A derrota de Orbán na Hungria: como fica a extrema direita global?
- Derrota de Viktor OrbánViktor Orbán · Peter Maggiar · extrema-direita global · União Europeia
- Consequências do Vácuo de PoderPeter Maggiar · extrema-direita · corrupção · democracia iliberal
- Confianca Institucional Democraciaunião das forças democráticas · autoritarismo
10 milhões de pessoas num território relativamente pequeno dentro da Europa. Em área, é um pouco menor do que Santa Catarina. A Hungria é um país que foi conquistar sua independência da União Soviética somente em 1989. E ali, na Europa Central, cercada pela Áustria, Sérvia, Romênia e Ucrânia, ela se tornou um farol que iluminou os movimentos da extrema-direita ao redor do mundo.
O responsável por isso atende pelo nome de Viktor Orbán. Foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez em 1998. No ano seguinte, a Hungria entraria para a OTAN. Não foi reeleito, mas voltou ao cargo em 2010, quando a Hungria chegou à beira de dar um calote em sua dívida.
Então ele rompeu com o seu passado liberal e passou a defender um poder centralizado, não mais inspirado nas democracias ocidentais. Orbán construiu um modelo de poder que reescreveu a Constituição, redesenhou o mapa eleitoral, controlou a mídia e criou leis anti-imigração, anti-diversidade e anti-ONGs.
um laboratório onde tudo era testado, ajustado e exportado como inspiração para líderes conservadores na Europa e também nas Américas. Orbán foi aliado tanto de Vladimir Putin na Rússia quanto de Donald Trump nos Estados Unidos. No último domingo, o poder que Orbán centralizou em torno de si foi colocado sob o teste das urnas. O primeiro-ministro chegou à eleição pressionado por uma crise que tem muitos fatores.
O principal deles é que a economia vai mal e o custo de vida para a população está subindo. Mas não só. Tem também os sucessivos escândalos de corrupção que envolvem oligarquias aliadas. E, por fim, o cansaço da população que vê poucas entregas depois de 16 anos de governo.
A oposição focou muito nessa questão de dizer que a concentração de poder político nas mãos de Viktor Orbán reduz a independência do judiciário e se afeta negativamente o ambiente de negócios e explica porque hoje a Hungria é um dos países que menos cresce na União Europeia, é um dos países mais pobres na União Europeia.
Donald Trump, aliado de Primeira Hora de Orbán, chegou a mandar ao vice-presidente americano J.D. Vance para fazer campanha em Budapeste. Não adiantou. O partido de centro-direita TISA venceu a eleição na Hungria. Deve comandar dois terços das cadeiras do parlamento. Peter Maguiar vai ser o novo primeiro-ministro. O comparecimento às urnas foi recorde. Quase 80% dos eleitores entregaram para a oposição uma super maioria de 137 cadeiras no parlamento.
Só para você ter uma ideia, dos 199 assentos, os governistas de Urbán ficaram com apenas 55. Quem assume agora é Peter Magier, ex-aliado de Urbán e defensor da integração da Hungria com a União Europeia. O novo primeiro-ministro acrescentou ainda que a Hungria vai ser uma forte aliada da OTAN, a Aliança Militar do Ocidente.
e da União Europeia. A presidente da Comissão do Bloco, Ursula von der Leyen, parabenizou o novo líder, assim como o francês Emmanuel Macron e o alemão Friedrich Merz.
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a derrota de Urbana Hungria e o futuro da extrema-direita global. Neste episódio, eu converso com Maurício Moura, fundador do Instituto de Pesquisa e Ideia, professor da Universidade George Washington e colunista do jornal O Globo. Também falo com Pedro Abramovay, mestre em Direito Constitucional, doutor em Ciência Política e vice-presidente de programas da Open Society. Terça-feira, 14 de abril.
