A febre dos implantes anabolizantes no Brasil
Marcelo Lins
Clayton Luiz Dornelles Macedo
Talyta Vespa
- Chip da BelezaPromessas e efeitos colaterais · Implantes hormonais manipulados · Mercado e lucratividade para médicos · Uso por mulheres e influenciadores · Anvisa e regulamentação
- Anabolizantes e SaúdeDiferença entre reposição hormonal e anabolizante · Riscos e danos à saúde · Consequências fisiológicas graves · Alterações irreversíveis
- Mercado preditivo e regulaçãoPapel do Conselho Federal de Medicina (CFM) · Pressão do setor sobre a Anvisa · Brecha na legislação · Farmácias de manipulação e lucratividade · Cursos para médicos e monetização
- Dúvida e InsegurançaCulto ao corpo perfeito · Algoritmo de beleza nas redes sociais · Indústria de suplementação e tratamentos estéticos · Busca por soluções mágicas
- Casos de VítimasRelato de Ana Karina Porto · Relato de Karine Porto · Relato da cantora Fly
A oferta do chamado Chip da Beleza, feita pelo ginecologista, veio acompanhada de promessas tentadoras. Ia emagrecer bastante, ia virar uma pessoa extremamente disposta, ia ter muita energia, eu ia ser uma nova criatura.
O nome até parece moderno, tecnológico, chip da beleza. Mas o produto, um implante hormonal colocado sob a pele, não é um chip e muito menos da beleza. É aí que começa o problema. Substâncias que deveriam ser usadas em casos específicos, com indicação médica, passaram a ser vendidas com uma promessa tentadora. Mais disposição, emagrecimento, ganho de massa muscular, mais libido.
Um mercado que se expandiu e hoje movimenta milhões de reais. Por trás dele, uma engrenagem. Médicos que prescrevem, treinam outros profissionais e indicam farmácias de manipulação. Um ciclo que vai da consulta à venda do produto. E que, segundo o Conselho Federal de Medicina, levanta suspeitas de conflito de interesse.
Às vezes você se sente insegura de seu marido procurar ali outra pessoa porque você já não está se sentindo tão bem. Esse é o doutor Lázaro Lourenço, que vende cursos para médicos. O Gil não teve acesso às aulas dele, em que mostra como outros médicos podem persuadir pacientes. O roteiro apelativo é que ensina a captar pacientes, mas parece de vendas. Fala logo do produto, escuta. Vender é uma bela arte de fazer pergunta.
Dentro desses chips, muitas vezes, estão hormônios esteroides. O mais conhecido é a testosterona, mas também aparecem nomes como gestrinona, oxandrolona, progesterona. Substâncias associadas a ganho muscular e que não têm indicação reconhecida cientificamente para os usos estéticos que são prometidos.
Mas a Priscila logo começou a sentir os efeitos colaterais. Queda absurda de cabelo. Comecei a ficar com várias entradas aqui. Crescimento absurdo de pelos. Acne. Ganhei peso em quatro meses. Eu ganhei 10 quilos. Não ganhei a tal disposição. Fiquei mais depressiva mesmo tomando medicação.
E o uso indiscriminado dessas substâncias pode causar danos graves à saúde. A Anvisa atualizou as regras para o uso daqueles implantes hormonais que ficaram popularmente conhecidos como chips da beleza.
Essa nova resolução mantém a proibição de manipulação, comercialização e uso desses implantes hormonais para fins estéticos, para ganho de massa muscular ou para melhorar o desempenho esportivo das pessoas.
E é no ambiente mais difícil de regular que esse mercado mais cresce, o mundo digital. Os alvos são, principalmente, as mulheres. No algoritmo, a promessa de autoestima vira isca. E o chip da beleza é só uma das portas de entrada para um universo maior que vai da suplementação a uma indústria inteira voltada para vender um ideal de corpo.
