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O risco de um colapso em Cuba

02 de março de 202630min
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Convidados: Cristiana Mesquita, diretora de notícias para o Caribe da Associated Press (AP), em Havana; e Ariel Palacios, correspondente da Globo e da GloboNews para América Latina. Desde a Revolução Cubana, em 1959, a relação entre Estados Unidos e Cuba é de rivalidade, e a Ilha convive há décadas com um embargo econômico. Nas últimas semanas, contudo, os cubanos estão experimentando algo inédito: viver sob escassez severa de petróleo, que afeta a distribuição de alimentos e remédios, paralisa o transporte público e provoca apagões diários. Cuba produz apenas 40% do petróleo que precisa para manter a economia de pé e tem a Venezuela como sua maior fornecedora – uma parceria na qual oferta serviços de saúde e de inteligência em troca de preços muito abaixo da média de mercado. Desde a captura de Nicolas Maduro pelos Estados Unidos, essa torneira fechou. Neste episódio, Victor Boyadjian entrevista Cristiana Mesquita, diretora de notícias para o Caribe da Associated Press (AP), para contar como está a vida das cerca de 10 milhões de pessoas que vivem na Ilha. Cristiana, que mora em Havana há quatro anos e visita o país com frequência desde a década de 1990, fala sobre a rotina dos moradores da capital cubana e o sentimento deles em relação ao regime. Depois, a conversa é com Ariel Palacios, correspondente da Globo e da GloboNews para América Latina. Ele explica o que há de diferente nesta crise em Cuba e o que faz a Ilha despertar interesse na geopolítica global.
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  • Crise energética em CubaBloqueio de petróleo pelos EUA · Escassez de combustível · Apagões diários · Racionamento de gasolina · Impacto na distribuição de alimentos e remédios
  • Economia EUA64 anos de embargo · Sanções comerciais · Pressão econômica do governo Trump · Ameaças alfandegárias a fornecedores
  • Interesse geopolítico global em CubaPosicionamento da Rússia · Posicionamento da China · Declínio estratégico pós-Guerra Fria · Abandono de aliados por Putin · Relações ideológicas vs. comerciais
  • Transporte público colapsadoFalta de ônibus · Carrinhos elétricos improvisados · Pessoas pedindo carona · Dificuldade de mobilidade urbana
  • Êxodo de cubanosAumento da imigração · Destino Brasil · Fuga da crise · Políticas anti-imigração de Trump
  • Negociações diplomáticas e infiltração políticaReunião de Marco Rubio com Raúl Guillermo Castro · Encontro de Alejandro Castro Espín com CIA no México · Transição de regime como objetivo · Autorização de Trump para venda de petróleo a empresas privadas
  • Possível aquisição/investimento americano em CubaProposição de Trump de compra de Cuba · Comparação com negociação da Groenlândia · Potencial turístico de Cuba · Investimentos pré-revolução · Paradoxo das empresas privadas do Estado cubano
  • Impacto da pandemia e desastres naturaisCOVID-19 · Furacões que arrasaram infraestrutura · Queda de 5% no PIB em 2024 · Acúmulo de 15% de queda desde 2022
  • Incidente militar no CaribeMorte de 4 pessoas em lancha · Interceptação de embarcação americana · Disparo contra militares cubanos · Investigação dos EUA · Histórico de incidentes similares
  • Infraestrutura energética cubana95% de termoelétricas · Falta de usinas hidrelétricas · Pequenos rios da ilha · Dependência de combustível importado
  • Ajuda humanitária internacionalMéxico enviando alimentos e itens de primeira necessidade · 800 toneladas de ajuda mexicana · Agradecimento de Díaz-Canel · ONU angustiada com distribuição de donativos
  • Crise de mísseis cubanos de 1962Instalação de armas soviéticas · Bloqueio naval americano · Tensão entre Kennedy e Khrushchev · Resolução diplomática
  • Posição de Marco Rubio na política cubanaSecretário de Estado americano · Filho de cubanos emigrantes · Voto cubano-americano anticastrista · Trunfo político para Trump · Imigração pré-revolução de seus pais
  • Coleta de LixoFalta de caminhões de lixo · Peças de reposição indisponíveis · Criatividade cubana limitada · Entulho nas ruas
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Em 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro e seu grupo armado derrubaram o ditador Fulgêncio Batista e concluíram o que ficou conhecido como Revolução Cubana. Em um mundo dividido pela Guerra Fria, o novo regime tinha apoio soviético. E os Estados Unidos viram ruir sua influência na ilha, que fica ali do lado, a menos de 150 quilômetros de distância. Essa tensão aumentou no Caribe. Estados Unidos e Cuba viraram rivais.

