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Inadimplência recorde e a operação resgate do governo

16 de abril de 202622min
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Convidado: Daniel Sousa, comentarista da GloboNews, criador do podcast Petit Journal e professor de economia do Ibmec. De acordo com o Mapa da Inadimplência, o número de brasileiros que não consegue pagar suas dívidas disparou nos últimos dez anos: hoje, mais da metade dos adultos está com o CPF negativado. A dificuldade para sanar as contas contamina a percepção sobre a economia e sobre o governo. Com uma eleição no horizonte, o Palácio do Planalto decidiu agir e prevê um pacote de medidas emergenciais para enfrentar a inadimplência generalizada, incluindo uma nova edição do programa Desenrola, para renegociar dívidas, a liberação de recursos do FGTS e a antecipação do 13º do INSS para injetar R$ 78 bilhões no mercado até maio. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Daniel Sousa para analisar as causas da inadimplência recorde no país. Daniel também explica por que o Brasil tem juros tão altos e alerta para o risco de uma crise sistêmica de endividamentos.
Participantes neste episódio2
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Natuza Nery

HostJornalista
D

Daniel Sousa

ConvidadoJornalista
Assuntos2
  • Inadimplência BrasilCausas da inadimplência · Impacto da taxa de juros · Programas de renegociação de dívidas · Educação financeira · Crise de endividamento
  • Crise Fiscal BrasilFatores que influenciam a Selic · Concentração bancária · Déficit do governo · Crédito direcionado · Histórico de calotes
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Um silêncio preenche a casa de muitos brasileiros e brasileiras quando chega a hora de encarar os boletos. E tem sido cada vez mais difícil fechar as contas.

Então a gente tem que fazer das tribo-conexões, ainda mais para quem não está trabalhando. É 280 que eu pago por mês. E eu já estou com aquilo na cabeça. Meu Deus, como é que eu vou fazer? De acordo com o mapa da inadimplência, o número de pessoas que não conseguem pagar todas as suas dívidas disparou de 59 milhões para quase 82 milhões em 10 anos. Ou seja...

Quase a metade do país está com o CPF negativado. Está bem complicado, porque os juros são altos e, no caso, a gente tem que se virar nos 30 para poder quitar a dívida. Os números gerais impressionam. A gente vive hoje um recorde de inadimplência em dois índices que são fundamentais para a economia.

na capacidade de famílias pagarem as suas contas e no crédito bancário. E aqui é importante fazer uma explicação. O endividamento é natural. Qualquer pessoa que faz um empréstimo ou um financiamento está em dívida. Mas isso é um mecanismo saudável da economia. O problema é quando essa dívida deixa de ser paga. Porque você, às vezes, não controla ali naquele gastozinho que acha que não tem que pagar, né? Naquele momento, você empolga numa compra.

E aí, com isso, você gasta mais do que necessário. E quando a fatura vem, aí é o problema.

E quando a gente não consegue honrar nossos pagamentos, a insatisfação cresce e contamina as percepções sobre a economia e sobre o governo. O Palácio do Planalto percebeu a ciranda e começou a agir. As pessoas estão participando da negociação dessa nova, novo mecanismo de solução do problema de ajuda dos endividados. Está todo mundo reunido na mesa, Ministério da Fazenda, Banco Central.

e todas as associações que representam o mercado financeiro, bancos, fintechs e cartões de crédito. Nos próximos dias, espera-se um novo programa de renegociação com foco nas famílias de baixa renda. A ideia é unificar dívidas num único boleto, com juros menores e descontos que podem chegar a 80%.

O governo também estuda liberar recursos do FGTS e já antecipou o 13º do INSS para injetar cerca de R$ 78 bilhões na economia até o mês de maio. Tudo visando melhorar essa sensação de sufoco. Nos últimos 12 meses, a economia do Brasil, para 50%, metade dos entrevistados piorou. E esse número era dois pontos percentuais menor na pesquisa anterior.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a inadimplência recorde e a operação resgate do governo. Neste episódio, eu converso com Daniel Souza, comentarista da Globo News, criador do podcast Petit Jornal e professor de economia do IBMEC. Quinta-feira, 16 de abril.