Karine queria um corpo sarado e mais autoestima quando decidiu botar o chip da beleza em 2021. Mas logo depois teve ganho de peso, espinhas, suor noturno. Ela diz que para remediar os efeitos colaterais, a médica receitou mais chips. Foram três. Paguei mais um valor bem expressivo para colocar outro chip. Hoje está o seguinte, eu tenho os três chips aqui dentro de mim.
Karine diz que a médica garantiu que os implantes não estão mais liberando hormônios. E que os chips, como estão, não representam risco. Para retirá-los, ela teria que fazer uma pequena cirurgia. Mas, por enquanto, está preocupada em recuperar a saúde. Para isso, procurou outro médico. Eu fiz isso puramente por estética. E uma estética que eu não consegui. Eu te garanto que foi um ano e meio da minha vida para tudo voltar ao normal.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boedian é... A febre dos implantes anabolizantes no Brasil. Neste episódio, eu converso com Thalita Vespa, jornalista repórter do G1 e especialista em saúde. E com Clayton Luiz Dornelis Macedo, doutor em endocrinologia clínica e especialista em medicina do esporte pela Unifesp. Ele também é diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Quinta-feira, 7 de maio.
Alita, muito bom ter você aqui com a gente. Primeiro, parabéns pela reportagem também. Se você puder repassar os parabéns à Poliana Casimiro. É sobre chips de beleza. Eu queria começar então a nossa conversa tentando saber como é que vocês chegaram nessa pauta, como a pauta chegou até vocês.
O Liana e eu, a gente acompanha muito essas tendências em redes sociais, de saúde principalmente, e a gente conversando, a gente falou uma para a outra, cara, está todo mundo usando bomba mesmo? Porque é o que parece, que está todo mundo usando bomba. Então surgiu dessa pergunta, dessa curiosidade, e a gente foi fuçar para entender que, sim, está todo mundo usando bomba, mas não é daquele jeito que a gente está acostumado a ver. As pessoas na academia, atletas de bodybuilding.
Não, é uma coisa diferente. Pessoas comuns, como a gente, que tem uma rotina de trabalho, estão usando bomba e muitas vezes elas nem sabem. E a gente começou a pesquisar e foi quando a gente se deparou com um mercado que fatura muito dinheiro, que envolve médicos, médicos que dão cursos para médicos e farmácias de manipulação.
Bomba não é suplemento. O que a gente está falando aqui? A gente está falando de hormônios esteroides, que são oxandrolona, gestrinona e testosterona. Esses são os principais hormônios esteroides que são inseridos nesses implantes hormonais. Meu nome é Karina Porto. Eu fui vítima dos implantes hormonais manipulados, especificamente o chip da beleza. Vou fazer aqui um relato.
sobre o meu caso. Falei, não acho que não é o caso de eu colocar o implante. Ele falou, não. Porque agora você está entrando na menopausa, a sua pele vai ficar inteirinha craquelada, você vai virar... Eu nunca mais esqueço essa frase. De mulher pera, você vira mulher maçã. De tanto que você vai engodar. Como se você me deixasse assim... Eu já fui só abaixando assim na cadeira, né? Tenho quase certeza que o seu caso é um caso para implante.
Eu falei, olha, eu não gostaria de colocar implante porque eu tenho um rim só. E ele já sabia disso. Eu tinha um rim só.
Conta pra gente como é a história da Ana Karina, o que ela viveu. A Ana Karina a gente descobriu ainda nessa busca da reportagem dentro do Tribunal de Justiça e descobrimos que ela havia processado um médico por efeitos muito graves relacionados ao implante hormonal. Ela conta pra gente que ela foi até a clínica com queixas de infecção urinária de repetição e quando o médico percebeu que ela estava na menopausa, acabou associando essas infecções urinárias.
de repetição, a menopausa. E aí ele teria dito a ela que os implantes hormonais ajudariam em todos os sintomas da menopausa, que ajudaria a amenizar o cansaço, daria mais energia, aumentaria a libido. Só que ela não sabia que o que estaria inserido naquele implante seriam anabolizantes. Ela não sabia. Então tem uma diferença aí, de um implante de hormônio para reposição hormonal para implante de anabolizante, é isso?