os americanos impuseram sobre a ilha um duro bloqueio econômico. Nos últimos 60 anos, os cubanos estiveram sob embargo, mas nas últimas semanas experimentaram algo inédito, viver praticamente sem combustível. Depois da Venezuela, o governo de Donald Trump trava uma campanha de pressão econômica contra Cuba e há semanas impede a venda de petróleo para a ilha. Os Estados Unidos ameaçaram os países que normalmente fornecem combustível para a ilha,

com sanções, punições e sobretaxas comerciais. E as condições de vida se tornaram cada vez mais difíceis. Alimentos e remédios estão escassos, porque sem combustível é mais difícil distribuir os produtos. E o transporte público, que já era ineficiente, está ainda mais reduzido. A vendedora Solanda contou que, semana passada, passou uma noite num restaurante porque não conseguiu voltar para casa.

tem pelo menos um ônibus. Dessa vez, não teve nenhum, disse. Todos os dias, a maior parte do país fica sem energia elétrica. Os blackouts podem durar até 15 horas. E já se fala até em risco de catástrofe humanitária. Cuba está sob risco de um colapso humanitário se não receber petróleo para o transporte para aquecer a população que enfrenta temperaturas mínimas recordes, segundo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Sem perspectivas, mais e mais gente tem optado por deixar o país. A situação em Cuba está muito ruim. Falta gás, falta luz, não tínhamos comida. Decidimos apostar numa vida melhor. Uma ilha melhor. Os imigrantes dizem que a crise pela qual Cuba passa tem estimulado a saída do país. E as políticas anti-imigração dos Estados Unidos, adotadas no governo Trump, fizeram muitos escolher o Brasil.

O risco de um colapso em Cuba.

Tite, há quase um mês os Estados Unidos decidiram bloquear o envio de petróleo a Cuba, um país que já enfrenta há mais de 60 anos embargos.

qual que é a situação hoje na ilha com mais esse bloqueio? Como é que está a sua rotina, digamos assim? Bom, a minha rotina não é uma rotina característica de Cuba, né? Eu, obviamente, tenho privilégios que a maioria do povo cubano não tem. O que eu posso dizer é o que eu vejo aí nas ruas todos os dias. Já não há transporte público, ou seja, você não tem mais os ônibus. As pessoas estão se virando com seus carrinhos elétricos,

São uma espécie de romizeta elétricos, pessoas pedindo carona para poderem se movimentar dentro da cidade, que é uma coisa bastante normal aqui. E caminhando, caminhando muito, porque está difícil a questão do transporte. Além disso, enormes filas para gasolina. E a gasolina está racionada, 20 litros por pessoa, por carro.

Eu, quando saio aqui do escritório por volta das sete horas da noite, às vezes eu vou até em casa sem ver nenhum outro carro na rua, né? E a gente está preocupado porque vai chegar um momento em que isso vai também afetar o abastecimento, o abastecimento dos mercados, das lojas de comida, enfim. A gente viu, há uma semana, o João publicou uma notícia de uma fotografia de entulhos, de lixo. É esse o cenário.

