A epidemia de anabolizantes no Brasil e seus riscos à saúde
- Terapia de reposição de testosterona (TRT)Indicações médicas (hipogonadismo masculino) · Uso para fins estéticos e ganho de massa muscular · Supressão da produção natural de testosterona · Risco de aterosclerose, infarto e AVC · Hipertensão arterial e miocardite
- Necessidade de acompanhamento médicoProcura por médicos por atletas · Proibição de prescrição de anabolizantes para estética pelo CFM · Não existe almoço grátis: o boleto chega · Controle de danos e acompanhamento cardiovascular · Diagnóstico precoce de cardiotoxicidade
- Medicamentos e TratamentosTestosterona e seus derivados (trembolona, oxandrolona, estanozolol) · Hormônio do crescimento (GH) · Insulina · Diuréticos · Peptídeos
- Estratificação de risco na miocardiopatia hipertróficaDoença genética hereditária · Principal causa de morte súbita em jovens · Hipertrofia desorganizada do músculo cardíaco · Serginho do São Caetano
- Saúde, performance e recuperação físicaEndurance (atividades aeróbicas) · Powerlifting (musculação, levantamento de peso) · Ciclismo como esporte com alto uso de hormônios · Alta performance não é sinônimo de saúde · Risco de infarto e AVC em atletas de alta performance
- Anabolizantes e SaúdeAcolhimento do paciente · Tratamento realista baseado em evidências
Fim de semana, um assunto dominou as redes. Depois que o fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, foi encontrado morto por amigos em seu apartamento, muitas pessoas resgataram publicações em que ele relatava o uso de insulina. Atletas do meio enxergam o hormônio como uma espécie de porteiro do músculo, que ajudaria a levar energia aos treinos. Alguns afirmam ainda que a insulina ajudaria a reter proteína, favorecendo a hipertrofia. Só que nada disso tem comprovação médica.
A carreira de Gabriel começou no Rio, onde ele treinava, fazia faculdade de educação física e gravava vídeos para redes sociais. Ele tinha 1 milhão e 700 mil seguidores. Gabriel disse nas redes sociais que tinha começado a usar insulina para aumentar a massa muscular. Chegou a relatar ter passado mal.
Gabriel morreu subitamente devido ao espessamento anormal das paredes do coração, o que impediu a circulação adequada. Essa, entretanto, não é uma consequência comum associada à insulina sozinha, e não está claro se ele usava ou não outros hormônios. Mas esse caso expõe um problema maior. Cresce no país o uso indiscriminado de anabolizantes, especialmente entre jovens.
Os esteróis anabolizantes são hormônios mesmo, certo? Então essa parte hormonal só deve utilizar o hormônio quem tem deficiência hormonal prescrita por um profissional capacitado. No Brasil, um em cada 16 estudantes já usou algum hormônio para fins estéticos, o que é proibido pelo Conselho Federal de Medicina desde 2023. Agora preste atenção nos números seguintes.
Nos últimos 20 anos, o consumo aumentou 39% entre alunos do fundamental, 67% no ensino médio e 84% entre os formandos.
Sim, você ouviu certo. A gente está falando de adolescentes. Os dados são da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Já segundo números da Anvisa, o uso de testosterona sintética saltou impressionantes 670% nos últimos cinco anos. E sob a pressão cada vez mais constante do algoritmo, a morte de Gabriel e a de outros atletas acaba sendo ofuscada pelo estigma do chamado corpo perfeito.
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é A epidemia de anabolizantes no Brasil e seus riscos à saúde. Neste episódio, eu converso com o médico cardiologista Filipe Savioli, especializado em esporte, e com Alexandre Arraes, pós-graduado em cardiologia do esporte e médico de fisiculturistas. Terça-feira, 26 de maio.
