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Terras raras: os desafios da exploração sustentável no Brasil

28 de abril de 202633min
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Convidado: Jonathan Colombo, engenheiro e professor do MBA em ESG de Mudanças Climáticas e Transição Energética da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Um negócio de quase US$ 3 bilhões colocou o Brasil no centro das atenções em um mercado no qual o país detém a segunda maior reserva do mundo: as terras raras. São 17 minerais estratégicos, usados na fabricação de produtos que vão de carros elétricos a sistemas militares, e que hoje estão no centro de uma disputa geopolítica global, impulsionada pela corrida tecnológica e pela transição energética. Nesse contexto, uma mineradora em Goiás, controlada por fundos privados e internacionais, foi vendida para uma empresa americana. O movimento reacendeu preocupações no governo brasileiro sobre soberania e controle de recursos estratégicos. Enquanto os negócios avançam, a regulamentação das terras raras ainda anda lentamente no Congresso e deve ser analisada em maio; ao mesmo tempo, o tema também está no STF, que avalia uma ação que questiona se a exploração da mina em Minaçu, no norte de Goiás, fere a Constituição. Neste episódio, Natuza Nery conversa com o engenheiro Jonathan Colombo, professor de transição energética da FGV, sobre os desafios para evitar danos ambientais e a perda de soberania na exploração de terras raras no Brasil.
Participantes neste episódio2
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Natuza Nery

HostJornalista
J

Jonathan Colombo

ConvidadoEngenheiro e professor
Assuntos1
  • Compra de terras rarasDesafios ambientais · Regulamentação no Brasil · Geopolítica das terras raras · Venda da mineradora em Goiás · Impactos da mineração
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A empresa USA Rare Earth vai pagar 2 bilhões e 800 milhões de dólares por essa mina que fica em Minasul, no norte goiano. A mineradora brasileira é controlada por investidores privados e fundos internacionais. O pagamento será feito em dinheiro e ações e deve ser concluído no terceiro trimestre deste ano. Plantânio, neodímio, promécio, sério.

Esses nomes fazem a gente lembrar das aulas de química e da tabela periódica na escola, lembra disso? Pois é, a gente nem dava muita importância e ainda se perguntava, para que mesmo eu estou estudando isso? Só que esses elementos químicos que a gente não dava muita bola e mais outros 13 componentes da tabela periódica renderam recentemente um negócio de quase 3 bilhões de dólares e colocou o Brasil no centro das atenções.

Afinal, este é um mercado em que o nosso país detém a segunda maior reserva do mundo, o mercado das terras raras. Eles também são chamados de minerais críticos. São 17 no total e agora voltam para mais um round na disputa geopolítica global. Uma mineradora em Goiás, que era controlada por fundos privados e internacionais, agora foi vendida para uma empresa americana.

Mas afinal, o que são essas tais terras raras que mexem com a geopolítica do mundo inteiro? Elas são um grupo de 17 elementos da tabela periódica entre os mais de 100 e são fundamentais em diversas áreas da tecnologia. Um dos mais cobiçados é o neodímio, que é usado para fazer ímãs superpotentes, essenciais na fabricação de carros elétricos, geradores eólicos e até de armamentos.

o que voltou a preocupar o governo brasileiro. Enquanto os negócios avançam no mercado, no Congresso o tema ainda patina. A proposta que cria regras para a exploração de terras raras teve análise adiada a pedido do próprio governo, que quer analisar mais todos os aspectos dessa regulação, para entender melhor como organizar esse setor. A expectativa agora é que o texto seja apresentado e votado só no início de maio, depois de novas negociações.

O Brasil ainda não tem uma legislação específica sobre o assunto, mas projetos de leis que estão no Congresso defendem a criação de uma política nacional para minerais estratégicos. Um deles prevê que se levante uma lista de minerais que será revisada periodicamente.

