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O horror das mulheres afegãs sob o Talibã

22 de maio de 202623min
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Convidada: Adriana Carranca, escritora e jornalista, participou de coberturas especiais no Afeganistão e em outras regiões do Oriente Médio. Nas últimas semanas, o grupo fundamentalista que governa o Afeganistão publicou o documento intitulado "Princípios de Separação Entre Cônjuges", que muda a legislação sobre casamentos no país. Desse modo, uma tragédia comum nas regiões rurais foi oficializada como lei: o casamento infantil. Na prática, o Talibã derrubou a idade mínima para o casamento, que era de 16 anos: agora, meninas de até 9 anos já são submetidas ao matrimônio forçado. O texto estabelece ainda uma interpretação extrema de consentimento: o silêncio de uma "menina virgem" deve ser entendido como um “sim”. A medida é apontada por especialistas internacionais como a institucionalização do estupro infantil e da violência doméstica. Neste episódio, Natuza Nery conversa com a jornalista e escritora Adriana Carranca, que já realizou coberturas in loco no Afeganistão. Nesta entrevista, Adriana explica a origem do Talibã e a ascensão de um regime ainda mais fechado a partir de 2021, e relata o horror pelo qual mulheres e meninas são submetidas por lá.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
A

Adriana Carranca

ConvidadoEscritora e jornalista
Assuntos6
  • Casamento Infantil EUAPrincípios de Separação Entre Cônjuges · Talibã · Casamento infantil · Meninas de 9 anos · Silêncio como consentimento
  • Direitos das MulheresProibição de escolas secundárias · Proibição de universidades · Proibição de parques e academias · Proibição de viagens sem tutor masculino · Perda de direitos após 2021
  • Mulheres na HistóriaDireitos antes do Talibã · Período de ocupação americana (2001-2021) · Educação e oportunidades para meninas · Retomada do poder pelo Talibã em 2021
  • TalibãInvasão soviética de 1979 · Guerra civil afegã · Madraças e treinamento militar · Promessa de ordem e paz · Código tribal Pashtun
  • Importância da participação internacionalAjuda humanitária como moeda de troca · Abandono das mulheres afegãs · Não reconhecimento do Talibã
  • Voto Feminino no BrasilLei 4.121 de 1962 · Autonomia financeira · Direito ao voto
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A gente liga 99,8% do Brasil. Liga histórias, liga momentos, liga a vida. Distribuidoras de energia. A gente liga o Brasil. Antes de começar, um aviso. Este episódio contém descrição de violência contra a mulher. Se você é ou conhece alguém que é vítima, procure ajuda. Ligue 180, a central de atendimento à mulher. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

Em 1962, a sociedade brasileira fez um movimento que parece simples, mas que, na prática, transformou a vida das mulheres. A Lei 4.121 deu autonomia financeira, garantiu voz na guarda dos filhos e assegurou o direito ao voto sem depender de ninguém. Foi um passo que colocou as brasileiras dentro da própria vida. Mas e se tudo isso desaparecesse amanhã?

E se de um dia para o outro essas portas se fechassem de novo? Isso já aconteceu antes, não foi aqui, mas é uma história bem recente. Agosto de 2021. Os moradores do Afeganistão acordaram com uma nova realidade lá no país. Porque depois de 20 anos o país agora não tem mais o domínio americano e passou a ser integralmente comandado pelo Talibã.

Antes do Talibã, nas grandes cidades do Afeganistão, mulheres iam à universidade, trabalhavam e ocupavam cargos públicos. Desde 1965, as afegãs podiam votar. Todos esses direitos estão sendo apagados, linha por linha.

O golpe mais recente é tão brutal que parece inacreditável. O Talibã legalizou o casamento infantil. Agora, meninas de nove anos podem se casar. E ainda pior do que parece. Durante a cerimônia, para consentir com esse absurdo, basta o silêncio da criança, que no texto da lei é chamada de virgem, não de criança.