Dr. Filipe, recentemente saiu o laudo da morte do atleta de fisiculturismo, o Gabriel Ganley, como cardiomiopatia hipertrófica. Explica para a gente, por favor, que doença é essa? Natuza, cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética hereditária que acomete um a cada 500 pessoas. Então, é uma doença genética que não é rara. Ela é a principal causa de morte súbita.
em jovens menores de 35 anos no mundo inteiro. Essa doença causa uma hipertrofia no músculo cardíaco de uma forma completamente desorganizada. O músculo cardíaco, o miocárdio, ele se hipertrofia causando pontos de fibrose no coração e esses pontos por...
consequência, levam à arritmia cardíaca e arritmias cardíacas fatais e morte súbita. Por isso, é uma das principais causas de morte súbita no esporte, inclusive. Muitas vezes a gente vê jogadores de futebol, que é o que no nosso país a gente mais vê, caídos no campo, com esses episódios de síncope, de perda da consciência subitamente. A gente está falando dessa doença, a gente está falando da miocardiopatia hipertrófica.
Aconteceu uma morte súbita muito marcante no esporte brasileiro. O jogador Serginho do São Caetano, em outubro de 2004, durante uma partida de São Caetano e São Paulo. E durante o jogo, mostram o mesmo Serginho de sempre. Zagueiro forte.
Marcador implacável. Mas aos 14 minutos do segundo tempo, o camisa 5 do São Caetano desaba na área. Nesse momento, o desespero já toma conta de todos que estão no campo. Respiração boca a boca. Massagem cardíaca. Serginho.
havia sofrido uma parada cardiorrespiratória e os médicos dos dois clubes tentam de tudo para reanimá-lo. Apesar de todo o esforço, Serginho não resistiu e morreu aos 30 anos. O uso de esteroides anabolizantes, que é muito comum e frequente no fisiculturismo, também leva à hipertrofia do músculo cardíaco.
Mesmo que você não tenha essa doença genética. Mesmo que você não tenha essa doença genética. Então, é importante a gente diferenciar isso. O que é doença genética e o que é o remodelamento, porque a pessoa, o indivíduo, está usando esteroide anabolizante e também um terceiro cenário.
que é simplesmente o remodelamento por conta do exercício. A gente sabe que exercício de força, levantamento de peso olímpico, de resistência, podem causar uma hipertrofia no músculo cardíaco também. Se o laudo do IML constatou a doença miocardiopatia hipertrófica, ela não tem nada a ver com esses outros dois cenários que eu apontei agora. Tem a ver com uma doença genética, que é a principal causa de morte súbita em jovens atletas menores de 35 anos.
Mas o que eu entendo e que pode ter acontecido com o Gabriel é a soma das três coisas, da doença, do uso de anabolizante e também de um exercício de alto impacto. Essas três coisas juntas, somadas, podem ter contribuído para a morte precoce do Gabriel, certo? Sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma.
e até acrescentaria mais outros dois fatores que podem ter contribuído. A presença da miocardiopatia hipertrófica associado ao uso indiscriminado e irresponsável de esteroides anabolizantes, associado também possivelmente ao uso de insulina e o uso de diuréticos. A insulina é um hormônio que eles usam também como um hormônio anabolizante no fisiculturismo.
defendia um fisiculturismo sem o uso de hormônios. Depois de uma pneumonia, Gabriel mudou de posicionamento e disse nas redes sociais que tinha começado a usar insulina para aumentar a massa muscular. Chegou a relatar ter passado mal. Só que aí, mano, começou a me dar muita confusão mental, mano.
A insulina pode causar em pessoas diabéticas e não diabéticas queda importante da glicemia. E a resposta fisiológica do nosso corpo é aumentar o batimento cardíaco, aumentar a frequência cardíaca, às custas de uma coisa que a gente chama de descarga adrenérgica ou descarga catecolaminérgica. Então o hormônio de adrenalina vai lá para as alturas. Isso aumenta muito a frequência cardíaca e aumenta muito o batimento cardíaco.
e a pressão arterial. Uma bomba relógio. Uma pessoa que faz uso desse tipo de substância e está colocando dentro do seu corpo uma potencial bomba relógio que pode explodir a qualquer momento. A qualquer momento. Exatamente. É um cenário perfeito para uma desgraça acontecer.
Como é que esses atletas, eu imagino que eles saibam de tudo isso que você nos conta. Eu imagino que eles estejam informados dos riscos potencialmente letais, e não só os letais, porque há outros riscos bastante sérios.