É importante a gente ter uma segurança jurídica e uma segurança tributária para que se tenha confiança para investir. São investimentos muito altos, de maturação muito longa e que dependem dessas ferramentas para que se venham esses investimentos para o país. Em paralelo à venda da mineradora, o governo de Goiás também assinou um financiamento com o governo americano para avançar na exploração dessas terras raras. Só que isso levou o Brasil a um outro impasse.

A competência para regulamentar é da União. Esse subsolo pertence à União. Nós temos aqui no país uma regra constitucional que defere ao poder central e à União esse papel de interrupção com outros países e com outro Estado.

Nós precisamos legislar logo e regular logo esse tema, porque ele suscita não apenas dúvidas, mas inseguranças, sobretudo. Muita gente leu essas notícias nos últimos dias e ficou imaginando que nós estávamos perdendo ali um ativo importante, uma quantidade muito grande de minerais críticos, etc., para uma empresa que não é um grupo econômico brasileiro.

Mas também há discussão no Supremo Tribunal Federal. Os ministros analisam uma ação do Partido Rede Sustentabilidade que questiona se o negócio envolvendo a mina localizada em Minasul, no norte de Goiás, fere ou não a Constituição. O ponto aqui é saber como e de que maneira o Brasil vai entrar nesta corrida que definirá a nova fronteira tecnológica do mundo.

A extração de terras raras não é simples e tudo tem que ser bastante estudado. Envolve processos químicos complexos que podem provocar impactos ambientais significativos se não forem observados com atenção. E o Brasil conhece bem esse tipo de impacto em regiões de mineração. Quando a mineração falha por falta de cuidados devidos, a conta chega e não fecha. Até hoje, o Brasil tem famílias lidando com as perdas irreparáveis de Mariana e de Brumadinho.

Da redação do G1, eu sou Natuza Neri e o assunto hoje é o desafio da exploração sustentável de terras raras no Brasil. Neste episódio, eu converso com Jonathan Colombo, engenheiro e professor de transição energética da FGV. Terça-feira, 28 de abril.

Professor, o documento que foi divulgado pela empresa americana sobre a compra da Serra Verde aponta que a mineradora brasileira é a única produtora em larga escala, hoje fora da Ásia, de elementos que são essenciais para a indústria, sobretudo a indústria de alta tecnologia. Eu queria que você nos explicasse o que torna essa jazida tão especial e por que ela é o centro dessa batalha.

Historicamente, quando a gente fala em terras raras, são substâncias minerais que foram descobertas no século XIX e eram pouco conhecidos na época e de difícil identificação. Então se associou o termo raridade a esses elementos. Mas a questão de raridade não está associada à baixa abundância desses elementos, mas sim à dificuldade tecnológica e econômica da gente conseguir extrair e processar esses minerais.

Então, na verdade, quando a gente fala de terras raras, são um grupo de 17 minerais e elementos químicos que são encontrados, misturados entre si. Tem um processo caro de extração, que é a separação e a purificação que está por trás desse processo. Apesar do nome, elas não são nem terras nem raras. São relativamente abundantes na crosta terrestre.

É mais comum encontrar terras raras do que ouro, por exemplo. O problema é que elas costumam aparecer dispersas em pequenas quantidades e misturadas a outros minerais. Separá-las é caro e complexo. A produção é concentrada exclusivamente em Goiás. Outro desafio é o refino. De cada tonelada de minerais retirados, só se extrai um quilo de terras raras. É um processo caro.

cada um tem uma característica específica. Então eles andam juntos, vamos dizer assim. É um grupo que anda junto, cada um com a sua característica, mas eles não são separados. Então você não vai achar uma pepita de um mineral raro. Eles estão sempre juntos e combinados. Então aquele provérbio lá, tudo junto e misturado, que é um pouco a característica das terras raras.