Os únicos implantes hormonais hoje permitidos pelo CFM e indicados por sociedades médicas são os implantes anticoncepcionais. Qualquer outro chip com hormônio não é permitido nem recomendado pelas sociedades médicas. Em outubro de 2024, a Anvisa proibiu todos os tipos de implante para todos os fins.
Mas 34 dias depois, a gente apurou que houve um lobby, pressão desse mercado para que a Anvisa flexibilizasse um pouco essas regras e foi exatamente o que a Anvisa fez. A Anvisa manteve a proibição apenas para fins estéticos, mas também não deixa claro para qual outro fim isso é liberado. Então essa brecha faz com que os médicos acabem prescrevendo isso para várias finalidades de saúde sem comprovação científica e sem respaldo de sociedades médicas.
Mas embora não tenha comprovação científica da eficácia do objetivo pretendido, a gente vê, pelo caso da Ana Karina, que existem consequências fisiológicas do uso desse produto, né? No caso da Ana Karina, ela teve um infarto renal e é uma consequência muito grave, mas ainda para ela, porque ela só tem um rim. Ela teve uma condição na infância que fez com que ela perdesse o outro rim.
Ela teve um infarto renal, ela teve um espessamento do endométrio que gerou uma hemorragia intensa. Ela precisou passar por uma cirurgia e nessa cirurgia ela teve um problema no pulmão que fez com que ela parasse de respirar e ela quase morreu. Durante a esteroscopia eu tive a dema pulmonar agudo e fui parar na UTI. Eu lembro que eu não estava entubada, aí eu nem lembro que eu chamo Ana Karina. Aí eu falava assim, Ana, Ana. Aí eu só acordei a Ana e falei, ela está viva, corre para a UTI.
Quando eu acordei na UTI, 500 médicos olhando para mim, falaram, você aguenta ficar entubada? Você vai ter que ficar entubada. Eu falei, aguento. Não tenho outra opção, né? Aí fiquei entubada há dois dias, ligaram para o médico, ele não apareceu para me visitar.
Isso em quanto tempo de uso? 45 dias. 45 dias. Bom, vocês descobriram que existe um mercado aí que está, de maneira indiscriminada, comercializando esses produtos e usando profissionais de saúde para veicular esses produtos aos pacientes, né?
Exatamente. O que acontece é o seguinte, a mulher chega no consultório de um ginecologista, de um endocrino, enfim, várias especialidades, e ela diz na consulta de rotina que ela sente ali um cansaço, tá com pouca libido, e aí o médico traz essa solução do implante hormonal. Isso não é vendido como anabolizante, ele é vendido como uma coisa de saúde. Se você procura isso nas redes sociais, esses médicos que prescrevem esses implantes hormonais, eles estão por toda parte. Os médicos que a gente acessou na reportagem...
Eles colecionam mais de milhões de seguidores. Eles participam de congressos de hormonologia, que é uma especialidade médica que o CFM não reconhece, e ensinam outros médicos a colocar o implante nas pacientes. A gente, inclusive, teve acesso a um curso de um desses médicos, a gente assistiu a todas as aulas, e nesse curso ele ensina outros médicos.
como manipular as pacientes, principalmente mulheres, para que elas queiram e aceitem o produto. É um produto que é muito barato para os médicos, eles produzem na farmácia de manipulação por 200 reais e vendem isso por pelo menos 4.500 reais, podendo chegar a 12 mil reais. Então, nesses congressos, eles dizem que é o maior produto lucrativo da medicina hoje. E o CFM falou, inclusive, na mercantilização da medicina. Agora, qual é a capacidade da Ana Karina de ser indenizada pelo que aconteceu com ela?
