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Javier Milei: impopularidade recorde e situação econômica na Argentina

06 de maio de 202623min
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Convidado: Ariel Palacios, correspondente da Globo e da Globonews para América Latina. A Argentina registrou a menor taxa de pobreza em sete anos, recuando de 38,1% em 2024 para 28,2% sob a gestão de Javier Milei, segundo o Indec, o "IBGE argentino". No entanto, esse avanço econômico contrasta com uma queda drástica na popularidade do presidente, que se tornou o líder mais impopular da América Latina, acumulando 64,5% de desaprovação (dados da consultoria Zuban Córdoba). As políticas econômicas celebradas pelo governo têm sido insuficientes para conter o ceticismo da opinião pública. O desgaste político é alimentado por uma série de escândalos envolvendo o gabinete de Milei. Além disso, a população reage ao aumento do desemprego, ao fechamento de milhares de empresas e aos cortes na saúde e educação pública. Para grande parte do eleitorado, a realidade do cotidiano e a inflação persistente, mesmo que em queda anual, pesam mais do que os índices oficiais de redução da pobreza. Em paralelo, outro desafio crítico é a profunda desconfiança no sistema financeiro, herança de traumas como o "corralito" de 2001. Estima-se que os argentinos ainda guardem US$ 170 bilhões fora dos bancos, e as recentes tentativas de Javier Milei de atrair esse capital com isenções fiscais, sob o mote "alivie seu colchão", tiveram pouco sucesso até agora.
Participantes neste episódio2
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Natuza Nery

HostJornalista
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Ariel Palacios

ConvidadoComentarista
Assuntos4
  • Situação Econômica ArgentinaRedução da pobreza · Crescimento do PIB · Inflação · Superávit nas contas públicas · Desemprego e fechamento de empresas · Informalidade no mercado de trabalho
  • Javier MileiDesaprovação recorde · Pesquisa Zuban Córdoba · Comparação com outros líderes latino-americanos
  • Escândalos políticos: INSS e Banco MasterEscândalo das criptomoedas (Libra) · Corrupção envolvendo Karina Milei · Manuel Adorno e propriedades imobiliárias · Cortes na saúde e educação pública
  • Posição dos EUA e TrumpAcordo comercial EUA-Argentina · Ajuda financeira e swap de moedas · Instabilidade da Argentina para investimentos
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Javier Milley, em uma pesquisa, apontou que o presidente argentino teve o pior nível de aprovação desde o início do mandato. De acordo com o Instituto de Pesquisa Zuban Córdoba, 64,5% dos argentinos desaprovam o governo, um índice que cresceu 15% nos últimos seis meses. E a gestão até tem bons números para apresentar.

Segundo o INDEC, o IBGE deles, o nosso vizinho reduziu a pobreza de 38,1% para 28,2%. Isso significa que cerca de 4,5 milhões de pessoas saíram desta situação. Outros indicadores da macroeconomia também dão bons sinais. O PIB cresceu 4,4% em 2025.

A inflação perdeu força e o país apresentou um superávit nas contas públicas pelo segundo ano consecutivo. Mas nas ruas, a realidade pesa, com lojas e fábricas fechadas e uma onda de demissões. E diante de 19 mil empresas fechadas desde o início do governo,

Fica evidente a dinâmica que o coloca entre os líderes mais rejeitados da América Latina. Enquanto isso, para tentar injetar mais dinheiro na economia do país, o governo tenta ativar uma fonte de recursos que não está nos bancos, mas dentro de casa. Na Argentina, por uma insegurança histórica no sistema financeiro, é comum as pessoas guardarem dólares fora dos bancos, em casa e em casa.