Maurício, eu vou pedir para você nos explicar qual é a história por trás dessa eleição na Hungria e quem são esses personagens todos para a gente começar a nossa conversa. Tem uma história que é bastante simples, que até dialoga com as eleições do mundo inteiro, que o governo do Vitor Orbán, principalmente nos últimos quatro anos na TUSA, foi um governo...
amplamente mal avaliado. A gente tinha basicamente dois terços da população reprovando o governo dele. Reprovando por dois motivos bastante concretos. Um, a piora da economia, o empobrecimento da população húngara. E o segundo, a sensação a nível nacional, a Hungria não é um país muito grande, mas é um país bastante diferente de diversas regiões, de que o governo era basicamente um governo corrupto.
Agora, por trás da oposição, tem uma história super interessante, que é do Peter Maggiar, que é uma figura que não é uma figura de fora do sistema político húngaro. Os pais dele participaram diretamente do sistema político húngaro. Um era juiz, o outro chegou a ser presidente. E ele estava com o Orbán.
até 2024. Ele era do partido do Orbão até 2024. A esposa dele era ministra da Justiça e ela teve que, basicamente, acobertar um escândalo de pedofilia no governo Orbão e, depois disso, ela teve que, basicamente, passar pano na situação. Ele acabou saindo do governo, saindo do partido e criando o próprio movimento.
E aí, quando ele sai do partido, a mulher também deixa o cargo, certo? Deixa o cargo e depois, eventualmente, eles vão se separar. Durante dois anos, ele basicamente se dedicou a esse movimento, percorreu o país inteiro, teve um resultado excepcional nas eleições do parlamento europeu, e ele, que é uma figura conservadora, de centro-direita, acabou...
criando um movimento, que a gente pode chamar de Frente Ampla, que ele conseguiu unir tanto a centro-direita, a centro-esquerda, e vários partidos de esquerda, para que conseguissem se unir para vencer o governo Durban, que, como você sabe, já estava há 16 anos no poder. Então, essa combinação de uma frente ampla do lado da política com um sentimento de mudança do lado do eleitor é que permitiu o resultado com a vitória da oposição.
Maurício, o Vitor Orbán ficou 16 anos mandando na Hungria, testou os limites da democracia de diversas maneiras. Ele é o líder europeu com mais tempo no poder em um país da região. O que significa essa derrota?
Essa derrota é imensa, né, Natuza? Primeiro porque ele criou dentro do governo húngaro um sistema para que ele permanecesse no poder. Lembrando que a Hungria é voto distrital, Natuza, é um voto distrital misto. Então você vota pelo representante do teu distrito e também vota numa lista fechada do partido. Ele redistribuiu os distritos de forma a beneficiar o partido dele. Distritos com menos população, por exemplo, nas zonas rurais da Hungria, passaram a ter maior representação.
Ele povoou o sistema judiciário húngaro com aliados. Ele também, basicamente, garantiu que pessoas do entorno dele adquirissem meios de comunicação na Hungria para que as mensagens para o governo fossem as mensagens únicas no país. Então, ele testou todos esses limites. E, obviamente, ele bateu de frente com a União Europeia. Ele, basicamente, era quase que o embaixador da Rússia, dos interesses do Vladimir Putin na União Europeia. Então, ele testou. Foi no limite.
O Parlamento Europeu aprovou uma resolução em que afirma que a Hungria não pode mais ser considerada uma democracia. De acordo com o documento, o governo do nacionalista ultraconservador Victor Orbán tem adotado medidas que colocam em risco os direitos de imigrantes, de gays e mulheres. A resolução não tem valor prático, mas aumenta a pressão sobre a União Europeia para que corte uma parte considerável dos recursos concedidos ao país.
Ele mesmo auto-intitulava como parte de uma democracia iliberal. Então, ele testou todos os mecanismos institucionais, o que ele chamava de pesos e contrapesos, e por isso que essa vitória é mais maiúscula, porque foi uma vitória muito por causa do comparecimento dos eleitores, que bateu o recorde de 79,5%, muito porque abre o espaço para que a Hungria...
se reengaje com a União Europeia, se reengaje com os temas da União Europeia, eventualmente entre na União Europeia em 2030. E também o Viktor Orbán era basicamente a voz do Putin contra eventuais ajudas da União Europeia para o Velenci e para a Ucrânia. Viktor Orbán era ao mesmo tempo aliado de Donald Trump e um parceiro político conveniente de Vladimir Putin. Durante seu governo, a Hungria se opôs a políticas consideradas favoráveis à Ucrânia e comprou energia da Rússia.