Ela foi indenizada, o processo já acabou, ela recebeu indenização por danos morais e estéticos, mas esse médico, ele segue podendo atuar. Ele não teve nenhuma punição no CFM. Para que isso aconteça, ele precisa ser denunciado no CFM, o que a Ana Karina disse que já fez. Mas o CFM, quando falou com a gente, disse que não podia comentar nenhum caso específico. É muito lucrativo para os médicos e as mulheres, que é quem mais sofre com isso, elas não são informadas do que está sendo colocado no corpo delas.
Mas ele não passou nada de informação sobre o chip especificamente. Eu falei, mas o que vai colocar? Ela vai colocar aqui, olha, pelos seus hormônios, precisa colocar estradiol, testosterona. E vamos colocar o chip da beleza que hoje é estrenona aqui. Mas isso aí não faz mal? Eu falei, não, isso aqui vai fazer bem para você. Isso aqui é vida. Só que não falou quantidade, não falou nenhuma reação adversa. Coloquei o chip, né? Não sabia nem o que eu estava colocando direito, porque ele não explicou.
E tem um agravante, só pra gente concluir aqui, que quando você coloca o chip, não dá pra tirar. Então, no caso da Ana Karina, embora ela estivesse com vários sintomas e problemas graves de saúde em 45 dias, não tinha o que ser feito. Tinha que esperar passar aquele tempo de liberação dos hormônios, que ninguém sabe quanto tempo é. Porque eles acham que é seis meses, mas como não tem estudo clínico embasando isso, às vezes é muito mais, às vezes é menos.
nem fazendo uma cirurgia. Pode ser que o médico consiga, se ele abrir, e vê se ele acha, num exame de imagem, o corpo absorve ele. E um outro risco é que muitas mulheres colocam um novo implante, sendo que aquele anterior nem terminou de liberar hormônio. E aí vai aumentando, escalonando dose, e pode ser perigosíssimo. E é só mulher ou homens também estão sujeitos a essa oferta?
Esse mercado, ele afeta mais as mulheres, né? Os homens, quando eles querem usar hormônios anabolizantes, eles fazem isso na academia. A maior preocupação das sociedades médicas é com as mulheres, porque, segundo o que esses professores falam, as mulheres são alvo mais fácil. Então, eles conseguem manipular melhor. E aí, você tem várias indicações. Eles falam que funciona para menopausa, para lipedema, para várias coisas que muitas mulheres têm. E aí, eles colocam isso para que a mulher compre o produto.
Para homem é diferente. O homem que quer usar um hormônio, ele acaba fazendo isso de outras formas. Mas ele também não costuma usar chip. Como que é a cultura entre as mulheres do uso disso? Porque uma pode sugerir para a outra, olha, estou usando isso, está funcionando para mim. Existe essa cultura? É no boca a boca que esse mercado acaba se construindo. Porque tem uma mulher ali, a tua amiga, que você vê todos os dias, começa a ficar com um ótimo corpo.
E ela te disse que está fazendo reposição hormonal. Colocou um chip que vai ajudar. Mas ninguém sabe ou ninguém fala em anabolizante. E aí você vê o resultado. É muito fácil de você se convencer. Eu também quero aquele corpo. Eu também quero chegar nisso. Se essa pessoa que tem a minha idade, 50 anos, tomar a menopausa, conseguir, eu também consigo. Ah, também estou indisposta. O médico falou que colocou para a libido. A minha libido está baixa.
Então, tudo isso acaba acontecendo. Tem pessoas que não têm efeitos colaterais absurdos. Tem pessoas que têm efeitos colaterais menores, como acne, engrossamento da voz, queda de cabelo. Isso acontece com todo mundo. Mas tem pessoas que têm efeitos colaterais muito piores. A gente, inclusive, entrevistou uma mulher que tinha bastante conhecimento na área, sim, mas ela foi na onda de uma amiga. E aí ela já conhecia uma médica, que era a médica dela há muito tempo.
