Artemis II e o futuro da nova corrida espacial
Convidados: Lucas Fonseca, engenheiro espacial, e Márcia Alvarenga dos Santos, chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB). Nesta sexta-feira (10), a missão Artemis II retorna à Terra. A aeronave tripulada por quatro astronautas está há dez dias no espaço e foi a que chegou mais longe em relação à Terra – percorreu mais de 400 mil quilômetros. Ela realizou também o primeiro sobrevoo tripulado à órbita da Lua dos últimos 50 anos. O programa Artemis tem como meta montar uma base permanente no Polo Sul e lançar uma estação na órbita lunar até 2030. Assim, a Lua serviria também como ponto de escala para um objetivo ainda maior: chegar a Marte. Este é o horizonte da nova corrida espacial, na qual os Estados Unidos estão disparados na liderança – mas não estão sozinhos. Neste episódio, Natuza Nery recebe dois convidados. Lucas Fonseca, engenheiro espacial e CEO da empresa de logística espacial Airvantis, e Márcia Alvarenga dos Santos, chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB). Lucas descreve os objetivos do programa Artemis e o que os Estados Unidos buscam com ele, e explica por que os americanos estão com medo do acelerado desenvolvimento espacial da China. Márcia conta os interesses por trás da exploração da Lua.
- Missão ArtemisObjetivos da missão · Retorno à Terra · Diversidade na tripulação
- Exploração LunarBase permanente na Lua · Recursos naturais da Lua · Estação espacial lunar
- Exploração EspacialCompetição EUA e China · História da corrida espacial · Impacto da tecnologia
- História da corrida espacialMarte como próximo destino · Indústria espacial
4 de outubro de 1957. Foi assim que começou a aventura humana no espaço sideral. O sinal que você acabou de ouvir é do Sputnik, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. Projetado pela antiga União Soviética, seu lançamento fez o país comunista tomar a dianteira da corrida espacial.
E aquele som era prova viva de que a Guerra Fria havia ultrapassado os limites planetários. O engenheiro por trás do projeto desenvolveu um sinal que pudesse ser recebido por aparelhinhos de rádio em qualquer lugar do mundo. Era uma estratégia clara de propaganda. Ele queria que a humanidade soubesse que os soviéticos estavam lá.
Mas não só. O objetivo também era de intimidação. Não tanto pelo Sputnik em si, mas por causa do potente míssil que o colocou em órbita. Se o míssil era capaz de lançar um satélite para o espaço, ele poderia lançar, por exemplo, uma bomba ou várias contra os Estados Unidos.
levou algum tempo para os americanos equilibrarem o jogo. Mas em 1969, a mesa foi definitivamente virada. A missão Apolo 11 pousava em solo lunar. Seis décadas depois desse episódio, o nosso satélite natural está no centro de uma nova corrida espacial. Uma missão que reafirma a liderança dos Estados Unidos.
Finalmente, Artemis II decolou. A missão que está levando quatro astronautas para um sobrevolo lunar histórico já começou. Dois astronautas brancos, uma mulher e um astronauta negro é uma missão de uma diversidade como nunca tivemos anteriormente. O plano é dar duas voltas em torno da Terra e uma ao redor da Lua.
A meta é montar uma base permanente no Polo Sul e lançar uma estação na órbita lunar até 2030. China e Rússia, junto com mais 13 parceiros, planejando a sua própria base, a Estação Internacional de Pesquisa Lunar, prevista para 2035. E a Artemis II foi a que chegou mais longe da Terra. Ela atingiu mais de 400 mil quilômetros, o equivalente a 10 voltas em torno do globo.
Durante uma coletiva de imprensa, um repórter perguntou ao piloto da missão se ele queria deixar uma mensagem comemorativa para as pessoas em casa. Vitor Glover disse que esta é uma oportunidade para lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais. A NASA divulgou uma imagem inédita da Lua feita pelos astronautas.
Os astronautas puderam testemunhar um espetáculo, o nascer da Terra por trás do seu satélite natural. E registraram imagens nunca vistas de um lugar que permanecia somente sob o domínio da imaginação, o lado oculto da Lua. A missão é um salto que ainda está no ar. Ela retorna à Terra na noite desta sexta-feira, carregada de objetivos.