E ainda assim, eles escolhem ingerir essas substâncias? É um comportamento de risco que é preocupante e eu queria muito que essa nossa conversa e que tudo que está sendo ventilado em rede social, nos canais de mídia, servissem de alerta, porque a nossa população brasileira é muito desigual. Então, eu acredito que tem muita gente que não compreende os riscos, mas tem muita gente que compreende os riscos e assume as consequências.
talvez acreditando que não vai acontecer comigo. Até a hora que acontece, ou até a hora que acontece com algum parceiro de treino, algum colega, um familiar, e aí ficam alarmados. Mas, via de regra, a informação também, hoje em dia, está muito disseminada. Se você acessar um...
canal de YouTube desses grandes influencers do mundo maromba, todos eles falam sobre os riscos de usar anabolizante, do risco de usar insulina, de usar diurético. Então é algo que é conhecido pela maioria deles, eu diria, mas talvez a vontade, a sede de chegar numa competição ou chegar na fama, de ter milhares de seguidores, talvez isso fale mais alto, isso não vale a pena.
Definitivamente isso não vale a pena. A gente está falando de quais outros medicamentos? Porque você citou insulina, faz uma lista dos mais comuns, não só no mundo do fisiculturismo, mas nesse mundo da busca do corpo perfeito.
mais ver, testosterona é algo majoritariamente utilizado. Então, testosterona e seus derivados, como também trembolona, oxandrolona, estanozolol, outros hormônios como o hormônio do crescimento, que é o GH, a própria insulina, que atua como um potencializador, um multiplicador disso tudo, desses efeitos, os diuréticos.
São outras substâncias que se utilizam muito, além da novidade dos peptídeos, que é uma onda que ainda vai chegar aqui no nosso país e a gente vai sofrer as consequências também. Fala disso um pouquinho, fiquei curiosa. Existem no mercado, principalmente no mercado americano, uma onda de peptídeos.
que são substâncias que prometem causar ganho de massa magra e perda de gordura corporal. Alguns peptídeos prometem melhora do sono, outros peptídeos prometem melhora da cognição. Existem junções desses peptídeos que te transformam num X-Men, brincando assim.
Porque até tem um que chama um PEC, um conjunto que chama Wolverine. Então, é aquelas receitas milagrosas que não são validadas, não tem estudos nem de segurança para prescrição, muito menos de desfecho. Então, é algo que ainda não chegou no nosso país a fundo, mas em breve a gente vai ser inundado por essas informações de peptídeos. Que hoje mesmo eu atendi um paciente que mora na Califórnia.
E ele fala que na barbearia dele já é vendido testosterona, chips e também os peptídeos. E esses peptídeos atuam aonde? Quais são os riscos que eles trazem? Então, Natusa, isso é algo tão novo que a gente não sabe ainda exatamente mecanismo de ação. Não tem estudos ainda para mostrar qual é o mecanismo de ação, o local de atuação, efeitos colaterais.
se é seguro, se não é seguro, dose, via de administração. Então, isso tudo não é certo. São pessoas que arriscam a própria vida usando algo que não está estabelecido na literatura, algo que não está estabelecido no mercado. Então, é algo muito perigoso.
E eu imagino que essa seja a regra do seu mundo, né? Você que é um médico especializado em esporte, né? Muita gente começa a ingerir essas substâncias sem que haja um estudo mínimo para saber se ele é de fato seguro para a saúde.
Pois é, se a gente trouxer até para a nossa conversa do caso do Gabriel, a testosterona não tem uma dose segura. A testosterona não tem uma indicação precisa para a população em geral sair utilizando para estética, para fins estéticos. A testosterona tem sim indicações.
médicas clínicas bem respaldadas, como, por exemplo, o hipogonadismo masculino, que é a condição em que o homem não produz mais testosterona naturalmente. Então, às vezes, homens que passaram por tratamento quimioterápico, homens que tiveram cirurgias em que foi...
removido os testículos ou que tiveram infecções em ambos os testículos e não produzem mais testosterona, esses homens devem repor testosterona porque a deficiência desse hormônio pode levar a um aumento do risco cardiovascular. Ou seja, esse é um caso em que uma pessoa é indicada a tomar um anabolizante, é isso?
