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O que diz o eleitor sobre o seu candidato à Presidência

09 de abril de 202630min
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Convidado: Felipe Nunes, cientista político, professor da FGV-SP e diretor da Quaest. Em um ambiente que se parece com uma sala de estar qualquer, um grupo de 8 a 10 pessoas se acomoda para conversar. Eles foram escolhidos a dedo, sob critérios específicos de renda ou gênero. Orientados por um moderador, discutem alguns dos temas mais importantes para o país: economia, saúde, educação, entre outros. Nesta sala há um espelho onde, do outro lado, cientistas de dados escutam, observam e anotam todas as reações desse grupo. É assim que funciona uma pesquisa qualitativa, um instrumento utilizado por empresas e universidades para saber quais são os sentimentos por trás da escolha de um produto ou de um candidato a um cargo eletivo. São essas informações que as equipes de marketing e analistas políticos usam para decidir suas estratégias eleitorais. Para contar o que está acontecendo dentro dessas salas e quais os sinais que as pesquisas qualitativas indicam para a eleição de outubro, Natuza Nery recebe Felipe Nunes, cientista político e professor da FGV-SP que está há meses analisando informações de dezenas de grupos. Ele, que é diretor do instituto de pesquisa Quaest, explica por que o brasileiro está descontente com a economia a partir de três elementos – e mostra como a busca por “status social” está mudando a percepção sobre as políticas públicas. Felipe também aponta como os pré-candidatos Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) são avaliados por esses grupos.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
F

Felipe Nunes

ConvidadoCientista político
Assuntos5
  • Atuação de Lucia na políticaMétodo da sala de espelho · Análise de comportamento do eleitor · Impacto da polarização
  • Viabilidade de candidatos alternativosAvaliação de Lula · Desconfiança em Flávio Bolsonaro · Reconhecimento de Ronaldo Caiado
  • Saúde e Bem-estarFrustrações com a saúde · Percepção de endividamento · Busca por status social
  • Eficiência de Políticas PúblicasPercepção de programas sociais · Expectativas sobre saúde pública
  • Voto FemininoDiferenças de feedback entre gêneros · Preocupações femininas com o estado de bem-estar · Expectativas masculinas sobre segurança
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Pense numa sala, uma sala mesmo, com sofá, televisão, onde você consegue conversar com as pessoas sem nenhuma restrição. Esse é um ambiente que, na maioria das vezes, estamos despreocupados e tranquilos. Às vezes, essa sala não tem sofá, mas tem uma mesa, como se fosse uma mesa de jantar, e muitas cadeiras. No centro delas, uma mediadora ou um mediador. Alguém que vai deixando a conversa fluir naturalmente.

É nesse local onde nossas opiniões saem de forma segura e, muitas vezes, sem nenhum filtro. É essa sensação que os pesquisadores tentam reproduzir nas pesquisas qualitativas.

Funciona assim. Os convidados são primeiro selecionados a partir de critérios específicos, como de gênero, de renda ou algum outro. E essas pessoas são entrevistadas por até duas horas nessas salas, que são as chamadas salas de espelho. Elas têm esse nome porque do outro lado do espelho que adorna a sala do lado de dentro, os cientistas de dados do lado de fora escutam e observam todas as reações do grupo. E assim, com um olhar atento,

eles conseguem extrair o que normalmente ocorre na vida real. E elas vão para um lugar virtual ou presencial para conversar durante uma hora ou duas sobre temas que nós pautamos. Como é que a gente pauta esse assunto? Por meio de uma moderadora que participa do debate e vai questionando, indagando, provocando as pessoas, geralmente oito a dez pessoas, a debater temas que são de interesse do entrevistador.

Diferentemente das pesquisas qualitativas, aquelas que revelam a fotografia crua dos números, essa se esforça para entender o comportamento do público. O objetivo de uma pesquisa quantitativa é extrair opiniões de uma amostra representativa da população. O objetivo da pesquisa qualitativa é extrair as explicações, interpretações e sentimentos que as pessoas têm.

São essas pesquisas que empresas, acadêmicos e muitas vezes campanhas usam para saber quais são os interesses por trás da escolha de um produto ou de um candidato a um cargo eletivo, como a presidência da República, por exemplo. Com esses dados em mãos, equipes de marketing, analistas políticos e até eleitores têm mais informações para decidir suas estratégias e tomar suas decisões.