Daniel, quero te pedir para nos explicar como é que mesmo com um desemprego numa baixa bastante significativa e com uma renda maior, tem tanta família sentindo o orçamento apertado. O que está acontecendo?

Natuza, na prática o que está acontecendo é o seguinte, a gente está falando de famílias que se endividam para realizar sonhos ou então para consumir, só que incide sobre esse endividamento uma taxa de juros muito alta, consequentemente a renda acaba não acompanhando o aumento da...

dívida e, consequentemente, com o passar do tempo, essa dívida vai asfixiando a capacidade de consumo dessa família e vai trazendo ali um grande desconforto. Afinal, você ter uma dívida grande, você ter problemas para honrar os seus compromissos é algo que tira o sono de qualquer um.

A gente está falando de um Brasil que ainda tem uma renda média relativamente baixa em padrões internacionais, uma população que depende realmente do crédito muitas vezes para alcançar determinados objetivos. Agora, com uma taxa de juros do tamanho que nós temos no Brasil, é muito difícil que essa família consiga dar conta de uma dívida sobre a qual incide esse juros tão elevado.

Então, pelo que eu entendo, é como se a gente tivesse uma cesta com várias bolinhas dentro. Então, você tem a bolinha da dívida, que é daquela família que ou está financiando um imóvel e realizou o sonho da casa própria, mas você também tem a bolinha da família que não...

está conseguindo honrar os seus compromissos e aí ela pega dinheiro no banco para pagar despesa mensal, despesa corrente. A gente está falando de gente que já tinha uma dívida do rotativo do cartão de crédito e pegou um empréstimo para cobrir essa dívida e diminuir os seus juros. Mas, no geral, a gente está falando de dívida, qualquer que seja a bolinha ou qualquer que seja o perfil, que fica mais cara em razão dos juros altos.

Exatamente isso, Natuzi. É claro que existem dívidas e dívidas. Existe aquela dívida onde você está aumentando o seu patrimônio, mas mesmo essa dívida, embora seja um juro relativamente baixo para o padrão brasileiro, é um juro alto para o padrão internacional. Crédito consignado, que também tem uma taxa de juros relativamente baixa, porque você tem uma garantia maior de que aquela pessoa vai pagar, porque tem um desconto em folha.

E você tem aquele crédito, que é o crédito pessoal, ou então o cheque especial, o cartão de crédito, que acabam tendo taxas de juros absolutamente exorbitantes. E muitas vezes o que acaba acontecendo é que o consumidor também pega um empréstimo para pagar um outro empréstimo.

Isso pode até fazer sentido se o novo empréstimo tiver uma taxa de juros um pouco mais alta. Mas sim, quando a gente fala realmente desse endividamento no Brasil, a gente está falando de diferentes tipos de endividamento, diferentes níveis de taxa de juros, mas independentemente do tipo de crédito que você está captando, o Brasil pratica juros mais altos. Juro é aluguel do dinheiro. Da mesma maneira que você pode alugar um apartamento, você pode alugar dinheiro.

Aos poucos você vai fatiando o empréstimo e vai devolvendo, é a devolução do principal, mas incide sobre a quantidade de dinheiro que continua alugada nas suas mãos uma taxa de juros. E no Brasil essa taxa de juros é bem alta. E há aqueles casos em que o crédito funciona como uma espécie de complemento de renda, o que é algo muito danoso. Como é que é essa situação? Explica para a gente, por favor.

Existem dois casos. Existe aquele caso de um certo desconhecimento em termos de aspectos financeiros, de educação financeira, e existem aquelas pessoas que acabam captando recursos para tentar fechar as contas, porque a vida está apertada, porque os combustíveis subiram, porque os alimentos estão mais caros. Existe um fenômeno de inflação ao redor do mundo, não é só o Brasil que está experimentando esse fenômeno de drama da affordability, quer dizer, o poder de compra muito pressionado por um aspecto inflacionário.

