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O novo Desenrola: até onde vai o alívio para os endividados?

05 de maio de 202626min
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Convidados: Lauro Gonzalez, professor da Fundação Getúlio Vargas e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira e Guilherme Balza, repórter de política da GloboNews em Brasília . O Brasil atingiu em março de 2026 a marca de 82,8 milhões de inadimplentes, o que significa que metade dos lares brasileiros está endividada e comprometendo quase um terço da renda com o pagamento de dívidas. Para tentar reverter esse quadro o governo federal lançou nesta segunda-feira (4) o novo Desenrola, que agora permite o uso de parte do FGTS para quitar dívidas e impõe uma regra inédita: quem aderir ao programa fica bloqueado em sites de apostas. A nova fase do Desenrola mira especialmente a inadimplência familiar e precoce. Economistas, porém, afirmam que o atual cenário das contas públicas é um dos fatores que impedem a queda dos juros — o que impacta diretamente o tamanho do endividamento dos brasileiros. Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, a questão é mais complexa do que o anúncio faz parecer. “Não existe uma solução mágica, uma bala de prata que vai resolver tudo.” Além da economia, existe uma estratégia política por trás do anúncio: o governo tenta recuperar sua popularidade em ano eleitoral por meio de medidas de impacto direto no cotidiano para tentar reverter o “mau humor” do eleitorado e recuperar a popularidade do presidente Lula em um ano eleitoral, e “não tem como fugir disso" -- analisa Guilherme Balza, repórter da GloboNews.
Participantes neste episódio1
D

Daniel Sousa

HostJornalista
Assuntos8
  • Coração novoObjetivos e público-alvo · Uso do FGTS para quitação de dívidas · Bloqueio em sites de apostas · Descontos e juros · Histórico e limitações do programa
  • Responsabilidade FinanceiraCrédito fácil e taxas de juros elevadas · Ciclo de endividamento e bola de neve · Dívidas para custear despesas básicas · Aumento do custo de vida · Expansão do crédito digital
  • Contexto Político-EleitoralRecuperação de popularidade do governo · Impacto eleitoral em ano de eleições · Estratégia para amenizar reprovação · Medidas de impacto direto no cotidiano
  • Críticas e Controversas MenoresPrograma paliativo e alívio imediato · Não resolução do problema estrutural · Incentivo ao gasto e política expansionista do governo · Pressão inflacionária e taxa de juros elevada · Necessidade de aprimoramento regulatório
  • Emagrecimento e EsportesRegra inédita de bloqueio em sites de apostas · CPF bloqueado para apostas esportivas · Combate ao vício em jogos
  • TikTok educação e finançasFalta de educação financeira · Ecossistema de oferta de crédito digital · Necessidade de novo marco regulatório · Papel do Banco Central na regulação
  • Operação Crédito Sexta (Consignado)Fim de produtos predatórios de crédito · Juros de rotativo em cartão consignado · Redução da margem consignável
  • Temas discutidos no CongressoAprovação da medida provisória · Validade da medida provisória · Interesse eleitoral dos parlamentares
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Dados do Banco Central, divulgados em fevereiro, mostram que 50% dos lares do país estão endividados e quase 30% da renda estão comprometidos com dívidas. É o caso da Jéssica. Ela se enrolou no cartão de crédito porque ficou desempregada logo depois de comprar uma moto.

Tem aluguel, tem luz, tem criança, então fica bem puxado. Tenho fé em Deus que quero pagar o mais rápido possível. Precisamos pra poder começar um novo projeto. Preciso do nome limpo, preciso do meu nome limpo.

Orçamentos estrangulados por um ciclo que parece não ter fim. O crédito fácil entra, rápido, sedutor. Mas em troca vêm taxas altíssimas. Para pagar essa conta, o trabalhador recorre a mais dinheiro emprestado. E assim se forma a bola de neve. Soma-se a isso financiamentos que pareciam possíveis de pagar até deixarem de ser.