E até no colchão. Há estimativas de que cerca de 170 bilhões de dólares estejam guardados fora dos bancos. E Milley lançou campanhas para trazer esse dinheiro de volta à economia. A ideia do governo é que esse dinheiro volte a circular. Economistas apontam que se isso acontecer pode aumentar o crédito e o consumo.

o que poderia ajudar a aliviar o custo de vida, um dos principais pontos de pressão sobre a popularidade do governo. Os depósitos até cresceram, mas ainda de forma tímida, em um país onde a desconfiança não desaparece tão rápido. Tenho razão, são dólares. Tranquilo, por que não os levás ao Banco Nacion? É muito fácil. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boedjan é...

Javier Milley, em popularidade recorde e situação econômica na Argentina. Neste episódio, eu converso com Ariel Palacios, correspondente da Globo e da Globo News para a América Latina. Ariel mora em Buenos Aires. Quarta-feira, 6 de maio.

Ariel Palacios, como explicar que mesmo com a queda da pobreza na Argentina, Millet esteja enfrentando um nível tão alto de desaprovação? É preciso ver a nuance da coisa, porque embora a pobreza tenha caído, uma boa parte dessas pessoas que deixaram de ser pobres estão ali na beirada, no solo, no assoalho. Se houvesse três andares na sociedade argentina, classe alta, média e a classe baixa, e a baixa ali no térreo, esses ex-pobres recentes estariam ali...

raspando no assoalho entre o térreo e o primeiro andar. Então são pessoas que deixaram de ser pobres, mas viraram uma classe média em penúria, uma classe média muito apertada, que está com grandes dificuldades de chegar ao fim do mês. Então houve uma queda da pobreza, mas...

Se a gente olha ali o detalhe da estatística, não é muito bem assim. Por outro lado, houve um crescimento do desemprego e há uma retomada da alta inflação. A inflação caiu no primeiro ano e meio do governo Milley. Já em 2024, foi desacelerando sem parar. Entrou em 2025, continuou desacelerando. Só que em junho do ano passado, a inflação deteve essa desaceleração e voltou a crescer. Então já é quase um ano de inflação.

crescendo de novo. Isso aumenta a irritação popular dos argentinos. Então, há vários índices e os especialistas e os economistas que calculam índices de pobreza, eles estão considerando que essa pobreza, que havia caído no segundo semestre do ano passado para 28,2%, na próxima medição, poderia indicar uma nova retomada do crescimento da pobreza, já que a inflação não para de crescer. Então...

São cenários sociais muito complicados. Aí você soma o fechamento de milhares, de dezenas de milhares de empresas e 300 mil postos de trabalho que foram eliminados desde o início do governo Milley. E muitas pessoas que às vezes voltaram a conseguir trabalho, mas não é um trabalho formal, são trabalhos informais. Recordando que 45% da população argentina...

vive na informalidade. Então, o número oficial da pobreza parece interessante, positivo, mas por trás disso há outros índices que estão mostrando que a coisa voltou a se complicar. Ariel, você mencionou a informalidade no mercado de trabalho, mas eu queria falar também da informalidade no sistema financeiro. Há centenas de bilhões de dólares.

que os argentinos preferem guardar no colchão de casa, em vez de levá-los para o sistema bancário. Por que que Milley, que foi um candidato tão pró-mercado, até ele tem dificuldade de trazer esses recursos para o sistema formal financeiro? É uma dificuldade que Milley e todos os presidentes argentinos têm enfrentado ao longo...

das últimas décadas. Só para fazer um pequeno histórico. Os argentinos se aferram aos dólares de uma forma sem nenhuma espécie de paralelo em todo o continente americano, porque é uma economia que, desde 1975, já teve oito graves crises econômicas. Quando eu digo graves, qualquer crise grave brasileira é nada perto das crises argentinas.

Acompanhamos a Silvia Nissetti, artista plástica, até o supermercado. Foi uma aula de história sobre como era viver no Brasil nos anos 80 e começo dos 90, quando a inflação era um problema sem solução. As donas de casa sempre atrás de ofertas. Sim, claro. Tinha uma época em que eu comia filé todos os dias.