Montar bases, testar tecnologias, mandar astronautas. Mas não se engane, a Lua sempre foi um território estratégico. É um tesouro de recursos naturais. Ferro, silício, hidrogênio, titânio. E também tem hélio-3, com potencial para usinas de fusão nuclear. Sem falar da água.
descoberto em 2008, fundamental para beber, cultivar, resfriar equipamentos. E o solo lunar, o regolito, pode ser usado como proteção contra a radiação e também servir como material de construção. Com isso tudo, as bases lunares autossuficientes deixariam de ser só ficção científica. E também de um sonho, um dos mais antigos da humanidade. A Lua ainda serviria como ponto de escala para outros destinos, como Marte.
Da redação do G1, eu sou Natuza Neri e o assunto hoje é Artemis II e o futuro da nova corrida espacial. Neste episódio, eu converso com Lucas Fonseca, engenheiro espacial e CEO da AirVent, empresa de logística espacial, e com Márcio Alvarenga dos Santos, chefe da assessoria de cooperação internacional da Agência Espacial Brasileira. Sexta-feira, 10 de abril.
Lucas, a gente conversa um dia antes da reentrada da Artemis II na nossa atmosfera. Conta para a gente qual é o tamanho do risco dessa operação. Eu vou contar uma história que ocorreu na Artemis I. A Artemis I foi uma missão que mandou um módulo até a Lua, mas sem tripulação, para testar os conceitos, qualificar toda a tecnologia que tinha desenvolvido para essa missão específica.
Na hora de entrar de volta para a Terra, o escudo térmico que protege a cápsula para frear na atmosfera terrestre não funcionou da maneira que eles esperavam. Tiveram que refazer parte da tecnologia e pensar um ângulo de reentrada mais amigável para não colocar os astronautas em risco. Esse é o nível do risco, porque está sendo testado agora com astronautas, uma tripulação dentro, algo que não saiu dentro do que eles planejavam no primeiro momento.
O foco dos astronautas é preparar a nave para a volta à Terra. É o segundo momento mais crítico da missão, atrás apenas do lançamento. Ainda mais depois que o escudo que protege a cápsula do calor intenso da atmosfera sofreu danos durante a missão Artemis 1 em 2022. A Orion vai entrar na atmosfera a uma velocidade de 38 mil quilômetros por hora.
Do lado de fora, a temperatura pode chegar a 2.800 graus Celsius por causa do atrito. Lucas, eu quero muito falar de Artemis II com você, mas eu quero olhar para frente. Nós estamos, a partir da Artemis II, mais próximos de Marte do que antes? Com certeza.
Ir para a Lua é um aprendizado que vai servir para chegar em qualquer lugar do Sistema Solar. Então, quando a gente olha para o futuro da economia espacial, a gente olha para um futuro que vai tomar forma no Sistema Solar como um todo. Então, estamos falando de Marte, estamos falando de asteroides, de luas de outros planetas. E a Lua, nossa vizinha...
É o primeiro passo disso tudo. E isso por que razão? Por que a Lua é importante para se chegar à Marte? A gente enxerga a Lua como um entreposto. Entreposto no sentido de uma cama de teste de aprendizados, mas também de buscar recursos que vão permitir a gente acessar outros pontos do Sistema Solar, e leia-se aí Marte.
a partir de recursos naturais que estão dispostos na Lua. A atmosfera da Terra é muito cruel. Então, qualquer foguete que você vai tirar do chão e levar para o espaço, normalmente você vê esses tamanhos colossais, onde um pedacinho pequenininho consegue chegar no espaço. Isso acontece porque a gravidade da Terra realmente é forte. Comparado com a gravidade da Lua, que é bem menor, você imaginar que você tem essa possibilidade de começar a criar cenários, de criar indústrias, manufaturas na Lua para acessar outros pontos do sistema solar...
você acaba tirando de equação esses foguetes monstruosos que têm que sair da Terra. Para uma leiga como eu, é muito mais fácil uma espaçonave decolar da Lua e chegar muito longe do que se ele decolar da Terra, porque a força da nossa gravidade é muito alta.
