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A guerra no Oriente Médio e o futuro do regime iraniano

03 de março de 202633min
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Convidado: Hussein Kalout, cientista político e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Pelo terceiro dia seguido, Estados Unidos e Israel atacam alvos diversos no Irã – e anunciam que mais tropas e mais caças estão a postos para entrar em ação. A retaliação iraniana também segue seu curso: mísseis e drones atingiram o território israelense e a infraestrutura de países que têm bases militares americanas, como a Arábia Saudita. No Líbano, o grupo extremista Hezbollah, aliado do regime iraniano, abriu um novo front de guerra. E o mapa do Oriente Médio tem cada vez mais alvos de todos os lados. No governo dos Estados Unidos, o secretário da Guerra fala em objetivos de curto prazo, mas Donald Trump já projeta pelo menos cinco semanas de ofensiva e diz que levará “o tempo que for necessário”. Já em Teerã, o regime dos aiatolás ainda lamenta da morte de seu líder supremo, Ali Khamenei, que governou o país por quase quatro décadas, enquanto se reorganiza para definir seu sucessor. Para explicar os arcos de aliança que estão formados no Oriente Médio e o processo de sucessão de Khamenei no Irã, Natuza Nery entrevista Hussein Kalout, cientista político e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Kalout avalia os riscos de uma escalada militar ainda mais perigosa na região, inclusive em relação ao uso de armas nucleares. E analisa as consequências da escolha do novo líder supremo do regime: se será mais ou menos aberto ao Ocidente. “Um cenário muito mais obscuro”, resume.
Assuntos14
  • Conflito Irã-EUAAtaques aéreos consecutivos · Bombardeios a infraestrutura iraniana · Duração projetada do conflito · Objetivos militares declarados · Violação do direito internacional
  • Morte Ali KhameneiMorte do líder supremo · Impacto no regime iraniano · Transição de poder · Escolha entre moderados e linha dura · Preparação de sucessores
  • Regime Politico IraMísseis e drones iranianos · Ataques a bases militares americanas · Fechamento do Estreito de Hormuz · Impacto econômico global · Envolvimento de países do Golfo
  • Escolha ideológica do novo líder supremoModerados vs ultraconservadores · Diálogo com o Ocidente vs isolamento · Possível busca por arsenal nuclear · Influência da Guarda Revolucionária · Impacto no futuro diplomático
  • Politica IraRegime horizontalizado vs verticalizado · Múltiplas forças políticas · Papel da Guarda Revolucionária · Separação entre poder político e militar · Complexidade da burocracia iraniana
  • Politica EuropaPaíses que condenam como agressão · Países que apoiam Israel e EUA · Contradições com princípios multilaterais · Divisão entre direito internacional e unilateralismo · Paradoxo com tratamento da Ucrânia
  • Alianca China-RussiaFornecimento de armamentos ao Irã · Inteligência e informações satelitais · Interesses estratégicos na região · Apoio logístico chinês · Suporte indireto ao regime iraniano
  • Armas NuclearesCapacidade nuclear israelense · Possibilidade de armas nucleares táticas · Programa nuclear iraniano · Subestimação de capacidades · Consequências de uso nuclear
  • Consequências econômicas das guerrasAumento do preço do petróleo · Inflação em mercados mundiais · Preço do gás na Europa · Seguro de cargueiros · Afetação de transporte marítimo e aéreo
  • Política AmericanaPromessa de campanha vs realidade de guerra · Influência de Netanyahu · Custos econômicos da guerra · Impacto na opinião pública americana · Pressão inflacionária doméstica
  • Relações InternacionaisRodada de negociações em Viena · Programa nuclear como ponto de negociação · Disposição para retomar diálogo · Timing político de parada da guerra · Construção de imagem de vitória
  • Atores não-óbvios e potenciais escaladoresHouthis como possível entrada · Hamas na Faixa de Gaza · Interesses estratégicos regionais · Risco de envolvimento maior · Papel dos rebeldes iemenitas
  • Cultura do IrãIrã como civilização vs país · Morte gloriosa do Khamenei · Perspectiva religiosa e mártir · Cultura persa e mobilização interna · Falta de conhecimento ocidental
  • Direito InternacionalViolação da Carta das Nações Unidas · Apelo por via diplomática · Conselho de Segurança e resoluções · Denúncia iraniana de agressão · Pedido de fim das hostilidades
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Pelo terceiro dia, os Estados Unidos e Israel seguiram os ataques contra o Irã. Mais tropas e mais caças já estão a caminho. E o presidente americano, Donald Trump, ao contrário do que vendeu para os Estados Unidos durante a eleição, disse que não pretende parar tão cedo.

