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A lei contra a misoginia: os embates no Congresso e nas redes sociais

07 de abril de 202629min
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Convidada: Nathalie Malveiro, procuradora de Justiça Criminal do MP-SP e mestranda em Direito Penal pela USP. No fim de março, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. A votação na Casa foi unânime, mas o consenso encontrou a porta fechada na Câmara dos Deputados, onde parlamentares da oposição fazem críticas e prometem trabalhar para barrar o avanço do projeto. Nas redes sociais, o debate público está contaminado com informações falsas sobre o escopo da lei – há conteúdos que afirmam que um mero “bom dia” poderia levar à prisão. O texto aprovado no Senado define que o crime de misoginia se manifesta por violência física, psicológica, difamação ou injúria contra mulheres. Para explicar o que diz a letra da lei e o alcance real dela caso seja aprovada, Natuza Nery entrevista Nathalie Malveiro, procuradora de Justiça Criminal do MP-SP e mestranda em Direito Penal pela USP. Nathalie avalia se faz sentido equiparar a misoginia ao racismo, aponta que tipo de ações e falas seriam consideradas crimes e analisa também as críticas que relacionam o projeto ao cerceamento da liberdade de expressão.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
N

Nathalie Malveiro

ConvidadoProcuradora de Justiça Criminal
Assuntos3
  • Lei da MisoginiaEquiparação da misoginia ao racismo · Feminicídio · Violência de gênero · Fake news sobre a lei · Machosfera e misoginia
  • Legislação e JustiçaCríticas à lei · Liberdade de expressão · Censura e segregação de gêneros
  • Misoginia e Machismo NaturalizadoEducação e machismo estrutural · Desigualdade de gênero · Violência contra a mulher
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Tem coragem de tirar a vida de uma mulher e deixar os filhos sem a mãe. Tá lá na cadeia o indivíduo, daqui a pouco ele tá na rua, aí vai ter a próxima vítima, o próximo feminicídio. E assim todo dia acontece, todos os dias. Foi apenas em 2015 que o feminicídio se tornou lei. A letra que define esse crime é bem clara. Sempre que uma mulher for assassinada pelo fato de ser mulher.

Mas mudar a lei não foi suficiente. Desde lá, uma década atrás, o número de feminicídios cresce sem parar. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025 foi o ano que mais registrou esse crime. 1.568 casos.

Quantas vezes mais uma mãe vai ter que passar numa reportagem agora como eu estou? Quantas vezes? É como se a cada seis horas uma família brasileira perdesse uma mãe, uma filha, uma irmã para o ódio de gênero.

Observe o que mostram os dados coletados pelo Fórum de Segurança Pública. Cerca de um terço das mulheres brasileiras sofreu agressões verbais somente no último ano. E mais da metade da população brasileira relatou terem visto ou ouvido uma mulher ser xingada ou humilhada.

É uma dor que está presente na família, na escola, no trabalho, no trânsito, em praticamente todos os lugares, se não em todos os lugares. É uma tragédia que, quando não é interrompida na origem, se torna uma escada visível de violências.

O machismo vai ser a forma como a sociedade se estrutura de maneira a hierarquizar, colocar o homem como superior à mulher. Então a gente vai ver isso em vários âmbitos da vida, no dia a dia do casal, vai ver no trabalho, no mercado de trabalho. Algumas falas que a gente acaba escutando, querendo ou não, e toda mulher já escutou em algum momento da vida, ele pode reforçar, sim, essa visão social de que somos inferiores, né? Fisicamente, intelectualmente, somos inferiores aos homens.

Em geral, essa violência vai sendo alimentada com o que para muitos pode até parecer inofensivo. Começa com uma piada sobre a capacidade de dirigir ou um comentário jocoso sobre a menstruação na rede social. E assim, no degrau mais baixo, vem o discurso, que vai aumentando, vai aumentando, que constrange, diminui e agride as mulheres.