Tudo isso está em um documento oficial chamado de princípios de separação entre cônjuges, escrito pelo Talibã. O Talibã basicamente conseguiu destruir em um ano avanços em direitos humanos que os afegãos levaram duas décadas para conquistar. Com todas as limitações que enfrentam as meninas e as mulheres, metade da população do país se tornou excluída.

quando dezenas de mulheres desafiaram a proibição e foram às ruas de Cabul protestar. Elas pedem pão, trabalho e liberdade. Mas em poucos minutos, recebem esse tratamento da polícia talibã. Tiros para o alto e violência.

Ao redor do mundo, especialistas têm usado outra palavra para essa mudança. Legalização do estupro infantil. Oriah Mozadique, ativista afegã de direitos humanos, disse ao jornal britânico The Times que este é mais um exemplo de atrocidade do Talibã. Não é exagero. Mesmo que haja crueldade contra a esposa, mesmo que ela seja vendida, isso não basta para um divórcio.

E tudo isso acontece em um país onde as mulheres já foram proibidas de frequentar escolas secundárias, universidades, parques, academias, salões de beleza e até de viajar sem um tutor masculino. Beneste se lembra bem do que sentiu quando se tornou juíza, um país passando por tantas mudanças. Foi a sensação mais maravilhosa que tive na vida. Fomos a primeira geração, mas agora acho que tudo acabou.

Nossas escolas foram fechadas para as meninas depois da sétima série e também as universidades estão fechadas. Na vitória do Talibã, as mulheres são as grandes derrotadas. A tragédia que as afegãs vivem nos lembra que direitos humanos, como as nossas conquistas em 1962, não são perenes. E que a vigilância constante é necessária para sua manutenção.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é o horror das meninas afegãs sob o Talibã. Neste episódio, eu converso com a jornalista e escritora Adriana Carranca. Ela foi correspondente internacional em países da África e da Ásia e tem livros publicados sobre o Irã e o Afeganistão. Sexta-feira, 22 de maio.

Adriana, a gente vai ter uma conversa sobre algo que mais parece uma distopia ou um filme tenebroso de terror, mas que infelizmente é a realidade. Desde 2021, os direitos das mulheres afegãs foram simplesmente demolidos pelo Talibã. Só que nas últimas semanas a situação piorou ainda mais se é que isso era possível. Explica pra gente o que está acontecendo.

No Afeganistão, tradicionalmente, pelo Código Pashtun, que vamos lembrar, é um código tribal de 4 mil anos atrás, as mulheres são consideradas propriedade do homem. A mulher no Afeganistão não herda o que o marido tinha, ela é herdada junto com o que ele tinha, ela é herdada pela família dele, junto com a casa, com os animais, com a terra, com o que quer que ele tivesse.

muitas vezes elas são obrigadas a se casar com o irmão do marido que morreu. Então, o que acontece agora? Era muito comum já o casamento nas zonas curais, casamento infantil. Muitas vezes, Natuza, as meninas são dadas como prêmio em disputas entre famílias.

Então existe uma disputa por terra, ou isso ou aquilo, entre famílias. E no acordo entre essas famílias, uma delas concorda em dar à outra cinco animais, uma menina virgem e tanto em dinheiro. Ela é considerada uma coisa, né, Adriana?

Uma coisa, uma posse, uma posse. Como a terra, como os animais, como a casa, como tudo que é do homem. O que é pior agora? Eles estão transformando essa que é uma tradição milenar, que em outros países já existiu coisas medievais e que mudaram depois, eles estão transformando isso em lei. Uma vez que se torna lei, essas meninas que tiveram acesso à universidade, que têm contato com pessoas fora do país, elas não têm mais como lutar contra isso.