Quatro a cinco semanas, mas nós temos a capacidade de ir mais adiante e vamos fazer isso. Junto com os ataques, veio a retaliação, expandindo o conflito pelo Oriente Médio. Desde sábado, as notícias traçam no mapa alianças e alvos. No Líbano, um novo fronte da guerra foi aberto quando o Hezbollah, um dos principais aliados do Irã na região, lançou mísseis e drones contra Israel em retaliação à morte de Ali Khamenei.

Israel respondeu com ataques aéreos em grande escala. Nós estamos acompanhando, neste momento, explosões que ocorrem no Líbano, no subúrbio de Beirute, capital do país. É possível ver essa grande coluna de fumaça, muita destruição aqui. Nós vemos prédios, imóveis, muitos deles já danificados por explosões anteriores. Também houve explosões no Catar, no Bahrein, em Oman e nos Emirados Árabes Unidos.

Instalações de petróleo e gás na Arábia Saudita foram atingidas. E no Kuwait, jatos F-15 dos Estados Unidos foram abatidos por engano pelo exército aliado. Durante os ataques de hoje, um drone atingiu uma base militar do Reino Unido no Chipre. É uma ilha do Mediterrâneo que faz parte da União Europeia. Alemanha, França e Reino Unido admitem intervir no conflito caso Teheran continue a bombardear outros países na região.

Junta fez um apelo à contenção e à via diplomática para solucionar a crise. O secretário-geral da ONU pediu o fim imediato das hostilidades e falou do risco de uma guerra regional ainda mais ampla. Do lado americano, o discurso é de afastar o histórico de incursões problemáticas. O chefe do departamento de guerra afirmou, inclusive, que o conflito com o Irã não será um novo Iraque, que esta é uma guerra com um fim estipulado. Encerrar o programa nuclear iraniano.

Para Pete Hexed, o objetivo não é uma mudança de regime, mesmo que este já tenha mudado de comando. Mas não foi isso que disse Trump ao anunciar os bombardeios. No próprio sábado, ele conclamou a população iraniana a se sublevar. Bombas cairão por todos os lados. Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele estará pronto para ser tomado por vocês. Esta será provavelmente a única chance em gerações.

A morte de Ali Khamenei há quatro dias coloca o mundo em estado de ansiedade. O planeta todo é afetado nas mais diversas frentes. Petróleo, malha aérea, transporte marítimo, o preço do ouro e das moedas nacionais e o dólar. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a guerra no Oriente Médio e o futuro do regime iraniano.

do SEBRE, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Terça-feira, 3 de março. Hussein, a gente viu o que aconteceu no sábado, a extensão dos ataques. A gente também viu a reação iraniana, mísseis, drones contra Israel e países do Oriente Médio que têm bases americanas por lá. Só que de lá pra cá a situação piorou e vem piorando hora a hora.

Israel bombardeou Beirute, capital do Líbano. Drones iranianos também atingiram agora a infraestrutura no Catar, que é um país parceiro dos americanos na região. Eu queria, antes de entender quem são todos os atores envolvidos e os interesses nessa história, pedir para que você nos esclareça algo importante. Já é possível afirmar que estamos diante de uma guerra generalizada no Oriente Médio?

Primeiro, é uma guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Não se trata de uma guerra de necessidade, é uma guerra de escolha e é uma guerra de agressão. Toda guerra de escolha é uma guerra que viola o direito internacional, portanto, ela se torna uma guerra de agressão, assim como a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Então, estamos diante disso, porque o Irã estava na mesa de negociação,

O Irã estava negociando e o Irã havia feito concessões importantes aos Estados Unidos, razão pela qual uma rodada de negociação começaria hoje, segunda-feira, dia 2 de março, em Viena, para tratar do avanço do diálogo no nível técnico quanto à extração do Irânio enriquecido a 60% pelos iranianos de Teherã. Bom, é isso, é o quadro.