Vocês já ouviram essa frase? Não precisa reagir assim, você está de TPM? Muitas de nós já ouvimos essa e outras variações em situações de desqualificação e desprezo. Isso é misoginia. A misoginia é o ódio à mulher, é um aprofundamento do machismo, é o desprezo pela mulher. A misoginia é muito mais violenta, seria o machismo aprofundado e com esse elemento do ódio.

permite que os homens acreditem que ele tem o poder sobre a vida e a morte de uma mulher. Ocorre que no topo dessa escada, que vai ficando mais e mais cruel a cada degrau, está o feminicídio.

Na mensagem que a polícia conseguiu ali durante o inquérito, a Gisele diz o seguinte, você não me respeita não, não sabe conversar, ontem enfiou a mão na minha cara. O tenente coronel Geraldo Neto responde, eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa, com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa, provedor e fêmea beta, obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser.

Gisele Alves foi encontrada morta com um tiro na cabeça do dia 18 de fevereiro no apartamento onde o casal morava no Brás. De acordo com a investigação da corrigedoria, a versão apresentada pelo oficial de que Gisele havia se suicidado depois de uma discussão não era verdadeira. Para os investigadores, ela foi assassinada pelo próprio Geraldo Neto.

Para tentar interromper essa escalada na violência contra a mulher, o Senado aprovou por unanimidade o projeto de lei nº 896. Ele equipara a misoginia ao crime de racismo. O mesmo já aconteceu com a LGBTfobia, por exemplo. Isso aconteceu em 2019. Mas por um caminho diferente do Congresso. Foi a partir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. A proposta que saiu do Senado define o crime como a manifestação explícita de ódio às mulheres.

A proposta altera a lei de racismo e inclui a misoginia entre os crimes de preconceito, de raça, cor, etnia, religião e nacionalidade. A pena será de um a três anos de prisão e multa. Dessa forma, os crimes não prescrevem e são inafiançáveis. O texto também prevê punição para quem incitar ou induzir atos de misoginia, o que inclui a internet, onde vimos crescer discursos de ódio contra as mulheres nos últimos anos.

E a pena deverá ser dobrada nos casos em que a misoginia for cometida no contexto de violência doméstica. O projeto foi aprovado com 67 votos a favor e nenhum contrário no plenário do Senado. Mas o consenso parou na porta da Câmara dos Deputados. Parlamentares que criticam o projeto falam em censura e mordaça ideológica. Nas redes sociais, os discursos se dividem.

Será que um debate de conflito de opiniões, ou de conflito de opiniões religiosas, políticas, isso pode caracterizar? Não. O limite ali é caracterizado pelo ódio em si. Se há uma expressão, se há uma aversão tácita traduzindo o ódio da figura feminina, isso de fato vai caracterizar a misoginia.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é a lei contra a misoginia, o embate no Congresso e nas redes sociais. Neste episódio, eu converso com Nathalie Malveiro, procuradora de Justiça Criminal do Ministério Público do Estado de São Paulo e mestrando em Direito Penal pela Universidade de São Paulo. Terça-feira, 7 de abril.

Nathalie, muito tem se falado sobre o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo. Como é que essa lei se aplicaria na vida real? Esse projeto de lei é bastante simples. Na verdade, ele equipara a conduta de misoginia e inclui essa conduta. E é uma lei que já existe desde 1989, que é a lei que trata sobre o preconceito de raça, de origem, de cor. Para que não fique nenhuma dúvida do que é misoginia, porque acho que esse é o ponto mais importante em relação a esse...

tema, para que a gente não vá buscar a interpretação do que é misoginia num buscador da internet, a própria lei define o que é misoginia. Considera-se misoginia a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres. Isso vai ser considerado misoginia para a aplicação dessa lei.

Nas redes sociais, desde que o Senado aprovou esse projeto, começaram a surgir uma série de mentiras. Então, eu quero testar essas mentiras contigo, tá? Primeiro, fazer elogios a uma mulher passaria a ser crime. Segundo, discordar de mulheres em debates ou discussões também...

Poderia levar alguém para a cadeia. Terceiro, menos empresas vão querer contratar mulheres por medo de cometer misoginia. Queria que você nos explicasse cada um desses pontos e por que eles não são verdadeiros.