A gente vai ter a primeira eleição no Brasil em que aquilo que os norte-americanos chamam de affordability, que é a capacidade de custear sua vida, será importante. Poder de compra, fatura do custo de vida. Exato, porque mesmo a renda tendo crescido, mas o custo de vida aumentou tanto quanto ou mais. E isso não produz sensação de bem-estar.

Mas a gente está falando de diferentes situações e claro que o fato dos brasileiros não terem uma cultura financeira, uma educação financeira muito sólida, também atrapalha, porque muitas vezes as pessoas não compreendem exatamente as armadilhas que estão em captações de recursos como essas. Esse é sempre um mantra que as pessoas precisam compreender. Quanto mais fácil for pegar o empréstimo, mais caro ele é e pior ele é.

O Felipe Nunes fez um episódio comigo aqui no assunto sobre o que está pensando esse eleitor que vai votar para presidente este ano e ele cita um outro exemplo, esse bastante draconiano também, que é pessoas viciadas em jogos que tomam crédito para pagar dívida de jogo. A gente não tem muita ideia do tamanho dessa encrenca.

Mas se isso já saiu em pesquisa qualitativa que o Felipe Nunes flagrou nos seus levantamentos, é porque está grande o problema. Nesse episódio do Felipe Nunes me chamou muito a atenção o fato dele dizer que os homens acabavam reconhecendo que pegavam dinheiro emprestado e que jogavam em grupos segmentados onde só havia homens na sala. Quando havia mulheres, eles acabavam se sentindo um pouco mais constrangidos. Primeiro, endividamento.

As pessoas estão tendo problemas gravíssimos com cheque especial, cartão de crédito, consignados. Isso está atrapalhando a vida delas. Dois, o patamar do preço. E o último e mais importante, a forma como os brasileiros estão jogando. Em salas de espelho, com homens e mulheres, você não escuta a palavra bet. Jogo. Quando você vai para a sala só com homens, aí eles revelam. Eles estão jogando escondido.

Ou seja, eles jogam individualmente nos seus celulares, perdem dinheiro, não assumem, estão dizendo nos grupos que estão ganhando, mas, na verdade, o dinheiro da família está sendo consumido quase que sem perceber por esse mecanismo individual do jogo. Esse é um elemento novo no Brasil. Isso não estava presente, essa facilidade de jogar através de plataformas digitais, de realizar apostas e, muitas vezes, pegar dinheiro emprestado para realizar essas apostas.

Muitas vezes as apostas são vendidas como forma de renda extra. É só a gente pensar o seguinte, em qualquer casa de apostas do mundo, em qualquer tipo de modalidade de apostas, mais pessoas perdem do que ganham. A chance de você sair perdendo dinheiro é maior do que você sair ganhando dinheiro. Se muita gente acaba pegando dinheiro emprestado para apostar, no final do dia, coletivamente, a sociedade brasileira tem mais pessoas encrencadas e endividadas. Porque o número de pessoas que vai ganhar...

é bem menor do que o número de pessoas que vai perder. Bom, agora eu quero olhar mais detidamente sobre essa taxa de juros alta no Brasil. Estou falando da Selic. A Selic está em dois dígitos desde a pandemia. Esse nível é um nível alto, mas não é exatamente inédito aqui no Brasil. Historicamente, por que juros tão altos? Existem fatores estruturais na TUSA para o Brasil ter taxas de juros elevadas, e mais especificamente a taxa Selic.