A questão do lixo é mais antiga que isso. A questão do lixo já começou mais ou menos em outubro, novembro do ano passado. Eles têm poucos caminhões de lixo, vários estão quebrados, eles não tinham peça de reposição para consertar, apesar da conhecida criatividade cubana. Pela sua experiência, você já viu o país chegar a esse ponto? O risco está mais próximo, na sua opinião, de um colapso?

nesse sistema? Eu estou aqui há quatro anos, mas eu venho a Cuba com alguma frequência a trabalho desde 1998. Então eu peguei a parte do que eles chamam do período especial. O período especial foi quando caiu a União Soviética e eles ficaram completamente desamparados e foi um período muito, muito grave.

na história cubana, com uma diferença muito importante. Naquele momento, eles tinham a Fidel Castro, que era um líder carismático, que mantinha moral, mantinha a população otimista, apesar das enormes dificuldades que eles estavam passando. E havia também a solidariedade de que, naquele momento, todos estavam no mesmo barco. Todo mundo estava na mesma situação.

Não é o caso agora, porque hoje em dia Cuba tem uma classe média. Com a abertura da economia para negócios privados, tem gente em Cuba que tem uma vida muito boa e tem gente em Cuba que não tem nada, que vive do pequeno salário de funcionário estatal. Então, esse clima de solidariedade, apesar de que ele ainda existe,

da moral da revolução, ele está também aos poucos se perdendo. É a grande tristeza que eu vejo nesse cenário. Titi, você deve saber muito bem, você sabe muito bem, tomar a opinião dos cubanos é sempre um desafio, um pouco pelo orgulho que eles têm de toda a história que eles construíram, mas também um pouco pelo medo que eles podem eventualmente ter de uma retaliação pelas opiniões.

depura nas ruas do que você tem ouvido dos cubanos? O que você tá observando? Qual que é o sentimento hoje? Olha, isso mudou bastante desde daqueles minhas primeiras viagens pra Cuba até agora. Eu vejo as pessoas se sentindo muito mais livres pra falar. Às vezes não necessariamente diretamente pra mim, porque eu sou estrangeira, mas eu trabalho com cubanos e eu vejo eles se abrindo muito mais quando a gente sai na rua pra fazer perguntas.

É claro que essa preocupação ainda existe, mas não é da maneira que as pessoas, de uma maneira geral, imaginam. O Estado não está o tempo todo em cima de cada opinião. Eu diria que é uma mistura de apreensão. Eles sabem que isso pode não acabar bem. Se eles não receberem o petróleo que eles precisam, a situação vai ficar muito difícil.

Precisa de cerca de 100 mil barris de petróleo por dia para manter a economia funcionando. Mas produz somente 40 mil. Cuba enfrenta mais uma grave crise econômica com falta de comida, de remédios e com apagões frequentes que deixam a população no escuro e agora no frio. Os termômetros têm marcado temperaturas mínimas recordes. Sem energia, os cubanos estão sem combustível e sem aquecimento.

eles sempre tiveram, apesar de uma enorme simpatia pelo povo americano, uma grande antipatia com relação aos governos americanos, por conta dos embargos e tudo mais. E eu estou vendo, de uma maneira quase unânime, um repúdio ao presidente Donald Trump.

para merecer isso, é uma ilha no Caribe, que não tem petróleo, que não tem minerais raros, não tem nada, e que não é uma ameaça para ninguém. Eles sabem perfeitamente que, seja qual for o desenlace disso, vai afetar ao povo, não vai afetar a esse governo que eles veem como muito distante deles. Uma vez mais, não é Fidel Castro, que estava na rua, que estava com o povo o tempo todo.

É um governo que se isola muito da população. Titi, e o que os cubanos têm dito depois do que aconteceu na Venezuela no começo desse ano? O problema é que a gente não sabe muito bem o que aconteceu na Venezuela, né? O que eles vão fazer? Eles vão entrar aqui, vão sequestrar o Miguel Dias Canel e depois, né? Eu acho que a preocupação é o que um embargo energético de longo prazo vai causar de sofrimento à população.

por horas com o pessoal da ONU, que está absolutamente angustiado, porque eles têm donativos que eles têm que distribuir para pessoas vulneráveis, para vítimas do furacão Melissa do ano passado, que ainda estão sem casa, sem luz, sem água potável. E eles não estão podendo fazer isso, porque não tem como transportar esses produtos e essas coisas

O México, um histórico fornecedor de petróleo a Cuba, prometeu o envio de alimentos e itens de primeira necessidade na tentativa de aliviar o sofrimento do povo. Nas redes sociais, o presidente Miguel Dias Canel agradeceu as mais de 800 toneladas de ajuda humanitária enviadas pelo México. Então eu acho que essa é a grande preocupação. Não é uma preocupação de entrar alguém e sequestrar o líder do governo.

