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A crise do modelo econômico e a inteligência artificial

22 de abril de 202635min
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Convidado: Eduardo Giannetti da Fonseca, economista, professor e escritor. Em março, o CEO da maior gestora de ativos do mundo, a BlackRock, enviou uma carta aos investidores com uma previsão: “o velho modelo do capitalismo está se fragmentando”. No comunicado, Larry Fink afirma que a riqueza está cada vez mais concentrada e aponta o risco de que a inteligência artificial amplie ainda mais a desigualdade. É uma ideia que está em linha com o relatório publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em dezembro de 2025: o texto indica que a IA deve gerar ganhos de produtividade de até 5% em alguns setores da economia nos próximos dois anos, mas alerta que a tecnologia pode impactar até 40% dos empregos no mundo e ampliar a desigualdade entre países e dentro das próprias sociedades. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Eduardo Giannetti da Fonseca para analisar o impacto dessa nova revolução tecnológica no modelo econômico e na ampliação da desigualdade. O economista explica o momento histórico que vivemos, que chama de “fim do ciclo da globalização”, e projeta mais pressões por políticas públicas.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
E

Eduardo Giannetti da Fonseca

ConvidadoEconomista
Assuntos5
  • Inteligência ArtificialAumento da produtividade · Desigualdade econômica · Efeitos colaterais da IA
  • Crise Econômica no IrãFim da hiperglobalização · Concentração de riqueza · Políticas públicas necessárias
  • Regulação de IAFalta de regulamentação global · Competição entre países
  • Desigualdade e tecnologiaVulnerabilidade de mulheres e jovens · Renda mínima garantida
  • Futuro do TrabalhoRequalificação profissional · Mudanças nas carreiras
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A gente liga 99,8% do Brasil. Liga histórias, liga momentos, liga vida. Distribuidoras de energia. A gente liga o Brasil. A inteligência artificial passou a fazer parte do dia a dia de quase todo mundo. E ela chegou prometendo mais produtividade, eficiência e até mesmo mais conforto. É uma tecnologia que avança em ritmo acelerado.

Ela registra tudo o que você vê, tudo o que você fala. A inteligência artificial saiu dos computadores e do celular para ser usada até em óculos. Já começou o futuro em que tudo o que a gente vive fica gravado. E todo esse conteúdo pode ajudar a deixar nossas vidas mais produtivas. A vida conectada está cada vez mais prática, mais complicada e definitivamente mais invasiva.

Só que tudo isso pode produzir efeitos colaterais. Um relatório da ONU publicado em dezembro do ano passado fez um alerta. Por um lado, a IA pode aumentar a produtividade de alguns setores em até 5% nos próximos dois anos.

Por outro, pode comprometer 40% dos empregos em todo o mundo. E a preocupação com os efeitos da tecnologia chegou até o mercado financeiro. Em março, o CEO da maior gestora de investimentos do planeta, a BlackRock, também fez um alerta.

Larry Fink, o nome dele, enviou uma carta aos investidores. Disse ele, a riqueza está cada vez mais concentrada e a inteligência artificial pode ser uma ameaça para ampliar esse padrão. E aí, nas palavras dele, o velho capitalismo está se fragmentando.

O secretário-geral da ONU citou a crise climática e o avanço ilimitado da inteligência artificial como as ameaças existenciais para a humanidade. O secretário-geral da ONU falou que, sem dúvida, a inteligência artificial é uma revolução tecnológica, mas sem fiscalização e colaboração internacional, ela pode prejudicar economias, mercados de trabalho e destruir a confiança de instituições.

O Guterres afirmou ainda que a inteligência artificial precisa servir à humanidade, e não o contrário, e pediu que seja criado um painel internacional independente para a elaboração de políticas para o uso da inteligência artificial. Para o Nobel em Economia, Philippe Aguillon, a atual revolução tecnológica é um misto de otimismo e cautela. Mas esse é um debate que não acontece isolado. A economia global já enfrenta vários desafios ao mesmo tempo.