E em alguns casos, o vício é em jogos, que corrói ainda mais a renda. O resultado é um paradoxo. Enquanto indicadores como o crescimento do PIB, inflação controlada e a menor taxa de desemprego em oito anos apontam para um país em recuperação, essa melhora não chega à vida real de grande parte da população. O que as pessoas estão dizendo? Elas falam o seguinte, a minha renda até aumentou, mas o custo de vida associado à minha renda aumentou muito mais.

Você escuta Felipe Nunes, diretor da Quest, ao assunto em 9 de abril. Naquele episódio, a gente falou sobre a importância de um termo em inglês que será central nas eleições deste ano. Affordability, a capacidade de alguém bancar a própria vida. Foi olhando para isso que o governo decidiu agir.

O presidente Lula assinou a medida provisória que cria um novo programa de renegociação de dívidas. Segundo os dados da Serasa, quase 83 milhões de brasileiros estão com contas em atraso. E, entre eles, 11% são jovens de até 25 anos.

Pode aderir ao programa quem tem dívidas atrasadas de 90 dias até dois anos e recebe por mês até cinco salários mínimos. Os descontos vão variar de 30% a 90% da dívida total. Segundo o governo, o desconto médio será de 65% do valor e os juros máximos cobrados serão de 1,99% ao mês. O prazo de pagamento da dívida será de quatro anos e a primeira parcela só vai ser paga 35 dias depois de fechado o contrato.

O novo formato inclui a possibilidade de uso de parte do FGTS para pagar as dívidas. Com prioridade nas famílias e alinhado à percepção do eleitorado, a medida tenta mudar a avaliação do governo. Qual é a questão principal que a gente está vendo? As pessoas hoje estão se endividando, mas por uma dívida, que é uma dívida que não é para construir um patrimônio, ou comprar uma geladeira, ou comprar um carro, não.

Elas estão se endividando para pagar a gasolina do mês, o alimento do mês, são as contas do dia a dia. Então isso cria um mau humor enorme na população. E o Palácio do Planalto identificou esse mau humor da população. E estava tentando fazer agora um movimento para amenizar essa reprovação do governo. Mas também levanta questionamentos sobre resultados duradouros.

Do ponto de vista prático, não resolve o problema estrutural. Essa é a principal questão do Desenrola. É um movimento, até paliativo, é um alívio imediato. Não resolve a questão estrutural do país. Por quê? Primeiro, o governo incentivou o gasto das pessoas. Segundo, o próprio governo é muito expansionista, ou seja, tem gastado muito. Isso, como a gente viu...

acaba refletindo diretamente na taxa de juros. Por quê? Porque você tem uma pressão inflacionária, essa pressão inflacionária acaba tendo como remédio uma taxa de juros muito elevada. E essa taxa de juros muito elevada acaba aumentando o endividamento do país como um todo. Então, é uma conta que não fecha. Se continuar só com programas pontuais, vai ficar o governo enxugando o gelo.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boedian é... O novo desenrola. Até onde vai o alívio para os endividados? Neste episódio, eu converso com Guilherme Bauza, repórter de política da Globo News em Brasília, e com Lauro Gonzalez, professor da Fundação Getúlio Vargas e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira. Terça-feira, 5 de maio.

Bausa, você esteve na cobertura do lançamento do novo Desenrola, então sintetiza para a gente como funciona esse programa, quem pode participar, negociar suas dívidas. Olha, Vitor, é um programa direcionado para aqueles brasileiros que contraíram dívidas no cheque especial, também no crédito direto ao consumidor, que é um empréstimo pessoal, e também no rotativo do cartão de crédito. Esse é o foco deste programa.

são as dívidas que têm os juros mais elevados hoje e que comprometem a renda da maior quantidade de brasileiros. São pessoas com uma renda mensal de até R$ 8.105,00 por mês. Então, isso abarca mais ou menos 90% da população brasileira, está elegível para participar desse programa.