Exato. Vamos aprender como é viver na Lua, como eu vou gerir os recursos que existem na Lua, o que eu tenho que levar, o que eu consigo aproveitar para ter pessoas vivendo lá, coletando energia, produzindo equipamentos, para no futuro usar a Lua realmente como um entreposto, o que pode alcançar outros pontos do sistema solar, sem ter que tirar essa massa gigantesca de equipamento da superfície da Terra.
Eu precisava voltar um pouquinho para trás. A gente teve a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética. Qual foi o status dessa corrida espacial? Localiza a gente nesse ponto da história. Existiu uma linha de chegada, e é interessante, que foi os Estados Unidos que estipulou qual era o final.
da corrida espacial, porque até então estava tomando de lavada da União Soviética, que levou o primeiro homem ao espaço, a primeira mulher, o primeiro animal, o primeiro satélite. Então tudo a União Soviética venceu, em determinado momento, os Estados Unidos falaram que quem chegar na Lua primeiro venceu a corrida. Então o lance acabou em 1969, quando o Neil Armstrong pousou na Lua.
e a partir daí começou a tomar um formato muito diferente à economia espacial. Começou a se buscar a sustentabilidade econômica. Então, olhando para trás, principalmente na época da Apollo, os gastos públicos eram colossais. Eles perceberam que isso aí não era sustentável no longo prazo e aí começaram a buscar meios de reduzir esses custos e foi quando veio o projeto do ônibus espacial. A ideia do ônibus espacial é que poderia ser reutilizável e que abaixaria os custos.
Infelizmente nunca chegou lá. O ônibus espacial, olhando pelo viés da engenharia, é uma maravilha moderna, mas quando você olha pelo viés econômico da coisa, teve uma falha muito grande do que foi planejado.
O ônibus espacial americano é a primeira nave que volta ao espaço. O custo total deste programa do ônibus espacial é de um trilhão de cruzeiros. Mas neste momento, o principal cliente do programa é o Pentágono com objetivos militares. E isto tem provocado protestos dos russos e críticas, mesmo entre os defensores do programa espacial americano.
E a gente só viu isso sendo transformado para um sistema mais economicamente sustentável a partir dessa entrada das empresas dos bilionários, que a gente chama de dos barões do espaço, na corrida espacial. Então, a partir do momento que a SpaceX entrou na corrida espacial e conseguiu reutilizar um foguete, os preços começaram a cair de 10 a 15 a 20 vezes, e hoje é muito mais fácil o acesso ao espaço do que era há 50 anos atrás.
Primeira missão organizada por uma empresa privada, a SpaceX, a chegar à Estação Espacial Internacional. Isso encerraria a dependência que hoje os Estados Unidos têm da Rússia, já que desde que os americanos aposentaram os ônibus espaciais, as naves russas, Soyuz, são as únicas capazes de levar astronautas à estação.
Por isso que a Artemis é importante, porque ela tem essa associação com grupos privados. É isso também, além de associação com outros países? A Artemis, concebida originalmente, tinha essa ideia de uma colaboração de muitos países. Então você tem a missão Artemis e você tem os acordos Artemis. Os acordos Artemis é como se fosse uma atualização da Lei Geral do Espaço Exterior, que foi assinada ainda na década de 60 na ONU.
hoje não se consegue mais sentar na mesa e discutir todo mundo. Então, o que o Estados Unidos fez, que é um pouco tendência? Olha, eu vou escrever meus próprios termos, quem quiser vir comigo, vem aqui e colabora. Então, ele começou a assinar esses tratados bilaterais com vários países, mais de 60, e o Brasil é um deles, para atualizar toda essa forma de manejo de quem é responsável e por quê, a partir do momento que você vai além da órbita da Terra.
Quando é que a China começa a surgir como um player ou até mesmo a substituir a União Soviética? Onde é que começa a história da China nessa disputa? O golpe que eu diria aí de misericórdia na União Soviética foi quando eles tentaram ter um veículo espacial muito parecido com um ônibus espacial. E foi muito custoso para a União Soviética desenvolver esse veículo.
e foi inclusive um dos motivos que criou o colapso econômico. Quando você teve esse colapso, ficou a herança do que já existia na União Soviética. Então ela tem uma família de foguetes que é muito seguro, tem uma robustez, uma solidez muito grande, até mais do que os veículos americanos. E isso é muito interessante porque mais de uma década, os Estados Unidos ficou sem ter um vetor de acesso à estação espacial e usava carona com os próprios russos.