É o caso da crise climática, do desgaste das democracias liberais. Nós estamos em um período histórico em que é justo perguntar. Esse modelo econômico, do jeito que está, dá conta do que vem pela frente? Da redação do G1, eu sou Natuza Neri e o assunto hoje é...

a crise do modelo econômico e a inteligência artificial. Neste episódio, eu converso com Eduardo Gianetti, economista, professor e escritor. Quarta-feira, 22 de abril.

Professor, ao longo dos últimos tempos, se tornou muito comum a gente se deparar com empresários ou banqueiros ou demais integrantes do sistema financeiro muito entusiasmados com o impacto da inteligência artificial no aumento da produtividade. Pois bem.

E a gente também veio observando pesquisas, academia, até mesmo o terceiro setor, dizendo, olha, sim, muito bom para o aumento da produtividade, ou pode ser muito bom para o aumento da produtividade, mas também tem efeitos colaterais que podem ser efeitos colaterais bastante sérios.

Eis que em março passado, um player muito importante do mundo financeiro, a maior gestora de ativos do planeta, a BlackRock, o CEO da BlackRock, o Larry Fink, ele enviou uma espécie de comunicado aos investidores. Ele diz o seguinte nesse comunicado, que o velho modelo do capitalismo global está se fragmentando e que o motor dessa fragmentação é justamente a inteligência artificial e que isso pode causar...

uma concentração ainda maior, mais acentuada de riqueza. Você concorda com essa avaliação? Então, eu iria por partes, Natuza. Uma coisa é o que já ocorreu até aqui, o passado recente. Outra coisa é o que virá. Eu acredito que o impacto da inteligência artificial, até o momento, não tem a magnitude que ele atribui. Mas nós estamos vivendo, sim, na minha avaliação,

um momento de transição para uma nova ordem econômica. Eu chamo esse momento de o fim da hiperglobalização. A hiperglobalização começa no início da década de 1980, quando os governos Thatcher e Reagan fizeram uma grande aposta na liberalização do comércio e das finanças. E, a partir daí, o mundo assistiu a um processo de integração e de aumento da interdependência comercial e financeira, sem precedentes na história econômica.

Em períodos de poucas décadas, a China, a Índia e outros países asiáticos se integraram à economia mundial e centenas de milhões de trabalhadores asiáticos foram incorporados ao mercado global de trabalho e de consumo. Hoje, a China é responsável sozinha por cerca de um terço da produção industrial do mundo. E isso ocorreu num período de tempo curto.

Foi a hiperglobalização. Aumentou muito a proporção do comércio internacional em relação ao PIB, aumentou muito o fluxo de capitais financeiros entre países e houve um processo realmente pronunciado de financeirização da economia. Primeiro a crise de 2008 e 2009, a crise financeira.

que indicou ou sugeriu um limite para essa financiarização. Houve um colapso do valor dos ativos do setor privado e, para impedir que isso virasse uma crise sistêmica e uma depressão, os governos entraram em campo comprando papéis do setor privado e entregando papéis de dívida pública. De certa maneira, eles jogaram essa correção para o futuro, transformando...

esses ativos em promessa de pagamento futuro. Mas mostrou que há um limite. Esse crescimento da riqueza financeira em relação à economia, em algum momento, ele esbarra no limite. O segundo momento do fim da hiperglobalização foi a Covid. O que se revelou ali foi uma imensa fragilidade do processo de hiperglobalização. Por quê? Porque há uma crescente dependência das cadeias globais de produção em relação a muito poucos fornecedores.

A gente teve aquela crise de suprimento, de equipamento muito básico, que não se tinha em lugar nenhum do mundo. De repente tudo sumiu ou cresceu muito de preço. Apareceu ali. 80% dos ingredientes farmacêuticos ativos no mundo são produzidos pela China e pela Índia. Depois descobriram que para centenas de produtos que são críticos nas cadeias globais de produção, você tem apenas dois ou três fornecedores no mundo.