Quando a gente fala da jazida, nesse caso, a gente está falando de quatro elementos principais que estão em torno dessa jazida aí. E ela é composta ali por minerais que estão associados numa composição de argila. Na verdade, ela é uma mina a céu aberto, de operação rasa. E eu gosto de fazer essa comparação para a gente desmistificar um pouquinho os pré-concepções que a gente tem quando a gente fala de mina. A gente traz muito dessa questão do histórico, das minas de ouro, do que foi isso de impacto ambiental para o Brasil.

Mesmo a questão das minas que tiveram os impactos de barragem. Então, no caso dessa mina da Serra Verde, ela é uma mina que vai tratar, então, de uma remoção significativa de uma argila. Então, você não usa reagentes químicos perigosos na sua maioria e também não há uma geração muito grande de resíduos úmidos, que é aquilo que a gente viu na questão das barragens.

Você tem outras características, você não vai ter perfurações muito grandes, você não vai ter detonações, como a gente vê em minas de ouro e de cobre. E a questão que a gente viu de resíduos líquidos, minério de ferro. Quando a gente fala em mina, eu já penso naquelas minas, lá nas Minas Gerais, em que você desce num trenzinho, num carrinho, vai até lá no fundo para conseguir fazer a extração.

A gente traz essa concepção da nossa vivência histórica, dos livros de história ou aquilo que a gente viu nos documentários. Então ela não tem essa característica de profundar para ser escavada. Você vai retirar uma argila e aí você vai fazer um processo de separação. Há sim um impacto ambiental, porque você vai ter que trabalhar numa terra grande, mas você não tem esse afundamento da exploração. Há necessidade de desmatamento dessas áreas ou essas áreas já são áreas desmatadas, por exemplo?

Na verdade, você tem uma cobertura vegetal em cima de parte dela, você sim vai ter que fazer um certo impacto ambiental, tanto para questões de acesso, para questão da exploração. Então, sim, você tem aí uma remoção e uma que a gente chama mais tecnicamente de mudança de uso do solo. Então, esse solo vai ter que ser mudado para você poder transformar isso numa mina realmente como a gente trata da questão.

E essa jazida da Serra Verde, ela é importante porque ela nos dá que tipo de elemento? São quatro grandes minerais que hoje são importantes para questões, que nem você comentou, não só da transição energética.

E aí quando a gente fala da mineração crítica, mas também da mineração estratégica, que vai garantir questões inclusive de segurança nacional. Então a gente está falando desde desenvolvimento de equipamentos tecnológicos como eletricidade, mobilidade, quando a gente vai querer fazer mais motores de veículos elétricos, mais turbinas eólicas.

mais giradores, mas também quando quiser desenvolver novos celulares, fones mesmo de ouvido, tem questões de mecanismos de indústrias e também mecanismos de defesa e aeroespacial. Então a gente está falando desde minerais que são utilizados para desenvolvimento de sistemas de rastreamento de mísseis, para questões de drone, para questões de radar. Então essa mina, na verdade, ela tem essa característica de dar acesso a quatro elementos, é o neodímio.

o praceodímio, o disprócio e o térbio. E, de novo, como a gente comentou no começo, eles são tudo junto e misturado. E lembro agora, me desculpe, eu me lembro agora do meu professor de química, Emanuel Maresco, lá em Recife, e eu ficava me debatendo, dizendo para que eu preciso decorar a tabela periódica. Está aqui a resposta nessa entrevista, professor.

Pois é, então essa aqui é a grande diferença. Então um desses elementos vai garantir o quê? Que eu vou conseguir desenvolver motores maiores com menos uso de material. Ou seja, quando eu uso o neodímio na concepção de um motor, ele vai ser um motor mais leve e mais eficiente. Consequentemente, eu vou gastar menos energia. Um outro desses minerais, a maioria desses outros três combinados, eles vão garantir que o neodímio vai conseguir performar com um desempenho térmico e magnético mais resistente.

