas possam ter, e já existe essa tecnologia, capacidade de determinar um alvo e empregar fogo, atirar contra esse alvo de forma autônoma.

central na discussão americana que ocorreu recentemente com o presidente Trump e a empresa Antropic, porque essa empresa entendeu por bem não liberar o uso da sua inteligência artificial para esses mecanismos autônomos de emprego da força, contrário aos interesses americanos e ao que tudo indica, a OpenAI, que é a detentora do chat EPT, ela autorizou o governo dos Estados Unidos a usar de forma indiscriminada a inteligência artificial para esse sistema de armas autônomas.

de contrato da Antropic pedia que sua tecnologia não fosse usada em armas que podem mirar e atacar um alvo de forma autônoma, sem controle dos humanos. Na sexta-feira, um dia antes do ataque, o secretário de guerra americano Pete Hegseth publicou um longo texto acusando o fundador da Antropic de colocar a ideologia do Vale do Silício acima das vidas americanas. Ele afirmou

Explica esse episódio pra gente, por favor. É justamente um debate que nas campanhas de sociedade civil, nas ONGs com as quais eu colaboro, nós estamos enfrentando justamente esse debate ético que, vamos dizer assim, saiu do âmbito das Nações Unidas e agora está dentro das empresas. E a Antrópica é um grande exemplo de pessoas que se tornaram inconformadas,

com o modelo de negócio, por exemplo, da OpenAI, e decidiram mover os seus esforços em outra empresa, no caso Antropic, que estabeleceu nas suas diretrizes corporativas que a inteligência artificial nunca poderia ser utilizada para determinados fins, como os sistemas letais autônomos. E isso irritou muito o governo americano, especialmente as forças armadas, porque isso acaba por limitar a possibilidade de uso da força pelo governo americano nas suas operações.

E veja só, assim como muito empresário gosta de tornar automático diversos sistemas da sua gestão, como a emissão de nota fiscal, enfim, a receber pedidos dos seus clientes, o Exército também gostaria, o máximo possível, reduzir a quantidade de efetivo militar de pessoas e ampliar o uso de máquinas para alcançar os seus fins militares. Então, o debate da inteligência artificial surge justamente da tecnologia sendo empregada para facilitar, baratear o processo bem.

E tem o aspecto também da larga escala, né? Porque se consegue fazer muito com menos, e aí custos menores do que os armamentos tradicionais. Fica mais barato do ponto de vista econômico entrar numa guerra? Sem dúvida. E isso gera também uma preocupação na turma. Assim como, por exemplo, minas terrestres, que ainda existe o flagelo delas, elas estão em processo de extermínio, de limpeza dos terrenos, mas ela era uma arma extremamente.

extremamente barata. Então grupos armados não estatais, como na Colômbia, nosso país irmão aqui do Brasil, usavam de forma indiscriminada produzindo mina terrestre em latas de azeite, nas antigas latas de azeite. E o fato é que hoje a possibilidade de você utilizar um drone como uma arma e alteração de software pode ter a transferência não mais entre estados, de um estado ao outro, de forma horizontal, mas também uma transferência de armas e produtos bélicos

de forma vertical dos estados, essa proliferação para os grupos armados não estatais. Mas aí nós chamamos justamente a atenção para os aspectos não só éticos como legais. Como, por exemplo, o robô, esse sistema de IA, ele não pode ser responsabilizado. Quem é que vai responsabilizar um robô pelo emprego errado e equivocado do uso da força? Quem é que vai responsabilizar, ao final, um robô? De que forma o robô vai ter a capacidade de distinguir

um civil e um combatente, regra básica dos conflitos armados. Aquele combatente, inclusive um militar, que passou a ser ferido, ele deixou de ser combatente, ele deixou de ser um alvo militar. Aquele que se entrega deixou de ser um alvo militar. Os sistemas letais autônomos, eles são geridos por códigos e sensores. Eles faltam a capacidade humana de perceber, durante o conflito, a aplicação de determinada regra ou não. Então, há um grande debate e expondo justamente

essas ilegalidades dos sistemas letais autônomos. É sempre necessário que ocorra um controle humano sobre os aspectos cruciais da arma, que é a identificação do alvo e o emprego da força. Se nós pegarmos os drones que foram empregados pelos Estados Unidos no conflito agora, eles já estão instrumentalizados com inteligência artificial e comunicação via satélite para serem alimentados e conversarem entre si a ponto de, conforme

as instruções, a programação inicial que eles recebem ou os comandos dados pelos operadores, você tem a capacidade de que eles possam se reorganizar durante o combate, durante o voo, a fim de não só, e aí tem várias utilidades, a inteligência artificial, como qualquer tecnologia dual. Ela pode simplesmente mapear o terreno, então, por exemplo, simplesmente identificar alvos, como ela também pode identificar alvos e estando, vamos dizer assim, municiada,

armamento, ela pode ser utilizada para o emprego da força em determinado aspecto. Christian, muito obrigada pelas respostas. Bom trabalho para você. Perfeito. Muito obrigado pela oportunidade. Um grande abraço. Antes de terminar este episódio, eu preciso dizer que ele marca uma despedida aqui no assunto. A nossa queridíssima Amanda Polato está deixando a equipe do assunto para um novo desafio na vida dela. A gente vai sentir muita saudade, mas eu também não posso deixar de dizer que a gente torce muito pela Amanda,

quer que seja o caminho que ela siga. Foram três anos em que a Amanda cumpriu uma missão fantástica aqui na produção do assunto. Então eu quero te dizer, Amanda, em nome de toda a equipe do assunto, dos seus colegas que se transformaram nos seus amigos, que você foi muito importante para a gente, vai continuar sendo, e que a sua história está escrita aqui, misturada com a história do assunto. Um beijo, boa sorte, e a gente já se encontra. Este episódio usou áudios da BBC.

Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natu Zaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto. Se você ainda usa toner para imprimir, está na hora de você saber que o principal componente é o plástico. Um ano de impressão com toner em todo o mundo equivale a 20 bilhões de sacolas plásticas. É muito plástico, não é?

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