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A saída dos Emirados Árabes da Opep: os impactos no petróleo e os efeitos para Trump

29 de abril de 202622min
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Convidado: Tanguy Baghdadi é professor de Política Internacional e mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Os Emirados Árabes Unidos decidiram, após quase 60 anos de alinhamento, sair da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A decisão foi tomada após “várias discussões” e “reflexões” sobre o cenário internacional do petróleo e entra em vigor no dia 1º de maio. O cenário por trás dessa saída envolve a falta de respostas a um evento que se prolonga há quase dois meses: a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. A decisão ocorre em um momento delicado para o setor, marcado pela volatilidade dos preços, rearranjos geopolíticos e disputas cada vez mais intensas por influência sobre o fluxo global de energia. Em Washington, o movimento é visto como uma vitória para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, crítico recorrente da atuação da Opep. Neste episódio, Natuza Nery conversa com o analista internacional Tanguy Baghdadi para analisar os efeitos dessa mudança no mercado do petróleo e na geopolítica do conflito.
Participantes neste episódio3
D

Daniel Sousa

HostJornalista
N

Natuza Nery

HostJornalista
T

Tanguy Baghdadi

ConvidadoJornalista
Assuntos3
  • Impacto nos Emirados Árabes UnidosImpacto no mercado de petróleo · Relação com a Arábia Saudita · Efeitos para Donald Trump
  • Guerra Oriente MédioGuerra entre EUA, Israel e Irã · Operação Epic Fury
  • Geopolítica do PetróleoVolatilidade dos preços · Influência dos EUA
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Os Emirados Árabes Unidos decidiram, depois de 60 anos de alinhamento, simplesmente sair da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP. Para controlar a produção e a venda, ou para ser mais direta os preços do petróleo, é que a OPEP surgiu em 1960. Nas décadas seguintes, a organização era efetivamente capaz de tomar as rédeas do mercado, como no primeiro choque do petróleo em 1973. Funciona assim.

Se tem muito petróleo disponível no mercado, o preço do barril cai. Então esse cartel segura a produção para aumentar o preço. A justificativa? A falta de respostas em um evento que se prolonga há quase dois meses. Os Estados Unidos e seus parceiros lançaram a Operação Epic Fury. Em resumo, no dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel realizaram um ataque fortíssimo e coordenado contra o Irã. O Irã revidou e atacou países vizinhos do Golfo Pérsico.

Para te localizar nessa história, pense no Mapamundi, naquela faixa de terra que liga África e Ásia, o Oriente Médio. Do lado asiático, tem um corredor de água entrando pela terra. Esse é o Golfo Pérsico. Na margem direita dessas águas fica o Irã. Na esquerda, os Emirados Árabes Unidos. E justamente no lado árabe se encontram diversas bases militares americanas.

Há relatos de explosões no Kuwait, no Qatar, nos Emirados Árabes Unidos. Instalações de petróleo e gás na Arábia Saudita também foram atingidos. Só os Emirados Árabes sofreram mais de 2 mil ataques de mísseis e drones iranianos. O conflito perdura até hoje. Os Emirados Árabes consideraram fraca a coordenação política e militar dos países do Golfo.

Isso teria ajudado a tomar a decisão que começa a valer a partir de 1º de maio. O país tem ambições de produzir muito mais petróleo e possui os recursos geológicos e financeiros para sustentar esse ímpeto. O que analistas dizem é que os Emirados Árabes Unidos tinham uma frustração de longa data em relação a essas cotas de produção. O país é o terceiro maior produtor de petróleo do cartel, uma média de mais de 3 milhões de barris por dia.

Isso antes da guerra. Os Emirados queriam exportar mais, mas não podiam por causa das cotas. Isso acabou gerando uma tensão com a Arábia Saudita, que comanda informalmente o grupo e exporta três vezes mais, cerca de nove milhões de barris por dia. Tudo isso antes da guerra no Irã. Os Emirados dizem que a medida é por causa da guerra, por causa de uma reavaliação que o país, que os Emirados, precisam fazer na sua política de produção.