O mais importante desses minérios raros hoje é o neodímio, que é usado para fazer ímãs superpotentes, resistentes a altas temperaturas, absolutamente fundamentais para a indústria da tecnologia hoje. Eles servem para fazer desde fones de ouvido até armas de guerra, mas são fundamentais para um grande setor da indústria mundial. É quase impossível fazer um carro hoje sem esses ímãs.

eram aqueles pequenas letras que tinham na tabela periódica e quando a gente entende a significância, você consegue trabalhar de forma mais eficiente. Cada elemento desse é importante para um tipo de produto tecnológico, é isso? O principal ponto é que você não trabalha eles desconexos, até porque, como eu comentei, você não tem um veio ou uma pepita de neodímio. Ele vai estar sempre combinado com o outro e essa combinação que vai fazer diferença.

Mas no processo de refino não há separação desses elementos todos? Quando a gente pega a terra rara como um conjunto de 17, sim, eu vou criar subdivisões. Mas esses quatro normalmente são grupos que trabalham mais junto dentro dos 17. Então não é que sempre eu vou trabalhar com o mesmo coletivo dos 17.

eu vou trabalhar com subconjuntos desses 17, e normalmente esses quatro trabalham junto. Então, por isso que essa mina localizada no estado de Goiás é justamente porque você vai conseguir, num único espaço, explorar quatro elementos da cadeia de minerais raros que têm uma combinação conjunta e pode ser ali melhor aproveitado.

Como é que a China saiu na frente nessa história? Conta um pouquinho, faz esse recuo histórico para a gente, por favor. Acho que tem dois fatores que colocam a China como um ator importante na exploração de minerais raros. O primeiro é justamente a geolocalização do território chinês. Ou seja, se você olhar embaixo do território chinês, você tem ali diversos recursos naturais e minerais.

que favorecem esse desenvolvimento tecnológico. Então a gente está falando dessas questões de terras raras, também quando a gente fala do silício, que é o mineral base para a produção de painéis solares, então você tem uma concentração muito grande no território chinês. Então tem essa vantagem. E a segunda vantagem é que a China, ao longo da sua história, você desenvolveu uma capacidade produtiva nesse país e tecnológico que permite, então, eu...

aproveitar aquilo que está no meu subsolo. Os chineses saíram na frente porque começaram a investir no setor ainda nos anos 80. Eles perceberam que se o Oriente Médio tem o petróleo, nós teremos as terras raras.

Hoje, a China controla 70% da extração e 90% do processamento de minerais críticos e terras raras. Então, a China se favorece desses dois elementos. Ela tem a matéria-prima, ela tem a tecnologia e ela tem, então, as pessoas para poder fazer tudo isso acontecer. Quando a China resolveu colocar esse tipo de mineração dentro da sua prioridade estratégica,

Não se preocupava com o meio ambiente, não se preocupava com o tipo de mão de obra que era usada. Eles foram fazendo num jeito muito peculiar, digamos assim. Jogando para os tempos atuais que a China fez.

Se fosse feito hoje no Brasil, seria algo escandaloso e a própria legislação barraria. Sim, em 2014, se eu não estou enganado, você teve uma preocupação muito maior trazida pela OMC, a Organização Mundial do Comércio, que teve um processo movido pelos Estados Unidos, União Europeia e Japão, justamente criticando a forma como toda a gestão da cadeia de terras raras acontecia dominada pela China. Então começou a se questionar desde a forma...

como ela fazia a definição de cotas e tarifas para exportação, e aí você tinha um protecionismo, não estou nem falando da parte ambiental, estou falando da parte econômica e industrial do mecanismo. E depois esses elementos que você falou, tanto da forma de exploração ambiental e social para chegar a esses elementos. Então, você teve uma crítica da sociedade, isso movimentou uma organização mundial da...

de comércio para criticar e fez com que a China mudasse a sua operação. Então, mesmo a China hoje não é a mesma China de 2014. Então, você já teve uma evolução, porque mesmo a China já não pode fazer como ela fez no início do seu mercado, como diversos outros países fizeram quando começaram a abrir as suas explorações.