Hoje é uma guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, que se espalhou pela região. Não é uma guerra regional no sentido do Irã contra os países, senão uma guerra que se espalhou pela região em função da presença americana por diversos países do Golfo Pérsico. Os Estados Unidos possuem bases militares na Arábia Saudita, no Catar, nos Emirados Árabes, no Kuwait, no Iraque, na região de Erbil,

Os iranianos haviam alertado de que uma vez, se eles forem agredidos militarmente, eles iriam retalhar. E a forma de retaliação seria atacar as bases americanas dentro da região. O Irã atacou os Emirados Árabes, Catar, Bahrein e Kuwait. Todos esses países têm bases americanas no Golfo Pérsico. O Iraque e a Jordânia, outros países que também têm bases militares americanas, também foram alvo.

confirmou que o Irã atacou a capital Riad e a região leste do país. Essa é a forma desuazória que eles encontraram. Então, em primeiro momento, eles atacaram essas bases. Obviamente, no segundo momento, fecharam o Estreito de Hormuz. Obviamente que, além de atacar as bases, eles também estão procurando, como passo subsequente, atacar os interesses econômicos dos Estados Unidos na região.

de Hormuz, por onde passa um quinto da produção de petróleo mundial. Especialistas apontam que esse fechamento pode fazer o preço do barril de petróleo, que já vinha subindo desde o início do ano, superar 100 dólares. Uma forma de elevar o coeficiente de pressão sobre os Estados Unidos. Não basta somente impingir dano militar, mas também é preciso, de forma concomitante, impingir dano econômico.

Por exemplo, o aumento do preço do barril de petróleo. O barril de petróleo salta aí da casa dos setenta e poucos dólares, já está quase na casa dos oitenta e poucos dólares, entra na casa dos noventa dólares. O preço de gás na Europa aumentou cinquenta por cento. O preço do seguro dos cargueiros petrolíferos que estão ali parados no estreito de Ormos disparou excessivamente.

um efeito inflacionário, isso da perspectiva econômica. Da perspectiva militar, o que a gente vê, os Estados Unidos se organizaram para uma campanha militar curta, imaginavam que seria de uma semana, um pouco mais, até de duas, já falam de quatro, cinco semanas, ou talvez mais, ou seja, eles no curso, no transcorrer desse conflito, já fazem uma recalibragem quanto à questão temporal. Eles trabalham com duas linhas, ou ora eles dizem que querem acabar

com o programa nuclear e se contradizem nesse aspecto porque eles haviam afirmado no ano passado que obliteraram o programa nuclear iraniano e agora dizem que querem acabar com o regime iraniano. Essa missão me parece muito mais complexa. Essa operação de acabar com o regime não se faz somente com ataques aéreos. Isso teria que ser a partir de um ataque terrestre. Um ataque terrestre envolve uma mobilização muito grande.

E não se resolve somente decapitando o regime, porque a natureza do regime iraniano é um regime que é horizontalizado, não é verticalizado. É um regime que possui múltiplas forças políticas, muito mais sólido, muito mais ideológico. O que é que manda no Irã? O presidente governa. Ele decide os ministérios, qual vai ser a política, a política pública de saúde. Só que o presidente não controla as forças armadas.

é um elemento fundamental do poder. É importante entender que o Estado iraniano é organizado de uma maneira em que o poder é extremamente fragmentado em diversas estruturas políticas. Com a morte do Ayatollah Khomeini, em 1989, assumiu o Ayatollah Ali Khamenei. Morto agora nos ataques por inimigos que ele alimentou em quase 40 anos, se opondo à hegemonia americana e israelense na região.

Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait, por aí vai. Quem são os personagens ocultos ou não óbvios desse conflito até aqui? Ou, vou avançar até, quem é que pode entrar dando essa escala regional de um conflito geral no Oriente Médio?

O primeiro-ministro do Líbano condenou duramente o Hezbollah pela ação contra Israel. Não que ele tenha qualquer simpatia pelo Israel.

tem, mas o governo libanês e a maioria dos libaneses não querem que o Líbano se envolva em uma guerra dos outros. Na visão do Líbano, essa é uma guerra do Irã e de Israel. O Líbano não tem nada a ver com esse conflito, portanto, não queria esse envolvimento. Mas o governo libanês, mesmo sendo contra o Hezbollah, não conseguiu segurar o grupo e agora a tendência é que continue essa escalada entre Israel e o Hezbollah.