E a previsão da equipe econômica é que cerca de 20 milhões de brasileiros participem desse programa de renegociações que foi batizado de novo o Desenrola Brasil. As pessoas também vão poder utilizar o saldo do FGTS até 20% para usar exclusivamente para quitar essas dívidas. E o que o governo está propondo é o seguinte, é substituir essa dívida com um juro bastante elevado por uma dívida menor, uma dívida que pode ser reduzida de 30% até 90% e que passa a ter um juro mais baixo.

um juro de até 1,99% ao mês. Não é um juros propriamente baixo, comparado aos juros do cheque especial, do rotativo do cartão, etc., é um juro bem mais baixo. Além disso, quem aderia a esse programa de renegociação das dívidas fica um ano impedido de fazer apostas esportivas. O CPF fica bloqueado para fazer apostas esportivas. O governo vai fazer um aporte.

de 5 bilhões de reais no fundo garantidor de operações para ter garantia, para viabilizar esse programa junto aos bancos. Também você tem ali um direcionamento dessas renegociações para agricultores, estudantes que se endividaram com o Fies e também micro, pequenas e médias empresas. Então, é um programa amplo que tem como foco, claro, pessoas físicas e contraíram essas dívidas caras, mas também tem essa dimensão de...

e ajudar, tentar ajudar pequenas empresas, agricultores, estudantes, um público um pouco mais amplo. Agora, a gente já sabe há algum tempo que o governo vinha se mobilizando para tirar o desenrola do papel. Queria que você contasse um pouco a história de como é que foi a construção desse programa.

Essa ideia de criar um programa para tirar, limpar o nome das pessoas, ela não é uma ideia nova propriamente. Ela vem desde a campanha eleitoral. Isso apareceu muito fortemente na campanha do então candidato à presidência, Ciro Gomes. E naquele momento, a campanha do presidente Lula...

que tentava um terceiro mandato, criou essa ideia do Desenrola, inclusive com esse nome, justamente para limpar o nome das pessoas. Então, de certa forma, a campanha de Lula se aproveitou de uma ideia que vinha sendo mais vinculada à campanha do Ciro, por entender que era uma ideia positiva, e aí eles deram esse nome de Desenrola. Foi uma proposta até do então marqueteiro da campanha, o Sidônio Palmeira, que hoje é o ministro da comunicação social. E aí a primeira versão do Desenrola foi enunciada em 2023.

E foi uma medida que teve uma adesão importante, mas que teve muitos problemas também. E os próprios integrantes do governo admitem isso. Ali você tinha uma plataforma que o governo criou para mediar essa negociação das dívidas com os bancos e muitas pessoas tiveram dificuldades de cadastrar nessa plataforma.

Além disso, era um programa muito voltado para pessoas que tinham dívidas mais antigas, dívidas de até cinco anos atrás, e agora essa nova versão foca mais em quem tem dívidas recentes, principalmente dívidas de dois anos para cá. Então, ali o governo entendeu que foi um programa...

que surtiu um efeito, mas teve uma limitação por falhas do próprio programa e também porque o endividamento da população hoje é um dado estrutural, é um dado que vem se arrastando ao longo dos anos e que o desenrola-1 não foi suficiente para resolver. Então, no começo desse ano, o presidente Lula, olhando para os indicadores econômicos, vendo que vários indicadores são positivos, por exemplo, a inflação em um patamar razoavelmente baixo,

Menores índices de desemprego da história, renda aumentando, o país crescendo, ainda que não tanto assim, mas vindo de três anos de crescimento. Então, o presidente Lula olhou para isso e falou, por que isso não se reverte em uma avaliação positiva da população em relação à economia, o humor da população em relação à economia e mesmo em relação ao governo? Porque a popularidade do governo vem caindo de forma progressiva nos últimos meses.

É o resultado que o governo espera, que mais de 30 milhões de pessoas que estão endividadas, tendo esse recurso agora de poder renegociar sua dívida e que com isso abra um espaço no seu orçamento para ficarem ali mais desafogados, tirar a corda do pescoço, sempre cria na pessoa aquela sensação de alívio.

E com isso, melhora o humor dela com relação ao governo de plantão. Nesse caso, o presidente Lula. É uma medida necessária, importante, mas que tem o seu reflexo eleitoral, claro. E aí o governo elegeu esse problema do endividamento da população, talvez como o grande vilão, para explicar esse pessimismo, essa relação crítica ou ruim que as pessoas têm em relação à economia.