Quando a gente olha para o mundo, tem algum outro país com condições semelhantes a da China? Lembrando que, em termos de reserva, a China está em primeiro lugar, o Brasil está em segundo lugar, a Rússia está em terceiro lugar. Tem algum país com ou não reservas desse tamanho que tem condição de disputar com a China, por exemplo, esse mercado?

Sim, na verdade eu vou te corrigir um pouquinho do seu ranking, porque antes da Rússia a gente tem o Vietnã. Então você tem a China mais ou menos com 40% das reservas, aí você tem Brasil com 20%, Vietnã com 20%, e se não me engano a Rússia está com 10%.

Então, se você junta Brasil e Vietnã, já iguala a China em capacidade de reservas. A dificuldade aí é justamente para equiparar a China, é a capacidade de avançar na cadeia de exploração. Então, hoje a China tem 40% das reservas, mas ela controla 70% da mineração e é evoluindo na cadeia. Depois você tem 90% do refino e separação feito na China.

E 90%, 95% da produção de imãs de alta performance feito na China. Então, por mais que ela tenha só, entre aspas, 40%, ela detém 90% do resto da cadeia produtiva. Então, coloca ela num outro fator. Então, por mais que a Rússia ou os Estados Unidos também consigam extrair, muito acaba sendo enviado para a China poder fazer o final do processo. Então, tem esses dois momentos. Então, respondendo a sua pergunta para igualar a China na questão de...

Extração, Brasil mais Vietnã já igualam, mas a dificuldade está justamente desses países darem o próximo passo e conseguir equiparar a China na cadeia verticalizada. É muito impressionante que uma potência como os Estados Unidos não tenham olhado para isso de uma maneira estratégica e eles próprios corrido atrás.

de fazer o refino que a China faz, né? E esse negócio é justamente para tentar tirar o atraso que os Estados Unidos têm. Então, os Estados Unidos têm a capacidade de separação dos minerais, que é a parte de refino, e também da produção dos imãs de alta performance.

O que eles não têm é a questão de volume. Então agora com esse negócio junto com a Serra Verde, eles acabam tendo a cadeia mais verticalizada, ou seja, eles vão começar a contar com a extração do minério bruto no Brasil e seu beneficiamento sendo feito no Brasil, e aí eles têm capacidade de colocar isso dentro da sua cadeia produtiva para poder evoluir.

com mais refino e produção, e aí tirar o atraso em relação à China. E isso demora muito para eles tirarem esse atraso? Demora, porque, na verdade, a China está com uma capacidade produtiva muito mais instalada, e os Estados Unidos não tinham essa matéria-prima para poder ser eficiente nesse processo.

precisa avançar agora nesse modelo é o aumento de escala, ter uma logística eficiente e uma estabilidade regulatória entre os países, coisa que a China já consegue garantir porque tudo está na sua forma de gestão, tanto a parte regulatória quanto a cadeia no seu próprio território.

E aí a gente volta, então, para o Brasil. Estamos, portanto, sentados sobre um minério que é considerado crucial para dar conta da revolução tecnológica, para manutenção do desenvolvimento tecnológico, mas a gente não tem nada disso. A gente não tem uma capacidade de exploração em grande escala, a gente não tem condição de refino, a gente não tem muita coisa, a gente tem a matéria-prima.

O que precisa haver na nossa regulamentação para que a gente não seja apenas um fornecedor de matéria-prima? Acho que aí a gente tem algumas lições a aprender com o histórico da China. Nessa parceria de negócio que está acontecendo aqui entre a US Rare Earth e a Serra Verde,

Correndo da forma com que está planejado, esse conjunto vai, até 2027, ter a capacidade de produção de 50% das terras raras fora da China, sendo feito entre Brasil e Estados Unidos. Então, isso já coloca o Brasil numa outra circunstância de mercado geopolítico em relação a terras raras. E tem a outra vantagem também, que você tem um mercado comprador desse produto até 15 anos. Então, você já tem uma segurança de mercado.

para que o Brasil possa evoluir em outras frentes. Então, o que a gente pode aprender com a China? Então, tem toda uma questão que a gente tem uma certa limitação até pelo próprio modelo chinês. Então, o que a China fez? Ela transformou um modelo ambientalmente devastador, que era o que acontecia antes de 2015, para um modelo ambientalmente gerenciável.