As pesquisas quantitativas, essas que a gente vê, a Globo News, a Globo publicando o tempo todo na imprensa, os números, a corrida eleitoral, elas são pesquisas registradas no TSS, tem que ter ali uma série de critérios muito objetivos para fazer a mensuração da maneira apropriada e correta. É muito importante essa transparência. As qualitativas, ao contrário, são experimentos utilizados para pré-testar.

Você joga, brinca, testa ideias, argumentos, narrativas, e é daí que saem os grandes insights que os marqueteiros utilizam, claro, não só na política, mas também no mundo do mercado de produtos, de marcas, etc.

Da redação do G1, eu sou Natuza Neri e o assunto hoje é O que o eleitor diz dentro de uma salinha fechada sobre a escolha do seu candidato a presidente? Neste episódio, eu converso com Felipe Nunes, cientista político, professor da FGV de São Paulo e diretor da Quest. Quinta-feira, 9 de abril.

Hoje eu tenho a honra de entrevistar este dileto assunter aqui na minha frente. Então, Felipe, esse mundo da sala do espelho é um mundo mágico. Não tem campanha eleitoral, sobretudo presidencial, que é o que a gente vai tratar aqui hoje, que não se valha das salas de espelho. Eu...

Durante minhas coberturas eleitorais, consegui convencer fontes a observar duas salas de espelho, com o compromisso de que eu não ia revelar nada do que estava sendo dito ali. O que eu queria era entender como a coisa era feita. E foi incrível, incrível.

E tem um bastidor curioso de uma campanha eleitoral, que Eduardo Campos, na entrevista que ele deu ao Jornal Nacional, essa entrevista foi dada horas antes do Eduardo Campos morrer num acidente de avião, infelizmente. E ele dizia, nós não podemos desistir do Brasil. Pois bem, o bastidor é que essa frase saiu da boca de um eleitor numa sala de espelho.

O moderador ou a moderadora anotou essa frase e as pessoas da campanha que viram aquele eleitor dando aquela frase também o fizeram e anotaram. Claro que essa frase foi para um relatório que foi para o candidato e o candidato gostou muito da frase e usou essa frase na entrevista para o Jornal Nacional. Isso tudo para ilustrar como essas tais salas de espelho são insumos para os candidatos em campanhas eleitorais, mas não só.

São ferramentas muito poderosas, né? Se já está convidada para ver a sala de espelho da Quest, claro, está super convidada. Vamos fazer ao longo dessa eleição. Nós estamos falando de basicamente um método que está aí há mais de 100 anos. Isso vem, historicamente...

Nos Estados Unidos, agências de publicidade usam entrevistas qualitativas há muito tempo para testar produtos, entender sentimentos, frustrações, a forma como as pessoas lidam com produtos. Essa história fica muito estruturada na Segunda Guerra Mundial.

quando dois sociólogos, o Merton e o Lazarsfeld, são contratados pelo governo americano para analisar, usando uma sala de espelho, que eles mais ou menos sistematizaram, como é que os americanos lidavam com as mensagens de guerra, como é que eles reagiam às mensagens de guerra que passavam no rádio naquela época.

Dali saíram insights super importantes para o governo americano saber como ele vendia, vamos dizer assim, a mensagem, a narrativa de como os americanos estavam indo na Segunda Guerra Mundial. Então, a gente está aqui conversando hoje de uma ferramenta metodológica muito poderosa e que, na verdade, fica muito escondida. A gente está muito acostumado a fazer pesquisa quantitativa, a gente divulga a Quest e outros institutos, os números, a corrida presidencial, mas o grande segredo das campanhas não vem das quantitativas, ela vem da Qualy.

E o mais interessante, Natuz, é que se lá na década de 20, a história era bem preliminar, na Segunda Guerra Mundial se organizou como uma estrutura de sala de espelho, hoje as salas de espelho também são virtuais. A gente produz essas conversas com as pessoas na casa delas, cada um no seu lugar. Então, você vivencia a vida da pessoa. Ela vê a criança correndo no fundo, o cachorro late. É muito legal. Você tem a dinâmica presencial, mas 20% já é essa dinâmica de como é que é cada um na sua casa, conversando no meio da rede e dando as suas opiniões, interagindo, reclamando.