Então ele usava essa herança do período soviético para chegar na estação espacial pegando carona com os russos.
A China começou a despontar, vou dizer que nos últimos 20 anos, ela começou a despontar de uma maneira muito sólida. E vem muito coerente com esses planos todos de 100 anos que a China faz, também fez para essa área espacial, e ela estipulou que até 2030 ela gostaria de ter uma base na Lua. E eu acho que é isso que vem assustando todo mundo, porque ela vem cumprindo os prazos. E aí isso levantou essa necessidade dos Estados Unidos repensar o programa Artemis para conseguir bater de frente com a China.
Só para deixar claro, não existe nenhuma pegada de um astronauta chinês na Lua até hoje. A China jamais pisou na Lua, certo? Nenhuma outra nação pisou na Lua além dos americanos. Os americanos foram da Apolo 11 até Apolo 17, e aí a única que não pisou na Lua foi a Apolo 13, que tem um filme famoso com o Tom Hanks.
Houston, we have a problem. Mas fora esses, da 11 a 17, todos pousaram e pisaram na Lua. Fora eles, só missões robóticas. Agora, missões robóticas, Índia, Japão, a própria Rússia, China, Estados Unidos, todo mundo tem mantido alguma constância de missões lunares. Só não tem levado pessoas até lá e a gente está vendo nesse momento essa volta das pessoas para a Lua.
Mas se a China nunca nem pisou na Lua, por que os Estados Unidos estão com medo? E explica para a gente isso que você deixou no ar. Os Estados Unidos começaram a se voltar mais para a Lua do que para Marte. Ainda que Marte seja a última ou a próxima grande fronteira espacial, eu fiquei com a impressão de que a Artemis passou a se voltar para a Lua como se a Lua fosse um objetivo mais duradouro, muito antes do que chegar a Marte.
Começando pela parte chinesa, né? A China não pousou nenhum taikonauta, que é o nome que se dá aos astronautas provenientes da China. Mas tem feito várias missões para a Lua. Já está na sexta missão, robótica todas, mas ela conseguiu, por exemplo, pousar no lado mais distante da Lua, o lado que a gente chama de lado oculto, e conseguiu germinar um feijão no lado oculto da Lua. Os Estados Unidos nunca fez isso.
A China conseguiu colocar, por exemplo, um sistema de satélites de comunicação para garantir que todo momento, inclusive do lado oculto da Lua, tenha comunicação com a Terra. E aí tem um ponto interessante. Os Estados Unidos agora foi com a Artemis II até a Lua e os astronautas ficaram 41 minutos sem conseguir falar com a Terra. Poderiam ter pedido para a China? Eu acho que a China até cederia os satélites de comunicação. Mas eu não consigo imaginar o Trump, por exemplo, pedindo para a China para dar esse suporte. E aí vale a narrativa do herói vivendo 41 minutos sem ter comunicação.
Tendo dito isso tudo, você me perguntou também o lance do porquê que os Estados Unidos hoje está se voltando para a Lua. Os Estados Unidos, quando ele começou a pensar na Artemis, ele tinha essa ideia de colocar uma estação espacial na órbita da Lua para ser feito com outros parceiros internacionais, algo muito parecido com a Estação Espacial Internacional que a gente tem em baixa órbita terrestre, que está aí a 400 quilômetros da Terra.
Só que eles começaram a construir, começou a estourar orçamento, estourar prazo, e a China começou a colocar os prazos dela em dia. Os Estados Unidos viu ela executando passo a passo para chegar na Lua até 2030. Houve essa reestruturação do programa Artemis, eles desistiram dessa estação internacional e falaram, olha, os Estados Unidos vão pousar na superfície, vamos chegar antes da China com uma base na Lua, e vocês parceiros aí de outros países, se quiser vir junto, venham, mas não precisamos de vocês. Ficou até uma situação meio saia justa ali com os outros países.