Além da retirada da vegetação e da erosão do solo nas áreas de mina, também há risco com os produtos químicos usados na separação dos elementos. Se não forem manuseados corretamente, podem contaminar o solo e até se infiltrar em cursos d'água, afetando rios e comunidades do entorno. Em Baotu, cidade chinesa que explora esses elementos há décadas, moradores convivem com lagoas de rejeitos tóxicos e investigações apontam taxas mais altas de câncer, segundo uma reportagem do The Guard.

Então, por toda mudança que aconteceu na China, eles conseguiram sair de um processo onde o custo está agora visto como um passivo ecológico e social histórico que outros países não querem repetir. Então, acho que é essa lição que o Brasil tem aí a aprender, de fortalecer a sua estrutura. Claro que a gente não tem o mesmo mecanismo geopolítico e político-institucional que viabilizou na China, mas a gente tem algumas variáveis que a gente pode trabalhar.

Uma delas é a questão da consolidação desses ativos. Então, a China evoluiu porque antes dessa crítica de 2014, ela tinha uma permissão de que a exploração era feita de forma ilegal e de forma desordenada. Então, você poderia ter pequenas minas que forneciam para o Estado e o Estado consolidava e exportava. Essa crítica fez com que a China revise seu modelo de negócio.

concentrasse o seu processo de exploração de forma controlada pelo Estado nas diversas etapas. Então, todo o processo de mineração, separação, refino, inclusive pesquisa e comércio, é feita de forma consolidada pelo mercado chinês, matando a exploração ilegal dos minérios. E na questão de regulamentação, que aí é um pouco do cuidado que a gente tem que tomar de tentar espelhar,

é justamente que as terras raras, então, assim como o Brasil, o minério é ativo do Estado, você tem a questão de que não pode contar com o Estado protecionista, mas você tem aí controles que podem ser implementados. Então, no caso da China, eles implementaram um sistema de rastreabilidade, então, hoje, vale para todo o processo da mineração, que nem eu comentei, mineração, separação, metalurgia, inclusive reciclagem e exportação.

E também aumentaram as exigências de conformidades com leis ambientais de segurança e de uso de energia. Então, são esses pontos que a gente tem que tomar com o Brasil. De não se espelhar num mercado que vai ser extrativista, mas sim um mercado que vai conseguir evoluir para um processo de regulamentação. E a regulamentação apoia o desenvolvimento industrial, mas que ela não seja uma ferramenta de bloqueio de evolução de mercado.

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Jonathan Colombo.

Pelo que você nos conta, tem algo que fica aqui ricocheteando na minha mente. Bom, se os Estados Unidos precisam dessa reserva, em outros assuntos de natureza geopolítica, eles vão ter que passar a respeitar mais o Brasil. Porque essa produção é uma produção muito importante para garantir espaço nessa nova fronteira tecnológica.

Mas o que na regulamentação brasileira, além das preocupações ambientais que você repisa bastante bem, a gente precisa ter no nosso debate de regulamentação?