Em que um bom dia pode exteriorizar ódio ou aversão às mulheres? Me parece que não há nenhuma possibilidade de que isso aconteça. Em que uma discordância de uma opinião com uma mulher pode exteriorizar ódio ou aversão às mulheres? Em que uma não contratação pode exteriorizar ódio ou aversão?

Pode exteriorizar ódio ou aversão. Então, efetivamente, se a empresa não contratar mulheres, ela pode estar incluída não nessa e até em outras legislações, legislações trabalhistas que falam sobre a discriminação de gênero. Na verdade, o próprio fato de empresários dizerem que não vão contratar mulheres é que pode ser considerado em exoginia e não contratar as mulheres.

Então, a gente tem que deixar tudo muito claro, porque veio muita fake news em cima dessa aprovação desse projeto de lei. Um exercício bom da gente fazer é a gente trocar a questão de mulher para a questão de raça ou cor, por exemplo. Quando a lei veio lá em 1989, também se achou um absurdo, mas agora tudo vai ser crime, então não posso mais fazer piada com o negro que vai ser crime. E causou aquela comoção inicial e hoje nós temos muito...

Claro que não se pode fazer piadas com negro porque é crime. Temos muito claro que não pode se fazer piadas com, por exemplo, nordestinos e que é crime. E com o tempo, nós também vamos entender que algumas condutas em relação às mulheres também são condutas que diminuem, que desqualificam, que desumanizam as mulheres e que, portanto, vão estar incluídas no escopo dessa legislação.

Esse exercício que você propõe, ele me parece bastante didático. Agora, por exemplo, fazer uma piada, que eu já ouvi muitas, você já deve ter ouvido inúmeras do só podia ser mulher. Algo errado deu, só podia ser mulher. Isso seria crime, por exemplo?

Pode depender do contexto. Por exemplo, vamos pegar um caso aí que aconteceu outro dia de um jogador de futebol que, ao fim do jogo, queria reclamar da juíza mulher e falou não tem como uma mulher apitar um jogo tão importante. E eis que saca um argumento para justificar a derrota. Ele disse que a Federação Paulista de Futebol cometeu um erro porque colocou uma mulher para apitar a partida. A frase do jogador do Bragantino foi a seguinte, abre aspas para ele.

Não adianta colocarem uma mulher para pitar um jogo desse tamanho. O Gustavo Marques, depois de tomar banho e ir ao vestiário, procurou a imprensa na zona mista para pedir desculpas. Ele recebeu mensagens da esposa, recebeu mensagem da mãe e estava ali para pedir desculpa pelo que tinha dito.

Se nós trocarmos isso para cor, por exemplo, não tem como uma pessoa negra apitar num jogo tão importante. Obviamente, nós estaríamos diante de uma questão de discriminação, de preconceito. Então, vê como fica claro quando a gente troca a discriminação, o preconceito, quando a gente passa a falar de uma pessoa negra que nós já entendemos, nós já, como sociedade, nós já aprendemos que isso não se fala nem em brincadeira. Então, nós vamos ter que aprender que isso em relação à mulher também é assim. Não se fala nem em brincadeira.

infelizmente, essa lei não vai acabar com a piada machista, não vai acabar com o comentáriozinho maldoso de que está em TPM ou de que só podia ser mulher. Isso não vai acabar, mas vai acabar com comentários mais agressivos e mais hostis em relação a todas as mulheres, porque quando aquele jogador falou que um jogo desse porte não poderia ser apitado por uma mulher, não foi só aquela mulher que ele ofendeu.

ofende todas nós, mulheres, porque ele trata como se nós não tivéssemos a capacidade de apitar um jogo de futebol. Mesma coisa quando ele fala, só poderia ser mulher para fazer essa besteira no trânsito. Claro que nós nos sentimos ofendidas, mas é uma questão muito menor, que não tem uma repercussão social. Então pode ser considerada, por exemplo, uma injúria em relação àquela mulher, mas não um crime de discriminação geral, como quando ele ofende todas as mulheres.

Se a gente ampliar um pouco, então, o alcance dessa lei, o que acontece com esses movimentos ou perfis da chamada machosfera, os movimentos Red Pill, por exemplo? Eles estariam criminosos?