O presidente Dias Canel não é como Maduro, ele é o secretário-geral do Partido Comunista. Eles teriam que fazer isso com o Partido Comunista inteiro, né? Ou pelo menos com a alta cúpula. De uma maneira geral, as pessoas acreditam que vai haver um acordo, que é o que o Trump está pedindo, né? Vamos negociar ou... E eu acho que vai chegar um momento em que eles talvez tenham que negociar realmente.

bastante pontual, mas muito importante, que aumenta essas tensões entre Cuba e Estados Unidos. No Mar do Caribe, militares cubanos mataram quatro pessoas a bordo de uma lancha que entrou nas águas do país. Segundo o governo cubano, o incidente ocorreu depois que as pessoas a bordo da lancha abriram fogo contra os soldados cubanos depois de uma interceptação. O que a gente sabe desse caso? O que está ficando cada vez mais claro é que essa interceptação dessa lancha

sido uma iniciativa dos cubanos em Miami, achando que esse era um bom momento de fazer alguma coisa, de tentar alguma coisa. É importante lembrar que isso já aconteceu várias vezes. A gente não tem aí, desde a última grande, que foi exatamente há 30 anos atrás, quando eles derrubaram os dois aviões de um grupo chamado Brothers to the Rescue,

duas avionetas que viriam para Cuba, enfim, trazer alguma coisa ou recolher gente e eles foram derrubados e aí pessoas morreram, mas acontece regularmente da Guarda Costeira, da Marinha Cubana interceptar o que eles chamam esses barcos rápidos, não? Speedboats de Miami que vêm até aqui ou para trazer coisas ou para recolher gente para levar de volta para Miami e a partir do momento

que eles entram em águas cubanas, eles são interceptados. Olha, segundo o governo cubano, o que aconteceu foi o seguinte. Cinco militares da guarda de fronteira de Cuba se aproximaram na manhã de ontem de uma lancha com identificação americana da Flórida, que estava a dois quilômetros do litoral cubano. E os ocupantes da embarcação atiraram contra os guardas que responderam. Segundo o governo em Havana, os dez ocupantes da lancha eram cubanos que moravam nos Estados Unidos

sobreviventes teriam dito que pretendiam realizar uma infiltração com fins terroristas em Cuba. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que é filho de cubanos que emigraram para a Flórida, disse que os Estados Unidos vão abrir uma investigação independente sobre esse caso. Ele disse que quer saber, por exemplo, se os mortos eram cidadãos americanos. E disse ainda que não se tratou de uma operação do governo dos Estados Unidos.

A minha opinião dos cubanos é que isso deu aos cubanos aquela coisa. Eles estão nos testando para ver como é que a gente vai reagir no caso de uma interferência militar. E eles todos colocam, enfim, uma frente muito corajosa. Nós vamos enfrentar o que seja, enfim. Mas uma pessoa falou assim, bom, pelo menos nós interceptamos e nós atiramos. Nós não explodimos.

sem saber quem era, por quê, de onde e quando, comparando com a explosão dos barcos que os Estados Unidos estão fazendo dentro de águas caribenhas. Titi, eu quero te agradecer muito pela sua valiosa participação, uma jornalista que está em Cuba e consegue nos dar essa perspectiva muito precisa, muito rara, inclusive, nesses momentos de tensão em que, de fato, é muito mais complicado distinguir o que é fato e o que é discurso político.