A impressão de que tudo que o país produz de melhor não é para você. Isso fez com que os argentinos tivessem uma desconfiança persistente da classe política, até porque os governos que chegaram ao poder tiveram políticas econômicas erráticas. Houve governos que chegaram estatizando e no final do mandato estavam privatizando, ou vice-versa.

Millen prometeu muita coisa e não cumpriu. Cortou muito os gastos sociais, cortou para a educação, para a saúde pública, mas aqueles subsídios que os governos, desde a crise de 2001, 2002, especialmente os governos Kirchner, do canal Kirchner, haviam instaurado e se manteve...

Sem interrupção, nesse último quarto de século, todos aqueles subsídios para os setores pobres manteve. Milley não fala sobre o assunto porque é constrangedor para o anarco capitalista dizer que continua subsidiando e em grande escala boa parte da população porque seria, digamos, como...

confessar que está cometendo uma heresia ultra neoliberal. Inclusive, nesta semana, a notícia era que para 4 milhões de famílias argentinas haverá um subsídio de 70% das tarifas de gás. Gás, que na Argentina é fundamental não só para a cozinha, mas para a calefação no outono e no inverno. Então, não tem nada a ver toda aquela coisa que Milley pregava de neoliberalismo selvagem.

Milley está mantendo essas tarifas porque também é a mesma coisa, para evitar problemas nas eleições do ano que vem. E os argentinos são muito desconfiados sobre isso, eles usam os dólares como reserva, não usam os dólares no dia a dia para compras ou vendas, usam como reserva e fora do sistema bancário, porque não confiam nos bancos, e fora das garras dos governos, seja lá o governo que for. O governo Milley tentou duas anistias para esses dólares que estão fora do sistema.

seja na Argentina, dentro do colchão, como você citou, Victor, guardando os mais variados esconderijos domésticos em caixa de segurança. Então, quando o Milley fez essas anistias, ele conseguiu trazer de um total mais ou menos de 260 bilhões de dólares que os argentinos possuem em exterior. E quando eu digo argentinos, não é a elite.

Desde a empregada doméstica que consegue guardar 500 dólares, até o dentista que guarda alguns milhares, o empresário que guarda milhões, conseguiu trazer de volta ao país mais ou menos 20 bilhões de dólares, menos de 10% do total. Esse dinheiro entrou na Argentina, foi legalizado, e desses 20 bilhões de dólares, 19 bilhões de dólares, quase 19 bilhões, voltaram a sair em poucos dias. Ou seja, um sinal de que não se confia.

no país, seja com Milley ou com qualquer outro presidente. Apenas um bilhão de dólares ficou uma quantia ínfima perto do total que os argentinos possuem no exterior. Ou seja, isso indica que até o eleitor de Milley prefere não confiar em Milley. Mas aí também é preciso fazer outra nuance. Boa parte das pessoas que votaram em Milley votaram não porque amam Milley.

votaram em Milley porque odeiam os peronistas. Então, não voto pró-governo, é um voto ante um setor da oposição. E também os próprios empresários ficam na dúvida se investem ou não investem, porque esperam tempos melhores ou tempos mais previsíveis, porque também tem aquela questão emocional de Milley, ele emocionalmente é muito instável, ele tem acessos de fúria. A maior multinacional argentina.

A Ítalo-Argentina Techin, que perdeu por uma birra de Milley, perdeu a chance de ter a concessão de uma série de obras ali na jazida de Vaca Muerta, que é a maior jazida de Shell Gas da América Latina, perdeu por uma empresa da Índia a um confronto. Milley chama depreciativamente.

o presidente desse grupo, Paulo Roca, senhor Sucatinha, senhor Chatarita, senhor Sucatinha. Ou seja, se é uma pessoa que tem a maior empresa do mundo, que é a Argentina, de produção de tubos de aço sem costura, de senhor Sucatinha. Inclusive, esse empresário, Paulo Roca, recentemente se encontrou com o ex-presidente Maurício Macri e disse que precisamos racionalidade. Porque Macri estava pensando, não ele ser candidato, mas sim que o partido de Macri, o pró, apresente.

algum candidato para as eleições do ano que vem. E só o fato de Macri já estar pensando em uma opção sem estar aliado com Milley indica que também os próprios aliados de Milley começaram a se cansar dele.