Eu acho que esse também muda o eixo da Hungria nesse tema. Então, é bastante histórico, não só pela questão local, pela quebra de um sistema que flertava com o autoritarismo em todas as suas instâncias, como também para a própria integração da União Europeia e para a maneira que a União Europeia vai lidar com o conflito na Rússia.
Eu conheço pouca gente tão experiente em observação de eleições no mundo do que você, Maurício. O que isso significa a partir de agora? Porque se a Hungria foi um laboratório para a extrema-direita ao longo de 16 anos, que tipo de laboratório se transforma a Hungria depois da derrota do Viktor Orbán?
Do ponto de vista político-eleitoral, tem uma lição muito importante que a gente pode comparar com o caso de Portugal, com o caso da Alemanha, é que para vencer a extrema-direita, para vencer essa direita mais radical, movimentos político-eleitorais liderados pela centro-direita, junto com a centro-esquerda, ou seja, essa frente ampla que eu mencionei, são fundamentais.
Na Alemanha, a gente tem um governo de centro-direita que tem uma coalizão com a centro-esquerda. Em Portugal, a gente tem um governo de centro-direita que tem uma coalizão com a centro-esquerda. E na Hungria, a mesma coisa. Quando esses movimentos se juntam para isolar esses partidos mais extremistas da direita, o sucesso ex-eleitoral é maior. Eu acho que essa lição fica em termos de organização eleitoral para esse tipo de disputa.
O segundo, olhando para frente, obviamente, a gente está vivendo no mundo, Natusa, uma onda de oposição. Essa oposição nunca gerou tanto resultado eleitoral como hoje. E, mais uma vez...
Um dos pilares da derrota do Orbán foi a questão da economia, foi a questão da sensação do empobrecimento da população húngara. Então, obviamente, quem estiver no poder, que agora é a centro-direita, o Tisla, vai ter que responder a essas questões que são bastante concretas, que a gente está vendo repetitivamente nas eleições pelo mundo. Custo de vida, renda, endividamento e tal.
É importante que essa coalizão no poder dê respostas para a economia para que, obviamente, esse tipo de coalizão, que de alguma maneira representa valores mais democráticos e menos autocráticos, permaneça aí no poder por mais tempo.
Mas durante um determinado momento a economia foi bem por lá e isso garantiu a permanência dele? Ou a permanência dele foi garantida pelos movimentos autoritários que ele acionou? Os botões autoritários, como comprar a mídia, ocupar o judiciário. O que foi responsável por tanto tempo de Orbán no poder?
Eu acho que é uma combinação, né? Obviamente que houve períodos onde o governo dele foi bem avaliado e isso se relacionava à economia. É claro que a Hungria, assim como outros países da União Europeia, mais periféricas, se beneficia da União Europeia, obviamente, mas ao longo do tempo, quando o governo dele foi sendo desgastado, a questão do empobrecimento e da percepção de corrupção foi aumentando, obviamente ele foi esgarçando as instituições, como você mencionou, a mídia, a imprensa, as universidades.
Lembrando que algumas universidades deixaram a Hungria por causa do governo do Urbano.
Elogiada pelo deputado Eduardo Bolsonaro, rejeita a influência do Ocidente, rejeita os imigrantes, principalmente os do Oriente Médio, rejeita a autonomia das universidades, os juízes independentes, a imprensa livre, as minorias sexuais. O tipo de autoritarismo de Viktor Orbán não é uma ditadura escancarada, tem um verniz de democracia.
Então foi um movimento, né? Quando a popularidade começou a ser ameaçada durante a pandemia, ele apertou essas medidas autoritárias também. Então a gente teve uma curva de endurecimento do sistema que o Orbán criou conforme ele foi perdendo popularidade. Maurício Moura, muito obrigada por ter topado mais uma vez conversar aqui com a gente para explicar esses mistérios do mundo. Bom trabalho, bom te ouvir, Natuzio. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Pedro Abramovay.