Então ela confiava na amiga, confiava na médica e também teve problemas gravíssimos. Hepatite medicamentosa, quase precisou ir para a fila do transplante. Como que é o mercado nas redes sociais desse mundo? Como é que é a publicidade disso?
É muito fácil encontrar. Em on-click você já acha. Os médicos, eles nem tentam esconder. É muito fácil. Você colocar a reposição hormonal, vem de uma forma de propaganda com um discurso muito fácil de você acreditar. E aí dentro disso tem os congressos da hormonologia. E dentro desses congressos, as principais patrocinadoras são farmácias de manipulação, que é quem mais se beneficia disso.
Então, na rede social é muito fácil. Você faz uma busca simples por reposição hormonal, uma busca, você já vai ser inundado. Eles não fazem isso escondido. Exatamente por essa brecha de dizer que não, não faço isso por estética, estou fazendo por saúde. Thalita Vespa, muito obrigado pela sua participação aqui no assunto. Mais uma vez, parabéns a você e a Poliana Casimiro pelo grande trabalho e o serviço que vocês estão prestando ao divulgar essa preocupante realidade aqui. Obrigada a você, Vitor.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Dr. Clayton Macedo.
Dr. Clayton Macedo, eu queria começar pedindo uma explicação didática. Qual a diferença entre reposição hormonal e anabolizante? A reposição hormonal é feita quando o indivíduo tem deficiência de um hormônio. O exemplo clássico é a deficiência de testosterona. Então, quando um homem, por algum motivo, ele tem falta...
do hormônio masculino, que é a testosterona, nós, como especialistas em hormônios, nós repomos essa testosterona. Isso é a reposição hormonal. O anabolismo hormonal ou o uso de anabolizante sem indicação clínica, nós usamos a testosterona ou algum derivado sintético da testosterona, normalmente em doses que são acima.
das doses de reposição, para causar o aumento da síntese de proteínas no organismo, no caso das proteínas do músculo, o anabolismo muscular, a hipertrofia muscular. Esse é um uso que não é científico, ele não é ético e ele não é permitido nem pela Anvisa e nem pelo Conselho Federal de Medicina.
estavam proibidos de implantar os chips para fins estéticos, mas agora o apelo é outro. É tratamento para doenças. O problema é que não existe, pelo menos por enquanto, nenhuma pesquisa, nenhuma evidência que indique que eles são mesmo eficazes. Se esses implantes fossem tratados como medicamento, eles precisariam passar por uma série de testes antes de chegar na farmácia e serem oferecidos como tratamento.
Então, afinal, o que são esses chips de beleza? O que contém nesses produtos e em qual categoria que ele se enquadra melhor? Os chips da beleza, na realidade, eles são implantes hormonais feitos de forma manipulada, em farmácias de manipulação.
É sempre importante a gente abrir um parênteses e fazer uma ressalva que existe um implante hormonal que é um anticoncepcional, cujo composto é o etonogestrel, ele é um derivado da progesterona e esse é aprovado pela Anvisa, ele tem estudos, ele tem um fabricante, ele tem bula.
e ele é utilizado para planejamento familiar, para anticoncepção, e ele é inclusive disponibilizado pelo SUS. Então tudo que a gente vai falar de implantes hormonais é sobre implantes hormonais manipulados. Eles são dispositivos, normalmente eles contêm hormônios, muitos desses hormônios, a própria testosterona, ou um segundo hormônio que é a gestrinona, que também é um anabolizante,
E junto com esses hormônios podem se colocar outras substâncias. Também esses chips, eles carecem de dados de segurança e de eficácia. Além da gestrinona, da testosterona, se coloca o próprio estrandiol, e no caso da mulher, que é o hormônio feminino, por exemplo.
na menopausa e tem-se visto prescrições e usos de outras substâncias, muitas delas esdrúxulas de diferente entendimento. Para nós fazemos a medicina baseada na ciência, por exemplo, se colocam medicações para disfunção erétil, como é o caso da Tadalafila, ou se coloca metformina, que é uma...
medicação para diabetes e que quebra uma resistência hormonal. Essa metformina, ela é também distribuída gratuitamente pelo SUS, mas ela foi glamourizada e foi colocada nesses implantes, sendo vendidos por alto custo. Doutor, o senhor tem recebido pacientes que usaram esses produtos com queixas? Enfim, como é que estão chegando os relatos aí no seu consultório?