A gente torce para que você continue fazendo esse trabalho aí e em segurança na medida do possível. Muito obrigado. Obrigada a você, tchau. Espera só um pouquinho que eu já volto para falar com o Ariel Palacios.

empresariais de jato de tinta, Epson Workforce, com a tecnologia Precision Core. Você não vai querer continuar usando impressoras com toner, vai? Saiba mais em epson.com.br barra toner free. As estimativas da Epson são baseadas em dados internos e de terceiros. Ariel, Cuba vive nesse momento, talvez um dos momentos da sua história, dos quase 70 anos, desde a Revolução Cubana, um dos momentos mais difíceis. Eu me lembro na década de 90, no ensino médio, um professor meu falando que se vocês quiserem conhecer o regime cubano, visitem agora, porque quando

Fidel morrer, aquela ilha vai virar como qualquer outra ilha do Caribe. E não foi o que aconteceu. Cuba praticamente dobrou o seu período dentro do regime. Isso foi muito também por, apesar da perda do apoio da União Soviética, que foi desmantelado, também pelo apoio da Venezuela, né? Sob o governo Chávez, dando um apoio energético, sobretudo, né? Vendendo petróleo a preços muito baixos. Esse apoio venezuelano foi diminuindo até a gente chegar aí no começo desse ano,

essa mudança lá na Venezuela, a torneira fechou, em resumo. O que mais faz desse momento diferente dos anteriores, Ariel? Quando venceu a Revolução Cubana em 1959, durante os primeiros dois anos, não havia ainda uma espécie de rumo que mostrasse para que lado Cuba ia. Fidel Castro não pertencia ao Partido Comunista, Raul Castro, seu irmão, sim. Não havia nenhuma espécie de declaração socialista,

Era uma revolução para derrubar o ditador anterior, Fulgencio Batista, um ditador de direita. Havia uma visão romantizada com Che Guevara e outras figuras da revolução. Já um pouco mais um ano depois, nem dois anos depois, um pouco mais entre um ano e um ano e meio, Fidel Castro, devido às pressões americanas, decidiu alinhar-se à União Soviética.

foi a grande compradora do produto cubano, por excelência, que era o açúcar, e também os países do leste europeu, que estavam na órbita da União Soviética. Todos os países do bloco do Pacto de Varsovia, da Cortilha de Ferra, Polônia, Romênia. Então Cuba encontrou ali um mercado assegurado, com ótimos preços, inclusive em alguns momentos acima do mercado, para vender o seu açúcar.

O açúcar, Cuba, foi surfando, apesar do embargo americano, foi surfando até 89, quando teve a queda do Muro de Berlim, e aí depois, em 91, quando teve o fim da União Soviética. Conseguiram chegar até 2006, então a Revolução, apesar de tudo, foi sobrevivendo, conseguiu chegar até 2006, 2006, Hugo Chávez já estava governando na Venezuela fazia sete anos, desde 99, e eles fizeram um acordo, um acordo pelo qual Venezuela,

Abastecia Cuba com petróleo, abastecia petróleo a preço de presente, a preço de banana. E Cuba devolvia com médicos, que depois aplicou também isso em outros países da região, inclusive o Brasil, com serviço de inteligência. Recordemos que Maduro, quando foi sequestrado pelo comando americano no dia 3 de janeiro, estava rodeado, não de venezolanos, estava rodeado de um cinturão de militares altamente especializados, que eram cubanos.

anos. Então Cuba devolvia à Venezuela isso, né? E assim foi até o dia 3 de janeiro, se bem que a Venezuela já nos últimos três anos estava cada vez fornecendo menos petróleo, porque a própria Venezuela estava produzindo bem menos petróleo do que antigamente. Cuba estava com um crescimento interessante antes da pandemia. Veio a pandemia, vieram vários furacões que arrasaram a infraestrutura de Cuba. Era como se fossem as sete pragas do Egito, né?