E aí naquele momento o presidente Lula se reuniu, passou a fazer reuniões políticas, reuniões com a equipe econômica e falou, olha, precisamos resolver isso o quanto antes. E deu um prazo um tanto apertado para o ministro da Fazenda, o Dario Durigan, que tinha acabado de assumir a parta no lugar de Fernando Haddad.

ele teve um prazo apertado para estruturar esse programa, dialogar com os bancos, ajustar os detalhes até que o programa fosse concretizado. E claro, não foi à toa que esse programa foi anunciado em cadeia nacional na véspera de 1º de maio, no feriado do trabalhador, porque ele tem, obviamente, uma dimensão política eleitoral. A gente sabe que o problema do endividamento da população ele é real, ele é concreto.

mas é algo que afeta as pretensões do presidente Lula para essas eleições de 2026. Então, tem esse componente também que é muito presente nesse programa que foi anunciado nesta segunda-feira, então essa dimensão eleitoral de tentar melhorar a popularidade do presidente Lula num momento difícil.

Agora, Baus, é quase impossível a gente não enxergar isso. Um programa que tem 90 dias de duração inicialmente vai cair justo na campanha eleitoral? Com certeza, não tem como fugir disso. E a própria escolha de divulgar isso, primeiro num pronunciamento na quinta-feira à noite, em cadeia nacional, e depois detalhar isso nesta segunda-feira, num evento aqui no Palácio Planalto, mostra que tem essa dinâmica eleitoral também por trás dessa medida. Então...

Se por um lado, para o governo é interessante que a população melhore do ponto de vista do endividamento, reduza suas dívidas, volte a ter acesso a crédito, isso é importantíssimo para a economia do Brasil, você tem um contingente grande de brasileiros prejudicados com isso, com juros altos, etc.

outro evidentemente tem essa perspectiva eleitoral e não à toa também que apareceu com força no começo desse ano de 2026 um ano eleitoral. Eu vou te dar um dado, Vitor, isso não foi divulgado, mas eu apurei aqui com o pessoal do governo, só pessoas que têm dívidas de até mil reais, são cerca de 7 milhões de brasileiros.

Agora, com essa renegociação, pode chegar a coisa de R$ 100, R$ 150, R$ 200. Então, são dívidas que não deveriam ser tão difíceis de serem pagas, não são dívidas astronômicas e, muitas vezes, as pessoas ficam com o nome sujo, sem ter acesso a crédito por conta de uma dívida pequena. Então, eu acho que tem um apelo popular grande esse programa.

Junto com a proposta que acaba com a escala 6x1, eu diria que são as duas grandes apostas do governo Lula nessa reta final antes do período eleitoral. O governo apostou muito na reforma do imposto de renda, achava que seria a grande bala de prata desse terceiro mandato. Esse efeito ainda não foi percebido, não teve o impacto que era desejado e imaginado pelo governo.

até pesquisas internas mostram isso, também teve ampliação da gratuidade na conta de luz, o novo Vale Gás mais amplo, então esse conjunto de medidas não surtiram aquele efeito que o governo esperava do ponto de vista da popularidade. Então daqui para frente, esse programa, o novo Desenrola Brasil, e também o fim da escala 6x1, que é algo que o governo tem batido na tecla.

Quase que diariamente são as apostas para ver se o presidente melhora a popularidade e consegue derrotar os seus adversários nas eleições. Esse programa, ele pega, claro, população de baixa renda, que está endividada, mas também uma população de classe média. O segmento da população é classe média baixa, ou classe C, nova classe média. Tem várias nomenclaturas.

mas também uma classe média tradicional, são segmentos que historicamente têm resistência ao governo Lula. É onde ele tem mais dificuldade e os seus adversários têm o melhor desempenho eleitoral. Agora, é uma medida provisória que chega num Congresso bastante voltado também às eleições e que foi, na semana anterior, bastante hostil às pretensões do governo.