Ou seja, o método está evoluindo, claro, com a tecnologia. Aliás, para quem não sabe, em todo debate presidencial, as campanhas contratam empresas para fazer salas de espelho para analisar cada bloco do debate. Quem gosta de...

cultura, vou indicar uma história que eu acho que todo mundo que gosta de política vai gostar, que é o documentário Entre Atos que foi feito em 2002 e um dos momentos altos desse documentário, do João Moreira Salles ele grava o fim da campanha do Lula, aquela parte final que deu a vitória a ele em 2002 e tem ali uma sala de espelho com o Duda Mendonça, que era o marqueteiro, a filha dele ouvindo o debate da Globo e dando o feedback pra ele em tempo real, pra quem gosta de política e quer se preparar pra esse ano essa é uma boa dica E aí

É, porque ali mostra como a sala de espelho influencia o candidato em ação. Em tempo real. Em tempo real. E aí, para começar, então, eu só quero saber, então, só para a gente saber, a gente vai ver o debate junto e a gente vai comentar, a gente vai ver o que a gente está pensando, o que a gente está achando, o que a gente está pensando.

Disso, vou dar aquilo, você tá entendendo? Você não tá entendendo? Oi, tá ótimo, viu? Tá ótimo, fala com as pessoas, tá respondendo, tá? Tá se mantendo calmo, olha nos olhos das pessoas que perguntam e o Serra não olha, o Serra vira de costas, fica olhando pro Lula demais, entendeu? É o seguinte, ele tá bem, muito bem, mas ele tá começando a notar com as pessoas assim, deixa eu te contar uma coisa...

Tem que ficar assim. Então, tem que ser mais claro no início da resposta, responder, tá? Ele está ficando um pouco vago. Os mais críticos estão percebendo, o resto não. Você fez uma rodada de pesquisas qualitativas sobre a corrida presidencial. Imagino que você tenha selecionado os entrevistados a partir de alguns critérios. Explica para a gente um pouquinho. É renda, gênero, o que você... Como é que você selecionou, recortou?

A partir de 2026, todos os meses, a Quest tem feito uma rodada mensal de pesquisa qualitativa. Qual é o nosso objetivo com essa pesquisa? Não é escutar quem não está afim de escutar argumento ou mudar de opinião. A gente escuta o eleitor independente.

indeciso que está espalhado no território brasileiro. Tem independente de renda alta, tem independente de renda baixa, tem mulheres, homens, jovens, adultos, população mais velha, tem de todo tipo, todos os setores da sociedade. O critério fundamental para participar desse debate é ser independente, não ter decisão no eleitorado brasileiro a...

30%, portanto, um terço de eleitores que diz nas pesquisas quantitativas que não tem lado. Não é nem lulista, nem de esquerda, nem de direita, nem bolsonarista. E eles é que vão definir o jogo eleitoral. Então, entender o que move esse eleitor é fundamental para entender o resultado lá na frente.

E de todas essas rodadas, qual é o sumo delas? O que você ouviu desses eleitores? Para a gente entender o processo de escolha desta eleição. Tem algumas teses importantes que a gente tem aprendido com esse eleitor independente.

Primeiro é, ele está cansado da polarização. Por que isso é importante? Esse terço, né? Esse terço. Que representam, que são do tipo independentes, que fazem parte desses 30%, por isso que a gente está conversando com elas. Então, eles votaram no Bolsonaro em 2018 com a esperança de que haveria ali uma mudança muito extrema em relação ao sistema, se frustraram.

se frustraram principalmente em relação à dinâmica da saúde, que é um tema que está escondido nas campanhas presidenciais, mas que nas salas de espelho estão bombando. Aí votaram no Lula em 22, achando que era um momento importante para basicamente salvar a democracia e manter uma institucionalidade das frustrações de 18 a 22 e também estão frustrados. Então, eles estão em busca, há uma demanda por uma alternativa, só que eles ainda não encontraram esse candidato, não acham que nenhuma das opções que está aí, por enquanto, serve para ocupar esse lugar, que não é nenhum nem outro.

Estes entrevistados, eles falam o que sobre saúde? Você já disse aqui que eles não curtem a polarização, que eles estão mais ligados do que a gente supõe em saúde. Queria que você aprofundasse um pouco mais. O que eles dizem sobre as instituições e o que eles dizem sobre segurança pública?