Curacões, por um lado, apagões elétricos, apagões elétricos pela falta de combustível, desabastecimento de alimentos e medicamentos, êxodo de seus habitantes, repressão e censura do regime e as pressões da Casa Branca por intermédio do embargo, que já tem 64 anos de impedimento quase total de comerciar com os Estados Unidos, mas comercia livremente com outros países, e a sétima praga que foi quando o governo Trump, no início do ano,

aquela ameaça alfandegária para qualquer país que enviasse combustível à ilha, tanto é que o México, que já o ano passado estava começando a mandar um pouco de petróleo, teve que cancelar tudo subitamente. Então, sem combustível. Lembrando que a energia elétrica de Cuba provém 95% de termoelétricas, porque Cuba tem rios muito pequenos, uma ilha estreita tem rios pequenos, então não tem hidrelétricas como o Brasil. O país teve uma queda de 5% no PIB no ano passado, acumula uma queda de 15%

desde 2022, quando iniciou a pandemia. Então, é um período muito, muito, muito, muito complexo. Agora, é notável, Ariel, a gente já está chegando aos 40 anos pós-Guerra Fria. Cuba, uma ilha relativamente pequena, completamente depauperada. Por que que continua gerando interesses de países maiores? Não só o assédio norte-americano, que está lá a 150 quilômetros de distância, mas Rússia, China, do outro lado do mundo.

interesses concentrados nessa ilha. Cuba não tem petróleo como a Venezuela. Cuba não está numa encruzilhada geopolítica como a Groenlândia. Não tem minério. Cuba não tem minério que vale a pena. Cuba não tem petróleo. Aí vocês dizem, bom, então o que tem? Não é que tem metais raros? Tampouco. Água? Tampouco. Não tem grandes lixões, como eu disse, né? Elisões de termoelétricas, basicamente. Então, qual que é o interesse tão grande em Cuba?

Bom, Cuba gerava um interesse imenso durante a Guerra Fria, especialmente nos anos 60, quando teve a crise dos mísseis cubanos em 62, durante o governo dos Estados Unidos do John Fitzgerald Kennedy e era o Khrushchev que governava a União Soviética. Crise dos mísseis de 1962. A então União Soviética instalou as armas em Cuba e os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval à ilha.

americanos e soviéticos chegaram a um acordo e recuaram para alívio global. Nos anos 80 ainda havia, porque por intermédio de Cuba havia uma influência na Nicarágua e em algumas ilhas do Caribe, como se fosse uma espécie de pontas de lança soviéticas para o futuro. Mas isso também acabou. Então Cuba foi perdendo esse espaço e isso fica muito claro nas reações tanto de Vladimir Putin quanto de Xi Jinping, o líder chinês,

desde que as pressões sobre Cuba começaram, e são pressões ultra intensas por parte de Trump, a resposta deles não foi enviar produtos, furar as ameaças alfandegárias de Trump, não. Foi aqueles comunicados mostrando certa indignação e também não é muita indignação. Putin também é famoso por ter deixado vários aliados na mão, de ter abandonado aliados. Este seria mais um caso.

no poder, Cuba já não era uma aliada, a China tinha boas relações com Cuba, mas também não tinha um grande comércio com Cuba, havia uma questão ideológica, se bem que os chineses, embora o Partido Comunista Chinês esteja no poder, a economia chinesa é selvagemmente capitalista, então China e a Rússia pronunciam palavras de protesto, mas não vão mais além disso, então o fato é que Cuba está tremendamente isolada na atual conjuntura, aliada mesmo

valer era Venezuela e agora não é mais. Tanto é que Délice Rodrigues, nesta semana, se referiu a Trump como amigo e sócio. Amigo e sócio. Chávez deve estar revirando no túmulo, se pudesse, se houver um além e se for possível revirar no túmulo, porque uma declaração dessas teria sido inimaginável em 26 anos de revolução bolivariana de chavismo no poder da Venezuela. Ariel, vou trazer aqui um elemento,

a mais desse vocabulário empresarial que é muito usado no governo Trump, ele chamou, ele falou a jornalistas que talvez seja possível uma aquisição amigável de Cuba. Ou seja, já vendo Cuba também como outros locais do mundo, como ele já fez isso, como uma grande especulação imobiliária. Você acha que é possível os Estados Unidos chegar nesse momento em que Cuba está bastante combalida economicamente? Estados Unidos chegar e comprar,