Acho que todo mundo esperava um pouco que isso fosse acontecer, mas está todo mundo agora tentando se adaptar para essa nova realidade. Ou seja, os Estados Unidos, na prática, esqueceram Marte por hora. É isso? Eu diria que o discurso de chegar em Marte continua forte pelo motivo de que Marte...
ainda é o local mais próximo do que seria viver no nosso próprio planeta. Então, se um dia a gente quiser ser espécies interplanetárias, Marte vai ser o primeiro local onde teremos um mostinho próximo do que é viver no planeta Terra. Mas, economicamente falando, busca de recursos naturais, busca de energia, todos os holofotes estão mirando a Lua nesse momento.
Por que Marte nos oferece essa possibilidade? Marte tem uma gravidade muito mais próxima da gravidade da Terra. Tem uma atmosfera que ajuda a proteger raios UVs, por exemplo. Questão de temperatura, quando você está na parte equatorial de Marte, são temperaturas de 5, 6 graus positivos. Então, você tem pessoas aqui no nosso planeta que vivem a menos 60.
Tem que lembrar de uma coisa, né? Toda evolução foi feita baseada no que a gente tem como local de moradia. Então, quando pegamos na instituição humana que somos atualmente, foi baseado no que o planeta nos supriu. Ir para um outro planeta nunca vai ser tão bom quanto morar na Terra. Mas a gente acaba buscando um planeta que tem características um pouco mais próximas de coisas que a gente tem no nosso próprio planeta, para que a vida seja um pouco mais confortável. A Lua é extremamente inóspita.
Teremos que preparar muitos conceitos, muitas estruturas, novas tecnologias para ter essas pessoas vivendo de forma permanente na Lua. Se a gente fosse simplificar muito a posição dessa corrida espacial, você diria que Estados Unidos e China, e aí os países agregados, os países que estão auxiliando essas duas potências, eles estão empatados nessa corrida, os Estados Unidos estão à frente muito ligeiramente.
Ou a China estaria na frente, que não me parece ser o caso. Estados Unidos ainda é grande potência da área espacial, embora a China esteja chegando. E eles têm prazos estipulados. Então a Artemis 4, que é a Artemis que vai pousar na Lua, está prevista para 2028. A primeira missão chinesa para pousar na Lua está prevista para final de 29 e começo de 30. Se os cronogramas se cumprirem, Estados Unidos vai chegar primeiro, e aí tem a importância da Artemis 2.
tudo ocorrendo dentro do nominal, dentro do que foi esperado, aumenta essa narrativa que os Estados Unidos conseguirá chegar em 28, embora seja um prazo muito difícil. Mas parando para pensar que em 1962 o Kennedy fez aquele discurso super famoso no Texas, que nós vamos para a Lua não porque é fácil, mas porque é difícil, e essa é a melhor maneira de medirmos a nossa própria capacidade, em 69 os Estados Unidos estavam na Lua, dá para acreditar que é possível executar nesse prazo.
Então, os Estados Unidos estão ainda bastante à frente da China, certo? Bastante, eu não diria, mas estão na frente e se conseguirem manter o coronavírus, vão chegar antes.
Se te oferecessem para ir para Marte, você moraria em Marte? Provavelmente as primeiras pessoas que virão para Marte não vão voltar. E aí morrerão lá. E aí eu já pensei nisso várias vezes. Eu acho que se eu fosse o primeiro, tipo o Neil Armstrong que foi para a Lua, o Lucas Fonseca que foi para Marte e não voltou, eu acho que eu toparia. Para ser o segundo, eu acho que não.
Mas por que as pessoas não voltam? Ir para Marte hoje são seis meses de viagem, depois você tem que ficar um ano na superfície para preparar mais seis meses de viagem de volta. Ainda é muito complexo, adoraria acreditar que essas missões vão ser estruturadas de forma que vão conseguir ir e voltar, mas o risco é muito alto e talvez o primeiro astronauta que vá para Marte encontre algum problema no meio do caminho e não consiga voltar. É nesse sentido que eu quero dizer.
Mas é claro, as missões sempre são pensadas para trazer segurança para a vida do astronauta e que consiga ser cumprida como um todo. Mas o desafio está em um patamar muito acima e, eventualmente, esses astronautas não vão voltar.