Agora, terras raras. A hora que a China mostrou essa carta, os Estados Unidos recuou, porque toda a produção de terras raras, que é fundamental para as novas tecnologias, está concentrada lá. Se você pegar chips avançados, 90% vem de Taiwan. A lógica estrita da eficiência econômica peca por não levar em conta problemas de segurança. Há uma busca por diversificação e por segurança no provimento, no fornecimento.

dos itens que são muito cruciais para as cadeias globais de produção. E, por fim, nós tivemos o capítulo Trump, que está em andamento. Ele bagunçou a ordem econômica mundial, tanto do lado comercial como também do lado financeiro, até da política monetária americana, de uma maneira que cria muita instabilidade e incerteza em relação às regras do jogo econômico.

E leva a repensar toda a maneira de se fazer comércio, de se fazer finanças e de ter aliados, etc. Ele declarou uma guerra comercial unilateral ao mundo, fazendo ressuscitar políticas protecionistas como há muito tempo não se via.

As tarifas anunciadas pelo presidente Donald Trump atingem todos os países com os quais os Estados Unidos têm relações comerciais. Trump disse que 2 de abril foi um dos dias mais importantes na história americana e afirmou, é a nossa declaração de independência econômica.

Então, eu acho que tudo isso encerra um longo ciclo da economia mundial, que é o ciclo da hiperglobalização. A inteligência artificial, a evolução tecnológica em andamento, é parte desse processo, mas eu acho que o que ela traz de potencial de mudança não se materializou ainda de fato, inclusive nos indicadores de produtividade. É muito pouco ainda a evidência de que o uso da inteligência artificial tenha ou esteja levando a um aumento expressivo.

de produtividade. Nessa carta eu vejo mais uma perspectiva do que pode vir pela frente, e aí a questão da desigualdade a gente pode voltar a abordar, do que algo referido ao que efetivamente se passou nesse período que eu estou chamando o fim da hiperglobalização.

Quando você se deparou com esse texto do CEO da BlackRock, o que você pensou? Porque eu já vi esse tipo de avaliação de novo, entre estudiosos de universidades, pesquisadores, mas quando ele veio de um figurão do sistema financeiro, a coisa me pegou pelo pé. E para você?

Eu tenho uma certa sensação de déjà vu, porque momentos de muita instabilidade tecnológica, nós vivemos isso com a tecnologia da informação, com a entrada dos computadores, com aquele sequenciamento do genoma, momentos de muita incerteza, eles levam a um aumento da dispersão das expectativas.

Você tem quase uma polarização entre os tecno-eufóricos e os tecno-catastrofistas. A imaginação fica muito volátil. E o que a experiência tem mostrado é que, no fim das contas, não é nem tanto para um lado nem tanto para o outro. A humanidade testa limites, mas ela também vai se adaptando e vai encontrando outras maneiras de enfrentar.

situações que se impõem. A vantagem de ter uma certa idade é que a gente já não se assusta e não se assombra com tanta facilidade. Eu acho que é um pouco de exagero, de um modo geral, quando as pessoas tentam preencher o vácuo do futuro projetando uma coisa ou muito espetacular, muito promissora, ou então vendo a extinção.

O fim dos tempos, uma calamidade sem fim. Não vai ser nenhuma coisa nem outra. A questão da mudança climática, para mim, é muito, muito mais séria para a humanidade hoje do que o impacto dessas novas tecnologias.

As revoluções industriais anteriores, elas aumentaram o lucro. Nessa, a revolução industrial capitaneada pela IA, ela reduziria os custos por aumentar a produtividade. A partir daí, eu queria entrar no elemento desigualdade, então, contigo. Onde é que está o motor do aumento da desigualdade na era da inteligência artificial?

A questão é a seguinte, se aumenta a produtividade, isso por enquanto é uma promessa, isso vai gerar um excedente econômico. Você vai ter, depois de pagar os custos de produção, um volume muito grande de recursos. A questão é como será repartido esse excedente. É de se prever que no movimento da inteligência artificial, esse excedente seja capturado por muito poucos atores.

que são os proprietários e acionistas das empresas de inteligência artificial e são aqueles profissionais que detêm habilidades que vão ficar muito valorizadas, até mesmo para supervisionar e para fazer funcionar os programas muito complexos que são calcados e baseados em inteligência artificial.