Então, primeiro, por que eu acho o tema da saúde importante para essa conversa, Natuza? Se a gente prestar atenção na cobertura jornalística até aqui, ou das próprias campanhas, não tem ninguém falando de saúde. O assunto é morno. Tem outros temas, por exemplo, segurança pública, a corrupção, que estão no topo. Mas dentro das salas de espelho, principalmente o que as mulheres estão dizendo, e elas vão ser muito importantes nessa eleição, é que elas não estão seguras sobre como o governo Lula tratou a saúde.

grande calcanhar de Aquiles que fez o Bolsonaro perder na visão delas, o apoio delas de 18 para 22, foi a forma como ele lidou com a pandemia. Elas não estão seguras ou não estão informadas? Como elas não têm informação ou não têm como construir raciocínios sobre se o governo foi bem ou mal nessa história, você pode imaginar. A informação não está chegando para elas ou a vivência delas não está sendo capaz.

de convencê-la de que o governo é muito bom. O que a gente já sabe? Este é um problema que Flávio Bolsonaro vai enfrentar na eleição, porque ele vai ter que defender, de alguma maneira, a posição que o governo do pai dele teve na questão da pandemia. Então, por que a qual é importante? Porque ela começa a te mostrar tendências que só vão aparecer lá na frente. Como é que o Lula vai lidar com isso? Como é que o Bolsonaro... Como é que essa alternativa...

que elas estão buscando, vai apresentar. Existe alguma proposta de saúde que não está na mesa? As especialidades? O Brasil já teve programas enormes, como Mais Médicos, a nova forma de lidar com a saúde pública. O que vai aparecer? O ponto crucial é, principalmente essas mulheres, que querem saber isso, mas hoje não conseguem formular claramente a história. Sobre as instituições, existem ali dois sentimentos. E qual é muito sobre sentimento.

O primeiro sentimento é de que os poderes, e principalmente o Judiciário Supremo, passou do limite.

Tem um sentimento de que ele foi um poder muito importante na eleição de 22. Eles reconhecem isso. Reconhecem isso, claramente. Foi um poder que teve uma atuação exemplar, principalmente depois do 8 de janeiro da eleição, mas que agora parece que está exagerando na dose. Ou seja, estão buscando um pouco de moderação.

mas esses eleitores não topam aquela tese que está circulando por aí de que tem que acabar com o Supremo, votar em senadores para se vingar do Supremo. Não é isso que a gente escuta. Pelo contrário, o que as pessoas esperam é algum tipo de reforma, algum tipo de novo regramento, porque foi importante, mas passou do limite. É interessante perceber isso. Não é ruptura que esse grupo está buscando, é reforma.

O tal do código de conduta, por exemplo, poderia ser uma resposta, imagino eu. Agora, tem uma grande interrogação que ronda a cabeça de muitas fontes do governo com quem eu converso e desde o dia 1 do governo, de que eles dizem o seguinte, olha, o governo fez muitas realizações.

Os números da economia estão bons, mas o eleitor não está percebendo isso. Existe um hiato entre o que o governo está elencando como realizações e isso não está se traduzindo em aumento de popularidade. Os entrevistados da sala de espelho estão te dando pistas.

do que está acontecendo. Acho que tem um insight super legal aqui. O PIB brasileiro nos últimos quatro anos cresceu pelo menos 2,5. Em alguns anos cresceu mais. A inflação controlada dentro da meta do Banco Central. O desemprego é o menor dos últimos oito anos. Mas quando você faz pesquisa, e a Quest pergunta isso, para a maioria dos brasileiros a economia piorou, os preços estão mais altos e o desemprego, mesmo estando baixo, as pessoas falam que está difícil conseguir um bom emprego.

Aí você vai para a Qualy e pergunta para as pessoas, mas você está trabalhando? Como é que está a sua vida?

Você não acha que as coisas estão bem ou não? Olha para esses números. E a resposta que as pessoas dão é muito interessante. As respostas caminham na direção de um conceito, Natuz, aqui. Os americanos chamaram de affordability. Ah, você até falou isso para a Renata Lopretti no jornal da Globo. Exatamente. E a gente foi explorar esse negócio. Por quê? Elas falam o seguinte. A minha renda até aumentou, mas o custo de vida associado à minha renda aumentou muito mais.

E aí a gente pergunta, porque é legal dessa dinâmica do grupo, porque o moderador está ali, mas...