Se o casamento infantil agora é lei, elas não têm mais a quem recorrer. Nenhum ativista vai poder contestar isso. Era uma tradução e se eles tivessem mantido a Constituição de 2004, que foi a primeira aprovada depois da invasão dos Estados Unidos e com a anuência dos Estados Unidos, ainda haveria uma brecha para...

você contestar tradições com base na lei. Mas eles estão transformando o que era tradição, passada de gerações para gerações, muitas vezes oralmente, eles estão transformando tudo isso em lei. Então, desde que eles tomaram o poder, eles transformaram em lei 250 novas emendas e decretos, e dessas, 157, especificamente restringindo direitos das meninas e das mulheres.

Você tem ideia de como essa nova forma da lei bateu para as mulheres lá? Elas já imaginavam isso, já era assim como tradição, mas hoje elas não têm mais os mecanismos de defesa legais. Porque essas tradições milenares, tribais, brutais, que o Talibã já impunha, se transformaram em lei. E elas se casam até por proteção, se casam às vezes...

O pai as obriga a se casar com alguém que ele escolhe para que elas não sofram o assédio do Talibã e elas não saem de casa. Essa é a realidade do Afeganistão hoje. Eu queria dar uns passos para trás contigo para entender a realidade das mulheres no Afeganistão. Você que estuda esse tema, cobre ele, conversa com fontes, já escreveu um livro sobre o Afeganistão. Conta para a gente, Adriana, como era a vida das Afegãs antes do primeiro governo talibã.

O Afeganistão é um lugar de passagem. Então tem uma história que vai mais de 4 mil anos e aquela população vem ao longo desse tempo sofrendo uma série de invasões. As mais recentes na história moderna começaram com a invasão da União Soviética no Natal de 1979. Os soviéticos ocuparam o Afeganistão por 10 anos e, por isso, os Estados Unidos, durante esses 10 anos,

da invasão soviética, armaram e treinaram várias milícias. O Afeganistão é um país que é dividido por etnias. E os Estados Unidos, na época, com apoio logístico de Osama Bin Laden, que na época era um parceiro, um aliado dos Estados Unidos nessa missão contra a invasão dos soviéticos. Osama Bin Laden foi indicado como responsável pelo pior atentado sofrido pelos Estados Unidos. Estou falando do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001.

E o que eles fizeram? Depois que os soviéticos se retiraram, em 1989, os Estados Unidos também se retiraram, perderam interesse no Afeganistão. E o país caiu numa guerra civil, que foi um dos períodos mais violentos da história do Afeganistão.

e que deu, então, espaço para a emergência do Talibã. Quem são os Talibãs? Talibã significa estudante. Eles eram jovens, principalmente de zonas rurais. O Mula Omar, que foi o fundador do grupo, ele era analfabeto, ele cresceu numa madraça, que é uma escola religiosa. Essas madraças também tinham o papel, com o apoio da Arábia Saudita, Osama Bin Laden, etc.

de treinar militarmente essas crianças. Então eu entrevistei vários talibãs que quando criança foram entregues por essas famílias a essas madraças e cresceram aprendendo nada além de religião e de estratégia militar e uso de armas.

Quando eles emergem ao poder, porque você imaginou, o Afeganistão estava numa grande, sangrenta guerra civil, entre sete facções que tinham sido armadas pelos Estados Unidos e que brigavam, então, entre si pelo poder. O Talibã ascende ao poder prometendo ordem, que era o que todos os afegãos queriam. Então, naquela época, eles olhavam para esse grupo como, puxa, são jovens religiosos que querem a paz e a ordem.

Eles ascenderam ao poder com grande parte de apoio da população, só que eles eram pessoas extremamente religiosas, que só haviam aprendido a lutar e que viveram, realmente foram para a guerra e lutaram ainda criança contra os soviéticos e que não tinham crescido na Tusa com nenhum contato com mulheres.

E as madrastas são só para meninos. Então, as meninas, durante a Guerra Civil, foram para dentro de casa, porque era muito perigoso sair ou se refugiaram, e os meninos cresceram lutando. Então, essa é a background que permite a ascensão de um grupo como o Talibã.