Os perdedores serão aqueles que verão suas profissões e suas áreas de atividade serem progressivamente substituídas por máquinas inteligentes, que é, no fundo, a grande massa dos profissionais liberais e dos trabalhadores. O processo se acelera?

à medida que avanço digital cria máquinas cada vez mais capazes de realizar tarefas antes restritas a seres humanos. As máquinas do século XXI começam a realizar as tarefas sozinhas, com mais rapidez e eficiência do que seres humanos são capazes, sem precisar de férias, folgas, intervalo para almoço.

Ou faltar ao trabalho porque o filho adoeceu? Tudo isso num contexto em que a riqueza já é extremamente concentrada. Tem um dado da economia americana que eu acho muito expressivo. Os 400 americanos mais ricos detêm um patrimônio líquido.

superior a toda a riqueza detida por 150 milhões de americanos, que estão entre os 60% mais pobres da população. Você tem 400 indivíduos, pessoas físicas, com patrimônio líquido, superior a 150 milhões de americanos. Então já parte de um patamar de desigualdade que, com aquela questão da financiarização, se agravou muito, porque esse crescimento da riqueza financeira é controlado e é propriedade de um grupo muito restrito.

de pessoas que detêm o capital. A revista americana Time escolheu como personalidade do ano os empresários responsáveis por desenvolver a inteligência artificial. Dois são chefes de empresas que fabricam os chips. Um de uma empresa que pega esses chips e constrói os data centers para processar os dados. E esses três desenvolvem os programas que as pessoas e as empresas usam.

Comandam a OpenAI, a Anthropic e a Meta são as mais ricas do mundo, enquanto prevêm que a inteligência artificial vai acabar com a maior parte dos empregos.

Esse quadro pode, sim, se agravar bastante com essas características da inteligência artificial que vão ter um impacto sísmico em muitas e muitas profissões que hoje estão estabelecidas no mercado. Quando a gente pensa do ponto de vista de país, então a conclusão mais básica é...

Os ricos ou os grupos, ou a elite, ou os países mais ricos vão ficar mais ricos, os países mais pobres vão ficar mais pobres, ou a sociedade vai ficar mais distante de um cenário de melhor distribuição das suas riquezas.

Por outro lado, vai haver uma pressão política muito forte por políticas de redistribuição. Se a produtividade aumentar, como veem muitos analistas imaginando, outros são mais céticos, há muita controvérsia, mas se ela aumentar na proporção em que os mais otimistas estão imaginando, vai ser perfeitamente execuível você ter um mundo em que há uma renda mínima garantida para todo cidadão, independente dele trabalhar ou não.

Mas com quem pagando isso? Porque veja, se eu tenho uma empresa que demite 60% dos seus funcionários, porque a IA proporcionou a essa empresa que ela faça o mesmo trabalho com menos gente e com mais tecnologia, a gente está falando de muito menos gente pagando imposto. Se muito menos gente paga imposto, o Estado arrecada menos. Se o Estado arrecada menos, ele fica mais incapaz de garantir uma renda mínima para todos os seus cidadãos.

Nesse novo momento, vai ser impositivo repensar o sistema tributário, adequando a nova realidade. E eu entendo que se a situação se agrava a partir de um certo ponto, vai gerar instabilidade política. Vai gerar uma situação muito frágil de sustentação da ordem social. A pressão política, se a desigualdade continuar no patamar em que está e se agravar ainda mais, a pressão virá.

por política de redistribuição. Essa ideia da renda mínima garantida é uma ideia que já vem sendo debatida há muito tempo e vou dizer mais, Natuza, grandes economistas neoliberais defendem a ideia da renda mínima garantida para todo cidadão, desde que haja riqueza produzida pela sociedade suficiente para tal política distributiva.

Eu entendo muito bem a sua ressalva, a gente está falando de uma expectativa de aumento de produtividade em escala global que ainda não se confirmou. Mas você fala com empresários absolutamente entusiasmados com o potencial impacto da IA nos próximos anos dentro das suas atividades.