Por isso, preferem reforçar a parceria com os Estados Unidos e Israel. Uma boa notícia para Donald Trump, que anteriormente acusou a OPEP de explorar o resto do mundo ao inflacionar artificialmente os preços do petróleo. Trump enfrenta um enrosco danado com o aumento dos preços, inclusive com impacto em sua popularidade, em razão do bloqueio do Estreito de Hormuz. Daí, preços altos, que geram inflação em cadeia, que provocam perda do poder de compra e insatisfação popular.

os Estados Unidos, que assim como dezenas de países, é afetado com a alta do preço dos combustíveis, mas para o governo americano, que iniciou essa guerra, a conta política também já chegou. Faltam seis meses para as eleições de meio de mandato, que vão renovar o Congresso dos Estados Unidos e eleger alguns governadores. O Partido Republicano, de Donald Trump, teme que a guerra faça o partido perder a maioria que tem hoje, tanto na Câmara quanto no Senado.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, o impacto no petróleo e a pergunta que fica, isso pode ajudar Trump? Neste episódio, eu converso com Tanguy Bagdadi, professor de política internacional e mestre em relações internacionais pela PUC-Rio. Quarta-feira, 29 de abril.

Tanguy, explica para a gente o que significa essa mexida no tabuleiro da OPEP para a gente começar a nossa conversa. Olha, a gente está falando sobre uma mudança muito grande. A OPEP existe desde 1960. Vários países já entraram na OPEP, vários países já saíram da OPEP. Isso é relativamente comum com o passar do tempo. A OPEP coloca algumas limitações.

na produção de petróleo, mas tinha um núcleo duro que estava ali sempre, que era considerado muito confiável. A Arábia Saudita liderando, a Venezuela sempre esteve lá, o Irã sempre esteve lá. E outro país muito importante para a história da OPEP são os Emirados Árabes Unidos. A gente está falando sobre um país que representa 15% da produção total de petróleo da OPEP.

E essa saída é muito importante, ela tende a significar um enfraquecimento bastante grande da organização. Então a gente tem que ver o que vai acontecer aqui para frente, pode acabar levando outros países a saírem também, mas é importante lembrar que quando a gente fala sobre a OPEP, que na prática é um cartel, faz mais sentido na medida em que você tenha mais países. Na medida em que um país importante como os Emirados Árabes saem da OPEP, isso pode levar também a um certo desânimo dos outros países, se perguntando se vale a pena permanecer nessa organização.

Mas essa saída vem num momento particularmente interessante. Tem uma disputa que é antiga entre os Emirados Árabes e Arábia Saudita. Essa relação era muito desgastada. Explica para a gente esse contexto e diz para a gente também se isso pesou nessa decisão.

Pesou, não há dúvida de que pesou. Essa relação é interessante porque ela é uma relação que já teve muita proximidade. Aliás, o próprio príncipe regente da Arábia Saudita hoje, que é o Mohammed bin Salman, de uma certa maneira, ele chegou ao cargo no qual ele está por conta do presidente dos Emirados Árabes Unidos.

que é o Mohammed bin Zayed. Mohammed bin Zayed é um dos caras mais experientes do Oriente Médio, que tem as melhores relações. Ele é que olha para o Mohammed bin Salman e o promove. Então, o Mohammed bin Salman, na prática, chega ao poder por conta da liderança do Mohammed bin Zayed, que é o homem forte lá dos Emirados dos Estados Unidos. Eles acabam tendo algumas iniciativas conjuntas, inclusive naquela guerra lá no Iêmen, mas rompem. Eles têm, portanto, visões bastante diferentes sobre diversos assuntos.