Pedro, eu conversava agora há pouco com o Maurício Moura justamente sobre a mudança de poder na Hungria. Contigo eu quero focar mais no impacto dessa mudança. Então, para começar, apenas para deixar todo mundo aqui na mesma página, eu queria te perguntar o que significa dizer que a Hungria se tornou uma espécie de hub global da extrema-direita.
Acho que tem dois elementos que colocam a Hungria hoje como esse hub global da extrema-direita, ou pelo menos até o último domingo. O primeiro é que ela foi um grande laboratório de um modelo que vem sendo reproduzido em muitos lugares. Um artigo publicado...
no jornal Washington Post e republicado pelo jornal O Globo, mostra como políticos de direita e extrema-direita aumentaram os ataques contra a imprensa e que políticos como Donald Trump podem tentar se inspirar nesse mesmo manual. Segundo o artigo, líderes estrangeiros como Vitor Orpan, na Hungria, e Jair Bolsonaro, aqui no Brasil, restringiram o jornalismo.
Entre as táticas para minar a capacidade dos jornalistas de coletar e reportar livremente as notícias, estão criar um clima propício para a repressão à mídia. E esse laboratório tem algumas características. Primeiro, é importante notar que o Orbán foi eleito como primeiro-ministro e depois perdeu a eleição, e aí ficou um tempo fora do poder e voltou. E é quando ele volta que realmente ele começa a implementar esse modelo.
Isso é muito comum, a gente tem visto isso no Trump, a gente vê isso em vários lugares. Esse segundo mandato, quando já tem uma experiência de quais são as barreiras para o autoritarismo que existem no Estado, é que a gente vê esses líderes realmente aplicando o manual desse que a gente chama de autoritarismo competitivo.
Esse modelo tem alguns elementos. O primeiro é um ataque a quatro coisas. Então, um ataque à imprensa, e aí o Orbán conseguiu que a imprensa estatal, a rede pública, ficasse uma máquina de propaganda, mas não só isso. Os seus amigos, os empresários, os amigos dele, compraram as grandes empresas de comunicação.
E aí você praticamente, na mídia tradicional, não existia mais independência com relação ao governo, era tudo máquina de propaganda. Além da imprensa, você tem o judiciário, e aí você de fato foi corroendo o judiciário por dentro, indicando amigos do Orbán para diversas posições. Então um judiciário que não perseguia a corrupção, que deixava rolar a corrupção no governo Orbán, e que ia favorecendo toda essa concentração de poderes que ele ia fazendo.
Depois você tem a sociedade civil. A Universidade Centro-Europé foi expulsa da Hungria justamente porque tinha muita gente que era contra as ideias do Orbán, mas principalmente organizações que trabalhavam anticorrupção, porque era um governo muito corrupto, que trabalhavam temas de imigração, de apoio a imigrantes e refugiados, e que trabalhavam temas LGBT. Essas organizações foram criminalizadas e perseguidas.
E, finalmente, a última coisa é o ataque ao sistema eleitoral. Então, distorcer e atacar o sistema eleitoral de maneira a ele favorecer o grupo que está no poder. Esse modelo que ele criou lá é um modelo que foi reproduzido em muitos lugares depois. E acho que o segundo elemento é que, de fato, teve uma coisa ativa de buscar apoio internacional, de criar uma rede internacional, de criar um movimento que se colocava como nacionalista, mas que foi buscar esse apoio grande. E aí, de fato, a gente viu, quando o Orbán começou, ele estava...
sozinho, mas nessa última campanha era apoio de Milley, apoio do Trump, do J.D. Vance, tudo muito conectado com essa extrema direita global. Pois é, eu quero entrar justamente nesse ponto, porque existe uma ideia de que o Orbán instituiu uma espécie de Estado profundo
apto a sobreviver mesmo com ele fora do poder. E aí a tradução desse Estado Profundo seria altos investimentos nessa fábrica de pensamento ultraconservador, do qual a gente falava anteriormente, mudanças no jogo eleitoral, nas regras, nomeações de longo prazo para tribunais, promotorias e órgãos reguladores, controle midiático. Em outras palavras, ele sai, mas os tentáculos dele permanecem. Como é que fica essa rede com a saída dele? E aí
ela vai sobreviver mesmo sem ele? Olha, esse é um dos grandes desafios do novo primeiro-ministro da Hungria. Então a primeira coisa que é necessário lembrar é que esse tipo de governo, quando você tem um líder que já passou pelo poder, já sabe quais são as amarras que a democracia coloca em quem é autoritário, e aí entra para, de fato, criar...