A própria ONU, um relatório da ONU, já alertou sobre esse desafio do aumento da desigualdade. Mas a gente está falando de uma tecnologia para a qual não tem nem regulamentação. Como é que fica isso? Aí é o problema da competição.

As empresas competem furiosamente umas com as outras. Se uma empresa impõe limites porque acha perigoso, como aconteceu agora com a Antropic, não quis vender determinados modelos para o Ministério da Guerra americano. O governo americano baniu a Antropic e chamou outra. A OpenAI foi fazer. Então as empresas competem muito entre si. Fica muito difícil você...

controlar quando há uma competição tão acirrada e também uma competição entre países. Um país que regulamenta e que impõe limites nas suas fronteiras, digamos, os Estados Unidos ou a China, ele vai perder o pé na competição.

E os países estão competindo furiosamente para ver quem chega primeiro na tal inteligência artificial geral, que é um salto em que você entra num movimento de retroalimentação, em que o produto da inteligência artificial reentra na própria inteligência artificial para gerar novas informações que, por sua vez, alimentam o processo numa espiral.

que ninguém sabe até onde pode chegar. E o temor maior é que elas cheguem na chamada autonomia da inteligência artificial, ou seja, máquinas que passam a não mais obedecer os controles e as instruções que os seres humanos tentam impor a elas. Esse é um dos fantasmas que param nesse campo, o fantasma de uma autonomização da inteligência artificial e ela começa a decidir por conta própria. Esse, aliás, foi um dos pontos que...

A Antropic não queria vender para o governo americano porque você começa a ter armamentos que decidem por si mesmos se vão ser utilizados ou não, independente de uma ordem vinda de um ser humano. Eu não sei se eu corro agora ou deixo para correr daqui a pouquinho. A humanidade testa limites. Em toda revolução tecnológica houve um momento de pânico moral.

E depois a gente se acomodou, é isso? Depois se acomoda, se ajusta. Pode ser que, como todo raciocínio indutivo, o fato desse pânico moral não ter se confirmado depois não quer dizer que dessa vez será a mesma coisa. Pode ser que não seja. Agora, uma coisa certa, a humanidade testa limites.

Diante disso, como é que você resolve um desafio de organizar a divisão internacional do trabalho quando não se tem uma regulamentação global sobre essa tecnologia? Quando você tem um aumento do fosso entre ricos e pobres, o abacaxi vai ficar bem mais custoso de descascar.

Não existe essa autoridade mundial que estabeleça uma divisão internacional do trabalho. Cada país ou conjunto de países, na medida em que eles pertencem a blocos, vai tomar as medidas e as cautelas e os caminhos que julgar mais promissores para a prosperidade e para a segurança das suas sociedades.

Não há um organismo transnacional, nem para comércio existe, quanto mais para novas tecnologias. A Organização Mundial do Comércio está completamente esvaziada, a ONU nem se fala. Infelizmente, eu gostaria que existissem órgãos multilaterais que tratassem de questões que não são feitas a um ou outro país, mas que são da humanidade como um todo. Por exemplo, a mudança climática, mas não há. Então, é um território muito perigoso, em que há uma competição entre empresas e uma competição entre... E aí

potências para ver quem chega lá primeiro. Porque, aparentemente, o prêmio e a vantagem para quem chegar lá primeiro alcançar essa inteligência artificial geral é uma coisa muito, muito séria. Está claro que nós estamos numa espécie de nova Guerra Fria. Lembra quando os Estados Unidos e a então União Soviética disputavam a liderança nas armas nucleares? Agora são os Estados Unidos de novo, só que contra a China.

Em vez das bombas atômicas, o que está em disputa agora é a primazia na inteligência artificial. É uma questão de soberania a inteligência artificial hoje. Por quê? Porque existe um paradigma que eles estão falando muito lá no Vale do Silício, que é quem atingir a inteligência artificial geral primeiro vai chegar num estágio que é muito difícil de ser alcançado. Por isso que eles estão investindo tanto em chegar num nível de tecnologia que talvez o adversário, o outro país, ou seja, o outro país.

no caso a China, não chegue. Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com o Eduardo Janetti.