E eles simplesmente não sabiam o que fazer. É preciso entender também, Natuza, que o Afeganistão é um país extremamente tribal. Tem o seu próprio código de honra, código de conduta, que se misturou com o Islã quando o Islã conquista aquela região. Ele é muito mais restritivo às mulheres até mesmo do que às leis islâmicas.

E o que acontece com a mulher afegã nesse primeiro governo talibã, que vai de 96 a 2001? Elas são banidas da vida pública. É isso que acontece. Elas são proibidas de ir para a escola, elas são proibidas de trabalhar, a música é proibida, os esportes são proibidos, o Mula Omar só permitia, eventualmente, jogos de futebol. E isso me beneficiou muito, porque o Brasil é muito querido, né?

Então, muitas das entrevistas que eu consegui com o Talibã foi começando uma conversa sobre futebol e entradas em lugares. Quando eu entrei na casa da Malala, que estava cercada pelo exército, a Malala já não estava lá, estava em coma. A Talibã controlava a área e proibia o acesso de meninas à escola. Malala desafiou essa ordem e denunciou publicamente os extremistas. Um dia, quando voltava da escola, dois militantes do Talibã a balearam na cabeça.

Ela foi levada para a Inglaterra.

foi conversando sobre futebol, porque o Mulao Mar gostava de futebol, então ele permitia, eventualmente, partidas de futebol. E o buscachi, que é um esporte nacional que foi levado ao Afeganistão, para você ver como eles são medievais. Eu assisti uma partida desse esporte na casa do vice-presidente do Afeganistão na época, que era da etnia Tajik, o Marshall Fahim. E são vários times que disputam a carcaça de uma cabra sem cabeça, que é decatada no...

campo, é uma arena, os jogadores jogam sobre cavalos. É um esporte medieval e era a forma como o Gengis Khan treinava esses cavaleiros para lutar e para proteger as suas terras nas montanhas. Uma dúvida me surgiu. Você, uma mulher, não teve nenhum problema de assistir a essa partida na casa do vice-presidente?

Eu era a única e eu fui acompanhada pelo tradutor, insisti para ele me levar. Ele até comentou, mas nunca vai mulher, não tem mulher. Mas eu queria tentar. Não tive problema, eu fui até bem recebida. Teve um momento em que o tradutor foi tirar umas fotos para mim, porque eu estava tentando ficar num canto que as pessoas não me vissem muito. Um soldado veio.

com uma arma, assim, apontou a arma para mim, mas ele estava tentando me levar para um outro lugar onde eles me ofereceram uma cadeira, porque os homens todos estavam sentados em umas arquibancadas de pedra, e ele me ofereceu uma cadeira. Eu era a única mulher, só havia homens ali, de fato. Como estrangeira, Natuz, a gente tinha certas regalias, e eu fui, obviamente, não durante o período do Talibã, mas depois da invasão americana. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Adriana Carranca.

A gente chega em 2001. O que acontece, então? Em 2001, ao 11 de setembro, e a notícia que se tinha é que o Osama Bin Laden estava abrigado no Afeganistão. Os Estados Unidos invadem o Afeganistão em outubro. Bin Laden foge para o Paquistão, assim como praticamente toda a cúpula do Talibã.

Então, começa uma nova era cheia de esperança, Natuza. Quando os Estados Unidos entram no Afeganistão, os afegãos celebram com festa na rua, em casa. Eu tenho amigos que fizeram festa mesmo, com bolo, comemorando realmente a entrada dos Estados Unidos. Só que os Estados Unidos ficam 20 anos no país, já a partir de 2003.

As tropas americanas e o governo se distraem com o Iraque, eles invadem o Iraque, então eles se dividem entre Afeganistão e Iraque, muito, em grande parte, acreditando que o Talibã estava vencido, os talibãs, os pashtuns, que é a etnia do Talibã, fogem para as montanhas e aguardam o momento certo para retomar o poder.