uma possibilidade perene de você transformar o Estado para favorecer o autoritarismo, quando isso acontece é muito difícil de reverter. Então você tem hoje 11 dos 15 ministros da Suprema Corte que são favoráveis ao Orbán. Você tem juízes espalhados ali, você tem a mídia que, como eu disse, foi comprada pelos seus aliados. Então não vai ser simples. Acho que a vantagem que você tem é que ninguém imaginava, nem o Orbán, que a oposição ia ter uma vitória de dois terços.
A extrema-direita de hoje não é igual a dos ditadores do século XX, como o espanhol franco, o chileno Pinotier, os generais brasileiros. A gente não vai ver tanque na rua dando golpe pelas mãos dessa extrema-direita contemporânea. Esse ataque à democracia.
governos como o de Viktor Orbán assumem o controle do judiciário, ocupam os veículos de imprensa, reescrevem as leis eleitorais, mudam a Constituição e manipulam cuidadosamente as redes sociais para emplacar sua visão de mundo.
Então ele planejou um sistema de proteção a ele mesmo, mesmo que ele saísse do poder, porque a Constituição tinha sido alterada e era muito difícil conseguir esses dois teiros. Mas o fato é que, até por causa da distorção eleitoral que ele mesmo criou, porque a oposição não teve, teve 53% dos votos, mas ele criou esse mecanismo que quem tem essa quantidade de votos acaba ficando...
como a super maioria. E isso o feitiço virou contra o feiticeiro e está na mão da oposição. Então a oposição tem sim a possibilidade de ir aos poucos, isso vai demorar um pouco, mas modificar esse estado autoritário que ele criou. O que a gente tem que torcer agora, e muito a sociedade civil húngara vai ter que trabalhar para isso, é que, claro, é muito difícil uma pessoa que chega no poder querer colocar de volta controles para esse poder.
Então tem que ter uma pressão ativa para que o novo primeiro-ministro desfaça essa estrutura autoritária. Não será simples, vai demorar tempo, vai ter muita resistência, porque o tamanho do ataque à burocracia, do ataque ao Estado húngaro que foi feito durante esses 16 anos de Orbán foi realmente gigantesco.
Pois é, e aí me surge a dúvida sobre o próprio Peter Magger, porque ele é um ex-aliado de Orbán. O que garante que ele não vire um outro Orbán? Acho que o primeiro ponto é, ele é um ex-aliado de Orbán e eu acho que provavelmente vai fazer um governo de centro-direita, se não de direita, um governo conservador. Mas há que se separar a opinião política de direita do viés autoritário. São coisas diferentes. É possível um governo de direita que seja democrático.
A vitória, a festa nas ruas da Hungria essa semana, ela acontece numa coalizão ampla, que une da esquerda até a centro-direita, que já não aguentavam mais esses desmanos autoritários. Esse é o mandato que o Peter Maguiar tem. A tradição do Peter Maguiar não é uma tradição autoritária, ela é uma tradição conservadora.
Essa separação entre é possível ter governos de esquerda, é possível ter governos de direita, mas o que não se pode tolerar são governos antidemocráticos, ela é muito importante, é muito importante que o Peter Maguiar possa também dar essa lição, ganhar como programa de direita, mas ele também se opõe à entrada da Ucrânia na União Europeia, assim como o Orbán, ele quer uma política migratória dura, acho que isso está dentro do jogo democrático.