Tem um outro ponto desse relatório da ONU que eu citei, é um relatório do programa da ONU para o desenvolvimento, em que ele diz que mulheres e jovens seriam mais suscetíveis ou mais vulneráveis aos efeitos colaterais da IA, porque os seus empregos seriam mais facilmente automatizados. Explica essa ideia para a gente, por favor.

Os jovens têm todo um processo de aprendizado e de aquisição de conhecimentos, de learning by doing, que vai ficar muito prejudicado, porque eles vão pegar um mundo em que as atividades que eles fariam já estarão sendo feitas por inteligência artificial. Eles não vão ter muita porta de entrada no mundo do trabalho.

E as mulheres se prejudicam na medida em que, por razões históricas e seculares, o nível de qualificação das mulheres ainda, na média, de um modo geral, é menor do que o dos homens que dominaram e até hoje dominam o mundo do trabalho. Então, as atividades que são substituíveis, que são passíveis de troca por inteligência artificial, são aquelas que vão desaparecer.

A gente está ensinando máquinas a falarem como a gente fala. O próximo passo é elas, a partir desse entendimento do que a gente quer, elas executarem todas essas ações. Vai ser marcado muito pelo que estão chamando de orquestração de agentes. E se fosse para apostar numa profissão, eu diria que o orquestrador ali, o cara que vai começar a comandar esses vários agentes de IA, é a profissão para 2026.

E essas pessoas ou vão ter que se requalificar, mas é complicado, ou então vão passar a depender de algum tipo de transferência de renda que não passa pelo mercado e que vai ter que ser criado, porque ninguém vai ficar assistindo impunemente o crescimento em larga escala da pobreza numa sociedade que se tornou muito mais rica do que era anteriormente.

Olha, quando eu era adolescente, o comando que eu ouvia dos adultos para nós naquela faixa etária era estude, faça faculdade, aprenda a falar inglês e você vai ter uma vida adulta bem sucedida. O que se diz hoje para o jovem de 16, 17, 18 anos nesse cenário aí que você está descrevendo?

Tudo que você ouviu continua valendo, porém, um adendo. Prepare-se porque o mundo hoje é muito mais mutável do que era na nossa geração. Prepare-se para se repensar, continue estudando sempre, aberto, observando muito atentamente.

o que é demandado, o que não é demandado, eu acho que requer muito mais abertura e muito mais disposição de, tempos em tempos, requalificar, repensar, olhar de novo. A ideia de uma carreira ao longo de um ciclo de vida eu acho que fica cada vez mais improvável.

A gente está falando de um mundo, tentando sondar um mundo que está chegando, mas ainda não se apresentou com carteira de identidade, né? A gente ainda não sabe exatamente o que ele vai ser. Mas a gente está diante de um desafio que é muito grave, que é o desafio das mudanças climáticas. Poxa, juntar uma coisa com a outra, eu sei que você não gosta dos extremos, os catastrofistas e os excessivamente entusiasmados.

Mas eu aqui como jornalista fico com um medão, porque são dois super problemas para a gente enfrentar. Sem dúvida nenhuma. Eu não tenho a menor dúvida de que a ciência e a tecnologia são imprescindíveis no enfrentamento da mudança climática em curso. O que eu me pergunto é se nós podemos contar só com isso para enfrentar.

E eu acredito que não. Eu acho que nós estamos diante de uma situação tão incongruente entre as aspirações humanas e limites impostos pelo mundo natural, que por mais otimista que possamos ser em relação ao avanço tecnológico, é difícil imaginar que ele dê conta do recado.

O bilhão de habitantes que está no topo da pirâmide de consumo responde por metade das emissões globais de CO2. Metade. Os 3,5 bilhões que estão na classe média da pirâmide de consumo no mundo respondem por 45% das emissões globais.