com a derrubada do veto à dosimetria e também a rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Como é que essa AMP chega ao Congresso? Por ser um tema muito popular, que diz respeito ao endividamento da população, dificilmente o Congresso vai se colocar contra essa medida provisória, até porque o programa tem uma validade que o período, a medida provisória, o Congresso tem até 120 dias.

para analisar. Inicialmente, esse programa dura 90, então o período já está coberto pela própria medida provisória sem a necessidade, no primeiro momento, de análise no Congresso Nacional. Mas mesmo que tivesse, mesmo que eventualmente tenha que ser analisada essa medida provisória, é difícil que deputados e senadores se coloquem contra isso, à medida que tem o impacto de atingir cerca de 20 milhões de brasileiros, é muito difícil que eles se coloquem contra.

num ano eleitoral, porque eles também estão buscando, todos os deputados, ou grande parte dos deputados e grande parte dos senadores estão buscando a reeleição. Então, dificilmente eles ficariam contra essa medida. Agora, do ponto de vista político, para o presidente Lula, é uma medida que vem num momento, de fato, muito difícil. O presidente sofreu...

a maior derrota política dele enquanto presidente da República, considerando os três mandatos, o que aconteceu na semana passada, com a rejeição ao nome de Messias por parte do Senado, algo que não acontecia há mais de 100 anos, foi uma derrota muito dura. Esse lançamento do programa já estava previsto para o dia 1º de maio, o detalhamento para essa segunda-feira.

tudo isso já estava previsto, mas pode ajudar talvez o presidente Lula a ter uma notícia positiva num momento muito ruim, num momento muito ruim para o governo. Então, não só essa medida, como outras que o governo discute, tem lançado, etc., o governo tenta encaixar uma agenda positiva para reposicionar o presidente Lula, melhorar a avaliação deles e, obviamente, também reposicionar a relação com o Congresso, que nesse momento é muito difícil.

Guilherme Bausa, muito obrigado pelas suas informações e pelas suas apurações, sempre muito precisa. Um grande abraço para você. Vitor, grande abraço, é um prazer falar contigo, estou sempre à disposição, adoro participar aqui do assunto. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o professor Lauro Gonzalez.

Eu vou começar, professor, eu quero te perguntar o seguinte, como é que chegamos a essa situação? Endividamento elevado, inadimplência também bastante elevada no país, num cenário de emprego em alta, renda relativamente em alta, mas parece que o dinheiro que entra já tem compromisso, né? Como é que a gente chegou até aqui?

Olha, eu resumiria da seguinte forma, Vitor. Nós chegamos porque hoje em dia o crédito faz parte da vida de um número muito maior de pessoas. O sistema financeiro mudou muito nos muitos anos. O Banco Central teve um papel muito importante em fomentar a entrada de novos atores, bancos digitais, fintechs. Depois a pandemia acabou também trazendo...

mais ainda gente para dentro do sistema, o pagamento do auxílio emergencial é muito interessante para quem estuda a política pública e serviços financeiros, como existe essa inter-relação, que o auxílio emergencial envolvia um pagamento. Depois, o Bolsa Família, também com valor aumentado, o hábito das pessoas de usar serviços financeiros pela internet se alterou durante a pandemia e, finalmente, o PIX. Nas nossas pesquisas, nós notamos que muita gente diz, usa-se essa expressão, vou abrir um PIX, não vou abrir uma conta.

Então, nós chegamos nessa situação, primeiro porque tem muito mais gente dentro do sistema, o crédito é ofertado de uma maneira muito mais rápida, digital, no limite, para cada PIX que a população vai fazer, existe uma oferta de crédito digital acoplada. Pagamentos e crédito andam quase juntos. E aí tem essas componentes, que aqui no nosso grupo nós chamamos de desconforto do crédito, de uso do crédito. O que viria a ser conceito de desconforto do crédito?