Exatamente esse conteúdo que desqualifica as mulheres, que desumaniza as mulheres, que faz com que as mulheres sejam vistas como seres inferiores, esse tipo de conteúdo vai sim estar abrangido por essa legislação.

Propósito do homem está sempre acima do propósito da mulher. Com o passar do tempo, o valor sexual do homem aumenta e o da mulher diminui. Sexo é extremamente fácil e barato hoje em dia, graças ao feminismo. Um dos problemas da infelicidade feminina é que a mulher não quer servir.

Essas são apenas algumas das muitas frases machistas difundidas na internet todos os dias em perfis com milhares de seguidores. 300, 800 mil. Curso online sobre a filosofia dos Red Pills. Homens que acreditam que são superiores às mulheres e que o feminismo deve ser combatido, pois ele estaria oprimindo a classe masculina.

O mundo que esses grupos habitam na internet tem nome. Machosfera. Um movimento que começou nos Estados Unidos para combater o crescimento do feminismo no início dos anos 80. Com a chegada da internet, eles passaram a atuar de forma anônima em locais escondidos da web. Mas hoje estão disseminados nas redes sociais mais conhecidas.

O NetLab da UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez um levantamento em 2024. Eles chegaram a 137 canais de uma rede social em que o conteúdo misógino, esse conteúdo masculinista, ele é divulgado. Para você ter uma ideia, esses 130 canais produziram mais de 100 mil vídeos.

que foram vistos 4 bilhões de vezes, tiveram 23 milhões de comentários. Ou seja, é toda uma geração de meninos, de homens, sendo educados por esse tipo de conteúdo, que desqualifica a mulher, que diz que a mulher tem que ser submissa, que a mulher deve mesmo ganhar menos, porque, afinal de contas, ela tem que sair mais cedo para buscar o filho na escola. Então, olha só como isso vem educando esses meninos de uma forma absolutamente misógina, de uma forma em que eles odeiam as mulheres.

Nós vimos também há pouco tempo atrás que viralizou ali uma trend em que os meninos ensinavam o que fazer quando a mulher dizia não a um pedido de casamento, a um pedido de namoro. E eles reagiam com socos, com chutes, até com facadas. Vim ensinando o que os homens supostamente deveriam fazer ao receber um não diante de um pedido de casamento. E aí eles batem em bonecos ou...

no ar mesmo, fingindo ser uma mulher, esfaqueiam, pegam uma arma de fogo e esse seria o comportamento que esses influenciadores estariam divulgando. Conteúdo dessa trend em questão, que faz, obviamente, apologia à violência contra a mulher, discurso de ódio contra a mulher e potencial cometimento de outros crimes.

Esse tipo de conteúdo é um conteúdo que está divulgando e está disseminando o ódio em relação às mulheres. É o ódio da mulher quando a mulher ousa dizer não para esse homem. A Maria da Penha vem dizendo isso, que a misoginia virou um produto, porque esse tipo de canal de internet, eles faturam em cima desse tipo de conteúdo.

80% desses canais, eles ou vendem produtos, ou vendem cursos, ou eles cobram para a participação do chat, ou seja, eles monetizam os cliques, os likes dentro desses canais. E a gente tem que fazer alguma coisa, porque senão daqui a 20 anos eu vou estar aqui, uma colega minha vai estar aqui, uma outra jornalista ou você, e a gente vai estar falando do mesmo assunto, porque nós estamos formando meninos que lá na frente vão ser homens violentos.

Muita gente, muitos homens, sobretudo, eles não veem a violência em comentários como esse, de que a mulher deve ser submissa. Ou eles não veem violência ao dizer que a mulher casada não pode se maquiar ou ela não pode usar roupa curta.

E elas talvez não entendam que esse tipo de violência que sai como um comentário, ele é a antessala de violências maiores. Isso é que parece que está difícil da sociedade que não se engaja nessa luta, parece que está difícil de entender.