E o que você acha que vai acontecer com a Artemis II? Quero muito acreditar que vão entrar com um sorriso de orelha em orelha e vão servir de inspiração para a humanidade. Estamos torcendo para isso e ansiosos por essa imagem histórica. Lucas, sem palavras para te agradecer, muito obrigada. Obrigado, pessoal. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Márcia Varenga dos Santos.
Márcia, eu quero voltar no tempo com você para mostrar como a gente está numa nova era espacial realmente. No projeto Apolo, o objetivo era chegar à Lua e voltar. Agora, no Ártemis, é estabelecer uma estação lunar. Como é que vai ser essa estação? Qual é a utilidade dela?
Uma das questões importantes é que a Estação Espacial Internacional vai ser desativada. Então, muitos dos experimentos que nós fazemos na Estação Espacial Internacional vão precisar ser feitos em outro local. Então, a Lua é uma possibilidade, porque você tem baixa gravidade, você tem um ambiente que favorece experimentos que não seriam possíveis aqui da Terra.
O segundo ponto é um novo anseio por recursos espaciais. São raramente encontrados na Terra, ou, por exemplo, são minerais que têm muita dificuldade, ou têm só em um país, e aí você encontra mais abundância no espaço. Então, tem minerais que valem muitíssimo, tem recursos que valem muitíssimo no espaço sideral. Então, também conhecer o ambiente para além da Terra.
É importante para chegarmos, ainda que estejamos também um pouco longe de fazer uma extração, por exemplo, de recursos, como a gente faz aqui na Terra, é muito mais complicado, então acho que a gente está um pouco longe disso do ponto de vista técnico, tecnológico, mas também é um interesse. E por fim, estabelecer uma base permite, além dos experimentos, você chegar um pouco mais próximo de Marte, que eu vejo que é o nosso próximo alvo.
Existe uma corrida espacial, diversos países competindo. Ela tem características diferentes da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, sabemos disso, há outros personagens, outros países envolvidos. Mas uma vez que se queira implantar uma base lunar para ficar mais perto de Marte, de quem vai ser a Lua? De quem chegar primeiro? Muita gente fala que a Lua não é de ninguém, e não é bem isso. A Lua é de todos. A Lua é da humanidade. Não existe comprar terreno na Lua.
Existe um acordo da Lua, mas ele é um acordo que não teve muito sucesso. E ele fala que a gente pode explorar os recursos da Lua, mas quando isso acontecer, os países precisam se organizar para criar um regime jurídico para isso. Mas nesse acordo não tem nenhum dos grandes players. Não tem Estados Unidos, não tem China, não tem Rússia. Então ele não tem o peso. Hoje em dia você tem ações unilaterais dos estados, você vê movimentos unilaterais sobre recursos espaciais, sem que essa discussão esteja sendo acertada.
Despertada conjuntamente. Já que a gente está falando de um corpo celeste. Que é de todos. É interessante isso. Porque muito se fala. A bandeira dos Estados Unidos na Lua. Então aquele pedaço ali é dele. Não. Isso não procede. Se você for considerar os tratados sobre o espaço.
ainda é uma discussão muito interessante que acontece no âmbito da ONU. E pode haver uma situação muito bizarra de países disputando a propriedade da Lua, por exemplo? Estados Unidos dizerem, olha, a gente botou a nossa bandeirinha lá primeiro, aquele lugar é nosso? Pode, e pode sim. Inclusive, você tem lá a pegada do Neil Armstrong na Lua. Aquela pegada, ela é quase que um patrimônio, não é verdade? Ninguém pode ir lá pagar a pegada.
Como que você protege esse sítio, esse patrimônio, se não existe propriedade? São lacunas jurídicas presentes, bastante discutidas hoje em dia, e que a gente precisa preencher antes que todos cheguem lá. Só para a gente fechar, o árbitro disso...
é a ONU. Eu diria que sim, embora os Estados Unidos estejam se movimentando unilateralmente, etc., mas existe um comitê que discute espaço, e foi esse comitê que estabeleceu a Constituição Espacial. Márcia, te agradeço imensamente por ter topado conversar com a gente. Muito obrigada. Eu que agradeço. Tchau.
Esse episódio usou áudio do filme Apolo 13, do Desastre ao Triunfo, da Universal Pictures. Este foi o assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.