A relação dos Emirados Árabes com a Arábia Saudita já vinha se deteriorando bastante. Em dezembro e janeiro estavam próximos de uma ruptura diplomática, com os dois países quase entrando em confronto ali no Iêmen. A relação entre os dois países era péssima no começo desse ano. Tem a competição também entre os Emirados Árabes e a Arábia Saudita. O Mohammed bin Salman, o ditador da Arábia Saudita,

vem tentando transformar a Arábia Saudita numa grande Dubai, num grande Emirados Árabes, abrindo mais a economia da Arábia Saudita, levando grandes eventos. Emirados Árabes se enxerga como um grande entreposto global. Cidades como Dubai e Abu Dhabi seriam como Hong Kong, Tóquio, Londres e Nova Iorque.

que eles não têm que ser algo apenas regional, que é algo maior e com uma economia bastante diversificada. E um dos assuntos é exatamente a questão do petróleo. A Arábia Saudita é uma superpotência quando a gente fala em petróleo, ela produz cerca de 11 milhões de barris de petróleo por dia e ela tem como lógica a ideia de que o petróleo tem que ser mantido valorizado. Então, se depender da Arábia Saudita, o petróleo tem que estar na casa de 100 dólares ou quase 100 dólares.

Os Emirados Árabes Unidos produzem muito petróleo, é um país muito pequeno, mas produz muito menos do que a Arábia Saudita. A gente está falando sobre um país que produz ele na casa de 4 milhões de barris. Então tem um descasamento muito grande. São 11 milhões produzidos pela Arábia Saudita por dia e 4 milhões produzidos pelos Emirados Árabes Unidos. Então quando a Arábia Saudita diz, e ela tem uma voz muito forte ali na OPEP, quando ela diz, olha, para manter o petróleo valorizado, a gente tem que cortar a produção,

Os Emirados Árabes Unidos falam assim, olha, para mim não vale a pena, porque eu estou perdendo market share, estou perdendo espaço no mercado. Então esse é um embate já antigo e que os Emirados Árabes agora resolvem, que olha, para mim não faz mais sentido, não vale mais a pena. Com essa crise em Hormuz, já tem uma pressão sobre o preço de qualquer maneira, independente do Topep, é o momento no qual portanto os Emirados Árabes passam a ter uma lógica um pouco mais autônoma. E isso aumenta ainda mais.

Essa tensão é entre os dois líderes, entre o Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, e o Mohammed bin Zayed, nos Emirados Árabes Unidos. Agora, essa saída dos Emirados Árabes pode significar a implosão da OPEP de alguma maneira? Olha, com o passar do tempo, Natuzi, a gente tem uma OPEP que é cada vez menos importante.

Então, na década de 60, ela estava sendo criada, ela estava ganhando importância. Na década de 70, ela ganha muita importância. Ela vai passar por altos e baixos, mas ali nos anos 2000, início dos anos 2000, ela vai ter muita importância. Só que, conforme os eventos vão acontecendo, você vai tendo novos países que são grandes produtores de petróleo.

a OPEP vai progressivamente perdendo importância, sempre de forma relativa, você não tem nenhum baque imediato, mas há um momento no qual o poder da OPEP se torna muito enfraquecido, que é quando os Estados Unidos começam a produzir o petróleo de xisto. Petróleo de xisto e gás de xisto, o gás aqui não é a nossa análise, a gente está falando basicamente de petróleo.

mas os Estados Unidos se tornam os maiores produtores do mundo de petróleo. Ou seja, um país que não está na OPEP se torna uma superpotência. Você ainda tem a Rússia, que é uma produtora gigantesca de petróleo, e esses países não estão na OPEP. Então, isso acaba fazendo com que a OPEP já passasse, já viesse de um período de um relativo enfraquecimento, um viés de baixa.

Essa saída dos Emirados Árabes Unidos é um golpe duríssimo sobre a OPEP. A gente vai ter que ver o que vai acontecer aqui para frente. Eu não acredito que a OPEP vai deixar de existir, mas é mais um degrau que a OPEP desce em grau de importância. Basicamente, quando a gente olha para a OPEP hoje, você tem uma superpotência que é a Arábia Saudita, que está cercada ali por outros países que também são produtores importantes, você tem o próprio Irã e tudo, mas você tem basicamente a Arábia Saudita terminando todas as ações, o que acaba enfraquecendo bastante a organização.