E aí, os Estados Unidos ficam 20 anos, mas focam seus investimentos principalmente na luta militar, na parte de defesa, na parte militar. Se esquecem da parte de desenvolvimento, de educação. Então, muda muita coisa, porque as crianças, as meninas voltam para a escola, né? Essa foi a grande mudança, realmente, da entrada dos Estados Unidos. A maior mudança foi para as meninas, para as mulheres, e principalmente as meninas que tiveram a oportunidade de ir para a escola nesses 20 anos.

E elas agarraram essa oportunidade, Natuz, com unhas e dentes. Era muito bonito e emocionante ver a dedicação das meninas afegãs. Um dos meus livros, o Entre Sonhos e Dragões, é baseado na história de três histórias reais. Uma que se tornou a primeira afegã a disputar um campeonato mundial de boxe feminino representando o Afeganistão.

Depois a Shamsia, que foi a primeira grafiteira, a primeira artista de rua afrigã, que hoje se tornou uma grande artista plástica, mora em Los Angeles. E depois a Mina, que era a que eu conheci com oito aninhos ainda, pequenininha, aprendendo um instrumento musical, se tornou uma grande violoncelista. E precisou, quando o Talibã retoma o poder em 2021, ela foge e hoje ela está cursando Harvard, Natuza.

E a partir de 2021, os direitos das mulheres foram demolidos por lá. E aí, nas últimas semanas, a situação ficou ainda pior. Ela já era tenebrosa e ela ficou ainda pior. E aí o documento, Adriana, Princípios da Separação entre Cônjuges, formaliza em lei. Princípios, eles representam uma escalada real de perda desses direitos em relação à mulher e à infância também.

principalmente, Natuza, para essas meninas que, durante esses 20 anos da ocupação americana, elas migram para os grandes centros urbanos, que era onde havia estrangeiros, e elas se formam, vão para a escola, e, de repente, o sonho acaba. E quando o Talibã retorna, porque houve uma negociação, não houve nem guerra, o Talibã resistiu por 20 anos, com atentados terroristas, fazendo atentados contra bases militares americanas, muitas vezes contra civis também.

Então, chega 20 anos depois, os Estados Unidos resolvem que, bom, já matamos o Bin Laden, o Bin Laden nem estava no Afeganistão, os Estados Unidos resolvem se retirar e começam essa retirada a partir de 2014. Aí já vem se deteriorando ali, os afegãos já temiam, já achavam que o Talibã ia voltar.

E aí há um acordo, de fato, com o Talibã, em que no dia do prazo final para que os Estados Unidos retirassem as suas tropas, o Talibã aparece na entrada de Cabu e marcha vitorioso até o Palácio Presidencial. É uma cena medieval também, né? Eles entram como um triunfo, né? Eles praticamente desfilam por Cabu, eles já tinham tomado outras duas grandes cidades. E aí, imediatamente, quando eles tomam o poder, eles proíbem as meninas de ir para a escola.

São centenas de mulheres que têm ido às ruas para pedir que os direitos sejam preservados, educação, trabalho, posições no governo. Eu lembro que até quatro semanas atrás as mulheres ocupavam assentos no governo do Afeganistão, mas esse governo já não existe mais. O presidente Ghani fugiu do país quando o Talibã invadiu a capital, Cabul, tomou conta do país inteiro, assumiu o controle do país. Precisa a gente destacar.

Em primeiro lugar, a coragem dessas mulheres que agora estão indo para a rua fazer essas reivindicações. E também que o mundo em 2021 não é o mesmo que em 96. No mundo todo, as mulheres passaram a ocupar mais espaços de poder. No Afeganistão, esse desejo não é diferente. Claro que lá o risco é muito maior.

Então, as meninas que em 2021 tinham 12 anos, até hoje elas estão sem escola, elas banem as mulheres das universidades. Depois, logo em seguida, do mercado de trabalho, com algumas exceções, que eram organizações humanitárias internacionais que continuavam no Afeganistão.

mas eles recentemente baniram também as mulheres dos empregos na ONU e em organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Eles baniram as mulheres de parques, academias, clubes, baniram os esportes, escola de música. As mulheres não podem sair mais sem estarem acompanhadas de um homem da família, não podem viajar. Então, praticamente tudo que era antes voltou, como se esses 20 anos não tivessem existido na Tusa.