é a taxa Selic. Quanto mais baixo este índice, melhor para o consumo. Os juros financeiros ficam mais atrativos e as pessoas mais dispostas a comprar. Agora, se o fantasma da inflação representar uma ameaça, cabe ao comitê que define a taxa Selic a cada 45 dias elevar esse índice, como forma de frear o consumo. Ele aumenta juros no Brasil para desestimular o consumo. Com esse desestimulando o consumo...

os preços acabam se regulando normalmente, porque quanto menos pessoas comprando, menos os preços vão subir com relação à lei de oferta, demanda, etc. O primeiro aspecto é a falta de poupança. O Brasil tem níveis de poupança em proporção do PIB muito pequenos. Um outro aspecto é o déficit do governo. O governo brasileiro, e aí eu estou considerando o resultado nominal e não o primário, o resultado nominal, que é o resultado completo das contas públicas.

Ele está na casa de um déficit de 8% do PIB. Ou seja, o governo brasileiro acaba drenando uma parte da poupança brasileira, que já é pequena, para financiar o déficit dele e o governo. Então a poupança que já era pequena fica melhor ainda e se torna ainda mais cara. Tem outro problema que é a concentração bancária. O Brasil tem um mercado muito concentrado e isso acaba diminuindo a concorrência e abrindo espaço para que os bancos pratiquem juros mais altos.

Afinal, como a concorrência não é muito forte, você acaba tendo esse tipo de possibilidade. Um outro problema também é que no Brasil nós temos poucos mecanismos de proteção ao crédito. Ou seja, o Brasil historicamente não premia o bom pagador, ele premia o mal pagador.

Operações de crédito no Brasil acabam envolvendo riscos elevados. A chance de você não conseguir recuperar o dinheiro é grande e, consequentemente, isso vai para o preço. Isso vai para a taxa de juros que vai ser cobrada e, muitas vezes, o bom pagador acaba pagando pelo mal pagador. E tem um outro problema também. O Brasil tem uma grande quantidade de crédito direcionado. O Brasil é campeão mundial de crédito direcionado.

O crédito direcionado é aquele que é parcialmente ou completamente blindado dos efeitos da taxa Selic. Na prática, então, no caso do Brasil, apenas 60% do crédito no Brasil aproximadamente sofre os efeitos plenamente da taxa Selic. Ou seja, o Banco Central tem que aumentar a Selic com mais força porque ela só incide sobre 60% do crédito, e não sobre 90%, 95%, como acontece na maior parte dos países.

Na prática, se a Selic impactasse plenamente 90%, 95% do crédito no Brasil, a Selic não precisava ser tão alta. O Banco Central teria ali uma margem de manobra, uma capacidade de atuação através da Selic. Isso não é nenhum segredo, isso é um dado público divulgado pelo próprio Banco Central brasileiro que faz o monitoramento do volume de crédito direcionado no Brasil. Outro problema, o Brasil tem uma nota de crédito ruim.

O Brasil não tem mais grau de investimento desde o ano de 2015. Quer dizer, o Brasil tem uma nota especulativa. O governo brasileiro tem uma nota especulativa. Grau de investimento nada mais é do que um selo de bom pagador, né? Exatamente. Um selo de bom pagador que acaba sendo oferecido pelas agências de risco.

sendo de bom pagador não é uma coisa que a Suíça apenas tem. Se a gente pegar aqui a América Latina, o Chile tem grau de investimento, o México tem grau de investimento, o Peru, com toda a confusão política que vive, tem grau de investimento. O Brasil não consegue ter, porque o Brasil tem uma trajetória de crescimento do endividamento que é considerada perigosa, que é considerada insustentável. E isso acaba empurrando a taxa de juros para cima.

A gente está falando de um governo que para se financiar, para pegar dinheiro emprestado...

acaba tendo que pagar juros mais altos porque ele é mais arriscado. O Brasil também tem um histórico de calotes bastante numeroso, o governo brasileiro. E o que acaba acontecendo é que o restante da sociedade acaba sendo solidária nesse processo, porque qualquer empresa, qualquer consumidor que está dentro do Brasil, acaba carregando o risco Brasil, o risco de operar aqui no Brasil. Então, são múltiplos fatores que acabam empurrando a taxa de juros no Brasil para cima.