Basicamente é composto por três coisas. O nível de comprometimento de renda com o pagamento de dívidas, isso é divulgado pelo Banco Central, esse número está em cerca de 29%, 30% atualmente. Significa que para cada R$100, cerca de R$30 vão para o pagamento.

em média, de dívidas, e somente as dívidas bancárias, as dívidas que estão lá gerando juros. E na dimplência, o segundo componente, e um terceiro componente, a qualidade do crédito. Aqui nós quisemos ressaltar que a presença de modalidades de crédito extremamente onerosas, tais como o cartão rotativo, o parcelado no cartão, o empréstimo pessoal e o chamado cheque especial, essas quatro modalidades que são bastante onerosas, a participação delas, quanto maior a participação delas, Música

piora a qualidade do crédito e piora o desconforto também. Agora, professor, falando do novo desenrola, aparentemente está sendo necessária uma nova versão, porque a primeira, então, não foi suficiente para resolver a situação da inadimplência, que volta com muita força. Quero te ouvir sobre o que tem de novo nessa versão. Olha, Victor, assisti a apresentação do ministro, vi também o material, e tem algumas dúvidas ali, tem uma certa zona cinzenta, mas...

Deixa eu te colocar já que no Desenrola 1, nós vimos muito mais o programa como uma política para alívio financeiro de curto prazo, e não uma política que lidava com as causas estruturais do superendividamento. Inclusive, esse índice de desconforto de crédito que eu citei anteriormente,

Nós olhamos os dados, quando nós calculamos esse índice, olhando de 2014 para frente, lá no momento do desenrola 1, 2023 e começo de 2024, esse desconforto cai, porque o programa promoveu, de fato, um alívio financeiro de curto prazo, porque logo depois ele volta a subir e atinge os níveis recordes.

nos quais ele se encontra hoje. Então, há essa expectativa de um alívio financeiro. Pelo que o governo acaba de anunciar, é preciso ver os detalhes e ver como é que isso vai ser implementado, tem algumas coisas que eu considero positivas. Em particular, aqui, o governo anunciou o fim de dois produtos que, para a gente que estuda esse assunto, são chamados produtos predatórios de crédito, que são cartão.

de crédito consignado e o cartão benefício do crédito consignado. Ela é envelopada como consignado, mas os juros cobrados são juros de rotativo, etc. Então se trata muito mais de uma operação cara. Eu estou vendo, pelo anúncio das medidas e pela fala do ministro, que me parece que existe uma preocupação um pouco maior com essas causas estruturais do superendividamento. Ainda aqui tem muita coisa para ser feita. O uso do fundo de garantia dentro desse programa que foi anunciado, ele faz sentido?

Vitor, eu tenho a impressão que o uso do fundo de garantia só faz sentido se ele estiver acoplado a um conjunto de medidas que visem o combate estrutural sobre endividamento. Se for uma medida isolada, aí examinando o que foi anunciado hoje, há algumas medidas estruturantes à vista. Agora, isoladamente, eu vejo com uma certa preocupação.

o uso do FGTS. Para a maior parte dos trabalhadores formais, ele constitui a única reserva, a única poupança para situações emergenciais. E em uma situação onde já existe um nível de oferta de crédito extremamente elevada, eu fico um pouco preocupado com, digamos assim, a queima desses recursos.

Com essa finalidade, eu fico com receio de, ao final, o trabalhador ficar sem reserva financeira e com um endividamento persistente por conta dessas causas estruturais. Bom, é uma medida provisória, tem validade imediata, mas depende de aprovação do Congresso e ainda pode, então, ser modificada pelos parlamentares. Eu queria, na tua opinião, o que não pode faltar ou pode ser acrescentado, caso o texto original não contenha, para que não seja necessário haver o desenrola 3. Se nós não acabamos...

atacarmos as causas estruturais do superendividamento, desenrola com o perdão do trocadilho e não vai desenrolar nada. Nós vamos estar enxugando o gelo com essa política. Essa medida sobre o fim desses cartões, a meu ver, Vitor, é claramente algo que seria desejável que fosse implementado. A gente sabe que tem uma diferença muito grande entre o que é formulado e o que é implementado, de apta nos detalhes, mas a implementação dessas medidas caminharia

na direção de medidas estruturantes. Chamou a minha atenção também o anúncio de que haverá uma redução ao longo do tempo da margem consignável, ou seja, do percentual de comprometimento de renda do crédito consignado, que vai voltar a ser o valor de 30% do que ele era lá originalmente, mas isso vai demorar algum tempo, porque tem um redutor de 2% ao ano.