A gente indaga, a gente faz uma segunda pergunta, a gente não espera só a primeira resposta. E a gente fala, mas como é que pode você dizer que os custos de divisa estão aumentando se, na verdade, você olha o patamar econômico, teve ganho real de renda? O que está acontecendo? E aí a gente descobre três elementos.

que matam a charada. Primeiro, endividamento. As pessoas estão tendo problemas gravíssimos com cheque especial, cartão de crédito, consignados, e isso está atrapalhando a vida delas. Dois, o patamar do preço. O Lula prometeu picanha e cerveja, e as pessoas não estão conseguindo encontrar bem-estar para vivenciar a picanha e a cerveja porque não estão conseguindo consumir esse produto. E o último e mais importante, a forma como os brasileiros estão jogando.

Atusa, em salas de espelho com homens e mulheres, você não escuta a palavra bet, jogo. Quando você vai para a sala só com homens, aí eles revelam, eles estão jogando escondido. Ou seja, eles jogam individualmente nos seus celulares, perdem dinheiro, não assumem, estão dizendo nos grupos que estão ganhando. Mas, na verdade, o dinheiro da família está sendo consumido quase que sem perceber por esse mecanismo individual.

29% dos entrevistados disseram que as principais justificativas para começarem as apostas são a tentativa de obter dinheiro rápido para pagarem as contas. E 27% buscam uma renda extra. 5 em cada 10 endividados já fizeram pelo menos uma aposta e 34% deles continuam apostando atualmente.

É sim um comportamento de risco para essa população que está com o nome negativado. 46% dos entrevistados, os inadimplentes, apostam. Ou seja, a pessoa está com o nome negativado e continua apostando. Então, quando você mistura dívida, jogo e preço...

Você entende o sentimento? Por que a economia do número não combina com a percepção? Porque, na verdade, a coisa não está fechando a conta. Esse é um achado super importante, porque ele revela um mecanismo que está silenciosamente consumindo o custo de vida e, por isso, a gente não entende. Tem renda, mas, de alguma maneira, essa renda está indo pelo ralo por conta desse comportamento de jogo. Espera um pouquinho que eu já volto para continuar a minha conversa com Felipe Nunes.

Muito provavelmente o governo está fazendo suas pesquisas de sala de espelho. Não conheço nenhum governo que não faça. Não é à toa que o presidente Lula criticou numa entrevista para o ICL o que ele chamou de jogatina desenfreada. Então, isso já entrou no radar do governo. Eu acho que não é de hoje, né? Mas essa frase com que você está me contando agora, ela ganha uma outra dimensão. Você falou das entregas do governo na área da economia.

E na área social, programas sociais do governo, por exemplo, Pé de Meia ou outros que você tem ouvido nessas salas de espelho? Então, Natuz, aqui tem outro insight que, assim, acho que vai ajudar muito a gente a entender os desafios que o governo tem. O governo, de fato, tem uma série de políticas públicas novas, além do Bolsa Família, que é o tradicional, Minha Casa Minha Vida, você tem o Pé de Meia, o Desenrola, tem o gás, a energia elétrica. E a pergunta que fica e que eu sempre me faço é porque...

essas coisas não estão gerando o mesmo resultado que já geraram no passado? Veja só. Primeiro, um pedaço dessa explicação tem a ver com o fato de que os brasileiros, eu já mostrei isso em pesquisa quantitativa da Quest, não olham mais pra esses programas como favores, olham como direitos. Se é um direito, você não tem por que ter gratidão. Então, esse é um elemento da conversa. Olha o que a gente descobriu nas salas de espelho.

O eleitor olha pra essas políticas e não consegue entender de que maneira elas podem produzir status social.

Não é sobre renda. O que o eleitor está buscando, no fim das contas, para que isso vire um mecanismo eleitoral, não é ter mais dinheiro, necessariamente. É ter status. Faz um raciocínio que eu ouvi nos grupos. Primeiro, por que o Lula tinha tanto sucesso quando falava do pobre viajar de avião? Não era dar dinheiro para as pessoas. Era dar status, porque antigamente só o rico viajava de avião, agora o pobre está viajando, status.