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Tanguy Bagdadi. Dá para a gente imaginar como é que seria o mundo sem a OPEP? O que aconteceria? Eu queria fazer um exercício retórico aqui contigo.

Olha, a OPEP hoje é um cartel que basicamente combina, ou tenta combinar, quanto que cada país vai produzir de petróleo, as cotas de produção de petróleo, para a gente imaginar qual vai ser o resultado em termos de valor do barril de petróleo.

A própria OPEP já entendeu que somente os países da OPEP não são suficientes para controlar o mercado de petróleo, tanto é que a gente teve alguns anos atrás a criação da OPEP+, e aí você tem a Rússia, você tem o México, o próprio Brasil entrou recentemente na OPEP+, não fazem parte da OPEP, mas fazem parte de um grupo um pouquinho mais próximo da OPEP que vai ajudar a discutir não ter obrigações. Mas me parece que um mundo sem a OPEP vai ser uma grande OPEP+. E aí

vai ser um monte de país que vai dialogar. O PEP foi criado em 1960, conta com a participação de grandes países, 13 como a Arábia Saudita, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Venezuela. E essa sigla, o PEP+, com esse sinal de adição na frente, inclui também os chamados países aliados, que atuam de forma conjunta em algumas políticas internacionais ligadas ao comércio do petróleo.

países eles vão acabar tendo uma liberdade maior para definir a sua produção. Se muitos países querem produzir mais, o preço do petróleo vai cair. Se os países cortam a produção de petróleo, o preço vai subir e vai se tornar um mercado como outro qualquer. Mas eu acho que a gente já está vislumbrando como é que é o mundo sem OPEP. A OPEP já não tem mais a importância que teve no passado na determinação do preço do petróleo.

Tem muita gente na imprensa americana associando a saída dos Emirados Árabes a uma vitória de Trump. Eu queria saber o que você acha disso. É uma enorme vitória para Donald Trump. Donald Trump já reclama da OPEP há muito tempo.

Ele sempre disse que a OPEP era uma organização que extorquia os outros países, exatamente porque tendia a manter o preço do petróleo mais elevado. Isso aqui é uma lição que a gente tem sempre na história da economia global, que é não há período de crescimento econômico continuado se você tem energia cara.

Se a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, tentava manter o barril do petróleo mais alto do que poderia, do que seria possível, na prática você tem uma energia mais cara, se a energia é mais cara, tudo é mais caro e o crescimento é menor. Os Estados Unidos sempre advogaram por um petróleo mais barato, tanto é que os Estados Unidos, como eu disse, são os maiores produtores de petróleo do mundo.

mantém uma produção de petróleo mais alta possível, então virtualmente no limite da sua capacidade de produção, exatamente para baixar o preço do bairro do petróleo e dessa maneira garantir que você tenha energia barata, produção barata e crescimento em alta. Os Emirados Árabes Unidos são países que ao longo dos últimos anos vêm tendendo a buscar uma aproximação aos Estados Unidos. Não é uma novidade, mas os Emirados Árabes Unidos passaram a ter uma proximidade, ou então apostaram suas fichas nessa boa relação.

com os Estados Unidos. É curioso porque a Arábia Saudita, ela também tem uma relação boa com os Estados Unidos, mas quando se trata de energia, ela lida com isso sozinha, ela tenta não ser influenciada. De novo, é uma superpotência do ponto de vista energético, é um país que produz 11 milhões de barris de petróleo por dia a preços muito baixos, com custo muito baixo. Então, a margem de lucro que a Arábia Saudita tem um negócio gigantesco. Então, a Arábia Saudita tem uma grande liberdade para agir da maneira que bem entender.