Peter Maguiar prometeu uma verdadeira limpa no legado e na presença do urbanismo no governo. Ele pediu a saída do que chamou de fantoches de urbã. Maguiar também propôs uma refundação da mídia estatal, que hoje é completamente pró-urban.
como uma máquina de propaganda. Ele disse também que o seu governo ia promover uma reforma constitucional para limitar o número de mandatos de um primeiro-ministro a dois, o que não permitiria mais que Orban voltasse ao poder. Maguiar prometeu restaurar os padrões democráticos da Hungria e desbloquear bilhões de euros de fundos da União Europeia, fundos que tinham sido bloqueados da Hungria.
por causa de questões de direitos humanos, que apesar de derrotar a extrema-direita, ele não é um candidato particularmente progressista. O partido dele é de centro-direita e políticas como, por exemplo, a anti-imigração aqui da Hungria não devem mudar. A posição dele sobre defesa de direitos da comunidade LGBTQI+, é bem vaga. Ele não tratou desse tema também abertamente na campanha, só disse que apoia a igualdade perante a lei.
O que ele não pode deixar de fazer, porque aí ele estaria traindo os votos que ele recebeu, é justamente modificar essa estrutura autoritária que o Orbán construiu. Bom, acho que você já passou por isso, mas vale a pena te perguntar qual é a lição para as democracias, sobre a dificuldade de tirar do poder um autocrata, porque o Orbán, como a gente já falou, ficou 16 anos lá.
Acho que essa eleição da Hungria dá muitas lições para a gente. A primeira lição que a gente tem é que, como é difícil, principalmente depois que um autocrata já passou pelo poder e sabe, a gente vê muito isso nos Estados Unidos, o segundo governo do Trump atacou as proteções democráticas do Estado americano de maneira que ninguém imaginava antes. Então essa ideia de que...
Ah, como ele já passou pelo poder e a democracia sobreviveu, ele pode voltar que não vai ser tão grave assim, assim como o Trump, o Worm mostra que isso não é verdade. Que depois o risco é você poder ter por 16 anos esse Estado absolutamente corroído e uma situação hoje econômica trágica na Hungria, muito difícil, causada pela maneira como ele tratou o Estado como coisa própria quase ao longo desses 16 anos.
Essa é a primeira lição. A segunda lição é que, mesmo nesse caso, quando as forças democráticas se unem, pode ser muito difícil, mas é possível derrotar esse tipo de líder nas urnas, quando essas forças se unem em torno do valor da democracia.
Bom, o Trump sempre fez ordem a uma onda conservadora global. No caso da extrema-direita, a gente acha que é mais do que conservador. É um movimento radical. Como é que ele fica, uma vez que esse movimento, pelo menos na Hungria, era visto como uma espécie de estrela entre os republicanos? Uma espécie de herói, ou pelo menos de símbolo do que deveria ser replicado em outros países?
Acho que o Trump sai muito mal dessa eleição e tem acontecido de maneira geral. Aconteceu no Canadá, aconteceu em alguns países da Europa do Leste, aconteceu recentemente na Itália, quando a Meloni tentou aprovar um plebiscito. Quem se aleou o Trump tem perdido popularidade. Por quê? Porque mesmo se você é de extrema-direita e coloca o Trump como seu modelo, o que o Trump está fazendo no mundo...
que é passando por cima da soberania de qualquer outro país, independentemente de ser aliado ou se não é aliado, isso deixa as pessoas que querem ser aliadas ao Trump numa situação muito ruim. Como defender a aliança com o Trump se o Trump está ameaçando invadir um país da Europa, a Groenlândia, por exemplo, pertence à Dinamarca? Então ficou muito mais difícil para a extrema-direita, que é muito nacionalista, se aliar e defender o Trump quando ele passa por cima da soberania dos países, na maneira que ele faz agora.
Então acho que isso é um momento de incoerência completa nesse sistema, porque ele é um sistema que não é possível você ter solidariedade global se você tem o Trump atacando. Eu acho que quem questiona, quem valoriza a soberania de verdade, tem se colocado em oposição a Trump e muitas vezes tem conseguido ganhos eleitorais com isso. Pedro, que ótimo te ouvir. Muito obrigada por ter topado conversar com a gente aqui no assunto. Eu que agradeço. Muito feliz de poder estar aqui.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.