É bastante. Todos nós, especialistas, atendemos no dia a dia complicações do mau uso de hormônios. Eu gosto de dizer que os hormônios hoje são a bola da vez, né? Eles são vendidos nas redes sociais, em clínicas de luxo, infelizmente por influenciadores ou até artistas ou esportistas, como sendo a solução para tudo, né? Se a pessoa está cansada...
é falta de hormônios. Se a pessoa tem libido diminuída, é sempre falta de hormônios. Até pode ser uma das causas, mas existem várias outras. Se tem alteração da potência sexual, falta hormônios. Se quer ganhar mais massa muscular, usa hormônios. Está obeso, usa hormônio para secar. Então, nesse contexto, o mau uso desses hormônios tem trazido efeitos adversos rotineiros na nossa prática de erro.
Olhando assim, é até difícil acreditar que a cantora Fly, de 28 anos, não estivesse feliz com o corpo. A gente se compara bastante com outras pessoas e a gente acaba tentando recorrer o tempo todo a métodos, a procedimentos, para a gente estar sempre bem esteticamente.
Já muda um pouquinho o metabolismo, eu já sofri mais. E aí foi nesse momento que eu busquei esses métodos de chip, da beleza. Vinha essa promessa de emagrecimento, de ganho de massa, de melhora da pele, de melhora do celulite. Já no primeiro mês, levou um grande susto. Começou a cair bastante meu cabelo. A minha pele foi a minha maior tristeza. Meu rosto começou a encher completamente de isquinha. E o meu corpo inchando muito.
Então foi com o chip que eu ganhei 10 quilos. E esses efeitos adversos, eles são sistêmicos. O hormônio, ele tem já como princípio regular funções do organismo inteiro. Então desde o cérebro, alteração comportamental, ansiedade, irritabilidade. O coração é um órgão que sofre muito com o uso de anabolizantes.
causa um estado de mais facilidade para a coagulação, isso gera embolia, trombose, deixa o sangue mais grosso, mais cheio de hemácias, isso também aumenta o risco de embolia e de trombose, causa arritmia, aumenta o tamanho do coração, que também é um músculo e também sofre, e tudo isso faz com que usuários desses hormônios
eles têm mais risco de ter infarte, AVC, de terem morte prematura, numa idade onde não seria esperado esse tipo de complicação. O fígado também sofre, nós podemos ter hepatite medicamentosa e nós podemos ter tumores benignos.
ou malignos do fígado. Na mulher, engrossamento da voz, aumento do clitóris, ambos, a voz e o clitóris, são alterações irreversíveis e podem ser causadas pelo uso de esteroides anabolizantes. Então, os efeitos são múltiplos, eles são imprevisíveis, muitas vezes podem ser graves e até fatais. Então, é importante deixar bem claro que o acompanhamento médico é possível segurar, principalmente, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions, com enoughctions,
ele não garante segurança quando o hormônio é mal utilizado, quando ele é utilizado sem indicação. Doutor, eu quero entender como é que a gente chegou nessa situação e aí apontar para todas as frentes. Primeiro no público que demanda isso, um público crescente, que consome nas redes sociais, também nessa oferta de produtos que antes não existia, permitindo que farmácias de manipulação acessem produtos que antes estavam restritos à indústria farmacêutica, por exemplo.
E, finalmente, a responsabilidade dos médicos de não trazer a consciência para os seus pacientes. É uma pergunta complexa, mas muito importante. O hormônio hoje é a bola da vez. Existe um culto ao corpo perfeito.