Então, os Estados Unidos olham para essa saída dos Emirados Árabes Unidos como um torpediamento na capacidade do OPEP de se manter no longo prazo. E tenho certeza que Donald Trump está muito satisfeito. Se não, me parece que talvez a explicação esteja por aí, se Donald Trump não tiver participado diretamente dessa decisão.

pressionando os Emirados Águas Unidos, oferecendo alguma coisa, oferecendo algum tipo de parceria, ainda mais no momento no qual, com o fechamento dos trilhos de Hormuz, esses países todos ali do Golfo Perso estão muito preocupados com o que pode ir pela frente. Então pode fazer parte de um arranjo, de um novo arranjo para a economia global, enfim, para o cenário do petróleo mundial daqui para frente.

Mas então por esse raciocínio teu, o barril do petróleo vai ficar mais barato com esse movimento? A tendência é essa, porque os Emirados Árabes Unidos querem aumentar a sua produção de petróleo. A lógica da Arábia Saudita era diminuir a produção de petróleo para o barril do petróleo se tornar mais caro.

Os Emirados Árabes Unidos há um tempo já olham para isso e entendem que para eles esse raciocínio não faz sentido. Afinal de contas, eles podem produzir muito mais de petróleo. Para eles não é tão interessante vender um barril de petróleo por um valor mais alto, mas vender uma quantidade menor de petróleo para o mundo. Agora, como os Emirados Árabes Unidos saem da OPEP, é um país que passa a ter uma liberdade para aumentar a sua produção.

E aí você está falando sobre um país que produz hoje na casa de 4 milhões de barris de petróleo por dia, um pouquinho mais do que isso. Talvez já chegue a 4 milhões e meio de barris de petróleo por dia até o final desse ano, 5 milhões de barris até o final de 2027, e sabe-se lá onde mais que os Emirados Unidos podem chegar. É um país que não tem limitação para investimentos, pode investir o quanto quiser para aumentar a sua produção.

Tem um custo de extração do petróleo muito baixo também, então as margens de lucro para a produção de petróleo dos Emirados Árabes Unidos é gigantesca, mesmo que o valor caia. Isso, portanto, para os Estados Unidos é ótimo, ainda mais no momento no qual, com essas incertezas todas relacionadas aos trade-hormuz, com a elevação do barril do petróleo, os Emirados Árabes Unidos podem trazer um recado que é vai ter mais petróleo no mercado, o preço não precisa subir tanto assim.

Eu não tenho como deixar de te perguntar sobre os mais recentes acontecimentos e como eles se conectam a esse evento da OPEP. Então, Trump amarga índices altos de impopularidade. A guerra contra o Irã acentua essa trajetória de baixa de Trump nas pesquisas.

de opinião. Recentemente, no fim de semana, teve o atentado no hotel em que ele estava se reunindo num jantar com correspondentes e, ato contínuo, começou uma exploração política desse evento por parte de Trump, do governo, de uma ala dos republicanos. Tudo isso junto e misturado permite que tipo de conclusão, Tanguy?

Olha, quando a gente pensa na saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, é uma notícia grande porque mexe com o abastecimento de petróleo global, mexe com a posição da OPEP no mundo. É claro que isso vai trazer impactos no médio e no longo prazo. Se a estratégia de Donald Trump, no entanto, para reverter sua crescente impopularidade nos Estados Unidos, for a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, com isso gerar, portanto, uma oferta de petróleo maior e conter a inflação, é muito pobre, é muito pouco.

Os Estados Unidos têm uma inflação grande nesse momento que desagrada o eleitor americano, não apenas por conta do que está acontecendo em Hormuz. Isso é um dos elementos, não apenas por conta da inflação gerada pela alta dos combustíveis. Você tem as próprias tarifas de Donald Trump, que ele insistiu tanto, que foi a grande política dele ao longo desses dois primeiros anos de governo, que estão impactando duramente a inflação nos Estados Unidos. O presidente americano tem outro inimigo. Ele está com um problema enorme.