Os Houthis, que por hora não agiram até o presente momento, mas a depender do curso da escalada, nos próximos dias ou semanas, podem vir a entrar no contexto operacional do conflito. Houthis é um grupo rebelde que prega a morte dos Estados Unidos e de Israel. Tiveram uma guerra sangrenta com a Arábia Saudita também. Eles são bancados pelo Irã, que também apoia o Hamas na faixa de Gaza.

e China, que estão por hora calados, a pente estão se manifestando diplomaticamente. Mas é óbvio que eles já estão envolvidos de forma indireta, porque eles vêm abastecendo o Irã com armamento antes do início da guerra, eles já vinham abastecendo o Irã com armamentos e também com informações de inteligência e também com informações satelitais de posicionamentos da armada americana e também dos movimentos

Inclusive a China, Hussein? Inclusive a China, obviamente. A China é um aliado estratégico. A China não quer ver o Irã cair nas mãos americanas. A China é um dos patrocinadores da presença do Irã nos BRICS. O Irã é um dos principais fornecedores de petróleo para a China. O Irã é uma peça-chave no enquadramento da estratégia chinesa do Belt and Road, de cinturão e roda, ou seja, da rota da seda, da interligação,

digamos, da Ásia para a região euroasiática, vamos dizer assim, o Irã é uma peça fundamental, digamos, na engrenagem estratégica da expansão da China para o Oriente Médio. Embora a China não pretenda se envolver diretamente no conflito, ela se envolve oferecendo aporte logístico. Por exemplo, 20 cargueiros chineses, digamos, equivalentes ao KC 390 que o Brasil tem,

aviões similares, desceram em Terã. Estamos falando de um mês e meio para dois meses atrás, com armamento. Armamento, digamos, mísseis aquáticos, que tem por finalidade alvejar navios de guerra. Além de sistema de radares, além de sistema de defesa antiaéreo. Então, a China não deseja ver o Irã cair na malha estratégica do bloco pró-Estados Unidos.

A Rússia também forneceu ao Irã vários materiais velhos e um sistema de defesa antiaéreo que é carregado no ombro, cujo qual você consegue até uma distância de 4 quilômetros atingir alvos móveis próximos, digamos, à órbita de 4 quilômetros. Então, esses dois países vêm abastecendo o Irã com armamento desde junho, desde a guerra de 12 dias do meio do ano passado, de julho do ano passado.

silenciosas, não precisam anunciar, mas isso dentro do contexto do Médio Oriental já é conhecido, esse apoio bélico. E esse ataque a que você se refere é o ataque de junho do ano passado, quando três unidades do programa nuclear foram abatidas e a gente não sabe a extensão, porque não temos a comprovação do quão destrutivo ou destrutivos foram aqueles ataques. Nós, eu e você, Natuza, porque o governo Trump disse que

obliterou o programa nuclear iraniano. Declaração oficial da Casa Branca. Sim, mas é porque a gente não tem prova disso, né? O mundo não tem prova. É, o mundo não tem prova, mas o discurso deles é esse. Tanto é que eles estão sendo cobrados pelo Partido Democrata, pela população e pela mídia americana, inclusive no editorial do New York Times, sendo cobrados que, ó, vocês estão dizendo que vão para a guerra,

sobre o programa nuclear, mas vocês disseram que obliteraram. Então, qual é a razão de ir para a guerra? Agora, tem um outro personagem nessa história que eu queria muito que você qualificasse, porque você já falou de Rússia, já falou de China. A Europa está tomando partido de quem? A Europa está dividida no que diz respeito a isso. Parte da Europa tomou lado do direito internacional e parte da Europa, lamentavelmente, tomou lado do unilateralismo. Explico isso.

Espanha e Suíça condenaram o ataque de Israel dos Estados Unidos. No entendimento desses países, houve uma violação ao direito internacional, trata-se de uma guerra de agressão, assim como Rússia fez na Ucrânia. E esses países entendem que o Irã estava negociando e estava fazendo concessões. Portanto, não havia uma causa que justificasse a agressão.