E esses fatores poderiam, idealmente, ser enfrentados através de políticas públicas, etc., mas dá trabalho e demandaria um certo tempo e reformas bastante estruturantes. Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Daniel Souza.

Porque um país que já sofreu o drama da hiperinflação, queria até que você desenhasse para a gente esse período, não é um país, do ponto de vista da educação, forte para ensinar desde criança educação financeira.

O Brasil viveu hiperinflação, nós tivemos aí inflação na casa de 2 mil por cento ao ano, num determinado momento, ali no início dos anos 90. O Brasil era um país tão maluco na época da hiperinflação que muitas empresas no Brasil viviam de inflação. Por exemplo, clientes varejistas e bancos. O que acabava acontecendo é que a varejista pegava, sei lá, um saco de batata, comprava por 100 cruzeiros.

vendia por 80 e no final do mês a varejista dava lucro. Porque na prática o que ela fazia era o seguinte, ela pegava o dinheiro dos caixas e acabava colocando no overnight. O dinheiro rendia em uma noite acima da inflação. Se você fizesse isso durante algumas semanas até o final do mês, quando você fosse pagar os seus fornecedores, os seus funcionários, etc., o que acabava acontecendo é que você ganhou dinheiro ao longo daquele mês não fazendo comércio, ganhou dinheiro em cima.

da inflação. Tanto isso é real que quando a inflação desapareceu no Brasil, teve muita varejista que desapareceu junto, porque ela não estava habituada a fazer comércio. O diretor daquela varejista mais importante, mais poderoso, era o diretor financeiro. Era o camarada que pegava o dinheiro, jogava no overnight e fazia com que a roda gerasse e a empresa fosse lucrativa. Alguns bancos também desapareceram dentro desse mesmo processo. Você teve bancos que não sabiam no Brasil.

dinheiro, porque viviam basicamente de inflação. Depois do fim da inflação, os bancos foram forçados a emprestar dinheiro, foram forçados a cobrar tarifas, como acontece na maior parte do mundo, para rentabilizar o seu negócio. E é interessante que hoje no Brasil a gente tem uma economia muito viciada em juros elevados.

em algum momento a gente vai ter que enfrentar esse problema. Da mesma maneira que o sistema financeiro no passado foi viciado em inflação e o sistema mercantil, também o comércio, foi viciado em inflação, agora ele é viciado em juros elevados.

Muitas vezes as pessoas compram lá, puxa, dez vezes sem juros. Gente, dez vezes sem juros não existe. O que está acontecendo ali é que o juro está embutido na parcela. Muitas vezes você pode me dizer, puxa, mas eu me ofereci para pagar a vista e a loja não quis me dar desconto. Claro, porque a loja não quer vender apenas o produto para você. Ela quer vender o produto, mas um financiamento. E, consequentemente, ela ganha duas vezes.

Ela não tem interesse em vender a vista para você com valor mais baixo porque a gente tem um sistema viciado em juros elevados.

Esse é um problemaço da economia brasileira. Em algum momento a gente vai ter que enfrentar isso, porque isso atrapalha o ambiente de negócios, atrapalha o investimento produtivo, a geração de emprego, o crescimento, arrebenta o orçamento das famílias. Existem elementos estruturais para esse juros ser elevado. Esses elementos precisam ser enfrentados e não será um processo simples. Acho que, em alguma medida, teria que ser um processo semelhante ao do plano real, um processo reformista amplo, onde você encarasse esse problema de frente.

O governo vem aí tentando mecanismos para aliviar o peso da dívida das famílias. Queria que você contasse para quem nos ouve o que o governo está planejando ou já está fazendo nesse sentido. O governo está pensando na prática em liberar recursos do FGTS, oferecer antecipações de 13º, ou mesmo oferecer garantias adicionais chanceladas pelo próprio governo para renegociação de dívidas.