E analistas econômicos dizem que a culpa é do próprio Trump. O preço do café, da carne, da banana, tudo ficou mais caro. E por isso Donald Trump teria recuado no tarifácio sobre importação de alimentos. Você tem a própria percepção dos Estados Unidos, do americano, médio, de uma forma geral, de que essa guerra no Irã não deveria ter acontecido, e não apenas por conta do preço do petróleo.

Você já tem cada vez mais republicanos sendo críticos à política de deportações agressiva, violenta de Donald Trump. Então é muito pouco levando em consideração principalmente que a gente está falando sobre uma preocupação do governo Trump de como é que ele vai lidar com essa crescente impopularidade visando as eleições que vão acontecer em novembro.

Uma nova pesquisa da agência de notícias Reuters e do Instituto Ipsos trouxe más notícias para o presidente Donald Trump. A taxa de aprovação do presidente Donald Trump se manteve no nível mais baixo desde o início do mandato. Até lá você não vai sentir um efeito tão grande assim de um eventual aumento da produção de petróleo por parte dos Emirados Unidos.

Eu acho que isso a gente vai conseguir ver ao longo dos próximos seis meses, um ano, dois anos. Você vai pegar aquele gráfico, ao longo dos últimos anos, a produção de petróleo, os emerales árabes aumentou. Esse aumento se dá aos poucos também, mas é pouco. Me parece que se essa for a estratégia, ela não vai funcionar.

Mas é uma pequena vitória que Donald Trump tem, não há dúvida disso, mas não sei se é suficiente para você reverter essa crescente impopularidade. Quanto à estratégia de comunicação de Trump, de falar sobre o atentado, eu sei que é curioso dizer, mas atentado contra presidentes nos Estados Unidos, mais dramáticos que eles sejam, eles já não são mais uma grande novidade. Quando você fala sobre Donald Trump, por exemplo, é a terceira vez, duas vezes como candidato e essa vez agora já como presidente.

Esta foi a terceira tentativa de assassinato contra Trump em menos de dois anos. Em julho de 2024, Trump levou um tiro de raspão durante um comício em Butler, no estado da Pensilvânia. O atirador foi morto. Em setembro do mesmo ano, um homem foi encontrado escondido nos arredores do campo de golfe de Trump, na Flórida. Ele foi condenado à prisão perpétua.

Desta vez, o atirador viajou de trem de Los Angeles para Chicago e de Chicago para Washington. Tem um limite, até que ponto isso contribui exatamente com a popularidade dele. Claro que ele vai utilizar isso politicamente, faz parte do jogo, mas eu tenho minhas dúvidas se isso ajuda a reverter de maneira definitiva essa queda na popularidade do presidente.

Ou seja, ouvindo todas as suas respostas até aqui, todas as investidas de Trump parecem insuficientes para melhorar a situação dele em termos de apoio popular nesse momento.

É, a gente está falando sobre iniciativas pontuais, tentando reverter problemas estruturais. O problema estrutural é o estreito de Hormuz está fechado nesse momento. Isso é um problema estrutural. Isso mexe com o abastecimento do petróleo global, vai gerar inflação no mundo inteiro. É uma questão estrutural. A saída dos Emirados Árabes Unidos é algo mais pontual. Quando você fala sobre inflação nos Estados Unidos, é uma coisa estrutural. Para você mexer nisso, você tem que mexer em uma estrutura muito maior. Quando você fala sobre o atentado contra o presidente, contra o Hilton, de Washington...

É uma coisa pontual. Então, a questão é você buscar o remédio correto para o tamanho da doença que você está tentando enfrentar. Então, se você tem uma doença muito grave, talvez apenas uma aspirina não vá resolver. Tanguy, muito obrigada. A sua clareza é algo impressionante. Sempre um prazer receber você aqui no assunto. O prazer é sempre meu. Tchau, tchau.

Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Felipe Turione. Eu sou Nato Zaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.