É importante a gente dizer que a violência contra a mulher, ela ocorre exatamente no momento em que a mulher desobedece, no momento em que a mulher diz não àquele homem. Então, se aquele homem tem uma expectativa que aquela mulher deve obediência a ele e ela diz não, quando o filho desobedece, a gente castiga. Então, é a mesma dinâmica. Então, se ele aprendeu que aquela mulher deve obediência a ele e aquela mulher se rebela...

não obedece ou contesta aquela determinação que ele deu, usando maquiagem, querendo trabalhar fora, querendo continuar os estudos, rompendo o relacionamento, ele se sente no direito de punir aquela mulher com a violência. Então, olha como essa dinâmica está completamente interligada. Se a gente está ensinando os meninos...

que a mulher tem que ser obedecida por ele, que ele é superior à mulher, que a mulher deve obediência. E se a gente está ensinando as meninas, cada vez mais, que elas têm que estudar, que elas têm que trabalhar, que elas têm que ter autonomia e que elas são donas dos seus narizes e donas dos seus destinos...

Como é que a gente vai fazer quando juntar esses meninos que aprenderam isso com essas meninas que aprenderam aqui? Os meninos vão querer submissão e essas meninas vão dizer que não. Como a gente está criando uma sociedade que vai naturalizar de novo a violência ou essas meninas vão continuar sendo mortas, como nós agora. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Nathalie Malveiro.

Chama atenção, por exemplo, que mulheres que são líderes, que são eleitas, que são reconhecidas pelo poder que tem, inclusive o poder de voto, porque tem lugar no Congresso Nacional, elas se colocaram contrárias a essa equiparação, a essa legislação. Vou citar algumas mulheres.

Julia Zanatta, que é do campo bolsonarista, chamou o texto de censura. Queria muito ter um olhar sobre esse aspecto, de que o texto levaria a uma censura. E aqui, outro exemplo, falou que a lei estimularia uma segregação de gêneros. Também queria ter um olhar sobre isso. E a senadora Damaris Alves, que inicialmente votou a favor, depois se disse em dúvida.

Queria que você nos ajudasse a entender o posicionamento dessas mulheres, que são mulheres de poder, são mulheres em posições de liderança. Primeiro que acho que a gente tem que tranquilizar todo mundo que é contra essa legislação.

que vai demorar muito tempo para o judiciário aplicar essa legislação como ela deveria ser aplicada. A própria lei do racismo levou anos até que os tribunais começassem a aplicar adequadamente essa legislação. Então, o judiciário é um poder bastante conservador e vai demorar para aplicar essa legislação como ela deveria ser aplicada. E, infelizmente, vai demorar para a gente começar a ter condenações por misoginia.

O que a gente pode falar em relação a essas mulheres é que, infelizmente, elas se colocam a serviço de homens que querem conservar, conservadores, esse tipo de sociedade que a gente tem hoje em dia, que é boa para os homens, mas não é boa para as mulheres. Nós estamos morrendo na mão dos homens. Óbvio que nós queremos mudar alguma coisa, mas, como eu disse, dos likes...

monetiza, enfim, na internet, muitos políticos também tiram lá os seus likes e os seus votos, mantendo ali uma dinâmica de que são conservadores, que essa lei vai criar discriminação reversa. Causou isso em relação ao racismo de cor, por exemplo?

Eu não vejo isso. Esse preconceito de raça, que já é previsto na lei desde 1989, causou uma segregação entre brancos e negros no nosso país. O que permitiu foi que negros não mais sofressem uma discriminação abominável, como nós, mulheres, estamos sofrendo.

Ou que nos casos de discriminação isso pudesse ser punido pelo judiciário. E sob a ótica da liberdade de expressão, de que a lei provocaria uma censura, eu fiquei muito na dúvida sobre esse ponto.

A gente falar algo negativo em relação a uma pessoa que, por exemplo, venha do Nordeste. Alguém vai defender que isso é liberdade de expressão? Trazer uma característica e imputar uma característica negativa a uma pessoa negra. Alguém vai defender que isso é liberdade de expressão hoje, em 2026? Não, é a mesma coisa. Nós naturalizamos algumas ofensas contra a mulher que, aos roucos, nós vamos desnaturalizar, como nós fizemos em relação a...

cor, a raça e a procedência. Exatamente da mesma forma. Essa discriminação e o preconceito, ele vem muitas vezes revestido de piada, de liberdade de expressão, de liberdade religiosa. O que nós vamos começar a fazer é desnaturalizar isso. Não é piada, não é engraçado, não é liberdade de expressão, é ofensa.