Exatamente, exatamente. E aí as pessoas perguntam, pô, mas então qual que é a diferença entre eu tomar a testosterona com indicação e tomar a testosterona sem indicação? Se da mesma forma eu vou tomar a testosterona, por que que desse jeito vai me fazer mal e do outro jeito não vai me fazer mal? Primeiro, porque o uso da testosterona sem indicação clínica, então como no caso do fisiculturismo, os atletas usam para finalidade estética.
que vão subir num palco e expor o seu corpo. Essa finalidade estética não respeita em absolutamente nada a fisiologia natural do nosso corpo. Nosso corpo, ele regula a produção de testosterona naturalmente. Nós temos hormônios dentro do nosso cérebro que regulam a produção de testosterona.
O ponto é que esses atletas, na maioria das vezes jovens atletas, começam a usar a testosterona exógena. Então, aplicando de fora para dentro, os níveis de testosterona no sangue sobem. E o cérebro interpreta aquilo como...
Tem muita testosterona circulando. Então fica quieto aí. Não vamos produzir mais porque tem muita testosterona produzindo. Isso em uma semana se aplica novamente à testosterona. E os níveis vão se mantendo sempre elevados. O cérebro bloqueia a produção de testosterona pelo testículo e fica sempre a depender de uma nova aplicação. O corpo vai esquecendo como se produz testosterona e logo...
Esse jovem vai se tornando infértil, porque o testículo começa a perder a sua função. Talvez até pior do que isso, ele vai se tornando dependente de uma testosterona exógena, aplicada.
A gente sabe que a testosterona aumenta o risco de um indivíduo desenvolver aterosclerose, que é uma doença que acomete as artérias do coração, aumentando o depósito de placas de gordura nas artérias do coração, do cérebro, por todo o corpo. A aterosclerose é a principal causa de morte no mundo inteiro, que é o infarto e o AVC. A doença aterosclerótica coronariana...
é quem causa infarto. A doença aterosclerótica cerebral é o que causa o AVC. E tudo isso pode ter sido desencadeado, poderia ter sido desencadeado, pelo uso crônico de esteroides anabolizantes a longo prazo. Além da hipertensão arterial, que pode ser desencadeada, a hipertrofia do músculo cardíaco e até...
a inflamação do músculo cardíaco, que a gente sabe hoje que a testosterona pode servir como um agente inflamatório agudo, direto do coração, causando uma coisa chamada miocardite, ou uma toxicidade direta ao músculo do coração. Dr. Filipe, eu agradeço muito as suas explicações, te agradeço muito por sua presença aqui. Muito obrigado. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Dr. Alexandre.
Doutor Alexandre, eu sei que você não prescreve anabolizante, mas você recebe diariamente no seu consultório pacientes preocupados em fazer uso de anabolizantes. Eu queria entender um pouco mais se você sentiu um aumento dessa procura. Eu te explico por quê. Na abertura do episódio, a gente deu alguns números. Por exemplo, saltou nos últimos cinco anos...
o uso de testosterona sintética em 670%. É uma explosão bastante grande. Então, eu queria saber o que você sentiu no teu consultório, que tipo de procura aumentou. Para a gente colocar um ambiente um pouco mais amistoso, no sentido de esclarecer aonde eu estou inserido, Natuza, eu faço acompanhamento cardiovascular de pacientes em geral.
Só que nos últimos seis anos ficou voltado muito esse atendimento para o atleta dentro da cardiologia de esporte, de formação em sua cirurgião cardíaca. E me inseri dentro da cardiologia de esporte, onde a procura aumentou muito. A sua resposta é sim. Nos últimos dois anos, então, intensificou-se bastante. Com o advento justamente da evolução positiva no cenário do fisiculturismo brasileiro, mais praticantes tiveram o hábito realmente de fazer isso como idealizando ser um atleta.
houve sim uma procura nesse sentido. Também houve uma procura de pacientes que não fazem uso, isso também é importante frisar, que graças a Deus desde 2016 a musculação virou uma prescrição médica, então muitos pacientes procuram realmente por saúde, literalmente não fazem uso desses recursos ergogênicos, entre eles os anabolizantes.