E os 3,5 bilhões que estão na base da pirâmide, metade dos quais sem acesso à eletricidade, respondem por apenas 5% das emissões. É evidente e perfeitamente legítimo que quem está nessa base da pirâmide, os 3,5 bilhões que respondem por 5% das emissões, desejem ardentemente...

subir para a classe média. E é bastante notório que quem está na classe média também está lutando para conseguir ascender ao topo da pirâmide de consumo, com um bilhão que responde por metade das emissões. Essa conta não fecha e vai ter que mudar muito na estrutura de incentivos do sistema de preços para que a economia de mercado passe a dar o devido peso aos impactos ambientais das nossas escolhas.

como consumidores e produtores. E isso vai passar por uma reforma, acredito, muito profunda do modus operandi do sistema econômico e da economia de mercado. Porque a economia de mercado, um dos modos em que ela se configurou, ela é completamente omissa no tocante ao impacto que as nossas ações, tanto na produção como no consumo, têm sobre o meio ambiente, é o impacto cumulativo. Mas esse caminho está com o horizonte agora muito, muito fechado.

Agora, existe alguma forma de o mundo usar AIA para reduzir a desigualdade? Tem algum caminho que não seja um caminho fatalista para uso massivo da inteligência artificial?

Quais são as áreas mais promissoras hoje que a gente acompanha no uso da inteligência artificial? É no desenvolvimento de remédios, de novas linhas de fármacos. É no próprio processo de produção de conhecimento científico. A IATA produzindo artigos científicos e resultados científicos.

que estão além da capacidade do cérebro humano ou de grupos de laboratório fazerem. É lógico que isso depende de gente que faz as perguntas certas e que depois avalia os resultados, mas nada disso tem um impacto muito direto no que você está perguntando.

Depende, se você tiver resultados de inovação científica e tecnológica que melhorem muito a eficiência no uso da energia e que permitam a produção da energia demandada de um modo menos oneroso ambientalmente, tudo isso contribui para resolver os problemas.

Mas usar a inteligência artificial para a corrida armamentista, como também já está sendo usado, e hoje boa parte da guerra é conduzida, tendo a inteligência artificial como um dos insumos no processo, isso aí só destrói riqueza e só agrava as nossas dificuldades. Mostramos drones inteligentes preparados para a guerra na Ucrânia. Fomos atacados, entre aspas, por robôs autônomos. Então os robôs vão me vendo e vão desviando de mim. Vimos máquinas que aprendem sozinhas.

Mudo o lugar onde é para ele pegar a bandejinha e ele vai lá e busca. E robôs operários cada vez mais humanos. E nesse novo capitalismo, não sei se você tem um nome melhor para ele, que tipo de país emergente pode se beneficiar ou pelo menos contornar essa concentração de riqueza nas mãos de China, por exemplo, que você já citou, até mesmo nas mãos dos Estados Unidos?

Eu sou um estudioso de história do pensamento econômico. Eu, há muitos anos, parei de usar a palavra capitalismo. Eu não uso. Pode pegar os meus escritos, as minhas entrevistas, eu evito essa palavra. Por quê? Eu não sei o que se passa na cabeça de alguém quando ouve o termo capitalismo. Não sei se é o capitalismo do Weber, se é o capitalismo do Marx, se é o capitalismo do Hayek, se é o capitalismo do Zizek. É muito difícil usar uma palavra que supostamente designa o sistema econômico Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Guar Gu

desde o século XVI até hoje, e que ninguém sabe definir muito bem. Virou quase um teste roxá conceitual. Cada um preenche o termo com a fantasia que lhe apraz. Quando uma pessoa fala em economia de mercado, eu entendo perfeitamente o que está falando. Quando uma pessoa fala em economia mista,

na qual existe uma participação intensa do Estado como proprietário de ativos, como condutor e orientador da atividade econômica, é uma economia em parte mercado, em parte estatal, entendo perfeitamente. Agora, usar a mesma palavra para descrever o sistema econômico desde o século XVI para cá, eu acho que realmente esse termo caducou. O capitalismo terminou, não porque ele terminou no mundo real, mas porque ele caducou como conceito. Eu evito isso.