Reino Unido, que estavam criticando o Trump por causa do seu unilateralismo no que diz respeito à Grolandia, por exemplo, que estavam acusando o Trump de enfraquecer o sistema multilateral, que estavam avocando o direito internacional como princípio basilar para a diplomacia mundial e para a resolução pacífica das controvérsias,

manifestações oficiais de apoio ao uso da força de forma unilateral, que viola a Carta das Nações Unidas. No momento em que o Irã estava negociando, apoiam o ataque militar ao Irã e isso significa endossar o unilateralismo. Vamos lá para a Assembleia Geral da ONU, vamos ver o representante iraniano. É uma agressão aberta contra a República Islâmica do Irã.

A guerra que foi iniciada hoje não é uma guerra contra apenas o Irã, é uma guerra contra a Carta das Nações Unidas. Uma guerra contra as leis internacionais, uma guerra contra a ordem legal internacional sobre a qual o Conselho de Segurança e as Nações Unidas, como tudo, vêm sendo construídas há décadas. Se você quiser atacar outro país, bom, você tem as instituições multilaterais. Você pode aprovar uma resolução no Conselho de Segurança para tal penalidade.

porque isso prova a paradoxalidade do discurso, prova a paradoxalidade do discurso no que diz respeito ao direito internacional. Isso significa que o discurso deles com a Rússia se torna totalmente ambivalente. Por exemplo, se o Putin, nesse momento agora, decidir, por exemplo, pegar e mandar uma dúzia de mísseis contra o Palácio do Zelensky e matar o Zelensky, que nem Israel e Estados Unidos fizeram contra o Ayatollah Ali Khamenei,

Putin pode justificar. Estaria justificado pelo discurso europeu. Pelo discurso de França, Alemanha e Reino Unido, teria justificado. Então, há uma paradoxalidade. Acaba expondo os países europeus. Essa divisão na Europa, ela revela, entendeu? O antagonismo de posições no que diz respeito aos valores do direito internacional.

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De como essa guerra pode escalar ou para que lado ela pode escalar, queria só resolver aqui um outro ponto contigo. O governo iraniano afirmou que um dos seus ataques atingiu o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o que o governo israelense nega, ataques que teria se dado no gabinete dele em Jerusalém. Aqui no Brasil, o ex-chanceler do governo Lula, Celso Amorim,

de Lula, disse, abre aspas, devemos nos preparar para o pior. O que é o pior, Hussein? É uma guerra que implique ataques nucleares, por exemplo? Olha, Natuza, eu acho que uma guerra dessa magnitude está em processo de escalada contínua. Nós estamos nos dias iniciais. Eu acho que os Estados Unidos ainda não empregaram o seu potencial,

letal. A tendência é que, com o passar dos dias, eles empregam armas mais potentes, mais destrutivas. Eles têm um banco de alvo robusto no Irã e o objetivo, me parece, é destruir a infraestrutura militar iraniana por completo. Esse é o objetivo, na minha opinião, nas próximas semanas. Uma vez que, enfim, não é viável destruir o regime, não é viável você

destruir o programa nuclear por completo. Então, você vai destruir a infraestrutura militar. Israel é um país que não mede consequências, não respeita nenhum tratado internacional. Não me surpreenderia, digamos assim, se optar por usar armas táticas nucleares. Agora, daí, empregar isso também tem consequências. E os iranianos, por seu lado, também não empregaram as suas melhores capacidades

Há uma leitura no Oriente Médio de que tanto os Estados Unidos quanto os Estados Unidos subestimaram a capacidade de quanto o Irã detém de mísseis. Houve um cálculo equivocado de o quanto o Irã detém de mísseis e de qual é a capacidade destrutiva desses mísseis. Lembrando que o que se diz sobre a capacidade em termos de mísseis do Irã é de que eles teriam uma grande quantidade de mísseis de curto e de médio alcance,

são mísseis de longo alcance a ponto de atingir os Estados Unidos, por exemplo. Não, eles não têm isso definitivamente, mas o objetivo deles não é atingir os Estados Unidos, é o quanto que eles podem causar estrago dentro do contexto regional. E o tendão de Aquiles do Trump é Israel. Israel que fez o Trump ir para a guerra. O Netanyahu que fez o Trump ir para a guerra. E o Netanyahu que pode fazer o Trump parar a guerra. Aliás, esse é um argumento que já vi na imprensa americana

de que Trump está descumprindo uma promessa que ele fez de campanha para atender, na visão desses republicanos, um interesse de Israel. Trump, por exemplo, você já pisou nesse ponto, que Trump disse que projetou essa guerra para cinco semanas, você também já nos contou que talvez tenham subestimado a capacidade de resistência e de retaliação do Irã.