E qual é o perfil desses pacientes? Qual é a média de idade, por exemplo? A gente está falando de procura por qual tipo de anabolizantes? Na verdade, a média de idade é entre 25 e 48, até os seus 50 anos.
A maioria deles estão procurando com o benefício de melhora de performance e ganho justamente desse sentido que eles entram com esse lifestyle, da melhora da qualidade de vida, que em alguns casos, sem dúvida nenhuma, também deixar claro na Tuzi, que o hormônio é um medicamento. Quando se é utilizado de forma abusiva, que é o cenário hoje que a gente observa muito, está estabelecido, aí sim vem um grande ônus dessa prática, que é inclusive o que o Conselho Federal de Medicina e que é o que o Conselho Federal de Medicina
de forma muito clara, é que está proibida a prescrição médica de uso do anabolizante com finalidade de performance e estética. O Conselho Federal de Medicina proibiu os médicos de prescreverem anabolizantes para desempenho esportivo, ganho de massa muscular ou fins estéticos. Na medida que saiu no Diário Oficial da União, o CFM diz que não há comprovação científica suficiente quanto aos benefícios, nem segurança para quem usa.
Então, o cenário é o aumento desse número, como falamos anteriormente, muito bem frisado por você. Há essa faixa entre 25 e 48 anos. E o hormônio mais utilizado é a testosterona. A maioria deles são homens, embora que as mulheres utilizam, são outros ergogênicos.
Portanto, a gente está falando de pacientes que querem começar a usar, mas que antes ouvem a opinião de um médico. Mas eu imagino que essa explosão se dê também em razão a pacientes que não procuram a opinião nem a pesquisa de um especialista antes de fazer a ingestão.
O fato de ele procurar um médico não vai evitar os malefícios do anabolizante. Eu costumo dizer no consultório, não existe almoço grátis. Uma hora ou outra o boleto vai chegar no uso desse hormônio. Lógico, se você tem acompanhamento médico, você tem, em alguns casos, como diagnosticar a evolução e acompanhar a evolução desses fatores de risco durante o uso, a prática a médio e longo prazo, logicamente.
que aquele paciente que não tem nenhum acompanhamento médico. Mas o fato do médico estar acompanhando não dá a benção de você estar utilizando e você está sem risco dos efeitos colaterais dessa medicação. O outro ponto é que o uso sempre abusivo...
Nunca vai estar recomendado. Na verdade, esse uso desse hormônio para melhora da performance e estética, ele abre esse leque onde há esse cenário onde esses pacientes que já utilizam, eles procuram para ver o efeito desse sistema cardiovascular e tentar fazer um controle de dano, mas a gente não consegue blindar o coração desse paciente e a gente deixa isso muito bem claro. Mas no cenário é muito melhor você fazer um acompanhamento médico do que você não fazer isso, indubitavelmente.
E você já pegou algum caso de algum paciente que já fazia uso de anabolizantes, você pediu os exames, tomografia da coronária, por exemplo, descobriu uma doença congênita que transformava esse paciente em uma bomba relógio e ele precisou parar e ele parou? Tem casos assim? Bastante. No meu dia a dia, eu encontro vários pacientes aonde fazem uso do hormônio.
Há uma contraindicação por mim e mesmo assim esse paciente decide continuar. Não é função do médico, eu sempre digo isso, criticar, discriminar ou mesmo negar atendimento médico. Mesmo que esse paciente tenha práticas lesiva à saúde, como é o cenário que nós estamos conversando aqui hoje agora. Costumo dizer que eu não conheço nenhum oncologista, nenhum pneumo, que para quimio ou radioterapia adjuvante, não é adjuvante para esse paciente que tem um adenocarcinoma pulmonar, ele decide continuar fumando. Ele continua fumando, mas ele vai continuar fazendo tratamento.