Não é liberdade religiosa, é submissão. Então, é isso que nós vamos ter que começar a trabalhar e o judiciário vai trabalhar com toda a calma, com toda a cautela, dentro dos parâmetros que essa própria lei traz. Então, a misoginia está inserida dentro de uma legislação que já existe. Agora, a gente naturalizou a violência contra a mulher, a gente naturalizou as ofensas contra a mulher, a gente naturalizou a discriminação contra a mulher.

Nós tivemos, há pouco tempo atrás, um presidente que dizia que não contrataria mulheres porque elas engravidam.

Nós vamos ter que aprender como sociedade que isso não é correto, como nós aprendemos em relação à cor, raça e procedência. Você citou uma expressão que se conecta muito com aquela ideia de censura, a liberdade religiosa. Um pastor que, do púlpito...

pregue que a mulher tem que ser submissa ao homem. À luz dessa legislação, se ela de fato for aprovada pela Câmara dos Deputados, esse pastor, por exemplo, ele poderia ser punido por esse tipo de discurso? Eu preciso avaliar até que ponto ele está lá exercendo a sua liberdade religiosa.

Até que ponto realmente os preceitos da Bíblia que ele segue devem ser interpretados dessa forma? E até que ponto em 2026, em um país em que mais de 50% dos lares são chefiados por mulheres, a gente ainda tem que ter esse discurso de que a mulher tem que se submeter ao marido? Mais de 50% não tem marido, tocam a casa sozinha. A gente sabe aí a quantidade de mulheres que são mães solo. Será que também esse discurso não tem que ser atualizado dentro desse ambiente da igreja?

Porque já é uma preocupação a violência doméstica em relação a mulheres evangélicas. O Fórum de Segurança Pública lançou estudos deste ano, de 2025, e ele já traz um índice mais alto de mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica, em torno de 42%, quando nas mulheres em geral é em torno de 30 e poucos por cento, católicas 35%. Então nós já temos um número mais alto de mulheres vítimas de violência doméstica dentre as evangélicas.

muito, possivelmente, por conta deste discurso, desta colocação ali em relação ao casamento, em relação à mulher ter que se submeter ao marido. Será que não existe formas de colocar isso, que uma interpretação da Bíblia mais adequada ao século XXI, que traga, então, mais tranquilidade para aquela família? Porque eu imagino que qualquer líder religioso...

quer, é que os seus frequentadores ali do seu templo, da sua igreja, vivam bem, vivam felizes, vivam em paz e longe de violência. De alguma forma, esse discurso está levando a mais violência, isso precisa ser revisto também, porque eu acho que tem o preceito máximo da Bíblia, é amar os uns aos outros.

e não agredivos uns aos outros. Eu acho que, inclusive, os pastores, os líderes religiosos, aqueles comprometidos mesmo com a comunidade, já estão avaliando isso e já estão fazendo uma leitura dessa questão de uma forma mais adequada, de forma que eles não coloquem as mulheres da sua congregação, da sua igreja, enfim, em risco.

Eu me lembrei, inclusive, enquanto te ouvia falar do policial que mata a mulher, também policial, ele dizia que ele era o marido e ela devia obediência a ele. Quando ela desobedeceu, na visão dele, ele tirou a vida dessa mulher.

Mensagens extraídas no celular do oficial da Polícia Militar, Geraldo Neto, revelaram que ele humilhava a esposa Geraldo, cobrava até que ela deveria manter relações sexuais em troca de ele ser o provedor da casa. Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo. E isso não era um pedido. Ele deixou bem claro que era uma ordem quando disse Enquanto você estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito.

Eu cito isso porque as palavras têm um poder de propagação, de manutenção e de reforço de violência. E talvez seja isso que as pessoas que se dizem contra o feminismo, o feminismo nada mais é do que a luta por uma igualdade de direitos para os gêneros, que a mulher não seja subjugada pelo fato de ser mulher e de que o homem não a considere menor, enfim.