ilha, assim, de uma maneira, não de uma maneira objetiva, mas chegar com tantos investimentos a ponto do regime ficar inviabilizado, o regime de Miguel Dias Canel? Se houvesse uma abertura econômica que permitisse uma grande quantidade de investimentos americanos, haveria um cenário bastante que voltaria a Cuba à pré-revolução, quando os Estados Unidos tinham um monte de investimentos em Cuba, hotéis, casinos, e Cuba tinha a vantagem de ser um ponto turístico

próximo dos Estados Unidos. Então, os americanos iam com muita frequência passar fim de semana feriados em Cuba e voltavam para o território dos Estados Unidos. Então, isso já acontecia, era uma grande proximidade. Cuba tem praias fantásticas. Havana, a Havana antiga, a parte histórica da Havana, que foi reformada anos atrás, é espetacular. Então, turisticamente, Cuba seria, assim, um ponto de muito interesse para as empresas turísticas dos Estados Unidos.

já comprar a ilha, tal como ele está propondo ali para fazer algo parecido à Groenland, algo assim, isso seria impossível na atual conjuntura, porque há uma identidade cubana fortíssima, um orgulho também de uma parte da população cubana pela revolução, então isso seria, digamos, comprar Cuba seria algo, é uma jogada mais histriônica do Trump, porque existe um histórico lobby cubano em Miami, em outras regiões dos Estados Unidos, há décadas, não é?

O secretário de Estado, Marco Rubio, é um filho de cubanos, mas atenção, não é um filho de cubanos exilados por causa de Fidel Castro. Os pais de Marco Rubio vieram, se não for, para os Estados Unidos, acho que em 56 ou 57, os dois, três anos antes da Revolução Cubana, mas ele foi eleito parlamentar graças ao voto cubano anticastrista e isso tem um peso enorme no imaginário do eleitorado cubano-americano e outros setores do eleitorado americano.

Então, será um grande trunfo político para Trump, embora não seja um trunfo econômico, propriamente dito, para esse setor, mas é um trunfo simbólico. Ariel, uma das possíveis estratégias dos Estados Unidos também pode ser, por que não, uma aproximação de alguns agentes políticos de Cuba, como a gente já está vendo, né?

O secretário do Estado americano, Marco Rubio, teriam se reunido com Raul Guilherme Rodrigues Castro, que nada mais nada menos é neto do Raul Castro e sobrinho neto do Fidel Castro. Então, estariam acontecendo conversas desse estilo. Recentemente teriam ocorrido no México conversas entre Alejandro Castro Espín, que é o filho do Raul Castro, o sobrinho do Fidel Castro, e é o chefe da inteligência cubana, que teria se reunido com representantes da CIA no México,

o objetivo de negociar alguma espécie, algo como se fosse uma espécie de transição do regime para tempo indeterminado. E é interessante que Raul Guillermo Castro, que é apelidado de o caranguejo e que é assessor do pai e lhe comanda o grupo de administração empresarial, o Gaessa, que é o maior conglomerado empresarial estatal de Cuba, controlado pelas Forças Armadas, esteja em

com os americanos, se bem que agora Trump autorizou que o petróleo poderá novamente ser vendido a Cuba, desde que seja para empresas particulares cubanas. Então, se bem que o Estado cubano, por incrível que pareça, é um paradoxo, o Estado cubano controla várias empresas privadas, embora seja o Estado cubano, com a família Castro por trás disso. Muito bem, Ariel Palacios, nos ajudando a decifrar essas mensagens que vão sendo

lançadas lá dos Estados Unidos em direção a Cuba, que muito provavelmente vão ser cada vez mais frequentes, como a gente vê aí em vários outros pontos do planeta. Obrigado, Ariel. Obrigado, Victor. Obrigado a todos. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Este episódio usou áudios da TV Cultura. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Amanda Polato, Sara Rezende, Carlos Catelan e Luiz Gabriel Franco. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui.

Até o próximo assunto.

baseados em dados internos e de terceiros.

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