Então, o fato desse paciente estar no convívio, no ambiente médico, dá a possibilidade de todos os dias que ele possa rever o conceito e saber que aquela prática, no caso o uso anabolizante, que é o meu dia a dia, não é benéfico e ele deve parar. Então, um trabalho muito árduo, não é fácil, porque associado a tudo isso, há um desmorfismo desses pacientes e, de fato, esses pacientes precisam ser acolhidos. Esses pacientes não podem ser discriminados.
E uma vez que não há uso seguro de anabolizantes, o que pode ser feito para prevenir, por exemplo, casos graves? Há algum protocolo? Qual é onde você consiga evitar o efeito colateral desse anabolizante ou esse protocolo para isso? Como não existe dose segura, não há nenhum estudo que confirme isso, como também, por exemplo, não há nenhum estudo que diga que 10 cigarros causam adenocarcinoma pulmonar e não 20 cigarros.
Mas sabe-se que quanto mais cigarro você fumar, quanto mais disposição você tem, é que de fato cigarro é um fator de risco para um câncer no pulmão. Sabe-se também que o uso do anabolizante não existe, apesar de não ter uma dose segura, mas sabe-se que há um risco muito maior de morte pelo fato de você utilizar anabolizante. Os exames com angiocoronaricografia, o escório de cálcio.
O ecocardio avançado, o constrain, o trabalho do miocardio, o teste cardiopulmonar, a calorimetria indireta basal, o próprio Doppler das artérias coronárias e vertebrais, assim como o Router e o Marpa, são exames fundamentais que você pode fazer um diagnóstico precoce.
principalmente com o advento do ecocardiograma, constrém o trabalho do miocárdio, onde você pode ter um passo antes daquela doença estar estabelecida e você ter uma conduta muito mais preventiva do que desse controle de dano. Então, no cenário onde não existe um protocolo, não há uma dose segura, o que eu sempre recomendo é um acompanhamento médico especializado, voltado com técnicas específicas para tentar fazer um diagnóstico precoce dessa cardiotoxicidade.
E aquele paciente onde ele não começou a fazer o uso, trazer esse paciente, mostrar a realidade e fazer com que ele reveja que se realmente é esse o cenário que ele quer adentrar. Colocar as cartas na mesa e falar a realidade baseada em evidência. Temos estudos já robustos que corroboram isso e que é um caminho que ele deve realmente saber se é esse que ele quer. Porque o risco é elevado.
Esses pacientes chegam no consultório admirando alguém que eles viram nas redes sociais ou querendo ser igual a um influenciador, se parecer com um atleta de fisiculturismo, por exemplo?
No Brasil isso houve um crescimento bastante nos últimos cinco anos, nos últimos dois anos principalmente, pela evolução muito positiva dos nossos atletas bodybuilders. Tem que deixar muito claro que o esporte em alta performance em nenhuma modalidade é sinônimo de saúde. Há estudos robustos que mostram que existe a curva em U de treinabilidade que nós falamos, onde dá um dado bem importante, que os pacientes em alta performance e que os pacientes em alta performance
Seja ela qual for a modalidade, tanto no endurance quanto no powerlift, esses pacientes de alta performance têm a mesma probabilidade de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular e cefálico, do que um paciente obeso ou sedentário. O esporte em alta performance não é sinônimo de saúde. Isso está muito bem estabelecido. E aí causa, inclusive, a incredibilidade de um esporte. Não, isso é impossível, doutor, te pergunta. Sim, é possível e isso está estabelecido dentro da comunidade científica.
Isso não quer dizer que você não deva fazer atividade física. Isso é uma coisa completamente diferente, tá, Natuza?
Eu queria que você explicasse o que é o Endurance e o Powerlifting, porque eu não sou da área. Perdoe, Natuza. O Endurance é aquele esporte onde a atividade aeróbica, ou seja, onde a presença desse consumo do oxigênio está mais evidente. É justamente onde a gente está relacionado ao cardio. É o esporte, é o basquete, é o vôlei, é a corrida, é o atletismo de uma forma em geral, é o triatlon. Então, onde há uma...
prevalência da atividade aeróbica. O powerlifting entra a musculação, o próprio powerlifting, o levantamento de peso, que nós vemos isso inclusive nas Olimpíadas, é um mito onde se acha que as pessoas somente do powerlifting, ou seja, da musculação, que fazem uso de hormônios, estão propensos a maiores riscos cardiovasculares.