Aqui no Brasil nós encaramos essa indicação errada de hormônios para fins estéticos e de performance como um problema de saúde pública. Tão grande é a quantidade de efeitos adversos, de casos complicados e também um número que é subestimado. A gente tem poucos dados de usuários. Esses implantes hormonais são comercializados pelo próprio médico.
em clínicas de luxo, algumas farmácias de manipulação. Acho que é importante deixar bem claro que as farmácias de manipulação exercem um papel social muito importante. Nós temos inúmeros produtos que precisam ser manipulados e são importantes.
Mas não é o caso dos hormônios. Algumas farmácias de manipulação se transformaram em verdadeiras indústrias, produzindo em escala industrial o mais grave. Recrutaram médicos para prescrição e dentro dessa via de mão dupla.
os médicos acabaram aprendendo técnicas que não são só da utilização do hormônio, mas são técnicas de monetização, de consultório, são técnicas de brindagem jurídica. E a partir daí esse mercado, como ele é altamente lucrativo, ele se hipertrofiou bastante.
Na reportagem do G1, notas fiscais do preço de custo de um implante hormonal menos de 200 reais. E esses implantes são colocados por 5 mil, 8 mil, 10 mil, até mais, dependendo do número desses implantes.
Então isso cria um mercado altamente lucrativo, que infelizmente seduz muitos médicos. A população também quer o caminho mais fácil. Hoje a gente está vendo um fenômeno aí também com...
com as medicações anti-obesidade e um ecossistema muito parecido com essas medicações manipuladas também. Nós temos um outro fator também que é o aumento gigantesco de número de vagas e de novas faculdades de medicina, sendo que o sistema de pós-graduação e principalmente de residência médica.
ele infelizmente não dá conta dessa demanda de tantos profissionais recém-formados. E esse mercado acaba se tornando sedutor. O jovem recém-formado, em vez dele ir prestar atendimento à saúde da população, a trabalhar com uma medicina mais preventiva a nível da saúde pública, ele acaba sendo seduzido por esse novo mercado de fitness, de hipertrofia.
de anti-envelhecimento e agora esse fenômeno também de medicações anti-obesidade. O senhor percebe também essa exploração de insegurança, da autoestima, nesse algoritmo da beleza com outros produtos como suplementos e vitaminas também? Também, esse mercado alimenta um ecossistema gigantesco. A gente vê nesse mesmo modelo soros desnecessários, vitaminas desnecessárias. E agora vem vindo...
uma avalanche nova, né? Então tem o que se chama de peptídeos, que são cadeias de aminoácidos que têm inúmeras funções. As próprias medicações anti-obesidade ou insulina, por exemplo, são peptídeos, né?
Mas existem peptídeos aí que contrabandeados de forma irregular, injetáveis, produtos que são para uso em animais, em pesquisas animais, com dados científicos apenas de estudo in vitro, estão sendo extrapolados, fazendo a população de cobaia, estão sendo administrados aí prometendo.
rejuvenescimento agudo, melhora de vários aspectos da saúde. Então, esse cenário vai se autoalimentando. As pessoas procuram uma fonte mágica para melhorar a shape, para melhorar a pele, para melhorar a composição corporal, para retardar o envelhecimento, para melhorar a libido, para melhorar a potência. Esse mercado fornece...
o que a pessoa idealiza, o que ela viu através de um influenciador ou o modelo de corpo que ela enxergou em um artista, em algum atleta. E a partir daí, essa busca vai sendo intermitente e contínua. Dr. Clayton Macedo, muito obrigado por tê-lo aqui conosco no assunto. Eu que agradeço. Muito obrigado, eu.
Nesse episódio, você ouviu trechos da entrevista de Ana Karina Porto para as repórteres Poliana Casimiro e Talita Vespa. Este foi o assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelã, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Colaborou neste episódio Paula Paiva Paulo.
Eu sou o Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo assunto.