O que você está me descrevendo, essa retórica provocativa, essa postura de anti-herói, ela costuma gerar engajamento nas redes sociais e explica uma parte, claro, do apoio que Milley teve para ser eleito. Eu te pergunto, Ariel, como explicar...

A segunda chance que ele teve com as eleições legislativas que ocorreram no fim do ano passado. Por que o argentino então deu mais uma chance dando um amplo apoio no Congresso para a Milley? E agora o que está acontecendo? Milley não está ali por mérito próprio. Milley está ali.

porque a oposição é uma catástrofe. Então, só por isso. E aí acabou ganhando as eleições parlamentares do meio do mandato de outubro do ano passado, o que deu um pouco de oxigênio. Ele não conseguiu maioria própria, mas agora ele tem a primeira minoria. A dúvida agora...

é o que vai acontecer até outubro do ano que vem, quando são as eleições presidenciais. A oposição continua sem uma figura forte, uma figura que seja uma nova figura, mas dentro dos partidos tradicionais. Por exemplo, o peronismo, Cristina Kirchner, ex-presidente, está em prisão domiciliar por uma saraivada de escândalos de corrupção e foi declarada ineligível para todo o resto de sua vida.

que eles tira uma carta fora do baralho. Mas aí apareceu uma jovem figura, que é o ex-ministro da Economia dela, Arcel Kicillof, que é a principal figura do peronismo, porque é o governador da principal província do país, da província de Buenos Aires, e também não vai bem das pernas.

mas é a figura principal. Nos últimos anos conseguiu ter um certo jogo de cintura, mas ele também é recordado por ter sido ministro da economia de Cristina e se encarregava de manipular os índices de inflação e os índices de pobreza. Recordando que houve anos, no início da segunda década, que o governo de Cristina Kirchner dizia que a Argentina tenha menos pobres do que a Alemanha.

tinha 5% de pobres, o que era um absurdo total. O fato é que não há grandes figuras da oposição para o ano que vem, e essa tem sido a vantagem de Milley. O problema de Milley, perante seu próprio eleitorado, mais além da crise econômica, é que Milley havia se apresentado como antipolítica, anticasta, que não era corrupto. E, desde o início do ano passado, pipocaram uma miria de escândalos envolvendo o próprio Milley, no famoso escândalo das criptomoedas.

Javier Milley, presidente da Argentina, divulgou na internet a Libra, criptomoeda que não só não colou, como virou a maior crise do governo até agora. Incentivados pela publicação do presidente, milhares de especuladores correram para a internet para comprar a tal Libra. Foi como numa pirâmide. Quem comprou e vendeu rápido teve altos lucros.

e demorou um pouquinho mais para comprar, ficou com um mico na mão. Cerca de 40 mil investidores se deram muito mal. Depois, foi a vez da sua própria irmã, a poderosa Karina Milley, secretária-geral da presidência, que se envolveu num escândalo de subornos com empresas farmacêuticas para a compra.

de medicamentos para o Estado, que atendia pessoas com deficiências físicas e mentais. Karina Miley seria a principal beneficiada de um esquema de desvio de dinheiro de contratos da Agência Nacional para pessoas com deficiência com uma farmacêutica. O ex-diretor da agência, Diego Espanholo, fala sobre o pagamento de propina à irmã do presidente na compra de medicamentos. Karina Miley é secretária da presidência.