Deixa eu pegar a segunda parte da sua pergunta. Eu acho que o Brasil pode se beneficiar desse novo momento da economia mundial. Os ventos que estão soprando com o fim da hiperglobalização podem nos favorecer bastante no sentido de...

permitia a retomada de um dinamismo que nós perdemos. O Brasil é um país que foi muito bem no período das economias fechadas e das economias controladas, em que não havia grandes movimentos de capital financeiro, o comércio era muito protegido, os países em desenvolvimento faziam a substituição de importações. Esse é o período que vai, a grosso modo, da década de 1950 até a década de 1980. O Brasil foi um dos países mais dinâmicos do mundo nesse momento.

Quando começa a hiperglobalização, o Brasil perde totalmente o pé. Nós não nos integramos às cadeias globais de produção, como, por exemplo, a Coreia do Sul integrou, a China integrou, a ponto de ser hoje responsável por um terço da produção industrial no mundo. E o Brasil ficou dobrando a aposta na substituição de importações.

Isso veio no governo Geisel e depois acompanhou, de um modo geral, esse período da redemocratização. Não houve um movimento brasileiro mais contundente, mais corajoso de participar no processo da hiperglobalização. Tanto que nós encolhemos.

As exportações brasileiras hoje, apesar de todo o sucesso do agronegócio, mal chegam a 1% das exportações mundiais. O nosso PIB é 3% do PIB mundial, mas nossas exportações são 1% das exportações mundiais. Pois bem, agora que termina a hiperglobalização, agora que o mundo procura parceiros confiáveis, regiões geopoliticamente menos ameaçadoras, países com excelente dotação de recursos naturais,

produção de alimento, energia limpa, minerais críticos, terras raras, habilidades ambientais. O Brasil tem tudo para se repensar e se reposicionar nessa nova configuração que começa a se desenhar. E nós podemos usar a nosso favor a rivalidade entre as grandes potências do mundo. O fato de Estados Unidos, China e União Europeia estarem olhando para nós e nós podemos usar a nossa nova configuração.

cobiçosos daquilo que nós temos e que eles precisarão, nos permite negociar muito melhor, obtendo de cada um deles o máximo que puder oferecer para poder se tornar parceiro econômico. Podem nos oferecer tecnologia, podem nos oferecer capital. Vamos industrializar as nossas vantagens comparativas. Nós temos minerais críticos que o mundo vai demandar cada vez mais e essas novas tecnologias são muito vorazes nisso que nós temos.

vamos processá-las e agregar valor a elas aqui dentro, com tecnologia, com trabalho qualificado e com parceiros de longo prazo. Nós temos tudo para participar desse novo momento, recuperando o dinamismo que nós perdemos durante esse longo ciclo de hiperglobalização que agora termina.

Pois é, não dá para entregar a matéria-prima, né? A gente tem que aprender a extraí-la. Exatamente. E você pega outras coisas, como turismo também. Para países como Espanha, como Portugal, a própria Itália e a Grécia, o turismo foi a grande virada. Eles obtiveram e obtêm ainda uma receita extraordinária por conta de pessoas e famílias...

de sociedades muito ricas que poupam o ano inteiro para ir gastar nas férias nesses países. O Brasil mal entrou ainda nesse jogo para valer de ser um player de turismo, como é hoje, por exemplo, na oferta alimentar. Oferta alimentar é outro campo extremamente promissor, porque a primeira coisa que as pessoas fazem quando melhoram de vida é comer melhor. Essa classe média emergente que está vindo com muita força na Ásia

Quer comer proteína, quer alimentos de melhor qualidade? Não há outro país no mundo mais bem capacitado e dotado para atender essa demanda do que o Brasil. Agora, para isso, nós precisamos de infraestrutura, precisamos de cuidado ambiental, precisamos de um ambiente de negócios minimamente ordenado e estável e temos que construir essas condições.

Janete, foi um prazer, como sempre, te ouvir. Obrigada por ter topado, ceder um pouquinho do seu tempo para essa sondagem do nosso futuro. Você é pródigo nisso. Obrigada. Obrigado, Natu. Seu tema é vasto. Espero que contribua para o debate, tá bom? Sem dúvida nenhuma. Obrigada. Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida.

Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Nayara Felizardo. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.

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