Então tem um elemento que inclusive está no próprio acordo de negócio que foi firmado aqui, que é justamente você ter um pressupiso para esse minério para você não entrar num combate de menor preço de mercado, como a gente vê às vezes, inclusive, com influências negativas visto muito no petróleo, onde você derruba o preço do petróleo artificialmente. E aqui você tem justamente isso, que na minha visão, mais como pesquisador do que especialista de políticas públicas,

é pensando que você pode ter não só o Brasil entrando nesse mercado, mas também o Vietnã. Então a gente tem China concentrando 40%, Brasil entra com 20%. E se Vietnã entrar com 20%, começa a querer jogar esse preço lá para baixo. Então você vai ter que ter uma forma de que os atores não permitam, e a regulamentação não permita, essa guerra de preço predatória. Tem que buscar justamente esse...

oferta de produtos ao menor custo, mas limitado a um valor mínimo que não tenha ali um prejuízo grave na exploração de ambiente e sociedade para buscar ali uma oferta de menor custo. Então, acho que esse é um dos pilares que a gente tem que ter na regulamentação, que já existe nesse acordo de mercado, mas que a regulamentação tem que reforçar, que é o que a gente chama de race to the bottom, que é justamente a corrida para você não buscar a regulamentação mínima e os controles mínimos para garantir um preço baixo.

E aí eu imagino que o Vietnã tenha que fazer a mesma coisa, outros países com reservas tenham que fazer a mesma coisa. Tem que ser uma coordenação internacional. Isso, e aí inclusive você tem o que motivou essa mudança da China, que era o detentor de 90% da produção do produto finalizado, a interferência da OMC para garantir que isso não continuasse acontecendo.

No caso da China, funcionou. Você conseguiu implementar uma política que fosse mais eficiente, inclusive trouxe benefícios para a própria operação da China, mas não só pelo lado ambiental, mas econômico. Então, isso é importante, você ter as políticas individuais, mais atores globais que vão ali buscar de forma, não necessariamente equânime, mas equilibrada entre os diversos ofertantes dos produtos disponibilizados para o mercado como um todo.

Falando do ponto de vista ambiental, de que é preciso ter uma regulamentação que preserve o meio ambiente. A gente tem no Brasil um histórico de desastres horríveis, com barragens de rejeitos. Eu queria que você falasse desse tipo de desafio para nós e para outros países que vão entrar nessa coreografia junto com o Brasil.

Então acho que aí é justamente um dos motivos de que essa etapa do processo não foi explorado por outros países. Então se a gente pega a cadeia de exploração que começa lá na mineração, extração, aí depois passa pelo beneficiamento, isso é o que o Brasil vai tender a evoluir nesse caso aqui do negócio entre a Serra Verde e a empresa americana e o US Rare Earth. As outras etapas que continuam, que é aquilo que está centralizado hoje na China,

vai ser executada no ambiente americano, que é o refino, a purificação e a produção do imã. Então, se a gente olha pelo lado econômico, o valor agregado acaba acontecendo mais nessa segunda etapa. Mas o principal gargalo ambiental é justamente na etapa de refino, que é o que não se pretende trazer nesse acordo para o Brasil.

E é justamente onde você tem a maior exposição a ácidos fortes e solvente químicos no processo de refinamento, no gerenciamento de resíduos líquidos e sólidos tóxicos, acaba estando mais concentrado nessa etapa. Então isso não exime a preocupação do Brasil, até porque o nosso objetivo depois, progressivamente, é começar a trazer essa parte da cadeia internamente, mas a gente tem que trabalhar isso de forma progressiva para que essa etapa, quando ela chegue no Brasil, a gente não traga essa externalização dos dados.

para as populações mais vulneráveis, que é justamente, normalmente, quem está no entorno dessas regiões. Ou seja, é preciso bastante investimento em pesquisa para se encontrar formas de fazer esse refino, quando esse momento chegar no Brasil, com o menor impacto ambiental possível, com o menor risco possível.

não só para o meio ambiente, mas para a população local, para as comunidades locais, para que isso não se vire contra nós. É isso que você está dizendo? É isso mesmo. Na verdade, a gente tem que garantir que aquela extração que eu vou fazer não vai me deixar apenas com os desgastes ambientais e o processo de evolução também não vai gerar uma poluição crônica nas regiões industriais.