Na prática, tudo isso é uma solução de curto prazo, é uma solução paliativa. Você não está resolvendo o problema de forma definitiva. Ajuda, claro, você acaba tendo ali uma diminuição sobre a pressão das famílias, mas me parece que o governo está muito pressionado pelo calendário eleitoral. Quando a gente olha para esse cenário, é um elemento tão preocupante que o governo já percebeu. Tanto percebeu que está atuando, está tentando de alguma forma.

de alguma maneira, criar medidas novas para aliviar mesmo que momentaneamente esse quadro de endividamento das famílias e de perda de capacidade de consumo, que faz com que os consumidores, que na prática são eleitores, tenham ali uma percepção de que a vida está pior do que estava antes. Aliás, as próprias pesquisas têm apontado isso, essa percepção de que as pessoas consideram...

que estão comprando menos, que estão com poder de compra pior, e essa perda de poder de compra e essa capacidade de endividamento que compromete o orçamento das famílias, tudo fica bem mais difícil. O Desenrola funcionou? O Desenrola foi um programa do governo de renegociação de dívida e o próprio Felipe Nunes da Quest trouxe uma aprovação de 46% dos brasileiros ao Desenrola. E se você acha que funcionou, por que ele continua? O Desenrola

O Desenrola, Natuza, ele funcionou no curto prazo. Na prática, você está falando de um programa de renegociação de dívida. A dívida não desaparece, ela é renegociada, você consegue condições ali um pouco melhores para o devedor. Mas o problema do ponto de vista estrutural permanece. A gente está falando de um Brasil que tem um crescimento muito dependente de consumo. O consumo no Brasil é mais de 60% do PIB. E isso acaba fazendo com que diferentes governos se sintam pressionados a estimular o consumo. Isso é necessário for...

Vamos dar crédito para as pessoas, para as pessoas consumirem e a economia acelerar. Então, você renegocia a dívida das pessoas em condições melhores, mas elas se endividam de novo e com juros elevados, o problema volta. Quer dizer, é como se a gente andasse um pouco em círculo. É um processo onde você consegue ter um alívio durante algum tempo. É claro que durante aquele momento você vai ter pessoas que, puxa, vão estar aliviadas. Tem valor, é legítimo que seja feita uma política pública dessa natureza.

Mas ela não vai resolver de maneira estruturante o problema do endividamento no Brasil. E me parece que nós não resolveremos isso enquanto a gente não fizer algo mais potente em termos de política pública, que enfrente estruturalmente o problema dos juros elevados. Qual é a bala de prata para reduzir de maneira estrutural o endividamento das famílias brasileiras?

Não tem bala de prata. Aí você está falando de um programa amplo para mexer justamente em todos aqueles pilares que eu mencionei. Você precisa melhorar os resultados fiscais, você precisa melhorar a trajetória de endividamento do setor público, você precisa criar mecanismos que premiem os bons pagadores e ofereçam mais garantias.

a quem empresta, que aquele dinheiro vai ser devolvido, que as garantias são sólidas o suficiente. Você precisa também aumentar a concorrência bancária no Brasil, fomentar realmente uma concorrência bancária verdadeiramente mais forte, com mecanismos que possam ali realmente facilitar o ambiente de negócios. Quer dizer, todo um processo que precisa ser observado, além da própria educação financeira.

Educação financeira que faz com que as pessoas sejam estimuladas a poupar, educação financeira que faz com que as pessoas sejam capazes de captar recursos quando esses recursos são necessários e captar o crédito que é mais adequado para a sua realidade e para a sua capacidade de pagamento. É um processo em que você tem que fazer reformas estruturais numa economia que está viciada em juros elevados, uma economia em que consumidores estão viciados em crédito caro e de baixa qualidade.

e governos que estão viciados em estimular o crédito caro para tentar gerar algum crescimento econômico e alguma popularidade. Meu amigo Daniel Souza, muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui do assunto. Obrigado, Natuza. Um abraço e até a próxima.

Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Janice Colasso. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.