Um, qual é a expectativa real do tempo de duração dessa guerra e qual é o impacto dela para Donald Trump no seu ambiente doméstico? Porque muitos americanos, Roussein, é bom que se diga aqui, se perguntam agora o que o Irã tem a ver com o preço das casas, o que o Irã tem a ver com o preço das coisas, da inflação, com falta de plano de saúde, com falta de atendimento, com corte de gastos, enfim.

Imaga está dizendo que o Trump está colocando Israel first, Israel primeiro, não é America first. É isso que está sendo discutido hoje nas redes sociais americanas. O custo para Trump é alto. Quanto maior dura a guerra, piora o custo para ele. Primeiro, é um custo econômico da guerra. Os custos econômicos da guerra são grandes, porque ele está usando o imposto do contribuinte americano. Dois, o impacto econômico gera inflação, que vai gerar inflação. Não tenha dúvida disso.

Terceiro, você tem o impacto das baixas, dos soldados mortos, do maquinário destruído. Então, isso vai começar a chegar e vai ter impacto na opinião pública americana. Isso já vai gerar crítica da base e dos dois partidos. A popularidade dele está baixa. Então, partindo desse prospecto que se desenha, o Trump planejou uma vitória rápida e decisiva. Ele subestimou a resistência,

e a capacidade bélica do Irã. Então, qual é a tendência? Se ele recuar, fica péssimo para ele. E se ele avançar e não consegue ter resultado concreto, também fica ruim para ele. A questão é, durante o transcorrer dessas quatro semanas, ele precisa encontrar, e essa é a avaliação que ele deve estar fazendo, o momento certo de tentar parar. O momento certo em que ele possa ser percebido como vitorioso,

Não que ele vai ser vitorioso. Possa ser percebido, possa criar imagem de vitorioso para ele sair do combate e negociar uma trégua com os iranianos. Donald Trump afirmou que a nova liderança do Irã está disposta a retomar as negociações. Trump disse ainda que está aberto ao diálogo, mas não confirmou quando a conversa vai acontecer.

já negou e disse que o país não vai negociar com os Estados Unidos.

para eles a guerra era uma guerra de efeito político. Quando você mata o Caminei, que é o líder supremo, que tem uma função, veja bem, mais religiosa do que política. A guerra para eles agora é uma guerra religiosa. Não é uma guerra política mais. É uma guerra de inspiração religiosa. É uma guerra sacro-santa. Então, eles estão dispostos a ir até o limite que eles estão dizendo agora. Go all out. Ir para tudo ou nada. É isso que eu queria te perguntar.

como é que vai se dar o processo de sucessão do Ali Khamenei? Você já disse que essa se transforma internamente numa guerra sacrosanta, ou pelo menos para o exército iraniano. Como é que se dá, número um, a sucessão do Ali Khamenei? Qual é o nível de abalo com sua morte para o sistema? E qual vai ser o papel da guarda revolucionária iraniana,

como é o nome dela, nesse processo. Veja bem, o Irã é um país muito complexo, multifacitado politicamente, embora se pareça um regime monolítico. Não é monolítico no sentido, digamos, verticalizado. Ele é um regime composto por múltiplas forças políticas, certo? Você tem lá os teocratas, você tem lá os reformistas, os moderados, você tem lá a guarda revolucionária. Tudo isso compõe lá um mosaico do sistema político iraniano. Então, assim,

é muito difícil você desmantelar a estrutura do regime. Então, se o Trump acha que eliminando as lideranças, na expectativa de novas lideranças da guarda chegarem para a qual ele pode negociar com elas, ele está muito enganado. Ele não conhece o Irã, entende? Ele não conhece. Ou não está ouvindo nos Estados Unidos as pessoas certas que conhecem o Irã. Porque tem pessoas que conhecem. O Irã não é um país, é uma civilização. Os Estados Unidos é um país, mas não é uma civilização.