Por que era tão importante falar da universidade pública? Porque quem estudava na USP...

era um filho da classe média alta. Ele foi lá e colocou os pobres, ele gerou status social. Quando ele falava de ter o carrinho, ter a geladeira, ele estava falando de quê? Status, não é necessariamente renda. É, mas se estivesse faltando a renda de maneira crítica, seria renda. Claro, é porque a economia hoje, para ela gerar benefícios eleitorais, ela tem que estar associada a algum mecanismo de status. A gente está conversando com um tipo de eleitor...

que de alguma maneira conseguiu melhorar sua renda, certo? Só que hoje, mais aumento de renda não está gerando resultados políticos e eleitorais. Porque para ter o segundo benefício, não pode ser só renda, tem que ter status associado. E o que eu escuto nos grupos é o seguinte, eu não consigo nem trocar meu telefone com esses benefícios que o governo me dá. Eu queria ter um telefone melhorzinho, mas eu não consigo. Ou seja, aquilo que era lá atrás...

O status do avião hoje é do celular. E as pessoas não estão conseguindo fazer essa troca. Então elas não conseguem ver o resultado. Elas reclamam, por exemplo. Pô, ganhar o botijão é melhorar minha dívida? Não melhora meu status na sociedade. As pessoas falam disso. Claro que elas não falam de status nessa maneira. E aí, claro...

Óbvio, porque as pessoas estão agora influenciadas por outros padrões, que não mais o da comunidade. Você vivia ali num bairro e o vizinho tinha uma vida um pouco melhor. Agora não. Você está nessa plataforma que te mostra o mundo, que te vê o carro dos famosos, a vida dos bacanas e tal. Você passa a ter uma privação relativa, que é o termo que os sociólogos usam para isso, enorme. E aí o status ganha uma relevância.

Por que isso é ainda mais importante no Brasil? E o que a gente está descobrindo nas salas, Natuza? O brasileiro adora uma pulseirinha VIP. Ele adora ir para um lugar que dá para ele uma ideia de destaque. Ir para a área VIP do show é o sonho dessas pessoas, de alguma maneira. Isso é uma tradução de um sentimento que essas políticas de hoje não estão sendo capazes de produzir. Então, sem o bem-estar do status, da diferenciação, da distinção, como dizem os sociólogos...

o efeito eleitoral não aparece, já que a renda, como você muito bem falou, mínima, está resolvida. As pessoas têm programa social que garante o básico. O que é o A+, é o status, e esse status não está vindo. E eu acho isso, numa precisa quantitativa, seria impossível entender nesses termos. A frase do eu não consigo trocar meu celular é mais ou menos a frase do não podemos desistir do Brasil, porque ele sintetiza, no fundo, o sonho que não está sendo realizado.

Você falou de homens e mulheres em relação aos jogos. No geral, homens e mulheres dão feedbacks diferentes, têm dado feedbacks diferentes nessas salas de espelho? Eu te pergunto porque houve um distanciamento de gênero nas eleições de 2022. Isso ainda deve se manifestar dessa maneira nessas eleições?

Sim, por isso que a gente faz grupos mistos, ou salas de espelho mistas, só com homens e só com mulheres, porque aí você entende um pouco da dinâmica. É muito interessante ver que as mulheres, quando elas estão sozinhas, elas falam de alguns temas. Os homens, quando estão sozinhos, falam de alguns temas. Quando eles estão misturados, as coisas são evitadas. É muito interessante essa dinâmica. Então, por exemplo...

As mulheres são claramente defensoras de um estado de bem-estar social. Elas sabem da importância que o estado tem para produzir saúde e educação, principalmente olhando para os seus filhos. As mulheres estão muito preocupadas com o que vai acontecer com essa nova geração que elas, além de ter que tomar conta, e elas falam isso abertamente nos grupos dessas independentes, além de tomar conta...

da casa, porque sobra sobre elas e elas sabem que isso é um fardo enorme que elas têm que carregar, elas agora também são chefes de família, porque estão cada vez mais competitivos no mercado de trabalho. Então, isso diz pra elas basicamente o seguinte, se não tiver um governo que me ajude, e essa palavra é interessante porque numa sociedade com tanta desconfiança as mulheres olham pro Estado como um apoio, como um auxílio pro fardo enorme que elas carregam. Os homens falam de outras coisas.