Diego Espanholo pertence ao ciclo íntimo de Javier Milley e, em outro trecho, ele afirma já ter alertado o presidente sobre o esquema de corrupção. E agora o próprio chefe do gabinete de ministros dele, Manuel Adorno, que aparece como dono de uma série de propriedades imobiliárias e ele não tem como justificar com o seu salário. Milley não descarta essas pessoas que estão complicando o seu próprio governo e isso tudo complica mais ainda.

a situação. E agora recordando outro fator. A Universidade de Buenos Aires controla seis hospitais públicos. Ele anunciou que em 45 dias deixaremos de funcionar porque o presidente Milley não está enviando os fundos para esses hospitais. Isso tudo porque Milley não libera 57 milhões de dólares para esses hospitais. Como é que ele cortou verba?

A verba está oficializada, legalizada. Ele simplesmente não liberou a verba, enquanto que ao mesmo tempo gastou 600 milhões de dólares na compra de 24 aviões F-16, ousados com mais de 40 anos de uso da Dinamarca, aviões americanos mais usados pela Dinamarca, para um país que não tem hipóteses de conflito. Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Ariel Palacios.

Como é que o argentino está percebendo isso? Como é que ele está reagindo a esses escândalos que estão sendo revelados? E se você pudesse falar também especificamente dessas pesquisas de opinião pública?

O argentino, muitas vezes, como o brasileiro e tantas outras populações da região, tem aquela frase, rouba, mas faz. Então aceitam, toleram casos de corrupção dos governos, como toleraram de Cristina Kirchner, de Menem e de outros, porque faziam alguma obra ou tentavam mostrar algum serviço. E quando a economia vai mal, o slogan não serve. Quando a economia vai mal...

O corrupto não consegue se blindar com nada. E por isso a imagem de Milley também está caindo em muito. Há uma pesquisa da Subancórdoba que indica que em apenas seis meses a desaprovação de Milley subiu de 49,6% para 64,5%. É a maior desaprovação de Milley desde que tomou posse e a aprovação que era de 48,5%. Simриприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприп

no final do ano passado, agora de 34,3%. E essa pesquisa também indica que 71% dos entrevistados consideram que a Argentina precisa de uma mudança de governo. Apenas 21% acreditam que não é preciso mudar o atual governo. Mas aí vem aquela questão da oposição.

Ao mesmo tempo que a maioria acha que deve mudar o governo, não existem figuras novas da oposição, que não lembrem aquela coisa naftalínica da oposição até agora. Então, por isso digo, essa tem sido a grande vantagem de Milley nos últimos tempos.

Eu queria saber se não faz parte um pouco da cultura argentina reprovar governos, né? Porque a gente veio de Kirchner para Macri, depois Alberto Fernandes e agora Milley. Ou seja, não há uma continuidade, né? O que está por trás, então, também dessa reprovação que não diz respeito apenas ao governo Milley?

Os argentinos sempre esperam um salvador da pátria. Isso desde os últimos 80 anos, desde os tempos de Juan Domingo Perón, quando foi eleito pela primeira vez em 1946, se completaram agora 80 anos daquela eleição. E quando o salvador da pátria não salva a pátria, aí ocorre essa grande decepção.

Quando a pátria não se salva, aí começa a cair na imagem o governo. Se soma isso à questão dos casos de corrupção, aí a coisa se complica muito mais. Antigamente havia mais tempo de paciência. Existia inclusive a famosa lua de mel.

do início de um governo, quando os eleitores, a população de forma geral, dava uma espécie de pausa nos protestos, nas manifestações, como, bom, vamos esperar porque está começando para arrumar a casa. Mas se aí os meses passam e a casa não se arruma, aí começa a irritação. Antigamente, esse tempo era maior, até porque a Argentina, os efeitos de diversas crises argentinas, de forma acumulada, era menor. Com o passar das crises, esse tempo de...

pausa, foi encolhendo, foi encolhendo, e com as redes sociais isso ficou cada vez mais rápido. Então estamos vendo prazos cada vez menores de paciência dos argentinos, e a isso se soma um problema dos candidatos ou dos presidentes. Eles continuam prometendo solução imediata.