não vai gerar uma exposição dos trabalhadores às substâncias perigosas. Então, eu preciso ter essa garantia de que a produção final que eu estou buscando não vai deixar esse passivo para trás, seja ele ambiental ou social. Por isso que hoje você tem essa evolução de processo onde eu vou aumentar a minha relevância econômica no processo, mas eu também tenho que aumentar as minhas proteções ambientais para que eu não traga esse peso negativo no meu processo também. Se o Brasil fizer tudo certo...

em quanto tempo a gente também pode ter o nosso começo, meio e fim de maneira responsável? Por esse acordo comercial, a gente já tem um horizonte de 2027, de colocando o Brasil e os Estados Unidos nesse acordo como um dos principais produtores fora a China, é um processo que vai levar mais tempo. Então a gente demanda aí no mínimo...

nesse acordo aí, quatro, cinco anos para a gente começar numa operação mais aprofundada. Mas, de novo, não é uma coisa que a gente vai resolver no curto prazo. E como a gente viu, não é uma cadeia simples. Então, se a gente quiser fazer tudo, vai demorar bastante. Eu recomendaria, da nossa preocupação, não ser o máximo.

mas fazer progressivamente bem feito com evoluções de tecnologia, com evoluções regulatórias e proteções sociais ambientais nesse processo. Precisamos de diversos anos para que a gente consiga progressivamente ir aprendendo não a repetir os erros dos passados, mas construir os nossos elementos de camanhada com base nos sucessos positivos que vimos em outros mercados.

Primeira vez, a balança comercial de terras raras do Brasil está positiva. Ou seja, o país vendeu mais do que comprou. Apesar dos números positivos, a exploração ainda está muito longe da capacidade máxima.

Esse acordo dos Estados Unidos é com o governo de Goiás, não é com o Brasil. O Brasil ainda está estudando a melhor forma de fazer isso acontecer. Não tem um problema aí de ter sido um governo de Estado e não...

o governo brasileiro? Isso pode dar problema lá na frente? Pergunta um pouco fora da minha área de conforto aqui, mas sim, tem uma preocupação nesse processo justamente quando você define de quem é a responsabilidade em relação à gestão de minérios. Quando você tem a União como responsável pela gestão de minérios e isso interfere numa soberania nacional, você pode sim ter discussões de governança.

precisaríamos ver como esse acordo foi firmado, porque, com certeza, algumas travas e proteções foram feitas para garantir aí uma segurança no negócio. Mas tem sempre uma preocupação, onde você está falando de extração de áreas públicas ou pode ser, inclusive, definido como critérios de segurança nacional. Então, você pode ter alguns critérios, sim, poderiam impactar o negócio no longo prazo.

Quem não tiver terra rara no médio prazo, acontece o quê? Aquele que não tiver acesso à terra rara, ele vai estar fora de uma cadeia de fornecimento de materiais cada vez mais necessitado pela economia, que é para o desenvolvimento da transição energética, para o desenvolvimento de tecnologia, inteligência artificial. E vai estar apenas como consumidor daquilo que for produzido, então você não participa.

da cadeia de fornecimento, você participa só da cadeia de compra. E aí você está numa dos lados da balança apenas, do de comprador e não fazendo parte da formação de preço. Portanto, do lado mais fraco. Do lado normalmente mais fraco, sim. Você perde também a questão não só da questão econômica, mas desenvolvimento da indústria, capacidade de formação de pessoas para atuar numa tecnologia de ponta. Então, você acaba tendo uma menor aplicação desse mercado para você. Você acaba ficando mais no mercado de consumo.

de toda a tecnologia, seja para a produção do produto final ou para o desenvolvimento dessa tecnologia, e mais exposto para o que vai ser feito nos outros países. Professor, foi ótimo conversar contigo. Tomara que os governos, estes e os próximos, consigam aproveitar essa oportunidade com bastante responsabilidade do ponto de vista ambiental, sobretudo para que a gente não perca esse bonde.

Te agradeço muito, foi ótimo te ouvir. Muito obrigado a todos. Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Felipe Turione.

Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.