Elas estão tão ligadas quanto os homens no status, nessas salas de espelho, ou estão menos? Menos. Os homens estão mais preocupados com o status. Exatamente porque eles estão mais preocupados com o status, eles discutem nos grupos, eles revelam a coisa da bet, o jogo escondido, mas eles também falam muito mais sobre segurança pública.

É como se a vida dos homens estivesse mais ligada ao medo, à proteção, à ideia de circular mais no mundo e estarem preocupados com as soluções punitivistas que eles esperam que aconteçam. Onde é que eles se encontram, Natuza?

eles se encontram numa crítica ao atual governo que dá a eles a sensação de frustração, de um certo aposta que foi feita e de uma frustração conquistada. Eu vou te dar dois exemplos que eu vi nas salas de espelho. No caso das mulheres, foi assim. Aquele mesmo Lula que construiu a Maria da Penha, hoje está deixando a violência com a mulher...

explodir. Elas colocam na conta dele? Acham que o governo não está fazendo o que devia fazer para garantir mais proteção para elas. E elas apostavam que a vida delas seria mais segura porque foi o Lula que fez Maria da Penha. O que os homens dizem? Olha, a aposta que a gente fez nesse governo foi que nós seríamos capazes de dar às nossas famílias uma condição de vida melhor e a gente não está conseguindo ter picanha e cerveja dentro de casa para ter aquele momentozinho de lazer. E aí tem uma descoberta, Natuza, que é super importante.

escala 6x1. De repente, essa história aparece no grupo. E o que a gente descobre é que nem todo mundo está dizendo que defende o fim da escala 6x1 para ter tempo com a família, para ter tempo de lazer, para ter tempo de foco. Claro que tem gente que quer por isso, e é legítimo que isso aconteça. Mas tem um pedaço importante que defende Natuza.

que, na verdade, esse dia a mais na vida seria uma ótima oportunidade para um bico, para um trabalho extra, para aumentar a renda, o que é uma sinalização de que esses grupos ajudam a gente a entender as múltiplas razões que unificam, como a gente vê, uma unidade enorme em relação...

Agora, surgiu alguma coisa em relação à percepção pessoal dos atuais candidatos já postos? Lula, Flávio Bolsonaro, eu não sei se já deu tempo de você ouvir sobre Ronaldo Caiado na sala de espelho ou algum outro nome?

A gente estimula todos os candidatos até para que a gente tenha ali uma mensuração. Perguntando, ah, o que vocês acham de fulano? É, e aí a gente apresenta a pessoa, né? No caso de Lula, você não precisa apresentar tanto porque ele é um nome mais conhecido. Outros a gente tem que estimular, mostrar, contar um pouco da história e as pessoas então reagem. O que a gente tem sobre Lula? Ele é alguém que, para esses independentes...

é ainda sinônimo de confiança, é alguém que você confia na palavra, naquilo que diz, mas que sofre um processo de desgaste, tem um certo cansaço em relação às mesmas fórmulas aplicadas no passado. No caso do Flávio, é o inverso, tem uma desconfiança enorme de não saber quem é essa pessoa, de confundir ele com os irmãos dele, é muito interessante, tem muita gente nos grupos, né?

que fala, não, é aquele menino dos Estados Unidos, ou seja, tem uma confusão ainda em relação a quem é propriamente essa figura, tem o nome Bolsonaro, mas não sabe quem é, e essa desconfiança, para quem o conhece dos independentes, desperta uma dúvida muito crucial sobre ele, que é qual a relação que o Flávio tem, no caso do Rio de Janeiro, com...

ou crime organizado, ou com facções, tem uma coisa ali de... Será que tem alguma coisa errada no caso do Rio? Surgir essa desconfiança, mas ninguém consegue elaborar muito bem essa história. No caso de Caiado, o que fica forte quando a gente apresenta o nome é, ah, eu já ouvi falar, já foi candidato no passado, me lembro dele e tal.

Os mais velhos. Os jovens não sabem, não têm ideia. Ele foi candidato, para quem não sabe, em 1989. Exato. Lá na primeira. Os jovens não conseguem reconhecer, mas quando a gente apresenta o perfil, o que surge dele é será que esse é um candidato radical ou um candidato moderado? Curioso isso, porque o Caiado se lançou faz duas semanas, no máximo. Está aí há um tempão, mas... E a mensagem dele é uma mensagem dúbia ainda. Você não sabe o que... E aí

As pessoas estão sentindo isso. Ele defende a anistia pelos atentados golpistas e, ao mesmo tempo, ele fala que ele é do diálogo. A Malu Gaspar até cita essa dúvida, essa incongruência nas duas mensagens. É curioso que na sala do espelho tenha aparecido.