Inclusive tem um dado bem interessante também, que quando eu falo isso, os pacientes ficam abismados, que o esporte onde mais se utiliza o hormônio não é o fisiculturismo, é sim o ciclismo. Isso tem a ver porque há um número maior de praticantes e há mais anos vem sendo praticada de uma forma mundial, está no cinco continentes. Os atletas brasileiros, os atletas mundiais, campeões...
Ele serve em referência para esses pacientes que estão chegando no meu consultório. Assim como eu recebo pacientes também do triátil, assim como eu recebo também os pacientes só do ciclismo ou da corrida. Nesse momento agora, eu estou mais inserido dentro dos fisiculturistas. Há uma procura muito maior dos atletas brasileiros nesses últimos anos, sem dúvida nenhuma.
Isso é só para fisiculturista, esses caras que querem que você olhe assim na rua, chama atenção, pô, esse cara está mais parecido com o Incrível Hulk quando você quer ficar assim, ou assim, normal, gente que não quer ficar igual o Incrível Hulk e toma. Com o doutor Fábio Moura, que é médico, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
Infelizmente, o uso dessas substâncias é uma verdadeira epidemia, é um verdadeiro problema de saúde pública. É cada vez mais frequente pessoas não atletas, pessoas que não têm. O ponto também é que, além da questão estética, essas drogas também atuam no sistema nervoso central e deixam a pessoa mais estimulada. Então, muita gente usa isso para se sentir o macho alfa.
Para a gente fechar, o que pode ser feito quando o paciente insiste no uso, ainda que o médico diga? Se o risco já é grande para pacientes que não têm esse tipo de problema, no seu caso ele é potencialmente mortal. Que tipo de abordagem dá para fazer?
A primeira abordagem, que já deve ter sido feita desde a primeira consulta, é acolher esse paciente. A relação médico-paciente é feita de confiança, e com o acolhimento isso ficou muito mais propício. Acolhendo esse paciente, você consegue passar autoridade realmente, não vinculada a uma titulação que você venha a ter, mas sim a realidade e ao convívio.
Trazer a realidade, você não pode banalizar e passar a mão na cabeça desse paciente Natuza, dizendo que está tudo certo e que uma hora a gente vai conseguir fazer um controle efetivo com tal exame. Dr. Fábio, quem produz essas drogas? É a indústria farmacêutica? Como é que isso chega às pessoas?
grande tráfico disso pela internet, é muito fácil comprar isso pela internet, em academias de ginástica, em diferentes ambientes e infelizmente tem vários colegas médicos que vendem isso como rotina. Prometem aos pacientes resultados miraculosos, prometem estética perfeita, performance muito maior, o que em parte pode até acontecer de novo, às custas de um preço altíssimo. Eu quero só lembrar que é muito importante,
Médico que prescreve isso com intenção de estética e de performance comete infração ética objetiva.
O importante é isso. É verdade, o acolhimento, tratar de forma realista, baseada em evidência, com cientificismo, é a forma que nós médicos temos, e não só médicos, os profissionais da saúde de uma forma geral, porque isso tem que ser uma ação multidisciplinar. Trazer esse tema a uma discussão, a âmbito público, realmente, porque hoje o uso de anabolizante é pandêmico, é a questão de saúde pública, as autoridades precisam continuar.
sempre de alerta, trazer esse tema a debate, colocar a sociedade em pauta disso, trazer vocês como meio, a mídia tem um papel fundamental nisso, o espaço de você abrir, fazer uma reportagem sobre esse tema. É importante trazer uma informação real onde você possa trazer esse paciente a uma reflexão e fazer com que ele possa talvez mudar de ideia da prática dele, seja ela qual for. Doutor Alexandre, muito obrigada pelas explicações todas. Bom trabalho. Imagina, eu que te agradeço. Uma boa tarde.
Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelã, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuza Neri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.