A gente falou muito dessa nova cultura do uso do crédito no Brasil, da falta de educação financeira também, mas eu queria também saber o quanto a taxa elevada de juros entra nessa conta e, por consequência, a falta de atitude ou as atitudes do governo que acabam pressionando o Banco Central a tomar essa decisão de manter os juros elevados.

Não tem uma solução mágica, uma bala de prata que vai resolver tudo. Para quem estuda esse assunto, são três, digamos assim, caixinhas de fatores. A primeira caixinha tem a ver com fatores micro, ou fatores ligados à própria pessoa para simplificar. Por exemplo, a renda, por exemplo, a educação financeira. Isso é muito importante. A segunda caixinha, além dessa micro, tem a segunda que é a caixinha de fatores macro.

Claro que a taxa de juros importa, o nível de emprego importa. Então essa é a segunda caixinha. Finalmente, tem uma terceira caixinha que são os fatores de oferta, é o ecossistema de oferta. Economistas afirmam que para além do aumento do incentivo ao consumo, com ofertas online cada vez mais disponíveis, a situação das contas públicas também agrava o endividamento do brasileiro, já que a falta de equilíbrio fiscal impede a queda dos juros. A taxa Selic está em 14,5% ao ano.

Ela é um instrumento do Banco Central para controlar a inflação e influencia taxas de juros, como de empréstimos e financiamentos. Nós caminhamos no Brasil nos últimos anos para um ecossistema de oferta de crédito com muito mais atores, que chega muito mais rapidamente a um número muito maior de pessoas por conta das mudanças que eu expliquei anteriormente.

E agora nós precisamos urgentemente aprimorar a regulação e a supervisão desse novo ecossistema, que é completamente diferente do ecossistema que nós tínhamos há 10 anos, ou mesmo há 8 anos. E de que forma a gente poderia, então, aprimorar esse ecossistema? É através do Banco Central? É através de medidas do governo no âmbito do Ministério da Fazenda? De onde viria essa política de melhoria da governança desse ambiente?

Olha, eu acho que nós precisamos discutir um novo marco regulatório para o crédito pessoa física no Brasil. Acho que é muito importante isso. Outros países passaram por essa experiência também. Os Estados Unidos passou por essa experiência logo após a crise do subprime lá em 2008. Foi criada uma agência...

para isso, eu acredito que nós estamos nesse momento. É necessário, sim, uma liderança do Banco Central. O Banco Central desempenhou um papel muito importante no aumento para que o número de atores no mercado aumentasse. E agora o Banco Central, acho que ele é chamado novamente, digamos assim, a liderar esse processo. Dessa vez...

para, considerando esse ambiente de crédito digital, esse ecossistema de oferta de crédito que demanda mais supervisão, esses problemas que nós temos visto, inclusive esses escândalos do Banco Master, a própria CPMI lá do INSS, mostraram que o crédito muitas vezes acaba sendo ali o denominador comum de alguns tipos.

de ilícitos. E parte disso tem a ver com o fato de que a supervisão, o aparato de supervisão necessária para o mercado hoje é diferente do aparato de alguns anos atrás. Então, isso passa muito, sim, pelo aprimoramento da regulação e da capacidade de supervisão do Banco Central.

Claro que também a gente vai ter que enfrentar o problema das bets. O governo anunciou alguma coisa relativa às bets, uma proibição de um ano para quem aderir ao programa de apostar, mas certamente tem mais medidas que podem ser tomadas para o combate às bets que acaba também engrossando esse caldo do superendividamento. Professor Lauro Gonzalez, muito obrigado pela sua opinião de qualidade aqui com a gente no assunto. A gente te espera outras vezes. Muito obrigado, Vitor. Um bom trabalho.

Este foi o assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou para este episódio Paula Paiva Paulo. Eu sou Vitor Boiadian e fico por aqui. Até o próximo assunto.

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