O que significa que esse é um desafio importante para ele, né? O Zema é visto nas salas, quando a gente mostra a história dele, é curioso. Ele é visto como um outsider, um cara mais distante da política e tal. E aí ele tem um traço, assim, nos grupos mais do Sudeste. No Nordeste ele é muito desconhecido, no Sul muito desconhecido. Mas no Sudeste, São Paulo ele tem ali algum conhecimento. Minas, obviamente, tem mais. Ele é visto como um certo outsider que deu certo.

Ele é um outsider, mas não é muito radical. É diferente do Renan Santos, que quando a gente apresenta, é curiosíssimo. Ele parece, Natuza, nos grupos...

muito mais jovem do que na verdade é. As pessoas falam dele como se ele fosse um garoto. Hoje ele tem 42 anos, se não me engano. Aliás, uma idade próxima da do Flávio. Mas ele parece muito mais jovem na atitude. Então isso atrai os jovens, de alguma maneira, a escutar o que ele está dizendo, mas o público adulto e mais velho rejeita rapidamente. Isso é para dar alguns exemplos de como os atributos, o gestual...

as mensagens começam a ser traduzidas pelo eleitorado. E como eu disse, eu estou falando de um público que sabe que se a polarização for mantida, vai ter muita dificuldade de escolher, porque eles estão mesmo buscando uma outra opção. Felipe, às vezes dá briga em sala de espelho?

Já deu briga. Em 2022, especialmente, quando a gente tinha um nível de polarização afetiva muito alto, foi uma eleição muito violenta, todo mundo viveu essa história, a gente já teve que separar pessoas de um lado ou de outro que começaram a se ofender de uma maneira muito agressiva. A gente teve que interromper a discussão para garantir, claro, a integridade física das pessoas que estavam ali. E assim, cenas muito tristes de uma eleição.

que 22 foi assim, em que as pessoas estavam levando para o pessoal. Virou uma eleição de vida ou morte, uma eleição de intolerância, uma eleição de que o outro... Isso foi muito perigoso. Eu não tinha visto isso antes. Foi a primeira vez que eu vi, nesses 10, 15 anos que eu trabalho com pesquisa, acontecendo. E você acha que essa eleição vai ter um clima parecido, pelo que as salas de espelho estão te mostrando?

Então, por enquanto, a gente ainda está protegido pelo clima da Copa. É como se a gente ainda estivesse ali num cenário de pré-eleição. Então, as pessoas estão topando conversar um pouco mais. Esse cansaço com a polarização é claro que ajuda. As pessoas vivenciaram dores muito sinceras nas suas famílias. Então, os eleitores mais fiéis a cada um dos polos, esses não estão contemplados nesses grupos que a gente está aqui conversando.

Você está um eleitor mais moderado, que está em busca, na verdade, de uma alternativa à polarização. Então, acaba que isso ainda não apareceu. Mas eu acho que...

Se houver algum tipo de agravamento do clima eleitoral, ele vai acontecer depois que a Copa terminar e as pessoas aí estiverem prestando mais atenção no processo. Nossa, é incrível. Você jura que me leva para uma sala de espelho? Convidadíssima. É uma experiência impressionante porque é antropologia pura, né? Todinha.

É muito legal ver a interação, as respostas. Adoro, Natuzo, quando alguém está no grupo. O grupo é diverso, é independente, mas tem gente mais à direita, mais à esquerda. Acaba sendo ali um pouco mais conservador, progressista. E quando alguém faz uma frase, você vê rapidamente a cara de alguém fechando. E aí a moderadora fala, por que você está achando isso aí estranho? E você provoca conversas que acabam, de fato, tirando insights como esse que a gente conversou aqui hoje.

Muito obrigada, Filipe. Eu que agradeço. Prazer estar aqui de novo. Vamos falar muito esse ano, se Deus quiser. Bom trabalho. Conto com você ao longo do próximo período. Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida.

Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Catarina Kubayashi. Este episódio usou áudios do documentário Entre Atos, de João Moreira Salles, da Videofilmes. Eu sou Natuza Neri, fico por aqui. Até o próximo assunto.

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