Agora, com a experiência que você tem, você que entrevistou mulheres afegãs, mães afegãs, estudantes afegãs, qual é o tamanho desse trauma para essas famílias, para essas meninas? Eu queria que você ilustrasse isso para a gente.

É desesperador. A maioria das pessoas que eu conhecia se refugiaram. Só que, claro, se tornou muito mais difícil, porque aí os talibãs voltaram ao poder. E a mina, naquele dia que eles voltaram, eu liguei para ela e ela chorava. Ela falava, nunca mais vou poder sair de casa. A minha vida acabou. Um mês depois, com a ajuda de algumas pessoas, ela conseguiu fugir com a ajuda de coiotes, né? Que isso existe também lá.

E depois, no Paquistão, ela foi resgatada. É muito emocionante a história dela, Matuza, porque ela tinha 15 anos. E o pai dela falou para ela, filha, se você resolver ir embora, eu te dou a minha bênção. Eles nunca vão aprovar que a família inteira migre.

Ela era a única que tinha ido para a escola, que tinha seguido uma carreira em música, e ele falou, a decisão é sua, mas se você ficar, você precisa saber que nunca mais você vai sair do Afeganistão e eu vou precisar seguir as regras do Talibã. Então ele estava querendo dizer até que assim, se você ficar, eu vou ter que casar você, porque não é aceito mulheres com essa idade dela que não estejam casadas. E ela decidiu fugir. Hoje ela está estudando em Harvard.

Você conversou com alguma dessas mulheres com quem você tinha contato sobre o que está acontecendo neste momento? As mulheres no Afeganistão foram banidas da vida pública. Elas não podem ir para a escola, não podem mais trabalhar, elas não podem ir a parques, nem clubes, nem fazer esporte, nem frequentar academia. E elas só podem sair para ir a coisas como supermercado, como mercadinho ali, se elas estiverem na presença de um homem da família. Então elas passam a maior parte do tempo...

casa. Um pavor real, Natuza. Real. Então, as mulheres que ficaram pra trás, elas estão em casa. Elas têm feito protestos silenciosos, elas têm feito protestos em que elas se filmam cantando, sob a burca, né? Mas é muito difícil hoje. Não tem quem lute nem por elas e nem elas podem lutar pelas crianças que vão ser obrigadas a se casar aos nove anos de idade.

A comunidade internacional abandonou essas meninas. Os Estados Unidos cortou toda a assistência para o FEDE, estão agora em março, já vinha diminuindo e cortou agora em março. Por muitos anos, Natuz, os Estados Unidos e os países europeus usavam a ajuda humanitária como moeda de troca para liberdades como democracia, direitos humanos, direitos das mulheres. Então se fazia, olha, eu te dou essa ajuda.

Mas você precisa deixar as meninas irem para a escola. Depois da morte do Bin Laden, quando os Estados Unidos resolvem sair do Afeganistão, não há mais isso. Nenhum país reconheceu o Talibã como um governo oficial. E a gente entende que, claro, é uma forma de fazer pressão, mas, ao mesmo tempo, é a população que sofre, porque a população está completamente abandonada e não tem nenhum país fazendo essa moeda de troca com o Talibã.

em troca de benefícios, de direitos humanos e direitos principalmente das meninas e mulheres. Nossa, Adriana, é impactante te ouvir. Primeiro, pelo seu recuo histórico e segundo, pelo estado de coisas e o abandono absoluto dessas crianças, dessas meninas e mulheres. Eu te agradeço profundamente por ter topado conversar com a gente sobre esse assunto. Eu te agradeço pela oportunidade de falar aqui sobre as afegãs que moram no meu coração.

Este foi o Assunto Podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelã, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuza Neri, fico por aqui. Até o próximo assunto.

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