E a solução não é imediata, recordando que Milley, quando tomou posse, em dezembro de 2023, disse que entre abril e maio de 2024, ou seja, cinco meses depois, a situação estaria maravilhosa e a Argentina estaria crescendo de forma exponencial. O presidente que contivera a inflação no país deve ser visto como um herói. O atual Javier Milley não quer outra coisa. Com uma serra elétrica na mão, prometeu cortar os gastos públicos.риприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприприп

O que a gente vê na Argentina é a alta do desemprego, do valor das contas de serviços básicos pelo corte de subsídios do governo, da criminalidade, da pobreza e um impacto nas expectativas da população. Então há uma paciência cada vez menor por parte dos argentinos e há uma mania.

dos políticos argentinos de continuar se comportando como se os problemas não existissem, como se eles fossem uma espécie de santos milagreiros que vão conseguir resolver só com um estalar de dedos qualquer problema do país. Uma questão de ego. Eu acho que junto com a cadeira presidencial tem a faixa presidencial. Aqui na Argentina você tem o bastão presidencial e aí senta na cadeira presidencial.

deveria existir um divã proidiano ao lado para lidar com os egos de todos os presidentes argentinos ao longo da história. Victor.

Para a gente finalizar, eu não queria deixar de lado essa aproximação entre Trump e Milley. Trump também às voltas com uma baixa popularidade lá nos Estados Unidos, mas não são os argentinos que opinam sobre a popularidade de Trump. Mas eu queria saber o quanto que essa proximidade a essa altura não está sendo um abraço de afogado ou se de fato está trazendo alguma vantagem para a Argentina essa proximidade.

Por enquanto, não houve vantagem concreta alguma. A Argentina conseguiu um acordo comercial com os Estados Unidos, que não é um acordo de livre comércio, mas um acordo de tarifas preferenciais, que em mais ou menos 85%, 90% dos casos, favorece muito mais os Estados Unidos do que a Argentina. Há uma quantidade muito maior de produtos americanos que entram com tarifas baixíssimas aqui.

Mas essa proporção não é igual de produtos argentinos que poderiam entrar nos Estados Unidos. É uma série de vantagens para investimentos argentinos na Argentina, mas não ocorre mesmo nos Estados Unidos. Então é um acordo que foi muito mais benéfico para os Estados Unidos do que para a Argentina. E é bastante gritante essa diferença. Por outro lado, o governo Trump disse que ia dar uma espécie de ajuda financeira para a Argentina de 20 bilhões de dólares.

E não é um dinheiro fresco que o governo Milley pode usar da forma que quiser. É um swap de moedas. Ou seja, é uma espécie de troca de dólares por pesos. Então entra dinheiro em dólar e sai dinheiro em peso. Então não é dinheiro que ajude, não é dinheiro adicional.

É um dinheiro já existente. Trump também disse, havia ordenado Scott Besson, o secretário do Tesouro, para organizar um fundo de bancos americanos que poderiam emprestar 20 bilhões de dólares adicionais à Argentina. Nunca esse empréstimo se concretizou. Os bancos americanos não se interessaram por isso, porque a Argentina continua sendo um país instável, um país imprevisível, como tem sido ao longo do último meio século. No entanto, Milley continua elogiando...

exaustivamente, o governo Trump continua abraçado ao governo Trump. É a primeira vez que Trump recebe mais afagos dos seus aliados do que ele fazer afagos neles. Então esse é mais um caso desse estilo, Victor. Ariel Palacios, muito obrigado pela sua participação, sempre repleta de informações. Muito obrigado, um bom trabalho para você. Muito obrigado igualmente, Victor. Boa semana a todos.

Este foi o assunto, o podcast diário disponível no G1 no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco e Juliane Moretti. Colaboraram neste episódio Paula Paiva Paulo e Guilherme Gama. Eu sou Vitor Boiadian e fico por aqui até o próximo assunto.

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