Então, eu cito esse caso como lembrança de que esse tipo de pensamento é um pensamento que mata e tem matado mais e mais mulheres aqui no Brasil. E essas próprias deputadas que questionam tanto e criticam tanto o movimento feminista, na verdade, só estão lá por conta do movimento feminista.

por conta do movimento sufragista inicialmente, que permitiu que as mulheres votassem depois que fossem votadas. Elas recebem os seus salários em uma conta corrente pessoal delas por conta do feminismo, porque até 1962 a mulher não podia ter uma conta bancária sem autorização do marido, elas não podiam nem ter um emprego sem autorização do marido. Então é um discurso bastante interessante, porque elas são contra, mas elas se beneficiam de toda essa luta.

Então, assim, vão lá vocês, façam a luta por mim, e depois eu venho por trás e me beneficio e ainda critico vocês, dizendo que o feminismo foi longe demais. Ainda morrem no Brasil quatro mulheres por dia. Nós estamos ainda atrasadíssimos. Essa legislação é uma legislação que a gente toma como um avanço civilizatório, mas, na verdade, a gente precisa de uma lei penal que diga...

Em 2026, que você não pode expressar ódio às mulheres em redes sociais ou no seu ambiente de trabalho, parece uma coisa absurda, né? Que a gente precise de uma legislação que diga isso. Então, a gente vê como um avanço, mas, ao mesmo tempo, é um avanço que mostra para a gente que, realmente, a gente ainda está muito atrasado em relação à igualdade de gênero. E as leis podem contribuir em alguma medida?

Mas há algo que transforma de maneira inequívoca que é a educação. Eu sempre digo no ar que a gente precisa aprender a criar meninos que não agridam e não sejam violentos. E aí é no verbo e no ato com meninas. Mas também é preciso criar meninas que não passem pano.

para qualquer tipo de violência de um menino contra ela, seja a violência da palavra que reproduz e faz a violência permanecer, e a violência física. Isso que você colocou é muito importante, porque só essa lei não vai também resolver o problema.

Assim como a lei do feminicídio não resolveu, assim como o aumento da pena do feminicídio não resolveu o problema do feminicídio. O problema da violência contra a mulher, basicamente, tem dois pilares grandes. O primeiro é o machismo estrutural, somos uma sociedade formada na base patriarcal machista. E o segundo é a desigualdade de gênero, que até hoje persiste. Até hoje, mulheres ganham menos do que homens.

Até hoje, mulheres são discriminadas no trabalho. Até no serviço público, chegou-se aí a pesquisa de que as mulheres ganham menos do que os homens. Então, esses dois pilares, eles precisam mudar para que a gente consiga enfrentar essa violência toda de gênero contra as mulheres. E a gente precisa trabalhar, então, na base deles. E a educação é aquilo que vai fazer com que a gente mude essa chave. Só que se a gente, ao invés de educar pela igualdade de gênero, a gente não tem feito isso, a gente permite que os meninos que a gente, às vezes, não tem feito isso.

acessem conteúdo que estimula a desigualdade, que estimula que eles são superiores, que as mulheres têm que ser submissas, aí essa conta não fecha mesmo. Que bom que nós temos agora mais esse instrumento legal para nós conseguirmos combater, por exemplo, todos esses grupos misóginos, misoginistas, enfim.

Mas é importante que a gente comece a falar de forma muito séria sobre educação nas escolas. As escolas precisam começar a explicar aos meninos e às meninas por que não existem mais esses papéis de gênero, por que mulheres hoje em dia trabalham e, portanto, homens têm que também dividir as tarefas da casa. São coisas que parecem...

pequenas, mas que refletem lá na frente nessa desigualdade e nessa desobediência ou nessa expectativa de obediência dos meninos. E é isso que a gente tem que combater. Nathalie, foi muito bom te ouvir, super explicativo, te desejo tudo de bom e um bom trabalho também.

Obrigada, eu que agradeço e dessa vez a gente acho que pode até dizer que a gente está comemorando um avanço, mas que seja um avanço e que ele traga realmente coisas boas para nós mulheres, porque nós estamos cansadas de morrer. É isso aí, muito obrigada doutora Natália, foi ótimo te ouvir, viu? Obrigadão. Obrigada você Natuzão.

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.

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