É importante entender isso. Os caras são os festas. Agora, como é que vai se dar o processo de sucessão? O Caminei era um homem de 86, 87 anos. Ele já estava adoentado. Ele já estava, digamos, sabendo que estava nos últimos dias de vida. Então, o processo de transição já se deu no Irã há um tempo. Os seus sucessores já estavam sendo preparados. Não é uma coisa, ah, vamos esperar morrer para ver quem assume. Não é assim que funciona.

do regime iraniano. E ali está funilando para três nomes, basicamente. É isso aí. Não tem. Vai ser uma escolha entre três nomes que já vinham sendo preparados. Assim, da perspectiva do regime, a morte do Caminei como foi, ela foi, assim, magnífica. Entendeu? É meio hilário dizer isso, mas é isso. Foi magnífica. Porque o Caminei poderia morrer daqui a uma semana, daqui a um mês, doente, numa cadeira de rodas, no leito de hospital. Mas morrer de uma forma como ele foi.

Ele morreu de forma gloriosa na perspectiva dos iranianos. É importante entender a cultura. A cultura persa e a cultura religiosa associada à cultura persa. Ele morreu de forma gloriosa. Mártir, assassinado pelos seus piores inimigos da forma como foi. Porque a morte dele matou a mobilização da dissidência iraniana que foi celebrar. Quando saíram os apoiadores do regime,

isso matou os manifestantes, quer dizer, a oposição que tentou celebrar. Acabou, entendeu? Na verdade, o Trump acabou fazendo o grande serviço ao regime e desencadeou o processo de sucessão de forma gloriosa. Agora, como é que vai ser? A escolha não vai depender de uma pessoa. Ah, vamos escolher o fulano A ou o Beltrano B, né? Não é isso. A escolha vai ser assim, nós queremos dialogar com o Ocidente, nós queremos nos festivinhos,

para o Ocidente. Assim que vai ser a escolha. Isso é o que você chama de linha moderada e linha dura. É essa que vai ser a escolha. Porque a gente fica, digamos, absorvendo informações vindas dos centros, digamos, ocidentais, e a gente olha para o Caminé como um cara linha dura. Na verdade, dentro da percepção oriental, o Caminé era um cara flexível, aberturista. Tanto que durante seu, digamos,

um período de governo, de liderança lá, você teve um presidente linhador, que é o Ahmadinejad, mas todos os outros eram, digamos, ou moderados ou reformistas. O Rafsanjani era moderado, o Khatami era reformista, o Rouhani era moderado, que abriu o diálogo para o programa nuclear com o governo Obama. O Pezekian é um reformista que está dialogando.

para negociação, etc., não acontece sem autorização do líder supremo. Então, é importante ter essas nuances, que a gente não tem muitas vezes aqui, só se estudar muito, mas voltando para o ponto. Então, a decisão vai ser, é, nós vamos ter alguém mais aberturista, ou seja, alguém que vai ser, vai manter a linha para um diálogo com o Ocidente, ou não? Ou nós vamos ter alguém em linha dura, ultraconservador?

Sim, a escolha vai recair sobre uma pessoa que vai fechar o diálogo com o Ocidente. O Irã vai virar endógeno e não vai dialogar. E o caminho vai ser o quê? Construção de um arsenal nuclear. Não tenha dúvida disso. Custe o que custar. Custe o que custar. E o Kamenei era o quê? Qual é o embate do Kamenei com a guarda revolucionária? Ele tentava contrabalancear a guarda revolucionária. A guarda queria a bomba atômica. O Kamenei que não queria. Tanto que ele teve que fazer.

um decreto religioso. Então, é isso que precisa ser compreendido. Esse é o embate. Se a escolha for por alguém em linha dura, essa linha dura, ultraconservadora, ele vai acabar se alinhando com a guarda revolucionária, tá entendendo? E aí, eu acho que o cenário fica muito mais, na minha opinião, obscuro, na minha opinião, para a região e para o Ocidente. Hussein, muito obrigada pelas explicações todas. Bom trabalho para você, né?

essa observação constante do mundo neste momento. Natuza, muito obrigado, querida. Sempre é um prazer estar com você. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natuza Neri e fico por aqui. Até o próximo Assunto. Se você ainda usa toner para imprimir, está na hora de você saber que o principal componente é o plástico.

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